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#3096 - ALUCINAÇÃO ||| POEMA DE JOSÉ HIERRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.20

JOSÉ HIERRO  (1922-2002)

 

ALUCINAÇÃO

 

      Amanhece. Saí descalço a pisar os caminhos,

a sentir a geada em minha carne nua.

Tanta luz, tanta vida, tão verde canto da erva!

Tão feliz criação erguida ao mais alto cume!

Sinto o tempo passar e perder-se e só fora de mim se detém.

E o universo parece que está  encantado, tocado pela graça.

Tantas coisas eternas que ao tempo estragam sua trágica espada!

Tanta luz, caminhos tão abertos!

Tanta vida que evita os séculos e no dia   sua magia ordena!

 

      Se a flor, se a pedra, se a árvore, se o pássaro;

se seu olor, sua dureza, seu verde arquejo, seu voo entre o céu e o ramo.

Se todos me devem sua vida, se à minha custa, da minha morte sua vida é possível,

à minha custa, da minha morte diária...

 

      Tanta luz, tão remoto pulsar da erva...!

(Saí descalço a sentir a geada em minha carne nua.)

Tanta luz, tão escura pergunta!

Tão escura e difícil palavra!

Tão confuso e difícil buscar, pretender compreender e aceitar,

e para o que não pára nunca...

 

Poema do poeta espanhol José Hierro traduzido por José Bento

 

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BIOGRAFIA

 

José Hierro del Real. (Madrid, 3 de abril de 1922-21 de diciembre de 2002). Poeta español, crítico de arte y académico de la Real Academia de la Lengua.

Su familia se traslada a Santander siendo niño y allí estudia la carrera de perito industrial, que tuvo que interrumpir en 1936. Su primer poema, Una bala le ha matado, aparece publicado en 1937.

Al finalizar la Guerra Civil es detenido y procesado. Permanece en la cárcel hasta 1944 y allí empieza a interesarse de forma sistemática por la literatura, apareciendo ya en sus primeros escritos diversos hechos vividos durante la contienda.

Cuando sale de prisión se traslada a Valencia, donde se dedica a escribir, colabora en un diccionario mitológico y, junto a José Luis Hidalgo, participa en la fundación de la revista Corcel. En 1944 realiza la primera crítica pictórica sobre la obra de Benito Ciruelos.

Durante los años 40 vuelve a Santander y, además de trabajar en diferentes oficios, colabora en la revista de la Cámara de Comercio, donde escribe sobre economía y sobre los hombres ilustres de la industria cántabra.

En 1946 se relaciona con el renovador grupo "Proel", editor de la revista poética del mismo nombre en la que publica su primer libro de poemas, Tierra sin nosotros, en 1947.

En 1950 escribe Con las piedras, con el viento y en 1953 aparece Antología poética, una amplia selección de su obra lírica.

Durante esa época fija su residencia en Madrid, donde comienza a trabajar en Radio Nacional de España, además de realizar crítica de arte y colaborar en revistas y periódicos.

En 1954 edita Estatuas yacentes y en 1962 el volumen Poesías completas.

Durante las décadas siguientes continúa creando poesía, participa en actividades literarias, realiza crítica de arte analizando la obra de artistas del campo de la pintura y de la escultura, y forma parte de numerosos jurados literarios. Pronuncia gran número de conferencias sobre poesía y arte en la mayoría de las capitales europeas y sus poemas figuran en las más destacadas antologías de poesía contemporánea.

Está  considerado como una de las voces más representativas de la poesía social de posguerra.

 

FONTE DA BIOGRAFIA: INSTITUTO CERVANTES

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publicado às 12:30


#3095 - PARA QUE SERVE UM SEMÁFORO NA GRANDE CIDADE VAZIA...

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.20

O corpo tem um barco à deriva

perdido

completamente cego

com pétalas vermelhas agarradas  aos olhos como

escamas arrepiadas na pele do peixe aprisionado

na armadilha da rede.

