Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




António Lobo Antunes

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente
António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente

 

Revista BRAVO! | Junho/2009

Crítica - Lobo e seus Demônios

Em seu novo romance, “Meu Nome É Legião”, Lobo Antunes expressa em múltiplas vozes a violência de um Portugal periférico na União Europeia

Por Jefferson Del Rios

 

António Lobo Antunes não deixa por menos: o "legião" do título de seu novo romance é o nome dos espíritos malignos dentro de um homem citado no Evangelho de São Lucas. Na história atual, o mal se traduz em delinquência e ódio racial, em vidas medíocres sob a violência que se esparrama por Lisboa. O escritor português, uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, em julho, nunca deixou por menos. Começou quando, estarrecido com as guerras coloniais, estreou com Os Cus de Judas (1979), expressão chã que definia os soldados portugueses que se danavam, matando e morrendo em Angola, Moçambique e Guiné. Psiquiatra, Lobo Antunes serviu entre 1970 e 1973 como médico militar em Angola, onde teve de colocar de lado os problemas da mente para costurar jovens rasgados pela metralha. Na volta a Lisboa, acerta contas com o passado, cujos resquícios perduram, de maneira tacanha, em Portugal.

Além de Os Cus de Judas, reviu a história lusitana em obras provocadoras como Conhecimento do Inferno, Fado Alexandrino, Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal. Nesses livros, deixou de lado a linearidade da escrita em favor de enredos superpostos com cortes bruscos no tempo e espaço. A opção gerou encanto e polêmica. Há, mesmo entre seus admiradores, os que temem ter Lobo Antunes começado a abusar desse, digamos, experimentalismo. Mas ele se mantém irredutível a achar que escreve fácil. Agora avança sobre a atualidade portuguesa do euro, uma nova periferia com novas barbáries.

 

MEMÓRIAS FRAGMENTADAS
Em Meu Nome É Legião, uma gangue de brancos, mestiços e um negro pratica roubos violentos, numa vertigem de cenas cruéis — como arrancar a frio o aparelho dos dentes de um adolescente. A elas, misturam-se delírios — ossos de cemitério, cano de arma, carros em alta velocidade. Os acontecimentos são narrados por múltiplas vozes, sobretudo as dos extremos da ação: o policial deprimido numa rotina de misérias e os agressores, pequenos bandidos de 12 a 19 anos. O escritor joga com a fragmentação da memória: como a dos psicóticos, a dos soldados feridos e em pânico de Os Cus de Judas e, por que não?, a nossa, prosaicos leitores.

Sobre, ou sob, esse caos percebe-se, implícito e firme, o conhecimento que Lobo Antunes tem dessa gente. Se no geral seus romances são históricos e sociais, nem por isso deixam de ser algo como um gesto, íntimo e final, de compreensão cética de uma realidade em que as verdades absolutas são tão vãs como ter saudade do passado mítico de um país que não volta mais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:15



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog




Links

Outras Foleirices

Comunicação Social

Lugares de culto e cultura

Dicionários

Mapas

Editoras

FUNDAÇÕES

Revistas