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#2490 - TEORIA SENTADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.07.17

 alexandra de pinho

 

TEORIA SENTADA

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade 

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.

 

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

 

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

 

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

 

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra 

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

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publicado às 18:56


#1478 - Teoria Sentada

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.11.11

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem

canta empobrece nas frementes cidades

revividas. Empobrece com a alegria

por onde se conduz, e então é doce

e mortal. Um lento

prazer de escrever, imitando

cantar. E vendo a voz disposta

nos seus sinais, revelada entre a humidade

dos corpos e a sua

glória secular. Uma dor esgota

a idade, com cravos, da minha voz.

E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida

de uma inconcebível

magnitude. Ou somente de uma

voz. Um lento desprazer, uma

solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,

como um silêncio, o antigo

de minha voz.

 

O que digo é rápido, e somente o modo

de sofrer

é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal

o que agora digo, e só

as mãos lentamente levantam o alcool

da canção e a formosura

de um tempo absorvido. Digo tudo o que é

mais fácil da vida, e o fácil

é duro e batido pela paciência.

Porque a terra dorme e acorda de uma

para outra estação.

 

Porque vi crianças alojadas nos meus

melhores instantes, e vi

pedaços celestes fulminados na minha

paixão, e vi

textos de sangue marcados desordenadamente

pelo ouro. Porque vi e vi, na saída

de um dia para o começoda primeira noite, e no despadaçar da noite.

E porque me levantei para sorrir

e ser cândido. E porque então

estremeci com a rapidez das palavras e a quente

morosidade

da vida. Eu disse o que era fácil

para dizer e eu tão

dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:

um prazer, um pesado prazer de cantar

a vida, consome a única voz

de uma vida mais sombria e mais funda.

E eu mudo sobre este campo parado

de cravos, quando a lua

rebenta, quando

sóis e raios crescem para todos os lados do seu

fulminante país.

 

Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus

vales

o eco, e sentir a alegria de sua expressa

existência. Alguém chama por si próprio,

sobre mim, em seus terríficos confins.

E eu tremo de gosto, ardo, consumo

o prnsamento, ressuscito

dons esgotados. Escrevo à minha volta,

esquecido de que é fácil, crendo

só no antigo gesto que alarga a solidão contra

a solidão do amor.

Escrevo o que bate em mim - a voz

fria, a alarmada malícia

das vozes, os ecos de alegria e a escuridão

das gargantas lascadas. Para os lados,

como se abrisse, com a doçura de um espelho

infiltrado na sombra. Fiel

como um punhal voltado para o amor

total de quem o empunha.

 

Alguém se procura dentro do meu ardor

escuro, e reconhece as noites

espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,

e vejo as mudanças e o imóvel

sentido do meu amor, e vejo

minha boca aberta contra minha própria boca

numj amargo fundo de vozes

universais.

 

Alguém procura onde eu estou só, e encontra

o campo desbaratado

e branco da sua

solidão.

 

 

Poema de Herberto Helder retirado do livro "Poesia Toda", edição Assírio & Alvim

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publicado às 18:22


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