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#2201 - Alguns não deviam estranhar certos factos na cidade de Lima

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.03.17

 ALGUNS NÃO DEVERIAM ESTRANHAR CERTOS FACTOS NA CIDADE DE LIMA

 

Erny:

teu olhar é como um rifle belga automático

- ano 1936 - 

cheio de balas e um projéctil na culatra

para os dias húmidos na lembrança.

Para os lagos e o crespúculo.

Para os pequenos túmulos na berma das estradas.

A invasão do povoado palidamente sujo.

Para as cidades que adivinharam o meu regresso

Depois da madrugada, com a máquina fotográfica

com o seu olho eléctrico a descansar sobtre o abdómen.

Não é estranho para ti, velho Erny,

que és um búfalo à deriva num safari,

quando teu rosto sorri como o sol em Macchu Pichu,

ver-me a caminhar às margens do Rimac com uma bela

e suave mulher a escrever o seu nome em grandes combates

e sorri sempre das histórias que eu desconhecia,

a descobrir os factos quando as grandes

civilizações do seu sorriso revelavam acontecimentos.

Velho Erny,

apontavas o teu rifle entre a folhagem

às vezes vermelha, outras vezes violeta.

Nada é estranho para ti, velho corvo,

que me observas a correr em direcção ao mar próximo de Lima

e calar diante das ruínas que silenciam as coisas.

Algo assim como a pesca de atum perto da Florida

ou a caça em Bengala.

Nada é insólito para ti, que viu-me regreassar

a esta cidade sem razão aparente.

É óbvio que poderia amar

a adolescente durante o bombardeio de uma cidade

com corpos despedaçados.

Volto com a minha máquina fotográfica,

com a sua lente intacta na escuridão,

com o desejo cego de pássaros selvagens

que se arrojam em voo ao desconhecido.

Como a velharia que pensou esquecer

como se esquecem so desencontros e as indecisões

entre filmes de 35mm. E os fantasmas da fotossíntese.

Com temor não à dor

mas à inevitabilidade dos tornados que se formam na costa sul

e arrastam em confusão ódios e rancores,

árvores e algas marinhas.

Como os que afirmaram ser desta terra.

Com tua barba de feiticeiro,

és capaz de apontar com firmeza o rifle belga

do ano trinta e seis,

não ver os pássaros nem as nuvens de Kilimanjaro,

nem o relâmpago dos cantos de fúria das  minhas memórias,

manejas o gatilho como se colocasses um disco de Mozart,

puxas a trava da arma e tens consciência que a bala está na agulha,

sóbria e oculta,

como uma mulher no instante derradeiro do amor, no último

suspiro.

Sempre o mesmo facto. O compassado e eficaz acto

de accionar o gatilho, sentindo-se rei.

Porque agora meu caro Erny,

a terra se ergue como altas catapultas

rubras ou verdes ou violetas

sobre as escarpas íngremes que lamentam o mar

e o meu corpo a cair ao chão

ferido de sangue e solidão pelas águias  da noite.

 

POEMA DE MANUEL RUANO, POETA ARGENTINO

 

 

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publicado às 21:32



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