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#2177 - Epopeia de Guilgamesh (séc.XXV a. C.)

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.03.17

EPOPEIA DE GUILGAMESH

            (Excerto)

 

Quando os deuses criaram Guilgamesh

Shamash o Sol no zénite dotou-o de beleza incomparável

Adad, a tempestade, deu-lhe força invencível.

O toque do seu corpo não tem igual

A sua altura chega a onze côvados

O largo do seu peito são nove palmos

O longo do seu membro é três vezes nobre.

Nos terraços de Uruk, a das altas muralhas, o seu passo é soberbo

O embate das suas armas não encontra inimigo

Mas, ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem

Este Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai

Não respeita nenhuma donzela, seja filha de herói ou noiva prometida

Diante destas queixas intermináveis

Os deuses, os grandes deuses do céu

Falaram contra o senhor Guilgamesh

Criámos em Guilgamesh um touro desenfreado

O embate das suas armas não tem inimigo

Ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem

Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai

Ele, o pastor do seu povo, está a massacrá-lo

O rei  não respeita nenhuma donzela

Seja filha de herói ou noiva prometida.

Agora o grande Anu chma Aruru,

Senhora da Fertilidade:

Tu, Aruru, deixaste gerar Guilgamesh

Cria agora um que lhe seja igual no combate

Que lutem um com o outro e deixem Uruk em paz

 

Ouvindo isto Aruru invocou um soldado de Anu

Mergulhou as mãos na terra, colheu argila, escarrou nela e lançou aos desertos.

Assim nasceu Enki-Du, criatura do silêncio, parcela do Deus Ninurta,

O corpo rugoso o cabelo comprido luxurioso como o da mulher.

Um abundante velo espesso como o trigo

Era o seu pêlo, como o do Deus Samukan

E não conhecia cidades nem homens, nem terra cultivada

Com o onagro comia a erva da estepe

Com a gazela bebia a água da mina

Com a horda habitava o deserto

Esta era a sua única alegria

 

Poema sumério escrito no século XXV a.C. e traduzido por Mário Cesariny

 

______________________________________________________________________________________

 

A Epopeia de Gilgamesh
 
A Epopeia de Gilgamesh, composta em doze cantos com cerca de 300 versos cada um, é provavelmente o mais antigo texto literário escrito pelo homem, redigido em sumério, por volta do fim do terceiro milénio antes de Cristo. A Epopeia de Gilgamesh, preservada em placas de argila, com caracteres cuneiformes, foi encontrada numas ruínas na Mesopotâmia, cerca de 1890, altura em que foi decifrada. Este poema foi traduzido em diversas línguas, como o hitita, hurrita e semítico-acadiana, sendo a tradução mais completa e conhecida (data do século VII a. C. ), com cerca de 3000 a 3500 versos, a que pertencia à biblioteca de Assurbanipal - o último grande rei do Império Assírio.

Gilgamesh, cujo nome significa "o velho que rejuvenesce", foi rei da Suméria e fundador da cidade de Uruk (antiga cidade que se situava a 270 Km a sul de Bagdade) por volta de 2700 a.C. Segundo a lenda, tinha dois terços de origem divina, dado que era filho da deusa Ninsun e do sacerdote Lugalbanda. Distinguiu-se dos demais chefes das cidades da Suméria pela coragem e sucesso nas suas iniciativas. Nascia assim uma lenda que o tornou no protagonista de muitas aventuras maravilhosas que estão na origem desta epopeia, que começa da seguinte maneira: "Quero ao país dar a conhecer aquele que tudo viu, que conheceu os mares, que soube todas as coisas, que analisou o conjunto de todos os mistérios, Gilgamesh, o sábio universal que conheceu todas as coisas: ele viu as coisas secretas, trouxe o que estava escondido, e transmitiu-nos o saber mais antigo que o Dilúvio" (Tábua I, 1-6).

Chamado "Aquele que descobriu a origem" ou "Aquele que viu tudo", Gilgamesh era tido como sensato, mas também como despótico, cuja luxúria desmedida o fazia tomar qualquer mulher que lhe agradasse, solteira ou casada. O povo, descontente com o seu comportamento, apelou à deusa Aruru para que criasse um homem que o derrotasse em combate, devolvendo a paz à cidade. Aruru criou, a partir da lama, Enkidu que, criado no meio dos animais, se tornou tão temido que Gilgamesh resolveu enviar-lhe uma cortesã para seduzi-lo. Desprovido da sua inocência, Enkidu foi rejeitado pelos animais e convencido pela cortesã a acompanhá-la ao palácio de Gilgamesh. Entretanto o jovem rei tinha sido perturbado por um sonho no qual combatia um homem de grande força e invencível. Preocupado, Gilgamesh pediu conselho à mãe, a deusa Ninsun, "a que possuía todo o conhecimento", que lhe disse que o sonho significava que Enkidu se tornaria o seu melhor amigo, o que de facto aconteceu. Quando Enkidu chegou ao palácio e após um combate em que não houve vitorioso, Gilgamesh recebeu-o com amizade e Enkidu tornou-se no seu companheiro inseparável em muitas aventuras e batalhas.
 
Quando os heróis voltaram para Uruk, a deusa Ishtar confessou o seu amor a Gilgamesh, mas este rejeitou-a, provocando a sua ira. Ishtar enviou-lhe o Touro do Céu para matá-lo e destruir a cidade, mas o monstro foi derrotado e morto por Enkidu. Vingativa, Ishtar fez com que Enkidu ficasse doente e morresse ao fim de doze dias de agonia.
Desgostoso e confrontado com a angústia da morte, Gilgamesh procurou o sábio Uta-Napishtim para conhecer o segredo da sua imortalidade, pois este sobrevivera ao dilúvio e recebera dos deuses o dom da imortalidade. Depois de muitas aventuras e perigos, encontrou o sábio, que o demoveu de tal procura, dizendo-lhe que a morte era uma realidade incontornável. No entanto, desafiou-o a ficar acordado durante seis dias e sete noites, já que esse teste lhe daria a imortalidade. Gilgamesh, não conseguindo superar a prova, voltou para a sua terra, mantendo a sua condição de mortal. Antes da partida do jovem, Uta-Napishtim contou-lhe o segredo de uma planta que vivia no fundo do oceano e que devolvia a juventude a quem se picasse nos seus espinhos. Gilgamesh desceu ao fundo do oceano, colheu a planta e guardou-a para experimentar os seus poderes num velho da sua cidade, mas a planta foi-lhe roubada por uma cobra durante o regresso. Gilgamesh voltou a Uruk, onde ainda apavorado pelo medo da morte, evocou Enkidu, que lhe descreveu a sua vida no mundo das trevas. É com essa descrição que termina as aventuras de Gilgamesh.
Esta história épica surpreendeu e intrigou os estudiosos pela sua descrição do dilúvio tão semelhante ao da Bíblia.
 

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Texto explicativo retirado da IMFOPÉDIA, da Porto Editora

 

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publicado às 19:48



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