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#3011 - FRASES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

 

Se já não te restam mais lágrimas, não chores, ri.

 

SHLOMIT LEVIN

(AVÓ DE AMOS OZ)

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publicado às 18:48


#3010 - PARAÍSO ||| Poema de David Mourão-Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

PARAÍSO

 
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

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publicado às 17:53


#3009 - NÓMADAS ||| POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

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NÓMADAS

 

Só o amor pára o tempo (só

ele detém a voragem)

rasgámos cidades a meio

(cruzámos rios e lagos)

disponíveis para lugares com nomes

impronunciáveis. É preciso percorrer os mapas

mais ao acaso

(jamais evitar fronteiras

nunca ficar para trás)

tudo nos deve assombrar como

neve

em Abril. Só o amor pára o tempo só

nele perdura o enigma

(lançar pedras sem forma e o lago

devolver círculos).

 

Poema de João Luís Barreto Guimarães, do livro NÓMADA 2018, incluído na antologia O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS - Edição QUETZAL 2019

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João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Poeta e tradutor, divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. O Tempo Avança por Sílabas reúne cem poemas selecionados pelo autor, dos dez livros que publicou até ao momento. É o seu quinto livro na Quetzal, após a publicação dos primeiros sete títulos na Poesia Reunida, em 2011, Você está Aqui, em 2013, Mediterrâneo, em 2016, ao qual foi atribuído o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, e Nómada, em 2018. A sua obra está representada em antologias poéticas e revistas literárias de numerosos países, tendo Mediterrâneo sido publicado em espanhol.

 

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publicado às 16:21


#3008 - GAIVOTA ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

GAIVOTA

 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
 
poema de alexandre o'neill

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publicado às 09:18


#3007 - LEONARDO PADURA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.19

 

A TRANSPARÊNCIA DO TEMPO

 
 

BIOGRAFIA

Leonardo Padura nasceu em Havana, em 1955. Licenciado em Filologia, trabalhou como guionista, jornalista e crítico, tornando-se sobretudo conhecido pela série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde, traduzidos para inúmeras línguas e vencedores de prestigiosos prémios literários, como o Prémio Café Gijón 1995, o Prémio Hammett em 1997, 1998 e 2005, o Prémio do Livro Insular 2000, em França, ou o Brigada 21 para o melhor romance do ano, além de vários prémios da crítica em Cuba e do Prémio Nacional de Romance em 1993. Em 2012 recebeu, também em Cuba, o Prémio Nacional de Literatura pelo conjunto da sua obra.
 
FONTE: PORTO EDITORA
 
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"A velhice nunca é boa. É feia, dolorosa, limitante. E impõe uma reflexão: será que tudo o que se fez teve algum sentido?" - Leonardo Padura

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publicado às 11:19


#3006 - CLANN - I Hold You

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.19

 

Rest now, my love It's all right The dark is gone I'm here I hold you Rest now, your heart It's all right We're all right Although you're gone I'll be here to hold you I've got you Will you breathe through me? And calm the storm inside Just breathe through me We'll keep the fires alight I'll face down the world with you Breathe through me and calm the storm inside Just breathe through me We'll keep the stars alight

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publicado às 00:02


#3005 - Ibn' Arabi - 'Alone with the Alone': Henry Corbin

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:52


#3004 - Ólafur Arnalds - So Far + So Close (ft. Arnór dan)

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:47


#3003 - Max Richter - The Trees

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:35


#3002 - Slowdive- Watch Me (Film Mix)

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:25


#3001 - POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

MÁRIO DIONÍSIO  |||  1916-1993

 

Nos despojos da cidade

atrás dos altos prédios ao avesso

veem-se telhados chaminés

negras de fumo vê-se o ferro

em movimento das gruas

 

Há gente que mora aqui

pessoas cães mortos vivos

em tugúrios fedorentos

 

Há lama e há excrementos

junto a montões gordurosos

sobre o lixo os solavancos

de amantes abjectos copulando

Rindo e saltando sobre dejetos

aqui e ali crianças brincando

que amanhã serão ladrões

 

Contra um muro em ruína

a fescura de uma flor

crescendo ingénua

 

Quem vem ela aqui fazer

entre destroços 

tão bela

 

A meus pés a vou pisar

por raiva ou por piedade

Esmago-a furiosamente

gesto viril e demente

 

para não chorar

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO POESIA COMPLETA, PÁGINA 296, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASADA MOEDA, JUNHO DE 2016, COLEÇÃO PLURAL

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publicado às 22:31


#3000 - RETRATO ||| Poema de Francisco Luís Amaro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.19

Francisco Luís  Amaro (1923-2018)

 

RETRATO

 

Um silêncio, um olhar, uma palavra:

Nasceste assim na minha vida,

Inesperada flor de aroma denso,

Tão casual e breve...

 

Já te visionara no meu sonho,

Imagem de segredo, esparsa ao vento

Da noite rubra, delicada, intacta.

E pressentira teu hálito na sombra

Que minhas mãos desenham, inquietas.

 

Existias em mim. O teu olhar

Onde cintila, pura, a madrugada,

Guardara-o no meu peito, ó invisível,

Flutuante apelo das raízes

Que teimam em prender-te, minha vida!

 

Poema de Francisco Luís Amaro

 

__________________________________________________________________________________

Poeta português, natural de Alvito. Foi co-fundador e co-director da revista Árvore, publicada entre 1951 e 1952, e da qual fizeram também parte Raul de Carvalho, António Ramos Rosa e António Luís Moita. Colaborou ainda nas revistas Seara Nova, Távola Redonda, Portucale, entre várias outras. Foi secretário de redacção e, posteriormente, director-adjunto e consultor editorial da revista Colóquio/Letras. A sua poesia está inserida numa tendência que tenta conciliar a tradição herdada dos poetas presencistas com alguma da poesia neo-realista, nomeadamente a de Carlos de Oliveira. Da sua obra destacam-se os livros de poemas Dádiva (1949) e Diário Íntimo. Dádiva e outros poemas (1975).

