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#1169 - RIME PETROSE

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.02.10

RIME PETROSE

I

Vens percorrendo o mundo há muito tempo

descobrindo no tempo muito mundo

sempre sabendo que se houvera tempo

não seria preciso tanto mundo

Um dia a tua sombra já sem tempo

não mais há-de estender-se neste mundo

Somente por ludíbrio do teu tempo

a sombra projectaste sobre um mundo

onde contam as sombras         Mas o tempo

do mundo que lateja sob o mundo

é um tempo sem tempo para o tempo

nem mundo para sombras deste mundo

E se algum tempo resta do teu tempo

nenhum mundo te fica do teu mundo

II

Buscas molduras    perdes os retratos

Juntas retratos       faltam-te as molduras

Mais foscos que os fantasmas dos retratos

são os olhos vazios das molduras

e mesmo assim persegues em retratos

a cegueira implacável das molduras

Se teus actos retractas os retratos

servirão a teus actos de molduras

Nem basta que retrates nos retratos

o que pensaste ser         Vê que molduras

de repente molduram os retratos

de quem virás a ser já sem molduras

A menos que espezinhes os retratos

Ou que a cinza reduzas as molduras

III

TÃO-SÓ com as lombadas destes livros

dialogando ao longo destas noites

a ti mesmo perguntas quais os livros

onde lateja a luz das tuas noites

Não a da lua que vive em tantos livros

Não a do sol que morre em tantas noites

Antes uma nascida aquém dos livros

ou mais outra queimando além das noites

os espectros anónimos dos livros

o sudário paupérrimo das noites

De noites não será      nem já de livros

a tua imensa fome nestas noites

em que o pulsar do coração dos livros

só se escuta no pulso de tais noites

IV

Tão relâmpago logo o dia de ontem

tão mais clarão ainda o dia de hoje

que nem chegasse a ver o que foi ontem

ao rodar-lhe por cima o que é já hoje

A cada instante o hoje se faz ontem

sem aguardar que venha a manhã de hoje

levantar a barreira entre hoje e ontem

Ontem ou hoje o centro é sempre o hoje

se bem que não o hoje mas o ontem

alguma coisa conte     O búzio de hoje

sabe apenas contar-te os dias de ontem

Leva-os pois ao ouvido como se hoje

tudo quanto ele conte acerca de ontem

trouxesse ternidade ao búzio de hoje

V

Recusas pedra e nuvem     Mas a pedra

vai ganhando o contorno de uma nuvem

nesse teu coração feito de pedra

à luz das mãos que tens feitas de nuvem

Bem quiseras que tudo fosse pedra

extraída de quanto foste nuvem

Sabes porém que a pedra mais que pedra

se dissolve na nuvem mais que nuvem

Outras nuvens buscaste     Eram de pedra

Atingiram-te pedras que de nuvem

nem mesmo a forma tinham    Pedra     pedra

E tu chamando nuvem      nuvem

Nem hás-de ter um túmulo de pedra

Só um anjo a velar-te        Uma nuvem

David Mourão-Ferreira

Cascais, Agosto de 1994

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publicado às 11:53


#1168 - O CALÍGRAFO

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10

 

Vê-se bem que este vento de Outubro é diferente dos outros.

Vem do sudoeste, pelo caminho da chuva,

Mas traz consigo um novo canto ou lamento

Que acorda memórias e medos e certezas.

Sei que estes olhos se fecharão em breve

E que das minhas mãos jamais se apagará a tinta.

Vi demasiadas vezes o Dragão subir ao céu no primeiro equinócio

E lançar-se no abismo quando o Verão acaba.

A terceira linha do hexagrama Lî mostra-me como o sol a declinar,

Esquecido da minha cítara de argila

E lamentando-me como um velho, que sou.

E, no entanto, há muitos anos, no palácio,

Senti atrás de mim o deslizar de uns sapatos de seda.

Quando me voltei, vi um rosto branco como a magnólia,

E para sempre os meus olhos guardaram o seu doce veludo.

Ninguém sabe, ninguém vê,

Só a minha mãe,  ao morrer,

Descobriu as pétalas que caíam com as minhas lágrimas,

E suspirou.

Não voltei a ver a princesa tão perto,

E confunde-me que ela seja ainda em mim ausência e presença,

Sobretudo neste dia de Outubro,

Em que do sudoeste sopra um vento diferente,

Escutado também pelos olhos do esquilo no ramo do salgueiro.


A princesa, a mais bela das filhas do imperador,

Partiu de manhã, no meio da névoa,

E a sua liteira era escoltada por muitos cavaleiros.

Julgava o pai que, dando-a em casamento a um governante inimigo,

Salvaria o Norte do país das incursões armadas,

O que não sucedeu.

Tudo isto registei, há muito, no Livro da História,

Poe ser essa a função de um calígrafo da corte.


Diz Li Shang-Yin

Que nunca se deve deixar abrir o coração com as flores da Primavera,

Pois uma polegada de amor é uma polegada de cinza.