 

Para que serve, então,  um semáforo na grande cidade vazia?

 

O barco enjoa e vomita o medo e as pétalas choram os mortos

engolidos por algas negras de olhos medonhos.

 

A cidade está vazia.

Para que serve o semáforo?

 

A brisa está parada

A respiração suspensa

à espera... à espera

e o silêncio tem um cheiro de morte.

 

Para que serve o semáforo na grande cidade vazia?

 

Talvez a esperança de o barco encontrar o seu porto de abrigo?

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publicado às 10:59


#3094 - POEMA DIDÁCTICO ||| POEMA DE PAULO MENDES CAMPOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.20

PAULO MENDES CAMPOS (1922-1991) |||  BRASIL

 

POEMA DIDÁCTICO

 

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo

Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.

Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos

Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.

 

No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,

Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,

Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,

Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,

Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,

Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria

Que se deita sobre a cidade, olhabdo a ferrovia, a fábrica,

E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.

Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,

Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio

E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?

 

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante

Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio

Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.

Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.

Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.

E não olhei a ferrovia - mas o homem que sangrou na ferrovia -

E não olhei a fábrica - mas o homem que se consumiu na fábrica -

E não olhei mais a estrela - mas o rosto que reflectiu o seu fulgor.

Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?

O mundo, companheiro, decerto não é um desenho

De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)

Mas um desencontro de frustrações em combate.

Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem

- cabeça, tronco, membros, aspirações e bem-estar...

 

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.

Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética

Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa

Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.

O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,

Não filtraria no escuro um homem inconsequente,

Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem

É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo -

Se podemos admiti-lo - não se redime em injustiça.

 

Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo

Entre os filhos da terra. Força - aos que o herdaram -

É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,

Quando ainda sofria sobre armações metálicas do mundo,

Acuado como um cão metafísico, eu gania para  a eternidade,

Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,

A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.

Por isso, agora, organizei  meu sofrimento ao sofrimento

De todos: se multipliquei a minha dor,

Também multipliquei a minha esperança.

 

POEMA DO POETA BRASILEIRO PAULO MENDES CAMPOS

 

 

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publicado às 09:53


#3093 -

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.20

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publicado às 11:59


#3092 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.20

A palavra procura o seu sentido como:

A chama o pavio da vela

O velame o vento

Os olhos outros olhos

Os lábios outras bocas

A verdade em agonia uma certeza

O gato em passos de dança  o pássaro desprevenido

O imbecil outro imbecil outro imbecil a bofetada na inteligência

O ridículo exibicionista a celebrar a ignorância

 

E eu o que procuro?

 

A paz a pomba que já não voa

A Páscoa os ramos de oliveira

A normalidade dos dias mansos nesta incerteza

 

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publicado às 10:50


#3091 - DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO ||| POEMA DE JULIO CORTÁZAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

JULIO CORTÁZAR (1914 -1984)

 

DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO

 

Cada vez são mais os que crêem menos

Nas coisas que preencheram as nossas vidas,

Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,

O verbo, a pomba sobre a arca da História,

A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

 

Nem por isso caem do céu do neófito

Na ciência que expõe máquinas na lua;

Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard

Faça transplantes do coração

Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um

Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida

Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

 

 Cada vez são mais os que crêem menos

Na utilização do humanismo

Para o nirvana estereofónico

De mandarins e estetas.

 

Sem que isto queira significar

Que quando houver um instante de inspiração

Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,

Ou se vislumbre os trémulos anjos

De Angélico.

