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#2732 - Poema de Reynaldo Pérez Só

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.17

 Reynaldo Pérez Só

 

esta é uma cadeira
só uma cadeira
nela
sentou-se meu pai
meus irmãos
todos
os meus melhores amigos
agora
está sozinha
sem ninguém
uma cadeira.

 

Poema do poeta venezuelano Reynaldo Pérez Só

 

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publicado às 18:14


#2731 - Pânico

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.17

 ALEXANDRA DE PINHO  TRANSFRAGMENTOS

 
PÂNICO
 
É Inverno
o pássaro foge,
não gosta da noite.
o pinheiro enrola as raízes mais fundo.
o cristal parte-se.
a porta abre-se.
o dia afoga-se entre coxas e mamas e
perde a memória.
o vento uiva por entre espinhos e espelhos.
a chuva que tudo limpa e o
carrossel onde os cães se escarrancham.
almas frígidas montadas em cavalos com cio.
espadas, superstições, cânticos.
a noite que engole o dia, sôfrega, num
espasmo de
dor e prazer.

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publicado às 14:03


#2730 - Foleirices

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.17

desenho004.jpg

 

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publicado às 19:04


#2729 - Não há nada como um bom charuto

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.17

NÃO HÁ NADA COMO UM BOM CHARUTO

 

O mar está calmo esta noite

como um colchão,

e o espaço interior habitado

isso sabemos

com certeza, a

uma mesa com

uma toalha de jornal

completo com cabeçalhos que encabeçam

um bem-vindo à tua vida

a observar os poemas

a passar os olhos como carros

ou palavras que são o mesmo

 

Descontrai-te dizem as árvores empolando-se

na sua inocência,

Descontrai-te dizem os pirilampos, descontrai-te

Descontrai-te

o momento chegará,

as árvores aplaudem.

 

Poema de Larry Sawyer

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publicado às 18:53


#2728 - Atravessando o Deserto Sonâmbulo

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.17

 

ATRAVESSANDO O DESERTO SONÂMBULO

 

Despe as tuas roupas e deixa-as numa longa cobra

Atrás de ti como as estrelas caem sobre ti no céu

 

Qualquer coisa te segue e se suspende do teu respirar cansado

E resmungas qualquer coisa que tropeça na tua boca

 

Ergues uma oração que paira sobre ti como uma nuvem

Enquanto a tua pele nua reflecte as paisagens do teu suor

 

Despe as tuas roupas e deixa-as numa longa cobra

Atrás de ti como as estrelas caem sobre ti no céu

 

Desejas acordar e isso é o desejo que

Não acerta na tua cara para ir repousar nas cicatrizes das dunas

 

Para onde quer que olhes vês o teu próprio corpo

E o som do proprietário dos ossos

 

Ali a caminhar onde o fogo estava

A respirar hesitantemente estas palavras

 

Poema de Larry Sawyer, poeta americano

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publicado às 18:35


#2727 - MÚSICAS DE NATAL com KENNY G

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.17

 

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publicado às 23:27

 Manuel Aires Mateus, arquitecto, é o vencedor do Prémio Pessoa 2017.

 

O Prémio Pessoa é concedido anualmente à pessoa de nacionalidade portuguesa que durante esse período e na sequência de uma atividade anterior tiver sido protagonista de uma intervenção particularmente relevante e inovadora na vida artística, literária ou científica do País. Esta é a 31.ª edição do Prémio Pessoa, uma iniciativa anual do jornal Expresso, com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos e tem o valor de 60.000 euros.

De acordo com o comunicado emitido pelo júri,  constituído por Francisco Pinto Balsemão (Presidente), Emídio Rui Vilar (Vice-Presidente), Ana Pinho, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião e Rui Vieira Nery  "a sua arquitetura é moderna, abstrata e contemporânea, mas parte de uma recolha de formas e materiais vernaculares portugueses, que integra de um modo exemplar. A construção de formas e volumes é feita com um caráter inovador, por subtração de matéria, esculpindo vazios, contrariando assim o sentido clássico do projetar. Na obra doméstica e na recuperação de edifício é raro provocar ruturas, mas não cede a mimetismos fáceis, conseguindo estabelecer uma continuidade entre passado e atualidade."

