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#3027 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.08.19

 

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publicado às 06:25


#3026 - OS BRUTOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.07.19

Brutos...

Gesticulam com os pés

inteligência rasteira

cérebros de minhoca

argumentam usando apenas a força

a sua arma preferida

caretas disformes

risos de hiena

agressores com a mão escondida

os trabalhos sujos  a outros encomendados

é conveniente ter um ar civilizado

aparentar inteligência

é preciso não falar

para não revelar ignorância

apenas «twittar»

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publicado às 21:02

 

A HIPÓTESE DO CINZENTO

 

Num país a preto e branco

recomendaram-me o cinzento. Um recurso

extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia

ensaiar

soluções inusitadas -

experimentar o morno (que não é frio nem

quente)

explorar o lusco-fusco (que

não é noite nem dia) praticar a omissão

(que não é mentira

nem verdade). Preto e branco misturados permitiam

finalmente

viver em conformidade

desocupar os extremos (tão alheios à virtude)

liquefazer-me na turba

no centro na

média

dourada. Com a paleta de cinzentos poderia

aprimorara arte da sobrevivência que

(como os mansos bem sabem) é

não estar vivo

nem morto.

 

POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, DO LIVRO "O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS", PÁG.136, EDIÇÃO QUETZAL, 2019

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publicado às 20:44


#3024 - HAEVN - We Are (Symphonic Tales)

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.07.19

 

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publicado às 20:34


#3023 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.07.19

Sentado nas margens 

da sombra, quando

uma inquietação ocorre

e a penumbra escorre 

até aos  seus olhos aquosos

e uma réstea de luz

se torna oblíqua e

dormente, então percebe

que tudo termina

quando o delírio que vem da terra

a sua cabeça beija.

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publicado às 23:41


#3022 - Shannon Wright - Providence - These Present Arms

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.07.19

 

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publicado às 21:00


#3021 - OS CÃES LADRAM TRÊS VEZES

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.07.19

 

Os cães ladram três vezes

Uma balandra de algas vomita

a sua carga no mar espesso e pardo

Numa casa 

algures na cidade

um rato persegue um gato

 

Os cães ladram três vezes

E uma velha toca bandolim

cigarro no canto dos lábios

voz rouca

hálito de rum

 

Os cães ladram três vezes

O mar reclama e ameaça

e o farol

empoleirado na escarpa granítica

afasta o medo

de marinheiros bêbados

 

Os cães ladram três vezes

O barco afunda-se

sovado por ondas sem piedade

e o rato

continua a perseguir

o gato

 

- Bom dia

- Bom dia

- Raios te partam, homem de deus

- Cala-te beata, não invoques o seu nome em vão

e o rato persegue o gato

a velha geme

o bandolim chora

o mar transformou os homens em gaivotas

o farol desmoronou-se

e os cães deixaram de ladrar

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publicado às 09:55


#3020 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.07.19

 

Os meus olhos

fotografam e

capturam a

melancolia da alma

do pássaro

que

num voo circular

se despede da árvore

que o acolheu e

foi a sua casa nos meses da

primavera e verão

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publicado às 23:42


#3019 - SENTINELA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.07.19

 

Despes a alma

Depois o corpo todo

Enterras os pés na terra

Sufocas o medo

Da tua garganta salgada 

Um relâmpago  incendeia a noite

Os teus pés ganham raízes

Na tua boca nasce a seiva

Que desagua na terra

Alimentando-a

Os teus olhos iluminam a noite

E os caminhos da peregrinação

És a sentinela que afasta as sombras nocturnas

Que habitam nos becos da desesperança

 

Despes a alma

Depois o corpo todo

Vigilante Sentinela

Serena Sentinela

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publicado às 22:27


#3018 - SOTAQUE DA TERRA ||| Poema de Mia Couto

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

 

SOTAQUE DA TERRA

 

Estas pedras

sonham ser casa

 

sei 

porque falo

a língua do chão

 

nascida

na véspera de mim

minha voz

ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

 

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

 

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

 

Junho de 1986

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publicado às 18:27


#3017 - NESTA NOITE DE S. JOÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.19

Nesta noite de S. João

procuro

entre os meus  dedos 

o perfume na água dos teus olhos

as cerejas que desenhei no teu regaço

as pérolas que iluminam os teus seios

os lábios que abraçam os teus ombros

e

uma grinalda de lágrimas de orvalho

que perfumam os teus cabelos

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publicado às 00:37

 

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publicado às 17:52


#3015 - A LUZ

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.19

 

 

A LUZ

 

A luz marca o tempo das coisas invisíveis

enquanto as mãos atravessam  o espesso

manto das camadas de pó que permitem ver

a forma de todas as coisas visíveis

 

E as mãos ficam frias e as veias

azuis como os oceanos

onde o sangue navega

subindo e descendo

constantemente

como se procurasse qualquer coisa

esquecida ou suspensa

como embarcação em mar encapelado

 

E a luz vai marcando o tempo e o ritmo

de todas as coisas invisíveis

assinalando com sombras os gestos

de uma carícia começada mas inacabada

que ficou suspensa nas partículas da memória

e que a mão irá lembrar mais logo

mas já demasiado tarde 

porque a luz que marca o tempo 

das coisas visíveis e invisíveis

se extinguiu

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publicado às 15:24


#3014 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

Palavra mal dita

maldita

E uma pedra disfarçada de palavra

mal pensada

arremessada

Tem tento na língua

fecha a boca               

e assim a luz não fica

baça

eu sei

que é pedir demais

adoras o som

que emite as tuas cordas vocais

mas

por favor

tem piedade

não deixes  

que a corda

no pescoço

dê o final aperto

os ouvidos já não suportam mais

ouvir as idiotices que

a tua boca vomita

 

