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Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.09



DIFERENÇAS (OU OS PEQUENOS BRILHOS)


Quando eu morrer, a diferença já não:

o próximo fulgir da estrela: igual,

na panela fervente o vegetal

à mesma temperatura. Quando eu morrer,

a minha rua será a mesma rua,

a luz do candeeiro: luz igual.

Os meus livros terão as mesmas cores,

as mesmas letras, os mesmos sinais,

tal como na cozinha os pontos cardeais

serão os mesmos onde quer que eu for:

aqui, botão do gás, ali os pratos

a flores discretas, recém-arrumados,

e do lado direito (simbólico o seu estado),

máquina de lavar. Quando eu partir,

as coisas ficarão como devem ficar.

Perder-se-á, é certo, da cozinha

o seu nível onírico e de inspiração:

nunca mais o fogo a dizer versos,

nunca mais o fogão: sem ser, sendo, fogão.

Para além disso, as rendas serão rendas,

as gavetas, gavetas. E, como é óbvio,

as janelas, janelas de entrar luz.

E o incêndio que vi nesta parede

(Tróia onde mil Cassandra a convidar)

ceder-se-á ao sítio onde o sonhei e pus.

Ou seja: no papel. Que ficará.

Que, como livro: anel interestelar,

como cebola à espera de um luar

que outros olhos não vêem. Mas seduz.

Quando eu partir, a diferença já não.

Só um fulgir de som? Só zunido de abelha

sobre flor? Minúsculo cavalo na parede

em ínfimo esplendor?

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publicado às 12:28



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