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#2278 - Violência Civilizada

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.04.17

 "A pena de morte decidida por um tribunal torna-se assim, subitamente, num assassinato educado, segundo as determinações da civilização; assassinato delicado, pois, quase uma demonstração de boas-maneiras por parte do Estado: matamos, mas depois de ouvir os dois lados, depois do Tribunal reflectir longamente: matamos, ou apenas prendemos, mas de uma maneira intelectualmente elevada (continuemos na ironia): não somos bichos: não matamos nem raptamos sem primeiro reflectirmos. Depois de muito estudo e discussão dialéctica, então sim: agimos violentamente.

 

As decisões legais de um tribunal sobre o corpo são vistas assim, não como violências físicas mas como processos intelectuais, conclusões racionais de uma série de procedimentos cerebrais; a pena de morte ou a sentença que determina a prisão surgem como aparições racionais e não como aparições animalescas (como no caso dos crimes individuais). Determina-se a pena de morte da mesma maneira que se chega ao resultado único de uma equação matemática, com a mesma satisfação do dever cumprido e como conclusão de um processo longo. Diz-se, e repete-se: a lei não é  uma ciência e, no entanto, a lei tem consequências práticas mais importantes do que qualquer determinação científica. Uma lei age directa e imediatamente sobre o corpo dos homens, enquanto uma descoberta científica pode demorar anos até ter interferência concreta no dia concreto dos Homens. As leis do Estado são assim como que leis da Física - pensemos na lei da gravidade por exemplo -, que são feitas cumprir, não pela própria natureza - como a lei da gravidade (experimenta voar e verás) - mas pelos outros homens. Não voo, porque a Natureza não me deixa; e não mato porque os outros homens não me deixam.

 

Claro que há limites para esta aceitação da lei. Didier Eribon, num livro sabre a vida de Michel Foucault, cita a famosa frase de Camus: "Acredito na justiça, mas defenderei a minha mãe primeiro que a justiça"

 

Excerto do livro de Gonçalo M Tavares "Atlas do corpo e da imaginação", Editorial Caminho, Setembro de 2013

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publicado às 16:37


#2277 - Assuntos que me preocupam

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.04.17

A violência física, verbal, psicológica exercida sobre os mais fracos e sobre todos aqueles que ousam ser diferentes.

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publicado às 11:27


#2276 - LETTERS

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

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publicado às 18:48


#2275 - UM POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

 

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 

 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal 

 

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publicado às 18:32


#2274 - TABACARIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

(Fernando Pessoa)

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

 

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

 

 

 

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publicado às 18:13


#2273 - Caricaturas do quotidiano

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.04.17

A campainha toca

Abro a porta

Pergunto quem é

Ridículo

Disparate

Perguntar quem é depois

da porta aberta

Sou um assaltante disse

com modos polidos numa voz severa

Aponta-me um crachá

Levanto os braços

Rendo-me perante tanto poder:

Era do fisco e de mais outra coisa qualquer

 

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publicado às 14:39


#2272 - É MELHOR ESPERAR LENDO UM LIVRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.04.17

Sentado

na sala de espera ouço

um respirar arreliante de alguém

que não fala pela boca

mas pela pele ofegante

e espera...

 

Outro,

na penumbra da sala espia

o corpo de quem entra e se senta

e espera...

 

Outro resmunga o tempo de espera

- Isto é uma trampa...

- Oh! Cavalheiro, na língua tome tento. Isto é um consultório médico decente,

não é a taberna na sua terra.

- Antes fosse, assim afogaria esta merda numa pipa de vinho.

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publicado às 00:23


#2271 - Mania de Você

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.04.17

 

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publicado às 22:24


#2270 - O poema perdido de Fernando Pessoa

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.04.17
O poema perdido de Fernando Pessoa

O poema perdido de Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa é uma mina de diamante inesgotável. Quando se acredita que não há mais nada a descobrir, aparece alguma coisa, e relevante. Agora, surge um novo e belo poema, pelas mãos do advogado brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. O biógrafo do bardo português adquiriu um “livro de autógrafos”, no qual, durante uma travessia marítima, em 1918, o adolescente José Osório de Castro Oliveira (1900-1964) colhia recordações de seus companheiros de viagem.

No lugar de uma anotação trivial, Fernando Pessoa escreveu um poema:

 

Cada palavra dita é a voz de um morto.

Aniquilou-se quem se não velou

Quem na voz, não em si, viveu absorto.

Se ser Homem é pouco, e grande só

Em dar voz ao valor das nossas penas

E ao que de sonho e nosso fica em nós

Do universo que por nós roçou

Se é maior ser um Deus, que diz apenas

Com a vida o que o Homem com a voz:

Maior ainda é ser como o Destino

Que tem o silêncio por seu hino

E cuja face nunca se mostrou.

Fernando PessoaO poema foi publicado pelo jornal “Folha de S. Paulo” e alcançou repercussão em Portugal. O jornal “Público”, do país de Fernando Pessoa, menciona que o poema havia sido recolhido por “João Dionísio na edição de 2005 da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, ‘Poemas de Fernando Pessoa: 1915-1920’. Só que a versão que agora veio a lume é anterior e substancialmente diferente da já publicada, e tudo leva a crer que é a versão definitiva do poeta. Foi escrita, aparentemente de uma só penada, em 1918 — tinha Pessoa 30 anos”.

 

In "REVISTA BULA"

 

 

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publicado às 20:14


#2269 - Um homem apenas chora

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.04.17

Um grito fere a noite

O silêncio estremece

As raízes enrolam-se mais fundo na terra

Um mocho pia

A lua esconde-se na nuvem

O céu fica cheio de rugas.

 

Um homem apenas chora.

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publicado às 14:58


#2268 - AUSÊNCIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.04.17

Filmar a ausência.

