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#1821 - Obra revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.01.13

 

Confira entrevista com o colombiano Jerónimo Pizarro, que é um dos maiores conhecedores de Fernando Pessoa na atualidade. Nos últimos anos, ele se dedicou ao estudo do espólio do autor português e descobriu alguns inéditos.

 

O guardador de livros de Pessoa

“Ele é como aquele personagem do Humberto Eco. É capaz de andar de olhos fechados na biblioteca e não se perder. Domina como ninguém o espólio.” A frase de Antonio Cardiello sobre Jerónimo Pizarro define bastante bem a posição alcançada pelo pesquisador colombiano no universo da pesquisa sobre Fernando Pessoa. Em 2003, quando começou a estudar os milhares de folhas deixados pelo poeta, Pizarro ficou tão encantado que praticamente morava na Biblioteca Nacional de Lisboa. Os muitos anos debruçados sobre os papéis na tarefa quase detetivesca de compreender sinais gráficos, montar quebra-cabeças que faziam de folhas soltas um conjunto, procurar relações entre documentos, fez do jovem pesquisador um dos maiores conhecedores na atualidade da obra de Pessoa. Organizado e metódico, conseguiu reunir um grupo de investigadores e revolucionar os estudos acadêmicos sobre o autor. Além disso, com o apoio de uma editora, levou ao grande público esses achados.

 

Agora, de volta à Colômbia para comandar uma cátedra que leva o nome do poeta, o acadêmico tem por objetivo disseminar a cultura portuguesa e tornar cada vez mais conhecido, também em castelhano, o nome de Fernando Pessoa.

Leia a entrevista que Jerónimo Pizarro concedeu à BRAVO!.

 

Bravo!: Qual o critério que vocês têm para publicar Fernando Pessoa. Todos os papéis deixados por ele são considerados “publicáveis”? Como funciona a seleção?

 

Jerónimo Pizarro: Consideramos que essa seleção [entre publicável e não publicável] deve ser aplicada daqui a 40, 50 anos, não agora, quando ainda desconhecemos a maior parte desse material. Admito critérios mais rígidos, ontológicos, no futuro. Quando tivermos uma visão do conjunto, fará muito sentido começar a limitar. Mas fazê-lo de maneira subjetiva, individual, é muito difícil. Até porque o que pode ser interessante para mim pode não ser para outra pessoa. E se fizéssemos assim, atingiríamos um público mais restrito, faríamos um trabalho menos completo. E acabaríamos por dar muita seriedade aos nossos juízos. Acho que temos que suspender os nossos juízos para que outras pessoas, mais tarde, com uma visão diferente das nossas, possam construir uma obra mais seleta.

 

Bravo!: Você tem a impressão de que Pessoa sabia que um dia grupos de investigadores como vocês se debruçariam sobre o espólio e publicariam esse material?

 

JP: Acho que o Pessoa sabia que a posteridade estava a sua espera, mesmo com algumas frustrações de não reconhecimento em vida. Sabia que estava a deixar alguma coisa quase armada, que são as arcas, para a posteridade. Sabia que sua vida dependia do que fosse a sua existência futura, ainda que não soubesse qual seria ela. Imaginava que sua obra, e o que tinha deixado arquivado durante anos, ia continuar a construir essa figura que ele próprio tinha construído em vida.

 

Bravo!: Ele deixou pistas para facilitar a vida de quem viria fazer esse trabalho?

 

JP: Praticamente não. Algumas pistas, mas mínimas. Acho que parte da brincadeira era deixar esse labirinto, não era deixar uma coisa já preparada. Então seria muito fácil, se tivesse deixado um mapa, instruções, seria só armar o que estava. Seria menos vanguardista, menos do seu tempo. O que muitos modernistas fizeram, tipo [James] Joyce e Pessoa, foi deixar uma coisa complexa para mais tarde porque, se as pessoas se perderem no caminho e ficarem cativadas por algo misterioso – e há muito mistério nessas arcas –, ficam presas durante muito mais tempo. Se as arcas tivessem instruções, acho que teríamos nos desinteressado muito tempo atrás.

 

Bravo!: É coincidência que tantos estrangeiros estejam estudando e publicando Pessoa?

 

JP: Acho que o que está a acontecer com grande parte da cultura e literatura portuguesa, e não só agora, se calhar há muitos séculos, é que ela atrai pessoas de todo o mundo. Lembro-me de umas palavras de Antero de Quental [escritor e poeta português do século 19] a afirmar que alguns autores portugueses estavam a ser estudados por pessoas vindas de fora. Pessoa, neste momento, é um dos motivos que estão a atrair mais interessados na cultura portuguesa.

 

Bravo!: O cálculo de vocês é de que cerca de 10 mil folhas deixadas por Pessoa, mais ou menos 30% do espólio, ainda não foram publicadas. É possível prever quanto mais de trabalho e quantos anos ainda serão necessários para conhecermos tudo?

 

JP: Sei que posso ter 40 anos mais de trabalho e não vou concluir, e podia ter 80 ou 120, e não iria concluir. E nem sequer posso muito bem imaginar como seria a conclusão. Penso em um caso com Dante Alighieri, que continuamos a pensar a Divina Comédia a escrever sobre ela. Não é só a questão de editar Fernando Pessoa, que vai continuar a ser editado durante séculos. A questão é que não há uma única maneira de editar pessoa. O Livro do Desassossego é paradigmático nesse ponto. Da mesma maneira, podemos continuar a armar muitos livros mais.

 

Bravo!: Como funciona o trabalho entre esse grupo chefiado por você? Trabalham sempre em equipe, trabalham só...

 

JP: Há uma parte que terá que ser sempre solitária, de transcrever certos manuscritos, percorrer os papéis, ler certos livros. Mas depois há uma parte coletiva, de discutir certas leituras, de discutir textos e livros que estão a ser preparados. E é uma dimensão coletiva que está em crescimento, e a única maneira que acho que faz sentido existir uma “equipe” para editar Pessoa.

 

Bravo!: Ouvi você dizer que se pesquisa pouco no espólio, que não se vai à fonte primária. Por quê?

 

JP: É um defeito das universidades. Estão muito acostumadas com a uma visão do texto como uma entidade abstrata, uma análise do texto que esquece os condicionamentos materiais. A internet e a digitalização dos arquivos vão tornar mais simples uma consciência necessária da existência material dos textos. Temos que regressar aos textos, e não só ler o que já lemos, mas perceber que os textos costumam ser um percurso, que não é uma coisa imediata. Estamos a trabalhar com um produto final e esquecer a história que está por trás, e para mim são tão importantes o texto em si e a sua análise quanto a história do texto. É muito mais complexo, interessante, e acho que pode ser uma das maneiras para sairmos da crise das humanidades.

 

REVISTA "BRAVO"

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publicado às 19:26


#1790 - João Ricardo Pedro, numa perspectiva brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.12

Sentidos e azares da vida


 

Em sua estreia, o português João Ricardo Pedro faz um painel de memórias particulares e coletivas para (não) encontrar explicações

 

por Reginaldo Pujol Filho


 

“Uma coisa parecia certa”: assim começa Teu Rosto Será o Último, vencedor do Prêmio Leya 2011, que, além do valor monetário (100.000€, “quantia simpática”, segundo o autor) foi vitória pessoal do estreante português João Ricardo Pedro: há 2 anos, foi demitido e decidiu escrever a obra que em Portugal vendeu mais de 30 mil exemplares em 6 meses.

 

 

Pois o início, “Uma coisa parecia certa”, lembra que nada é mais incerto que uma coisa que parecia certa. E a pseudocerteza anuncia uma metáfora possível para as 207 páginas por ler: a busca do sentido de estar no mundo e para o que se passou. Achar algo que pareça certo, motivos sólidos para acordar de manhã ou para um pneu furado. Busca feita sobretudo na memória. Lembrar, filtrar, esquecer: dar ao passado o verniz da lógica. Pinçar da memória capítulos para narrar-se com algo que cheire a verossímil.

 

 

Todos fazem isso. João Ricardo o faz no livro que abre a coleção Novíssimos da Leya. Mas a memória onde pesca sentidos não é a sua. É da família do Dr. Augusto Machado e de Portugal dos anos 30 à beira do século 21.

 

 

Seguro e irônico (“pressentindo que isso de golpes era coisa para levar o seu tempo”, sobre a rural dona de casa pensando no almoço para os homens que debatem política no 25 de abril de 1974), em vez de narrar três gerações da família do Dr. Augusto, o autor pendura memórias quase aleatórias, retratos de personagens em diversas épocas que, ao se revelarem, revelam brechas entre si num texto sem medo de lacunas. Fendas para o leitor embutir sentidos ou intrigar-se com o pai obrigando os filhos a comer o próprio gato ou com uma misteriosa carta pela metade.

 

 

Entre incertezas e figuras errantes em busca do sentido que não há ‒ o jovem Dr. Augusto que parte, sem mais, para o interior; Celestino, forasteiro que ele acolhe; o filho do Doutor que vai e vem de guerras coloniais mesmo após o fim delas; e o neto Duarte perdido entre partituras ‒, duas coisas são certas: a meio do livro, metáfora sem-querer-querendo do sem sentido, ou como se o narrador fosse errante também, a narração do livro perde rumo. A prosa segura enche-se de maneirismos. Enciclopedismo e listagens se acumulam e tipos curiosos (oboísta sem uma orelha, argentino dado a calças justas e anéis, pintora misteriosa...) brotam e somem como se o autor quisesse exibir todas suas ideias.

 

Não que haja recurso certo e errado. É que as firulas não deram efeito estético, nem simbólico, nem estranhamento ao todo. Mas cabe lembrar: é o primeiro livro dele. Só que o belo início subiu o próprio sarrafo. Fez esquecer que é sim estreia e, como tal, sujeita à gana juvenil (mesmo aos 39 anos) de provar numa só vez tudo o que sabe fazer, garoto com 15 minutos para furar a peneira do time de futebol. Em paralelo, a trama de nós soltos se desfaz. O livro foca em cenas de Duarte, com Portugal de fundo. Mas mantém o tom memória-seletiva de quem elege fatos para se narrar e ver sentido nos próprios gestos.

 

 

No caso de Duarte, de outros personagens ou de Portugal, ao fim, parece que o único sentido possível é dado pelo simplório Celestino. O sujeito estropiado que chega à vila e, indagado sobre seu estado, diz: “azares da vida”.


Revista Bravo

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publicado às 23:38


#1565 - Arautos do Amor (e do Prazer)

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.01.12


As canções brasileiras – em especial as de Chico e Caetano – contribuíram decisivamente para o amadurecimento afetivo e a emancipação erótica dos portugueses.

 

por Inês Pedrosa

 

In Revista Bravo

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publicado às 20:01


#1549 - O Pássaro Azul

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.12.11

Inspirada pelo popular poema de Charles Bukowski a animação da artista plástica e designer Monika Umba basta por si. Se quiser conferir o texto original, clique aqui.

 

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publicado às 19:01


#1456 - “Sentei-me na Cadeira do Rei"

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.11

 

Dentre os muitos endereços que o poeta português Fernando Pessoa teve em Lisboa, o da rua Coelho da Rocha é hoje o mais significativo. Lá instalou-se em 1993 a Casa Fernando Pessoa, centro cultural que homenageia o poeta e mantém parte de seu espólio. Desde maio deste ano, a Casa convida escritores para pernoitar no quarto de Pessoa, e em 2012 publicará um volume com cada experiência. Pouco antes de vir à Festa Literária de Paraty, onde se tornou conhecido dos brasileiros, o português Valter Hugo Mãe instalou-se na cama do poeta. Ele narra suas impressões a seguir.

 

Brinquei muito de museus e de historiador. O meu pai fazia das nossas férias um périplo pelos lugares da memória e habituou-me a ficar boquiaberto com a idade das coisas, a grandeza das aventuras, a honra complexa das pessoas. Eu juntava, num canto, pequenas relíquias minhas, normalmente apenas cacos que apanhava quebrados em escavações que fazia no nosso enorme quintal, e imaginava uma galeria de luzes acesas e vitrines importantes com papeis dizendo nomes sonantes que significassem muito à cultura dos homens. Gostava de nomes antigos e já com ar de alguma fantasia, entre serem de heróis ou de bandidos afamados.

 

Em visita aos palácios e aos castelos, sempre o que mais me impressionava era como no tempo se conservaram os objetos e os lugares onde outra gente estivera, outra gente que deixara notícia grande para nunca ser esquecida, por bem ou por mal. E, nessas visitas, eu sempre imaginava como seria passar as cordas largas usadas para impedir o público de pisar sobre os tapetes persas, sentar na cadeira do rei, colocar a sua coroa, folhear os seus documentos, perceber, por um segundo, o mundo a partir dos seus exatos passos. Não era a bondade da figura histórica que me fascinava, era a oportunidade de eu, um plebeu humilde, muito magrinho, e cheio de impossíveis sonhos, percepcionar o mais diretamente possível a vida de quem passou, como se, entre o que foi e o que é, o tempo se estreitasse ao partilharmos o mesmo espaço.

Quando me convidaram para a coisa estranha de dormir no quarto de Fernando Pessoa pensei que finalmente haviam tirado aquelas cordas largas do meu caminho e eu podia pisar o tapete, sentar na cadeira do rei. Eu, que venho de um mundo de museus inventados e deslumbre respeitoso pela memória de todas as pessoas, aceitei o convite porque, com a espiritualidade de que sou capaz, achei que me era dada a magia de encurtar o tempo o mais possível entre quem sou e quem foi Pessoa e, por ocupar fugazmente o mesmo espaço, ter modo de assim o homenagear.

PESADELOS ASSUSTADORES

Para mim foi isso de místico. Como não acredito em transcendências, não me preparei para manifestações dos seus inúmeros fantasmas, e não achei que o espelho era passagem, e nem tive medo e nem demasiada ansiedade. Apenas respeito. Dormir no quarto de Pessoa foi, para mim, um gesto simbólico de alguém que não poderia fazer maior homenagem. Nada do que se diga ou escreva vai ser maior declaração de amor do que aceitar este convite para expor a vulnerabilidade do sono à contenção já solene de um exíguo e tão característico quarto.

