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#2943 - ECLESIASTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.12.18

1.

 

Palavras de Eclesiastes, filho de David, rei de Israel em, Jerusalém.

 

Vacuidade de vacuidades - disse o  Eclesiastes -,

Vacuidade de vacuidades: todas as coisas <são> vacuidade.

Que vantagem existe  para o ser humano

Em todo o seu esforço com que se esforça debaixo do Sol?

Uma geração passa; e uma geração chega;

E a terra fica de pé para sempre.

O sol nasce e o sol põe-se;

E transita para o seu lugar.

Nascendo lá, vai para sul

E vai em círculo para norte.

Circula circulando; o vento sopra.

E, nos ciclos dele, o vento regressa.

Todas as torrentes fluem para o mar;

E o mar não ficará repleto.

Para o lugar, para onde vão as torrentes,

Aí elas voltarão a ir.

Todas as palavras <estão> gastas.

Um homem não conseguirá falar;

E um olho não ficará satisfeito por ver;

E um ouvido não ficará satisfeito por causa da audição.

Aquilo que aconteceu, isso mesmo irá acontecer.

E aquilo que foi feito, isso mesmo será feito.

Nada existe de novo debaixo do Sol.

Quem dirá e afirmará: «Eis que isto é novo»?

<Isso> já aconteceu nas idades

Que existiram antes de nós.

Não existe memória de <pessoas> anteriores,

Nem dos que nasceram depois.

Não haverá memória deles

Junto dos que forem os últimos a nascer.

Eu, Eclesiastes, fui

Rei sobre Israel em Jerusalém

E ofereci o meu coração à procura

E à indagação, na sabedoria, acerca de todas as coisas

Que existem debaixo do céu.

Pois uma preocupação negativa

Deus ofereceu aos filhos do ser humano:

Preocuparem-se com essa <preocupação>.

Observei todos os feitos

Que foram feitos debaixo do Sol:

E eis que todas as coisas são vacuidade e demanda de vento.

Coisa torta não conseguirá ser endireitada;

E o que está em falta não conseguirá ser contado.

Eu falei no meu coração, dizendo:

«Eis que fiquei engrandecido

E proporcionei sabedoria a todos

Os que estavam diante de mim em Jerusalém;

E meu coração viu muitas coisas  - sabedoria e conhecimento.»

E ofereci meu coração a conhecer sabedoria e conhecimento:

Conheci dizeres e <conheci o > saber;

Pois também isto é demanda de vento.

Pois em abundância de sabedoria <está> abundância de conhecimento;

E quem aumenta conhecimento aumenta sofrimento.

 

Sinais utilizados no texto

< >  = entre parênteses angulares o tradutor coloca palavras subentendidas, mas não explícitas, no texto original

 

EXCERTO DO LIVRO DE ECLESIASTES, TRADUÇÃO DE FREDERICO LOURENÇO

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publicado às 18:29


#2942 - MINHA RUA DE INVERNO

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

É fim de tarde na minha rua de inverno

os pardais saúdam o agasalho das folhas

dentro de casa faz o tempo que se quiser

primavera verão ou outra estação qualquer

no sofá um livro espreita pela frincha da almofada

o gato espreita o voar de uma borboleta que se perdeu no caminho

o corpo elástico já esticado à espera

o telefone toca não atendo para mim não é eu sei

e os pardais recolhem ao abrigo das folhas das árvores da minha rua de inverno

restos de água de nuvens feridas limpam a alma da rua

a luz pública acende e ilumina pequenos lagos onde brilham estrelas coloridas.

 

É fim de tarde na minha rua

a noite chega montada em camelos como nas histórias de natal

sem ouro incenso ou mirra e a minha rua não tem neons

apenas palavras escritas que explicam o que se faz lá dentro

e dentro das casas que acompanham a minha rua nada sei

apenas especulações sobre silêncios, ruídos que transpiram dor prazer mágoas aconchegos

É noite na minha rua de inverno e a primavera já começa a gatinhar

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publicado às 19:54


#2941 - ODE DO HOMEM DE PÉ (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

ODE DO HOMEM DE PÉ

 

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo

pelos passos lentos como o rolar dos anos

pelos dias vulgares cheios de maçãs

pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco

pelas crianças mal vestidas para a vida

nos bicos dos pés te saúdo

pela paixão que transferiu campaspe

do amor de alexandre então dono do mundo

para o coração de apeles pintor pobre

que tinha como dom o simples dom de olhar

por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos

pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

 