Pintar a ausência.

Pensar a ausência,

construíndo

desconstruíndo a

ausência de sons

cores e formas das

mulheres, dos amigos,

dos filhos, pais e mães e

sobretudo do riso e 

das flores ausentes das

jarras e a ausência de

amendoeiras em flor em época  de Páscoa.

E

a cabeça pousada no centro da mesa

um traço divide-a ao meio,

de um lado a Bondade

do outro a Tristeza.

O risco está lá, 

separação invisível da ausência

apesar

das formas geométricas que o sopro

de cada uma tem

 

Mas a cabeça pensa que juntas

a Bondade e a Tristeza

fazem cócegas na alma e

que  ausência não é o vazio,

apenas um intervalo entre

dois silêncios.

 

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publicado às 23:23


#2267 - ASSUNTOS QUE ME PREOCUPAM

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.04.17

A hipoteca da liberdade individual em nome de uma falsa segurança

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publicado às 18:08


#2266 - Peter Bradley Adams - Interlude For Piano

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.04.17

 

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publicado às 22:47


#2265 - Max Richter - The Consolations of Philosophy

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.04.17

 

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publicado às 22:30


#2264 - Max Richter - Dream 13 (minus even)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.04.17

 

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publicado às 22:18


#2263 - Kraków Loves Adana – Never Quite Right (Official Video)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.04.17

 

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publicado às 21:46

 

 

vitoria.jpg

 

 

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publicado às 18:54


#2261 - ADORO PAU MOLE

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.04.17

 MARIA REZENDE

 

ADORO PAU MOLE

 

Adoro pau mole

assim mesmo

 

Não bebo mate

não gosto de água de coco

não ando de bicicleta

não vi ET

e adoro pau mole

 

Adoro pau mole

pelo que ele expõe de vulnerável

e pelo que encerra de possibilidade

 

Adoro pau mole

porque tocar um pressupõe a existência

de uma intimidade

e uma liberdade

que eu prezo

e quero

sempre

 

Porque ele é ícone do pós-sexo

que é intrínseca e automaticamente

ainda que talvez um pouco antecipadamente

sempre um pró-sexo também

 

Um pau mole é uma promessa de felicidade

sussurrada baixinho ao pé do ouvido

 

É dentro dele

em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar

que mora o pau duro e firme

com que meu homem me come

 

POEMA DA POETA BRASILEIRA MARIA REZENDE

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publicado às 14:39


#2260 - Morreu o Escritor Fernando Campos (1924-2017)

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.17

 

Fernando Campos, filólogo e escritor, autor de romances históricos como A Casa do Pó e a Sala das Perguntas entre outros, morreu no dia 1 de Abril com 92 anos.

 

 

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publicado às 17:43


#2259 - Dead Can Dance - Song of the Stars (Pina Bausch version)

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.17

 

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publicado às 22:51


#2258 - PRIMEIRO PRECISAVA SABER

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.17

MARIANO MAROVATTO

 

PRIMEIRO PRECISAVA SABER

 

Primeiro precisava saber

de onde escrever. E assim

com modos bem portugueses

(seus livros de levíssimo papel

e gramatura alta)

fosse o meu barquinho,

leitoso nessa espumante

página de hálito nada

familiar, e já estaria lá.

Uma gota de sangue

nas pontas dos dedos

uma cara sorrindo, outra

resmungando. Precisaba saber

tomar ônibus, pensar no asfalto,

no ringue de patinação, menos

ovo, mais ártico. Ou terra, como

nos caminhos das ilhas:

ir até qualquer ponto final

e lá soltar com a mochila.

 

Poema do poeta brasileiro Mariano Marovatto

 

 

 

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publicado às 18:52


#2257 - Uma flor chamada Francisca

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.17

Sei de um pomar com muitas letras coloridas:

Macieiras

Pessegueiros

Laranjeiras

Amendoeiras

Ameixoeiras

Tangerineiras;

E no centro

uma rara flor que as ilumina

quando a noite desperta e

tem o nome de 

FRANCISCA

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publicado às 23:56


#2256 - PALAVRAS SOPRADAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.17

Rodilhas na cabeça amortecem a

cadência dos passos e o peso das

palavras arrumadas na canastra

As palavras sopradas

as buriladas

As maiúsculas

numa caixa

As minúsculas 

em caixinhas

todas cabem na canastra

As palavras sonhadas

utopias

As palavras sopradas

vendidas compradas

gritadas

gemidas

caladas

cansadas

censuradas

travestidas

amo-te odeio-te

paradoxos

Palavras do pudor

sexo

As palavras sopradas sopradas por elas rodilhas na cabeça

transportam elas

Palavras verticais horizontais

paralelas perpendiculares

Palavras sopradas dos poros da pele

cicatrizes tatuadas na orografia do corpo

Palavras que

gesticulam as dores o amor

Palavras sem sentido

concêntricas

Palavras com vários sentidos

confusas

Palavras ilegíveis

mentiras

Palavras com cheiro

suor

trabalho duro do artífice

Palavras palradoras contidas sentidas aéreas;

Metáforas são afinal o que 

transportam elas

utopias

distopias

retratos

fotografias

impressões oníricas e

o grito delas  e

todas as palavras sopradas

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publicado às 18:29


#2255 - AS GAMBAS - Crónica de Clara Ferreira Alves

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.17

 

 CLARA FERREIRA ALVES

 

... Em Portugal quem não se mete num partido está tramado, é só pagar as contas dos outros e as vidas dos parasitas que andam a coçar o rabo por São Bento" (...)

 

Da Crónica de Clara Ferreira Alves denominada "Pluma Caprichosa"  - Revista E - Edição de 1 de Abril de 2017

 

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publicado às 17:49

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