Não sei da tua importância

mas estás em todas:

TV, rádio, jornais, redes sociais e não sociais

para comentares as mais diversas matérias:

sarampo, eleiçoes, futebol, diarreias, política internacional, economia, enxaquecas, impotência sexual,

emigração, imigração, migração,

literatura,

carros, caspa, etc..., etc..., etc...

julgas ser um génio do renascimento italiano

um hermeneuta

o mestre da retórica

e julgas o país demasiado pequeno para a imensidão do teu ego

que ameaças abandonar

por que de ti não gostam

e seria uma bênção para

os olhos, ouvidos, coração - 

enfim para o corpo todo

e para o ambiente

que te reformasses

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publicado às 14:39


#3013 - COM A DATA DE HOJE ||| POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.19

 

COM A DATA DE HOJE

 

Nas esquinas destas horas trnsitórias

de vidraças partidas e relógios parados

a surpresa segreda uma ária inocente

com um fato de ganga e as mãos maltratadas

 

Surda sombra de grades sobre o rosto

vem insuspeita intrometer-se ali

onde a esperança entre gritos que não soam

ígnea vem pela noite às marteladas

 

Árdua profunda invocação de paz

fremindo à flor das águas temerosas

lá no mais fundo onde não chegam as palavras

árdua desvenda aos homens o caminho

para onde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO "POESIA COMPLETA", COLEÇÃO PLURAL, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, JUNHO 2016

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publicado às 10:45


#3012 - LIBERDADE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.19

 

Palavra cansada

Palavra rouca de tanto ser

gritada

nas praças

nas varandas

em qualquer lado

de um lugar qualquer

 

Palavra cansada

com idade avançada

letras cheias de rugas

cuspidas

arrebatadas

mordidas

chicoteadas

electrocutadas

assassinadas uma a uma

devagarinho porque não há pressa

no trabalho feito por sicários 

disfarçados de gente nobre e honrada

cavalheiros elegantes com 

o peito inchado de comendas

 

Palavra muito antiga

que tem a idade do homem

e que será sempre gritada:

Liberdade

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publicado às 22:33


#3011 - FRASES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

 

Se já não te restam mais lágrimas, não chores, ri.

 

SHLOMIT LEVIN

(AVÓ DE AMOS OZ)

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publicado às 18:48


#3010 - PARAÍSO ||| Poema de David Mourão-Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

PARAÍSO

 
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

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publicado às 17:53


#3009 - NÓMADAS ||| POEMA DE JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

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NÓMADAS

 

Só o amor pára o tempo (só

ele detém a voragem)

rasgámos cidades a meio

(cruzámos rios e lagos)

disponíveis para lugares com nomes

impronunciáveis. É preciso percorrer os mapas

mais ao acaso

(jamais evitar fronteiras

nunca ficar para trás)

tudo nos deve assombrar como

neve

em Abril. Só o amor pára o tempo só

nele perdura o enigma

(lançar pedras sem forma e o lago

devolver círculos).

 

Poema de João Luís Barreto Guimarães, do livro NÓMADA 2018, incluído na antologia O TEMPO AVANÇA POR SÍLABAS - Edição QUETZAL 2019

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João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, a 3 de junho de 1967. Poeta e tradutor, divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade. O Tempo Avança por Sílabas reúne cem poemas selecionados pelo autor, dos dez livros que publicou até ao momento. É o seu quinto livro na Quetzal, após a publicação dos primeiros sete títulos na Poesia Reunida, em 2011, Você está Aqui, em 2013, Mediterrâneo, em 2016, ao qual foi atribuído o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, e Nómada, em 2018. A sua obra está representada em antologias poéticas e revistas literárias de numerosos países, tendo Mediterrâneo sido publicado em espanhol.

 

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publicado às 16:21


#3008 - GAIVOTA ||| POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.19

GAIVOTA

 
Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.
 
poema de alexandre o'neill

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publicado às 09:18


#3007 - LEONARDO PADURA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.19

 

A TRANSPARÊNCIA DO TEMPO

 
 

BIOGRAFIA

Leonardo Padura nasceu em Havana, em 1955. Licenciado em Filologia, trabalhou como guionista, jornalista e crítico, tornando-se sobretudo conhecido pela série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde, traduzidos para inúmeras línguas e vencedores de prestigiosos prémios literários, como o Prémio Café Gijón 1995, o Prémio Hammett em 1997, 1998 e 2005, o Prémio do Livro Insular 2000, em França, ou o Brigada 21 para o melhor romance do ano, além de vários prémios da crítica em Cuba e do Prémio Nacional de Romance em 1993. Em 2012 recebeu, também em Cuba, o Prémio Nacional de Literatura pelo conjunto da sua obra.
 