Oh como o sofrimento purifica minha rua

Ele passa-nos as mãos por todo o corpo

desce por nós como um olhar de mãe

e a mais agasalhada vida vê-se nua

 

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos

chove a meu lado atrás de mim na minha frente

Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva

peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto

aquela que a seu lado é demolida

onde eu pecador me confesso e agradeço

este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira

passadas já segunda terça e quarta

e poder erguer as duas mãos acima da terra

rua onde passaram meus pais

onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos

onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã

e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi

rua onde tudo ganhei tudo logo perdi

onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores

e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações

que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças

onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de                                                                                                                                                     todos os dias

e muitas outras coisas que depois esqueci

rua que me levaste a tanto sonho vão

que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer

bem pouco basta minha rua para faze feliz o homem:

acender por exemplo repentinamente a luz

na sala onde pairava um certo mal-estar

o que dissipa como que para sempre a sua triste condição

Ou então na morte do escritor amigo recitar

o elogio fúnebre de há muito preparado

que se haverá de matar ainda mais o morto

e ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida

A inquiteção que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz

quando de pernas excessivamente livres

cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos

quando se me exigia o sacrifício dos olhares

e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida

Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua

ao fim de ti nem mesmo há já esse equeno almoço

aonde pelo menos qualquer coisa começava

Não disponho de alento para muitos anos

Sinto-me velho nasci em 33 estamos em 60

vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar

incapaz de lutar mandar obedecer

como que fiquei sempre à espera da maioridade

 

É tempo de assistir aos funerais dos amigos

começo a estar bom para jazer

«bom é acabar» - dizia o vice-rei

Já sou de deus deixei de ter idade rua

ele passou a ser a minha própria idade

não me levouu em conta o céu antecipado

e se algum dia porventura alguma criatura me moveu

o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua

Se título algum tive já me vai caindo

só deus é minha veste e minha história

Que ele me abra ó rua a porta da palavra

 

Agora que por fim alguém em sua voz me chama

pelos rostos presentes pelo grande ausente

que me livrou num tempo de injustiça por tudo

ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo

 

POEMA DE RUY BELO IN "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 16:36


#2940 - PRÉMIO LITERÁRIO VERGÍLIO FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.18

© Leonardo Negrão/Global Imagens

 

Universidade de Évora distingue Nélida Piñon com Prémio Vergílio Ferreira.
 

O Prémio Vergílio Ferreira 2019 atravessou este ano o Atlântico, tendo sido atribuído à escritora Nélida Piñon. Este galardão, instituído em 1996, incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio.

 

 

Numa edição que contou com candidaturas oriundas de 4 países, o júri decidiu atribuir este ano o prémio a Nélida Piñon, tendo ficado escrito em ata que “o Prémio Vergílio Ferreira 2019 foi atribuído à escritora Nélida Piñon pela latitude e profundidade da sua obra, que revela uma linguagem capaz de estabelecer e harmonizar um diálogo fértil entre a memória feminina e a História”.

O júri do Prémio que pretende homenagear o escritor de “Aparição” é composto este ano por Fernando Cabral Martins (Prof. Universidade Nova de Lisboa), Ângela Fernandes (Prof. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Anabela Mota Ribeiro (Jornalista), Cláudia Afonso Teixeira (Prof. Universidade de Évora), e Antonio Sáez Delgado (Prof. Universidade de Évora, presidente).

A cerimónia de entrega do Prémio acontece no dia de 1 março, data em que se assinala a morte do escritor, contando com as habituais intervenções da premiada, do júri e da reitora da Universidade de Évora.

Recorde-se que o prémio Vergílio Ferreira foi atribuído pela primeira vez a Maria Velho da Costa, a que se seguiram, entre outros, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa Luís, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio, Luísa Dacosta, José Gil, Hélia Correia, Lídia Jorge e João de Melo, tendo sido o galardoado da edição de 2018 o escritor Gonçalo M. Tavares.

 

PRÉMIO VERGÍLIO FERREIRA

O Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora em 1997, destina-se a galardoar anualmente o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa. relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio. Este prémio é entregue a 1 de março, no mesmo dia em que se assinala o aniversário da morte do seu patrono e autor de 'Aparição'.

