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2961 - RETRATO || POEMA DE CECÍLIA MEIRELES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.01.19

CECÍLIA MEIRELES (1901 - RIO DE JANEIRO / 1964 - RIO DE JANEIRO)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

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publicado às 19:48


#2960 - "TORTO ARADO", NAS LIVRARIAS EM FEVEREIRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.01.19

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ITAMAR VIEIRA JUNIOR  ||  1979

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"Torto Arado", primeiro romance de Itamar Vieira Junior e vencedor do Prémio Literário Leya 2018, vai chegar às livrarias no próximo mês de Fevereiro com a chancela da editora Dom Quixote.

 

___________________________________________________________________________________

Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra. Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.
Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.
 
FONTE - EDITORA LEYA

 

 

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publicado às 17:20


#2959 - DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.01.19

 

DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

 

Ano dezanove do século vinte e um

domingo

janeiro

vinte

inverno

lua vermelha

eclipse total para ver mais logo na madrugada

 

É dia de festa na minha terra e da grande procissão

fanfarras e bandas  pipocas e balões algodão-doce

bancas de fogaças e outros  doces "regionais"

meninas de branco vestidas

cinturadas de vermelho ou azul

cabeças coroadas de fogaças para honrar a promessa feita há séculos

varandas enfeitadas por tecidos adamascados

gente anónima e de todas as condições

verga-se respeitosamente à passagem dos andores e do pálio

e das suas bocas saem silenciosos murmúrios em forma de oração

e foguetes troam anunciando o princípio e o fim da festa

animada pelos trapezistas dos negócios ambulantes 

montados no palanque das suas viaturas anunciam 

com voz peculiar pomadas e elixir para todas as maleitas

descontos na compra de cobertores ou

de um molho de peúgas

"...não é 100, nem 90, nem 80, nem 50... se comprar agora, e ainda leva este relógio como oferta... 

vai pagar, nem mais nem menos, duas notas de 20... uma pechincha!

aproxime-se freguesa aproveite a minha boa disposição

hoje é dia de festa..."

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publicado às 22:07


#2958 - E POR VEZES ||| POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996)

 

E POR VEZES

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA IN «MATURA IDADE» - 1973

 

 

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publicado às 22:16


#2957 - UM ADEUS PORTUGUÊS ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz de ombros puros e a sombra 
de uma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta cama comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta dor portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Não tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

                               * 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti. 

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL in «NO REINO DA DINAMARCA» - 1958

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publicado às 16:41


#2956 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

 

Tu, ò Estranho,

que entras na noite

todas as noites

Braços caídos cansados de tanto procurar

A cabeça enterrada nos ombros com

o peso de tamanha tristeza.

O corpo inclinado, cansado

com vontade de desistir.

 

Todas as noites 

entras na noite

buscas nos becos e esquinas

um pouco de paz,

uma luz que aqueça o coração

uma estrela  que acolha os destroços da tua alma

uma flor com pétalas regadas com tuas lágrimas

 

Todas as noites

entras pela noite

em busca de um sonho

que perdeste algures e não sabes onde.

 

Até que numa noite

a noite entre dentro de ti.

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publicado às 00:55


#2955 - DIA DE DESCANSO [POEMA DE FERNANDO LEMOS]

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.01.19

FERNANDO LEMOS | 3 DE MAIO DE 1926

 

DIA DE DESCANSO

 

Hoje reservo o dia inteiro para chorar

É o domingo decadente    em que muitos

esperam pela morte de pé

É o dia do sarro que vem à boca da medocridade

circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos

dos amores que deram em estribilhos

das correrias pederásticas para o futebol em calções

mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10%

de desconto em todo o vestuário

 

E choro    choro    porque a coragem

não me falta para tudo isto e assisto

na nega de me ceder ao braço dado

 

Precisarei de um cansaço mas

lá estavam espertas

as mil e não sei quantas lojas abertas

para mo vender!