 

 

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publicado às 18:15


#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

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publicado às 19:56


#2998 - Weyes Blood - In the Beginning [Official Video]

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.19

 

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publicado às 19:46


#2997 -"Para salvar a democraca..."

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.19

Para salvar a democracia, Chris Hughes, co-fundador do Facebook, pede que o governo americano desmantele a empresa que controla a maior rede social do mundo.

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publicado às 19:22

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Até ao dia 6 de Julho, Carlos Mendonça revela, através da sua pintura, as suas inquietações e o seu mundo onírico que pode ver na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.

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publicado às 16:10


#2995 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.19

Escrevo, mas a mão desfalece e o corpo balança,

procura o equilíbrio

impossível

os dois lados têm pesos diferentes

de um lado o coração

no outro a alma

o peso da inteligência não conta

as lágrimas também 

as dores, as emoções

também não

e os afectos que importância têm?

O importante é o fogo...

o fogo de artifício

e saber disfarçar as impossibilidades

as pequenas lutas travadas todos os dias

- sim é disso que se trata 

o corpo é uma máquina poderosa

movida pela força da cabeça

e está lá tudo

em pequenas caixas

milhares de caixas

algumas nunca abertas

muitas -

melhor dizendo -

que guardam o esquecimento

albergue de memórias

uma poderosa biblioteca

que narra o passado

e o entendimento do futuro

 

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publicado às 18:04


#2994 - IMAGINARIUS | Festival Internacional de Teatro de Rua

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.05.19

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ver programação aqui

 

Nas ruas da cidade de Santa Maria da Feira, nos dias 23, 24 e 25 deste mês.

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publicado às 20:09


#2993 - Tamino - Habibi (official audio)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.19

 

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publicado às 22:33


#2992 - Cigarettes After Sex - Sweet

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.19

 

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publicado às 21:49


#2991 - PRÉMIO ARNOLD W. BRUNNER

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.04.19

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Eduardo Souto de Moura, arquitecto português, vence Prémio Arnold W. Brunner da Academia Americana de Artes e Letras pela "sua contribuição significativa para a arquitectura".

 

Este Prémio foi instituído em 1955,  com o propósito de distinguir arquitectos, de qualquer nacionalidade que "tenham dado uma contribuição significativa à arquitectura como arte".

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publicado às 17:55


#2990 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.19

MÁRIO DE CARVALHO

O QUE EU OUVI NA BARRICA DAS MAÇÃS
ISBN:978-972-0-03169-3
Edição/reimpressão:03-2019
Editor:Porto Editora
Código:03169
Coleção:Obras de Mário de Carvalho
Idioma:Português
Dimensões:142 x 210 x 20 mm
Encadernação:Capa mole
Páginas:256
Tipo de Produto:Livro
 
 

SINOPSE

Reconhecido como um dos mais importantes escritores portugueses da actualidade, a sua faceta de cronista passou despercebida à maior parte dos leitores; daí esta selecção das suas melhores crónicas publicadas nas décadas de oitenta e noventa do século passado no Público e no Jornal de Letras. Delas emergem o ficcionista, o cidadão, o comunicador e o memorialista, em textos que alguns diriam proféticos e, nas palavras de Francisco Belard: «testemunhos de um largo campo de assuntos, abordagens, dimensões e estilos, através de eras e lugares, sinais de um escritor que declaradamente prefere viajar no discurso e decurso do tempo e do espaço doméstico a fazê-lo em itinerários geográficos, programados e turísticos. Por tudo isto […], os leitores dos romances o vão reencontrar em mudáveis cenários e perspectivas, de outros pontos de vista, na familiaridade e na estranheza diante do seu mundo, que faz nosso.»
 
 

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publicado às 23:52


#2989 - DE ANTEMÃO ||| POEMA DE HERBERTO HELDER

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.04.19

DE ANTEMÃO

 

Tocaram-me na cabeça om um dedo terrificamente

doce, Sopraram-me,

Eu era límpido pela boca dentro: límpido

engolfamento,

O sorvo do coração a cara

devorada,

O sangue nos lençóis tremia aida:

Metia medo,

Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:

ou uma braçada de perfume

tão agudo

que entrasse pela carne: se fizesse unânime

na carne

como um clarão,

Um anel vivo num dedo que vai morrer:

tocando ainda

a cabeça o rítmico pavor

do nome,

O leite circulava dentro delas,

É assim que as mães se alumiam

e trazem para si o espaço todo

como

se dançassem,

São em si mesmas uma lenta

matéria ordenada, Ou uma

crispação: uma ressaca,

E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:

eu já tinha uma ferida

um nome,

E o meu nome mantinha as coisas do mundo

todas

levantadas

Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas

o sangue, Como as estrelas duplas

duplamente

se dão força,

E fique assim - astro grande estanque

cosido em sangue: e a luz

obturada,

E então no seu pneuma luminoso:

um astro cheio, Coração: astéria: carne

de olaria pulsando, O espasmo

da mão às vezes

se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,

Ou se retira ao braço o movimento

pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira

o rasgão do ar

na dança,

Assim a estrela com dois membros

cravados recebendo

o tremor do mundo, E toda essa

massa peristáltica esmaga

a argila táctil: um pequeno músculo

convulso no fundo de água:

um troço de sangue nas costas, Que lhe passes

pelas roupas e nudez

as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro

um incêndio:

e te ilumines dele, E a tua cara se faça

miraculada

à combustão, E entres rutilante por uma porta

para outra porta, Essa porta que dê

para uma porta de ti própria,

A mão ateando a escrita que se desloca

brilha direita,

Toca-te toda: tocas no chão

através dela, A terra

treme

quando lhe tocas, Tudo

se transmite e trannsforma,

A gangrena é uma força,  Tu és a raiz dele,

Estás dentro

da luz de fora,  Como o choque

sísmico

da estrela

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "POESIA TODA" EDIÇÃO 406, MARÇO DE 1996, ASSÍRIO & ALVIM

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publicado às 22:39


#2988 - Construir a Esperança

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.19

 

Jeremias estava só

perante a verdade e a inocência

encerradas no fundo de uma gaveta

ou noutro sítio qualquer

na forma de papéis escritos com letra maiúscula e levemente inclinada para  o lado oposto do coração,

e com flores desenhadas no intervalo dos espaços em branco

por falta das palavras certas ou momentâneo esquecimento,

talvez para descobrir nas pétalas o perfume para incensar a memória. É o que recorda.