Gonçalo M. Tavares
Gonçalo M. Tavares
Ano: 2018
 
Teolinda Gersão
Teolinda Gersão
Ano: 2017
 
João de Melo
João de Melo
Ano: 2016
 
Lídia Jorge - Prémio Vergílio Ferreira 2015
Lídia Jorge
Ano: 2015
 
Ofélia Paiva Monteiro
Ofélia Paiva Monteiro
Ano: 2014
 
Hélia Correia - Prémio Vergílio Ferreira 2013
Hélia Correia
Ano: 2013
 
José Gil - Prémio Vergílio Ferreira 2012
José Gil
Ano: 2012
 
 Maria Alzira Seixo - Prémio Vergílio Ferreira 2012
Maria Alzira Seixo
Ano: 2011
 
Luísa Dacosta - Prémio Vergílio Ferreira 2010
Luísa Dacosta
Ano: 2010
 
Mário de Carvalho - Prémio Vergílio Ferreira 2009
Mário de Carvalho
Ano: 2009
 
Prémio Vergílio Ferreira 2008 - Mário Cláudio
Mário Cláudio
Ano: 2008
 
Vasco Graça Moura - Prémio Vergílio Ferreira 2007
Vasco Graça Moura
Ano: 2007
 
Fernando Guimarães - Prémio Vergílio Ferreira 2006
Fernando Guimarães
Ano: 2006
 
Manuel Gusmão - Prémio Vergílio Ferreira 2005
Manuel Gusmão
Ano: 2005
 
Agustina Bessa-Luís - Prémio Vergílio Ferreira 2004
Agustina Bessa-Luís
Ano: 2004
 
Vítor Manuel de Aguiar e Silva - Prémio Vergílio Ferreira 2003
Vítor Manuel de Aguiar e Silva
Ano: 2003
 
Óscar Lopes - Prémio Vergílio Ferreira 2002
Óscar Lopes
Ano: 2002
 
Eduardo Lourenço - Prémio Vergílio Ferreira 2001
Eduardo Lourenço
Ano: 2001
 
Almeida Faria - Prémio Vergílio Ferreira 2000
Almeida Faria
Ano: 2000
 
Mia Couto - Prémio Vergílio Ferreira 1999
Mia Couto
Ano: 1999
 
Maria Judite de Carvalho - Prémio Vergílio Ferreira 1998
Maria Judite de Carvalho
Ano: 1998
 
Maria Velho da Costa - Prémio Vergílio Ferreira 1997
Maria Velho da Costa
Ano: 1997
 
 

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publicado às 22:11


#2939 - Do sul da Europa para o Sudeste da América

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.18

São 2 horas de uma madrugada recente. Sinto-me perdido na geografia do planeta,  até que vos encontrei mais a sul, num pequeno ponto situado entre a terra e a água.

Apoiados na varanda do 21.º,  vós estais debruçados sobre o mar e o canal que escorre quase a vossos pés, e seguis distraídos o ronronar dos motores das pequenas  embarcações, e observam a poética sinfonia das cores do pôr-do-sol a procurar o descanso na jangada que o espera na última curva do mar. E os vossos corações acolherão mansamente  o ouro, o incenso e a mirra que ofertarão a quem dele necessitar.

Do sítio mais meridional da Europa para todos vós, quer estejam em Aventura, Orlando ou Boca Raton, um extraordinário

e singelo dia de Natal.

Saudades!

 

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publicado às 16:24


#2938 - O PRÍNCIPE DOS PRÍNCIPES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.18

"Eis-me aqui, perante Vós...

Curvo-me respeitosamente e saúdo-vos."

Perante mim, está um homem simples e despojado dos símbolos que identificam o poder e o seu exercício, que o pratica generosamente e com parcimónia, respeitando e protegendo os mais débeis em idade, saúde e condição social e cuja lâmina da espada escondida na bainha apenas é empunhada em caso de legítima necessidade.

 

Neste tempo - o tempo da imbecilidade e da ignorância legitimadas como se fossem virtudes - a mentira passou a ser a verdade, e o ódio contra tudo o que é diferente causa dor, sofrimento e muitas vezas a morte.  A política passou a ser o palco privilegiado do exbicionismo, do folclore e das cabeças despovoadas. Porque o mais importante é não ter ideias e apenas repetir o que o povo quer ouvir:

 

- o sol na eira e chuva no nabal

 

é isso que o povo deseja e disso  apenas fazem eco.