 

É curioso como cada amigo com quem discuti o assunto de imediato viu angústias, tormentas terríveis correspondentes à solidão acossada de Pessoa, como se a única coisa que pudesse acontecer por chegar tão perto fosse uma noite de insônia delirante ou de pesadelos assustadores. Tanto mo perguntaram e comentaram que, quando finalmente a porta se fechou, encarei a cômoda onde se diz que terá escrito de pé O Guardador de Rebanhos e esperei uns segundos. Sentei-me sobre a cama, como se ficássemos sós, ou como se ganhasse a consciência de que ficáramos sós, e permaneci uns segundos apenas observando. Foi uma tolice, porque sem transcendência não há expectativa, mas os objetos, e deve ser isso que aprendi no meu tempo de imaginar museus, hão-de ter a sua própria espiritualidade. A espiritualidade dos objetos será como uma dignidade que conquistam, algo que os coloca como testemunhas que, à sua maneira, falam de uma história qualquer.

 

Creio que fiz isso. Observando os objetos estabeleci esse diálogo. Essa escuta de uma fala à maneira das coisas. E achei divertido que a minha primeira reação fosse essa, a de perscrutar a quietude, a ver o que na quietude podia ser um discurso, uma confissão que eu soubesse receber. Achei divertido, no fundo, que me sentasse ali e, por primeiro instinto, esperasse a aparição de um fantasma. Enfim, não acredito nessas coisas, mas se tivessem de existir eu ia adorar ver. E ver um dos vários do Pessoa ia ser uma experiência magnífica. Mas nada. Não vi nada de estranho.

 

FANTASMAS NO SÓTÃO

 

Ter pisado o tapete e sentado na cadeira do rei, colocando a sua coroa à cabeça, foi tudo por dentro. Como explicar, pergunto. Não foi afinal o gesto que fez a diferença. Foi a percepção de que aquilo significava algo para mim, me deixava efetivamente emocionado. Percebo que me enterneci, talvez, como se pudesse dormir num quarto que outrora fora dos meus avós ou dos meus pais, há muito, muito tempo. É engraçado que um escritor possa ter esse efeito em nós. Pela força do seu texto gerar uma familiaridade que nos enterneça quando chegamos perto da sua memória. Como eu acho que é o que faz as pessoas rezarem. Essa vontade de dizerem algo a quem já não existe. A transcendência, ou a crença nela, é só a incapacidade de conter essa vontade. A incapacidade de conter a saudade, mesmo de quem verdadeiramente não se conheceu. Não conheci Pessoa, mas percebi como significa para mim, e percebi o orgulho que me oferece por ter elevado a minha língua à condição mais superior da inteligência e da beleza.

 

Como manifestação do lado simbólico da minha dormida, levei para pousar sobre a cômoda de Pessoa dois livros. Claro que por causa dessa ideia de os objetos terem o seu discurso e talvez se entenderem uns aos outros. Levei um exemplar de a máquina de fazer espanhóis, meu romance no qual invento que o Esteves do poema Tabacaria é um senhor de cem anos num lar de idosos. Esse romance terá sido, até agora, a minha maior manifestação de apreço pelo universo pessoano. E levei um exemplar da edição portuguesa do romance Bufo & Spallanzani, do Rubem Fonseca, autor que adoro. Quis pousar um livro do Rubem Fonseca na cômoda toda escritora de Fernando Pessoa como homenagem à língua portuguesa no seu todo. Quis aludir à sua enorme elasticidade conferida pelo uso original nos mais diversos países. Antes de dormir, li um capítulo do livro de Rubem Fonseca, o que sempre me deixa um sorriso nos lábios. Foi como adormeci.

 

Acordei cedo. As senhoras da limpeza entraram desimportadas comigo. Creio que não perceberam que estava a casa com visita. Arrastaram cadeiras na sala de eventos que fica no andar sobre o quarto. Aí, sim, parecia estar naqueles filmes em que os fantasmas ficam a deambular no sótão, puxando correntes de ferro pesadas. Não fosse a conversa das senhoras da limpeza ser animada, eu ia achar que os heterônimos estavam todos desesperados na profundeza do inferno.

 

Texto escrito por Valter Hugo Mãe e publicado na revista BRAVO

Edição 169 - Setembro 2011

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publicado às 19:18


#1354 - A Lírica de Borges

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.05.11

 

 

Autor argentino deixou uma vasta herança poética para humanidade

Por André Nigri

 

 

Os três poemas aqui selecionados são de Jorge Luis Borges. Mais conhecido por sua prosa, Borges nutria pela poesia uma paixão avassaladora. Antes da prosa de ficção, era em versos que procurou se afirmar. Em 1981, quando seu nome estava cotado para o prêmio Nobel de literatura - conquistado pelo búlgaro Elias Canetti -, vários estudiosos chegaram a dizer que o melhor de Borges está em sua poesia. Depois de cego, Borges não abandonou a poesia, mas passou a freqüentá-la menos, sempre utilizando o formato de um soneto. Basta lembrar que o livro predileto do autor argentino era A Divina Comédia, de Dante, toda ela escrita em versos.

 

    

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

 

O Apaixonado

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

 

Não és os Outros

Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

Revista Bravo on-line

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publicado às 16:13


#1301 - As mentiras do poeta

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.06.10

Assista a trechos do documentário "Só dez por cento é mentira" sobre o poeta fingidor Manoel de Barros

 

"O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente." Os versos, do português Fernando Pessoa, se adequam perfeitamente a Manoel de Barros, advogado de formação, "fazendeiro por necessidade e poeta por ócio".

Nascido em 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá, no Mato Grosso, o autor é filho do capataz João Venceslau Barros e de Alice Pompeu de Barros, de quem afirma ter herdado a sensibilidade - que, para ele, "é transmitida pelo sangue". Mergulhado na arte de "não fazer nada", como chama o ato de escrever, criou a série de livros "Memórias Inventadas - A Infância, A  Segunda Infância e A Terceira Infância".

Aos 93 anos, Manoel diz a verdade quando se define como um mentiroso. Afinal, com um punhado de histórias fictícias, construiu para si toda uma biografia.

 

In Revista

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publicado às 01:00


#1227 - 4 Poemas de Mário Faustino

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.02.10

 

VIDA TODA LINGUAGEM

 

Vida toda linguagem,

frase perfeita sempre, talvez verso,

geralmente sem qualquer adjetivo,

coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,

há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome

aqui, ali, assegurando a perfeição

eterna do período, talvez verso,

talvez interjetivo, verso, verso.

Vida toda linguagem,

feto sugando em língua compassiva

o sangue que criança espalhará - oh metáfora ativa!

leite jorrado em fonte adolescente,

sêmen de homens maduros, verbo, verbo.

Vida toda linguagem,

bem o conhecem velhos que repetem,

contra negras janelas, cintilantes imagens

que lhes estrelam turvas trajetórias.

Vida toda linguagem --

como todos sabemos

conjugar esses verbos, nomear

esses nomes:

amar, fazer, destruir,

homem, mulher e besta, diabo e anjo

E deus talvez, e nada

Vida toda linguagem,

vida sempre perfeita,

imperfeitos somente os vocábulos mortos

com que um homem jovem, nos terraços do inverno, con-

[tra a chuva,

tenta fazê-la enterna - com se lhe faltasse

outra, imortal sintaxe

à vida que é perfeita

língua

eterna.


 

 

 

SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA

 

Sinto que o mês presente me assassina,

As aves atuais nasceram mudas

E o tempo na verdade tem domínio

Sobre homens nus ao sul de luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,

Corro despido atrás de um cristo preso,

Cavalheiro gentil que me abomina

E atrai-me ao despudor da luz esquerda

Ao beco de agonia onde me espreita

A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina

E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas

De apóstolos marujos que me arrastam

Ao longo da corrente onde blasfemas

Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,

Há luto nas rosáceas desta aurora,

Há sinos de ironia em cada hora

(Na libra escorpiões pesam-me a sina)

Há panos de imprimir a dura face

À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,

Os derradeiros astros nascem tortos

E o tempo na verdade tem domínio

Sobre o morto que enterra os próprios mortos

O tempo na verdade tem domínio,

Amém, amém vos digo, tem domínio

E ri do que desfere verbos, dardos

De falso eterno que retornam para

Assassinar-nos num mês assassino.


 

EGO DE MONA KATEUDO

 

Dor, dor de minha alma, é madrugada

E aportam-me lembranças de quem amo.

E dobram sonhos na mal-estrelada

Memória arfante donde alguém que chamo

Para outros braços cardiais me nega

Restos de rosa entre lençóis de olvido.

Ao longe ladra um coração na cega

Noite ambulante. E escuto-te o mugido,

Oh vento que meu cérebro aleitaste,

Tempo que meu destino ruminaste.

Amor, amor, enquanto luzes, puro,

Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,

Ouvindo as asas roucas de outro dia

Cantar sem despertar minha alegria.


 

BALADA

(Em memória de uma poeta suicida)

 

Não conseguiu firmar o nobre pacto

Entre o cosmos sangrento e a alma pura.

Porém, não se dobrou perante o fato

Da vitória do caos sobre a vontade

Augusta de ordenar a criatura

Ao menos: luz ao sul da tempestade.

Gladiador defunto mais intacto

(Tanta violência, mas tanta ternura),

 

Jogou-se contra um mar de sofrimentos

Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim

Para afirma-se além de seus tormentos

De monstros cegos contra só um delfim,

Frágil porém vidente, morto ao som

De vagas de verdade e de loucura.

Bateu-se delicado e fino, com

Tanta violência, mas tanta ternura!

 

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.

Celebrara-te tanto, te adorava

De fundo atroz à superfície, altar

De seus deuses solares - tanto amava

Teu dorso cavalgado de tortura!

Com que fervor enfim te penetrou

No mergulho fatal com que mostrou

Tanta violência, mas tanta ternura!

 

Envoi

 

Poemas de Mário Faustino retirados do livro "O Homem e sua hora"

 

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publicado às 19:13


#1184 - Tzvetan Todorov - "Literatura não é Teoria, é Paixão"

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.10


O filósofo Tzvetan Todorov afirma que o excesso de "ismos" afasta os jovens da leitura, e diz que a principal função de um professor é ensinar o aluno a amar os livros

Nascido em 1939 em Sófia, na Bulgária, e naturalizado francês, o filósofo e linguista Tzvetan Todorov é um dos mais importantes pensadores do século 20. Traduzida para mais de 25 idiomas, sua obra inspira críticos literários, historiadores e estudiosos do fenômeno cultural do mundo todo. Em seu mais recente livro publicado no Brasil, A Literatura em Perigo, Todorov faz um mea culpa raro entre intelectuais. Ele diz que estudos literários como os seus, cheios de "ismos", afastaram os jovens da leitura de obras originais - dando lugar ao culto estéril da teoria. De Paris, ele falou a BRAVO! por telefone:

 


 

BRAVO!: Gostaria que o sr. falasse sobre o seu primeiro contato com a literatura quando criança, e como ela se transformou em uma paixão.

Tzvetan Todorov: Eu cresci na Bulgária durante a Segunda Guerra, quando quase ninguém vivia em Sófia, sob constante bombardeio. A maior parte da população vivia fora da capital, em apartamentos divididos por várias famílias. Dentro da coletividade em que habitávamos, havia um especialista em literatura. Foi ele que me ensinou a ler, antes que eu atingisse a idade escolar. Ele me incentivou a praticar a leitura nos livros infantis, e logo comecei a gostar dos contos populares. Apreciava especialmente as histórias dos irmãos Grimm e As Mil e Uma Noites. Essas obras faziam minha alegria. Eu já tinha um sentimento do enriquecimento pessoal que o contato com a ficção podia proporcionar.


Por que o contato com a ficção é tão importante?

Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.


E como fazer para que as crianças e os jovens tenham acesso a esse conhecimento tão importante?

A escola e a família têm um papel importante. As crianças não têm idéia da riqueza que podem encontrar em um livro, simplesmente porque eles ainda não conhecem os livros. Deveríamos então ser iniciados por professores e pais nessa parte tão essencial de nossa existência, que é o contato com a grande literatura. Infelizmente, não é bem assim que as coisas acontecem.

 

Por quê?

Quando nós professores não sabemos muito bem como fazer para despertar o interesse dos alunos pela literatura, recorremos a um método mecânico, que consiste em resumir o que foi elaborado por críticos e teóricos. É mais fácil fazer isso do que exigir a leitura dos livros, que possibilitaria uma compreensão própria das obras. Eu deploro essa atitude de ensinar teoria em vez de ir diretamente aos romances, por que penso que para amar a literatura - e acredito que a escola deveria ensinar os alunos a amar a literatura - o professor deve mostrar aos alunos a que ponto os livros podem ser esclarecedores para eles próprios, ajudando-os a compreender o mundo em que vivem.


Ao comentar esse assunto no livro, o sr. fala em "abuso de autoridade". Poderia explicar melhor?

É um abuso de autoridade na medida em que é o professor quem decide mostrar aos alunos o que é importante, com base em um programa definido previamente pelo Ministério da Educação. E isso é sempre uma decisão arbitrária. Não temos o direito de reduzir a riqueza da literatura. O bom crítico - e também o bom professor - deveria recorrer a toda sorte de ferramentas para desvendar o sentido da obra literária, de maneira ampla. Esses instrumentos são conhecimentos históricos, conhecimentos linguísticos, análise formal, análise do contexto social, teoria psicológica. São todos bem-vindos, desde que obedeçam à condição essencial de estar submetidos à pesquisa do sentido, fugindo da análise gratuita.


Como conciliar esse desejo de liberdade num sistema em que o professor tem que atribuir notas, como ocorre no Brasil e na França?

Acredito que o essencial é escolher obras literárias que sejam, por sua complexidade e temas, acessíveis à faixa etária a que se destinam. Cabe ao professor mostrar o que esses livros têm de enriquecedor para os alunos, levando em consideração a realidade deles. O importante é não ter medo de estabelecer pontos em comum entre o presente dos alunos e do sentido dos livros.


O escritor italiano Umberto Eco fala que o livro, ao lado da cadeira, é o objeto de design mais perfeito criado pela humanidade. Num momento em que se questiona isso, o senhor vê futuro para o livro?

É verdade que hoje lemos muito diante da tela, mas não acho que o livro vá desaparecer. Ele estabelece uma relação de possessão e de interiorização que nós não podemos estabelecer com algo tão imaterial quanto o texto na tela do computador. Claro que eu mesmo, quando busco uma referência, o faço facilmente diante da tela. Mas se eu desejo me embrenhar em um livro, se eu quiser me render a seu interior, é preciso que seja com o objeto "livro". A isso ele se presta maravilhosamente.


