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O que é ser enfermeiro em Portugal

Onze enfermeiros dão a cara e falam sobre o seu dia a dia, entre horários loucos, noites sem dormir, salários baixos e agressões nas urgências

LER AQUI O ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA VISÃO DA RESPONSABILIDADE DE SÍLVIA CANECO

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publicado às 17:52


#2962 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.19

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para peceber a falta dela

 

Afonso Cruz in «Paralaxe», crónica publicada no Jornal JL, edição n.º 1261, de 30 de Janeiro a 12 de Fevereiro e 2019

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publicado às 18:45


2961 - RETRATO || POEMA DE CECÍLIA MEIRELES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.01.19

CECÍLIA MEIRELES (1901 - RIO DE JANEIRO / 1964 - RIO DE JANEIRO)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

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publicado às 19:48


#2960 - "TORTO ARADO", NAS LIVRARIAS EM FEVEREIRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.01.19

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ITAMAR VIEIRA JUNIOR  ||  1979

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"Torto Arado", primeiro romance de Itamar Vieira Junior e vencedor do Prémio Literário Leya 2018, vai chegar às livrarias no próximo mês de Fevereiro com a chancela da editora Dom Quixote.

 

___________________________________________________________________________________

Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra. Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.
Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.
 
FONTE - EDITORA LEYA

 

 

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publicado às 17:20


#2959 - DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.01.19

 

DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

 

Ano dezanove do século vinte e um

domingo

janeiro

vinte

inverno

lua vermelha

eclipse total para ver mais logo na madrugada

 

É dia de festa na minha terra e da grande procissão

fanfarras e bandas  pipocas e balões algodão-doce

bancas de fogaças e outros  doces "regionais"

meninas de branco vestidas

cinturadas de vermelho ou azul

cabeças coroadas de fogaças para honrar a promessa feita há séculos

varandas enfeitadas por tecidos adamascados

gente anónima e de todas as condições

verga-se respeitosamente à passagem dos andores e do pálio

e das suas bocas saem silenciosos murmúrios em forma de oração

e foguetes troam anunciando o princípio e o fim da festa

animada pelos trapezistas dos negócios ambulantes 

montados no palanque das suas viaturas anunciam 

com voz peculiar pomadas e elixir para todas as maleitas

descontos na compra de cobertores ou

de um molho de peúgas

"...não é 100, nem 90, nem 80, nem 50... se comprar agora, e ainda leva este relógio como oferta... 

vai pagar, nem mais nem menos, duas notas de 20... uma pechincha!

aproxime-se freguesa aproveite a minha boa disposição

hoje é dia de festa..."

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publicado às 22:07


#2958 - E POR VEZES ||| POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996)

 

E POR VEZES

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA IN «MATURA IDADE» - 1973

 

 

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publicado às 22:16


#2957 - UM ADEUS PORTUGUÊS ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz de ombros puros e a sombra 
de uma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta cama comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta dor portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Não tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

                               * 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti. 

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL in «NO REINO DA DINAMARCA» - 1958

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publicado às 16:41


#2956 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

 

Tu, ò Estranho,

que entras na noite

todas as noites

Braços caídos cansados de tanto procurar

A cabeça enterrada nos ombros com

o peso de tamanha tristeza.

O corpo inclinado, cansado

com vontade de desistir.

 

Todas as noites 

entras na noite

buscas nos becos e esquinas

um pouco de paz,

uma luz que aqueça o coração

uma estrela  que acolha os destroços da tua alma

uma flor com pétalas regadas com tuas lágrimas

 

Todas as noites

entras pela noite

em busca de um sonho

que perdeste algures e não sabes onde.

 

Até que numa noite

a noite entre dentro de ti.

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publicado às 00:55


#2955 - DIA DE DESCANSO [POEMA DE FERNANDO LEMOS]

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.01.19

FERNANDO LEMOS | 3 DE MAIO DE 1926

 

DIA DE DESCANSO

 

Hoje reservo o dia inteiro para chorar

É o domingo decadente    em que muitos

esperam pela morte de pé

É o dia do sarro que vem à boca da medocridade

circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos

dos amores que deram em estribilhos

das correrias pederásticas para o futebol em calções

mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10%

de desconto em todo o vestuário

 

E choro    choro    porque a coragem

não me falta para tudo isto e assisto

na nega de me ceder ao braço dado

 

Precisarei de um cansaço mas

lá estavam espertas

as mil e não sei quantas lojas abertas

para mo vender!

 

Mas hoje é domingo

Lá está o chão reluzente de martírio

e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter

já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

 

E choro de coragem    isto é

as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos

Falo cristalinamente sózinho

procurando entre as paredes e as varandas que vão cair

algum acaso    isto é

o eco, de qualquer drama vazio

 

Espero como quem espera

o momento de posse entre dois ponteiros

de torneira em torneira nas súplicas febris

em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas

para as não cortar em gritos 

Espero e entretanto o mundo não se cansa

de me dar drogas para dormir e criar

novelos de lã à volta do coração

Não me lastimo   grito

Quero que estas correntes da boca se tornem úteis

e não ficar pr'aqui moldado estátua

em verdete  de ser chorado

A tropeçar onde não há perigo

com calçado duro a pisar as nuvens

neste tão estreitado mundo

 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso

podem pensar os homens das ideias revolucionárias

e choro

choro de coragem e para os microfones da revolução

As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento

por amor ao chão da terra que me pisam

 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução

alheia às tais guerras de papel químico

 

Espero sem esperança mas certo

do que espero como de saber  que um homem

não chora    e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar

porque é domingo e o que espero não é a morte de pé

talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

 

Uma vez era ainda pequeno

chorei ao ver um prédio desabitado

Moro nele mesmo aos domingos e rio-me

das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas

Sei que nada adianta

Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno

Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar

ao choro da coragem de esperar

 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado

um grito afinal terá assim o seu eco

 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente

até que a noite me venha

cobrir o corpo de abafo quente

 

Então sairei à procura da prostituta cega

para lhe contar junto ao peito

como as pessoas se comportam aos domingos

 

POEMA DE FERNANDO LEMOS in «Teclado Universal» - 1963

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publicado às 19:24


#2954 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

Há idiotas que gostam de se ouvir. Julgam-se  capazes de falar sobre tudo mas não entendem o que dizem.

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publicado às 23:04

 

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publicado às 21:22


#2952 - FESTA DAS FOGACEIRAS | SANTA MARIA DA FEIRA | 20 DE JANEIRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

FESTA DAS FOGACEIRAS EM HONRA DO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO, 20 DE JANEIRO, SANTA MARIA DA FEIRA

 

 
 
 
 

AS FOGAÇAS E OS CALADINHOS - PERCURSOS

 

Com percursos históricos diferentes e motivações sociais, culturais, políticas, religiosas e psicológicas bem diversas, as fogaças e caladinhos que conhecemos e adoptamos como um dos ex-libris do concelho de Santa Mara da Feira, são, hoje, extremamente importantes para a economia de algumas unidades industriais e comerciais da cidade.

 

As fogaças e caladinhos encerram dentro de si uma parte importante da nossa história enquanto testemunhos da nossa memória colectiva. Mas, mais importante do que as formas, os sabores e os gestos que ensinam as receitas, é permitir que cada porção de farinha, de açucar, de ovos e manteiga seja a descoberta da alma, das emoções, dos conflitos, da dor, morte, esperança e vida do  povo anónimo das Terras de Santa Maria.

 

Houve, nos séculos XV e XVI, uma grande epidemia. E o povo foi dizimado. E aqueles que restaram levantaram os braços e os olhos em direcção ao Céu e dirigiram as suas súplicas carregadas de fé ao mártir S. Sebastião. E fizeram promessas e empenharam as suas vidas.

 

O mártir sorriu. E o sorriso limpou-lhes a alma e as lágrimas. E as lágrimas transfiguraram-se  e tomaram a forma de fogaças.

 

E, todos os anos, no dia 20 do mês de Janeiro, somos cúmplices e testemunhos vivos de uma promessa que nos pediram para cumprir. E cumprimos. Por isso descemos à cidade e enfeitamos as velhas ruas do burgo e damos-lhe vida, cor e emoções. E vivemos a História, e aprendemos que a Fogaça não é apenas um símbolo, mas toda a alma do povo das Terras de Santa Maria.

 

E, ao enterceder, quando a penumbra do dia confunde os rostos e transforma as sombras em silhuetas, o povo junta-se em pequenos grupos e regressa a casa transportando consigo as fogaças e caladinhos. Durante a viagem relembram momentos já passados e contam histórias que fazem parte da História da cidade. E recordam, a propósito de caladinhos, os anos 30, a polícia política, as tertúlias na Farmácia Araújo, e a perspicácia do Augusto Padeiro. E contam como simples biscoitos passaram do anonimato para a ribalta da glória.

 

"...Um dia, à noite, aqui em Santa Maria da Feira, o Augusto Padeiro e seus empregados estavam a fazer biscoito sortido com forma arredondada e achatada. De repente, entraram elementos da polícia política e o Augusto Padeiro, com medo, disse aos empregados: Shiu! Calados!.

Um dos elementos da Polícia perguntou: - Porque disse calados?

O Augusto Padeiro, respondeu: Porque estamos a fazer Calados. Estes biscoitos são os Caladinhos"...