Era apenas um rapaz no início da adolescência

quando os seus olhos e ouvidos testemunharam

de maneira fortuita,

escondidos atrás do pesado reposteiro, 

a poucos passos do sítio onde

sentados 

com os cotovelos apoiados na pesada e enorme mesa de carvalho 

as pessoas que vagamente conhecia

discutiam a leitura do manifesto que o seu avô escrevera e

titulara de "Construir a Esperança". 

Mais tarde decobriu que se sentia prisioneiro

no sonho de 

ele também

e em memória do seu avô

construir a esperança - para alguns uma palavra  grotesca e subverssiva, 

outros acusavam-no de terrorista do pensamento e da palavra.

Jeremias sentia-se só

precisava de descobrir o paradeiro dos papéis -

deviam ser os únicos com flores no lugar das palavras -

para provar que outras pessoas

muito mais antigas que ele

já falavam e escreviam sobre a

construção da esperança.

O seu único medo era que

as flores tivessem crescido tanto

que sufocariam as letras das palavras do

texto que defenderia a sua verdade

e sua inocência 

para jamais se sentir só

tinha a esperança 

a alma

e o tempo

necessários para a sua redenção.

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publicado às 19:45


#2987- PRÉMIO LITERÁRIO "MAN BOOKER INTERNATIONAL PRIZE 2019"

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.19

 

 

Celestial Bodies, de Jokha Alharthi (Omã). Traduzido por Marilyn Booth (Sandstone Press);

The Years, de Annie Ernau (França). Traduzido por Alison L. Strayer (Fitzcarraldo Editions);

The Pine Islands, de Marion Poschmann (Alemanha). Traduzido por Jen Calleja (Serpent’s Tail);

Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead, de Olga Tokarczuk (Polónia). Traduzido por Antonia Lloyd-Jones (Fitzcarraldo Editions);

The Shape Of The Ruins, de Juan Gabriel Vásquez (Colômbia). Traduzido por Anne McLean (MacLehose Press);

The Remainder, de Alia Trabucco Zeran (Chile). Traduzido por Sophie Hughes (And Other Stories).

O vencedor será conhecido no próximo dia 21 de Maio

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publicado às 06:41


#2986 - Scott Walker - "It's Raining Today" from 1969's SCOTT 3

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.04.19

 

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publicado às 21:56


#2985 - FESTIVAL INTERNACIONAL DE MÚSICA DE PAÇOS DE BRANDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.04.19

Começou, ontem, a 42ª edição do Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, uma organização do CiRAC-Círculo de Recreio, Arte e Cultura, com sede na Avenida da Sobreira, n.º 328, Paços de Brandão, Santa Maria da Feira.

 

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publicado às 19:53

VICTOR COSTA

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publicado às 10:32


#2983 - The Cinematic Orchestra - 'To Believe feat. Moses Sumney'

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.19

 

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publicado às 09:53


#2982 - UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA ||| POEMA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA

 

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida

à volta da cabeça pronta a rebentar

mesmo que fossem quatro apenas as paredes

quatro paredes são de mais para uma vida

e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade

pura pura negação da vida três palavras onde

se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar

e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal

há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo

que substituo por razões de métrica mas são palavras como

por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância

coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa

e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida

que não leva talvez gravata mas que tem vida privada

gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho

e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ò meu deus

ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida

Talvez haja a janela haja árvores e céu

talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor

que talvez una uns com os outros estes dias

talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída

Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?

Sempre entre mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras

e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas

mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida

onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano

e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe

é mãe por profissão por pose pela posição de tão tonta cabeça

multiplicadas pelas capas das estúpidas inúmeras revistas

forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real

cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa

criança que se sabe quantos quilos pesa que cor tinha

a primeira e menos metafórica das merdas que cagou

e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional

como marido inteirramente a par das regras da mulher

meu deus que merda metafórica esta merda desta vida

E eu ter de passar a vida à procura da chave

e procurar abrir e não saber da chave

e não existir nunca porta ou chave

e chave ser palavra ambígua ter sentido

e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos

e a vida ser só uma e ser a vida

e haver mãos para as coisas gestos para as mãos

e não haver que porra uma saída

E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista

e tudo quanto faço interpretado e comentado

e haver nomes e eu ser isto e não aquilo

eeu sentir-me em nomes encerrado

Quero dormir não ter esta doença de pensar

estender-me sob o céu o mais possível ao comprido

e que bastante terra cubra o meu comprido corpo

e eu seja terra apenas e a terra nada seja

Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só

para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

 

POEMA DE RUY  BELO, RETIRADO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL» - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 17:37


#2981 - Max Richter - Dream 13 (minus even)

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

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publicado às 17:32


#2980 - Alexis Ffrench - Bluebird

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

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publicado às 17:09


#2979 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

Gostavas...

Gostavas de ter a lua na sala

O sol no quarto de inverno

A poesia pendurada nas hélices da ventoinha

A música suspensa das maçanetas das portas

Que alguns livros retirados da estante ficassem  preguiçosamente deitados no sofá e

escolherias mais alguns para acompanhar o deleite de saborear um  "Sauvignon"

E querias ver o sonho a flutuar no corpo de borboletas  empoleiradas nas janelas verdes dos teus olhos

 

Eu gostava somente que derramasses o teu perfume "L' Interdit" sobre o seio esquerdo para animar o lado direito do  meu corpo

 

 

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publicado às 16:25


#2978 - Hauschka - Curious

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.19

 

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publicado às 20:20


#2977- O RABISCO A SUBSTITUIR AS PALAVRAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.03.19

 

Quando as palavras estão vazias...