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publicado às 17:13


#2725 - The best of Silent Night - Christmas in Vienna

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.12.17

 

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publicado às 22:30

 

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publicado às 22:24


#2723 - Great Lake Swimmers - Moving Pictures Silent Films

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.12.17

 

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publicado às 16:03


#2722 - Elliott Smith - American Beauty (OST) - Because

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.12.17

 

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publicado às 15:59


#2721 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) - Excerto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.12.17

uma viagem à india-gm tavares005.jpg

Gonçalo M. Tavares

 

(...)

1

Embora a humanidade demore tempo a chegar

a um sítio, devido a imprevistos espantosos

e a obras no caminho, a natureza, essa,

nunca se atrasa.

Sempre com a luz certa, a natureza prossegue.

Era já, então, fim de tarde, quando Maria E abriu a porta

e disse: Oh, caro Thom C, que bom ver-te,

trouxeste um amigo?

 

2

No jornal as notícias podem, em dias de chuva,

ser dobradas para caberem no bolso, permanecendo secas.

Qualquer notícia grandiosa, um terramoto mortífero

ou um palácio recém-inaugurado, quando bem dobrada,

cabe num espaço de 8 por 6 centímetros,

o que não deixa de surpreender. Esta imagem é ainda relevante

para quem não quer perceber a importância e o espaço

ocupados pelo universo ou pelos países adjacentes

na vida de um pequeno cidadão.

 

3

E mesmo um indivíduo de estatura mediana

poderá esquecer, durante meses,

o mapa da mundo no bolso de trás das calças.

Tal facto, parecendo paralelo à nossa história,

não deixa de se cruzar com ela, mostrando que nas ideias

o infinito é coisa para o início da manhã

do dia seguinte.

 

4

Maria E convidou, então, delicadamente, Thom C

e o seu amigo Bloom a entrarem, oferecendo-lhes de imediato

poltronas cómodas, whisky perfeito, aperitivos,

uma vista deslumbrante  sobre as chaminés de uma fábrica

de grande importância na região,

e, pormenor não irrelevante, mostrando ainda, nos movimentos que fazia,

aquilo que de longe eram os melhores indícios do apartamento: seios felizes,

pernas de fazer parar o pensamento e

nádegas espantosas, imprescindíveis, duplas e fortes.

Esta é a melhor região de Londres, disse Bloom,

enquanto da janela admirava o belo e espesso fumo negro

que da fábrica saía.

 

5

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas

que lhe pareciam ter um conforto excessivo.

Com prudência e curiosidade perguntou

se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento

que, apesar de pequeno, era prometedor,

sendo que todos sabem

que um homem pode demorar mais tempo

a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja

do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,

com mochila às costas.

(...)

 

Canto II (Excerto) - Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 73 e 74 - Edição Editorial Caminho, Agosto de 2011

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publicado às 13:34


#2720 - 7 O'Clock News/Silent Night

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 

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publicado às 21:53


#2719 - FRANK SINATRA - White Christmas

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 

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publicado às 21:08


#2718 - Cinema na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 

T2 Trainspotting | 7 dezembro, quinta-feira | 21h30 

M/16 | 1h 57min

 

entrada:
1 € (leitores inscritos na biblioteca municipal, estudantes e >65 anos)
2 € (público em geral)

 

https://www.youtube.com/watch?v=Sab1YaEO-bk

Visualizar o vídeo T2 Trainspotting | Trailer Legendado do YouTube
 
 
T2 Trainspotting | Trailer Legendado
 
 
Informação retirada da página do Facebook da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira 
 
 

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publicado às 18:50


#2717 - PARA EDWARD MUNCH

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 LARRY SAWYER

 

 

PARA EDWARD MUNCH

 

Os gritos dos montes

estão inchados de sentido

enquanto a boca se enche

com a cor azul

que gela o céu

e rouba a frieza

pelo sangue ardente

ou será que isso não funciona

esta manhã

à hora do costume

como se nos pudéssemos atrasar

para a noite que chega

através da pele

entrando pelos poros

horas de halogéneo irradiando

o seu sentido

como um coração a bater,

algumas nuvens nervosas, um

Inverno.