Por Anna Carolina Mello e André Nigri, in Revista Bravo

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publicado às 15:08


#1138 - Gabriela Motta entrevista Siza Vieira

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.01.10



O português Álvaro Siza acredita que projetar um museu, biblioteca ou igreja é como propor uma utopia para o mundo. Com um currículo extenso, o arquiteto nasceu em 1933, na cidade de Matosinhos. Desde a década de 1960, vem assinando uma série de criações que o levaram, em 1992, a conquistar o Pritzker Prize, a maior premiação da arquitetura. Em maio, um de seus trabalhos será oficialmente inaugurado em Porto Alegre. É o prédio da Fundação Iberê Camargo, cujo projeto ganhou em 2002 o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza, uma das mais concorridas do planeta.

O prédio reune a produção do pintor gaúcho morto em agosto de 1994, e também serve de espaço de exposições temporárias e outros eventos. Ao conceber a sede da fundação, Siza fez questão de levar em conta essas múltiplas exigências, justamente por acreditar que "as atividades culturais não são compatíveis com uma idéia de fixação". Tal conceito também está presente em algumas de suas obras mais famosas, como o celebrado Museu Serralves, no Porto, e o Edifício Bonjour Tristesse, em Berlim.

A seguir, um pouco do pensamento de um dos principais arquitetos contemporâneos, com quem BRAVO! conversou em Porto Alegre, no ano passado, antes da inauguração da Fundação.

 

BRAVO!: Por que o senhor considera seus projetos como utópicos?

Álvaro Siza: Porque, para mim, um edifício deve responder à sua função com muito rigor, mas ao mesmo tempo deve ter a capacidade de se desligar dessa função. É nesse sentido que encaro a arquitetura como utópica­­­­ — só que se trata de uma utopia com os pés na terra. Veja, por exemplo, um convento. É feito para uma comunidade que possui regras de comportamento muito estritas. No entanto, ao longo dos anos, os conventos vêm sendo utilizados para tudo: como bibliotecas, escolas, hotéis. Tudo o que se possa imaginar cabe dentro de um convento. Ele tem a capacidade de desempenhar inúmeras funções, além da propriamente religiosa, e assim durar no tempo, não se tornar obsoleto. O meu propósito é exatamente este: o de investir na continuidade dos projetos. Não tenho a idéia de que um edifício deva durar 20 anos e, depois, ser posto abaixo.

O senhor acredita que o brasileiro Oscar Niemeyer seja também "um utópico com os pés no chão"?

Ainda há pouco li uma entrevista de Niemeyer numa revista em Portugal. Lá pelas tantas, falando de um edifício histórico, não lembro qual, ele disse: "É um edifício muito moderno. Foi construído no século tal, mas é moderno". Essa maneira de ver as coisas revela justamente a capacidade de se desprender das circunstâncias para buscar uma influência maior na vida das cidades.

E como o senhor se sente realizando um museu no Brasil, onde Niemeyer é tão onipresente?

Sinto-me bem! Os edifícios no Brasil são belos. E os de Niemeyer, não só os dele, mas os dele em especial, estão muito relacionados com a paisagem do país: Ipanema, o Corcovado, o Pão de Açúcar, aquelas curvas todas. Quem nasce num meio assim absorve isso.

Hoje a arquitetura é discutida por todos em decorrência de projetos de impacto. O que se perde com isso?

De fato, fala-se muito sobre arquitetura também em Portugal. Aliás, é relativamente recente a entrada do assunto nos jornais diários portugueses. No entanto, ainda que haja divulgação, nem sempre essa divulgação me parece bem feita, por estar bastante vulnerável a fatos externos, que não dizem respeito à arquitetura em si mesma, como interesses políticos e econômicos. De qualquer maneira, acho bom que se discuta o tema, porque a arquitetura não é feita para a contemplação de meia dúzia de pessoas.

Qual a sua relação com os projetos quando acabam?

Vou para casa.

E não volta?

Diversas vezes, não volto. Em outras ocasiões, quando volto, fico desgostoso. Projetar é algo muito intenso, exigente e absorvente. Há mesmo que se fazer um esforço de desprendimento para construir e inaugurar um edifício. Custa sempre muito quando se acaba um projeto, porque, na verdade, ele nunca está acabado. Ainda assim, deve-se aceitar que um projeto, no final das contas, faz parte do patrimônio público e, portanto, segue sua vida própria. Isso, claro, se tiver força, estrutura para agüentar o passar dos anos e as modificações que nele se processam. Se não tiver, o projeto também demonstra a sua fragilidade, a sua inviabilidade.

O senhor conhecia a obra de Iberê Camargo antes de ser chamado para projetar a fundação?

Não conhecia a obra dele nem Porto Alegre. Na verdade, o Iberê é pouco conhecido em Portugal. Claro, existem algumas pessoas, críticos de arte, que o conhecem. Eu realmente não o conhecia — o que é uma vergonha, de qualquer maneira. Mas a culpa não é só minha. Não há muita informação sobre ele em Portugal e mesmo na Europa.

Em que medida o projeto reflete a obra de Iberê?

Não reflete tanto, não. Até porque a obra de Iberê, como a de qualquer artista que tenha uma coleção, não é algo muito estanque, fechado. Ao longo do tempo, por exemplo, será confrontada com o trabalho de artistas que foram próximos a ele ou que o influenciaram. E um museu precisa levar em conta essa dinâmica. Assim, não é possível desenhar a sala tal para o quadro tal. O projeto arquitetônico deve exibir uma certa neutralidade, uma certa flexibilidade, e permitir que se montem exposições de acordo com a sensibilidade e os objetivos de quem as organiza. Atividades culturais não são compatíveis com uma idéia de fixação.

 

Gabriela Motta é crítica e curadora, autora de Entre Olhares e Leituras: Uma Abordagem da Bienal do Mercosul (Zouk Editora, 2007). In Revista Bravo

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publicado às 23:59



José Saramago e António Lobo Antunes - O Fla-Flu dos Romancistas

Rivais, os escritores portugueses José Saramago e António Lobo Antunes mobilizam partidários apaixonados e protagonizam uma disputa que envolve vida pessoal e literatura

Por Anna Carolina Mello


A rivalidade não é tão agressiva quanto a que se deu quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa descobriu que sua mulher se envolvera com o ex-amigo Gabriel García Márquez; nem tão ressentida quanto aquela que o britânico Martin Amis provocou ao passar para trás a mulher do colega Julian Barnes, contratando outro agente literário. A rixa entre os portugueses José Saramago e António Lobo Antunes não teve vexame ou dissolução de amizade. Mas há algo que a torna especialmente divertida: mesmo sem um motivo aparente para existir, ela mobiliza partidários apaixonados dos dois lados. Comparam-se as obras, medem-se os prêmios e até as vidas pessoais de ambos entram no escrutínio dessa disputa. Nesse embate, sobram palavras e apreciações pouco agradáveis.

 

 

Recentemente, ambos despertaram os ânimos de suas respectivas torcidas com lançamentos quase simultâneos: Saramago, com Caim; Lobo Antunes, com Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. Eles não se evitam na vida civil, como os citados acima, mas também não fazem questão de disfarçar a hostilidade. Em 1998, Lobo Antunes e seus partidários receberam o mais duro dos golpes: o Nobel de Literatura concedido a Saramago - o primeiro e provavelmente durante muito tempo único entre escritores de língua portuguesa. Na ocasião, um jornalista do The New York Times ligou para Lobo Antunes atrás, naturalmente, de declarações ácidas. Informado do ocorrido, Lobo Antunes silenciou por alguns segundos do outro lado da linha. Depois, fez-se de desentendido e, dizendo que a ligação estava ruim e que mal podia ouvir, desligou.

 

 

Nessa época, Saramago já era bastante festejado no Brasil, com romances como Memorial do Convento (1982) e Ensaio Sobre a Cegueira (1995). Lobo Antunes, ao contrário, era praticamente um desconhecido, com poucos e mal-vendidos livros, entre eles Os Cus de Judas (1979) e Manual dos Inquisidores (1996). Em 2000, durante a feira de livros de Frankfurt - em que são fechados os principais contratos de publicação do mundo - Lobo Antunes rejeitou um pedido de entrevista feita pelo jornal Folha de S.Paulo. "Deixem o Brasil para o Saramago. É o único lugar que ele tem", disparou. No ano passado, durante a Festa Literária Internacional de Paraty, voltou ao tema de forma mais bem-humorada. "Vocês gostam mais do outro", brincou com o público.

 

Saramago, por seu turno, já disse que não conhece "esse sujeito" e que "não se interessa por ele". Em 1998, presenteado com um livro do oponente por um jornalista do tabloide português Tal & Qual, o escritor fechou a cara e devolveu o livro, porque acreditava ser uma provocação. A versão fantasiosa do fato, contudo, atiçou os ânimos: dizia-se que o autor havia jogado o exemplar no chão, por conta do título da reportagem - Atirado ao Chão -, que brincava com o nome do romance de Saramago, Levantado do Chão (1980).

 

À parte as fofocas, existe a divisão literária. Nas páginas a seguir, os jornalistas e críticos José Castello e Paulo Polzonoff Jr., que no Brasil ocupam lados opostos nesse ringue, defendem cada um a obra de sua preferência. Apaixonada mas civilizadamente - sem vexame nem dissolução de amizade.

 

 

O ENSAÍSTA ENVERGONHADO
Ao romper com as regras clássicas da gramática e optar por uma linguagem flutuante, Saramago questiona o dogma contemporâneo da clareza por José Castello

 

José Saramago disse certa vez: "Talvez eu não seja um romancista, mas um ensaísta que escreve romances". Em vez de diminuir a potência de sua ficção, a ideia do ensaísta envergonhado a alarga. Para o escritor português, a literatura deixa de ser só uma experiência estética, ou um jogo de linguagem. Ela se alça ao posto de saber e ombreia com a verdade. Ao desestabilizar as certezas históricas com o sal da ficção, Saramago não só relativiza verdades consagradas, mas destaca seu aspecto imaginário. Ele amplia, ainda, o terreno da própria ficção, que deixa de ser apenas invenção e sonho, para se tornar algo bem mais potente: um elemento crucial na constituição do mundo.

 

Personagens como o revisor Raimundo Silva, de História do Cerco de Lisboa - que, ao introduzir uma palavra inexistente em um ensaio histórico, revira a verdade - ou o escriturário sr. José, de Todos os Nomes - que completa com a imaginação as informações do Registro Civil -, ampliam a potência da verdade, em vez de danificá-la. Alargam, assim, as fronteiras da literatura, que deixa de ser uma ilusão a nos distrair da vida, para se tornar uma pergunta com que a perfuramos.

 

Ao romper com as regras clássicas da gramática e optar por uma linguagem flutuante, Saramago questiona um dos mais sagrados dogmas contemporâneos: a clareza. Nem sempre a objetividade e a transparência são garantias de acesso à realidade. Ao contrário: retendo as coisas em sua moldura de luz, a clareza é, com frequência, falsificação. Para ele, só uma linguagem dançante, que acompanhe os deslizes e imperfeições do pensamento, nos aproxima, de fato, do mundo.

 

Em uma era pragmática, Saramago se preocupa mais em seduzir e hipnotizar o leitor do que em convencê-lo. As dificuldades propostas por seus livros - como o sósia que perturba a vida do professor Tertuliano Máximo Afonso, em O Homem Duplicado - não são questões a desvendar, ou solucionar. São, ao contrário, desafios. Saramago sabe que a escrita nada mais pode que sondar o enigma humano. É a partir desse limite de desamparo (e sabedoria) que ele escreve.

 

A tragédia relatada no Ensaio Sobre a Cegueira não atinge só os personagens do romance, mas o próprio leitor, que é obrigado, também, a "cegar-se" para lidar com o filtro opaco e limitado da língua. Os personagens de Saramago carregam em seus ombros o duplo sentido da palavra sujeito: se eles fazem e acontecem (afinal, a imaginação manda), estão também submetidos (sujeitos) às apertadas amarras que delimitam a realidade.

 

Muitas vezes reduzida, injustamente, a um exercício de estilo, a literatura de Saramago é não só vital, mas convulsiona os fundamentos de nossas vidas. "Vivemos para dizer o que somos", o escritor insiste em afirmar. A literatura, para José Saramago, é a busca interminável (e fracassada) do outro. Por isso, não conseguimos abandonar seus livros.

 

 

José Castello é jornalista e escritor, autor de Fantasma e A Literatura na Poltrona, entre outros.

 

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O CARPINTEIRO DA FRASE
Uma das maiores virtudes de Lobo Antunes é o desprezo por esta entidade cada vez mais homogênea chamada leitor Por Paulo Polzonoff Jr.

 

António Lobo Antunes chamou minha atenção em 1998, em uma entrevista encontrada na internet. Lembro-me de ficar entusiasmado com frases como "Os leitores são umas putas. Amam-nos e depois nos deixam". Mas o que mais me atraiu naquele autor desconhecido foi a visão da literatura como uma obra de carpintaria - para tomar emprestada uma ideia do escritor mineiro Autran Dourado. O primeiro contato com um livro do escritor foi, entretanto, frustrante. Deliciosamente frustrante. Ao contrário de autores de vanguarda, como o irlandês James Joyce, havia mais do que um simples desejo de revolucionar a escrita na falta de linearidade daquela prosa. Havia um propósito.

 

Mas mergulhar nos desvãos da mente humana é complicado. E Lobo Antunes sabe transpor para o papel esta complicação toda. É possível que o leitor se sinta atordoado. Aí é que encontramos mais uma (se não a maior) virtude do escritor: o desprezo para esta entidade cada vez mais homogênea chamada leitor. Não se deixe enganar: este desprezo é uma expressão de respeito pela individualidade do leitor. Na obra do escritor, nenhum grupo merece destaque. É como se não houvesse multidões. Os personagens são seres muito particulares, idiossincráticos, indefiníveis. O coletivo inexiste. As pessoas não andam nem agem em bando. Mais importante: não sentem em bando. Até mesmo a guerra não é vista como uma ação organizada de um grupo militar. Lobo Antunes olha para cada personagem com atenção individualizada.

 

Esta atenção ao ser humano como unidade é a responsável tanto pela fama quanto pela rejeição à sua obra. Nos romances do português, não há grandes ilhas, e sim um gigantesco arquipélago formado por ilhotas individuais, cada qual com seus rios, vales, montanhas, praias e até vulcões. Mas seria um erro dizer que Lobo Antunes é um escritor para poucos. Sim, o estilo de seus romances pode afastar o leitor mais desprevenido. Os Cus de Judas, por exemplo, é um livro atordoante. Mas só até que o momento em que se estabelece um diálogo muito natural entre aqueles parágrafos interrompidos por digressões diversas.