Um rabisco para preencher o esquecimento

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publicado às 09:51


#2976 - A MATÉRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.19

 

O teu transparente corpo

suspenso de um filamento invisível de luz.

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publicado às 17:28


#2975 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.19

 

Os dias correm súbitos. Fogem das próprias sombras, dos medos e incertezas como adolescentes que ruborizam perante o olhar irónico e prometedor das raparigas num bailarico de domingo.

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publicado às 17:12


#2974 - PRÉMIO MAN BOOKER INTERNACIONAL 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.03.19

Já é conhecida a longa lista de finalistas ao Prémio Literário Man Booker International 2019.

A curta lista é revelada a 9 de Abril, e no dia 21 de Maio é anunciado o nome dos vencedores - Autor e Tradutor.

 

Esta primeira lista é composta por 13 romances escolhidos pelo júri do Prémio que é presidido por Bettany Hughes.

Importa referir que é a última vez que este prémio literário terá a denominação de Man Booker, pois o grupo Man deixa de patrocinar este Prémio Literário.

A Fundação Crankstart tomará o seu lugar.

_______________________________________________________________________________

2019 longlist announced- Man Booker International Prize

The Man Booker International Prize has today, Wednesday 13 March, revealed the ‘Man Booker Dozen’ of 13 novels in contention for the 2019 prize, which celebrates the finest works of translated fiction from around the world.

 

The prize is awarded every year for a single book, which is translated into English and published in the UK and Ireland. Both novels and short-story collections are eligible. Authors and translators are considered to be equally important, with the £50,000 prize being split between them. In addition, each shortlisted author and translator will receive £1,000. The judges considered 108 books.

 

2019 longlist is:

Author (Original Language –Country/territory), translator, title (publisher/imprint)

  • Jokha Alharthi (Arabic / Omani),  Marilyn Booth, Celestial Bodies (Sandstone Press Ltd)
  • Can Xue (Chinese / Chinese), Annelise Finegan Wasmoen, Love In The New Millennium (Yale University Press)
  • Annie Ernaux (French / French), Alison L. Strayer, The Years (Fitzcarraldo Editions)
  • Hwang Sok-yong (Korean / Korean), Sora Kim-Russell, At Dusk (Scribe, UK)
  • Mazen Maarouf (Arabic / Icelandic and Palestinian), Jonathan Wright, Jokes For The Gunmen (Granta, Portobello Books)
  • Hubert Mingarelli (French / French), Sam Taylor, Four Soldiers (Granta, Portobello Books)
  • Marion Poschmann (German / German), Jen Calleja, The Pine Islands (Profile Books, Serpent's Tail)
  • Samanta Schweblin (Spanish / Argentine and Italian), Megan McDowell, Mouthful Of Birds (Oneworld)
  • Sara Stridsberg (Swedish / Swedish), Deborah Bragan-Turner, The Faculty Of Dreams (Quercus, MacLehose Press)
  • Olga Tokarczuk (Polish / Polish), Antonia Lloyd-Jones, Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead (Fitzcarraldo Editions)
  • Juan Gabriel Vásquez (Spanish / Colombian), Anne McLean, The Shape Of The Ruins (Quercus, MacLehose Press)
  • Tommy Wieringa (Dutch / Dutch), Sam Garrett, The Death Of Murat Idrissi (Scribe, UK)
  • Alia Trabucco Zeran (Spanish / Chilean), Sophie Hughes, The Remainder (And Other Stories)

 

The longlist was selected by a panel of five judges, chaired by Bettany Hughes, award-winning historian, author and broadcaster, and is made up of writer, translator and chair of English PEN Maureen Freely; philosopher Professor Angie Hobbs; novelist and satirist Elnathan John and essayist and novelist Pankaj Mishra.

 

Bettany Hughes, chair of the 2019 Man Booker International Prize judging panel, said:

 

‘This was a year when writers plundered the archive, personal and political. That drive is represented in our longlist, but so too are surreal Chinese train journeys, absurdist approaches to war and suicide, and the traumas of spirit and flesh. We’re thrilled to share 13 books which enrich our idea of what fiction can do.’

 

 

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publicado às 22:32


#2973 - TINHAM NOME OS LUGARES

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.03.19

 

 

 

 

Apenas meia dúzia de passos separava os lugares que agora têm outros nomes: de gente conhecida, de gente que ninguém conhece ou que  nenhuma  importância tiveram. Questões de vaidade.

 

A porosidade do tempo, cuja geometria partiu em pedaços mais longos a alma,  o carácter e a fraternidade dos antigos lugares que poucos já conhecem,  e que apenas a idade certa permite identificar cada um dos territórios onde ganhamos raízes e memórias que jamais se perderam apesar da distância temporal e afectiva que a cronologia dos dias vai impondo e derramando sobre as nossas cabeças singulares sombras de anémico esquecimento. 

 

Os lugares eram o mundo. O nosso mundo. As nossas possessões. Lugares de brigas e descobertas, de encontros furtivos, de brincadeiras, da inocência. Lugares com  nomes poéticos, românticos, ancestrais e que identificavam com rigor cada membro dessas pequenas comunidades. As pessoas eram os lugares e os lugares eram as pessoas com as suas peculiaridades, personalidades, carácter. E os cheiros. Como eram importantes os cheiros e os sons produzidos por animais e pessoas nas suas labutas diárias.