 

E de memórias em memórias, sob a égide do castelo altaneiro, num ritual marcado pelo tempo, o povo cumpre o voto e, de uma forma cúmplice e intimista, ergue o olhar ao Céu e o Santo sorri.

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publicado às 21:06


#2951 - A INVENÇÃO DO AMOR (POEMA DE DANIEL FILIPE)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

 

Nasceu a 11 Fevereiro 1925
(CaboVerde)
Morreu em 06 Abril 1964
 

A INVENÇÃO DO AMOR

 

                    La nuit n'est jamaiis complète

                    Il y a toujours puis por entre anúnciosque je le dis

                   Puisque je  l'affirme

                 Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

                Une fenêtre éclairée

                                                  Paul Éluard

 

Em todas as esquinas da cidade

nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes

na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém

no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga

um cartaz denuncia o nosso amor

 

Em letras enormes do tamanho

do medo da solidão da angústia

um carataz denuncia que um  homem e uma mulher

se encontraram num bar de hotel

numa tarde de chuva

enttre zunidos de conversa

e inventaram o amor com carácter de urgência

deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

 

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e

fome de ternura

e souberam entender-se sem palavras inúteis

Apenas o silêncio A descoberta A estranheza

de um sorriso natural e inesperado

 

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna

Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente

embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta

de um amor subitamente imperativo

 

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia

colado em todas as esquinas da cidade

A rádio já falou a TV anuncia

iminente captura A polícia de costumes avisada

procura os dois amantes nos becos e avenidas

Onde houver uma flor rubra e essencial

é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

 

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

 

Chamem as tropas aquarteladas na província

Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva

Todos Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências

O perigo justifica-o Um homem e uma mulher

conheceram-se amaram-se perdeream-se no labirinto da cidade

 

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los

antes que seja demasiado tarde

e a memória da infância nos jardins escondidos

acorde a tolerância no coração das pessoas

 

Fechem as escolas Sobretudo

protejam as crianças da contaminação

Uma agência comunica que algures ao sul do rio

um menino pediu uma rosa vermelha

e chorou nervosamente porque lha recusaram

Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão

Aplicado no entanto Respeitador da disciplina

Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos

Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado

e submetido a um tratamento especial de recuperação

Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital

que o diagnóstico se faça no período primário da doença

E também que se evite o contágio com o homem e a mulher

de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

 

Está em jogo o destino da civilização que construímos

o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial

o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos

a verdade incontroversa das declarações políticas

 

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários

precisamos da sua experiência onde quer que se escondam ao temor do castigo

 

Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem

Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes

À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem

Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil

não precisam de dar o nome e a morada

e garante-se que nenhuna perseguição será movida

nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio

comissões de vigilância. Está em jogo a cidade

o país a civilização do ocidente

esse homem e essa mulher têm de ser presos

mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

 

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais

a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da correspondência

Em qualquer parte da cidade um homem e mulher amam-se ilegalmente

espreitam a rua pelo intervalo das persianas

beijam-se soluçasm baixo e enfrentam a hostilidade nocturna

É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los

 

Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de baterr

É possível que cantem

Mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou

deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas

E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra

respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz

Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos

Água simples correndo A brisa nas montanhas

 

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior

Mas caminhou cantando para o muro da execução

foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele

um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

 

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los

nos campos de futebol no  silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa

Não estarão nunca aí Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece

A identificação é fácil Onde estiverem estará também pousado sobre a porta

um pássaro desconhecido e admirável

ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa

Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa

Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente

dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro

e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

 

Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto

Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós

É preciso nesse caso ter a coragem para desfechar na fronte o tiro indispensável

Não há outra saída A cidade o exige

 

Se um homem de repente interromper as pesquisas

e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão

já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja

matai-o  Mesmo que tenha comido à vossa mesa crescido a vosso lado

matai-o  Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda

os seus olhos vos fitem com sobre-humana naúsea

e deslizem depois numa tristeza líquida

até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeia

uim só golpe mortal misericordioso basta

para impor   o silêncio secreto e inviolável

 

Procurem a mulher o homem que num bar

de hotel se encontraram numa tarde de chuva

Se tanto for preciso estabeleçam barricadas

senhas salvo-condutos horas de recolher

censura prévia à Imprensa tribunais de excepção

Para bem da cidade do país da cultura

é preciso encontrar o casal fugitivo

que inventou o amor com carácter de urgência

 

Os jornais da manhã publicam a notícia

de que os viram passar de mãos dadas sorrindo

numa rua serena debruada de acácias

Um velho sem família a testemunha diz

ter sentido de súbito uma estranha paz interior

uma voz desprendendo um cheiro a primavera

o doce bafo quente da adoslecência longínqua

No inquérito oficial atónito afirmou

que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte

e caminhavam envoltos numa cortina de música

com gestos naturais alheios   Crê-se

que a situação vai atingir o clímax

e a polícia poderá cumprir o seu dever.

 

Um homem uma mulher um cartaz denúncia

A voz do locutor definitiva nítida

Manchettes cor de sangue no rosto dos jornais

 

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS

ANTES QUE SEJA TARDE

 

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado

a vida igual a sempre conversas de negócio

esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis

Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado

ou marinheiro em terra afogar a distância

no corpo sem mistério  da prostituta anónima

Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher

amam-se espreitam a rua  pelo intervalo das persianas

constroem com urgência o universo do amor

E é preciso encontrá-los   E é preciso encontrá-los

 

Importa  perguntar em que rua se escondem

em que lugar oculto permanecem resistem

sonham meses futuros continentes à espera

Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice

abrigo fraternal deixam correr o tempo

de sentidos cerrados ao estrépito das armas

Que mãos desconhecidas apertam as suas

no silêncio pressago da cidade inimiga

 

Onde quer que desfraldem o cântico sereno

rasgam densos limites entre o dia e a noite

E é preciso ir mais longe

destruir para sempre o pecado da infância

erguer muros de prisão em círculos fechados

impor a violência a tirania o ódio

 

Entanto das esquinas escorre em letras enormes

a denúncia total do homem da mulher

que no bar em penumbra numa tarde de chuva

inventaram o amor com carácter de urgência

 

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

 

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade

o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas

encerramos o aeroporto patrulhamos os cais

há inspectores disfarçados em todas as gares de caminho de ferro

 

É na cidade que é preciso procurá-los

incansavelmente sem desfalecimentos

Uma tarefa para um milhão de habitantes

todos são necessários

todos são necessários

Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial

e o ministro das Finanças

tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

 

Depois das seis da tarde é proibido circular

Avisa-se a população de que as forças da ordem

atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja

depois daquela hora Esta madrugada por exemplo

uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia

um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados

disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu

Tinta trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso

O Cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas do Governo pelo engano cometido

Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer

Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático

e depois o homem e a mulher que a polícia procura

representam um perigo para nós e para a Grécia

para todos os países do hemisfério ocidental

Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo

que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida

sujo insignificante e porventura bêbado

 

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

 

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher

escondidos em qualquer parte da cidade

Repete-se é indispensável encontrá-los

Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa

destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo

Apela-se para o civismo de todos os habitantes

A questão está posta     É preciso resolvê-la

para que a vida reentre na normalidade habitual

 

Investigamos nos arquivos     Nada consta

Era um  homem como qualquer outro

com um emprego de trinta e oito horas semanais

cinema aos sábados à noite

domingos sem programa

e gosto pelos livros de ficção científica

 

Oa vizinhos nunca notaram nada de especial

vinha cedo para casa

não tinha televisão

deitava-se sobre a cama logo após o jantar

e adormecia sem esforço

 

Não voltou ao emprego o quarto está fechado

deixou em meio as «Crónicas marcianas»

perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade

à saída do hotel numa tarde de chuva

O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer

que se trata de uma rapariga até aqui vulgar

Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota

Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo

Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência

era bem paga e tinha semana inglesa

passava as férias na Costa da Caparica

 

Ninguém lhe conhecia uma aventura

Em quatro anos de emprego só faltou uma vez

quando o pai sofreu um colapso cardíaco

Não pedia empréstimos ba Caixa    Usava saia e blusa

e um impemeável vermelho no dia em que desapareceu

 

Esperam por ela em casa duas cartas de amigas

e o último número de uma revista de modas

a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos

 

Ficou provado que não se conheciam

Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva

sorriram inventaram o amor com carácter de urgência

mergulharam cantando no coração da cidade

 

Importa descobri-los onde quer que se escondam

antes que seja demasiado tarde

e o amor como um rio inunde as alamedas

praças becos calçadas     quebrando as esquinas

 

Já não podem escapar       Foi tudo calculado

com rigor matemáticos      Estabeleceu-se o cerco

A polícia e o exército estão a postos    Prevê-se

para breve a  captura do casal fugitivo

 

(Mas um grito de esperança inconsequente vem

do fundo da noite envolver a cidade

au bout du chagrin une fenêtre ouverte

une fenêtre eclairée)

 

POEMA DE DANIEL FILIPE  in "A Invenção do Amor e Outros Poemas")  1961

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publicado às 18:40


#2950 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.01.19

 

Há noites melancólicas

em que dispo o sonho e

com as suas roupas visto a alma

dispo o desejo

cubro o corpo

fico refém da ignorância

quando não tenho resposta à pergunta

feita pela noite que entra de mansinho na madrugada para

não acordar o medo

 