 

Mais uma vez, curvo-me perante a inteligência e a sensatez  das vossas decisões sem olhardes a privilégios e baseadas numa sólida formação intelectual e literária, cujas inquietações vós acalmais na companhia dos clássicos gregos e latinos - os vossos preferidos -  passando pela grande literatura russa do século XIX e princípios do século XX, os grandes romancistas americanos - das duas Américas -  e ingleses, e, claro, a literatura portuguesa, o ensaio, a poesia, os grandes pensadores. A filosofia vós a usais quando as perguntas que fazeis a vós próprios, ou a vós por outros feitas, têm uma resposta que não  conheceis.

 

Curvo-me respeitosamente, porque sois justo e recto e aceitais os erros que cometeis. E nunca renegastes o vosso humilde nascimento e pobre origem, e o local onde nasceste a ele regressais quando podeis para visitar vossos pais.

E, perante eles vos curvais, respeitosamente, porque a eles a vida deveis. E, de novo, subireis as encostas da serra na companhia do vosso pai e do velho cão conduzindo o gado por caminhos e veredas que tão bem conheceis. E ainda sabeis os nomes que désteis, quando  criança, aos vários penedos que bordejam o caminho.

 

Celebro a vossa honestidade intelectual.

 

Saúdo-vos

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publicado às 19:36


#2937 - PRÉMIOS LITERÁRIOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.18

 

Marília Garcia, escritora brasileira, foi a vencedora do Prémio Oceanos de Literatura de Língua Portuguesa, com o livro "Câmara Lenta"

 

Poeta brasileira Marília Garcia conquista o primeiro lugar no Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa de 2018

Em decisão inédita, três poetas estão entre os quatro vencedores. Os premiados foram: os portugueses Bruno Vieira Amaral e Luis Quintais e o moçambicano Luís Carlos Patraquim, além da autora brasileira. E Patraquim passa a ser, na história do Oceanos, o primeiro escritor de Moçambique a ficar entre os ganhadores.

Lisboa, 7 de dezembro de 2018 – Em cerimônia realizada hoje no Palácio da Ajuda, em Lisboa, com a presença do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, da ministra da Cultura portuguesa, Graça Marques, e do diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, o Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa anunciou os quatro vencedores de 2018: uma brasileira, dois portugueses e um moçambicano,consagrando escritores de três continentes e aprofundando o processo de internacionalização do prêmio.

 

 

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PRÉMIO INCM/VASCO GRAÇA MOURA

 

José Luís Tavares, escritor cabo-verdiano, vence Prémio INCM/Vasco Graça Moura com o livro de poesia "Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio"

 

Vaco Graça Moura

Vasco Graça Moura (foto: Rita Carmo)

 

PRÉMIO INCM/VASCO GRAÇA MOURA

INCM criou o Prémio INCM/Vasco Graça Moura, dando continuidade à sua missão, enquanto editora pública, de promoção e preservação do património da língua e da cultura portuguesas e, simultaneamente, homenageando a figura incontornável e exemplar de Vasco Graça Moura enquanto cidadão, intelectual e antigo administrador da empresa responsável pelo pelouro editorial.

O galardão terá uma periodicidade anual e visa distinguir, rotativamente, trabalhos inéditos nas áreas de atuação onde Vasco Graça Moura se destacou, nomeadamente, na Poesia, no Ensaio (no domínio das Humanidades) e na Tradução (obras no domínio público).

O júri deste Prémio, cuja composição desde a 1.ª edição se tem mantido inalterada, é constituído por:

José Tolentino de Mendonça (Presidente)
    ;
Jorge Reis-Sá
    ;
Pedro Mexia
    .

Além do valor pecuniário, o Prémio INCM/Vasco Graça Moura contempla ainda a publicação da obra vencedora pela INCM.

PRÉMIO INCM/VASCO GRAÇA MOURA 2018


4.ª Edição - Poesia

OBRA VENCEDORA

Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio

José Luís Tavares

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publicado às 11:49


#2936 - 7 O'clock News / Silent Night

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

 

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publicado às 20:00


#2935 - SILENT NIGHT

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

SILENT NIGHT

É inverno nas praias do Ocidente.
As ondas rasgam as areias finas da costa e são
violentas,
iradas,
medonhas.
Que viram elas das terras por onde passaram?
Orgulhos,
preconceitos,
luxúrias,
indiferenças e
ossos que rasgam ventres de fome,
olhos mortos de nada verem,
esperanças dizimadas em
canos de armas,
futuros que não conhecerão o dia de amanhã.