 

Poema de Larry Sawyer

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publicado às 16:36


#2716 - PHTONOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

ENIS BATUR

 

 

PHTONOS

 

"Diz-se que na Grécia antiga alguns deuses não tinham corpo.

O que os mantinha não era uma figura, mas um som, um sinal."

Puxou o seu cabelo de prata para trás das orelhas,

fazendo uma pausa entre as frases:

"o que sempre me faz recordar o Requiem de Mozart:

se uma mão ajudar, a morte e a vida podem sobreviver

no mesmo vaso de plantas. Se uma alimentar a outra,

qual é esta, pergunto-me? Algumas perguntas a que não podemos responder

infiltram-se pelos anos, fazem poça na nossa vida."

Distracção. Invocando uma manhã chuvosa de Salzburgo, talvez

a memória lhe esteja sobrecarregada por imagens do hospital

para onde fora levado, a seguir à noite em que começou

o último andamento do seu concerto para violino.

"Por detrás do coro esconde-se o próprio medo, solitário,

inultrapassável: escolher para que lado se virar num cruzamento

parece-me ser a mais glacial das decisões

- sorri com pesar por um momento - talvez seja por isso

que nunca consegui passar o portal que alcancei."

Semente dura, solo fértil - se regados separadamente,

também se alimentariam um ao outro: raízes misturam-se, num enredamento impossível,

tece-se um emaranhado pela sobrevivência lentamente partilhada.

Mas se é mesmo verdade que alguns deuses vivem sem corpo,

então o som phi faz assentar uma mancha escura na sala:

O vaso racha-se, o solo seca, tantas mortes

podem elevar o seu pendão na nossa vida enquanto vivemos.

 

Poema de Enis Batur, in O Divã Cinzento, 1990

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publicado às 14:09


#2715 - A Europa em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 MICHEL DEGUY

 

A EUROPA EM LISBOA

 

O amor "libertou-se" da prisão de Amor

Olha: fica esse belo vazio

do amor esvaziado    o lenço de mármore

que a amante agitava ao oceano agitado

ou à cativa amante um trovador cativo

 

E agora descreve o castelo de água pétrea

O castelo de gávea capitaina

Que fez  renascentistas pensarem feudalismos

Voto cumprido de um príncipe cumprindo o verso de Gôngora

"de uma torre de vento delgadamente erguida"

 

E agora

O sereno tapete do Tejo estirado retira-se a seus pés

E também o saber se retirou

Como um refluxo sob a secura ignara

Em que as novas despejam uma espuma de datas

 

Da torre de Belém à torre de Stephen

Não quero pôr em causa o sentido da visita

Que o passe cultural poliglota autoriza

Nessa gaiola fui atrás da mulher da limpeza

 

A quem incumbe zelar pelo vazio bem vazio  

Amarrar favores da pedra ao terceiro patamar

E arrumar turbantes, de pedra, escudos, de pedra,

                 de sultão, de cruzado

                                       abrir caminho à volta

do Amor que não regressará.

 

 

Lisboa, 1993

 

Poema de Michel Deguy traduzido por Vasco Graça Moura

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publicado às 10:03


#2714 - ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

 AMADEU BAPTISTA

 

 

ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

 

Vi como a actriz levitou entre as sete paredes da sala

e soube imediatamente como isso era bom.

