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Seis Poemas de José Craveirinha

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09


 

BLASFÉMIA


No relicário que te acolhe

é-me angustioiso supor

o labor das areias

na madeira.


E meu pesadelo dos pesadelos

a iconoclasta muchém

no afã da sua lavra

orgiando-se voraz.


Blasfémia suprema

o festim.


O COVAL


Excêntrica

é a minha indignada

mesquinha forma de sofrer.


Lúcido

eu a desencher o mundo

tapando-me no mesmo coval.


MONOGRAMA


A sotavento da face

colar aquoso

se desfia


E

em sua fímbria macia

meu lenço azul-escuro

discreto humedece

o monograma

Jota

Cê.


Colar

que se desfia

no próprio lapso.


GUMES DE NÉVOA


Lágrimas?


Ou apenas dois intoleráveis

ardentes gumes de névoa

acutilando-me cara abaixo?


O SACRÁRIO


A ausência do corpo.

Amor absoluto.


Hossanas de sol.

De chuva.

De brisa.

E de andorinhas

resvalando as asas

no ombro de uma nuvem.


Com uma hérbia mantilha

por cima velando

o teu sacrário.


SILEPSES


Ajustadas ao comprido as ripas

esfarelando-se devagarinho

por entre minuciosos

dedilhos de terra.


E

em melancólicas silepses

conspícuas gralhas versejam

extemporâneas férias

da Maria.


Poemas publicados na "Colóquio Letras" n.º 110-111, Julho-Outubro de 1989


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publicado às 18:17


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