Poema de Maria Amélia Neto


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publicado às 22:47


#1167 - Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10

Rosa Lobato Faria morreu aos 77 anos

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publicado às 22:04


#1166 - Revista Ler já nas bancas

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10

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publicado às 21:49


#1165 - Prémio Vergílio Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10



A Universidade de Évora decidiu distinguir, na 14ª edição do Prémio Vergílio Ferreira, a escritora Luísa Dacosta.

 

In Jornal Público

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publicado às 21:36


#1164 - O artigo de Mário Crespo - As sequelas

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10

O jornalista Mário Crespo garante que, na alegada conversa entre o primeiro-ministro, o ministro dos Assuntos Parlamentares e o ministro da Presidência foi referido também o nome de Medina Carreira como um "outro problema a solucionar".

 

A revelação foi feita durante uma intervenção nas jornadas parlamentares do CDS-PP, em Guimarães. O jornalista foi convidado para falar sobre o primeiro ano de presidência de Barack Obama, mas esgotou quase todo o tempo a falar das referências pouco elogiosas que Sócrates lhe terá feito durante um almoço na terça-feira da semana passada, num restaurante em Lisboa.

"Era preciso solucionar o problema Mário Crespo e Medina Carreira", disse Mário Crespo, referindo-se à alegada conversa que lhe foi relatada por uma pessoa que estava noutra mesa e que o jornalista não revela. Noutra mesa, estava sentado Nuno Santos, director-geral da SIC, e a quem Sócrates se terá dirigido, repetindo as afirmações sobre os "problemas a resolver", segundo Mário Crespo.

Medina Carreira foi ministro das Finanças de um governo PS liderado por Mário Soares, mas rompeu com o partido e é hoje uma voz crítica das políticas socialistas. O economista participa no programa Plano Inclinado, da SIC-Notícias, moderado por Mário Crespo, e vai agora escrever o prefácio do livro do jornalista com as crónicas publicadas no "Jornal de Notícias".

Na intervenção, Mário Crespo teceu duras críticas ao comportamento do primeiro-ministro no dia em que o Governo apresentava a proposta de Orçamento do Estado na Assembleia da República. “Ingenuamente pensava que o chefe de Governo do meu país estaria envolvido em retoques de última hora, mas estava empenhado em produzir diagnósticos médicos sobre a minha sanidade mental. Julgo que ainda não tem credenciais nesse sentido, mas pode vir a obtê-las”, disse o jornalista, perante os deputados do CDS-PP. [In Jornal "Público"]

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publicado às 21:30


#1163 - Pomo da discórdia - O artigo de opinião de Mário Crespo

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.02.10


Mário Crespo cessa colaboração no JN

O jornalista Mário Crespo foi até ontem colaborador de opinião do Jornal de Notícias. Essa colaboração cessou por sua vontade. Acontece que, no domingo à noite, o director do JN o contactou dando-lhe conta das dúvidas que lhe causava o texto que Mário Crespo enviara para publicação no dia seguinte. Basicamente, no entender do director do JN o texto de Mário Crespo não era um simples texto de Opinião mas fazia referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante.

Da conversa entre o director e o colaborador do jornal resultou que este decidiu retirar o texto de publicação e informou que cessava de imediato a sua colaboração com o jornal, o que a Direcção do JN respeita.

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Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”.

 

O Artigo de opinião de Mário Crespo in "público"

Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.


Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa.

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Mário Crespo acusa o governo de o tratar como "um problema" In "i"

"Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil ('um louco') a necessitar de ('ir para o manicómio'). Fui descrito como ‘um profissional impreparado’". […] Definiram-me como "um problema" que teria que ter 'solução'". As frases são de um artigo publicado hoje na página da internet do Instituto Francisco Sá Carneiro e foram escritas pelo jornalista Mário Crespo. De acordo com uma nota de rodapé no artigo em questão, a crónica deveria ter sido hoje publicada na imprensa - Mário Crespo escreve todas as segundas-feiras no Jornal de Notícias -, mas da edição do jornal consta apenas o texto do outro cronista do dia: Honório Novo, deputado do PCP.

No texto, Mário Crespo descreve uma alegada conversa a 26 de janeiro, durante um almoço que reuniu o primeiro-ministro, José Sócrates, o ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, e um "executivo de televisão", na qual terá sido "o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor", afirma, acrescentando que a conversa lhe foi relatada, tendo sido depois confirmada pelo próprio.

"Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): '(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)'", escreve o jornalista, e acrescenta ainda ser considerado pelo governo "um problema que tem que ser solucionado", tal como os casos já testemunhados da jornalista Manuela Moura Guedes, do ex-director da TVI, José Eduardo Moniz, do ex-director do jornal Público, José Manuel Fernandes, e do comentador político da RTP, Marcelo Rebelo de Sousa, todos eles dados como exemplo.

"O 'problema' Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi 'solucionado'. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser 'um problema'. Foi-se o 'problema' que era o diretor do Público. Agora, que o 'problema' Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, […] abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada", sublinha.

Mário Crespo disse entretanto ter suspendido a colaboração com o Jornal de Notícias devido à recusa de publicação do seu artigo, que deveria constar da edição de hoje do jornal diário.
Contactado pelo i, José Leite Pereira, director do JN, recusou fazer qualquer comentário sobre o assunto.

 

*** Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico” ***

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publicado às 23:01

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