O céu de antracite dos últimos dias

foi um sinal do tempo nos meus olhos

que de uma árvore a outra projectou

um momento único de calor e vida.

A actriz era o primeiro êxtase

nos vários segmentos dos meus olhos,

silenciosa sequência de roldanas

onde a luz é um milagre e algo palpita

nas têmporas como uma recordação.

Falou da ausência, a actriz?

Fumava em Roma num vestidinho negro

tão frágil como uma pérola

e actuava sobre as palavras como se algo real

estivesse para acontecer à nossa frente.

Sentada no banco de madeira,

com os botões da camisa sensulmente abertos

e os lábios vermelhos que lembravam um Verão próximo

         do passado

ela esculpia na terra

algo tão perturbador como  o princípio do mundo.

Foi bom  olhá-la nos olhos,

tomar a eloquência por uma evocação

onde o silêncio tem o poder de despertar no corpo

um ritmo alucinante de febre e de loucura.

Ela, a actriz, nada podia fazer,

embora invocasse a infância com todas as forças do espírito,

em nítidas sucessões de terríveis marés-vivas.

Sentei-me e aplaudi.

Ela era sobretudo o exercício das coisas que nos fazem aproximar da solidão dos homens,

a cidade cercava-a e entontecia-a

porque algo se lhe colava à pele, um enigma, uma ave, talvez,

essa memo a que perdemos o rastro entre Bari e La Spezia

quando os múltiplos sinais da representação nos intimidavam

a conferir à comunicação o estatuto do medo e do fascínio.

A actriz? Agora podes vê-la.

Entre os toldos amarelos e azuis e a areia ocre dessa praia

ela penteia meditativamente os cabelos de oiro,

embala a boneca de trapos,

canta sentada num trono onde cada um de nós já se sentou

          um dia

para se sentir espectador de algo fascinante

que em silêncio responde à nossa solidão.

Escuta-a.

Ela chama  um nome desconhecido num rumor incontornável,

o nome do homem que partiu,

persegue-o num único movimento,

a sombra do seu corpo alonga-se na ausência

e o arco dos seus braços transfigura-lhe o olhar,

é uma mulher que vem com o rosto iluminado pela escuridão

para regressar do outro lado da noite

com uma criança nos braços,

ela própria,

um peixe vermelho que cintila

como uma pedra na distância

que vai do inferno ao paraíso,

de Capri a Peruggia.

Não é um incêndio que ela tem na boca?

A actriz tem na boca um incêndio

que é tanto a ternura como a exaltação,

ela entregou-se ao grito pela incandescência pura,

é um sonho e exalta-se pela beatitude de um crime

nesse sangue espesso

que é um círculo fulvo noutra esfera do mundo,

um brilho que se amplia numa barra de vidro

onde o rosto reflecte mil acrobacias

que reencontra a pedra onde a limpidez preserva

a tensão dos rostos em cada expectativa.

E a actriz sorri ainda porque o poder da luz amplia nos lugares

formas tão indistintas como as que há no coração

e outras tão belas como as corças que correm na planície

e nós pensamos que nos pertencem com o mesmo vigor

da agilidade do salto que empreendem.

Chamaste? Viste como isto era bom?

E o sortilégio era esse,

a magia do mundo,

a passagem de um lugar para outro lugar

onde tudo era possível

e um tiro à queima-roupa sobre o nosso peito

continha em si a graça de nos devolver à vida.

 

POEMA DE AMADEU BAPTISTA

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publicado às 18:31


#2713 - Então queres ser um escritor?

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

CHARLES BUKOWSKI

 

ENTÃO QUERES SER UM ESCRITOR?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 

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publicado às 17:12


#2712 - Em Memória de Johnny Hallyday - Requiem pour un fou

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.12.17

 

 

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publicado às 21:28


#2711 - CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.12.17

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 

CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

 

Principia a estação, com o seu ruído

feito de sons de pássaros, que eu decifro.