FONTE: PORTO EDITORA
 
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"A velhice nunca é boa. É feia, dolorosa, limitante. E impõe uma reflexão: será que tudo o que se fez teve algum sentido?" - Leonardo Padura

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publicado às 11:19


#3006 - CLANN - I Hold You

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.06.19

 

Rest now, my love It's all right The dark is gone I'm here I hold you Rest now, your heart It's all right We're all right Although you're gone I'll be here to hold you I've got you Will you breathe through me? And calm the storm inside Just breathe through me We'll keep the fires alight I'll face down the world with you Breathe through me and calm the storm inside Just breathe through me We'll keep the stars alight

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publicado às 00:02


#3005 - Ibn' Arabi - 'Alone with the Alone': Henry Corbin

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:52


#3004 - Ólafur Arnalds - So Far + So Close (ft. Arnór dan)

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:47


#3003 - Max Richter - The Trees

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:35


#3002 - Slowdive- Watch Me (Film Mix)

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

 

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publicado às 23:25


#3001 - POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.06.19

MÁRIO DIONÍSIO  |||  1916-1993

 

Nos despojos da cidade

atrás dos altos prédios ao avesso

veem-se telhados chaminés

negras de fumo vê-se o ferro

em movimento das gruas

 

Há gente que mora aqui

pessoas cães mortos vivos

em tugúrios fedorentos

 

Há lama e há excrementos

junto a montões gordurosos

sobre o lixo os solavancos

de amantes abjectos copulando

Rindo e saltando sobre dejetos

aqui e ali crianças brincando

que amanhã serão ladrões

 

Contra um muro em ruína

a fescura de uma flor

crescendo ingénua

 

Quem vem ela aqui fazer

entre destroços 

tão bela

 

A meus pés a vou pisar

por raiva ou por piedade

Esmago-a furiosamente

gesto viril e demente

 

para não chorar

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO, DO LIVRO POESIA COMPLETA, PÁGINA 296, EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL-CASADA MOEDA, JUNHO DE 2016, COLEÇÃO PLURAL

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publicado às 22:31


#3000 - RETRATO ||| Poema de Francisco Luís Amaro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.19

Francisco Luís  Amaro (1923-2018)

 

RETRATO

 

Um silêncio, um olhar, uma palavra:

Nasceste assim na minha vida,

Inesperada flor de aroma denso,

Tão casual e breve...

 

Já te visionara no meu sonho,

Imagem de segredo, esparsa ao vento

Da noite rubra, delicada, intacta.

E pressentira teu hálito na sombra

Que minhas mãos desenham, inquietas.

 

Existias em mim. O teu olhar

Onde cintila, pura, a madrugada,

Guardara-o no meu peito, ó invisível,

Flutuante apelo das raízes

Que teimam em prender-te, minha vida!

 

Poema de Francisco Luís Amaro

 

__________________________________________________________________________________

Poeta português, natural de Alvito. Foi co-fundador e co-director da revista Árvore, publicada entre 1951 e 1952, e da qual fizeram também parte Raul de Carvalho, António Ramos Rosa e António Luís Moita. Colaborou ainda nas revistas Seara Nova, Távola Redonda, Portucale, entre várias outras. Foi secretário de redacção e, posteriormente, director-adjunto e consultor editorial da revista Colóquio/Letras. A sua poesia está inserida numa tendência que tenta conciliar a tradição herdada dos poetas presencistas com alguma da poesia neo-realista, nomeadamente a de Carlos de Oliveira. Da sua obra destacam-se os livros de poemas Dádiva (1949) e Diário Íntimo. Dádiva e outros poemas (1975).

 

 

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publicado às 18:15


#2999 - A PLUMA CAPRICHOSA ||| Poema de Alexandre O'Neill

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.19

Alexandre O'Neill - (1924-1986)

 

A PLUMA CAPRICHOSA

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no grande medo instintivo da minha mãe

no medo zangado e prático de meu pai

estou em ti no teu religioso medo

nas tuas lágrimas queixas  e suspiros

de mulher ajoelhada

 

Estou na horrível palavra «querido»

quando tu a dizes encostada a mim

enlaçando-me com os teus braços de renúncia e cobardia

com os teus olhos de súplica silenciosa

com os teus olhos de humildade canina

enlaçando-me

                       a mim

teu amante teu senhor e teu filho

 

Estou no murmúrio de desgosto da minha família

da minha família imóvel diante de mim

da minha família poderosa

da minha família de olhar duro

da minha família de olhar terno

da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos

pronta a saltar-me em cima e reduzir-me

a mais um da família

 

Estou onde não devia estar

 

Estou ainda estou no verbo fugitivo

no verso enigmático palaciano e «puro»

no tapete de sonho que vai partir prò infinito

na palavra que desmaia de inanição e medo

do medo de dizer o que devia dizer e que não diz

tão doente ou mais do que eu

 

Estou onde não devia estar

 

Nos olhos do construtor que vê a fortuna a crescer

na consciência do médico que esquece o doente no seio da morte

no advogado que defende os interesses mais cruéis

no professor que se diverte a torturar as crianças

no general que manda fuzilar os inocentes

no polícia que procura por todos os meios a verdade

 

Estou onde não devia estar

 

Estou no compêndio de história onde a mentira se organiza

para proclamar uma «verdade»

 

Sou uma das intrigas de corte

uma das mais sinistras ou galantes intrigas de corte

sou a batalha dos Vinte-de-Língua-de-Fora

destroçando os Vinte-Mil-de-Coração-aos-Pés

sou a célebre resposta do Cavaleiro Trovão

ao insolente emissário dum rei inimigo

sou o mar de pão transformado em mar de rosas

só por causa do génio dum marido

 

Também apareço nas colunas do jornal

do jornal de maior tiragem e circulação universal

Sou o rapaz educado simpático filho de boas famílias

que deseja conhecer senhora de alguns meios

p'ra fins matrimoniais

ou o cãozinho que a mesma senhora entre os homens muito maus perdeu

numa hora de grande movimento

o cãozinho que queria fazer chichi e que disse Madame por favor espere aí

o cãozinho que nunca mais apareceu

 