 

POEMA DE JULIO CORTÁZAR TRADUZIDO POR  JORGE HENRIQUE  BASTOS

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BIOGRAFIA

Escritor argentino, Julio Cortazár nasceu a 26 de agosto de 1914, em Bruxelas, na Bélgica, durante uma viagem de negócios empreendida pelos seus pais. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires, onde Cortázar veio a estudar, obtendo, em 1935, habilitações como professor do ensino secundário pela Escuela Normal de Professores Mariano Acosta. Ingressou depois na Universidade de Buenos Aires e deu aulas nas escolas secundárias de Bolívar, de Chivilcoy e de Mendonza.
Em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Universidade de Cuyo, em Mendonza, onde se envolveu numa manifestação contra a política populista e sindicalista de Juan Domingo Peron, pelo que foi encarcerado. Posto em liberdade pouco tempo depois, viu, no entanto, vedada a sua carreira académica. Assumiu então, e em 1946, a direção de uma editora em Buenos Aires, funções que desempenhou até 1948, altura em que completou a sua licenciatura em Direito e Línguas. Cortázar passou então a trabalhar como tradutor.
Em 1949 publicou a sua primeira obra digna de interesse, Los Reyes, um longo poema narrativo em que utilizava arquétipos como o Minotauro e o Labirinto de Creta. Em 1951, época em que o regime de Peron se estabelecia como ditadura, publicou numa revista mantida por Jorge Luis Borges, a Los Anales de Buenos Aires, a sua primeira coletânea de contos, com o título Bestiário (1951).
Nesse mesmo ano, e em resultado das perseguições que lhe foram movidas, o autor optou pelo exílio, mudando para Paris, cidade que não mais abandonaria. A partir de 1952 passou a trabalhar para a UNESCO como tradutor independente.
Continuou a publicar coletâneas de contos, como Final de Juego (1956), Las Armas Secretas (1959), obra que viria a ser adaptada para cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni, com o título Blow Up, em 1966. Em 1960 consagrou-se também como romancista, com o aparecimento de Los Premios, obra em que contava o rumo de um grupo de pessoas que ganham como prémio de lotaria um cruzeiro-surpresa. O seu romance mais conhecido, Rayuela, seria publicado em 1963. A obra, original e imaginativa, influenciou significativamente a literatura da América Latina.
Em 1973 empreendeu uma longa viagem pela América do Sul, visitando países como o Peru, o Equador, o Chile e a Argentina, como investigador das violações dos direitos humanos no continente, apoiando, com os ganhos resultantes da venda das suas obras, os Sandinistas e as famílias de prisioneiros políticos.
Em 1975 lecionou, como professor convidado, nas Universidades de Oklahoma e do Barnard College de Nova Iorque. Em 1981 tomou a nacionalidade francesa e, dois anos depois, foi-lhe autorizado visitar de novo a Argentina.
Faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris. Embora seja geralmente aceite como causa da sua morte uma leucemia, existe também a opinião de que o autor tenha sido vítima de SIDA, nesse tempo ainda não diagnosticável.
 
Fonte da Biografia: BERTRAND

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publicado às 19:13


#3090 - AS VOZES TRISTES ||| POEMA DE RICARDO JAIMES FREYRE

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.03.20

RICARDO JAIMES FREYRE (1868-1933)

 

AS VOZES TRISTES

 

      Pelas brancas estepes

vai o trenó ligeiro;

distantes, os uivos dos lobos

unem-se aos cães em seu resfolêgo denso.

 

      Neva.

Dir-se-ia que o espaço se envolvera num véu,

recamado  de lírios

pelas asas do nordeste.

 

      O infinito branco...

Sobre o vasto deserto

voga uma vaga sensação de angústia,

de supremo abandono, fundo e sombrio desalento.

 

      Um pinheiro sozinho

ao longe é um desenho,

num fundo de brumas e de neve,

como esguio esqueleto.

 

      Entre os dois sudários

da terra e do céu,

avança no Nascente

o gelado crepúsculo de Inverno...

 

Poema do poeta Boliviano Ricardo Jaimes Freyre.