E na horizontal me fico

olhos cravados no céu do quarto

à procura de uma estrela que acolha as inquietações

que não me largam

agarram-se à pele

talvez por gostarem do perfume que uso

vou mudar ou não usar ou

aspergir um repelente daqueles que afastam

os pequenos vampiros alados

não sei

talvez resulte

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publicado às 11:48


#2949 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

 

O silêncio não existe porque é  o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve,  para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não  os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA IN «RELÂMPAGO DE NADA», 2004

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publicado às 21:27


#2948 - POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua própria substância de cinzas e sangue petrificado, a habitação em que a fénix poderá renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lançar-se  a um trabalho para o qual a disposição ainda não surgiu, mas que poderá despertar os impulsos da construção solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A construção está envolta numa espessa bruma e não há nela sinais de figuras ou formas, porque essa névoa é o próprio nada da confusão inicial e o fim de toda a construção como possibilidade de vida e de renovo. É do obscuro fundo da retina que surge um ténue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da construção e  a faz palpitar e estremecer. O construtor poderá então discernir algumas linhas de força, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarificação. Haverá um momento em que ele sentirá que o edifício dança porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, é já a fénix que resplandece no fulgor da edificação e na plenitude do ser e do olhar na sua mútua criação

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA in "O Aprendiz Secreto", 2001

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publicado às 20:12


#2947 - AH, PODER SER TU, SENDO EU! [POEMA DE RUY BELO]

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.19

AH, PODER SE TU, SENDO EU!

 

Ei-lo que avança

de costas resguardadas pela minha esperança

Não sei quem é. Leva consigo

além de sob o braço o jornal

a sedução de ser seja quem for

aquele que não sou

E vai não sei onde

visitar não sei quem

Sinto saudades de alguém

lido ou sonhado por mim

em sítios onde não estive

Há uma parte de mim que me abandona

e me edifica nesse vulto que

cheio de ser visto por mim

é o maior acontecimento

da tarde de domingo

Ei-lo que avança e desaparece

E estou de novo comigo

sobre o asfalto onde quero estar

 

POEMA DE RUY BELO RETIRADO DE "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES" -  EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 15:55

JONATHAN LITTELL

Respostas de Jonathan Littell retiradas de uma entrevista conduzida por Luciana Leiderfarb e publicada na revista "E" - A Revista do Expresso, Edição 2410, de 5 de Janeiro de 2019.

 

"... Ele (Trump) faz-me lembrar Nixon - embora Nixon fosse muito mais inteligente. Trump é um homem estúpido, parece um daqueles mestres de cerimónia de circo ou de feira [carnival barkers], que berram aos megafones para atrair pessoas."

______________________________________________________________________________________

Observação da jornalista quando pergunta  ("A História não ensina nada?") Foram sentimentos desse tipo que, em muitos casos, mataram os nossos avós.

Resposta: Sim, e pera isso existem milhares de razões. Uma delas é que a globalização tornou algumas pessoas muito, muito ricas, enquanto outras ficaram muito, muito pobres, à beira da miséria. As pessoas estão assustadas, e por estarem assustadas são permeáveis a todo o tipo de discurso populista e xenófobo, à extrema-direita nacionalista. Veja o que se passa com o «Brexit»: é um dado objectivo que a saída do Reino Unido da União Europeia vai arruinar uma economia já de si bastante frágil, mas vence o argumento de que «as pessoas» escolheram este caminho. Isso é mentira, que «pessoas» são essas? O sistema educativo do país é disfuncional há duas gerações, há desemprego de longa duração, há gente que jamais teve um emprego na vida e cujos pais e avós nunca tiveram. Que tipo de decisão informada pode esta gente tomar sobre a UE? O que lhes interessa a UE?

__________________________________________________________________________________________

"... Vamos estar demasiado ocupados em sobreviver. Se nada mudar, podemos até ter uma guerra na Europa. É matemático: se não fizermos nada acerca das alterações climáticas, as previsões são catastróficas. Agora temos um milhão de migrantes. Imagine 20 ou 30 milhões, a virem de toda a parte, porque as suas regiões foram destruídas. Nessa altura, toda a gente se vai passar, e muito sangue vai ser derramado. E as democracias ocidentais vão sucumbir nos seus valores elementares - o que é típico da forma como os seres humanos gerem as coisas. Criamos todos estes brinquedos, estes computadores, estes smartphones, e nem sabemos como os usar. Uma das mais complexas conquistas da humanidade é utilizada para tirar selfies e fotografias de comida, que partilhamos nas redes sociais.

"(...) Amplificado (egocentrismo)  por estas máquinas, que foram desenhadas para aumentar os traços mais negartivos das pessoas. Gostemos ou não do  comunismo, o movimento que o originou foi o das pessoas a unirem-se e a tentarem mudar a sociedade. O mesmo acontece com as democracias: é sempre a acção colectiva que faz o mundo avançar. Todos estes brinquedos estão a conduzir à desintegração da sociedade, cada um está a olhar para si próprio, a entreter-se a tirar fotografias. Nesse contexto, as pessoas mais estúpidas ficam muito vulneráveis a tipos como Trump ou Bolsonaro. E as pessoas  inteligentes estão demasiado ocupadas com as selfies para empreender algum tipo de acção. Então, quando Lisboa se tiver afundado no Oceano Atlântico, vão poder fotografar-se enquanto se afogam e vai ser genial! Vão com certeza captar momentos muito bonitos."

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publicado às 17:50


#2945 - ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.01.19

EUGÉNIO DE ANDRADE | 1923-2005

 

ENCONTRO NO INVERNO COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Com as aves aprende-se a morrer.

Também o frio de janeiro 

enredado nos ramos não ensina outra coisa

- dizias tu, olhando

as palmeiras correr para a luz.

Que chegava ao fim.

E com ela as palavras.

Procurei os teus olhos onde o azul

inocente se refugiara.

Na infância, o coração do linho

afastava os animais de sombra.

Amanhã já não serei eu a ver-te

subir aos choupos brancos.

O resplendor das mãos imperecível.

 

POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE IN "HOMENAGENS E OUTROS EPITÁFIOS".

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publicado às 18:15


#2944 - O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.01.19

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CHARLES BUKOWSKI

 

O MAIS FORTE ENTRE OS ESTRANHOS

 

não os encontrarás com regularidade

pois não se encontram

onde se encontra 

a multidão

 

estes seres ímpares,

não há muitos

mas deles

vêm

os poucos

bons quadros

as poucas

boas sinfonias

os poucos

bons livros

e outras

obras.

 

e dos

melhores

entre os estranhos

talvez

nada.

 

eles são

os seus próprios

quadros

os seus próprios

livros

a sua própria música

as suas próprias

obras.

 

às vezes penso

que

os vejo - por exemplo

um determinado

velho

sentado num

determinado banco de jardim

de uma determinada 

forma

 

ou

uma cara fugaz

num carro

que passa

em direcção

contrária

 

ou

há um certo

gesto de mãos

do rapaz ou

da rapariga

a embalar compras

em sacos

de supermercado.

 

às vezes

até é alguém

com quem se vive

há algum

tempo - 

dás conta de

um fugidio

olhar luminoso

que nunca lhes viras

antes.

 

às vezes

apenas notas

a sua existência

subitamente

e de forma vívida

alguns meses

alguns anos

depois de

partirem.

 

lembro-me 

de um caso

assim -

ele tinha

cerca de 20 anos

bêbedo

às 10 da manhã

a fitar

um espelho partido

em Nova Orleães

 

cara sonhadora

contra

as paredes 

do mundo

 

para

onde

fui eu?

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI IN "OS CÃES LADRAM FACAS" - EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:21


#2943 - ECLESIASTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.12.18

1.

 

Palavras de Eclesiastes, filho de David, rei de Israel em, Jerusalém.

 

Vacuidade de vacuidades - disse o  Eclesiastes -,

Vacuidade de vacuidades: todas as coisas <são> vacuidade.

Que vantagem existe  para o ser humano

Em todo o seu esforço com que se esforça debaixo do Sol?

Uma geração passa; e uma geração chega;

E a terra fica de pé para sempre.

O sol nasce e o sol põe-se;

E transita para o seu lugar.

Nascendo lá, vai para sul

E vai em círculo para norte.

Circula circulando; o vento sopra.

E, nos ciclos dele, o vento regressa.

Todas as torrentes fluem para o mar;

E o mar não ficará repleto.

Para o lugar, para onde vão as torrentes,

Aí elas voltarão a ir.

Todas as palavras <estão> gastas.

Um homem não conseguirá falar;

E um olho não ficará satisfeito por ver;

E um ouvido não ficará satisfeito por causa da audição.

Aquilo que aconteceu, isso mesmo irá acontecer.

E aquilo que foi feito, isso mesmo será feito.

Nada existe de novo debaixo do Sol.

Quem dirá e afirmará: «Eis que isto é novo»?

<Isso> já aconteceu nas idades

Que existiram antes de nós.

Não existe memória de <pessoas> anteriores,

Nem dos que nasceram depois.

Não haverá memória deles

Junto dos que forem os últimos a nascer.

Eu, Eclesiastes, fui

Rei sobre Israel em Jerusalém

E ofereci o meu coração à procura

E à indagação, na sabedoria, acerca de todas as coisas

Que existem debaixo do céu.