 

Pois, os lugares tinham nome; as pessoas tinham nome - Pontão, Eiras de Cima, Eiras de Baixo, Misericórdia, Reboleiro, Santo André, Ameal, Milheirós, Remolha, Calvário, Cavaco, Velha, Picalhos, Lambro, Pombos, Moinhos, Piedade, Lavandeira, Rossio, Montinho, Além-do-Rego, Cruz, Seixo, Balteiro, Penas, Vila Boa...

 

Hoje somos, cada vez mais, anónimos figurantes, ou apenas um código de barras, um algoritmo, números. Apenas isto; e os lugares de outrora que eram o centro  do nosso mundo modificaram-se e hoje a geografia  reflecte novas atitudes, novos comportamentos e o umbigo passou a ser o centro do nosso mundo.

 

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publicado às 20:01


#2972 - O DIA ESTÁ (L)INDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.03.19

 

O dia está lindo.

Que merda... o dia está lindo!

Que maneira foleira de dizer as coisas;

Um azul perfeito

Um verde mais verde

As roupas baloiçam no fio do arame -

parece que fazem surf.

Os grilos calaram-se, já não suportam o verde da dieta.

As formigas nunca se cansam, por causa da moral da história. 

As cigarras celebram os dias

A bandeira nacional está excitada num país de murchos que facilmente se excitam por tão pouco e

depois reclamam «isto é um país de merda».

Esquizofrenias de um país velho em idade e gente.

As cores - vermelha e verde - há muito tempo se misturaram

e conceberam uma cor castanha...

merda... o dia está lindo.

Uma caravana de camelos desfila sobre a terra da rua da minha casa

deve ser uma miragem

mas pode não ser 

porque cães excitados ladram

e os camelos disponibilizam as suas bossas

para uma boleia.

O dia está lindo...

eis uma forma preguiçosa

e nada poética de descrever o dia.

Pois, dizes tu, é falta de jeito,

enquanto o gato se roça na tua perna

e reclama uma mão sobre o pêlo, e as 

filiformes minhocas põem a cabeça de fora,

como se fossem periscópios a examinarem as manobras do inimigo.

O dia está lindo.

Que maneira idiota de dizer  que o dia está lindo.

 

 

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publicado às 14:39


#2971 - UMA PEQUENA LUZ BRUXULEANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.19

 

Nunca saberei a resposta da pergunta

que nunca farei.

Não sei. 

Não sei por que não a farei!...

A casa em frente das nossas sombras

continua desabitada.

As janelas têm cortinas em teias de aranha

tecidas nas vidraças.

À noite

uma coruja

toma conta do ar frio

e uma luz bruxuleante ilumina as partículas da poeira

que adormecem sobre

os esqueletos do mobiliário.

Murmúrios ouvem-se e

rastejam até aos nossos pés.

Escalam silenciosamente e

com agilidade os nossos corpos e

alojam-se, sem pedir licença,  no

interior do ouvido.

É apenas o murmúrio

de alguém que vive só, faz  demasiado tempo e

procura um confidente,

um ouvinte.

Mas não o entendemos ou

não o queremos ouvir

que o  ouvido já está ocupado com outros rumores

que vêm das folhas inquietas da laranjeira

em cujos ramos bichos de vária natureza se reúnem

todas as noites

para espiar, discutir, especular, intrigar

a coruja.

Mas nada descobrem.

A coruja, apenas cuida da pequena luz bruxuleante

que aquece as várias camadas de pó que

habitam a casa

deitadas sobre o ar horizontal

de todas as coisas

existentes no seu interior.

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publicado às 18:46


#2970 - POEMA EM AUTO-EXÍLIO ||| Poema de Dilip Chitre

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.19

DILIP CHITRE  |||   1938 - 2009

 

POEMA EM AUTO-EXÍLIO

 

A primeira borboleta morta da estação

Tem asas recentemente rasgadas. Os significados são transferidos

Como a humidade das ervas

Para os sapatos. A América é incrivelmente erótica.

Demasiadas pernas tornam todas estas ruas sensuais.

Em Bombaim, temos uma única centopeia

Caminhando em direcção à cidade todas as manhãs.

Lá faz tanto calor, e mesmo assim, sem modéstia,

Os que têm meios usam todas as roupas que podem.

E também, ao contrário daqui, os que têm dinheiro

Comem sem contar calorias.

Tenho saudades de casa, o que é estúpido evidentemente.

Lá nunca fui um chauvinista famoso,

Nem é a América pouco bela. Mas estou tão aterrorizado

Com esta mocidade resplandecente, esta inocência requintada,

Estas visões exóticas do resto do mundo,

Que existe algures,

Que me sinto já obsoleto,

Não sendo americano.

Talvez devesse ter sido, afinal de contas, um guru,

Ou um iogue, um gigolô, um encantador de serpentes, ou um cozinheiro

De clandestinos molhos de caril em vez de ser um poeta.

América, aqui vou eu, demasiado

Tarde

 

POEMA DO POETA INDIANO DILIP CHITRE

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publicado às 23:17


#2969 - William Tyler - Fail Safe (Official Music Video)

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

 

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publicado às 20:05


#2968 - O VISITANTE NOCTURNO ||| Poema de Muhammad 'Afifi Matar

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

MUHAMMAD  'AFIFI MATAR  ||  1935-2010

 

O VISITANTE NOCTURNO

 

eram seus olhos verdes

um sonho que chorava no asfalto da rua

e os versículos da sua inocência

uma sede no homem enterrada

 

desatou o cavalo verde da chuva dos cravos do raio

e deslizou através das nuvens

para visitar o sonho adormecido nas camas das crianças

e alimentá-las, ou dar-lhes de beber, da fonte do verde mel.

 

seus pés bons

e seu corpo trémulo e nu

esfolavam-se nos mastros  da noite.

e nos seus dorsos fundiam-se colunas de granito.

foi enterrado sobre os beirados dos tectos e das torres

crucificado, sangrando, mordido nas trevas pelos gatos.

