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Martin Steiner

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.09

FERNANDO PESSOA, LISBOA ODER UMGEKEHRT

FRENANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

 

Boa tarde, Álvaro de Campo.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no engraxador da Rua de Santa Marta.

Os teus jogos de mão são um soneto

perfeito e acabado, evocando brilhos

em que Lisboa se revê -

lusitana, lascivamente cortejada

com olhos de alçapão.

O Tejo a teus pés engole as lágrimas

negras aqui choradas

pelas vítimas de conquistadores armados de gravata.

Boa tarde, Alberto Caeiro.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no cauteleiro de camisa azul,

aquele com os discos de suor nos sovacos.

Como um profeta, prometes na Baixa a toda a gente

o céu na terra.

A tua voz ardente de fadista atravessa-se

entre as casas,

para nos fazer tropeçar nos sons guturais

e cair nos braços da tristeza ferida,

atordoados do bacalhau.

Boa tarde, Ricardo Reis.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no guarda-freio da linha 12.

Brilha em ti a criança através das lunetas

quando travas e aceleras o cometa de lata,

sedento de carris, e os passageiros pensam

que chegou o Juízo Final.

Arrastas-te por Alfama, vais-lhe deixando cair

no coração as tuas odes nocturnas,

ancorando os seus dias no devaneio,

apesar da miséria.

Agosto de 1997

Poema traduzido por João Barrento

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publicado às 18:18



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