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#2592 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 

ALEXANDRA DE PINHO (SECRETOS REGISTOS) - TECIDOS, DESENHOS E RESINA DE POLIÉSTER

QUADRO COM 20x20 cm - 2005

 

O mundo escurece

para quem nunca sonha, 

não vê,

não se interroga:

como se o pavio de velas terminasse,

um a seguir ao outro,

até ao último milímetro de luz.

 

Por isso, o  medo

ganhará vontade e

tomará conta de nós,

aprisionará o dia

e será sempre noite,

e reduzirá as estações a um inverno eterno.

 

E os nossos olhos cegarão

E as nossas bocas se fecharão

pois o tempo de ver, de falar, de protestar

já esgotou.

 

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publicado às 21:45


#2504 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.07.17

 

No topo da mais alta montanha

onde o  ar é rarefeito por estar

muito perto do céu que

quase toco se

mais alto fosse, 

uma flor rara

filigrana de luz brilhante

imaculada

ilumina a passagem para outras dimensões

temporais

espirituais.

 

Dispo-me

só deixo ficar a pele que me aquece e protege

na minha viagem  de peregrino

para descobrir a matéria de que é feita

a minha alma ou

se ela existe

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publicado às 16:32


#2254 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.17

Acendes um cigarro, 

Procuras no bar o teu uísque favorito,

Sentas-te no sofá

Soltas o cabelo com 

um gesto gracioso.

Escolhes um livro

abres na página interrompida.

O disco está pronto a ser escutado,

Apuras os sentidos

Relaxas após as primeiras notas do adagietto

da Quinta Sinfonia de Mahler.

Comoves-te

Uma pequena lágrima sublinha

os gestos de Valery Gergiev

e rola até à boca.

Adormeces ao recordar o

teu último beijo na Praça de S. Marcos

em Veneza.

 

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publicado às 18:54


#2248 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.03.17

Subo as escadas até ao limite

no último degrau

uma porta em frente

fechada

um muro de silêncio que tem tanto tempo...

devo ultrapassá-la?

Recordo:

As flores a murcharem naquele quarto

Um gato espadachim em cima do armário

Um vento agoirento e frio a escorrer das muralhas

Mulheres novas e viúvas envoltas em xailes negros a derramarem seus

prantos em lágrimas mansas

Um rei sem trono sentado

numa cadeira forrada a tecido grosso esperando

que lhe devolvam o poder do decreto

Caras estúpidas

todas tinham cornos

a olharem de soslaio

 

É o que recordo

ali parado suspenso no medo

 

O grilo assobia uma canção ridícula

quem o terá alimentado?

Uma aragem cinzenta anima fantasmas e

partículas de pó dançam o rufar de pandeiretas

Parece haver vida naquele quarto apesar de

há muito tempo não ser habitado

Um palhaço de trapos vermelhos e amarelos

botões no lugar dos olhos

joelhos remendados

escancara a porta e gesticula

palavras infantis que não percebo

 

É o que recordo de uma noite

de pesadelo

ali parado

sem medo.

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publicado às 23:43


#2229 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.03.17

Um homem parado na esquina dum

beco feio e triste ladra

com o cão seu companheiro de viagem;

O cão ladra com o homem seu

companheiro de viagem;

um diálogo filosófico sobre a

pertinência das suas vidas que transportam

num pequeno saco de plástico

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publicado às 14:00


#2228 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.03.17

Não posso conter mais o

silêncio das sombras que habitam as

casas adormecidas

reclamam luz

precisam de ar

a alma quer respirar

 

Um grito 

rebenta o peito

a língua

um grande alento

e a boca sacode as letras

há tanto tempo paradas

nas últimas camadas 

do corpo

 

 

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publicado às 13:10


#2209 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.03.17
 

foto de alberto viana d'almeida

 

Sentada na raiz do pessegueiro

esperas que a lua amadureça.

olhas o livro

olhas as horas

olhas o sol

olhas as sombras

olhas o fim-de-tarde

olhas o início da noite

olhas o início do fim

e continuas sentada à

espera da lua cheia

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publicado às 22:56


#2175 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.02.17
 

As pálpebras

inclinadas sobre lenços de partidas -

bandeiras de vidas doridas -

lágrimas que rolam até à doca

e perdem-se no silêncio rancoroso do metal.

frio, indiferente

como a saudade que restará embrulhada,

para sempre, em ventres

sem desejo ou vontade.

 

E, o vapor já ronca

em suspiros de grosso fumo

carregando no seu ventre

demónios e fantasmas que,

antes de o serem,

eram oliveiras e carvalhos,

montes,

um casario em ruas de gargalhadas

e afectos

e miudagem,

e murmúrios,

e seios que ardiam as mãos,

a banda no coreto.

os domingos.

 

E, hoje é domingo.

poderia ser outro qualquer.

ou não ser nenhum.

já não importa se os dias somam meses,

se as estações têm nome,

frio,

chuva

ou calor.

A rua está despida,

nua

frágil

severa.

as casas envelheceram

as flores murcharam em hortas magoadas;

apenas raízes,

grandes

grossas

tentaculares,

esganam a cor do sol

e uma névoa densa, espessa,

aprisiona e definha

as bocas dos que não partiram.

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publicado às 17:02


#2031 - Sem Título

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.05.16

 

As palavras saem mudas porque

o ouvido está surdo 

e a boca não sabe repetir

o que o corpo não ouve.

 

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publicado às 17:53


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