Pois uma preocupação negativa

Deus ofereceu aos filhos do ser humano:

Preocuparem-se com essa <preocupação>.

Observei todos os feitos

Que foram feitos debaixo do Sol:

E eis que todas as coisas são vacuidade e demanda de vento.

Coisa torta não conseguirá ser endireitada;

E o que está em falta não conseguirá ser contado.

Eu falei no meu coração, dizendo:

«Eis que fiquei engrandecido

E proporcionei sabedoria a todos

Os que estavam diante de mim em Jerusalém;

E meu coração viu muitas coisas  - sabedoria e conhecimento.»

E ofereci meu coração a conhecer sabedoria e conhecimento:

Conheci dizeres e <conheci o > saber;

Pois também isto é demanda de vento.

Pois em abundância de sabedoria <está> abundância de conhecimento;

E quem aumenta conhecimento aumenta sofrimento.

 

Sinais utilizados no texto

< >  = entre parênteses angulares o tradutor coloca palavras subentendidas, mas não explícitas, no texto original

 

EXCERTO DO LIVRO DE ECLESIASTES, TRADUÇÃO DE FREDERICO LOURENÇO

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publicado às 18:29


#2942 - MINHA RUA DE INVERNO

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

É fim de tarde na minha rua de inverno

os pardais saúdam o agasalho das folhas

dentro de casa faz o tempo que se quiser

primavera verão ou outra estação qualquer

no sofá um livro espreita pela frincha da almofada

o gato espreita o voar de uma borboleta que se perdeu no caminho

o corpo elástico já esticado à espera

o telefone toca não atendo para mim não é eu sei

e os pardais recolhem ao abrigo das folhas das árvores da minha rua de inverno

restos de água de nuvens feridas limpam a alma da rua

a luz pública acende e ilumina pequenos lagos onde brilham estrelas coloridas.

 

É fim de tarde na minha rua

a noite chega montada em camelos como nas histórias de natal

sem ouro incenso ou mirra e a minha rua não tem neons

apenas palavras escritas que explicam o que se faz lá dentro

e dentro das casas que acompanham a minha rua nada sei

apenas especulações sobre silêncios, ruídos que transpiram dor prazer mágoas aconchegos

É noite na minha rua de inverno e a primavera já começa a gatinhar

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publicado às 19:54


#2941 - ODE DO HOMEM DE PÉ (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.12.18

 

ODE DO HOMEM DE PÉ

 

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo

pelos passos lentos como o rolar dos anos

pelos dias vulgares cheios de maçãs

pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco

pelas crianças mal vestidas para a vida

nos bicos dos pés te saúdo

pela paixão que transferiu campaspe

do amor de alexandre então dono do mundo

para o coração de apeles pintor pobre

que tinha como dom o simples dom de olhar

por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos

pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

 

Oh como o sofrimento purifica minha rua

Ele passa-nos as mãos por todo o corpo

desce por nós como um olhar de mãe

e a mais agasalhada vida vê-se nua

 

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos

chove a meu lado atrás de mim na minha frente

Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva

peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto

aquela que a seu lado é demolida

onde eu pecador me confesso e agradeço

este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira

passadas já segunda terça e quarta

e poder erguer as duas mãos acima da terra

rua onde passaram meus pais

onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos

onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã

e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi

rua onde tudo ganhei tudo logo perdi

onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores

e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações

que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças

onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de                                                                                                                                                     todos os dias

e muitas outras coisas que depois esqueci

rua que me levaste a tanto sonho vão

que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer

bem pouco basta minha rua para faze feliz o homem:

acender por exemplo repentinamente a luz

na sala onde pairava um certo mal-estar

o que dissipa como que para sempre a sua triste condição

Ou então na morte do escritor amigo recitar

o elogio fúnebre de há muito preparado

que se haverá de matar ainda mais o morto

e ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida

A inquiteção que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz

quando de pernas excessivamente livres

cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos

quando se me exigia o sacrifício dos olhares

e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida

Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua

ao fim de ti nem mesmo há já esse equeno almoço

aonde pelo menos qualquer coisa começava

Não disponho de alento para muitos anos

Sinto-me velho nasci em 33 estamos em 60

vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar

incapaz de lutar mandar obedecer

como que fiquei sempre à espera da maioridade

 

É tempo de assistir aos funerais dos amigos

começo a estar bom para jazer

«bom é acabar» - dizia o vice-rei

Já sou de deus deixei de ter idade rua

ele passou a ser a minha própria idade

não me levouu em conta o céu antecipado

e se algum dia porventura alguma criatura me moveu

o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua

Se título algum tive já me vai caindo

só deus é minha veste e minha história

Que ele me abra ó rua a porta da palavra

 

Agora que por fim alguém em sua voz me chama

pelos rostos presentes pelo grande ausente

que me livrou num tempo de injustiça por tudo

ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo

 

POEMA DE RUY BELO IN "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 16:36


#2940 - PRÉMIO LITERÁRIO VERGÍLIO FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.18

© Leonardo Negrão/Global Imagens

 

Universidade de Évora distingue Nélida Piñon com Prémio Vergílio Ferreira.
 

O Prémio Vergílio Ferreira 2019 atravessou este ano o Atlântico, tendo sido atribuído à escritora Nélida Piñon. Este galardão, instituído em 1996, incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio.

 

 

Numa edição que contou com candidaturas oriundas de 4 países, o júri decidiu atribuir este ano o prémio a Nélida Piñon, tendo ficado escrito em ata que “o Prémio Vergílio Ferreira 2019 foi atribuído à escritora Nélida Piñon pela latitude e profundidade da sua obra, que revela uma linguagem capaz de estabelecer e harmonizar um diálogo fértil entre a memória feminina e a História”.

O júri do Prémio que pretende homenagear o escritor de “Aparição” é composto este ano por Fernando Cabral Martins (Prof. Universidade Nova de Lisboa), Ângela Fernandes (Prof. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Anabela Mota Ribeiro (Jornalista), Cláudia Afonso Teixeira (Prof. Universidade de Évora), e Antonio Sáez Delgado (Prof. Universidade de Évora, presidente).

A cerimónia de entrega do Prémio acontece no dia de 1 março, data em que se assinala a morte do escritor, contando com as habituais intervenções da premiada, do júri e da reitora da Universidade de Évora.

Recorde-se que o prémio Vergílio Ferreira foi atribuído pela primeira vez a Maria Velho da Costa, a que se seguiram, entre outros, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa Luís, Vasco Graça Moura, Mário Cláudio, Luísa Dacosta, José Gil, Hélia Correia, Lídia Jorge e João de Melo, tendo sido o galardoado da edição de 2018 o escritor Gonçalo M. Tavares.

 

PRÉMIO VERGÍLIO FERREIRA

O Prémio Vergílio Ferreira, instituído pela Universidade de Évora em 1997, destina-se a galardoar anualmente o conjunto da obra literária de um autor de língua portuguesa. relevante no âmbito da narrativa e/ou ensaio. Este prémio é entregue a 1 de março, no mesmo dia em que se assinala o aniversário da morte do seu patrono e autor de 'Aparição'.

Gonçalo M. Tavares
Gonçalo M. Tavares
Ano: 2018
 
Teolinda Gersão
Teolinda Gersão
Ano: 2017
 
João de Melo
João de Melo
Ano: 2016
 
Lídia Jorge - Prémio Vergílio Ferreira 2015
Lídia Jorge
Ano: 2015
 
Ofélia Paiva Monteiro
Ofélia Paiva Monteiro
Ano: 2014
 
Hélia Correia - Prémio Vergílio Ferreira 2013
Hélia Correia
Ano: 2013
 
José Gil - Prémio Vergílio Ferreira 2012
José Gil
Ano: 2012
 
 Maria Alzira Seixo - Prémio Vergílio Ferreira 2012
Maria Alzira Seixo
Ano: 2011
 
Luísa Dacosta - Prémio Vergílio Ferreira 2010
Luísa Dacosta
Ano: 2010
 
Mário de Carvalho - Prémio Vergílio Ferreira 2009
Mário de Carvalho
Ano: 2009
 
Prémio Vergílio Ferreira 2008 - Mário Cláudio
Mário Cláudio
Ano: 2008
 
Vasco Graça Moura - Prémio Vergílio Ferreira 2007
Vasco Graça Moura
Ano: 2007
 
Fernando Guimarães - Prémio Vergílio Ferreira 2006
Fernando Guimarães
Ano: 2006
 
Manuel Gusmão - Prémio Vergílio Ferreira 2005
Manuel Gusmão
Ano: 2005
 
Agustina Bessa-Luís - Prémio Vergílio Ferreira 2004
Agustina Bessa-Luís
Ano: 2004
 
Vítor Manuel de Aguiar e Silva - Prémio Vergílio Ferreira 2003
Vítor Manuel de Aguiar e Silva
Ano: 2003
 
Óscar Lopes - Prémio Vergílio Ferreira 2002
Óscar Lopes
Ano: 2002
 
Eduardo Lourenço - Prémio Vergílio Ferreira 2001
Eduardo Lourenço
Ano: 2001
 
Almeida Faria - Prémio Vergílio Ferreira 2000
Almeida Faria
Ano: 2000
 
Mia Couto - Prémio Vergílio Ferreira 1999
Mia Couto
Ano: 1999
 
Maria Judite de Carvalho - Prémio Vergílio Ferreira 1998
Maria Judite de Carvalho
Ano: 1998
 
Maria Velho da Costa - Prémio Vergílio Ferreira 1997
Maria Velho da Costa
Ano: 1997
 
 

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publicado às 22:11


#2939 - Do sul da Europa para o Sudeste da América

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.12.18

São 2 horas de uma madrugada recente. Sinto-me perdido na geografia do planeta,  até que vos encontrei mais a sul, num pequeno ponto situado entre a terra e a água.