É Natal, e o mundo continuará a girar
até ser novamente Natal.

E depois, 

regressarão os dias

do esquecimento 

e da indiferença

até ser novamente Natal.

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publicado às 19:53


#2934 - Para quem acredita, e para quem não acredita

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

Um bom Natal!

 

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publicado às 19:35


#2933 - "MENSAGENS TROCADAS" DE ALEXANDRA DE PINHO

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

alexandrade pinho024.jpg

Alexandra de Pinho, pintora, expõe na Sala de Exposições da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira o seu mais recente trabalho denominado "Mensagens Trocadas".

A exposição está patente ao público de 15 de Dezembro de 2018 a 26 de Janeiro de 2019.

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publicado às 18:44


#2932 - RY COODER | PARIS, TEXAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.18

 

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publicado às 16:30


#2931 - PRÉMIO LITERÁRIO FERNANDO NAMORA 2018

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.12.18

Carlos Vale Ferraz foi o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora 2018 com o romance "A Última Viúva de África"

 

Um dos mais importantes romances sobre a guerra colonial

2018-05-10 / Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, com nova edição a 17 de maio.

Carlos Vale Ferraz lança A Última Viúva de África

2017-09-12 / A partir da história real de uma mulher portuguesa que não quis abandonar a sua nova pátria, o autor procura compreender as linhas do processo de descolonização africano.

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publicado às 11:02


#2930 - A FALA DO ÍNDIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.12.18

 

"Nascido no Verão de 1848 perto de onde hoje é Billings, no Montana, Plenty-Coups, ou Aleek-chea-aboosh (Many Achievements), recebeu o nome do avô, que disse: «Sonhei que ele há-de viver para contar muitos golpes e chegar a velho; disse-me o meu sonho também que ele há-de ser um chefe - o maior chefe que o nosso povo jamais terá tido»,

profecia esta que que veio a ser realizada. Plenty-Coups morreu em 1932, pouco tempo depois de ter legado ao povo norte-americano as suas terras de duzentos acres (situadas num vale do sudeste de Montana), para ali ser feito um parque que seria «um memorial da nação crow» e «um testemunho da minha amizade para com todos os povos, vermelhos ou brancos». A seu pedido, foi enterrado atrás da sua casa, no pequeno bosque de álamos que tinha plantado quando rapaz. A passagem transcrita é um excerto da sua autobiografia.

 

Por altura dos meus 40 anos, pude ver que o nosso país estava a mudar, e a mudar depressa, e que tais mudanças nos levavam a viver muito diferentemente. Todos viam então que em breve deixaria de haver bisontes nas planícies e cada qual se interrogava acerca de como poderíamos nós viver depois do  seu desaparecimento. Houve poucas expedições de guerra, e quase nenhuns ataques... Os homens brancos, com os seus búfalos pintalgados [gado vacum], cercavam-nos. As casas deles ficavam perto dos sítios de água e as aldeias junto dos rios. Tinhamos decidido mostrar-nos amigáveis para com eles, apesar de todas as transformações que provocavam. Mas isso revelou-se difícil, porque os homens brancos prometiam as mais das vezes fazer uma coisa e acabavam sempre por fazer outra.

 

Diziam bem alto que as leis deles eram para todos; mas depressa compreendemos que, embora esperassem que nóas as adoptássemos, não hesitavam eles próprios em desrespeitá-las. Disseram-nos eles que não bebêssemos uísque, embora o fabricassem eles próprios e o usassem para negociar connosco, em troca de peles e de mantas, ao ponto de estas terem praticamente desaparecido. Diziam-nos os seus doutores que adoptássemos nós a religião deles, mas quando procurámos compreendê-la vimos que entre os homens brancos havia demasiadas espécies de religião; não as podíamos compreender, e raramente dosi homens brancos se mostravam de acordo quanto a saber qual seria a religião que se deveria aprender. Coisa que bastante nos enfadou, até que vimos que o homem branco não encarava a religião com mais seriedade do que fazia com as leis, e que as guardava a ambas bem por detrás dele, como ajudantes, para as utilizar segundo as suas conveniências nas suas relações com os estrangeiros. Tais não eram as nossas maneiras. Nós conservávamos as leis que tínhamos feito, e vivíamos a nossa religião. Nunca pudemos pois compreender o homem branco, que só a ele se engana."

