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#2131 - A Europa na Geografia da História

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.01.17

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 JOSÉ SARAMAGO

 

"A minha função aqui é muito simples. Sou o porteiro, sou o homem que abre a porta, e portanto, como um daqueles educados porteiros de outras épocas, abrirei a porta, afastar-me-ei para o lado e deixarei passar, com a vénia devida, os convidados que neste encontro têm efectivamente importância, isto é, o juiz Antonio di Pietro e Vasco Graça Moura, meu velho conhecido.

 

Não pareceria mal que porteiro tão atento como me prezo de ser perguntasse às pessoas a quem abriu a porta se fizeram boa viagem, se estão bem de saúde, se gostam de estar em Feira, etc.. Se não faço tais perguntas é apenas para encurtar razões, mas quero deixar claro que me sinto muito feliz por ter sido o porteiro deste  acontecimento e que pela porta que abri tenham entrado as duas pessoas a quem estou acompanhando nesta mesa. Propõem-se Antonio di Pietro e Vasco Graça Moura desenvolver um assunto à primeira vista algo intrigante, nada mais nada menos que Europa na Geografia da História. Que Europa, como qualquer outra região do mundo, seja Geografia e seja História, é uma obviedade demonstrável num sem-fim de mapas e livros, mas que possa ser observada e analisada de uma perspectiva que toma a História como coisa "geografável" (com perdão do neologismo), eis uma proposta capaz de excitar a mais renitente falta de curiosidade. Esperemos, portanto, que Antonio di Pietro e Vasco Graça Moura, eurodeputados ambos, bons conhecedores das malhas que Europa tece, nos iluminem os caminhos para um saber cuja falta se vai sentindo cada vez mais: um real conhecimento da Europa. Para esta Europa que nos puseram nas mãos ninguém nos pediu antes que contribuíssemos com a nossa razão e a nossa inteligência de cidadãos. Salvo alguma raríssima excepção, não se realizaram debates públicos nem referendos, não se ponderaram certezas, não se esclareceram dúvidas, Europa saiu da cabeça dos seus criadores com Atena da cabeça de Zeus: armada e equipada. Ou, talvez com maior rigor, como um fato pronto-a-vestir onde se esperava que se sentissem igualmente cómodos tanto os  altos como os baixos, tanto os gordos como os magros, tanto os pernaltas como os de perna curta. Pensava-se que era tudo uma questão de capacidade de aguante nosso e que, com o tempo e a rotina, nos acabaríamos por acostumar. Ora, sucede que são eles precisamente quem se está a aguentar mal. Algumas das ideias e dos projectos que fervem nos meios dirigentes da Europa dão francamente que pensar, como dariam que pensar acções de um aprendiz de feiticeiro incapaz de disciplinar e manter no bom caminho as forças que imprudentemente acaba de pôr em movimento. Não vou discutir o alargamento da Europa, não vou discutir a constituição em projecto, em parte porque me falta a necessária competência, em parte porque não devo esquecer que neste acto sou apenas o porteiro. O  que não me impede de pensar que Europa simplesmente não existe, ou não existe ainda. Há um lugar geográfico que recebeu o nome Europa, há  uma história a que chamamos europeia, e esse lugar e essa história foram, no passado, desgraçadamente, palco de ambições nacionais destrutivas e cenário de conflitos terríveis. O século XX propôs-se unir a Europa, mas o século XXI não veio encontrar unidos os europeus. Estou disposto a acreditar que a União Europeia não é uma mera associação de interesses preocupados em manter e prolongar um determinado sistema económico, mas preocupa-me a escassa atenção que se vem dando aos factores sociais, culturais e políticos, que, a persistir, poderá levar a que um dia vejamos países com regimes pré-fascistas, se não fascistas mesmo, numa União que faz gala em reger-se por princípios e valores democráticos. Visão pessimista, sem dúvida, mas não inteiramente destituída de razão de ser. Fico-me por aqui, eu sou apenas aquele que abriu a porta e agora vai apresentar os oradores do colóqui.