 

Mas hoje é domingo

Lá está o chão reluzente de martírio

e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter

já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

 

E choro de coragem    isto é

as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos

Falo cristalinamente sózinho

procurando entre as paredes e as varandas que vão cair

algum acaso    isto é

o eco, de qualquer drama vazio

 

Espero como quem espera

o momento de posse entre dois ponteiros

de torneira em torneira nas súplicas febris

em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas

para as não cortar em gritos 

Espero e entretanto o mundo não se cansa

de me dar drogas para dormir e criar

novelos de lã à volta do coração

Não me lastimo   grito

Quero que estas correntes da boca se tornem úteis

e não ficar pr'aqui moldado estátua

em verdete  de ser chorado

A tropeçar onde não há perigo

com calçado duro a pisar as nuvens

neste tão estreitado mundo

 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso

podem pensar os homens das ideias revolucionárias

e choro

choro de coragem e para os microfones da revolução

As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento

por amor ao chão da terra que me pisam

 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução

alheia às tais guerras de papel químico

 

Espero sem esperança mas certo

do que espero como de saber  que um homem

não chora    e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar

porque é domingo e o que espero não é a morte de pé

talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

 

Uma vez era ainda pequeno

chorei ao ver um prédio desabitado

Moro nele mesmo aos domingos e rio-me

das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas

Sei que nada adianta

Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno

Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar

ao choro da coragem de esperar

 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado

um grito afinal terá assim o seu eco

 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente

até que a noite me venha

cobrir o corpo de abafo quente

 

Então sairei à procura da prostituta cega

para lhe contar junto ao peito

como as pessoas se comportam aos domingos

 

POEMA DE FERNANDO LEMOS in «Teclado Universal» - 1963

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publicado às 19:24


#2954 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

Há idiotas que gostam de se ouvir. Julgam-se  capazes de falar sobre tudo mas não entendem o que dizem.

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publicado às 23:04

 

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publicado às 21:22


#2952 - FESTA DAS FOGACEIRAS | SANTA MARIA DA FEIRA | 20 DE JANEIRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

FESTA DAS FOGACEIRAS EM HONRA DO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO, 20 DE JANEIRO, SANTA MARIA DA FEIRA

 

 
 
 
 

AS FOGAÇAS E OS CALADINHOS - PERCURSOS

 

Com percursos históricos diferentes e motivações sociais, culturais, políticas, religiosas e psicológicas bem diversas, as fogaças e caladinhos que conhecemos e adoptamos como um dos ex-libris do concelho de Santa Mara da Feira, são, hoje, extremamente importantes para a economia de algumas unidades industriais e comerciais da cidade.

 

As fogaças e caladinhos encerram dentro de si uma parte importante da nossa história enquanto testemunhos da nossa memória colectiva. Mas, mais importante do que as formas, os sabores e os gestos que ensinam as receitas, é permitir que cada porção de farinha, de açucar, de ovos e manteiga seja a descoberta da alma, das emoções, dos conflitos, da dor, morte, esperança e vida do  povo anónimo das Terras de Santa Maria.

 

Houve, nos séculos XV e XVI, uma grande epidemia. E o povo foi dizimado. E aqueles que restaram levantaram os braços e os olhos em direcção ao Céu e dirigiram as suas súplicas carregadas de fé ao mártir S. Sebastião. E fizeram promessas e empenharam as suas vidas.

 

O mártir sorriu. E o sorriso limpou-lhes a alma e as lágrimas. E as lágrimas transfiguraram-se  e tomaram a forma de fogaças.

 

E, todos os anos, no dia 20 do mês de Janeiro, somos cúmplices e testemunhos vivos de uma promessa que nos pediram para cumprir. E cumprimos. Por isso descemos à cidade e enfeitamos as velhas ruas do burgo e damos-lhe vida, cor e emoções. E vivemos a História, e aprendemos que a Fogaça não é apenas um símbolo, mas toda a alma do povo das Terras de Santa Maria.

 

E, ao enterceder, quando a penumbra do dia confunde os rostos e transforma as sombras em silhuetas, o povo junta-se em pequenos grupos e regressa a casa transportando consigo as fogaças e caladinhos. Durante a viagem relembram momentos já passados e contam histórias que fazem parte da História da cidade. E recordam, a propósito de caladinhos, os anos 30, a polícia política, as tertúlias na Farmácia Araújo, e a perspicácia do Augusto Padeiro. E contam como simples biscoitos passaram do anonimato para a ribalta da glória.

 

"...Um dia, à noite, aqui em Santa Maria da Feira, o Augusto Padeiro e seus empregados estavam a fazer biscoito sortido com forma arredondada e achatada. De repente, entraram elementos da polícia política e o Augusto Padeiro, com medo, disse aos empregados: Shiu! Calados!.