 

Lobo Antunes tem ainda um lado bastante acessível: o de cronista. Infelizmente, seus livros de crônicas não foram publicados no país. Nos textos curtos, ele exibe seu talento para o mundo pequeno de personagens menores ainda. Dramazinhos cotidianos alçados à condição de arte: o pompom da cortina emoldurado e pendurado no Louvre, ou o diálogo na padaria expresso com tanta beleza que pode levar (sem exagero) às lágrimas.

O escritor é dono ainda de algumas das frases mais belas da língua portuguesa. Às vezes - ainda que isso possa parecer, na melhor das hipóteses, uma excentricidade -, gosto de abrir um calhamaço como Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo e ler apenas uma página, a esmo, em voz alta, saboreando o fraseado.

 

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e tradutor. É autor de A Face Oculta De Nova York.

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publicado às 23:39


#1114 - Estrela Distante - Roberto Bolaño

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.12.09

Em "Estrela Distante", Roberto Bolaño aplica o antigo tema do duplo ao período da ditadura militar chilena e expõe as origens da ruína moral de uma geração.

A concepção dualista da natureza humana é tão ancestral quanto as histórias de duplos. Surgida quase ao mesmo tempo em diferentes culturas (na Grécia, no Egito e na Pérsia), a oposição entre o bem e o mal teve sua primeira ocorrência literária no Gilgamesh sumério (2.600 a.C.) e foi explorada por românticos alemães e craques da narrativa de múltiplas línguas: Nathaniel Hawthorne, Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Guy de Maupassant, Marcel Schwob etc. - a lista é imensa.

Ideal para refletir a crise de identidade do indivíduo na modernidade, a narrativa de sósias arrasta atrás de si a velha maldição romântica ligada à dissociação e ao mal: aquele que encontrar com seu Doppelgänger, o seu duplo, estará fadado à ruína. Aplicada ao período das ditaduras do século 20 no continente, a hipótese rendeu ao chileno Roberto Bolaño (1953-2003) o seu livro mais cristalino, Estrela Distante, novela tão curta quanto precisa que difere da fragmentação típica de seus romances mais extensos.

 

Publicado originalmente em 1996, o livro sucedeu a empreitada de viés enciclopédico e borgiano de La Literatura Nazi en América (que ainda não foi publicado no Brasil), a qual trazia epílogo que descrevia o fictício Ramírez Hoffmann. "Essa história me foi contada pelo meu companheiro Arturo B., veterano das guerras floridas e candidato a suicida na África", explica o prefácio de Bolaño para Estrela Distante, dando início ao jogo de reflexos que se estenderia por toda a sua obra posterior. "Arturo B" é Arturo Belano, alter ego de Bolaño e o anti-herói de muitos de seus textos, entre eles de Os Detetives Selvagens.

 

O protagonista de Estrela Distante, o poeta Alberto Ruiz-Tagle, é inspirado no tenente Hoffmann de La Literatura Nazi en América. Infiltrado em oficinas literárias no Chile de Salvador Allende (a história começa em 1971 ou 1972), Ruiz-Tagle seduz e assassina duas poetas gêmeas. Mais tarde, já durante a ditadura de Augusto Pinochet, o mesmo personagem ressurge com outro nome, Carlos Wieder, que, além de poeta, é torturador. Ele não é guiado por ideias morais, apenas ideias estéticas. Suas peripécias nos céus de Santiago - onde escreve versículos bíblicos com fumaça  dão-lhe status de herói no novo regime. Ele almeja a obra de arte total, um feito que não exclui a morte como ingrediente.

 

Mais pura encarnação do mal, Wieder representa a busca da outra face da geração de Roberto Bolaño (aqueles nascidos na fatídica América Latina dos anos 50). O jogo de duplos expõe as origens ocultas da ruína política e moral de toda uma geração.

 

Joca Reiners Terron é escritor, autor de Sonho Interrompido por Guilhotina, entre outros

(In "Bravo"

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publicado às 18:49


#1091 - O Original de Laura - Vladimir Nabokov

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.09

"O Original de Laura", escrito no fim da vida por Vladimir Nabokov, é pouco mais que um rascunho. Mas a história do manuscrito - que envolve morte, dinheiro e até fantasmas - é tipicamente nabokoviana

 

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Exilado com a família, filho de um pintor russo de "óleos inconsoláveis", Adam Lind era um fotógrafo homossexual de sucesso em Nova York, casado com uma bailarina que colecionava amantes polacos em sindicatos de transportes. Com "pendor para a trucagem", Lind registrou o próprio suicídio a bala, em fotos tiradas de diferentes ângulos num hotel, depois que o homem por quem se apaixonara havia estrangulado outro. "Essas fotografias automáticas de seus últimos momentos e das patas de leão de uma mesa não saíram muito bem; mas sua viúva vendeu-as com facilidade pelo preço de um apartamento em Paris para a revista local Pitch especializada em futebol e fait divers diabólicos", escreve Vladimir Nabokov em O Original de Laura, o manuscrito incompleto do escritor russo revelado ao mundo com estardalhaço no mês passado.

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publicado às 23:47


#1060 - Amós Oz - Música de Câmara Crítica

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.09



 

No autobiográfico De Amor e Trevas (2002), Amós Oz revelou que a leitura da obra do americano Sherwood Anderson (1876-1941) foi tão impactante que o levou às lágrimas ("soluçando de uma felicidade temerosa, em êxtase"), fazendo com que ele descobrisse sua vocação literária. Em seu novo livro, Cenas da Vida na Aldeia, o autor israelense mostra a extensão dessa influência, ao homenagear a estrutura de uma das maiores obras do americano, Winesburg, Ohio. Como este, é um livro que reúne relatos sobre moradores de um lugar imaginário — a vila de Tel Ilan —, em capítulos que podem ser lidos de forma independente. Entretanto, os textos ganham força justamente quando lidos em sequência, encadeados à maneira de um romance.

Amós Oz já declarou em várias entrevistas que sua produção é uma espécie de música de câmara, ou seja, concentra-se em episódios domésticos, nos conflitos familiares. Cenas da Vida na Aldeia segue o mesmo padrão. Não há aqui heroísmos ou grandes acontecimentos, somente a vida que teima em seguir escorrendo, lenta e viscosa. Só o que existe é solidão, frustração, arrependimento, preconceito, incapacidade de se abrir às outras pessoas — lição aprendida por Oz com outro de seus modelos, o russo Anton Tchekhov.

QUESTÃO PALESTINA

Uma médica que espera o sobrinho chegar de ônibus; um adolescente apaixonado pela bibliotecária que, em vez de amá-lo, sente pena; o corretor de imóveis que sonha em comprar um velho casarão do povoado e fraqueja quando a oportunidade enfim surge. São enredos escritos em tom menor, com gosto daquilo que poderia ter sido e não foi. O mais pungente dos capítulos é Os que Cavam, sobre um ex-deputado à beira da senilidade que entra em conflito com a filha quando ela hospeda um jovem árabe em sua casa. Afinal, seria impossível escrever sobre Israel sem falar dos conflitos com os palestinos. Desde os memoráveis romances Não Diga Noite (1997) e A Caixa Preta (2003), Oz toca apenas indiretamente nesse e em outros traumas coletivos, como o Holocausto. Em vez de explorar grandes temas, prefere estudar o modo como se manifestam em gestos de ódio e afeto. Como se fôssemos todos feitos do acúmulo de dores e alegrias.

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Jonas Lopes é repórter da revista Veja São Paulo e assina o blog http://gymnopedies.blogspot.com.

 

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publicado às 13:02


#968 - 2º Festival Internacional de Paraty

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.10.09

2º Festival Internacional de Paraty

Até segunda-feira, 12/10, BRAVO acompanha o que acontece de melhor no Festival de Cinema que acontece na cidade histórica carioca. Acompanhe notícias sobre os filmes exibidos, entrevistas com atores e cineastas e os debates que acontecem no evento

 

A segunda edição do Festival Internacional de Cinema de Paraty, que começa nesta sexta-feira, 9 de outubro, exibirá cerca de 40 títulos, entre longas e curtas, filmes nacionais e internacionais. As sessões - todas gratuitas - serão realizadas no Cine Teatro Paraty (uma sala desativada há 40 anos e que receberá o Festival pela segunda vez), no centro histórico da cidade, e no Cine Tela Brasil (um cinema itinerante, com 225 lugares e projeção em 35mm).

 

BRAVO! acompanha a exibição de filmes ainda inéditos no circuito comercial, como os novos longas de Karim Ainouz e Marcelo Gomes, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, Insolação, de Marco Ricca, com Cabeça a Prêmio e de Paulo Machline, Natimorto, baseado no livro de Lourenço Mutarelli.

 

Além de filmes inéditos, serão exibidos com o propósito da formação de público filmes infantis como A Era do Gelo 2, Kiriku e a Feiticeira, Wall-e, filmes campeões de bilheteria, como E SE Eu Fosse Você 2, Mulher Invisível e Divã, uma mostra dedicada à França e uma sessão de filmes Maldita, com filmes de suspense e terror no sábado e domingo à meia-noite.

 

A propósito do crescente número de documentários produzidos no país, o festival traz o debate a respeito das novas propostas de linguagem para esse gênero e seus limites com a ficção, em uma mesa com a participação Fabio Barreto e Wagner Morales (diretor de Preto Contra Branco, realizado através do DOCTV e que acaba de ser finalizado, em 35mm). O encontro, "Navegar é Preciso, Filmar Também", será realizado no sábado, em um barco, às 12h30.

 

Também haverá a exibição de títulos como O Milagre de Santa Luzia (Sergio Roizenblit), Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei (Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal), Alô Alô Terezinha (Nelson Hoineff) e Herbert de Perto (Roberto Berliner e Pedro Bronz)

 

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publicado às 01:35


#967 - Jean-Marie Le Clézio - Como se Fosse um Memoralista

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.10.09

Jean-Marie Le Clézio - Como se Fosse um Memoralista

O francês Jean-Marie Le Clézio, prêmio Nobel de Literatura de 2008, recupera detalhes do passado para refletir sobre o presente

Por Heitor Ferraz


 

Prêmio Nobel de Literatura de 2008, o francês Jean-Marie Le Clézio possui um estilo límpido que lembra o do memorialista, aquele que recupera em detalhes passagens significativas do passado para recolocá-las no presente em sua plena pulsão. Em seu novo romance, Refrão da Fome, o escritor parece tocar, com a delicadeza dessa escrita, não apenas na ferida aberta pela Segunda Guerra Mundial, mas também nas feridas do presente.

 

Publicada no ano passado na França, a narrativa conta a história da jovem Ethel, entre os 12 e 20 anos de idade. A infância e a adolescência da protagonista coincidem com o período que vai dos anos 30 até o fim da guerra, em 1945. Filha de uma família abastada que vive na parte nobre de Paris, ela passa sua infância ao lado do tio-avô, Samuel Soliman. A ligação lírica entre os dois, com passeios e cumplicidades, ajuda a construir o caráter da menina. Na trama poética armada por Le Clézio, o leitor acompanha a formação de Ethel: sua amizade e paixão por Xénia, uma imigrante russa, de família nobre mas empobrecida; seu amor pelo jovem inglês Laurent; as andanças com o tio; e, momento crucial, a derrocada econômica da família, o início da guerra e a invasão da França pelos alemães. Tudo ocorre, aparentemente, no ritmo tranquilo do relato de uma vida, suas atribulações e desejos curiosos — como o sonho do tio-avô que durante a Exposição Colonial de 1931 comprara todo um pavilhão indiano para reconstruí-lo um dia no seu quintal.

 

Mas Le Clézio parece montar mesmo um grande quebra-cabeça, pois todos os elementos — de certa maneira rememorados — formam um conjunto intrincado no qual a burguesia francesa alienada e infantilizada, a invasão alemã, a história das ex-colônias francesas e a atual imigração árabe, que aparece apenas no final, acabam levando a uma leitura política do presente. Como se por trás da história de uma menina que cresce e consegue salvar os pais falidos e inaptos existissem camadas que afloram hoje, com sua carga embutida de violência.

 

O título parece não deixar dúvidas ao referir-se a um "refrão" (ritournelle, em francês), que tem como referência o Bolero, do compositor Maurice Ravel, citado no final do livro. Como o narrador diz, referindo-se à orgia de timbres que, na partitura, desemboca num impressionante crescendo: "O Bolero não é uma peça musical como as outras. É uma profecia. Conta a história de uma cólera, uma fome. Quando acaba em violência, o silêncio que se segue é terrível para os sobreviventes aturdidos". Assim, Le Clézio faz o balanço de um mundo que afundou e aponta para um outro, o nosso, que nasceu de suas ruínas e que muitas vezes parece fadado ao naufrágio.

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Heitor Ferraz é jornalista, editor e poeta, autor de Um a Menos, entre outros.

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publicado às 01:27


# 966 - João Ubaldo - O Albatroz Azul

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.10.09

João Ubaldo - O Albatroz Azul

Depois de vencer a depressão e o alcoolismo, o escritor baiano ressurge renovado com o solar - e ótimo - O Albatroz Azul

Por Cristiane Costa

 

 

Sete anos separam o soturno Diário do Farol do solar O Albatroz Azul. Entre o último romance, publicado em 2002, e o mais novo, que chega às livrarias neste mês, João Ubaldo Ribeiro viu a vida lhe sorrir. Nesse período, o escritor de 68 anos ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, teve seu passe disputado por várias editoras num vultoso leilão, saiu de uma profunda depressão e venceu o alcoolismo. Hoje, esbanja vitalidade e já fala até em parar de fumar. O humor que perpassa as páginas de O Albatroz Azul, uma volta ao universo e aos tipos inesquecíveis de sua lendária Itaparica, reflete esse momento. O escritor está de bem com a vida.

 

O Albatroz Azul é João Ubaldo em estado puro. Tem aquele barroquismo sem gorduras que é característico de sua prosa. Tanto a escrita quanto a falada (porque, como bom baiano, o homem conta até piada desse jeito mesmo, com ponto e vírgula e letra maiúscula). Traz aqueles personagens tão de carne e osso que parecem velhos conhecidos do leitor, como Tertuliano Jaburu e Ia Cencinha. Inventa diálogos divertidíssimos, recriando a fala do povo e salpicando aqui e ali ditados como "De burra que faz him e mulher que sabe latim, livra-te tu e a mim" ou "Marido velho com mulher nova, corno ou cova".

