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#1969 - A miséria das palavras

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.16

 Jorge de Sena

 

A MISÉRIA DAS PALAVRAS

 

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,

na liberdade.

 

Se a miséria e a pobreza

fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,

a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,

viria a liberdade por acréscimo,

sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

 

Assim, apenas se fala do que se não fala,

apenas se vive do que não se vive,

apenas liberdade é uma miséria

sem nome, sem futuro, sem memória.

 

E a miséria é isso: não imaginar

o nome que transforma a ideia em coisa,

a coisa que transforma o ser em vida,

a vida que transforma a língua em algo mais

que o falar por falar.

 

Falem. Mas não comigo. E sobretudo

sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,

no silêncio que à linguagem faz

imaginar-se mais que o próprio mundo.

 

Poema de Jorge de Sena in "Antologia Poética" escrito em 5 de Agosto de 1962, edição Guimarães, Novembro de 2010

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publicado às 19:12



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