Apoiados na varanda do 21.º,  vós estais debruçados sobre o mar e o canal que escorre quase a vossos pés, e seguis distraídos o ronronar dos motores das pequenas  embarcações, e observam a poética sinfonia das cores do pôr-do-sol a procurar o descanso na jangada que o espera na última curva do mar. E os vossos corações acolherão mansamente  o ouro, o incenso e a mirra que ofertarão a quem dele necessitar.

Do sítio mais meridional da Europa para todos vós, quer estejam em Aventura, Orlando ou Boca Raton, um extraordinário

e singelo dia de Natal.

Saudades!

 

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publicado às 16:24


#2938 - O PRÍNCIPE DOS PRÍNCIPES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.18

"Eis-me aqui, perante Vós...

Curvo-me respeitosamente e saúdo-vos."

Perante mim, está um homem simples e despojado dos símbolos que identificam o poder e o seu exercício, que o pratica generosamente e com parcimónia, respeitando e protegendo os mais débeis em idade, saúde e condição social e cuja lâmina da espada escondida na bainha apenas é empunhada em caso de legítima necessidade.

 

Neste tempo - o tempo da imbecilidade e da ignorância legitimadas como se fossem virtudes - a mentira passou a ser a verdade, e o ódio contra tudo o que é diferente causa dor, sofrimento e muitas vezas a morte.  A política passou a ser o palco privilegiado do exbicionismo, do folclore e das cabeças despovoadas. Porque o mais importante é não ter ideias e apenas repetir o que o povo quer ouvir:

 

- o sol na eira e chuva no nabal

 

é isso que o povo deseja e disso  apenas fazem eco.

 

Mais uma vez, curvo-me perante a inteligência e a sensatez  das vossas decisões sem olhardes a privilégios e baseadas numa sólida formação intelectual e literária, cujas inquietações vós acalmais na companhia dos clássicos gregos e latinos - os vossos preferidos -  passando pela grande literatura russa do século XIX e princípios do século XX, os grandes romancistas americanos - das duas Américas -  e ingleses, e, claro, a literatura portuguesa, o ensaio, a poesia, os grandes pensadores. A filosofia vós a usais quando as perguntas que fazeis a vós próprios, ou a vós por outros feitas, têm uma resposta que não  conheceis.

 

Curvo-me respeitosamente, porque sois justo e recto e aceitais os erros que cometeis. E nunca renegastes o vosso humilde nascimento e pobre origem, e o local onde nasceste a ele regressais quando podeis para visitar vossos pais.

E, perante eles vos curvais, respeitosamente, porque a eles a vida deveis. E, de novo, subireis as encostas da serra na companhia do vosso pai e do velho cão conduzindo o gado por caminhos e veredas que tão bem conheceis. E ainda sabeis os nomes que désteis, quando  criança, aos vários penedos que bordejam o caminho.

 

Celebro a vossa honestidade intelectual.

 

Saúdo-vos

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publicado às 19:36


#2937 - PRÉMIOS LITERÁRIOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.18

 

Marília Garcia, escritora brasileira, foi a vencedora do Prémio Oceanos de Literatura de Língua Portuguesa, com o livro "Câmara Lenta"

 

Poeta brasileira Marília Garcia conquista o primeiro lugar no Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa de 2018

Em decisão inédita, três poetas estão entre os quatro vencedores. Os premiados foram: os portugueses Bruno Vieira Amaral e Luis Quintais e o moçambicano Luís Carlos Patraquim, além da autora brasileira. E Patraquim passa a ser, na história do Oceanos, o primeiro escritor de Moçambique a ficar entre os ganhadores.

Lisboa, 7 de dezembro de 2018 – Em cerimônia realizada hoje no Palácio da Ajuda, em Lisboa, com a presença do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, da ministra da Cultura portuguesa, Graça Marques, e do diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, o Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa anunciou os quatro vencedores de 2018: uma brasileira, dois portugueses e um moçambicano,consagrando escritores de três continentes e aprofundando o processo de internacionalização do prêmio.

 

 

________________________________________________________________________________________________________

 

PRÉMIO INCM/VASCO GRAÇA MOURA

 

José Luís Tavares, escritor cabo-verdiano, vence Prémio INCM/Vasco Graça Moura com o livro de poesia "Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio"

 

Vaco Graça Moura

Vasco Graça Moura (foto: Rita Carmo)

 

PRÉMIO INCM/VASCO GRAÇA MOURA

INCM criou o Prémio INCM/Vasco Graça Moura, dando continuidade à sua missão, enquanto editora pública, de promoção e preservação do património da língua e da cultura portuguesas e, simultaneamente, homenageando a figura incontornável e exemplar de Vasco Graça Moura enquanto cidadão, intelectual e antigo administrador da empresa responsável pelo pelouro editorial.

O galardão terá uma periodicidade anual e visa distinguir, rotativamente, trabalhos inéditos nas áreas de atuação onde Vasco Graça Moura se destacou, nomeadamente, na Poesia, no Ensaio (no domínio das Humanidades) e na Tradução (obras no domínio público).

O júri deste Prémio, cuja composição desde a 1.ª edição se tem mantido inalterada, é constituído por:

José Tolentino de Mendonça (Presidente)
    ;
Jorge Reis-Sá
    ;
Pedro Mexia
    .

Além do valor pecuniário, o Prémio INCM/Vasco Graça Moura contempla ainda a publicação da obra vencedora pela INCM.

PRÉMIO INCM/VASCO GRAÇA MOURA 2018


4.ª Edição - Poesia

OBRA VENCEDORA

Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio

José Luís Tavares

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publicado às 11:49


#2936 - 7 O'clock News / Silent Night

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

 

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publicado às 20:00


#2935 - SILENT NIGHT

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

SILENT NIGHT

É inverno nas praias do Ocidente.
As ondas rasgam as areias finas da costa e são
violentas,
iradas,
medonhas.
Que viram elas das terras por onde passaram?
Orgulhos,
preconceitos,
luxúrias,
indiferenças e
ossos que rasgam ventres de fome,
olhos mortos de nada verem,
esperanças dizimadas em
canos de armas,
futuros que não conhecerão o dia de amanhã.

É Natal, e o mundo continuará a girar
até ser novamente Natal.

E depois, 

regressarão os dias

do esquecimento 

e da indiferença

até ser novamente Natal.

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publicado às 19:53


#2934 - Para quem acredita, e para quem não acredita

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

Um bom Natal!

 

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publicado às 19:35


#2933 - "MENSAGENS TROCADAS" DE ALEXANDRA DE PINHO

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.12.18

alexandrade pinho024.jpg

Alexandra de Pinho, pintora, expõe na Sala de Exposições da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira o seu mais recente trabalho denominado "Mensagens Trocadas".

A exposição está patente ao público de 15 de Dezembro de 2018 a 26 de Janeiro de 2019.

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publicado às 18:44


#2932 - RY COODER | PARIS, TEXAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.18

 

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publicado às 16:30


#2931 - PRÉMIO LITERÁRIO FERNANDO NAMORA 2018

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.12.18

Carlos Vale Ferraz foi o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora 2018 com o romance "A Última Viúva de África"

 

Um dos mais importantes romances sobre a guerra colonial

2018-05-10 / Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz, com nova edição a 17 de maio.

Carlos Vale Ferraz lança A Última Viúva de África

2017-09-12 / A partir da história real de uma mulher portuguesa que não quis abandonar a sua nova pátria, o autor procura compreender as linhas do processo de descolonização africano.

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publicado às 11:02


#2930 - A FALA DO ÍNDIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.12.18

 

"Nascido no Verão de 1848 perto de onde hoje é Billings, no Montana, Plenty-Coups, ou Aleek-chea-aboosh (Many Achievements), recebeu o nome do avô, que disse: «Sonhei que ele há-de viver para contar muitos golpes e chegar a velho; disse-me o meu sonho também que ele há-de ser um chefe - o maior chefe que o nosso povo jamais terá tido»,

profecia esta que que veio a ser realizada. Plenty-Coups morreu em 1932, pouco tempo depois de ter legado ao povo norte-americano as suas terras de duzentos acres (situadas num vale do sudeste de Montana), para ali ser feito um parque que seria «um memorial da nação crow» e «um testemunho da minha amizade para com todos os povos, vermelhos ou brancos». A seu pedido, foi enterrado atrás da sua casa, no pequeno bosque de álamos que tinha plantado quando rapaz. A passagem transcrita é um excerto da sua autobiografia.