 

É um livro deliciosamente despretensioso em sua celebração da sabedoria popular. "A única pretensão deste livro é mostrar um universo, com seus valores, sua visão de mundo, que muita gente não conhece. Ou, se conhece, não participa dele", diz o autor. Como, por exemplo, a importância que as pessoas mais simples dão à escolha do nome, que vai acompanhar a criança a vida inteira. Numerosas questões filosóficas, filológicas e até hagiográficas vão levar Tertuliano a nomear seu neto, antes mesmo de nascer, de Raymundo Penaforte, com direito a ipsilone e tudo, como faz questão de frisar. É como se, invocando a proteção do santo certo, seu destino estivesse marcado em cada letra.

 

A sonoridade dos nomes e apelidos é uma das características da ilha de Itaparica transpostas para a ficção de João Ubaldo. O escritor retorna todos os anos, em janeiro, à casa onde nasceu. Afinal, a data de seu aniversário, dia 23, já faz parte do calendário turístico local. "Se pudesse, ficava lá pra sempre", suspira. Mas tem os compromissos, os filhos, o trabalho.

 

"O que eu faço lá? Nada!"

 

É em Itaparica onde estão os amigos de infância que, mesmo depois de o escritor ter aparecido no programa de TV Fantástico como ganhador do prêmio Camões, em 2008, ainda têm dúvidas sobre sua verdadeira importância para a literatura nacional. "Eu acho que não deixam de ter sua razão, sob certa perspectiva. Um amigo meu lá até me disse: 'Hoje eu posso dizer para você sem medo de errar: entre os escritores vivos da ilha, você é dos maiores'. Avaliei os outros e pensei: por que não? Eles são muito importantes na perspectiva da ilha. Então, para que me meter a besta?"

 

A verdade é que ter aparecido em cadeia nacional contribuiu grandemente para calar os céticos e solidificar a reputação de João Ubaldo em Itaparica. "O chato é que agora todo mundo acha que eu estou milionário. As pessoas confundem US$ 100 mil com US$ 100 milhões. Se eu aparecer a apenas alguns quarteirões daqui, na Delfim Moreira [rua mais valorizada do Leblon, no Rio de Janeiro], com US$ 100 mil, o porteiro vai dizer: 'Boa tarde, a entrada de serviço é por ali'. Isso não compra a dependência de empregada de um apartamento daqueles de frente para o mar", brinca.

 

Se o prêmio de US$ 100 mil não chegou a fazer cócegas e foi devidamente guardado na poupança que um dia garantirá a aposentadoria do escritor, o mesmo não se pode dizer dos valores pagos pela editora Objetiva para ficar com o passe de João Ubaldo depois que ele deixou a Nova Fronteira, que publicou seus livros por quase três décadas — O Albatroz Azul, aliás, é o último deles, uma vez que o romance já estava contratado quando a transferência aconteceu. Ninguém sabe ao certo o valor real acertado, mas o agente americano Thomas Colchie, que até então só representava João Ubaldo no exterior, começou o leilão pedindo US$ 1 milhão.

 

Milionário ou não, o escritor continua com sua vida de sempre, na mesma pequenina cobertura no Leblon que foi de Caetano Veloso no início da carreira. Ele é dono de um Ford Fiesta 1.0 que não dirige, acorda às 5h da madrugada para escrever, trabalha até o meio-dia e lê e pesquisa na internet o resto do tempo. Apenas a tela do computador, do tamanho de uma enorme televisão de plasma, revela que o autor deve estar muito bem de vida. É seu mais novo brinquedo.

 

ALCÓOLICOS ANÔNIMOS E DEUS

João ainda pode ser visto nos botecos do Leblon, jogando conversa fora com os amigos no meio da tarde. Mas que seus fãs não se enganem com o conteúdo amarelo do copo cheio de gelo. É guaraná. Ele parou completamente de beber há sete anos. "Cheguei a ir aos Alcoólicos Anônimos, mas parei de beber por conta própria. Foi uma experiência muito pessoal, que eu atribuo a minha fé. Não parece, mas sou um homem de fé. Não sou católico, mas sou cristão e leitor dos evangelhos."

 

Nos AA, João Ubaldo aprendeu que, quando alguém deixa a bebida, deve evitar a companhia do pessoal "da ativa". Fez exatamente o contrário. E deu certo. "Na semana em que parei de beber — e eu bebia direitinho —, fui para um boteco, pensando em exercer minha força de vontade. Mas absolutamente não fiz força nenhuma. Continuo comparecendo quase religiosamente ao Tio Sam, o boteco onde tenho mesa cativa e encontro minha turma. E não toco em álcool", garante. Só falta parar de fumar. "Estou pensando mesmo. Começo a me sentir sem fôlego."

O inferno ficou para trás, com o ex-padre de Diário do Farol. É curioso reparar que aquele personagem destrutivo, verdadeira personificação do mal, vivia isolado numa ilha inóspita, que em nada se assemelha à alegre e populosa Itaparica, onde João Ubaldo ambientou outros livros e agora O Albatroz Azul. Embora o animal do título só apareça no final, passa uma ideia de transcendência. "Dizem que é lenda, mas tem gente do mar que garante que o albatroz dorme lá em cima, no céu. Vive no ar, se aproveitando das correntes. É uma ave majestosa que se confunde com o próprio céu", diz o autor.

 

O que ela significa? A epígrafe do livro, a frase "Ninguém sabe", dá uma pista. João diz que é bem possível que seu romance tenha parentesco com o Livro de Jó, do Velho Testamento. "Isso deve soar como uma pretensão inaudita, o que de certa forma seria, se não fosse o fato de eu estar dizendo isso com humildade. Quando Deus fala a Jó, não pede desculpas por ter maltratado tanto aquele filho fiel. Ele apenas aparece e diz: 'O que é que você sabe?'. E devolve tudo que lhe foi tirado, sem mais conversa. Parece-me uma pretensão enorme querer entender algo que está fora do tempo. Como dizia Padre Vieira, para Deus todos os tempos são presente."

 

A metafísica é uma questão que inflama o escritor, especialmente a pretensão da ciência em refutar o divino. "Do mesmo modo que ninguém pode provar a existência de Deus, ninguém pode desprovar. O método científico não é a única maneira de se abordar a realidade. Ele recusa a chancela de verdade a tudo o que não pode ser submetido à verificação científica. Ou seja, converte a própria incapacidade numa vantagem. Já que não nos é dado conhecer, essa coisa não existe."

 

Nos sete anos em que ficou sem publicar um romance, João Ubaldo chegou a esboçar outros dois projetos. O primeiro seria um livro intitulado simplesmente Si, sobre a consciência de si. "Comecei a fazer, mas tive problemas de computador terríveis, parecia maldição. Aí perdi a embocadura. Então comecei a escrever outro livro, que parecia ser este. Mas estava me saindo descomunal, uma Montanha Mágica qualquer. Eu ia fazer um livrão, mas ele se recusava a sair. Aí pensei cá comigo: 'Ninguém lê livrão'. Deixa sair pequenininho mesmo."

O jogo entre pretensão, representada pela arrogância intelectual do padre de Diário do Farol, e a despretensão da sabedoria popular dos personagens de O Albatroz Azul é a lente com que João Ubaldo vê a própria vida. "Toda vez em que eu estou me achando, aparece um jeito de eu parar de me achar. Se eu estou me achando extrafamoso, não preciso nem ir para Itaparica. Basta entrar numa livraria. Frequentemente eu peço um livro que não tem na hora e o camarada pergunta meu nome e pega meu telefone. 'Seu João Paulo, quando chegar aviso.' Aí vejo que não sou tão famoso assim."

 

Planos para um novo romance, agora pela nova editora, a Objetiva, João Ubaldo ainda não tem. "E eu sei? Já vivi muito para saber que não adianta planejar. A vida dá voltas por ela mesma." Ainda bem que a dele escolheu dar a volta por cima.

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Cristiane Costa é jornalista e doutora em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

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publicado às 01:23


#963 - José Luis Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.09

As Alziras

               No momento em que escrevo estas palavras, a minha irmã mais velha está internada num hospital na Eslováquia. A minha irmã chama-se Alzira Maria.

A primeira Alzira foi a minha madrinha: madrinha da minha mãe, das minhas irmãs, de mim, madrinha de toda a gente. Sempre velha, de muletas, afastava-se pouco da porta de casa. As muletas oblíquas ao chão de paralelos; ao andar, ela inclinava-se sobre as muletas e, depois do entardecer, a sua imagem era uma sombra confusa, pernas e braços. Hoje, quando encontro uma das suas poucas fotografias e lhe fixo o olhar, concluo que sei pouco sobre ela. Recordar faz com que desbotem as cores daquilo que se recorda, recordo a sua voz. A minha madrinha passou a lua de mel a banhos, Estoril, Cascais, tirou um retrato na Boca do Inferno. Ah, as ilusões de uma jovem noiva nos anos trinta. Há chávenas que a minha madrinha guardou desde esse tempo. Passaram décadas expostas na vitrina de um armário da sala de jantar, varrida, arrumada, onde ninguém podia ir porque era no primeiro andar e tinham medo que o chão/tecto caísse. A minha madrinha criou a minha mãe. Morreu no dia 16 de Outubro de 1993.

A segunda Alzira é a minha mãe. A minha mãe é uma espécie de sol, ou de morte, é o horizonte, esse é o tamanho da sua realidade. Eu não sou capaz de descrever a minha mãe em poucas linhas. Outro poderia fazê-lo, mas duvido que o fizesse bem. Quando eu era pequeno, houve uma vez em que me perdi dela. De repente, deixei de vê-la e estava numa cidade que não conhecia. Lembro-me de mulheres a baixarem-se para falar comigo, tinha quatro ou cinco anos, e lembro-me de acreditar que poderia não voltar a vê-la; lembro-me de ter essa idade, estar perdido e sentir essa angústia negra. A minha mãe é o contrário disso. A minha mãe existe em tudo, é infinita.

A terceira Alzira é a minha irmã mais velha que, no momento em que escrevo estas palavras, está internada num hospital na Eslováquia.

Alzira é um nome tão bonito. É de origem árabe. Pelo menos, parece. É um nome cheio de vogais, bom para ser cantado pelo Nat King Cole. Sou da opinião de que, em Portugal, há um deficit incompreensível de Alziras. Poucos pretextos são tão bons para usar um “z”.

Todos os anos, na segunda-feira de Páscoa, fazíamos um piquenique na courela dos meus padrinhos, as Alziras juntavam-se. É claro que, na altura, não as víamos assim, as Alziras; na altura, eram a minha madrinha, a minha mãe e a minha irmã. A minha mãe tinha mantas dobradas e coisas simples que precisavam de ser carregadas na carrinha do meu pai. O caminho até à courela não era longo mas era uma viagem. Chegávamos, ficávamos sempre debaixo da mesma árvore, e o meu pai voltava atrás para ir buscar os meus padrinhos. Talheres, caixas de plástico com comida. Não sei que tipo de conversas tinham a minha mãe e a minha madrinha. Talvez a minha irmã tentasse sintonizar alguma estação no rádio do carro. Talvez eu me aproximasse das colmeias, lá em cima, com um pau/espada nas mãos. Tanto faz. Nessas segundas-feiras, as Alziras brilhavam. Sem o saberem, cada uma delas tinha o nome de um anjo.

Pois é, a minha irmã está internada num hospital na Eslováquia. Foi acompanhar a filha, minha sobrinha, a um encontro internacional de dança, sentiu dores na barriga, ambulância, urgências, foi operada no dia seguinte a uma hérnia umbilical. Está a recuperar. Correu tudo bem. Recebeu sangue por causa de uma anemia. Agora, a preocupação é a viagem de volta. Tento imaginar aquela rapariga dos piqueniques da segunda-feira de Páscoa num hospital na Eslováquia, ecos de conversas em eslovaco, talvez a chegada de alguém com um comprimido ou um tabuleiro. E a dor, como um cenário atrás do cenário. Talvez nesse quarto exista um relógio, o ponteiro dos segundos. A minha irmã Alzira Maria. Há muitas coisas que vou perguntar-lhe quando regressar, quero que me conte pormenores: o silêncio, a maneira como as enfermeiras eslovacas pronunciam Alzira.


(PS: este texto foi escrito já há alguns meses. Agora, felizmente, a minha irmã está bem e em casa dela.)

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publicado às 22:34


#949 - Marc Chagall

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.09.09

La Musicienne (A Musicista), tela de 1978. As figuras flutuantes são comuns na arte popular russa
La Musicienne (A Musicista), tela de 1978. As figuras flutuantes são comuns na arte popular russa

 

Revista BRAVO! | Agosto/2009

O Mastigador de Vanguardas

O russo Marc Chagall incorporou diversas tendências da arte europeia e, a partir delas, criou uma obra totalmente original. Seu estilo é tão marcante que ninguém ousou fazer algo parecido

Por Gisele Kato

 

 

Um episódio perdido na trajetória do russo Marc Chagall (1887-1985) é a chave para a entrada em seu universo de noivas flutuantes e bichos equilibrados em telhados. Aconteceu quando o pintor era comissário das artes em sua cidade natal, Vitebsk. Empolgado com a chance de levar à nova Rússia comunista os ideais das vanguardas europeias, o artista inaugurou uma escola em 1918 e chamou o também russo Kazimir Malevich para integrar o corpo docente. Em pouco tempo, o colega seduziu os alunos com suas figuras geométricas simplificadas ao máximo, pedras de toque da escola conhecida como suprematismo. O famoso quadrado negro sobre o fundo branco de Malevich foi interpretado pelos jovens revolucionários como um caminho rápido para a transformação visual que tanto perseguiam. Diante da força e simplicidade do suprematismo, a popularidade de Chagall, com sua linguagem de excessos, perdeu força dentro da luta bolchevique. Em 1920, bastante magoado, ele abandonou o cargo em Vitebsk, deixando espaço para Malevich, inventor de uma proposta estética praticamente oposta à sua. Chagall seguiu para Moscou, onde começou logo a produzir sete grandes painéis para o Teatro Yiddish. Em um dos trabalhos, pintou um quadrado negro, em uma referência clara ao movimento preconizado pelo recente rival. Ver a homenagem como um gesto incoerente do artista é, no entanto, um equívoco. A citação, na verdade, resume o espírito de toda a sua obra.