Também posso ser visto no jornal

apanhando dinheiro aos que procuram um emprego

ou chamando  com urgência uma alma capitalista generosa

p'ra financiar a ideia que trago na cabeça

No jornal já fui estúpido e perigoso como o senador

que ameaça reduzir o homem

a um pobre farrapo vacilante

Já fui a mulher tão simpática dum conhecido político

promovendo chás de caridade tricôs de caridade

enquanto o marido prepara mais pobres mais miséria mais chás de caridade

com aquele sorriso que todos lhe conhecem

 

No jornal cantei na festa do embaixador

     e todos gostaram muito

Ofereci vinte escudos a uma pobre mulher tuberculosa

     e todos acharam bem

Roubei cinco mil contos ao país

    e todos foram no final das contas muito compreensivos

 

No jornal fui uma espécie de poeta oficial

no jornal fui uma ponte de propaganda sobre um rio de turismo

no jornal fui a República de São Salvavidas discursando na O.N.U.

fui Mimi Travessuras declarando-se encantada por cantar em Lisboa

fui o capitão Westerling a fina-flor dos aventureiros

fui J.J. Gomes homenageaso pelo seu pessoal

fui Teresa a conhecida importadora de carícias

disfarçada sob um monte de chapéus

 

Estou onde não devia estar

Estou na paisagem onde a linha do horizonte é sempre a fronteira da nostalgia

e a solução um penacho de fumo

o meu coração fumegando na linha do horizonte

 

A todo este azul chamo cobarde

e a cobardia está em mim como em sua casa

está nos meus versos mesmo nos mais corajosos

nas imagens que fabrico à espera que a vida chegue e me liberte

nos grandes lemas sonoros que ponho no meu caminho

 

Estou onde não devia estar

 

E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa

passa pelos olhos dum gato

como o avião passa no céu do camponês

como a cidade passa pelo convalescente

que sai pela primeira vez

 

Nos olhos da mulher que não perdi nem ganhei

nos olhos que durante um segundo me compreenderam e amaram

na sua ternura quase insuportável

o destino passa

 

No amigo que é lentamente puxado para o outro lado da razão

e um dia mergulha na sombra que trazia em si por resolver

o destino cumpre-se e passa

Na praia nocturna que as ondas visitam e deixam

como as imagens que sem cessar me assaltam e abandonam

na espuma que esmago contra a areia muito fria

na mulher que me acompanha e comigose perde na noite

nos soluços de luz verde que um fasrol nos envia

o destino detém-se e passa

Na inesperada hora de felicidade

vivida um pouco a medo

como os amantes quando percorrem as ruas desertas dum jardim

um pouco a medo

como a breve noite de amor em que um homem se encontra e refugia

o destino demora-se e passa

 

Estou onde não devia estar

 

Mas basta

                 basta

                          basta

 

Que o discurso termine

É tempo é madrugada

No dorso dos objectos que me cercam

na mão que me sustenta e eu sustento

no fio desesperado destes versos

é madrugada

 

As primeiras

                     vagas de luz

                                           tomam de assalto

os redutos da noite

 

                 Na sua guarita

                                          o militar

                 é um monte de sono

                 uma pálpebra que bate desesperada

                um cigarro impossível de acender

                uma espingarda tão absurda como o frio

                o sono

                          a hora

                                   a vida

 

É madrugada

é definitivamente madrugada

 

Contra o azul do céu

o azul operáriolevanta-se nas ruas

a cidade estremece já é dia

já é dia claro

 

De novo o «sim» e o «não»

o café em todas as gargantas

e o primeiro cigarro que começa a trabalhar.

 

POEMA DE ALEXANDRE O'NEILL IN POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS, EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIN, MARÇO DE 2017         

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publicado às 19:56


#2998 - Weyes Blood - In the Beginning [Official Video]

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.19

 

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publicado às 19:46


#2997 -"Para salvar a democraca..."

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.19

Para salvar a democracia, Chris Hughes, co-fundador do Facebook, pede que o governo americano desmantele a empresa que controla a maior rede social do mundo.

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publicado às 19:22

carlos mandonça030.jpg

catalogo carlos mandonça029.jpg

Até ao dia 6 de Julho, Carlos Mendonça revela, através da sua pintura, as suas inquietações e o seu mundo onírico que pode ver na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.

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publicado às 16:10


#2995 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.19

Escrevo, mas a mão desfalece e o corpo balança,

procura o equilíbrio

impossível

os dois lados têm pesos diferentes

de um lado o coração

no outro a alma

o peso da inteligência não conta

as lágrimas também 

as dores, as emoções

também não

e os afectos que importância têm?

O importante é o fogo...

o fogo de artifício

e saber disfarçar as impossibilidades

as pequenas lutas travadas todos os dias

- sim é disso que se trata 

o corpo é uma máquina poderosa

movida pela força da cabeça

e está lá tudo

em pequenas caixas

milhares de caixas

algumas nunca abertas

muitas -

melhor dizendo -

que guardam o esquecimento

albergue de memórias

uma poderosa biblioteca

que narra o passado

e o entendimento do futuro

 

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publicado às 18:04


#2994 - IMAGINARIUS | Festival Internacional de Teatro de Rua

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.05.19

IMAGINARIUS2019028 (2).jpg

ver programação aqui

 

Nas ruas da cidade de Santa Maria da Feira, nos dias 23, 24 e 25 deste mês.

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publicado às 20:09


#2993 - Tamino - Habibi (official audio)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.19

 

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publicado às 22:33


#2992 - Cigarettes After Sex - Sweet

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.19

 

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publicado às 21:49


#2991 - PRÉMIO ARNOLD W. BRUNNER

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.04.19

autores_eduardosoutomoura.jpg

 

Eduardo Souto de Moura, arquitecto português, vence Prémio Arnold W. Brunner da Academia Americana de Artes e Letras pela "sua contribuição significativa para a arquitectura".