 

Por altura dos meus 40 anos, pude ver que o nosso país estava a mudar, e a mudar depressa, e que tais mudanças nos levavam a viver muito diferentemente. Todos viam então que em breve deixaria de haver bisontes nas planícies e cada qual se interrogava acerca de como poderíamos nós viver depois do  seu desaparecimento. Houve poucas expedições de guerra, e quase nenhuns ataques... Os homens brancos, com os seus búfalos pintalgados [gado vacum], cercavam-nos. As casas deles ficavam perto dos sítios de água e as aldeias junto dos rios. Tinhamos decidido mostrar-nos amigáveis para com eles, apesar de todas as transformações que provocavam. Mas isso revelou-se difícil, porque os homens brancos prometiam as mais das vezes fazer uma coisa e acabavam sempre por fazer outra.

 

Diziam bem alto que as leis deles eram para todos; mas depressa compreendemos que, embora esperassem que nóas as adoptássemos, não hesitavam eles próprios em desrespeitá-las. Disseram-nos eles que não bebêssemos uísque, embora o fabricassem eles próprios e o usassem para negociar connosco, em troca de peles e de mantas, ao ponto de estas terem praticamente desaparecido. Diziam-nos os seus doutores que adoptássemos nós a religião deles, mas quando procurámos compreendê-la vimos que entre os homens brancos havia demasiadas espécies de religião; não as podíamos compreender, e raramente dosi homens brancos se mostravam de acordo quanto a saber qual seria a religião que se deveria aprender. Coisa que bastante nos enfadou, até que vimos que o homem branco não encarava a religião com mais seriedade do que fazia com as leis, e que as guardava a ambas bem por detrás dele, como ajudantes, para as utilizar segundo as suas conveniências nas suas relações com os estrangeiros. Tais não eram as nossas maneiras. Nós conservávamos as leis que tínhamos feito, e vivíamos a nossa religião. Nunca pudemos pois compreender o homem branco, que só a ele se engana."

 

EXTRAÍDO DO LIVRO «A FALA DO ÍNDIO»  DE TERI C. McLUHAN, EDIÇÃO FENDA EDIÇÕES, ANO DE 1988

 

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publicado às 21:24


#2929 - A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO (POEMA DE RUY BELO)

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.12.18

RUY BELO (27 DE EVEREIRO DE 1933 | 8 DE AGOSTO DE 1978)

 

A MULTIPLICAÇÃO DO CEDRO

 

O senhor deus é espectador desse homem

Encheu-lhe o regaço de dias e soprou-lhe

nos olhos o tempo suave das árvores

Deu-lhe e tirou-lhe uma por uma

cada uma das quatro estações

A primavera veio e ele árvore singular

á beira do tempo plantada

vestiu-se de palavras

E foi a folha verde que deus passou

pela terra desolada e ressequida

Quando as palavras o deixaram de cobrir

ficaram-lhe dois dos olhos por onde

o senhor olha finitamente a sua obra

Até que as chuvas lhe molharam os olhos

e deles saíram rios que foram desaguar

ao grande mar do princípio

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO "AQUELE GRANDE RIO EUFRATES", EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, SETEMBRO DE 2018

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publicado às 23:21


#2928 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

charles bukovski os  caes ladram facas023 (2).jpg

CONSELHO

 

tal como o vento corta, outra vez, desde o mar

e a terra é assolada por tumultos e desordem

tem cuidado com o sabre da escolha,

lembra-te

o que talvez fosse nobre

há 5 séculos

ou até mesmo 20 anos

é agora

a maior parte das vezes

um acto desperdiçado

a tua vida passa uma única vez

já a história tem oportunidade atrás de oportunidade

para provar a imbecilidade dos homens.

 

Tem cuidado, portanto, diria eu,

com qualquer 

acto

ideal

ou acção

aparentemente nobre,

seja por este país ou por amor ou pela Arte,

não te deixes possuir pela proximidade do minuto

nem pela beleza ou pela política

que murcharão como flores cortadas;

amor, sim, mas não enquanto ardil do casamento,

e cuidado com comida má e trabalho excessivo;

terás de viver num país,

mas amar não é uma ordem

seja mulher seja nação;

leva o teu tempo; e bebe tanto quanto seja necessário

por forma a manter a continuidade,

porque a bebida é um modo de vida

através do qual o participante reclama

uma nova oportunidade na vida;

mais ainda, direi,

vive sozinho o máximo possível;

cria filhos se por acaso acontecer

mas tenta não ter de aguentar

criá-los; não te envolvas em questiúnculas

de mão ou voz

a não ser que o teu adversário atente contra a tua vida

ou contra a vida da tua alma; então,

mata, se necessário; e quando chegar a hora da morte

não sejas egoísta:

pensa como é económica a morte

e no lugar paraonde vais:

sem qualquer marca de vergonha ou de fracasso

ou necessidade de compaixão

como o vento corta desde o mar

e o tempo passa

erodindo os teus ossos numa paz suave.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI EXTRAÍDO DO LIVRO "OS CÃES LADRAM FACAS", EDIÇÃO ALFAGUARA, NOVEMBRO DE 2018

 

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publicado às 17:28


#2927 - Hilary Woods - Prodigal Dog

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

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publicado às 15:46


#2926- Demen - Niorum

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

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publicado às 15:39


#2925 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

Só tu sabes como

povoar o meu coração.

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publicado às 14:51


#2924 - O RESPEITO É MUITO BONITO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

Lugares sem nome

povoados por gente sem nome; 

lugares que já não têm alma

mutilados por dores invisíveis,

bocas caladas,

línguas entrevadas,

troncos curvados de tantas vénias - pois o respeito é muito bonito - diz quem manda e pode

nesta terra de "doutores".

"É a vida...  é a nossa sina..." dizem

falando para dentro

com a voz já exausta de tanto calar

e que nunca viram o cheiro do mar

neste país que  já foi de marinheiros

e hoje não têm barcos para navegar.

 

Reivindicar é uma palavra feia

que não deve ser dita nem praticada

para não incomodar o poder.

E o corpo cada vez mais baixo quase a roçar a terra

cabeças descobertas  - o respeito é muito bonito - 

os chapéus nas mãos escondem os calos dos dias duros

e ainda lhes chamam de mandriões.

 

E o mar tão perto

e não sabem

que cor e cheiro ele tem.

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publicado às 10:07


#2923 - POEMA CITRINO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.12.18

 

POEMA CITRINO

 

O poema

que nasce e cresce 

agarrado ao tronco da laranjeira e

que vai amadurecendo sob

o sol de inverno

é um poema citrino 

que pavoneia o sabor e a cor

para que alguém o prove

para não cair de podre.

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publicado às 09:54


#2922 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.18

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

 

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o  transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

O português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é a patriótica organização

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e o povo em vão requer

curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO EXTRAÍDO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL», EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 21:42

A música Reggae jamaicana foi inscrita, hoje, na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

A escolha é da responsabilidade de uma Comissão especializada da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que destacou a contribuição desta música para a  consciência internacional sobre questões de injustiça, resistência, amor e humanidade.

Bob Marley foi a figura maior do reggae jamaicano.

 

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publicado às 19:45


#2920 - O LAMENTO DA MULHER

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.18

O LAMENTO DA MULHER

 

Canto a canção de uma mágoa incessante,

A história do meu infortúnio, do peso da minha dor,

Dor do presente e dor do passado,

Dor sem fim de exílio e desgosto,

Mas nunca, desde o tempo de menina, maior do que agora.

Primeiro a agonia, quando o meu senhor partiu,

Para longe dos seus, para além do mar;

Dolorosa a tristeza ao romper da aurora,

Ansiando pelo rumor que diria em que longínqua terra,

Passando horas tão difíceis, o meu amado tardava.

Até longe vagueei então, sem amigos e sem casa,

Procurando ajuda para a minha necessidade pesada.

Com intrigas secretas  os parentes dele intentaram

Separar-nos, criando entre nós vários mundos

E ódio amargo. O meu coração ficou doente.

Com azedume, o  meu senhor ofereceu-me abrigo aqui.

Em toda esta terra poucos eram os que me amavam,

Poucos os que eram leais, poucos os que eram amigos.

Assim o meu espírito está pesado de mágoa

Por saber que o meu amado, o meu homem e companheiro querido,

Vergado pela má fortuna e pela amargua do coração

Mascara o seu propósito e planeia o mal.

Com os corações felizes de outrora tantas vezes nos gabámos

De que nada nos separaria, a não ser a morte;

Tudo isso falhou e o nosso antigo amor

É agora como se nunca tivesse sido!

Longe ou perto, para onde quer que fuja, para lá me segue

O ódio daquele que outrora tão querido.

Nesta floresta, ele fixaram a minha morada

Por baixo de um carvalho numa gruta de terra,

Uma velha caverna habitada em tempos antigos,

Onde o meu coração é esmagado pelo peso da minha dor.

Tristes são as suas profundezas e os penhascos que a cobrem,

Severos os seus confins com os espinhos que lá crescedram -

Uma morada sem alegria onde dia a dia a saudade

De um amado ausente traz angústia ao coração.

Amantes há que podem viver o seu amor,

Conservando alegremente o leito da felicidade,

Enquanto eu percorro a minha gruta de terra debaixo do carvalho

De um lado para o outro na aurora solitária.

Aqui tenho de sentar-me durante o longo dia de Verão,

Aqui tenho de chorar em aflição e dor;

E nunca, na verdade, o meu coração conhecerá descanso

De toda a sua agonia e de todo o seu padecimento,

Por meio dos quais o fardo da vida me prostrou.