Mais difícil sinal são as cores várias,

que despontam cada dia e eu vejo,

ano após ano, iguais e singulares.

Primeiro, um pouco além, o lírio roxo,

que me traz consigo a criança viva

que o colheu e, tal como a um barco

o fez singrar, só, roxo, macerado,

na água que descia por um rego.

Um lírio com a mão que o cortara

já decepada e presa ao passado,

sem o seu corpo. Vejo as três pétalas

assim a confundir-se com os três dedos,

como se as nossas mãos por vezes vivessem

mais do que os passados corpos.

Depois, foi esta a manhã das camélias

brancas, cravadas com dureza em rostos,

que, ainda de olhos fechados, tocam

as corolas em busca do seu cheiro.

São camélias mortais, e ainda atraem

a face dos mortos, que algum dia

as bafejaram com o seu hálito próximo.

Manchas brancas de círculos informes,

cada círculo contendo outro círculo.

E, no centro de cada rosto, apenas,

em cada Primavera, duram os olhos.

 

Já caem as glicínias, de alto, sobre

o esplendor do crânio ou do cabelo.

São cachos também roxos, em manhãs

de assombro, por cada dia mais

trazer um diverso cacho pendente.

Misturam-se com a cabeleira antiga

estes cachos de glicínias de hoje.

Mas são absolutos, novos, singulares

os momentos com a sua luz e cor,

os seus insectos e as suas sombras.

Alguém, que os colhera os fez prender

entre cabelos fecundos, de orelhas,

adornos para os filhos da Terra.

Estão, depois dos lírios e das camélias,

para salvar, em cada dia novo,

o viço dos cabelos, mais eternos

do que a já sepultada carne. Carne

de alguém que tinha um nome seu e que

se oferecia, com deleite, ao Tempo.

Só pode ter sido a de parentes, dúbios

cohabitantes do ser que relata

esta actual Primavera, com saudade.

A Primavera, que me surpreende

somente por estar a ser olhada.

 

Se aquela rosa rubra, na manhã

em que surgiu, logo fosse ignorada,

eu não estaria aqui neste papel,

dando-me inteira à nova Primavera.

Recebo-a, olho-a como um visitante,

aliás porque, na sua latada,

ela está perto do meu sólio. Rosa

de repente vista, primeira rosa

na natural frescura. E, também,

o vento lhe tocou, e já a abrem

aquelas mãos que haviam sabido

lançar barcos de pétalas aqui.

Junto da rosa só cabe esta boca,

pronta a beijar com amor as suas línguas

ou a beber a linfa que é da abelha.

Havia uma boca assim, sem a face,

a respirar ao ritmo dessa rosa,

que hoje nasceu fadada para ser

a sempre minha, única, igual.

A cor da rosa mostra-me o lugar

daquela boca, e eu quero sentir-me

aqui e ali. Pois vejo-te, rosa,

e vejo a outra, a que foi beijada.

Assim, não posso mais do que olhar.

Rosas terás em redor, solitária.

 

- Eis os melros, rasteiros, que insistem

em tornar-se evidentes, saltitando

sobre cômoros de terra. Mas hoje

perante o mistério das flores súbitas,

são como eu, embora não como eu,

com a negra plumagem que os cobre.

Sobre a lage do poço correm dois,

negros contendores no mesmo sprint,

músicos de assobio que eu bem entendo.

 

E, próximos da rosa, mas alheios,

estão a nascer os narcisos, de amarelas

frisadas campânulas e de sépalas

perto do solo, e que se elevam

na luz de cor. Também uma figura

de mulher genuflectida as colhia,

e uma criança, oscilando no riso,

quer ter para si uma flor solar.

Junto aos eternos matizes das pedras,

a cor dos narcisos, nítida, clara,

evoca esses desejos saciados

em tempo ido: o da mulher, prendendo-os

no seu seio, e os da criança, seguindo

o movimento que pertence ao tempo.