Um dos elementos da Polícia perguntou: - Porque disse calados?

O Augusto Padeiro, respondeu: Porque estamos a fazer Calados. Estes biscoitos são os Caladinhos"...

 

E de memórias em memórias, sob a égide do castelo altaneiro, num ritual marcado pelo tempo, o povo cumpre o voto e, de uma forma cúmplice e intimista, ergue o olhar ao Céu e o Santo sorri.

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publicado às 21:06


#2951 - A INVENÇÃO DO AMOR (POEMA DE DANIEL FILIPE)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

 

Nasceu a 11 Fevereiro 1925
(CaboVerde)
Morreu em 06 Abril 1964
 

A INVENÇÃO DO AMOR

 

                    La nuit n'est jamaiis complète

                    Il y a toujours puis por entre anúnciosque je le dis

                   Puisque je  l'affirme

                 Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

                Une fenêtre éclairée

                                                  Paul Éluard

 

Em todas as esquinas da cidade

nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes

na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém

no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga

um cartaz denuncia o nosso amor

 

Em letras enormes do tamanho

do medo da solidão da angústia

um carataz denuncia que um  homem e uma mulher

se encontraram num bar de hotel

numa tarde de chuva

enttre zunidos de conversa

e inventaram o amor com carácter de urgência

deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

 

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e

fome de ternura

e souberam entender-se sem palavras inúteis

Apenas o silêncio A descoberta A estranheza

de um sorriso natural e inesperado

 

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna

Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente

embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta

de um amor subitamente imperativo

 

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia

colado em todas as esquinas da cidade

A rádio já falou a TV anuncia

iminente captura A polícia de costumes avisada

procura os dois amantes nos becos e avenidas

Onde houver uma flor rubra e essencial

é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

 

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

 

Chamem as tropas aquarteladas na província

Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o Um homem e uma mulher

conheceram-se amaram-se perdeream-se no labirinto da cidade

 

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los

antes que seja demasiado tarde

e a memória da infância nos jardins escondidos

acorde a tolerância no coração das pessoas

 

Fechem as escolas Sobretudo

protejam as crianças da contaminação

Uma agência comunica que algures ao sul do rio

um menino pediu uma rosa vermelha

e chorou nervosamente porque lha recusaram

Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão

Aplicado no entanto Respeitador da disciplina

Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos

Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado

e submetido a um tratamento especial de recuperação

Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital

que o diagnóstico se faça no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher

de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

 

Está em jogo o destino da civilização que construímos

o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial

o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos

a verdade incontroversa das declarações políticas

 

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários

precisamos da sua experiência onde quer que se escondam ao temor do castigo

 

Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem

Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes

À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem

Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil

não precisam de dar o nome e a morada

e garante-se que nenhuna perseguição será movida

nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio

comissões de vigilância. Está em jogo a cidade

o país a civilização do ocidente

esse homem e essa mulher têm de ser presos

mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

 

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da correspondência

Em qualquer parte da cidade um homem e mulher amam-se ilegalmente

espreitam a rua pelo intervalo das persianas

beijam-se soluçasm baixo e enfrentam a hostilidade nocturna

É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los

 

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de baterr

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas

E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra

respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz

Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos

Água simples correndo A brisa nas montanhas

 

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior

Mas caminhou cantando para o muro da execução

foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele

um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

 

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los

nos campos de futebol no  silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa

Não estarão nunca aí Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece

A identificação é fácil Onde estiverem estará também pousado sobre a porta

um pássaro desconhecido e admirável

ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa

Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa

Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente

dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro

e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

 

Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto

Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós

É preciso nesse caso ter a coragem para desfechar na fronte o tiro indispensável

Não há outra saída A cidade o exige

 

Se um homem de repente interromper as pesquisas

e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão

já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja

matai-o  Mesmo que tenha comido à vossa mesa crescido a vosso lado

matai-o  Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda

os seus olhos vos fitem com sobre-humana naúsea

e deslizem depois numa tristeza líquida

até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeia

uim só golpe mortal misericordioso basta

para impor   o silêncio secreto e inviolável

 