Qualquer idade do homem está sempre sujeita à mágoa,

E os pensamentos do seu coração à amargura, ainda que os carregue com alegria;

Perturbado é o seu espírito, perseguido pelo sofrimento - 

Quer possua toda a riqueza do mundo,

Quer seja acossado pelo Destino num país longínquo.

O meu amado está sentado de alma cansada e triste,

Fustigado pela tempestade e hirto com a geada,

Numa cela desventurada sob penhascos rochosos,

Circundada por águas que o apartam - 

A mais pungente das mágoas deve sofrer o meu amado

Recordando-se sempre de um lar mais feliz.

Triste o destino daquele que está condenado a esperar

Com um coração saudoso por um amor ausente.

 

POEMA ANÓNIMO, DO LIVRO DE EXETER, SÉCULO X, REINO UNIDO

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The Wife's Lament
Verse Indeterminate Saxon


Ic þis giedd wrece bi me ful geomorre,
minre sylfre sið. Ic þæt secgan mæg,
hwæt ic yrmþa gebad, siþþan ic up weox,
niwes oþþe ealdes, no ma þonne nu.
5
A ic wite wonn minra wræcsiþa.
ærest min hlaford gewat heonan of leodum
ofer yþa gelac; hæfde ic uhtceare
hwær min leodfruma londes wære.
ða ic me feran gewat folgað secan,
10
wineleas wræcca, for minre weaþearfe.
Ongunnon þæt þæs monnes magas hycgan
þurh dyrne geþoht, þæt hy todælden unc,
þæt wit gewidost in woruldrice
lifdon laðlicost, ond mec longade.
15
Het mec hlaford min herheard niman,
ahte ic leofra lyt on þissum londstede,
holdra freonda. Forþon is min hyge geomor,
ða ic me ful gemæcne monnan funde,
heardsæligne, hygegeomorne,
20
mod miþendne, morþor hycgendne.
Bliþe gebæro ful oft wit beotedan
þæt unc ne gedælde nemne deað ana
owiht elles; eft is þæt onhworfen,
is nu swa hit no wære
25
freondscipe uncer. Sceal ic feor ge neah
mines felaleofan fæhðu dreogan.
Heht mec mon wunian on wuda bearwe,
under actreo in þam eorðscræfe.
Eald is þes eorðsele, eal ic eom oflongad,
30
sindon dena dimme, duna uphea,
bitre burgtunas, brerum beweaxne,
wic wynna leas. Ful oft mec her wraþe begeat
fromsiþ frean. Frynd sind on eorþan,
leofe lifgende, leger weardiað,
35
210
þonne ic on uhtan ana gonge
under actreo geond þas eorðscrafu.
þær ic sittan mot sumorlangne dæg,
þær ic wepan mæg mine wræcsiþas,
earfoþa fela; forþon ic æfre ne mæg
40
þære modceare minre gerestan,
ne ealles þæs longaþes þe mec on þissum life begeat.
A scyle geong mon wesan geomormod,
heard heortan geþoht, swylce habban sceal
bliþe gebæro, eac þon breostceare,
45
sinsorgna gedreag, sy æt him sylfum gelong
eal his worulde wyn, sy ful wide fah
feorres folclondes, þæt min freond siteð
under stanhliþe storme behrimed,
wine werigmod, wætre beflowen
50
on dreorsele. Dreogeð se min wine
micle modceare; he gemon to oft
wynlicran wic. Wa bið þam þe sceal
of langoþe leofes abidan.

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publicado às 20:53


#2919 - EDIÇÃO COMPLETA DA OBRA DE VITORINO NEMÉSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.18

VITORINO NEMÉSIO (19 DEZEMBRO DE 1901 - 20 FEVEREIRO DE 1978)

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) vai editar a obra completa de Vitorino Nemésio, tendo já saído o primeiro volume desta nova edição "POESIA (1916 - 1940)".

Este primeiro volume integra uma colecção com cerca de 20 que serão publicados até 2021, distribuídos em 4 séries:

poesia, teatro e ficção, crónica e diário, ensaio e crítica. Esta nova edição da INCM da obra de Vitorino Nemésio é o resultado de uma proposta da Companhia das Ilhas, uma pequena editora da ilha do Pico.

 

 

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publicado às 22:46


#2918 - O Interior - Cicatrizes na paisagem

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.18

No último declive da montanha, as casas desenhadas no granito equilibram-se  em estreitos sucalcos.

Quando se chega mais perto, o espírito funde-se nesta amálgama de cheiros, cores e sons. A cor da terra é triste - há muito tempo deixou de sentir o peso dos passos de homens, mulheres, crianças e do gado.

As casas ainda têm portas. As portas trancam memórias, abafam gemidos; e as janelas pintadas de cor vermelha gritam o vazio da respiração e do afago.

No interior apenas os sopros das sombras que animam - imitando  os gestos, as palavras, os silêncios, as mágoas, a ternura, a gargalhada dos ausentes moradores, e o crepitar  da lenha no lume da lareira -  esta espécie de teatro de marionetes manipulados por sombras, que se tornaram fantasmas por tamanha saudade de vida e de vivos. 

Nas vielas desta aldeia sem gente,  apenas se ouve o choro manso de um violino, cujas cordas são calcadas pelos dedos do vento.

Nesta paisagem dolorosamente bela,  as feridas do abandono, da renúncia e da ausênca jamais cicatrizarão. 

 

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publicado às 22:16


#2917 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.18

OS CULPADOS SÃO OS ALIENÍGENAS

 

A ponte cai, a culpa é da enguia;

A floresta arde, a culpa é do raio;

Pessoas e bens são destruídos pelo fogo, a culpa é do corisco;

A estrada é  engolida pelo vazio, a culpa é do gafanhoto;

Depois  de muitos inquéritos, investigações, comissões... as conclusões:

"Os culpados são os alienígenas."

Ponto final!!!

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publicado às 22:03


#2916 - Oráculos

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.18

 

Tu, que me vigilas do alto da tua sabedoria,

sentada na penumbra do oráculo,

para ninguém saber que és tu que

iluminas as minhas mãos e

enxugas a alma quando a

tristeza rola uma lágrima

que a tua alquimia transforma numa pérola

e, me dizes:

"guarda-a no lugar mais solar da memória".

São palavras desenhadas na boca dos séculos

que mostram as cicatrizes de feridas muito antigas

que só os sapientes, os peregrinos e os puros souberam curar e preservar

sob a forma de letras de todos os alfabetos  

que alquimistas como tu

transformaram a rude palavra da dor, da tristeza, do abandono

em pérolas que iluminaram e continuarão a iluminar os gestos

que simplificam e apaziguam a complexa humanidade.

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publicado às 21:43


#2915 - O DEUS QUE É TRANSPARÊNCIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.18

O DEUS QUE É TRANSPARÊNCIA

Ninguém me saúda nas esquinas do papel.

Nenhum deus me acompanha pelas ruas desertas.

Mas nos dedos sinto o rumor de um segredo vegetal.

É como se procurasse alargar a mão dos deuses.

É como arder com a água na brancura ofuscante

da ressaca. E as palavras da casa se levantam

a janela a porta a cama e a cadeira.

São presenças espessas e nítidas no perfil.

Assim se forma um círculo com energia erguida

nas sílabas preenchidas pela coerência do mundo.

Maternas são as sombras em torno de um centro verde

que foi talvez um deus antigo que se esqueceu

e o esquecimento é o seu signo: a transparência.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA, in «Antologia Poética», selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes, edição Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2001

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publicado às 17:12


#2914 - This Mortal Coil - Fond Affections

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.11.18

 

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publicado às 19:09


#2913 - "JURO NÃO DIZER NUNCA A VERDADE"

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.11.18

Javier Marías

Este livro reúne noventa e cinco artigos publicados por Javier Marías no suplemento dominical do El País, no período que vai de 10 de fevereiro de 2013 a 1 de fevereiro de 2015, particularmente difícil em Espanha (e Portugal).Alguns dos temas abordados têm que ver com a sociedade espanhola. Mas até esses interessam aos leitores portugueses que acompanham os episódios governamentais e políticos do país vizinho, que tem afinidades ibéricas com os portugueses.A maioria deles tem no entanto um interesse geral, como é o caso dos abusos e da corrupção governamentais, os lamentáveis hábitos criados por redes sociais como o Facebook e o Twitter, os imaginativos atropelos da gramática, o incivismo que impera nos locais públicos, a xenofobia de alguns, a superstição nas estatísticas e percentagens, a praga das selfies nos museus e a invasão da televisão por programas de culinária.Mas o autor de Coração tão Branco, Os Enamoramentos e Berta Isla revela-nos também os seus gostos e afinidades, dos clássicos de cinema até algum filme recente, as suas referências literárias privilegiadas, e a origem do seu Reino de Redonda, onde os nobres são escolhidos não pela sua perícia no manejo das armas, mas pelos talentos revelados na escrita e outras formas de arte.