Hoje, como hei-de separar os corpos

da haste e da corola dos narcisos,

pois a mancha amarela tem a forma

humana contida em si, curva, erecta.

 

Salva-me o vermelho vivo da rosa,

que atrai a cor intensa dos narcisos

para contraste, outra tensão,

que eu revivo, amando o beijo da rosa

e a prece ao sol destes narcisos.

Mas outra prece, hesitante, desponta

ao raso dos terrenos, dispersa, ágil.

Flores que vibram esguias e tácteis,

de um vermelho ardente, submissas

como pálpebras, ao cair da noite.

Abrem-se na aurora, comovidas

pela unção da luz, porque se chamam

páscoas. E são amadas, benditas.

Anunciam a passagem eterna

da luz sagrada entre noite e aurora.

A aragem devagar as sacode,

finas folhas e hastes a dançar,

em pleno dia de êxtase, no sono

das corolas exaustas pela noite.

 

Noutra manhã, eu vejo, deslumbrada,

a poalha da brancura florida

que envolve os troncos velhos da ameixoeira,

flores que o ar conhece e o vento leva,

há muito, para lugares e tempos.

Poalha em que não estão vultos humanos.

Apenas um nó de sombra, atrás

de cada flor, mostra a imagem de antes

ou a espessura de um fruto futuro.

São as flores do jardim que guardam o enigma,

pois cada espécie vista tem em si

um sinal visível de outra estação.

Flores solitárias que, uma a uma, vêm

ligar-se a fragmentos de vida antiga.

 

- Repetem-se os melros p'lo empedrado,

a debicar sempre nas pedras húmidas,

sob o fascínio do cálido dia.

Tão nítidos, tão certos, a presença deles

não cabe ao lado de uma flora rara,

a desta Primavera em narração.

 

Também os loureiros em flor, visíveis

ao longe como nuvens, são visões

completas, com  a floração e as folhas

na mesma cor de sempre, indecifrável.

Alguém pega no ramo do loureiro,

num verso clássico, e o dá a toda

a humanidade, pois a memória

da poesia passa de poeta a poeta,

para o mundo. Se o meu relato é vivo

é porque olho c'os outros a Primavera,

e nesta Primavera eu vi melhor,

presa do assombro do que é novo e antigo.

Os meus olhos, o espírito e as mãos

pegam em cada imagem de uma flor,

em cada dia de visão e ganho.

Mas a perda, enfim, virá somar tudo

igual a si mesmo, uno, passado.

E, de repente, uma flor de palavras

muito branca chega até mim, e é

esta estação, nesse florir de goivos.

Uma carta traz-me inscrita as palavras

de Eugénio, goivos, e o seu eflúvio.

Esta transcreve-a ele de Pessanha,

diante de tão nítidos canteiros.

Grata, prendo-me a esses elos vivos

da corrente de vozes, que se oferecem

aos ouvintes, depois de recolherem

o real, o findo, o que foi amado.

Aqui, depois do loureiro, floriu

a acácia, também sem qualquer vulto

escondido no seu florir imenso.

São árvores solitárias, constantes

na pura relação com a luz solar.

E, talvez por fim, neste  infinito,

uma inflorescência de gladíolo

rosada, erecta, se tenha aberto.

 

Vem de um único bolbo, soterrado,

está só, entre a verdura vária.

Junto de si viveram outras hastes

também de gladíolos, há muito tempo.

Braços levaram-nas juntas, consigo,

em braçadas de amor e de alegrias.

Os braços são as linhas de matizes,

unidas em redor da cor suavíssima

das flores de hoje, a florir aqui.

Cada manhã me põe diante dos olhos

nova forma de cor e  luz e, às vezes

figuras esbatidas de outra estação

igual, porém perdida já, inane.

 

- Melro audaz, que te aproximas mais

de mim, ou do que eu fui e agora sou,

não vejas que eu represento o Tempo.

A tua colheita de grãos e de larvas

seja o teu mais subtil pensamento.