 

Este Prémio foi instituído em 1955,  com o propósito de distinguir arquitectos, de qualquer nacionalidade que "tenham dado uma contribuição significativa à arquitectura como arte".

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publicado às 17:55


#2990 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.19

MÁRIO DE CARVALHO

O QUE EU OUVI NA BARRICA DAS MAÇÃS
ISBN:978-972-0-03169-3
Edição/reimpressão:03-2019
Editor:Porto Editora
Código:03169
Coleção:Obras de Mário de Carvalho
Idioma:Português
Dimensões:142 x 210 x 20 mm
Encadernação:Capa mole
Páginas:256
Tipo de Produto:Livro
 
 

SINOPSE

Reconhecido como um dos mais importantes escritores portugueses da actualidade, a sua faceta de cronista passou despercebida à maior parte dos leitores; daí esta selecção das suas melhores crónicas publicadas nas décadas de oitenta e noventa do século passado no Público e no Jornal de Letras. Delas emergem o ficcionista, o cidadão, o comunicador e o memorialista, em textos que alguns diriam proféticos e, nas palavras de Francisco Belard: «testemunhos de um largo campo de assuntos, abordagens, dimensões e estilos, através de eras e lugares, sinais de um escritor que declaradamente prefere viajar no discurso e decurso do tempo e do espaço doméstico a fazê-lo em itinerários geográficos, programados e turísticos. Por tudo isto […], os leitores dos romances o vão reencontrar em mudáveis cenários e perspectivas, de outros pontos de vista, na familiaridade e na estranheza diante do seu mundo, que faz nosso.»
 
 

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publicado às 23:52


#2989 - DE ANTEMÃO ||| POEMA DE HERBERTO HELDER

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.04.19

DE ANTEMÃO

 

Tocaram-me na cabeça om um dedo terrificamente

doce, Sopraram-me,

Eu era límpido pela boca dentro: límpido

engolfamento,

O sorvo do coração a cara

devorada,

O sangue nos lençóis tremia aida:

Metia medo,

Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:

ou uma braçada de perfume

tão agudo

que entrasse pela carne: se fizesse unânime

na carne

como um clarão,

Um anel vivo num dedo que vai morrer:

tocando ainda

a cabeça o rítmico pavor

do nome,

O leite circulava dentro delas,

É assim que as mães se alumiam

e trazem para si o espaço todo

como

se dançassem,

São em si mesmas uma lenta

matéria ordenada, Ou uma

crispação: uma ressaca,

E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:

eu já tinha uma ferida

um nome,

E o meu nome mantinha as coisas do mundo

todas

levantadas

Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas

o sangue, Como as estrelas duplas

duplamente

se dão força,

E fique assim - astro grande estanque

cosido em sangue: e a luz

obturada,

E então no seu pneuma luminoso:

um astro cheio, Coração: astéria: carne

de olaria pulsando, O espasmo

da mão às vezes

se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,

Ou se retira ao braço o movimento

pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira

o rasgão do ar

na dança,

Assim a estrela com dois membros

cravados recebendo

o tremor do mundo, E toda essa

massa peristáltica esmaga

a argila táctil: um pequeno músculo

convulso no fundo de água:

um troço de sangue nas costas, Que lhe passes

pelas roupas e nudez

as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro

um incêndio:

e te ilumines dele, E a tua cara se faça

miraculada

à combustão, E entres rutilante por uma porta

para outra porta, Essa porta que dê

para uma porta de ti própria,

A mão ateando a escrita que se desloca

brilha direita,

Toca-te toda: tocas no chão

através dela, A terra

treme

quando lhe tocas, Tudo

se transmite e trannsforma,

A gangrena é uma força,  Tu és a raiz dele,

Estás dentro

da luz de fora,  Como o choque

sísmico

da estrela

 

POEMA DE HERBERTO HELDER in "POESIA TODA" EDIÇÃO 406, MARÇO DE 1996, ASSÍRIO & ALVIM

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publicado às 22:39


#2988 - Construir a Esperança

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.19

 

Jeremias estava só

perante a verdade e a inocência

encerradas no fundo de uma gaveta

ou noutro sítio qualquer

na forma de papéis escritos com letra maiúscula e levemente inclinada para  o lado oposto do coração,

e com flores desenhadas no intervalo dos espaços em branco

por falta das palavras certas ou momentâneo esquecimento,

talvez para descobrir nas pétalas o perfume para incensar a memória. É o que recorda.

Era apenas um rapaz no início da adolescência

quando os seus olhos e ouvidos testemunharam

de maneira fortuita,

escondidos atrás do pesado reposteiro, 

a poucos passos do sítio onde

sentados 

com os cotovelos apoiados na pesada e enorme mesa de carvalho 

as pessoas que vagamente conhecia

discutiam a leitura do manifesto que o seu avô escrevera e

titulara de "Construir a Esperança". 

Mais tarde decobriu que se sentia prisioneiro

no sonho de 

ele também

e em memória do seu avô

construir a esperança - para alguns uma palavra  grotesca e subverssiva, 

outros acusavam-no de terrorista do pensamento e da palavra.

Jeremias sentia-se só

precisava de descobrir o paradeiro dos papéis -

deviam ser os únicos com flores no lugar das palavras -

para provar que outras pessoas

muito mais antigas que ele

já falavam e escreviam sobre a

construção da esperança.