Procurem a mulher o homem que num bar

de hotel se encontraram numa tarde de chuva

Se tanto for preciso estabeleçam barricadas

senhas salvo-condutos horas de recolher

censura prévia à Imprensa tribunais de excepção

Para bem da cidade do país da cultura

é preciso encontrar o casal fugitivo

que inventou o amor com carácter de urgência

 

Os jornais da manhã publicam a notícia

de que os viram passar de mãos dadas sorrindo

numa rua serena debruada de acácias

Um velho sem família a testemunha diz

ter sentido de súbito uma estranha paz interior

uma voz desprendendo um cheiro a primavera

o doce bafo quente da adoslecência longínqua

No inquérito oficial atónito afirmou

que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte

e caminhavam envoltos numa cortina de música

com gestos naturais alheios   Crê-se

que a situação vai atingir o clímax

e a polícia poderá cumprir o seu dever.

 

Um homem uma mulher um cartaz denúncia

A voz do locutor definitiva nítida

Manchettes cor de sangue no rosto dos jornais

 

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS

ANTES QUE SEJA TARDE

 

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado

a vida igual a sempre conversas de negócio

esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis

Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado

ou marinheiro em terra afogar a distância

no corpo sem mistério  da prostituta anónima

Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher

amam-se espreitam a rua  pelo intervalo das persianas

constroem com urgência o universo do amor

E é preciso encontrá-los   E é preciso encontrá-los

 

Importa  perguntar em que rua se escondem

em que lugar oculto permanecem resistem

sonham meses futuros continentes à espera

Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice

abrigo fraternal deixam correr o tempo

de sentidos cerrados ao estrépito das armas

Que mãos desconhecidas apertam as suas

no silêncio pressago da cidade inimiga

 

Onde quer que desfraldem o cântico sereno

rasgam densos limites entre o dia e a noite

E é preciso ir mais longe

destruir para sempre o pecado da infância

erguer muros de prisão em círculos fechados

impor a violência a tirania o ódio

 

Entanto das esquinas escorre em letras enormes

a denúncia total do homem da mulher

que no bar em penumbra numa tarde de chuva

inventaram o amor com carácter de urgência

 

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

 

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade

o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas

encerramos o aeroporto patrulhamos os cais

há inspectores disfarçados em todas as gares de caminho de ferro

 

É na cidade que é preciso procurá-los

incansavelmente sem desfalecimentos

Uma tarefa para um milhão de habitantes

todos são necessários

todos são necessários

Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial

e o ministro das Finanças

tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

 

Depois das seis da tarde é proibido circular

Avisa-se a população de que as forças da ordem

atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja

depois daquela hora Esta madrugada por exemplo

uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia

um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados

disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu

Tinta trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso

O Cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas do Governo pelo engano cometido

Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer

Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático

e depois o homem e a mulher que a polícia procura

representam um perigo para nós e para a Grécia

para todos os países do hemisfério ocidental

Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo

que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida

sujo insignificante e porventura bêbado

 

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

 

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher

escondidos em qualquer parte da cidade

Repete-se é indispensável encontrá-los

Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa

destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo

Apela-se para o civismo de todos os habitantes

A questão está posta     É preciso resolvê-la

para que a vida reentre na normalidade habitual

 

Investigamos nos arquivos     Nada consta

Era um  homem como qualquer outro

com um emprego de trinta e oito horas semanais

cinema aos sábados à noite

domingos sem programa

e gosto pelos livros de ficção científica

 

Oa vizinhos nunca notaram nada de especial

vinha cedo para casa

não tinha televisão

deitava-se sobre a cama logo após o jantar

e adormecia sem esforço

 

Não voltou ao emprego o quarto está fechado

deixou em meio as «Crónicas marcianas»

perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade

à saída do hotel numa tarde de chuva

O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer

que se trata de uma rapariga até aqui vulgar

Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota

Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo

Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência

era bem paga e tinha semana inglesa

passava as férias na Costa da Caparica

 

Ninguém lhe conhecia uma aventura

Em quatro anos de emprego só faltou uma vez

quando o pai sofreu um colapso cardíaco

Não pedia empréstimos ba Caixa    Usava saia e blusa

e um impemeável vermelho no dia em que desapareceu

 

Esperam por ela em casa duas cartas de amigas

e o último número de uma revista de modas

a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos

 

Ficou provado que não se conheciam

Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva

sorriram inventaram o amor com carácter de urgência

mergulharam cantando no coração da cidade

 