Jossé Bento traduziu

 

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publicado às 18:31


#3089 - O TEMPO CONCRETO ||| POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.03.20

O TEMPO CONCRETO

 

O tempo duro

com estas unhas de pedra

este hálito pobre

de órgãos esfomeados

estas quatro paredes de cinza e álcool

este rio negro correndo nas noites como um esgoto

 

O tempo magro

em que minhas mãos divididas

nitidamente separadas e caídas

ao longo dum corpo de cansaço

pedem o precipício a hecatombe clara

o acontecimento decisivo

 

O tempo fecundo

dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres

repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias

das ruas agrestes e pequenas da mágoa

familiar e precisa como uma esmola certa

 

O tempo escuro

da peste consentida do vício proclamado

da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos

da fome concreta dum sonho proibido

e do sabor amargo dum remorso invisível

 

O tempo ausente

dos olhos dum desejo de claras cidades

em que acenamos perdidos às soluções erguidas

com vozes bem distintas de cadáveres opressores

com gritos sufocados de problemas supostos

 

O tempo presente

das circunstâncias ferozes que erguem muros reais

dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos

das anedotas contadas num outro mundo de cafés

e das vidas dos outros sempre fracassadas

 

O tempo dos sonhos

sem coragem para poder vivê-los

com muralhas de mortos que não querem morrer

com razões de mais para poder viver

com uma força tão grande que temos de abafar

no fragor dos versos disfarçados

 

O tempo implacável

em que juramos de pé viver até ao fim

maiores dos que nós ser todo o grito nu

pureza conquistada no seio da vida impura

um raio de sol de sangue na face devastada

 

O tempo das palavras

numa circulação sombria como um poço

de ecos incontrolados

de timbres inesperados

como moedas de sangue cunhadas numa noite

demasiado curta e com luar de mais

 

O tempo impessoal

em que fingimos ter um destino qualquer

para que nos conheçam os amigos forçados

para que nós próprios nos sintamos humanos

e este fardo de trevas esta dor sem limites

a possamos levar numa mala portátil

 

O tempo do silêncio

em que o riso postiço dos fregueses da vida

finge ignorá-lo enquanto soluçamos

de raiva de razão reprimida revolta

e os senhores de bom senso passeiam divertidos

 

O tempo da razão

(e não da fantasia)

em que os versos são soldados comprimidos

que guardam as armas dentro do coração

que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue

a tinta de escrever duma nova canção

 

poema de antónio ramos rosa

 

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publicado às 12:40


#3088 - O ÚLTIMO INSTANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.03.20

 

 Quando a luz se torna sombra e encontra

a primeira respiração da noite

o silêncio invisível nocturno invade os corpos

estendidos sobre as partículas das últimas palavras ditas

os  dedos agarram-se às explicações e significados

dadas por máscaras que escondem o medo

e os olhos estabelecem o limite daquilo que o corpo pode suportar

quando chegar

o momento dos sussurros de canções

ouvidas na infância

cantadas para apaziguar o medo

do último instante de luz

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publicado às 10:32


#3087 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.20

Assimilando a árvore a borboleta e os gatos

no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho

com a saliva do  calor e os escuros fragmentos

regresso à lentidão de um baile a um violoncelo

tocado por um gnomo sobre um telhado de metal

Trago uma lâmpada de orvalho para  atravessar o abismo

e um pássaro adormecido sobre uma folha verde

Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua

mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis

entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor

Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes

enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram

Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada

e na fragrância do arco quando a consistência

é a bondade que flui entre os cornos da dança

Atravesso os murmúrios disfarçados ou os símbolos

que alçam as lânguidas cabeças submersas

até que os signos os alcancem e os respirem

Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras

Escondo-me num olho e voo dentro da sombra

Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes

Sedento movo as paredes na ternura da água

Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas

enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água

Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza

Os conceitos suspiram entre a língua das flores

Guitarra e musgo e tempo acariciado

perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas

Mulheres com sombrinhas descalças sobre a praia

o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias

Coloco a mão na âncora deste ritmo

O sangue penetra a garganta o sangue das flautas

e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso

que é um orgão do sol e um violino da lua

De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela

uma água enigmática desliza entre carícias

Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria

e o corpo saboreia o horizontal relâmpago

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA 

 