Com o painel A Música, Chagall dizia que estava atento às inovações artísticas da época, mas que não iria endossá-las por completo. Durante os mais de 60 anos de carreira, o pintor flertou com muitos grupos modernos, observou com atenção o que surgiu no período, mastigou as ideias lançadas e devolveu tudo na forma de telas, gravuras e esculturas absolutamente originais. Por isso, é tão fácil reconhecer uma criação sua. E, por isso, seu legado provou-se tão singular. Ao mesmo tempo em que o artista se manteve antenado com as correntes artísticas de sua época, desenvolveu um estilo pessoal, quase impossível de ser seguido. Como uma referência a Chagall sempre corre o risco de se tornar uma imitação barata, as gerações seguintes o admiram, mas não são diretamente influenciadas por ele — o que, de modo algum, tira seu lugar entre os protagonistas mais geniais da arte do século 20. Esse percurso de certa forma "alternativo" no rígido mundo das vanguardas modernas fica evidente na mostra O Mundo Mágico de Marc Chagall — O Sonho e a Vida, que a Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, recebe neste mês — e que, em outubro, segue para o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

 

Com 275 gravuras, duas esculturas e 26 pinturas, todas inéditas no Brasil, esta é a maior exposição do artista já vista no país desde a sala especial na 4ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1957. O conjunto, vindo de instituições russas e suíças, além de coleções particulares, convida o público a se entregar a uma atmosfera única, bela no sentido mais genuíno da palavra. E encantadora como só a imagem de uma cabra tocando violino ou um peixe voador podem ser. "Chagall é um caso curioso porque é um artista de expressão extraordinária, mas que não deixa escola. Sua influência na arte é muito pequena. E, mesmo assim, ele tem uma presença definitiva na produção moderna", diz o curador Fábio Magalhães, que, para a individual, garimpou obras do pintor russo ao longo de dois anos. Embora concorde que não exista um herdeiro assumido de Chagall, o curador optou por sugerir ainda aproximações com alguns artistas brasileiros, como Ismael Nery e Cícero Dias. "Mas o próprio Cícero negou a vida inteira ter qualquer relação com Chagall", ressalta. Para Magalhães, o mestre russo construiu um repertório com tamanha personalidade por contar, a seu favor, com uma circunstância histórica: "Ele teve a sorte de viver em um momento incrível e soube ser sensível a esse tempo". Chagall, assim, teria sido uma espécie de mastigador de vanguardas.

EUROPA E RÚSSIA
Chagall pisou na França pela primeira vez em 1911 e, entre idas e vindas a Paris, conviveu com uma avalanche de pensamentos que interfeririam nos sonhos e ilusões de muitas décadas posteriores. Logo quando chegou à capital francesa, ele foi morar no lendário prédio La Ruche, no bairro de Montparnasse. Com aluguel barato, o endereço funcionava como albergue para jovens artistas ainda em busca de reconhecimento. Nomes como os dos poetas Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars e dos pintores Fernand Léger, Amedeo Modigliani e Constantin Brancusi estavam entre seus vizinhos. O La Ruche somava-se, na época, ao Bateau-Lavoir, edifício no bairro operário de Montmartre, onde ficava o ateliê de Pablo Picasso, para fazer de Paris o centro artístico do mundo. Lá, Chagall aprendeu a questionar as regras estéticas estabelecidas, experimentou as premissas do cubismo, do fauvismo e do expressionismo e intensificou sua relação com a poesia e com a literatura. Foi moldando, assim, uma plástica própria, misto de tudo o que borbulhava ao redor.

Além do privilégio de assistir e se envolver com o surgimento dos novos movimentos da arte, Chagall se beneficiou de um período de interesse voltado para as culturas russa e judaica. Como mais uma das coincidências felizes de sua vida, isso ocorreu logo após a Primeira Guerra Mundial, quando ele estava de volta à Rússia. Nascido em uma comunidade judia de Vitebsk, o artista soube tirar vantagem de sua origem e adaptar as lições da tradição às causas da modernidade. E isso se deu em várias camadas: "Ele é o artista oficial do judaísmo até hoje, mas suas criações englobam também noções cristãs", diz Magalhães. Chagall pairou acima das tendências sem, no entanto, ignorar nenhuma delas. As cores vibrantes de suas telas têm muito da arte popular russa. O clima leve e alegre das composições revela plena sintonia com a dissidência hassídica do judaísmo, que pregava o êxtase no encontro com Deus.

VACA NO TELHADO
Se até os anos 20 essa combinação original se concentrava nas telas, depois o artista direcionou seu talento também para as gravuras. O curador da exposição em Belo Horizonte iguala a importância dos dois suportes na carreira de Chagall: "Diria até que nessa época de maturidadea gravura ocupa um papel mais importante do que a pintura em seu trabalho. Ele renova e cresce muito no domínio da técnica", diz Magalhães. Amigo de vários escritores, Chagall sempre fez ilustrações. Após o período na Rússia, na Primeira Guerra, ele voltou a Paris já como talento reconhecido e se dedicou com mais afinco à tarefa, muitas vezes sob encomenda de marchands e galeristas bem-sucedidos, como Paul Cassirer e Ambroise Vollard. Ele apostou primeiro na gravura em metal e, nessa fase inicial, assinou pelo menos três séries importantes: Les Âmes Mortes (As Almas Mortas), baseada na obra de Nicolai Gógol e apresentada em 1923; Fables (Fábulas), feita entre 1926-1927 para as fábulas de La Fontaine; e La Bible (A Bíblia). No último conjunto, executado entre 1931 e 1939, o artista, que costumava criar em guache e transferir para a matriz de metal, começou a sentir dificuldade em obter os mesmos resultados de cor planejados na aquarela. "Por isso, encontramos gravuras em metal coloridas depois à mão por ele", diz Magalhães. Na mostra montada no Brasil, estão os conjuntos completos de La Bible e Les Âmes Mortes, além de exemplares das Fables. Junta-se à seleção a série inteira de litogravuras Daphnis et Chloé, baseada no idílio pastoral da Grécia antiga e finalizada nos anos 60. Com os exemplares tirados de matrizes de pedra, Chagall obteve as tonalidades desejadas.

A preocupação com as cores ganha mais sentido quando se vê sua obra como uma espécie de fábula, visão defendida pelo crítico italiano Giulio Carlo Argan. Para ele, Chagall subverteu planos, quebrou parâmetros espaciais e chegou a uma perspectiva inédita, em que situações a princípio absurdas acabam se passando como cenas naturais. Vacas vermelhas andam em telhados? Diante de um trabalho de Chagall, é possível acreditar que sim. Ante suas telas, fazem-se ainda as pazes com a arte bela, vítima do preconceito da vanguarda segundo o qual essa proposta estética seria menor, mais fácil de produzir. Uma obra de Chagall convida a um comentário na linha "gosto disso e não sei bem explicar por quê". Isso basta. Ele é a prova de que beleza, inovação e talento podem caminhar juntos.

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publicado às 00:11


#948 - José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.09.09

Desistir

Uma única vida é pouco. O rosto é demasiado rápido a mudar nas fotografias. As crianças imaginam tantas coisas acerca do mundo e, mais tarde, percebem que não conseguiram imaginar aquilo que era mais importante. Ainda crianças e já quase adultos, ainda levados por miragens e, no entanto, com a certeza absoluta de que não acreditam em nada, surpreendem-se com os braços que cresceram no espelho, com os truques que são capazes de fazer de olhos fechados, com os cigarros que começam a arder-lhes na ponta dos dedos e, arrogantes ingénuos, desejam que o tempo passe mais depressa, desejam que os anos passem mais depressa. Depois, a idade não conta. A idade não conta, mas um dia têm trinta anos, têm quarenta anos, um dia têm cinquenta anos. Os números deixam de ser números. Então, esqueceram tantas coisas e, no entanto, têm a certeza absoluta de que sabem tudo. Ridículos. Entretanto, apaixonaram-se e desapaixonaram-se; saltaram por cima de momentos que foram como abismos; existiu a casa; existiram todos os objectos da casa, divididos e arrumados em caixas de papelão; existiu a mágoa como se fosse o mundo inteiro, não era; existiram as pessoas que morreram mesmo ao lado, que pareciam eternas e que, devagar ou num instante, foram esquecidas, fácil; existiram as pessoas que estavam mesmo ao lado e que receberam telefonemas para comunicar-lhes que a mãe tinha morrido num hospital; e repetiram a vida continua, a vida continua; e o verão e o verão e o outono, a primavera, tão bom, e o verão, o outono, e o inverno e o inverno. Um dia, acordam e o passado não é suficiente sequer para lhes encher a palma de uma mão.

E convencem-se de uma mentira diferente todas as manhãs para obrigarem o corpo a fazer cada movimento e, apesar disso, acreditam nessa mentira exactamente como se fosse verdade, excepto às vezes. E estão cansados da mulher que, cansada, os olha ao serão e que, apesar disso, os enternece quando se debruça sobre o lavatório da casa de banho, com toalhas pelos ombros, para pintar o cabelo. Pode então haver um momento em que o mundo pára. A idade pára. É nesse instante que se pode pensar: nunca quis ser aquilo em que me tornei, quis sempre não ser aquilo em que me tornei. Com o mundo completamente parado, com a idade parada, não é difícil parar também e, rodeados de fragmentos: uma existência inteira feita de vidro estilhaçado e espalhado no chão: o mais natural é baixarmo-nos sobre os calcanhares, pousar os cotovelos sobre os joelhos dobrados e, com cuidado, esticar as mãos para, com a ponta dos dedos, se começar a escolher cada fragmento, distinguir o que se deve abandonar do que se deve manter. Desistir não é sempre mau. Há vezes em que não se pode evitar. Todos nos dizem continua, continua, mas é o mundo que desiste, inteiro, à nossa volta.

Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe e se pode e se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. Essa é a conclusão a que se chega logo no fim da adolescência. Quando os números deixam de ser números. Trinta, quarenta, cinquenta anos. As gerações sucedem-se. Os degraus de uma escada rolante que desaparecem lá em cima enquanto subimos, subimos, olhamos para trás e ainda vemos o primeiro degrau, quase como quando tínhamos acabado de chegar e, no entanto, continuamos a subir e vemos já o fim. Os nossos avós mortos, os nossos pais mortos, nós, os nossos filhos, os nossos netos. E, se existir um horizonte, podemos olhá-lo e perceber finalmente que estamos parados no tempo e que o tempo, nesse presente definitivo, está parado dentro de nós.

Eu olho para esse horizonte, arrependo-me e não me arrependo, tento compreender ou lembrar-me daquilo que quero mesmo. Depois, penso em tudo aquilo que posso fazer para que aconteça: os gestos e as palavras. Depois, hoje é um dia mais forte e, de repente, imenso. Depois, penso em tudo aquilo de que terei de desistir para alcançar o que quero: para ser o que desejo ser. Então, não fico triste. Aceito tudo aquilo que nunca fiz e que acredito que nunca terei vida suficiente para fazer. Num dia, avisado ou sem aviso, morrerei. Estas mãos serão nada. Este rosto será nada. Uma única vida é pouco. Aceito essa certeza sem que ninguém me pergunte se estou disposto a aceitá-la. É então que me convenço finalmente que nunca serei campeão de xadrez, nunca registarei uma patente, nunca conduzirei uma Harley Davidson, nunca invadirei um pequeno país, nunca venderei relógios roubados aos transeuntes da rua Augusta, nunca serei protagonista de um filme de Hollywood, nunca escalarei o monte Evarest, nunca farei uma colcha de renda, nunca apresentarei um concurso de televisão, nunca farei uma neurocirurgia, nunca ganharei a lotaria, nunca casarei com uma princesa, nunca ficarei viúvo de uma princesa, nunca me mudarei para Detroit, nunca farei voto de silêncio, nunca tocarei harpa, nunca serei o empregado do mês, nunca descobrirei a cura para o cancro, nunca beijarei os meus próprios lábios, nunca construirei uma catedral, nunca velejarei sozinho à volta do mundo, nunca decorarei uma enciclopédia, nunca despoletarei uma avalanche, nunca apresentarei cálculos que contradigam Einstein, nunca ganharei um óscar, nunca atravessarei o Canal da Mancha a nado, nunca participarei nos jogos olímpicos, nunca esfaquearei alguém, nunca irei à lua, nunca guardarei um rebanho de ovelhas nos Alpes, nunca conhecerei os meus tetranetos, nunca repararei a avaria de um avião, nunca trocarei de pele, nunca bombardearei uma cidade, nunca serei fluente em finlandês, nunca comporei uma sinfonia, nunca viverei numa ilha deserta, nunca compreenderei Hitler, nunca exibirei um quadro no Louvre, nunca assaltarei um banco, nunca darei um salto mortal no trapézio, nunca atravessarei a Europa de bicicleta, nunca lapidarei um diamante, nunca farei patinagem artística, nunca salvarei o mundo. Ainda assim, além de tudo isto, há o universo inteiro.

Retirado da Revista Bravo

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publicado às 00:05


#934 - José Luis Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.09

Traição

 

Hoje é dia 21 de outubro de 2008. Estou a beber chá.

O meu marido anda lá fora, no quintal. Na paisagem imóvel da janela, uma brisa ligeira nas folhas mais altas, vejo-o às vezes. Furtivo, o meu marido passa com a pá, ou o ancinho, ou a mangueira, ou a tesoura de podar. Na nossa casa, os catálogos de jardinagem terminam sempre como leitura de casa de banho. O meu marido anda de botas e chapéu. Não há sol, mas aquele é o chapéu da jardinagem. Também as calças dobradas na canela e as botas. Agradeço a Deus pela jardinagem. Obrigado, Senhor, pela jardinagem. O meu marido precisa de distracções. Não lhe chega a televisão, adormece. O meu marido é doente cardíaco. O vidro da janela é grosso e eu ouço mal. Ouço bem um apito fininho, constante, branco, uma linha, ouço mal tudo o resto. O vidro da janela, eu ouço mal, mas sei que o meu marido está a assobiar. As pequenas plantas fazem-no feliz.