 

- E, afinal, entraste no meu espaço,

num intervalo entre o concreto e o abstracto.

 

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

Carcavelos, Março, 1997

 

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Fiama Hasse Pais Brandão
 
Dramaturga, tradutora e poetisa, nasceu a 15 de agosto de 1938, em Lisboa,faleceu a 19 de janeiro de 2007, na mesma cidade. Frequentou o colégio St.Julian's School, em Carcavelos, e, mais tarde, o curso de Filologia Germânicada Universidade de Lisboa. Fez crítica de teatro, estagiou no TeatroExperimental do Porto (1964), e foi, com Gastão Cruz - com quem se casaria - e outros, fundadora do grupo Teatro Hoje (1974). Ao longo da sua vida,exerceu  atividade de investigação na área da linguística assim como  pesquisa histórica e literária sobre o século XVI em Portugal. Traduziu vários autores como Bertolt Brecht, Antonin Artaud, Novalis e    Anton Chekhov e colaborou em revistas literárias, como Seara Nova Cadernos do Meio-Dia Vértice entre outras. 
                                                                                                                                                                                                                                    Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61 coletânea que refletia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem  na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão                             i impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do              tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acessopela palavra pura a um tempo primordial. 
critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maiorpode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta comofontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme doConhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar naspalavras e nas imagens e que  por acumulação diurna e através daabsorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de CânticoMaior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve 1991).
 
Sob o Olhar de Medeia , a obra que marca a primeira incursão no romance porparte desta autora, foi publicado em 1998. 
Fiama Pais Brandão recebeu várias distinções, entre as quais se destacam o Prémio Adolfo Casais Monteiro, 1957; o Prémio Revelação de Teatro, 1961; o Prémio Pen Clube Português de Poesia, 1985; o Grande Prémio de PoesiaAPE/CTT, 1996; o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, 1996; e o Prémio Pen Clube Português de Ficção e o Prémio da Crítica da AssociaçãoPortuguesa de Críticos Literários, ambos em 2005.
 

 

 

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publicado às 19:03


#2710 - Nils Frahm - Spaces - Over There, It's Raining

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

 

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publicado às 18:18


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

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Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

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publicado às 16:38


#2708 - Agnes Obel - Between The Bars

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.17

 

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publicado às 23:18


#2707 - CONVERSANDO COM OS ASTROS

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.17

 TERESA RITA LOPES

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS

 

1

Confesso que me desiludiste um pouco

Quando ouvi dizer que estavas para chegar

pus-me ansiosa à tua espera

                                             Foste o primeiro

cometa da minha vida

                                  Antes de te conhecer pensava

que serias maior mais vistoso mais em fogo

                                                                    Depois

aceitei o teu recato a tua timidez

                                                  e tentámos

acertar o passo e o olhar

                                      Encontrámo-nos no céu

da Cacela e depois puseste-te a caminhar comigo

até Lisboa

               Aqui perdemo-nos de vista

                                                        Há luz eléctrica

a mais     Nesta cidade até do céu somos despossuídos:

o buruburinho das luzes obscurece os astros

                                                                      que fogem

a esconder-se atrás dos  montes mais próximos

                                                                           Dizem

os cientistas que voltas daqui a três mil anos

Que é isso para o deus de quem és brinquedo

e eu também?

                    Em breve regressarás ao teu abismo

e um dia destes também eu mergulharei no meu

Marquemos já encontro para o dia 11 de Abril

de 4997

           à esquina do crepúsculo

 

2

Eis-te de repente     Espreitas e devagar

levantas-te do leito do rio afogueada

sacudindo a saia

                         Que fazias aí deitada com ele

minha magana?

                     ah lua! maluca lua que não tomas

juízo!

      Aqui estamos de novo   cara a cara

sorriso no sorriso

                         Quantas vezes já nos olhámos

assim nos olhos    tão enamoradas?