 

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publicado às 20:52


#3086 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.03.20

O eco que perturba o corpo

e acorda o medo invisível 

que habita os esconderijos da pele

e uma luz bacenta derrama sobre os teus pés

lágrimas silenciosas,

enquanto o corpo,

já despido

roça nas paredes da memória

para apagar cicatrizes antigas tatuadas

no coração da alma. 

 

Sobre a mesa rude e despida

os olhos desenham no corpo do pó imagens que julgavas esquecidas

mas

que a tua mão guardou na memória dos dedos os gestos

dramáticos e teatrais das borboletas e

dos corações com "AMO-TE, MAMÃ",

que na infância desenhavas em brancas e desertas folhas de papel

e, assim amordaçavas o eco

e iluminavas a luz.

             

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publicado às 11:47


#3085 - UM PONTO ||| POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.03.20

 

UM PONTO

 

Um ponto - talvez um centro

em permanência de tranquilidade

para a noite inteira. Um ponto

extremo, interno. Um pequeníssimo ponto

invulnerável

de estabilidade total

- nascido como? - fruto do espaço limpo,

de aberta aderência nua ao ar,

de contância livre, desocupada,

do descanso de ser até ao fundo simples,

de completa entrega?

 

Um ponto nu inabitado branco

de intocável serenidade,

fixo como um nervo e imponderável,

de fim inicial,

ponto de respiração,

clareira de estar,

abertura central viva

praia de ser e nada

- mas apenas um ponto, um puro ponto

contra a noite inteira,

contra o frio,

contra a destruição.

 

Ponto de união

de paz coextensa à noite,

opaco e diáfono nó

do desenlace perfeito.

Nó de água

da água mais nua.

Ninho interno do espaço.

Pequena lua essencial

num horizonte de segua paz.

 

Ponto, em ti descanso,

certeza do mundo e de mim

em ti, dentro da noite,

atinjo o equilíbrio actual e puro.

Ponto, antes do início,

de ti a ti, em mim,

pulsação lisa e leve,

suave motor da terra,

a pacífica respiração do oásis.

 

Ponto

de universo fixado

onde atingi a consistência dócil

de permanecer entrgue,

plenitude abrigada

na navegação nocturna.

 

Um ponto vazio,

plenamente vazio.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN "ANTOLOGIA POÉTICA", EDIÇÃO PUBLICAÇÕES D. QUIXOTE, 2001, COM PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

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Biografia

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 
A crescente importância que a actividade literária foi tomando na sua vida levou-o a certa altura a abandonar o emprego no escritório em que trabalhava, para a ela se dedicar exclusivamente, com todas as consequências que tal decisão acarretava.
 
 

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publicado às 16:42


#3084 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.03.20

O poder devastador de um "bichinho" microscópico que consegue, de forma cínica, pôr a nú as fragilidades, os valores, a arrogância e o "poder" da humanidade, e revelando quanto somos estúpidos ao pensar que a nossa inteligência - ou a falta dela - faz de nós os donos e senhores do planeta.

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publicado às 16:18


#3083 - Le temps qui reste

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.20

 

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publicado às 23:51


#3082 - FELIZ ANIVERSÁRIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.20

Para a minha mulher... feliz aniversário

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publicado às 23:33


#3081 - FRANZ KAFKA ||| POEMA DE WILLIAM OSPINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.20

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FRANZ KAFKA

 

Pai, digo-lhe, dá-me três grãos de cevada para despertar o adormecido.

Mas meu pai não responde:

é um enorme cavalo de bronze, alto sobre colinas e sinagogas.