Actualmente, o meu clitóris não é mais sensível do que qualquer outra parte do meu corpo. É feito de pele, como os meus ombros, cotovelos, joelhos. Creio que endureceu. Ainda é de tarde, são quase cinco horas, mas já se sente o início da noite. Aqui, nos arredores de Reggensburg, há pássaros que só aparecem a esta hora. Não sei porquê, alguém deve saber. São pássaros pequenos que fazem barulho. No passado, o meu clitóris deu-me grandes alegrias. Marcou o meu epicentro. Sou uma mulher, não deixei de ser uma mulher, mas agora tenho outros interesses. Não sei ainda quais são. Talvez a mágoa. Talvez a mágoa seja agora um dos meus interesses. Presto bastante atenção à mágoa, é certo. Neste verão que terminou, parecia-me que a mágoa tinha um cheiro entre os primeiros instantes de cada dia, uma nesga de luz matinal na janela do quarto. O meu marido na cozinha, acordado há horas, as chávenas a chocarem umas nas outras, e eu a decidir se estava acordada, se era outra manhã, se queria outra manhã, acordar, e a parecer-me que a mágoa tinha um cheiro. O meu marido nunca se apercebeu. O meu marido esqueceu-se de tocar-me há talvez quinze, dezasseis anos, nunca mais se lembrou. Em fevereiro, faço setenta anos. Esta parte do ano, outubro, ficou sempre ligada na minha cabeça aos outubros de quando era adolescente e ia para a escola. Na minha imagem mental dos meses, agora parece maio. Há cinco meses, em maio, eu ainda estava chocada. Ontem, ao lavar-me, passei a mão pelo clitóris e, instintivamente, admirei-me. Por instantes, pensei que pudesse ser uma verruga, um sinal, um caroço.

Os arredores de Reggensburg têm asseio, os muros estão sempre acabados de pintar. Temos vizinhos a boa distância. Gosto do vento, mesmo daquele vento frio a meio do inverno. Reggensburg fica a cerca de 225 quilómetros de Amstetten. Nunca fiz essa viagem, nem para um lado e nem para o outro. Quando saímos de Amstetten, fomos viver para Dortmund, ficámos lá dez anos. Depois, fomos para Weimar, ficámos lá dois anos, até o meu marido se reformar. Podíamos ter procurado casa em qualquer lado. O meu marido insistiu na Baviera porque ficava perto da Áustria, acabamos por concordar com Reggensburg. Quando pede alguma coisa, o meu marido gagueja. Às vezes dizia: Amstetetetetetten. Sozinho, planeava fins-de-semana em Amstetten. Dizia: vivemos cinco dos nossos melhores anos naquela cidade, porque não queres voltar? Eu começava por negar que não quisesse voltar. Depois, inventava desculpas sem tentar sequer fazer sentido. Não sei o que ele pensava de mim. Até podemos ficar no teu hotel, dizia o meu marido, sem saber o que dizia. Literatura. Adorava que o meu marido gostasse de ler. Tenho a certeza de que adoraria os russos: Tolstoi, Dostoievski, Gogol. Ah, Gogol. Quando quis trabalhar, o meu marido conseguiu-me uma posição a gerir uma pousada quase no centro de Amstetten. Após uma semana de serviço, meados de setembro, o Josef possuiu-me na cama dupla do quarto 28.

Sempre usámos este verbo um pouco antigo, talvez um pouco livresco, século XIX. Quando o Josef começava a rosnar, eu dizia-lhe: possui-me, possui-me. Tenho de falar dos seus olhos azuis. Os olhos azuis do Josef brilhavam, seriam suficientes para iluminar uma sala. Não estou a exagerar. Ou talvez só um pouco. Quando o Josef me sorriu, me tratou por menina, quando me apontou o olhar cheio de entoações, desfiz-me invisivelmente. A partir daí, tratou-se de seguir um sentido. Às vezes, quando deixávamos cair a cabeça sobre as almofadas da cama, eu ficava a fazer-lhe festas no pequeno bigode colado aos lábios. Não era ridículo. Eu sorria, enquanto a nossa respiração abrandava ao mesmo tempo. Depois, ele olhava para mim e sorria também. O Josef sabia sorrir. À noite, o meu marido contava-me todos os pormenores da vida dos seus colegas, mas eu não o ouvia. O Josef gostava de sexo de pé. Eu inclinava-me na direcção da janela e ele ficava por trás, apreciava a paisagem. Em certos assuntos, muitos, eu considerava o Josef um poeta. Amstetten era uma cidade sem sobressaltos, as campainhas das bicicletas, as estações do ano nos dias certos. O Josef tinha umas pernas firmes, que eu gostava de apertar no interior das minhas.

Quando estava bom tempo, aos sábados, o meu marido e eu fazíamos piqueniques. O Josef tinha cinquenta e oito anos, mais quatro do que eu, e bastava que me tocasse com um dedo. Se nos cruzávamos na rua, eu tremia. Ninguém podia suspeitar. Ele sorria sem olhar para mim. Uma vez, estava num restaurante, e o meu marido perguntou-me: estás com frio? Era o Josef. Quando ganhei coragem para olhar melhor, não era o Josef, não era sequer parecido, mas tremi, não consegui controlar-me. Quando o Josef punha a cabeça no meio das minhas pernas, eu fazia-lhe festas no cabelo. Havia semanas em que nos víamos duas vezes, três vezes, havia semanas em que não nos víamos. Dependia de muitos factores. Conheci o Josef quando tive aulas de dança, salsa. Estive em três aulas. Depois de conhecê-lo, desisti. Deixei de ter tempo. Precisava de todos os instantes para pensar nele.

O meu marido estava muito triste na noite em que me contou que tínhamos de partir para Dortmund. Eu disse-lhe algumas frases inacabadas, palavras incompletas. O meu marido disse: pois é. O meu marido nasceu na Saxónia, a meia dúzia de quilómetros de Dresden e, no entanto, já tinha adoptado um sotaque austríaco. Artificial, enjoativo, mas sentido. O meu marido é obediente. O Josef tinha verdadeiro sotaque austríaco, claro. Os seus érres davam-me tesão. Durante anos, eu corava só de lembrar-me dos seus érres. Nessa noite, o meu marido tinha a cabeça entre as mãos, a realidade. Eu não podia fazer outra coisa. Desde esse dia, até à partida, eu e o Josef comemo-nos como animais, como lobos, em todas as camas da pousada. Engolimo-nos. Em Dortmund, eu sonhava com ele. No duche. Em Weimar, comecei a conformar-me. Em Weimar, tivemos uma cadela, Lassie. O meu marido apareceu com ela pequenina, quando chegámos. Morreu uma semana antes de partirmos para Reggensburg, bem-educada. Conformei-me que não voltaria a ver o Josef. Por isso, nunca quis voltar a Amstetten. O Josef era um segredo para sempre. Havia momentos em que me parecia que só tinha existido na minha imaginação, mas isso é algo que me acontece com todo o passado. Há momentos em que me parece claramente que algum detalhe do passado, a minha mãe, sexo oral quando namorava com o meu marido, sopa de abóbora, só existiu na minha imaginação.

Eu não tinha qualquer fotografia do Josef. Mesmo já em Reggensburg, havia vezes em que me sentava no sofá, de braços cruzados, a esforçar-me para recordar o seu rosto. Quando não conseguia, ia à cozinha e fazia panquecas. Era uma espécie de compensação e, ao mesmo tempo, um hábito. Depois, noutros dias, via-o em tudo. Havia um calor. O rosto dele era como uma chama. Tentei aprender a bordar. Via o rosto dele nos novelos de linha, no pano esticado. Foi talvez por isso que, quando apareceu a imagem dele na televisão, não me admirei logo. Acho que não gerei sequer um pensamento, não reagi. Analisando, reconheço agora que a ordem dos meus instintos perante a sua imagem seria não verbalizar. Foi com alguns segundos de atraso que me apercebi que o Josef, o Josef, o meu Josef, estava na televisão. Não sei qual foi o meu aspecto. Perdeu-se para sempre a imagem do meu rosto porque estava sozinha, não estava ao espelho, estava em brasa, a ouvir. Eu não queria acreditar. Foi em abril. Quando acordo a meio da noite com pesadelos, acredito por instantes que posso sentir-me aliviada, que não é real, mas depois, acordada, o pesadelo é ainda mais intenso porque é real. O Josef punha a língua toda dentro da minha boca. Abril, abril, quando desliguei a televisão, cambaleei pela sala. Agarrei-me a móveis para não cair. E pensei: não. Pensei: não. Até cheguei a sorrir. Não pode ser. Em roupão, tirei o carro da garagem e fui comprar revistas e jornais. Nenhum tinha a notícia. Liguei o rádio do carro e não falavam de outra coisa. No dia seguinte, todos os jornais tinham a notícia.

O Josef tinha mantido a filha presa na cave durante vinte e quatro anos. Tinha-a violado repetidamente e tinha tido sete filhos com ela, um dos quais morreu. Na televisão e no rádio, chamavam-lhes filhos-netos. A filha do Josef e alguns dos seus filhos-netos viviam na cave. Um deles, uma rapariga com dezanove anos, nunca tinha visto o sol. Eu era obrigada a ouvir o meu marido comentar esta história e a repetir: em Amstetten, quem diria em Amstetten, e nós lá, quem diria. E perguntava-me se eu conhecia aquela rua. Eu respondia. Já me tinha perdido naquela parte da cidade. Este ano, em abril, choveu muito pouco. Tenho saudades de quando chovia em abril. Eu fixava a imagem do Josef na televisão e acreditava que os seus olhos líquidos me viam. Não tinham envelhecido. Eram os mesmos. Os lábios eram os mesmos. O Josef traiu o nosso segredo com o seu próprio segredo. Mas, agora, o seu segredo já não existe, toda a gente o conhece. Agora, só existe o nosso.

(Este conto foi anteriormente publicado na edição de papel da Bravo! e na antologia portuguesa "O Segredo".)

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#904 - Nouvelle Vague Brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.07.09

Da esquerda para a direita: Ilana Feldman, Cléber Eduardo, Luiz Carlos Oliveira Jr., Daniel Caetano, Eduardo Valente e Felipe Bragança. Seis amigos que se tornaram críticos e depois cineastas
Da esquerda para a direita: Ilana Feldman, Cléber Eduardo, Luiz Carlos Oliveira Jr., Daniel Caetano, Eduardo Valente e Felipe Bragança. Seis amigos que se tornaram críticos e depois cineastas

 

Revista BRAVO! | Junho/2009


Uma geração de jovens diretores renova a maneira de fazer filmes no país ao se espelhar nos cineastas franceses que começaram como críticos na revista “Cahiers du Cinéma”, nos anos 60

Por Caroline Rodrigues

Leia seleção de críticas e trechos de filmes dos jovens cineastas

Jean-Luc Godard disse certa vez que filmava para escrever e escrevia para filmar. A frase do diretor francês se explica: antes de criarem a Nouvelle Vague ("nova onda"), cineastas como François Truffaut, Eric Rohmer, Claude Chabrol e Alain Resnais, além do próprio Godard, eram críticos da revista Cahiers du Cinéma. A revolução promovida pelo movimento, surgido em 1959 com a estreia do filme Os Incompreendidos, de Truffaut, deriva, em grande parte, da origem de seus integrantes: para o grupo, era urgente vincular pensamento à imagem cinematográfica, de modo a subverter as regras da indústria do cinema e da narrativa clássica. Na Nouvelle Vague, as imagens são reflexivas.

 

Cinquenta anos depois, algo semelhante ocorre no Brasil. Críticos das revistas virtuais Contracampo e Cinética, oriundos da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Rio de Janeiro, começam a desenhar uma geração do cinema brasileiro. Nomes como Eduardo Valente, Cléber Eduardo, Ilana Feldman, Daniel Caetano, Luiz Carlos Oliveira Jr. e Felipe Bragança. Na definição de Valente, eles fazem parte da "missão carioca", que tem como características a defesa das produções de baixo orçamento, o experimentalismo de linguagem e a criação coletiva. Ao mesmo tempo em que refletem sobre quase toda a produção mundial — estrangeiros, independentes ou vinculados à indústria —, procuram colocar suas ideias em prática, por trás das câmeras, algo próximo ao que fizeram os franceses.

 

Essa história começa em 2000, quando Eduardo Valente, professor de cinema da UFF, convidou o aluno Felipe Bragança para escrever na Contracampo, criada por ele, Valente, e pelo jornalista e pesquisador Ruy Garnier em 1998. Era um projeto pequeno, com a intenção de transformar uma "paixão pelo cinema" em textos críticos de ponta. Contando com recursos do Fundo Nacional de Cultura do MinC, a revista defende o cinema que não se submete às regras e à linguagem do mundo comercial. A crítica independente também se caracterizaria dessa forma, disponibilizando online uma vasta reflexão sobre cinema.

 

A amizade e o trabalho conjunto conduziram o professor e o ex-aluno ao set de filmagem. Felipe (como roteirista) e Valente (como diretor) fizeram os curtas-metragens Um Sol Alaranjado (2001) e Castanho (2002). O primeiro foi considerado o melhor curta-metragem no Festival de Cannes de 2002. O prêmio foi um estímulo à realização de um longa-metragem e a garantia da estreia na França. Foi o que aconteceu no mês passado, em Cannes, que exibiu No Meu Lugar (2009), com direção de Valente e roteiro de Felipe. O filme vai estrear no Brasil em julho.

 

Considerando-se mais crítico do que cineasta, Valente diz que o filme nasceu de um desejo de falar algo íntimo e coletivo ao mesmo tempo: sua relação com o Rio de Janeiro, onde nasceu e vive até hoje. Seria uma forma de expor e se contrapor às visões do Rio estabelecidas no cinema de cinco anos para cá — que mostram uma cidade em guerra entre traficantes e policiais —, assunto amplamente comentado em seus textos. Partindo dessa temática, mas tentando mudar o foco, No Meu Lugar retrata o enlaçamento de personagens a partir da montagem de três tempos diferentes, na história de um trágico encontro entre um policial, um assaltante e seu refém, resultando na morte deste.

 

Felipe também acaba de estrear um longa como diretor, A Fuga da Mulher Gorila (2009), feito em parceria com Marina Meliande, outra ex-aluna da UFF. Em janeiro deste ano, o filme ganhou o prêmio do Júri da Crítica da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais. A produção se pautou em um processo criativo muito curioso: a equipe conviveu por oito dias dentro de uma Kombi — casa e veículo da personagem mulher gorila e sua assistente. O filme, uma espécie de road movie sobre o subdesenvolvimento dessa arte performática meio circense, reflete o apreço pelo "cine-guerrilha", de baixíssimo orçamento e ousadia na linguagem, que Felipe defendeu em muitos textos de crítica.