O seu único medo era que

as flores tivessem crescido tanto

que sufocariam as letras das palavras do

texto que defenderia a sua verdade

e sua inocência 

para jamais se sentir só

tinha a esperança 

a alma

e o tempo

necessários para a sua redenção.

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publicado às 19:45


#2987- PRÉMIO LITERÁRIO "MAN BOOKER INTERNATIONAL PRIZE 2019"

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.19

 

 

Celestial Bodies, de Jokha Alharthi (Omã). Traduzido por Marilyn Booth (Sandstone Press);

The Years, de Annie Ernau (França). Traduzido por Alison L. Strayer (Fitzcarraldo Editions);

The Pine Islands, de Marion Poschmann (Alemanha). Traduzido por Jen Calleja (Serpent’s Tail);

Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead, de Olga Tokarczuk (Polónia). Traduzido por Antonia Lloyd-Jones (Fitzcarraldo Editions);

The Shape Of The Ruins, de Juan Gabriel Vásquez (Colômbia). Traduzido por Anne McLean (MacLehose Press);

The Remainder, de Alia Trabucco Zeran (Chile). Traduzido por Sophie Hughes (And Other Stories).

O vencedor será conhecido no próximo dia 21 de Maio

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publicado às 06:41


#2986 - Scott Walker - "It's Raining Today" from 1969's SCOTT 3

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.04.19

 

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publicado às 21:56


#2985 - FESTIVAL INTERNACIONAL DE MÚSICA DE PAÇOS DE BRANDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.04.19

Começou, ontem, a 42ª edição do Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, uma organização do CiRAC-Círculo de Recreio, Arte e Cultura, com sede na Avenida da Sobreira, n.º 328, Paços de Brandão, Santa Maria da Feira.

 

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publicado às 19:53

VICTOR COSTA

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publicado às 10:32


#2983 - The Cinematic Orchestra - 'To Believe feat. Moses Sumney'

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.19

 

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publicado às 09:53


#2982 - UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA ||| POEMA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

UM QUARTO AS COISAS A CABEÇA

 

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida

à volta da cabeça pronta a rebentar

mesmo que fossem quatro apenas as paredes

quatro paredes são de mais para uma vida

e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade

pura pura negação da vida três palavras onde

se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar

e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal

há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo

que substituo por razões de métrica mas são palavras como

por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância

coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa

e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida

que não leva talvez gravata mas que tem vida privada

gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho

e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ò meu deus

ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida

Talvez haja a janela haja árvores e céu

talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor

que talvez una uns com os outros estes dias

talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída

Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?

Sempre entre mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras

e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas

mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida

onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano

e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe

é mãe por profissão por pose pela posição de tão tonta cabeça

multiplicadas pelas capas das estúpidas inúmeras revistas

forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real

cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa

criança que se sabe quantos quilos pesa que cor tinha

a primeira e menos metafórica das merdas que cagou

e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional

como marido inteirramente a par das regras da mulher

meu deus que merda metafórica esta merda desta vida

E eu ter de passar a vida à procura da chave

e procurar abrir e não saber da chave

e não existir nunca porta ou chave

e chave ser palavra ambígua ter sentido

e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos

e a vida ser só uma e ser a vida

e haver mãos para as coisas gestos para as mãos

e não haver que porra uma saída

E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista

e tudo quanto faço interpretado e comentado

e haver nomes e eu ser isto e não aquilo

eeu sentir-me em nomes encerrado

Quero dormir não ter esta doença de pensar

estender-me sob o céu o mais possível ao comprido

e que bastante terra cubra o meu comprido corpo

e eu seja terra apenas e a terra nada seja

Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só

para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

 

POEMA DE RUY  BELO, RETIRADO DO LIVRO «PAÍS POSSÍVEL» - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM, JANEIRO DE 2016

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publicado às 17:37


#2981 - Max Richter - Dream 13 (minus even)

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

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publicado às 17:32


#2980 - Alexis Ffrench - Bluebird

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

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publicado às 17:09


#2979 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.04.19

 

Gostavas...

Gostavas de ter a lua na sala

O sol no quarto de inverno

A poesia pendurada nas hélices da ventoinha

A música suspensa das maçanetas das portas

Que alguns livros retirados da estante ficassem  preguiçosamente deitados no sofá e

escolherias mais alguns para acompanhar o deleite de saborear um  "Sauvignon"

E querias ver o sonho a flutuar no corpo de borboletas  empoleiradas nas janelas verdes dos teus olhos

 

Eu gostava somente que derramasses o teu perfume "L' Interdit" sobre o seio esquerdo para animar o lado direito do  meu corpo

 

 

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publicado às 16:25


#2978 - Hauschka - Curious

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.19

 

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publicado às 20:20


#2977- O RABISCO A SUBSTITUIR AS PALAVRAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.03.19

 

Quando as palavras estão vazias...

Um rabisco para preencher o esquecimento

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publicado às 09:51


#2976 - A MATÉRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.19

 

O teu transparente corpo

suspenso de um filamento invisível de luz.

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publicado às 17:28


#2975 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.19

 

Os dias correm súbitos. Fogem das próprias sombras, dos medos e incertezas como adolescentes que ruborizam perante o olhar irónico e prometedor das raparigas num bailarico de domingo.

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publicado às 17:12


#2974 - PRÉMIO MAN BOOKER INTERNACIONAL 2019

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.03.19

Já é conhecida a longa lista de finalistas ao Prémio Literário Man Booker International 2019.