 

o peixe negro salta na corrente do sangue

e  escapa:

comboios de gente surda

trombetas que ressoam,

génios que gritam dentro de uma garrafa

vozes que clamam na garganta do asfalto

 

quem, no ventre tenebroso, morreu

e quando secará o sangue?

 

POEMA DE MUHAMMAD  'AFIFI MATAR

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publicado às 19:17


#2967 - PRÉMIO LITERÁRIO VERGÍLIO FERREIRA 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.03.19

Resultado de imagem para nélida piñon

NÉLIDA PIÑON ||| RIO DE JANEIRO, 1937

 

Nélida Piñon, escritora brasileira, nascida em 1937 no Rio  de Janeiro, venceu o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2019, instituído pela Universidade de Évora. O Júri argumentou a escolha como reconhecimento pela "latitude e profundidade da sua obra".

Nélida Piñon foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras.

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publicado às 21:42


#2966 - A CONTRA-SENHA ||| POEMA DE LUIS CARTAÑÁ

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.19

A CONTRA-SENHA

 

Cheguei do fundo da pedra:

precocemente do centro da rosa:

toquei as mãos e a artéria.

Ando ainda com a pele dos mármores

sombrios do deserto inocente. Oponho-me,

oponho-me ao relâmpago da água

e do mandato: ordeno, troco,

louvo a penugem como espada de enxofre

ou perfeição. Ordeno

ainda os horizontes.

Minha voz não é débil

nem o nascimento se cheguei e pus uma pedra

o coração como destino

e como canto a palavra amor e sem resposta, espero.

E como uma chuva de martelos,

de homem demasiado homem, de pancadas demasiado pancadas,

ou de paixão sem limites lancei minha funda ao  vento:

quero mais terra, mais terra e repartir unhas e chicotes

e repartir palavra e boca: Como um último respirar do homem

que viveu sem história na pegada e criou.

Criou a magnitude do homem lá do fundo da matéria única,

uma nova matéria, forças a rasgar o último recanto do vento

e a ordenar o eco

da última terra ou gratidão

que reste em minhas sandálias.

 

Caminhei até aqui,

cheguei precocemente do fundo da pedra

com a boca doce ou a palavra dividida. Ordeno

ainda os horizontes.

 

POEMA DE LUIS CARTAÑÁ (1942-1988)

_______________________________________________________________________________________________________________

LUIS CARTAÑÁ OTERO nació en La Habana, Cuba en 1942.  Viaja de muy joven a los Estados Unidos donde estudia inglés en la Universidad de Georgetown en Washington, D.C.  Se traslada a España, allí realiza estudios en derecho y hace amistad con los escritores Pere Gimferer, José Caballero Bonald, Gloria Fuertes, José Batlló, Ignacio Gómez de Liaño y Francisco de Asís Fernández, entre otros.  Durante su estancia en España publica su primer poemario Estos humanos dioses (1967).  Precisamente, en 1967, viene a residir a Puerto Rico, donde se dedica a la cátedra de literatura en el Recinto Universitario de Mayagüez de la UPR.  Desde allí inicia una dinámica actividad cultural participando en numerosos encuentros culturales y congresos literarios en Puerto Rico, Perú, República Dominicana, México, Colombia y Estados Unidos.  Junto a otros escritores funda la Confederación de Escritores Latinoamericanos.  En Puerto Rico Cartañá se identifica con los poetas de la Generación de 1960; particularmente con el grupo del Oeste de la isla, representado por Carmelo Rodríguez Torres, Jorge María Ruscalleda BercedonizSotero Rivera Avilés, Juan Torres Alonso, Billy Cajigas, Wilfredo Ruiz Oliveras, Jaime Martínez Tolentino e Inés Crespo, entre otros.  Funda y dirige la colección “Jardín de espejos,” responsable por la edición de Antología minuto de Francisco Matos Paoli y Antología de la poesía sueca contemporánea, entre sus títulos más destacados.  Publicó los poemarios Joven resina (1971), Tocata, fuga y presencia(1972), Canciones olvidadas (Chanson Oubliés) (1977, 1985 y 1988, ésta última con prólogo de Pere Gimferer), Sobre la música (1981), La mandarina y el fuego (1983, con prólogo de Francisco Matos Paoli), Los cuadernos del señor Aliloil (1985) y Permanencia del fuego (1989), publicado a pocos meses de su fallecimiento.  Cartañá propulsó la candidatura de Francisco Matos Paoli al Premio Nobel de literatura, quien se convertiría en el primer escritor puertorriqueño en ser considerado para tan prestigioso galardón.  La poesía de Cartañá ha sido incluida en las antologías Poesía en éxodo (Miami, 1970), 9 poetas cubanos (Madrid, 1984), Antología de poesía puertorriqueña 1984-1985 (Río Piedras, Puerto Rico, 1985), Poesía cubana contemporánea (Madrid, 1986), Poetas cubanos en España (Madrid, 1988), Pulso de poesía (Mayagüez, Puerto Rico, 1992) y Al pie de la memoria. Antología de poetas cubanos muertos en el exilio (1959-2002) (Miami, 2002).  En 1988 se traslada a España para realizar estudios doctorales de Filología Hispánica en la Universidad Complutense de Madrid, enviado por el Recinto Universitario de Mayagüez.  Luego se traslada a la ciudad de Miami donde muere de un tumor en el cerebro el 11 de febrero de 1989.

