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#1983 - Anna Akhmatova

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.05.16

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ANNA AKHMATOVA

 

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.

Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros

a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: "Os teus

ombros de clepsidra..." E eu sentia esse rumor límpido, que levava

as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita

inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar

pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram

os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta

apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas

esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos

perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem

com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul

que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski

nos vinha explicar: "a rima é a forma canonizada, métrica

da eufonia." E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido

entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher

aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou

iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo

que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta

esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria

os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia

que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei

um jardim e olhei as pegadas deixadas há muito nos caminhos. Pensei

nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia ver-se

alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam

da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessava estes corredores

vegetais. Tornava-se maior a minha sombra

em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde

            ficou um pano

estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei

a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio

uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito

agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue

nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas

de um livro. - Ficou caída sobre os joelhos esta manta cujas pregas

componho devagar; atravessada  pelo frio húmido, desce até ao soalho  que

           cuidadosamente

enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: "Espero a noite

e os cavalos que a seduzem." A noite... É nela que irei procurar os limites

silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se

sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo

nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece

quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que

             ficaram esquecidas.

Era assim que começava um poema ?  Tornaram-se mais cansados os

             gestos. Apenas sei

que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora

os meus passos são de água.

 

Poema de Fernando Guimarães in [Casa: O seu desenho, 1986]

 

 

 

 

 

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publicado às 21:15


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