 

EXTRAÍDO DO LIVRO «A FALA DO ÍNDIO»  DE TERI C. McLUHAN, EDIÇÃO FENDA EDIÇÕES, ANO DE 1988

 

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publicado às 21:24


#2929 - A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.12.18

RUY BELO (27 DE EVEREIRO DE 1933 | 8 DE AGOSTO DE 1978)

 

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

 

O senhor deus é espectador desse homem

Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe

nos olhos o tempo suave das árvores

Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma

cada uma das quatro estações

A primavera veio e ele árvore singular

á beira do tempo plantada

vestiu-se de palavras

E foi a folha verde que deus passou

pela terra desolada e ressequida

Quando as palavras o deixaram de cobrir

ficaram-lhe dois dos olhos por onde

o senhor olha finitamente a sua obra

Até que as chuvas lhe molharam os olhos

e deles saíram rios que foram desaguar

ao grande mar do princípio

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 23:21


#2928 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

charles bukovski os  caes ladram facas023 (2).jpg

CONSELHO

 

tal como o vento corta, outra vez, desde o mar

e a terra é assolada por tumultos e desordem

tem cuidado com o sabre da escolha,

lembra-te

o que talvez fosse nobre

há 5 séculos

ou até mesmo 20 anos

é agora

a maior parte das vezes

um acto desperdiçado

a tua vida passa uma única vez

já a história tem oportunidade atrás de oportunidade

para provar a imbecilidade dos homens.

 

Tem cuidado, portanto, diria eu,

com qualquer 

acto

ideal

ou acção

aparentemente nobre,

seja por este país ou por amor ou pela Arte,

não te deixes possuir pela proximidade do minuto

nem pela beleza ou pela política

que murcharão como flores cortadas;

amor, sim, mas não enquanto ardil do casamento,

e cuidado com comida má e trabalho excessivo;

terás de viver num país,

mas amar não é uma ordem

seja mulher seja nação;

leva o teu tempo; e bebe tanto quanto seja necessário

por forma a manter a continuidade,

porque a bebida é um modo de vida

através do qual o participante reclama

uma nova oportunidade na vida;

mais ainda, direi,

vive sozinho o máximo possível;

cria filhos se por acaso acontecer

mas tenta não ter de aguentar

criá-los; não te envolvas em questiúnculas

de mão ou voz

a não ser que o teu adversário atente contra a tua vida

ou contra a vida da tua alma; então,

mata, se necessário; e quando chegar a hora da morte

não sejas egoísta:

pensa como é económica a morte

e no lugar paraonde vais:

sem qualquer marca de vergonha ou de fracasso

ou necessidade de compaixão

como o vento corta desde o mar

e o tempo passa

erodindo os teus ossos numa paz suave.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI EXTRAÍDO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:28


#2927 - Hilary Woods - Prodigal Dog

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

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publicado às 15:46


#2926- Demen - Niorum

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

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publicado às 15:39


#2925 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

Só tu sabes como

povoar o meu coração.

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publicado às 14:51


#2924 - O RESPEITO É MUITO BONITO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

Lugares sem nome

povoados por gente sem nome; 

lugares que já não têm alma

mutilados por dores invisíveis,

bocas caladas,

línguas entrevadas,

troncos curvados de tantas vénias - pois o respeito é muito bonito - diz quem manda e pode

nesta terra de "doutores".

"É a vida...  é a nossa sina..." dizem

falando para dentro

com a voz já exausta de tanto calar

e que nunca viram o cheiro do mar

neste país que  já foi de marinheiros

e hoje não têm barcos para navegar.

 

Reivindicar é uma palavra feia

que não deve ser dita nem praticada

para não incomodar o poder.

E o corpo cada vez mais baixo quase a roçar a terra

cabeças descobertas  - o respeito é muito bonito - 

os chapéus nas mãos escondem os calos dos dias duros

e ainda lhes chamam de mandriões.

 

E o mar tão perto

e não sabem

que cor e cheiro ele tem.

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publicado às 10:07


#2923 - POEMA CITRINO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

POEMA CITRINO

 

O poema

que nasce e cresce 

agarrado ao tronco da laranjeira e

que vai amadurecendo sob

o sol de inverno

é um poema citrino 

que pavoneia o sabor e a cor

para que alguém o prove

para não cair de podre.

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publicado às 09:54


#2922 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.18

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

 

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o  transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

O português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é a patriótica organização

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e o povo em vão requer

curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL», EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 21:42


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