 

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publicado às 18:24


#2965 - arrange - Stranger

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.19

 

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publicado às 18:22


#2964 - Beck - Tarantula | Roma OST

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.02.19

 

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publicado às 12:37

O que é ser enfermeiro em Portugal

Onze enfermeiros dão a cara e falam sobre o seu dia a dia, entre horários loucos, noites sem dormir, salários baixos e agressões nas urgências

LER AQUI O ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA VISÃO DA RESPONSABILIDADE DE SÍLVIA CANECO

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publicado às 17:52


#2962 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.19

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para peceber a falta dela

 

Afonso Cruz in «Paralaxe», crónica publicada no Jornal JL, edição n.º 1261, de 30 de Janeiro a 12 de Fevereiro e 2019

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publicado às 18:45


2961 - RETRATO || POEMA DE CECÍLIA MEIRELES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.01.19

CECÍLIA MEIRELES (1901 - RIO DE JANEIRO / 1964 - RIO DE JANEIRO)

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

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publicado às 19:48


#2960 - "TORTO ARADO", NAS LIVRARIAS EM FEVEREIRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.01.19

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ITAMAR VIEIRA JUNIOR  ||  1979

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"Torto Arado", primeiro romance de Itamar Vieira Junior e vencedor do Prémio Literário Leya 2018, vai chegar às livrarias no próximo mês de Fevereiro com a chancela da editora Dom Quixote.

 

___________________________________________________________________________________

Bibiana e Belonísia são filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento de lhe pôr a mão com um acidente que mudará para sempre as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra. Porém, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se com a perspectiva que cada uma tem sobre o que as rodeia: enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda e os encantos do pai, Zeca Chapéu Grande, entre velas, incensos e ladainhas, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra e a emancipação dos trabalhadores. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã.
Numa trama tecida de segredos antigos que têm quase sempre mulheres por protagonistas, e à sombra de desigualdades que se estendem até hoje no Brasil, Torto Arado é um romance polifónico belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.
 
FONTE - EDITORA LEYA

 

 

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publicado às 17:20


#2959 - DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.01.19

 

DIA DE FESTA NA MINHA TERRA

 

Ano dezanove do século vinte e um

domingo

janeiro

vinte

inverno

lua vermelha

eclipse total para ver mais logo na madrugada

 

É dia de festa na minha terra e da grande procissão

fanfarras e bandas  pipocas e balões algodão-doce

bancas de fogaças e outros  doces "regionais"

meninas de branco vestidas

cinturadas de vermelho ou azul

cabeças coroadas de fogaças para honrar a promessa feita há séculos

varandas enfeitadas por tecidos adamascados

gente anónima e de todas as condições

verga-se respeitosamente à passagem dos andores e do pálio

e das suas bocas saem silenciosos murmúrios em forma de oração

e foguetes troam anunciando o princípio e o fim da festa

animada pelos trapezistas dos negócios ambulantes 

montados no palanque das suas viaturas anunciam 

com voz peculiar pomadas e elixir para todas as maleitas

descontos na compra de cobertores ou

de um molho de peúgas

"...não é 100, nem 90, nem 80, nem 50... se comprar agora, e ainda leva este relógio como oferta... 

vai pagar, nem mais nem menos, duas notas de 20... uma pechincha!

aproxime-se freguesa aproveite a minha boa disposição

hoje é dia de festa..."

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publicado às 22:07


#2958 - E POR VEZES ||| POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996)

 

E POR VEZES

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA IN «MATURA IDADE» - 1973

 

 

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publicado às 22:16


#2957 - UM ADEUS PORTUGUÊS ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

ALEXANDRE O'NEILL [1924-1986]

 

UM ADEUS PORTUGUÊS

 

Nos teus olhos altamente perigosos 
vigora ainda o mais rigoroso amor 
a luz de ombros puros e a sombra 
de uma angústia já purificada 

Não tu não podias ficar presa comigo 
à roda em que apodreço 
apodrecemos 
a esta pata ensanguentada que vacila 
quase medita 
e avança mugindo pelo túnel 
de uma velha dor 

Não podias ficar nesta cadeira 
onde passo o dia burocrático 
o dia-a-dia da miséria 
que sobe aos olhos vem às mãos 
aos sorrisos 
ao amor mal soletrado 
à estupidez ao desespero sem boca 
ao medo perfilado 
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca 
do modo funcionário de viver 

Não podias ficar nesta cama comigo 
em trânsito mortal até ao dia sórdido 
canino 
policial 
até ao dia que não vem da promessa 
puríssima da madrugada 
mas da miséria de uma noite gerada 
por um dia igual 

Não podias ficar presa comigo 
à pequena dor que cada um de nós 
traz docemente pela mão 
a esta dor portuguesa 
tão mansa quase vegetal 

Não tu não mereces esta cidade não mereces 
esta roda de náusea em que giramos 
até à idiotia 
esta pequena morte 
e o seu minucioso e porco ritual 
esta nossa razão absurda de ser 

Não tu és da cidade aventureira 
da cidade onde o amor encontra as suas ruas 
e o cemitério ardente 
da sua morte 
tu és da cidade onde vives por um fio 
de puro acaso 
onde morres ou vives não de asfixia 
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro 
sem a moeda falsa do bem e do mal 

                               * 

Nesta curva tão terna e lancinante 
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti. 

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL in «NO REINO DA DINAMARCA» - 1958

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publicado às 16:41


#2956 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.01.19

 

Tu, ò Estranho,

que entras na noite

todas as noites

Braços caídos cansados de tanto procurar

A cabeça enterrada nos ombros com

o peso de tamanha tristeza.

O corpo inclinado, cansado

com vontade de desistir.

 

Todas as noites 

entras na noite

buscas nos becos e esquinas

um pouco de paz,

uma luz que aqueça o coração

uma estrela  que acolha os destroços da tua alma

uma flor com pétalas regadas com tuas lágrimas

 

Todas as noites

entras pela noite

em busca de um sonho

que perdeste algures e não sabes onde.

 

Até que numa noite

a noite entre dentro de ti.