                                                       Saboreio

daqui deste meu décimo andar jardim suspenso

todos os momentos da tua caminhada céu acima

Agora já estás perfeitamente senhora de ti

redonda e rutilante

                             e olhas de alto o rio

que se aquieta para te receber e espelhar

tua inevitável retirada

                                 Ninguém te dá a idade

que tens

            Quem havia de dizer que ficaríamos

grisalhas um dia!

Mas a ti fica-te bem esse

cabelo de neve luminosa     O meu pediu ao Outono

o ruivo fulgor de suas folhas

                                           Ah lua amiga minha

da longínqua infância da perdida juventude

cúmplice de tanto fervor adulto    sozinho e

comungado   confidente de tanto pranto em fogo

transformado   à tua alquímica maneira em fina

prata

       aonde vais buscar esse sorriso manso

teu sereno aceitar de tudo o que acontece

tua ironia doce?

                       Quem me dera libertar-me assim

da canseira do dia!

                             Minha amiga minha Mãe meu amor

porque és tudo isso ao mesmo tempo

                                                            afaga o áspero

dorso da minha irrequieta mágoa

                                                   e afoga-me no teu

mar de luar

                que é água e ar e fogo ao mesmo tempo

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS - POEMA DE TERESA RITA LOPES

 

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publicado às 22:19


#2706 - O Homem Solitário

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

BORIS HRISTOV

 

O HOMEM SOLITÁRIO

 

Tem uma cicatriz na testa e senta-se sempre na ponta,

mesmo quando é grande o homem solitário é pequeno.

 

Junta ervas ou talha com a tesoura das recordações,

se não tem nada a fazer - e arrasta a sua manta gasta.

 

Uma cabeça de cavalo ilumina os campos e

o  homem solitário vai apenas olhá-la - não quer que tenha uma crina.

 

Enquanto os outros gritam ou falam da arte

à mesa, o homem solitário apanha as moscas e deixa-as voar.

 

Mas se escreve versos deixará sem dúvida

uma lágrima nos olhos ou um arranhão na vossa memória.

 

Tem um lar e sopa quente, mas está tão só;

a sua vida - abandonada como uma arca no fundo do corredor.

 

Que a sua casa se desmorone,

comerá cinzas, mas não se ajoelhará perante ninguém.

 

Em que fogo ardeu? E sob que ferro de passar?

Para o saber ter-se-á de beber com ele muito vinho.

 

Enquanto caminha com uma mancha na camisa limpa,

o homem solitário desaparece na multidão como átomo.

 

Com uma das mão leva um livro para a sua alma doente,

com a outra o homem solitário segura a pequena corda que traz no bolso.

 

Poema do poeta bulgaro Boris Hristov

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publicado às 20:46


#2705 - No Palácio do Marquês de Fronteira em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

EVA CHRISTINA ZELLER

 

NO PALÁCIO DO MARQUÊS DE FRONTEIRA EM LISBOA

 

Um gato preto guia-nos:

queiram ter a bondade os aposentos particulares do Marquês

aqui tomam-se as refeições

aqui acende-se a lareira à noite

atrás destas portas vivem os gatos

não, crianças não

azulejos centenários

batalhas caçadas um pastor pintado

voilá e aqui fora queiram ter a bondade sob o azul

o azul cacos mosaicos azulejos reunidos e desbotados

Poesia Diana Neptuno

a Justiça é cega minhas senhoras

mas ali estão so cisnes pretos devido ao ruído da cidade passam pelas grutas

e os seus pescoços

não, vejam com os vossos próprios olhos

e no parque cuidado por favor

em restauro as fachadas

já muitos caíram estenderam-se

como a deusa da Vitória dentro da hera

compreendem, todo esse tempo e o ruído

o  betão nos ossos corrói

um pequeno rosto olha-me, vindo do arbusto de buxo

como se fosse o meu

 

POEMA DE EVA CHRISTINA ZELLER

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publicado às 20:03


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