Mãe, digo-lhe, afasta tanta névoa,

mostra-me um rosto doce, de onde brotem palavras ingénuas.

Mas ela perdeu-se pelos becos de pedra

e só encontro no espelho os seus olhos imensos.

Avô, digo então, já não lutes mais com o anjo,

vem contar-me histórias, junto ao ninho, enquanto gela o Elba.

Mas o velho olha-me com olhos ausentes, e  compreendo

que não é este o meu avô mas um velho cigano que me quer vender uma recordação.

Irmã, bela irmã, digo-lhe,

toma a minha mão pois faz escuro nesta casa imensa.

Mas ao meu lado passa uma condessa polaca monumental e arrogante

e ouve-se um violino, e fecha-se uma porta.

Irmão, digo, que belo cavalgar sobre o cavalinho de pau e de laca,

para onde nos levam estas tardes incertas?

Mas ele é só uma imagem, uma fotografia cinzenta nas minhas mãos,

e ao longe, atrozes, os canhões ressoam.

Goethe, digo-lhe, canta-me uma canção romana,

faz com que eu sinta no meu coração esta antiga tristeza.

Mas a lousa cala-se e sobre ela voam pombas cinzentas

e não posso abrir este livro porque as páginas são de cinza.

Milena, digo logo, talvez possas tu finalmente salvar-me,

diz-me que sou de carne e de sangue, que isto que me aflige é um desejo.

Mas ela faz-se fantasma entre milhares de seres esquálidos

e apenas apercebo duas chamas que se apagam muito longe.

 

Então é delírio tudo isto? A quem posso chamar que me salve?

O seu reino é deste mundo. Todos estão aceites e absolvidos.

São demasiado humanos, são demasiado justos,

e não consigo falar-lhes com o meu estrondo de élitros..

E não aprendi a atravessar as portas,

e não sei defender-me.

Se vires dois olhos cinzentos de gato na gótica noite de Praga

compreenderás que tento saber onde me encontro.

Se ouvires um coração na gótica noite de Praga

compreenderás quem sustenta todo este sonho.

 

Poema de William Ospina, do livro "Um país que sonha - cem anos de poesia colombiana", edição 1512, Março de 2012

 

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publicado às 18:00

NATÉRCIA FREIRE   |||   1919-2004

PARA O INSTANTE DE NOS PERDERMOS

 

Para o instante de nos perdermos,

estão soando já todos os sinos do Mundo!

E as sereias, no mar, se impacientamm

de nevoeiros sem fim.

Como será?...

Morrerei longe de ti?

Dir-me-ás adeus numa gare escura e fria 

ou partirás, de neve, entre a luz da manhã,

enlutada e viúva do clarão dos teus olhos?

 

Como será...?

Todas as aves que soltamos no sonho

estão suspensas no bronze, dessa música triste.

Todas as veredas que sulcamos, sem corpo,

vestem cinza e poeira de incêndios e de sóis...

Como será?

Pergunto aos ventos todos,

às aves e às alturas

e nada me responde!

 

Porque o instante de nos perdermos

será mais negro que o apagar do sol;

mais triste que o desabar dos mundos;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as crianças

nos berços feitos de astros;

mais dorido e desolado

que a morte de todas as flores

em todos os jardins e campos da Terra.

 

Todos os amorosos mortos

estão chorando nos túmulos o instante de nos perdermos

e tecem, à nossa volta,

esta sede, esta dor, esta infinita procura

de todas as vidas que em nós brotam e se ocultam

em cada minuto de paixão.

 

São as suas vozes que vibram nos nossos ouvidos

e nos roçam, na pele, um vento de perdição.

É a recordação das suas  penas

que nos ensina a fundir melhor

as nossas almas de Deus.

É o tormento dos seus amores sem braços

que alucina o instante de todas as ausências.

É a dor, é a dor de saber que somos mortais,

com o infinito no peito

e séculos de pedra sobre a poeira que somos!