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publicado às 00:55


#2955 - DIA DE DESCANSO [POEMA DE FERNANDO LEMOS]

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.01.19

FERNANDO LEMOS | 3 DE MAIO DE 1926

 

DIA DE DESCANSO

 

Hoje reservo o dia inteiro para chorar

É o domingo decadente    em que muitos

esperam pela morte de pé

É o dia do sarro que vem à boca da medocridade

circular    dos gestos que andam disfarçados de gestos

dos amores que deram em estribilhos

das correrias pederásticas para o futebol em calções

mais o melhor fato    e a mesquinhez nacional dos 10%

de desconto em todo o vestuário

 

E choro    choro    porque a coragem

não me falta para tudo isto e assisto

na nega de me ceder ao braço dado

 

Precisarei de um cansaço mas

lá estavam espertas

as mil e não sei quantas lojas abertas

para mo vender!

 

Mas hoje é domingo

Lá está o chão reluzente de martírio

e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter

já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

 

E choro de coragem    isto é

as lágrimas hão-de cair sêcas nas minhas mãos

Falo cristalinamente sózinho

procurando entre as paredes e as varandas que vão cair

algum acaso    isto é

o eco, de qualquer drama vazio

 

Espero como quem espera

o momento de posse entre dois ponteiros

de torneira em torneira nas súplicas febris

em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas

para as não cortar em gritos 

Espero e entretanto o mundo não se cansa

de me dar drogas para dormir e criar

novelos de lã à volta do coração

Não me lastimo   grito

Quero que estas correntes da boca se tornem úteis

e não ficar pr'aqui moldado estátua

em verdete  de ser chorado

A tropeçar onde não há perigo

com calçado duro a pisar as nuvens

neste tão estreitado mundo

 

Choro hoje o dia todo e lembro-me    o que disso

podem pensar os homens das ideias revolucionárias

e choro

choro de coragem e para os microfones da revolução

As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

 

Cá do meu alto não se desce por escadas    mas por desalento

por amor ao chão da terra que me pisam

 

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução

alheia às tais guerras de papel químico

 

Espero sem esperança mas certo

do que espero como de saber  que um homem

não chora    e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar

porque é domingo e o que espero não é a morte de pé

talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

 

Uma vez era ainda pequeno

chorei ao ver um prédio desabitado

Moro nele mesmo aos domingos e rio-me

das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas

Sei que nada adianta

Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno

Nê-le me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar

ao choro da coragem de esperar

 

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado

um grito afinal terá assim o seu eco

 

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente

até que a noite me venha

cobrir o corpo de abafo quente

 

Então sairei à procura da prostituta cega

para lhe contar junto ao peito

como as pessoas se comportam aos domingos

 

POEMA DE FERNANDO LEMOS in «Teclado Universal» - 1963

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publicado às 19:24


#2954 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

Há idiotas que gostam de se ouvir. Julgam-se  capazes de falar sobre tudo mas não entendem o que dizem.

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publicado às 23:04

 

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publicado às 21:22


#2952 - FESTA DAS FOGACEIRAS | SANTA MARIA DA FEIRA | 20 DE JANEIRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.01.19

FESTA DAS FOGACEIRAS EM HONRA DO MÁRTIR SÃO SEBASTIÃO, 20 DE JANEIRO, SANTA MARIA DA FEIRA

 

 
 
 
 

AS FOGAÇAS E OS CALADINHOS - PERCURSOS

 

Com percursos históricos diferentes e motivações sociais, culturais, políticas, religiosas e psicológicas bem diversas, as fogaças e caladinhos que conhecemos e adoptamos como um dos ex-libris do concelho de Santa Mara da Feira, são, hoje, extremamente importantes para a economia de algumas unidades industriais e comerciais da cidade.

 

As fogaças e caladinhos encerram dentro de si uma parte importante da nossa história enquanto testemunhos da nossa memória colectiva. Mas, mais importante do que as formas, os sabores e os gestos que ensinam as receitas, é permitir que cada porção de farinha, de açucar, de ovos e manteiga seja a descoberta da alma, das emoções, dos conflitos, da dor, morte, esperança e vida do  povo anónimo das Terras de Santa Maria.

 

Houve, nos séculos XV e XVI, uma grande epidemia. E o povo foi dizimado. E aqueles que restaram levantaram os braços e os olhos em direcção ao Céu e dirigiram as suas súplicas carregadas de fé ao mártir S. Sebastião. E fizeram promessas e empenharam as suas vidas.

 

O mártir sorriu. E o sorriso limpou-lhes a alma e as lágrimas. E as lágrimas transfiguraram-se  e tomaram a forma de fogaças.

 

E, todos os anos, no dia 20 do mês de Janeiro, somos cúmplices e testemunhos vivos de uma promessa que nos pediram para cumprir. E cumprimos. Por isso descemos à cidade e enfeitamos as velhas ruas do burgo e damos-lhe vida, cor e emoções. E vivemos a História, e aprendemos que a Fogaça não é apenas um símbolo, mas toda a alma do povo das Terras de Santa Maria.

 

E, ao enterceder, quando a penumbra do dia confunde os rostos e transforma as sombras em silhuetas, o povo junta-se em pequenos grupos e regressa a casa transportando consigo as fogaças e caladinhos. Durante a viagem relembram momentos já passados e contam histórias que fazem parte da História da cidade. E recordam, a propósito de caladinhos, os anos 30, a polícia política, as tertúlias na Farmácia Araújo, e a perspicácia do Augusto Padeiro. E contam como simples biscoitos passaram do anonimato para a ribalta da glória.

 

"...Um dia, à noite, aqui em Santa Maria da Feira, o Augusto Padeiro e seus empregados estavam a fazer biscoito sortido com forma arredondada e achatada. De repente, entraram elementos da polícia política e o Augusto Padeiro, com medo, disse aos empregados: Shiu! Calados!.

Um dos elementos da Polícia perguntou: - Porque disse calados?

O Augusto Padeiro, respondeu: Porque estamos a fazer Calados. Estes biscoitos são os Caladinhos"...

 

E de memórias em memórias, sob a égide do castelo altaneiro, num ritual marcado pelo tempo, o povo cumpre o voto e, de uma forma cúmplice e intimista, ergue o olhar ao Céu e o Santo sorri.

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publicado às 21:06


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