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# 1934 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.04.15

paisagem com inundação.jpg

CANÇÃO DE BOAS-VINDAS

 

Esta é a tua mamã, este é o teu papá.

Bem-vindo sejas, carne e sangue da mamã e do papá.

Porque estás tão triste, pá?

 

Esta é a tua comida, esta é a tua bebida.

E também uns pensamentos, se a filosofia te é querida.

Bem-vindo sejas a tudo o que há na vida.

 

Esta é, praticamente limpa, a folha da tua vida.

Embora a modos que tarde, a ela sejas bem-vindo.

Sê, em todo o caso, bem-vindo.

 

                              *

 

Este ó teu cheque do mês, pagas tanto de alojamento.

Da natureza, o dinheiro é o quinto elemento.

Bem-vindo sejas a cada cêntimo.

 

Este é o teu enxame  e o teu formidável cortiço.

Bem-vindo sejas ao lugar onde além de ti

vivem quase cinco biliões de castiços.

 

Bem-vindo sejas à lista telefónica onde o teu nome é protagonista.

Os dígitos são o desígnio oculto da democracia.

Bem-vindo sejas ao teu direito a seres notícia.

 

                                         *

 

Este é o teu casamento, este é o divórcio.

Bom, a ordem é que não podes alterar.

Bem-vindo sejas ao casório; e mete-o onde não aleijar.

 

Esta é a tua lâmina da barba, esta é a veia do pulso.

Bem-vindo sejas ao terrorismo para teu próprio uso;

chama à peça "O Meu Médio Oriente Avulso".

 

Este é o teu espelho, a tua brancura dental.

No teu sonho há um polvo abissal.

Porquê esse grito animal?

 

                             *

 

Esta é a tua malga das pipocas, a tua televisão está ali ao lado.

O teu candidato está a passar um mau bocado.

Bem-vindo sejas ao seu arrazoado.

 

Esta é a tua varanda para veres os carros passar.

O teu cão olha-te contrito por tudo de merda sujar.

Bem-vindo sejas ao que diga para se justificar.

 

Estas são as tuas cigarras, além um passarinho,

a lágrima ao canto do olho cai dentro do chazinho.

Bem-vindo sejas a um infinito maninho.

 

                              *

 

Estes são os teus comprimidos no tabuleiro ambulante,

a tua desenganada radiografia arrepiante.

És bem-vindo a rezar daqui em diante.

 

Este é o teu cemitério, num vale que tratam bem.

Bem-vindo sejas à voz que diz "Ámen".

É o fim da linha, meu bem.

 

Este é o teu testamento e estes são uns quantos

beneficiários. Na igreja estão vazios os bancos.

Esta é a vida depois de ti, ou nem tanto.

 

                                *

 

E estas são as tuas estrelas que continuam a gostar muito

de brilhar como se nunca tivesses existido.

Lá terão as suas razões, meu menino.

 

Este é o teu post-mortem, sem sequer um rasto

de ti, especialmente do teu rosto.

Sê bem-vindo, e chama-lhe espaço.

 

Sê bem-vindo a onde não há ar para respirar. Mais,

dessa forma, o espaço assemelha-se ao que está por baixo,

e Saturno segura a coroa e a faixa.

 

Poema de Iosif Brodskii escrito em 1992 e retirado do livro "Paisagem com Inundação" edição Edições Cotovia 2001

 

 

 

 

 

 

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publicado às 18:31



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