Importa descobri-los onde quer que se escondam

antes que seja demasiado tarde

e o amor como um rio inunde as alamedas

praças becos calçadas     quebrando as esquinas

 

Já não podem escapar       Foi tudo calculado

com rigor matemáticos      Estabeleceu-se o cerco

A polícia e o exército estão a postos    Prevê-se

para breve a  captura do casal fugitivo

 

(Mas um grito de esperança inconsequente vem

do fundo da noite envolver a cidade

au bout du chagrin une fenêtre ouverte

une fenêtre eclairée)

 

POEMA DE DANIEL FILIPE  in "A Invenção do Amor e Outros Poemas")  1961

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publicado às 18:40


#2950 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.01.19

 

Há noites melancólicas

em que dispo o sonho e

com as suas roupas visto a alma

dispo o desejo

cubro o corpo

fico refém da ignorância

quando não tenho resposta à pergunta

feita pela noite que entra de mansinho na madrugada para

não acordar o medo

 

E na horizontal me fico

olhos cravados no céu do quarto

à procura de uma estrela que acolha as inquietações

que não me largam

agarram-se à pele

talvez por gostarem do perfume que uso

vou mudar ou não usar ou

aspergir um repelente daqueles que afastam

os pequenos vampiros alados

não sei

talvez resulte

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publicado às 11:48


#2949 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

 

O silêncio não existe porque é  o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve,  para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não  os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN «RELÂMPAGO DE NADA», 2004

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publicado às 21:27


#2948 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua própria substância de cinzas e sangue petrificado, a habitação em que a fénix poderá renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lançar-se  a um trabalho para o qual a disposição ainda não surgiu, mas que poderá despertar os impulsos da construção solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A construção está envolta numa espessa bruma e não há nela sinais de figuras ou formas, porque essa névoa é o próprio nada da confusão inicial e o fim de toda a construção como possibilidade de vida e de renovo. É do obscuro fundo da retina que surge um ténue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da construção e  a faz palpitar e estremecer. O construtor poderá então discernir algumas linhas de força, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarificação. Haverá um momento em que ele sentirá que o edifício dança porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, é já a fénix que resplandece no fulgor da edificação e na plenitude do ser e do olhar na sua mútua criação

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA in "O Aprendiz Secreto", 2001

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publicado às 20:12


#2947 - AH, PODER SER TU, SENDO EU! [POEMA DE RUY BELO]

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

AH, PODER SE TU, SENDO EU!

 

Ei-lo que avança

de costas resguardadas pela minha esperança

Não sei quem é. Leva consigo

além de sob o braço o jornal

a sedução de ser seja quem for

aquele que não sou

E vai não sei onde

visitar não sei quem

Sinto saudades de alguém

lido ou sonhado por mim

em sítios onde não estive

Há uma parte de mim que me abandona

e me edifica nesse vulto que

cheio de ser visto por mim

é o maior acontecimento

da tarde de domingo

Ei-lo que avança e desaparece

E estou de novo comigo

sobre o asfalto onde quero estar

 

POEMA DE RUY BELO RETIRADO DE "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES" -  EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 15:55

JONATHAN LITTELL

Respostas de Jonathan Littell retiradas de uma entrevista conduzida por Luciana Leiderfarb e publicada na revista "E" - A Revista do Expresso, Edição 2410, de 5 de Janeiro de 2019.

 

"... Ele (Trump) faz-me lembrar Nixon - embora Nixon fosse muito mais inteligente. Trump é um homem estúpido, parece um daqueles mestres de cerimónia de circo ou de feira [carnival barkers], que berram aos megafones para atrair pessoas."

______________________________________________________________________________________

Observação da jornalista quando pergunta  ("A História não ensina nada?") Foram sentimentos desse tipo que, em muitos casos, mataram os nossos avós.

Resposta: Sim, e pera isso existem milhares de razões. Uma delas é que a globalização tornou algumas pessoas muito, muito ricas, enquanto outras ficaram muito, muito pobres, à beira da miséria. As pessoas estão assustadas, e por estarem assustadas são permeáveis a todo o tipo de discurso populista e xenófobo, à extrema-direita nacionalista. Veja o que se passa com o «Brexit»: é um dado objectivo que a saída do Reino Unido da União Europeia vai arruinar uma economia já de si bastante frágil, mas vence o argumento de que «as pessoas» escolheram este caminho. Isso é mentira, que «pessoas» são essas? O sistema educativo do país é disfuncional há duas gerações, há desemprego de longa duração, há gente que jamais teve um emprego na vida e cujos pais e avós nunca tiveram. Que tipo de decisão informada pode esta gente tomar sobre a UE? O que lhes interessa a UE?