 

Em 2006, Valente e Felipe trocaram a Contracampo pela Cinética, outra revista virtual que milita em defesa da produção independente, mas de forma menos acadêmica, com entrevistas com diretores antes do lançamento de seus filmes no circuito, agenda de cinema e cobertura de festivais, mesmo os grandes como o de Cannes — neste ano, feita por Eduardo Valente. Para a Cinética também foi, na ocasião, o casal Cléber Eduardo e Ilana Feldman, críticos que são parceiros de criação cinematográfica: ambos codirigiram os curtas Almas Passantes (2008) e Rosa e Benjamin (2009). Sobre a parceria, Ilana comenta: "É um exercício de diálogo, de negociação e de aprendizagem fantástico, além de tornar a criação e a reflexão territórios menos solitários".

 

Na Contracampo, a saída de Valente e Felipe foi compensada em parte pela chegada de Luiz Carlos Oliveira Jr., outro estudante da UFF. Em um polêmico texto publicado em março de 2009, A Publicidade Venceu, ele cobrou responsabilidade dos críticos com a formação de cinematografias mais artísticas e menos publicitárias, pedindo um papel mais ativo de quem reflete sobre cinema. "A diferença entre uma atividade e outra (o mero debate e a crítica responsável), assim como a diferença entre o cinema e a publicidade, é o que precisa urgentemente ser resgatado", diz no texto. Com esse posicionamento, dirigiu um curta-metragem, O Dia em que não Matei Bertrand (2008), baseado em um conto de seu escritor favorito, Sérgio Sant'Anna.

 

A QUESTÃO DA AUTORIA
Na UFF também surgiu Conceição — Autor Bom É Autor Morto (2007), dirigido por cinco alunos, entre eles Daniel Caetano, crítico tanto da Contracampo quanto da Cinética. Produção coletiva, o filme questiona a ideia tradicional de autoria no cinema, não só na forma de criação, mas também pela temática: as personagens, enfurecidas com seus autores representados na narrativa, os matam no bar onde tomam a fictícia cerveja Conceição, passando a inventar suas trajetórias.

 

Essa questão da autoria começou, justamente, na Nouvelle Vague, como forma de afirmar diretores que desejavam fazer cinema como expressão artística, fossem contemporâneos ao movimento ou mais antigos, pertencentes à indústria do cinema ou independentes. Criou-se na Cahiers du Cinéma a "política dos autores", uma estratégia cujos efeitos foram distorcidos mundo afora, fato admitido na década de 1980 pelos próprios críticos da revista. A distorção corresponde às tentativas de enquadrar, até hoje, o que seria um cinema de autor.

 

Eduardo Valente prefere o termo "cinema como arte", a fim de tirar a discussão do campo intelectual e transportá-la ao "lugar da paixão", que é, segundo ele, o que realmente interessa. Fazer cinema é, no caso do grupo carioca, um encontro entre amigos, Eduardo Valente e Felipe Bragança; entre um casal, Cléber Eduardo e Ilana Feldman; entre colegas de faculdade, Daniel Caetano e Luiz Carlos Oliveira Jr., que realizaram seus filmes com a participação da turma da UFF, codirigindo com Guilherme Sarmiento, André Sampaio, Cynthia Sims, Samantha Ribeiro e Ives Rosenfeld.

 

O que se pode notar, para além da autoria, são os diálogos entre textos e filmes. De Eduardo Valente destaca-se a busca incansável por virtudes nas atitudes humanas, não por falhas. Em cada filme que critica, ele procura um ponto para levar uma questão adiante; nenhum filme é perdido. Em seus curtas, gestos de afeto são destacados, como, por exemplo, em Um Sol Alaranjado, em que se veem os cuidados de uma mulher para com o pai doente. Felipe Bragança, por sua vez, transmite sua militância escrita pelo cinema jovem e independente para seu modo barato de produção, o "cinema de guerrilha".

 

O filme de Luiz Carlos baseado no conto de Sérgio Sant'Anna se destaca por câmeras estáticas e de longa duração, na observação aflitiva de um homem que se prepara para matar outro. Trata-se de um enquadramento que dialoga com o olhar do crítico, preciso e silencioso para observar cada detalhe do que se passa na cena, que, pela longa duração, se explicita em cada canto. Essa estética pode também ser encontrada nos curtas de Valente, no longa de Felipe e em Rosa e Benjamin, de Cléber e Ilana. Neste último, o casal de diretores cria outro casal, a ser observado na intimidade da rotina doméstica.

 

Cada um a seu modo, nos diferentes textos e filmes, esses críticos-cineastas são grandes estimuladores da produção experimental jovem e consolidam esse estímulo também por meio da participação em festivais, cineclubes e mostras, principalmente a de Tiradentes, da qual Valente, Cléber e Luiz Carlos são curadores. Todos eles, além disso, ou dão aulas em cursos de cinema ou fazem pós-graduação na área.

 

Assim, a paixão pelo cinema que a "missão carioca" cultiva equivale ao sentimento transformador dos participantes da Nouvelle Vague francesa. A cinefilia atua em suas vidas como combustível para expandir, cada vez mais, a reflexão em veículo de acesso gratuito, a exibição fora de circuito tradicional e a produção independente.


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#901 - José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.07.09

Conversa com o André

 

– André, deixa os brinquedos. Está na hora de ires dormir.

– Porquê, pai?

– Porque já é tarde. Olha, são quase onze horas da noite e já não são horas de os meninos de três anos estarem acordados.

– Porquê, pai?

– Porque os meninos, e todas as pessoas, têm de descansar. Depois de andarem todo o dia a correr e a brincar e a fazer coisas, têm de descansar. Além disso, amanhã, tens de acordar pronto para mais um dia. Amanhã, vai ser um dia mesmo bom, vais brincar mais, vais passear, vais ver muitas coisas novas.

– Porquê, pai?

– Porque é assim todos os dias. Cada dia traz sempre muitas coisas novas. Agora, neste momento, não sabemos ainda tudo aquilo que vamos ver, mas tenho a certeza de que vai ser assim. Amanhã, vais aprender palavras novas e, quando voltar a ser hora de ir dormir, já vais ser um menino mais crescido, a saber coisas que agora ainda não sabes. Vai ser assim todos os dias, todos os dias.

– Porquê, pai?

– Porque cada dia é sempre diferente dos outros, mesmo quando se faz aquilo que já se fez. Porque nós somos sempre diferentes todos os dias, estamos sempre a crescer e a saber cada vez mais, mesmo quando percebemos que aquilo em que acreditávamos não era certo e nos parece que voltámos atrás. Nunca voltamos atrás. Não se pode voltar atrás, não se pode deixar de crescer sempre, não se pode não aprender. Somos obrigados a isso todos os dias. Mesmo que, às vezes, esqueçamos muito daquilo que aprendemos antes. Mas, ainda assim, quando percebemos que esquecemos, lembramo-nos e, por isso, nunca é exactamente igual.

– Porquê, pai?

– Porque a memória não deixa que seja igual, mesmo que seja uma memória muito vaga, mesmo que seja só assim uma espécie de sensação muito vaga. É que a memória não é sempre aquilo que gostaríamos que fosse. Grande parte dos nossos problemas estão na memória volúvel que possuímos. Aquilo que é hoje uma verdade absoluta, amanhã pode não ter nenhum valor. Porque nos esquecemos, filho. Esquecemos muito daquilo que aprendemos. E cansamo-nos. E quando estamos cansados, deixamos de aprender. Queremos não aprender por vontade. Essa é a nossa maneira de resistir, mais ou menos, àquilo que nos custa entender. E aquilo que nos custa entender pode ter muitas formas, pode chegar de muitos lugares.

– Porquê, pai?

– Porque nos parece que é assim. Mas talvez não seja assim. Aquilo que nos custa entender é sempre uma surpresa que nos contradiz. Então, procuramos convencer-nos das mais diversas maneiras, encontramos as respostas mais elaboradas e incríveis para as perguntas mais simples. E acreditamos mesmo nelas, queremos mesmo acreditar nelas e somos capazes. Somos mesmo capazes. Não imaginas aquilo em que somos capazes de acreditar.

– Porquê, pai?

– Porque temos de sobreviver. Porque, à noite, a esta hora, temos de encontrar força para conseguirmos dormir, descansar, e temos de acreditar que no dia seguinte poderemos acordar na vida que quisemos, que desejámos. Temos de acreditar que poderemos acordar na vida que conseguimos construir e que essa vida tem valor, vale a pena. Muito mais difícil do que esse esforço é considerarmos que fomos incapazes, que não conseguimos melhor, que a culpa foi nossa, toda e exclusiva.

– Porquê, pai?

– Porque tivemos sempre boas intenções, porque tentámos sempre proteger aquilo que nos era mais precioso e aqueles que conhecíamos como importantes e válidos, aqueles que tínhamos visto sempre perto de nós a acharem-nos importantes, válidos e a protegerem-nos também. Mas isto que acontece connosco acontece também com aqueles que não conhecemos. Também esses acreditam que têm boas intenções e que tentam escolher o melhor. E, se escolhem um mal, tentam que seja um mal mínimo. E também eles choram às vezes.

– Porquê, pai?

– Porque somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida.

– Porquê, pai?

– Não sei. Mas creio que é assim. Só temos uma única vida. E foi-nos dado um corpo sem respostas. E, para nos defendermos dessa indefinição, transformámos as certezas que construímos na nossa própria biologia. Fomos e somos capazes de acreditar que a nossa existência dependia delas e que não seríamos capazes de continuar sem elas. Aquilo em que queremos acreditar corre no nosso sangue, é o nosso sangue. Mas, em consciência absoluta, não podemos ter a certeza de nada. Nem de nada de nada, nem de nada de nada de nada. Assim, repetido até nos sentirmos ridículos. E sentimo-nos ridículos muitas vezes e, em cada uma delas, a única razão desse ridículo é não conseguirmos expulsar da nossa biologia, do nosso sangue, dos nossos órgãos, essas certezas injustificadas, ou justificadas por palavras sempre incompletas. Mas é bom que seja assim. Porque podemos continuar e, enquanto continuamos, continuamos. Estamos vivos. Ou acreditamos que estamos vivos, o que é, talvez, a mesma coisa.

– Porquê, pai?

– Porque o amor, filho.

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publicado às 12:00


José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

Já estou em Boston. Cheguei ontem.

Está frio, céu cinzento e, às vezes, chovem gotas geladas.

Já comi clam chowder e já gastei uma quantia exorbitante (que tenho pudor de referir) numa livraria.

Deixo-vos o texto que escrevi para a Visão após a minha passagem por aqui em Setembro passado. Para aqueles que gostam mais de ver o filme do que de ler o livro, sigam o link no final.



ABRE A PORTA, ZÉ LUÍS

Urina. O som familiar da urina a cair na água não perturba a embriagues gasosa do meu sono. Não interessa onde estou, mas sei que estou em Boston, mas não interessa onde estou porque estou num quarto de hotel e há pouca diferença entre quartos de hotel. Mudam os canais na televisão e o cheiro do detergente na alcatifa. De manhã, haverá sempre o som de aspiradores. É de tarde. Deixei a televisão ligada no canal Discovery Health, onde adormeci a ver um programa sobre obesidade mórbida. A voz do narrador entrou-me no sono, as vozes ocasionais dos obesos, deitados em sofás, deitados em camas, gruas, macas, entraram-me no sono. Agora, essas mesmas vozes falam sozinhas para a colcha desfeita sobre a cama vazia, são como electricidade. Não lhes presto atenção, têm a mesma existência vaga de, por exemplo, a cidade de Boston. São uma realidade teórica, abafada pela porta fechada da casa de banho e pelo som familiar, grosso, da urina a cair na água da sanita: o alívio de uma comichão entornada para fora do meu corpo.

Lavo as mãos.

Seguro a maçaneta da porta da casa de banho e, quando tento rodá-la, não roda. Mexo no botão que tranca a porta e não acontece nada. Normalmente, quando adormeço à tarde, privilégio de domingos, acordo de duas formas possíveis: devagar, com uma ligeira dor de cabeça; ou devagar, com um prazer morno espalhado pelos músculos. Agora, acordei de repente. Uma tomada de consciência que é como a efervescência súbita da coca-cola, a subir pela garrafa até transbordar. Uma espécie de anti-qualquer-coisa, uma implosão, sim, uma implosão. A casa de banho não tem janelas. A luz é amarela. Deixo de saber qual é a posição correcta do botão que tranca a porta. Tento abri-la das duas maneiras possíveis e não acontece nada. Bato com as duas mãos. Espero para distinguir alguma reacção e ouço apenas um silêncio feito das vozes dos obesos, sozinhos na televisão do quarto. Dou pontapés na porta. O mesmo silêncio. Bato na parede com as mãos abertas. Grito, tento chamar alguém. Estou no oitavo andar, como se estivesse enterrado vivo.

Lavo as mãos.

Lavo a cara. No espelho, sou amarelo. Tenho a cor da luz. O espelho é como uma janela para o interior fechado desta casa de banho. Sento-me no bidé. Encho os pulmões de ar. Quando era pequeno e fazia alguma coisa de mal, fechava-me na casa de banho antes que o meu pai chegasse a casa. Essa era a única divisão que tinha chave. Após dez minutos de espera, começava a imaginar que iria passar o resto da minha vida na casa de banho. Em instantes, acreditava nisso. Poderia dormir na banheira, tapar-me com toalhas, não faltaria a água potável e, numa primeira fase, poderia alimentar-me de pasta de dentes. Depois, a longo prazo, teria de atrair insectos comestíveis ou cultivar vegetais no intervalo dos azulejos. Quando o meu pai chegava, havia uma negociação que terminava com a porta a ser aberta devagar. Nem sempre foi assim. Houve uma vez em que, com o meu primo, roubei um cartucho da caçadeira do meu pai e fizemos uma bomba. Abrimos o cartucho com uma navalha, separámos a pólvora dos chumbos, fizemos um enxerto de arames e colocámos-lhe um rastilho. Guardámos a bomba numa gaveta e planeámos explodi-la no campo da bola. Essa hora deserta nunca chegou. A minha mãe descobriu a bomba e contou ao meu pai. Fechei-me na casa de banho. Ao fim da tarde, o meu pai chegou a casa. Abre a porta, Zé Luís. E eu dizia para ele se acalmar. Abre a porta. Zé Luís. