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José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.09

Croácia e República Checa

 

ACTUALIZAÇÕES


Durante este viagem entre a Croácia e a República Checa, tentei por diversas vezes actualizar o blog e dar, na hora, notícias sobre aquilo que ia vendo nos diversos lugares por onde passei. Infelizmente, o meu computador e/ou a internet não deixaram. Muito frustrante. Não sei explicar exactamente o que se passou. Sei que nas tentativas que fiz, apenas o título ficava online. Todo o texto era ignorado. Já nem falo de colocar fotos ou vídeos. Nem alimento essa ambição.

Quanto às razões disso, percebo zero. Não sei se é o sinal wireless dos hotéis que não tem capacidade, não sei se são as definições do meu macintosh ou do servidor do blog (a propósito, será que vai haver arquivo para 2009?)

É pena que tenha sido assim porque se perde o entusiasmo do momento. Perdem-se os pormenores que gostava de vos ter contado na hora e que, parte dos quais, possivelmente, já esqueci.

Ainda assim, vou tentar fazer o meu melhor. Aqui ficam notícias destas duas últimas semanas.




CROÁCIA


Cheguei a Zagreb num domingo, dia 10. Para mim, regressar a Zagreb é chegar a um dos meus lugares. Tenho muitas recordações da Ilica, da Praça das Flores, de tantos e tantos lugares dessa cidade, de tantos detalhes que me constituem, que fazem parte daquilo que sou. Chegar a Zagreb num domingo, pousar as malas no hotel e ir comer Cevapi é algo que só consigo fazer com um sorriso permanente.

Depois, encontrar os amigos, que existem por baixo da pele e que, também eles fazem parte de mim. São como o nome de uma das minhas amigas croatas: Vida.

Depois, começam a regressar à minha memória todas as palavras em croata que sei e que, no dia-a-dia, quase esqueço que sei: putovanje, zivot, ljubav.

Muito bom.

Terminei essa noite no festival Queer Zagreb, a assistir a uma peça de teatro de um grupo de São Paulo, em que cerca de uma dúzia de homens e mulheres meio despidos e meio vestidos com túnicas romanas falavam das virtudes da homossexualidade. A maioria dos actores eram croatas e falavam em croata, com um painel electrónico a passar o texto em português.

Na segunda-feira, foi dia de apresentação. Quando foi marcada, estava prevista para a Universidade de Zagreb. No entanto, a Universidade está ocupada pelos alunos há cerca de um mês. Estão em protesto contra as propinas. Estão espalhados pela cidade, junto aos semáforos, com cartazes que dizem “Buzine pela educação”. Na Universidade, quando passei por lá, jogava-se às cartas e havia altifalantes que passavam o “the eye of the tiger”. Assim, a apresentação passou para o Centro de Língua do Instituto Camões em Zagreb. Falei apenas em português porque a audiência era composta exclusivamente por alunos de português (e portugueses em Zagreb). Correu muito bem. O Centro de Língua Portuguesa é novo. Na última vez que estive em Zagreb ainda não existia. É fruto de um trabalho que, estou certo, encheria de orgulho todos os portugueses que o conhecessem.

Outra coisa que, de certeza, surpreenderia muitos portugueses seria saberem que, na Croácia, há mais de 400 alunos de português. Com óptimo domínio da língua, acrescente-se. Quantos alunos de croata existirão em Portugal? E quantos existirão no Brasil?

Para ir ao encontro de mais alguns desses alunos, fui para Zadar, na costa do Adriático. O centro de Zadar fica numa península. Com o tempo muito bom, sol, calor, havia bastante gente a nadar mesmo no centro da cidade (eu inclusive). Não creio que existam muitas universidades no mundo que fiquem a pouco mais de dez metros do mar. Esse é o caso da Universidade de Zadar. A vista das janelas é um mar muito azul e, lá ao fundo, ilhas. Na universidade, os alunos em greve, dividiam-se entre as esplanadas e os mergulhos no Adriático. Foi aí que participei nas jornadas ibéricas onde, além de mim, participaram um autor galego, um asturiano, um catalão e uma autora das Ilhas Canárias que escrevia em castelhano. Em conjunto, fizemos uma leitura num lugar impressionante chamado Arsenal. Li em português o conto “Eu e as poetisas”, cuja tradução croata (feita por alunos da Universidade de Zadar) ia sendo projectada numa tela atrás de mim. Transcrevo o texto abaixo para que o conheçam. Além disso, entreguei prémios aos alunos que se distinguiram pelas melhores traduções de português e, no final, dei uma entrevista para o jornal cultural Zarez.

De todas as vezes em que estive na Croácia, nunca tinha tido a oportunidade de visitar Zadar, apesar de já ter ouvido falar bastante. É, sem dúvida, um daqueles lugares inesquecível (como toda a costa e ilhas da Croácia, aliás). Eu, pelo menos, não irei esquecer Zadar.



VIENA

A viagem de avião entre Zagreb e Praga tinha uma escala em Viena. Era pouco o tempo para mudar de avião, por isso, saí a correr à procura da entrada para o voo entre Viena e Praga. Cheguei ofegante e a senhora da Austrian Airlines disse-me que o meu lugar não estava confirmado. Fiquei perplexo. Tratava-se de um overbooking... Após uma espera, confirmou-se que não estava confirmado. Era de noite e, por isso, levaram-me para um hotel no centro de Viena, onde fiquei a esperar o próximo voo para Praga (sete da manhã). Acabou por não ser mau de todo porque me deu a oportunidade de passear um pouco por Viena e ir beber um copo (dois) com o meu amigo Michael. Mas, ainda assim, confesso que não percebo qual a lógica do overbooking. Alguém me consegue explicar por que motivo as companhias aéreas vendem mais bilhetes do que o número de lugares que têm no avião?



REPÚBLICA CHECA

Assim, cheguei a Praga pouco antes da hora em que tinha de ir para a Feira do Livro. No início da tarde, apresentava a edição checa de “A Criança em Ruínas”, traduzido por Vlastimil Váne e publicado pela editora Dauphin (www.dauphin.cz), com o título “Díte V Troskách”. Vi pela primeira vez essa edição no tram (eléctrico, troley?) já a caminho da feira do livro. Quando puder, hei-de tentar afixar aqui a capa dessa edição, é de um azul-céu e tem uma imagem de Jan Horacek, onde surge um monte de fotografias a preto e branco. A apresentação foi muito simpática. Falei sobre o livro, li “Arte Poética” e li este poema, que talvez já conheçam e que transcrevo aqui em checo (sem acentos checos):


kdyz se prostíral stul, byvalo nás pet:

muj otec, má matka, mé sestry

a já. pak se má starsi sestra

vdala. pak se má mladsi sestra

vdala. pak muj otec zemrel. dnes,

kdyz se prostírá stul, je nás pet,

krome mé starsi sestry, která je

u sebe doma, krome mé mlasdsi

sestry, která je u sebe doma, krome mého

otce, krome mé ovdovelé matky. kazdy

z nich je prázdné místo u tohoto stolu, kde

jídám sám. ale vzdycky budou zde.

kdyz se bude prostírat stul, bude nás vzdycky pet.

dokut jeden z nás zustane nazivu, bude nás

vzdycky pet.


Tradução de Vlastimil Váne.

 

 

Após o lançamento, houve autógrafos. Além da edição checa de “A Criança em Ruínas”, autografei também o Nikdo se Nedívá, que é como se chama o “Nenhum Olhar” em checo e que foi traduzido em 2004 pela Desislava Dimitrovová.

Logo a seguir, fui participar num debate com uma escritora belga e um escritor grego, moderado por uma jornalista checa, sobre “Literature across the media”. Aquilo que se pretendia era que se falasse sobre projectos com meios para lá do livro. A belga trabalhava com vídeo, o grego fez um livro com um fotógrafo, eu falei do “Antídoto” e dos Moonspell, das letras para cantores, do Intermezzo, do trabalho com coreógrafos, fotógrafos, etc. No dia seguinte, saiu um artigo a resumir o que foi dito no jornal da Feira do Livro de Praga.

No fim de semana, tive oportunidade de passear um pouco pela maravilhosa cidade de Praga.

Na segunda-feira, apanhei o comboio das 13 horas para Brno. Na vez anterior em que estive em Praga, tinham-me falado bastante de Brno, mas não tinha tido oportunidade de me deslocar até lá. Tinha expectativas e foram todas cumpridas. Apesar de ter ficado pouco tempo (o suficiente para almoçar, apresentar o livro e voltar para Praga), gostei muito de Brno. O livro foi apresentado na sala subterrânea de um bar perante algumas dezenas de pessoas. Voltei a fazer leituras, mas falei bastante mais do que em Praga. O público colocou mais questões e ainda nos rimos todos um pouco. Além disso, venderam-se todos os livros que havia e autografei uma boa parte deles, assim como mais alguns romances em checo.

Em princípio, o meu próximo romance a ser traduzido para checo será “Uma Casa na Escuridão”. Seja como for, espero reencontrar os amigos checos antes disso. Quando cheguei a casa, já tinha vários “pedidos de amizade” vindo da República Checa (e da Croácia) no facebook e no myspace. Assim, é mais fácil dizer “até breve”.




AGRADECIMENTOS

Acho que não é necessário escrever aqui os nomes das pessoas que me convidaram, traduziram e acompanharam nesta viagem pela Croácia e pela República Checa. Sinto uma gratidão imensa, comparável apenas à amizade que lhes guardo.



IMAGENS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS


Na próxima semana, regresso aos Estados Unidos, onde vou participar de conversas sobre “The Implacable Order of Things” (“Nenhum Olhar”) em Boston e Nova Iorque. Estou muito curioso acerca da Universidade de Harvard e das pessoas que encontrarei por lá. Acredito que será memorável.


Conto que li em Zadar

Este conto foi publicado originalmente no Jornal de Letras. Depois, revisto e publicado no volume "Hoje Não", que foi oferecido com a revista Sábado.

 
 

EU E AS POETISAS

 

Ninguém entendia a melhor poetisa do Quirguistão. Não porque ela não fosse fluente em várias línguas, mas porque falava demasiado baixo. Na fila do almoço, com um prato e talheres, enquanto esperava para servir-se de salmão fumado, uma tradutora finlandesa dobrava-se toda sobre a melhor poetisa do Quirguistão para tentar ouvi-la e, talvez, entendê-la. Cheguei a falar com o romancista mais promissor da Estónia sobre isto. Estávamos no alpendre da casa de madeira onde existia um bar. Eu cheguei para fumar um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia já lá estava. Era um vulto semi-iluminado com mais de um metro e noventa. Tínhamos falado antes, mas não estávamos completamente à-vontade. O silêncio e a noite trouxeram-nos uma intimidade que não estávamos preparados para suportar. Foi ele que começou a falar de qualquer assunto sem importância. Talvez tenha falado de algo que o historiador fascista e escandaloso da Itália fez ou exigiu. Quando não tínhamos assunto, podíamos sempre falar das últimas novidades do historiador fascista e escandaloso da Itália. Quando não sabíamos nenhuma novidade, podíamos sempre perguntar por ele. Enquanto o romancista mais promissor da Estónia falava, o fumo do meu cigarro ondulava numa coluna branca que terminava no centro dos seus olhos. Eu desviava o cigarro, ele desviava o rosto, mas o capricho do fumo, como uma vontade humana e sólida, dirigia-se sempre aos seus olhos. Foi num desses momentos, depois de mais silêncio, que resolvi falar-lhe da melhor poetisa do Quirguistão. Falei-lhe da sua dificuldade em fazer-se entender e do seu ar vagamente misterioso, misterioso porque vago. O romancista mais promissor da Estónia olhou-me com embaraço e respondeu meio concordando, meio divergindo. Fiquei com a sensação de que tinha sido indiscreto e, não tendo mais nada para dizer, voltámos a partilhar o silêncio. Felizmente, apareceu o escritor exuberante da República Checa. Pediu-me um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia aproveitou para sair. Entre dentes, menos que sussurrando, disse que ia à casa de banho, mas, por cima do ombro do escritor exuberante da República Checa, vi-o juntar-se a um grupo de pessoas que conversavam encostadas ao balcão.

Na manhã seguinte, enquanto passeava nas margens do lago, descalço sobre a relva, cruzei-me com a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia. Seria difícil saber exactamente no raio de quantos quilómetros não havia nenhuma mulher mais atraente do que ela. Apesar de não haver resposta, essa questão era válida e ela sabia-o. Talvez fosse por isso que a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia era pouco simpática, ou talvez fosse por ser pouco simpática que, numa contradição vulgar da natureza, se tornava atraente. Quando me cumprimentou, estremeci. Já tínhamos sido apresentados, mas não esperava que reparasse em mim. Foi ela que começou a falar. Com um inglês com sotaque da Lapónia, disse qualquer coisa com que concordei. Sorri. Disse mais qualquer coisa e voltei a concordar. Voltei a sorrir. Quando chegou o silêncio, perguntei-lhe pelo historiador fascista e escandaloso da Itália. Ela riu-se e respondeu que, naquele dia, ainda não tinha tido nenhuma notícia dele. Ela riu-se. Estava tudo a correr-me bem. Nesse momento, eu estava consciente de que aquilo que estávamos a fazer tinha, no contexto internacional, o agradável nome de flirt. Eu sabia que havia revistas especializadas, com páginas inteiras de publicidade a perfumes, que teorizavam sobre essa questão em artigos com títulos como: 10 conselhos práticos sobre o que deve fazer durante o flirt, 10 conselhos práticos sobre o que não deve fazer durante o flirt. Enquanto o riso dela esmorecia, como a água do lago junto dos nossos pés, eu arrependia-me de nunca ter prestado a atenção devida a essas revistas e a única certeza que parecia apertar-me o peito era a necessidade de evitar o silêncio. Foi apenas com essa motivação que lhe falei da melhor poetisa do Quirguistão. Perguntei-lhe se conseguia entender alguma palavra daquilo que ela dizia. O rosto da poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia desfez-se e voltou à sua altivez. Como se não percebesse porque estava ainda a falar comigo, despediu-se rígida e continuou o seu caminho, contornando o lago. Sozinho, com as sandálias na mão, fiquei a vê-la afastar-se.

Passou a manhã e passou a tarde. Telefonei para casa e disse que estava com saudades. Foi já ao início do serão, quando todos esperavam o jantar. Estava sentado numa cadeira nas traseiras da casa de madeira onde existia um bar, apreciava a vista sobre o lago e entregava-me a pensamentos do tamanho da paisagem. De repente, saindo disparada pela porta, a melhor poetisa do Quirguistão veio a caminhar directa para mim. Sorri-lhe, mas ela não me sorriu de volta. Quando começou a falar, levantei-me porque achei que seria falta de educação continuar sentado. O rosto dela era sério enquanto falava. Das suas palavras, eu não conseguia entender mais do que um sussurro incompreensível. Ela, no entanto, não se calava. Erguia o indicador à frente do meu rosto e agitava-o com convicção. Do seu rosto asiático, percebi claramente que estava irritada. Aos poucos, foram saindo pela porta da casa de madeira várias pessoas que se paravam a olhar para nós. Em momentos, procurando compreensão, eu olhava para eles e encolhia os ombros. Nenhum deles reagia. A melhor poetisa do Quirguistão continuava a falar para mim como se aquilo que tinha para dizer não se esgotasse nunca. Ao mesmo tempo, agitava o indicador diante do meu rosto como se procurasse a melhor maneira de espetar-mo num olho. Não passou muito tempo até que estivesse uma multidão reunida junto à porta da casa de madeira. O romancista mais promissor da Estónia comentava qualquer coisa que a escritora finlandesa que vive na Noruega e que escreve em norueguês sobre a Finlândia escutava com atenção. A editora da Macedónia olhava-me com desdém. O escritor exuberante da República Checa parecia enjoado. A poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia olhava-me como se fosse fulminar-me. Desisti de entender a melhor poetisa do Quirguistão e, pouco depois, ela desistiu de falar para mim. Começou a afastar-se e, quando passou entre a multidão, houve vários que a tentaram confortar. Quando entrou na casa de madeira, todos a seguiram.

O único que ficou, que me sorriu e que caminhou na minha direcção foi o historiador fascista e escandaloso da Itália. Satisfeito, passou a mão pela careca, cumprimentou-me e, após poucos minutos, perguntou-me se queria ser seu amigo.

 

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publicado às 16:02


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