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#2137 - A IMBECILIDADE É UMA COISA SÉRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.01.17

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

 

A IMBECILIDADE É UMA COISA SÉRIA

 

"Intitula-se assim o último livro do filósofo italiano Maurizio Ferraris ("L'imbecillità è una cosa seria", il Mulino: 2016) e é uma leitura muito instrutiva, agora que a nova ignorância (ou a velha imbecilidade) se tornaram tema de conversa entre nós. Há uma proposição que percorre todo o ensaio de Ferraris e cuja ausência tem perturbado o debate português: a imbecilidade não é só a dos outros. De facto, ela não é detida em exclusivo por ninguém. A coisa seria mais simples se a pudéssemos descartar para cima das redes sociais ou sobre um determinado tipo de agentes que poluem o  espaço público com intervenções desqualificadas. Mas a verdade é esta: não há quem, investido de uma réstia de bom senso, seja em que profissão for, não se sinta frequentemente assaltado pela suspeita de ser um ignorante e de ver-se afundado no abismo da imbecilidade. A boa notícia é que a autoconsciência da ignorância nos pode abeirar da sabedoria, obrigando-nos nada menos que a um exercício permanente de humildade. Só os imbecis verdadeiros são um couraçado, completamente blindados na sua recusa de qualquer fumus imbecillitatis.

 

Deve dizer-se, porém, que a polémica da nova ignorância não é só o espirro de um intelectual inconformista. Ela coloca-nos dramaticamente nesta encruzilhada epocal que somos forçados a enfrentar. Um exemplo gritante e recente foi o modo como o advogado de Salah Abdeslam,  um dos responsáveis pelos atentados de 2015 em Paris, apresentou o seu cliente à comunicação social: "Trata-se de um cretino que tem a inteligência de cinzeiro vazio, que pensa viver dentro de videojogo e que, do Alcorão, leu somente algumas interpretações na internet." O mal, a terrível banalidade do mal, não é senão o triunfo da ignorância e da imbecilidade em toda a linha. O último debate aceso por  Umberto Eco, poucos meses antes da sua morte,  foi este comentário para memória futura: "As redes sociais concedem o direito de palavra a legiões de imbecis que antes falavam só no bar depois de um copo de vinho, sem danos para a coletividade. Vinham imediatamente remetidos ao silêncio enquanto agora têm o mesmo direito de palavra de um Prémio Nobel. Assistimos à invasão dos imbecis." O que nos está a acontecer? O tempo em que vivemos é marcado pelo fim das ideologias como regimes reguladores do espaço público e, em simultâneo, pela explosão de tecnologias que representam uma espécie de simplex para a tomada de posição individual. Como talvez em nenhuma outra estação da história se facilitou o nexo, para não dizer a fusão entre cultura pública e cultura individual, sem instâncias de mediação com suficiente poder moderador como seriam a escola, o ethos social ou as próprias civilidades.

 

Os desafios que daqui resultam são enormes e complexíssimos. Mas não devemos descorçoar. A razão de esperança mais significativa é mesmo aquela explorada por Maurizio Ferraris no seu ensaio. Como há uma parentela entre o sublime e o ridículo, pode colher-se um laço entre o espanto filosófico (aquilo que os gregos designavam como thaumazein) e a imbecilidade. A sátira ao sábio que cai num poço porque tem a cabeça nas nuvens relata isso. A imbecilidade é fonte de males, mas não só. Ela tem várias faces. Por um lado, cada um de nós deve uma parte de sua criatividade àquilo que outros podem ver como perda de tempo e imbecilidade pura. E, por outro, como conclui Ferraris, reconhecer a insuportável imbecilidade humana é uma via para transformar o mundo."

 

TEXTO DE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA IN "QUE COISA SÃO AS NUVENS", CRÓNICA SEMANAL QUE JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA PUBLICA NA REVISTA DO JORNAL EXPRESSO - EDIÇÃO 2308, 21 DE JANEIRO DE 2017

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publicado às 18:27



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