A curta lista é revelada a 9 de Abril, e no dia 21 de Maio é anunciado o nome dos vencedores - Autor e Tradutor.

 

Esta primeira lista é composta por 13 romances escolhidos pelo júri do Prémio que é presidido por Bettany Hughes.

Importa referir que é a última vez que este prémio literário terá a denominação de Man Booker, pois o grupo Man deixa de patrocinar este Prémio Literário.

A Fundação Crankstart tomará o seu lugar.

_______________________________________________________________________________

2019 longlist announced- Man Booker International Prize

The Man Booker International Prize has today, Wednesday 13 March, revealed the ‘Man Booker Dozen’ of 13 novels in contention for the 2019 prize, which celebrates the finest works of translated fiction from around the world.

 

The prize is awarded every year for a single book, which is translated into English and published in the UK and Ireland. Both novels and short-story collections are eligible. Authors and translators are considered to be equally important, with the £50,000 prize being split between them. In addition, each shortlisted author and translator will receive £1,000. The judges considered 108 books.

 

2019 longlist is:

Author (Original Language –Country/territory), translator, title (publisher/imprint)

  • Jokha Alharthi (Arabic / Omani),  Marilyn Booth, Celestial Bodies (Sandstone Press Ltd)
  • Can Xue (Chinese / Chinese), Annelise Finegan Wasmoen, Love In The New Millennium (Yale University Press)
  • Annie Ernaux (French / French), Alison L. Strayer, The Years (Fitzcarraldo Editions)
  • Hwang Sok-yong (Korean / Korean), Sora Kim-Russell, At Dusk (Scribe, UK)
  • Mazen Maarouf (Arabic / Icelandic and Palestinian), Jonathan Wright, Jokes For The Gunmen (Granta, Portobello Books)
  • Hubert Mingarelli (French / French), Sam Taylor, Four Soldiers (Granta, Portobello Books)
  • Marion Poschmann (German / German), Jen Calleja, The Pine Islands (Profile Books, Serpent's Tail)
  • Samanta Schweblin (Spanish / Argentine and Italian), Megan McDowell, Mouthful Of Birds (Oneworld)
  • Sara Stridsberg (Swedish / Swedish), Deborah Bragan-Turner, The Faculty Of Dreams (Quercus, MacLehose Press)
  • Olga Tokarczuk (Polish / Polish), Antonia Lloyd-Jones, Drive Your Plow Over The Bones Of The Dead (Fitzcarraldo Editions)
  • Juan Gabriel Vásquez (Spanish / Colombian), Anne McLean, The Shape Of The Ruins (Quercus, MacLehose Press)
  • Tommy Wieringa (Dutch / Dutch), Sam Garrett, The Death Of Murat Idrissi (Scribe, UK)
  • Alia Trabucco Zeran (Spanish / Chilean), Sophie Hughes, The Remainder (And Other Stories)

 

The longlist was selected by a panel of five judges, chaired by Bettany Hughes, award-winning historian, author and broadcaster, and is made up of writer, translator and chair of English PEN Maureen Freely; philosopher Professor Angie Hobbs; novelist and satirist Elnathan John and essayist and novelist Pankaj Mishra.

 

Bettany Hughes, chair of the 2019 Man Booker International Prize judging panel, said:

 

‘This was a year when writers plundered the archive, personal and political. That drive is represented in our longlist, but so too are surreal Chinese train journeys, absurdist approaches to war and suicide, and the traumas of spirit and flesh. We’re thrilled to share 13 books which enrich our idea of what fiction can do.’

 

 

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publicado às 22:32


#2973 - TINHAM NOME OS LUGARES

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.03.19

 

 

 

 

Apenas meia dúzia de passos separava os lugares que agora têm outros nomes: de gente conhecida, de gente que ninguém conhece ou que  nenhuma  importância tiveram. Questões de vaidade.

 

A porosidade do tempo, cuja geometria partiu em pedaços mais longos a alma,  o carácter e a fraternidade dos antigos lugares que poucos já conhecem,  e que apenas a idade certa permite identificar cada um dos territórios onde ganhamos raízes e memórias que jamais se perderam apesar da distância temporal e afectiva que a cronologia dos dias vai impondo e derramando sobre as nossas cabeças singulares sombras de anémico esquecimento. 

 

Os lugares eram o mundo. O nosso mundo. As nossas possessões. Lugares de brigas e descobertas, de encontros furtivos, de brincadeiras, da inocência. Lugares com  nomes poéticos, românticos, ancestrais e que identificavam com rigor cada membro dessas pequenas comunidades. As pessoas eram os lugares e os lugares eram as pessoas com as suas peculiaridades, personalidades, carácter. E os cheiros. Como eram importantes os cheiros e os sons produzidos por animais e pessoas nas suas labutas diárias.

 

Pois, os lugares tinham nome; as pessoas tinham nome - Pontão, Eiras de Cima, Eiras de Baixo, Misericórdia, Reboleiro, Santo André, Ameal, Milheirós, Remolha, Calvário, Cavaco, Velha, Picalhos, Lambro, Pombos, Moinhos, Piedade, Lavandeira, Rossio, Montinho, Além-do-Rego, Cruz, Seixo, Balteiro, Penas, Vila Boa...

 

Hoje somos, cada vez mais, anónimos figurantes, ou apenas um código de barras, um algoritmo, números. Apenas isto; e os lugares de outrora que eram o centro  do nosso mundo modificaram-se e hoje a geografia  reflecte novas atitudes, novos comportamentos e o umbigo passou a ser o centro do nosso mundo.