 

O juiz Antonio Di Pietro é conhecido por haver metido ombros ao décimo terceiro trabalho de Hércules, esse que teve o feliz nome de mani pulite, e digo feliz porque entre todas as coisas que necessitamos deveriam ocupar lugar principal as mãos limpas, um detergente ético que as lave, uma honradez que as mantenham imaculadas. Antonio Di Pietro, que é agora um político, não esqueceu, não pode ter esquecido o que foi essa admirável odisseia nem por que acabou por sair dela vencido. O sistema, aparentemente derrotado, contra-atacou e expulsou-o do campo de batalha. A Itália de hoje não é um espelho em que um italiano honesto tenha prazer em contemplar-se. Será preciso voltar outra vez à luta pela igualdade, pela justiça, pela limpeza moral, essa santíssima trindade que guiou Antonio di Pietro quando juiz.

 

Quanto a Vasco Graça Moura, embora seja legítimo considerar que esta minha observação vem fora de propósito, não resisito a dizer que existem entre nós conflitos resultantes de diferenças e oposições, e mesmo uma certa impaciência mútua, que é quando cada um pergunta como e porquê o outro continua a pensar o que pensa. Fechado este parêntesis, creio que a Vasco Graça e Moura assenta bem o qualificativo de homem dos sete ofícios, expressão que certamente não se usava em Itália na época do Renascimento, mas que, pensando bem, se podia aplicar a artistas que eram, muitas vezes, ao memo tempo, arquitectos, escultores, pintores e poetas. Digamos então que a Vasco Graça Moura, pela diversidade e qualidade de ofícios que pratica, o  anima o espírito renascentista. É poeta, ensaísta, romancista, tradutor, e se até este momento só estou contando quatro ofícios, não duvido que ele poderá, se quiser, acrescentar os três ofícios que faltam e talvez  alguns mais.

 

Foi para mim uma grande satisfação ter-me sido proporcionada a ocasião de apresentar os nossos convidados, mas não é menor a satisfação de me encontrar em Feira, no coração do que no passado se chamou Terra de Santa Maria, nesta cidade de dez mil habitantes onde há uma orquestra sinfónica juvenil com 120 músicos que actuam com regularidade, onde há uma biblioteca que tem treze mil inscritos, o que faria pensar que o autor do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não foi quem julgávamos, ou então que nesta cidade de Feira as pessoas são inscritas como leitores mesmo antes de terem nascido... A verdadeira explicação é outra, claro está, são pessoas da região que, vivendo fora da cidade, utilizam os serviços da biblioteca. Tudo isto nos dá uma impressão de refrescante vitalidade cultural que, infelizmente, não é regra no nosso país.

 

E agora termino. Durante muitos anos andaram a querer convencer-nos de que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, o que, se repararmos bem, era uma maneira de nos dizer que estivéssemos calados. Pois eu dir-vos-eis que a palavra é que é de ouro,e que o silêncio, muitas vezes, nem a prata chega. Portanto, quando chegar a hora de falar, e estou a dirigir-me particularmente aos jovens, façam-nos o favor de perguntar, de duvidar, de interpelar. Perguntem o que é isso da História e para que serve, se é apenas um conto que nos contam para que o vamos repetindo, ou se é algo vivo

que devemos questionar? E a Geografia? Nos últimos anos as fronteiras da Europa levaram um sopro que varreu tudo. Talvez seja preciso repor algumas coisas nos seus lugares, enfrentando o problema de que perdemos o sentido do lugar das coisas. Essa é a grande questão europeia, não saber onde estão os lugares das coisas.

 

Muito obrigado. Passo a palavra a Antonio Di Pietro e a Vasco Graça Moura.

 

Eles que falem."

 

INTERVENÇÃO DE JOSÉ SARAMAGO NO SIMPÓSIO SETE SÓIS SETE LUAS SOB O TEMA "A EUROPA NA GEOGRAFIA DA HISTÓRIA" QUE TEVE LUGAR NO ANO DE 2002 NO AUDITÓRIO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SANTA MARIA DA FEIRA E COMO CONFERENCISTAS JOSÉ SARAMAGO, ANTONIO DI PIETRO E VASCO GRAÇA MOURA E COMO MODERADOR CARLOS MAGNO.

 

 

 

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publicado às 18:58


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