Fonte: Relógio D' Água, Editores

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1. É um dos mais destacados autores espanhóis da atualidade. É autor de Los dominios del lobo, Travesía del horizonte, El monarca del tiempo, El siglo, El hombre sentimental (Prémio Ennio Flaiano), Todas las almas (Prémio Ciudad de Barcelona), deste Amanhã na batalha pensa em mim (Prémio Fastenrath, Prémio Rómulo Gallegos, Prix Fémina Étranger), Negra espalda del tiempo, Tu rostro mañana (3 volumes), Os enamoramentos e Coração tão branco (vencedor do Prémio da Crítica em Espanha, do Prix l’Oeil et la Lettre e do IMPAC Dublin Literary Award), estes dois últimos já publicados na Alfaguara).
Tem ainda editados vários livros de contos, antologias e coletâneas de ensaios e crónicas. 
Em 1997, recebeu o Prémio Nelly Sachs, em Dortmund; em 1998, o Prémio Comunidad de Madrid; em 2000, os prémios Grinzane Cavour, em Turim, e Alberto Moravia, em Roma; em 2008, os prémios Alessio, em Turim, e José Donoso, no Chile; e, em 2011, o Prémio Nonino, em Udine, e o Prémio Literário Europeu, todos eles pelo conjunto da sua obra. Entre as traduções de sua autoria, destaca-se a de Tristram Shandy.
Foi professor na Universidade de Oxford e na Universidade Complutense de Madrid. A sua obra encontra-se publicada em quarenta e dois idiomas e cinquenta e quatro países, com seis milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
É membro da Real Academia Espanhola.

Fonte: WOOK

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publicado às 18:43


#2912 - IDA VITALE VENCE PRÉMIO CERVANTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.18

Ida Vitale, poetisa uruguaia, vence Prémio Cervantes 2018, o mais importante prémio da literatura em castelhano.

Com 95 anos de idade, Ida Vitale, além de poetisa, é jornalista, tradutora e crítica literária, e tem vasta obra publicada, destacando-se "La Luz desta Memoria", "Procura de Lo Imposible", "Léxico de Afinidades", Sueños de la Constancia" e "Cada uno em su noche".

 

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publicado às 08:57


#2911 - O PRINCÍPIO DA MATÉRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.18

 

O PRINCÍPIO DA MATÉRIA

No princípio não havia nada.

Apenas silêncio negro.

Mas quando a  luz acordou a noite 

fez-se dia;

Das trevas nasceram pirilampos e

apareceram as estrelas;

Do caos e da desordem  cosmológica 

formou-se a Terra

que tomou a forma de mulher.

Trovoadas constantes lançaram sobre o seu corpo poderosos relâmpagos.

E ela engravidou.

No seu ventre formaram-se os oceanos, os mares e os rios e

... uma borboleta.

Frágil, bela, luminosa, quente...

o Sol

e com a capacidade de voar 

e assim lançar sobre a Terra as sementes que darão origem a novas borboletas

 que com o correr dos tempos,

muitas delas continuarão borboletas, 

e outras se transformarão em pássaros, peixes, mamíferos e

toda a espécie de árvores e bichos que,

hoje

voam, rastejam, nadam e caminham.

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publicado às 11:57


#2910 - UM GESTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.18

UM GESTO

«Que cansativa que a polícia é!» suspirou, Matilde, fechando a janela. Depois, sorrindo do seu próprio comentário, deu dois passos no aposento e relanceou os olhos pelo espelho, que a penumbra como que apagara. Foi aí que se lembrou de uma mulher que vira três ou quatro dias antes, ao volante de um carro que parara junto ao seu, esperando que o sinal abrisse. Aproveitando aqueles breves momentos, a mulher mirara-se no retrovisor e, depois de levar um dedo aos lábios e o molhar com a língua, passara-o pelas sobrancelhas. Matilde puxou uma cadeira para o centro da sala e sentou-se, sem conseguir deixar de pensar naquele gesto, à luz do qual todos os móveis que a cercavam pareciam ganhar raízes no seu espírito. São gestos assim que emcorpam a vida, que lhe dão espessura, pensou ela. Tinha a certeza de que, enquanto se lembrasse daquele gesto e da mulher que o executara, o instante em que o captara continuaria a existir, tal como ela naquele preciso momento existia ali, naquela sala, deliberadamente alheada do aparato policial montado nas ruas adjacentes, devido a uma qualquer concentração perfeitamente inóqua e que só no caso de nas próximas horas nada haver no mundo digno de atenção mereceria umas escassas linhas nos jornais do dia imediato. Que peso teria aquela manifestação em comparação com o gesto da mulher que passara o dedo, molhado de cuspo, pelas sobrancelhas? Saberiam aqueles homens armados até aos dentes e distribuindo barreiras de arame farpado ao longo da avenida que o que eles supunham ser «este momento» amanhã já não teria existido? As feições da mulher haviam começado, é certo a diluir-se-lhe na memória, onde, de resto, o automóvel em que ela se encontrava e mesmo o seu cabelo já não tinham qualquer cor.  Talvez esses pormenores funcionassem como catalizadores e contribuíssem para que o instante em que Matilde a entrevira através dos vidros dos dois carros se perpetuasse para além da sua contingência. Mas não. Matilde estava certa de que isso pouco importaria. Fosse a mulher loira ou morena, gorda ou magra, o que na realidade havia de marcante é  que levara um dedo à boca e às sobrancelhas e que, sem disso  poder ter tido consciência, colocara assim, ali, um travão no tempo, dando consistência a qualquer coisa sobre a qual os nossos gestos normalmente não produzem mais efeito que os de quem se industriasse a desenhar cruzes na água.

TEXTO DE LUÍS MIGUEL NAVA in Poesia Completa (1979-1994), Edição Publicações D. Quixote, Março de 2002

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Luís Miguel Nava

Luís Miguel Nava
 
Nasceu a 1957
Morreu em 1995
Luís Miguel de Oliveira Perry Nava foi um escritor português. Era bisneto de José Bressane de Leite Perry, político da monarquia constitucional e visconde de Leite Perry.
 
Luís Miguel Nava nasceu em Viseu, Portugal, em 1957. Estudou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, partindo mais tarde para Oxford, onde lecionou Português. Estreou com o volume de poemas Películas (1979), pelo qual recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou ainda as coletâneas A Inércia da Deserção (1981), Como Alguém Disse (1982),Rebentação (1984),O Céu Sob as Entranhas (1989) e Vulcão (1994). Em 1986, mudou-se para a capital belga, trabalhando como tradutor do Conselho das Comunidades Europeias. Foi assassinado em seu apartamento de Bruxelas, em 1995.

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publicado às 19:20

"O Século dos Prodígios",  ensaio de Onésimo Teotónio Almeida, trata o pioneirismo da ciência portuguesa no período dos Descobrimentos. Com este ensaio, Teotónio Almeida venceu o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História da presença de Portugal no mundo.

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publicado às 17:06


#2908 - As vozes que ouvia nos anos 70

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.18

 

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publicado às 09:51


#2907 - "ONE MORE YARD"

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.18

Evamore - One More Yard (Sinead O’Connor, Cillian Murphy, Brian Eno, Ronnie Wood, Imelda May)

One more yard era uma expressão usada pelos soldados nas suas cartas e diários, referindo-se aos avanços através da chamada terra de ninguém.

Esta música é uma homenagen aos homens que tombaram nas trincheiras da I Guerra Mundial e teve a participação de Sinéad O'Connor, Brian Eno, Robin Hood, Nick Mason e a voz do actor Cillian Murphy que lê uma carta do tenente Michael Thomas Wall.

"Eu vi os olhos cansados de homens duros cheios de lágrimas e nunca vi uma carnificina como esta, nem um único corpo humano foi deixado intacto" escreveu Michael.

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publicado às 09:10


#2906 - Joe Bonamassa & Beth Hart - I'LL TAKE CARE OF YOU

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.11.18

 

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publicado às 00:03


#2905 - Joe Bonamassa - Different Shades Of Blue - Official Video

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.11.18

 

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publicado às 23:59


#2904 - COMO USAR O SALTO (Crónica de Gonçalo M. Tavares no JL)

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.11.18

 

COMO USAR O SALTO

 

No  " sagrado uso da verticalidade", expressão utilizada por Herberto Hélder, vemos pecisamente a antítese de algo que podemos designar como Humano uso da verticalidade. Neste uso humano da elevação temos um uso instrumental, um uso bípede e racionalista da verticalidade. Estamos em pé para usar instrumentos, máquinas,  para olhar de frente para certas máquinas; até mesmo isto: para olhar de frente para certas fórmulas matemáticas, para as entender. O uso humano da verticalidade construiu as cidades, sim, e também esse edifício de material insólito: a matemática.

 

Mas há então o outro uso da verticalidade; o uso não humano, mas sagrado. Digamos que a dança, certa forma de dança, usa esse uso. Enquanto dança, o homem é vertical não para entender fórmulas ou mexer em máquinas, mas para outra coisa: para entender, tanto quanto possível, o céu e a ausência e esquecimento do corpo. Esquecer o corpo na dança é usar a verticalidade muscular para esquecer os músculos. Como se a certa altura o homem quisesse ser vertical não para ser mais alto do que os outros animais, mas para ser apenas ligeiramente mais baixo que o céu (e os seus eventuais deuses.)

 

CRÓNICA DE GONÇALO M. TAVARES NO JL-JORNAL DE LETRAS, ARTES E IDEIAS. N.º 1255, ANO XXXVIII, PÁGINA 32

 

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publicado às 17:48


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