 

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publicado às 20:01


#2972 - O DIA ESTÁ (L)INDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.03.19

 

O dia está lindo.

Que merda... o dia está lindo!

Que maneira foleira de dizer as coisas;

Um azul perfeito

Um verde mais verde

As roupas baloiçam no fio do arame -

parece que fazem surf.

Os grilos calaram-se, já não suportam o verde da dieta.

As formigas nunca se cansam, por causa da moral da história. 

As cigarras celebram os dias

A bandeira nacional está excitada num país de murchos que facilmente se excitam por tão pouco e

depois reclamam «isto é um país de merda».

Esquizofrenias de um país velho em idade e gente.

As cores - vermelha e verde - há muito tempo se misturaram

e conceberam uma cor castanha...

merda... o dia está lindo.

Uma caravana de camelos desfila sobre a terra da rua da minha casa

deve ser uma miragem

mas pode não ser 

porque cães excitados ladram

e os camelos disponibilizam as suas bossas

para uma boleia.

O dia está lindo...

eis uma forma preguiçosa

e nada poética de descrever o dia.

Pois, dizes tu, é falta de jeito,

enquanto o gato se roça na tua perna

e reclama uma mão sobre o pêlo, e as 

filiformes minhocas põem a cabeça de fora,

como se fossem periscópios a examinarem as manobras do inimigo.

O dia está lindo.

Que maneira idiota de dizer  que o dia está lindo.

 

 

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publicado às 14:39


#2971 - UMA PEQUENA LUZ BRUXULEANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.03.19

 

Nunca saberei a resposta da pergunta

que nunca farei.

Não sei. 

Não sei por que não a farei!...

A casa em frente das nossas sombras

continua desabitada.

As janelas têm cortinas em teias de aranha

tecidas nas vidraças.

À noite

uma coruja

toma conta do ar frio

e uma luz bruxuleante ilumina as partículas da poeira

que adormecem sobre

os esqueletos do mobiliário.

Murmúrios ouvem-se e

rastejam até aos nossos pés.

Escalam silenciosamente e

com agilidade os nossos corpos e

alojam-se, sem pedir licença,  no

interior do ouvido.

É apenas o murmúrio

de alguém que vive só, faz  demasiado tempo e

procura um confidente,

um ouvinte.

Mas não o entendemos ou

não o queremos ouvir

que o  ouvido já está ocupado com outros rumores

que vêm das folhas inquietas da laranjeira

em cujos ramos bichos de vária natureza se reúnem

todas as noites

para espiar, discutir, especular, intrigar

a coruja.

Mas nada descobrem.

A coruja, apenas cuida da pequena luz bruxuleante

que aquece as várias camadas de pó que

habitam a casa

deitadas sobre o ar horizontal

de todas as coisas

existentes no seu interior.

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publicado às 18:46


#2970 - POEMA EM AUTO-EXÍLIO ||| Poema de Dilip Chitre

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.19

DILIP CHITRE  |||   1938 - 2009

 

POEMA EM AUTO-EXÍLIO

 

A primeira borboleta morta da estação

Tem asas recentemente rasgadas. Os significados são transferidos

Como a humidade das ervas

Para os sapatos. A América é incrivelmente erótica.

Demasiadas pernas tornam todas estas ruas sensuais.

Em Bombaim, temos uma única centopeia

Caminhando em direcção à cidade todas as manhãs.

Lá faz tanto calor, e mesmo assim, sem modéstia,

Os que têm meios usam todas as roupas que podem.

E também, ao contrário daqui, os que têm dinheiro

Comem sem contar calorias.

Tenho saudades de casa, o que é estúpido evidentemente.

Lá nunca fui um chauvinista famoso,

Nem é a América pouco bela. Mas estou tão aterrorizado

Com esta mocidade resplandecente, esta inocência requintada,

Estas visões exóticas do resto do mundo,

Que existe algures,

Que me sinto já obsoleto,

Não sendo americano.

Talvez devesse ter sido, afinal de contas, um guru,

Ou um iogue, um gigolô, um encantador de serpentes, ou um cozinheiro

De clandestinos molhos de caril em vez de ser um poeta.

América, aqui vou eu, demasiado

Tarde

 

POEMA DO POETA INDIANO DILIP CHITRE

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publicado às 23:17


#2969 - William Tyler - Fail Safe (Official Music Video)

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

 

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publicado às 20:05


#2968 - O VISITANTE NOCTURNO ||| Poema de Muhammad 'Afifi Matar

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.19

MUHAMMAD  'AFIFI MATAR  ||  1935-2010

 

O VISITANTE NOCTURNO

 

eram seus olhos verdes

um sonho que chorava no asfalto da rua

e os versículos da sua inocência

uma sede no homem enterrada

 

desatou o cavalo verde da chuva dos cravos do raio

e deslizou através das nuvens

para visitar o sonho adormecido nas camas das crianças

e alimentá-las, ou dar-lhes de beber, da fonte do verde mel.

 

seus pés bons

e seu corpo trémulo e nu

esfolavam-se nos mastros  da noite.

e nos seus dorsos fundiam-se colunas de granito.

foi enterrado sobre os beirados dos tectos e das torres

crucificado, sangrando, mordido nas trevas pelos gatos.

 

o peixe negro salta na corrente do sangue

e  escapa:

comboios de gente surda

trombetas que ressoam,

génios que gritam dentro de uma garrafa

vozes que clamam na garganta do asfalto

 

quem, no ventre tenebroso, morreu

e quando secará o sangue?

 

POEMA DE MUHAMMAD  'AFIFI MATAR

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publicado às 19:17


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