__________________________________________________________________________________________

"... Vamos estar demasiado ocupados em sobreviver. Se nada mudar, podemos até ter uma guerra na Europa. É matemático: se não fizermos nada acerca das alterações climáticas, as previsões são catastróficas. Agora temos um milhão de migrantes. Imagine 20 ou 30 milhões, a virem de toda a parte, porque as suas regiões foram destruídas. Nessa altura, toda a gente se vai passar, e muito sangue vai ser derramado. E as democracias ocidentais vão sucumbir nos seus valores elementares - o que é típico da forma como os seres humanos gerem as coisas. Criamos todos estes brinquedos, estes computadores, estes smartphones, e nem sabemos como os usar. Uma das mais complexas conquistas da humanidade é utilizada para tirar selfies e fotografias de comida, que partilhamos nas redes sociais.

"(...) Amplificado (egocentrismo)  por estas máquinas, que foram desenhadas para aumentar os traços mais negartivos das pessoas. Gostemos ou não do  comunismo, o movimento que o originou foi o das pessoas a unirem-se e a tentarem mudar a sociedade. O mesmo acontece com as democracias: é sempre a acção colectiva que faz o mundo avançar. Todos estes brinquedos estão a conduzir à desintegração da sociedade, cada um está a olhar para si próprio, a entreter-se a tirar fotografias. Nesse contexto, as pessoas mais estúpidas ficam muito vulneráveis a tipos como Trump ou Bolsonaro. E as pessoas  inteligentes estão demasiado ocupadas com as selfies para empreender algum tipo de acção. Então, quando Lisboa se tiver afundado no Oceano Atlântico, vão poder fotografar-se enquanto se afogam e vai ser genial! Vão com certeza captar momentos muito bonitos."

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publicado às 17:50


#2945 - ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.01.19

EUGÉNIO DE ANDRADE | 1923-2005

 

ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Com as aves aprende-se a morrer.

Também o frio de janeiro 

enredado nos ramos não ensina outra coisa

- dizias tu, olhando

as palmeiras correr para a luz.

Que chegava ao fim.

E com ela as palavras.

Procurei os teus olhos onde o azul

inocente se refugiara.

Na infância, o coração do linho

afastava os animais de sombra.

Amanhã já não serei eu a ver-te

subir aos choupos brancos.

O resplendor das mãos imperecível.

 

POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE IN "HOMENAGENS E OUTROS EPITÁFIOS".

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publicado às 18:15


#2944 - O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.01.19

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CHARLES BUKOWSKI

 

O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

 

não os encontrarás com regularidade

pois não se encontram

onde se encontra 

a multidão

 

estes seres ímpares,

não há muitos

mas deles

vêm

os poucos

bons quadros

as poucas

boas sinfonias

os poucos

bons livros

e outras

obras.

 

e dos

melhores

entre os estranhos

talvez

nada.

 

eles são

os seus próprios

quadros

os seus próprios

livros

a sua própria música

as suas próprias

obras.

 

às vezes penso

que

os vejo - por exemplo

um determinado

velho

sentado num

determinado banco de jardim

de uma determinada 

forma

 

ou

uma cara fugaz

num carro

que passa

em direcção

contrária

 

ou

há um certo

gesto de mãos

do rapaz ou

da rapariga

a embalar compras

em sacos

de supermercado.

 

às vezes

até é alguém

com quem se vive

há algum

tempo - 

dás conta de

um fugidio

olhar luminoso

que nunca lhes viras

antes.

 

às vezes

apenas notas

a sua existência

subitamente

e de forma vívida

alguns meses

alguns anos

depois de

partirem.

 

lembro-me 

de um caso

assim -

ele tinha

cerca de 20 anos

bêbedo

às 10 da manhã

a fitar

um espelho partido

em Nova Orleães

 

cara sonhadora

contra

as paredes 

do mundo

 

para

onde

fui eu?

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI IN "OS CÃES LADRAM FACAS" - EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:21


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