 

São as suas vozes de séculos que nos ensinam a luz.

São as suas lágrimas de séculos que nos humedecem os olhos  enternecidos.

 

São as  suas bocas desenhadas no espaço,

inatigíveis, fugazes, que nos sugerem o desejo

do beijo mais profundo, mais profundo.

São as suas mãos desfeitas e voláteis

que estão fazendo soar já, na tarde silenciosa,

para o instante de nos perdermos,

todos, todos os sinos do Mundo!

 

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Natércia Freire

Escritora portuguesa nascida em 1920, em Benavente, e falecida a 19 de dezembro de 2004. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Dirigiu o suplemento literário "Artes e Letras" do Diário de Notícias e colaborou em publicações diversas e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Iniciou-se como decente na escola primária em 1944. Foi convidada para a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que se tornou membro, de 1971 a 1974.
Revelou-se na poesia em 1939 com a coletânea Meu Caminho de Luz. Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por Rio Infindável em 1947 e Anel de Sete Pedras em 1952), Ricardo Malheiros (1955) e Nacional de Poesia (1972), este último pela obra Os Intrusos. Da sua vasta obra destacam-se ainda Horizonte Fechado (1942) e os contos de A Alma da Velha Casa (1945).
 
FONTE INFOPÉDIA

 

POEMA DE NATÉRCIA FREIRE IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO QUASI EDIÇOES, JUNHO DE 2006, COM EDIÇÃO E NOTAS DE PEDRO SENA-LINO E PREFÁCIO DE MARIA GABRIELA LLANSOL                                                

 

 

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#3079 - um desenhador de peixes ||| poema de Charles Bukowski

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.03.20

um desenhador de peixes

 

ele não parava de desenhar peixes

em papéis

e eu disse:

Jack, o que é que se passa?

mas ele não respondia

e a mulher dele disse

não há meio de ele procurar emprego

é isso que se passa

e eu tenho de tomar conta

dos putos; não sei

como é que vamos

fazer esta merda.

 

ele não parava de desenhar peixes

em papéis

e nem bêbedo estava.

 

fui à rua e trouxe 2

garrafas de vinho

e a patroa dele

encheu os copos.

 

e o Jack bebeu o dele

depois praguejou: esta

esferográfica fica sempre

sem tinta

quando estou mesmo no ponto crucial,

no cerne, quando estou

finalmente a arder

na cera imbecil do fogo...

 

atirou a caneta

para uma saco de papel cheio de garrafas vazias,

latas de sardinha e

de feijão vazias, vestiu o casaco

e saiu.

 

para onde é que ele vai?

perguntei.

 

estou-me nas tintas

para onde ele vai,

disse a patroa dele.

depois levantou o vestido

e mostrou-me as pernas;

eram bastante boas, eu

sempre fui um gajo de pernas

mas dirigi-me ao armário

e vesti o casaco.

 

onde é que vais? perguntou ela.

 

vou procurar emprego,

disse-lhe,

há um anúncio no Times,

precisam de porteiros

no novo edifício Fleischman.

 

desci os degraus

e andei meio quarteirão para norte

até ao bar mais próximo.

 

O jack estava lá sentado.

 

Não sei, disse ele,

acho que me vou

matar.

 

não faz mal, disse eu,

isso vai acontecer

de qualquer modo.

 

ficámos ali sentados o resto da tarde

a beber

e por volta das 7 da tarde saímos,

ele com uma tipa de cabelo flamejante

e eu com uma manca

leitora de Henry James

que se ria de boca

à banda.

 

estavam 17 graus

e pouco restava

do mundo.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI RETIRADO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO  ALFAGUARA DE NOVEMBRO DE 2018. ROSALINA MARSHALL TRADUZIU E VALÉRIO ROMÃO FEZ A SELECÇÃO, A ORGANIZAÇÃO E O PREFÁCIO

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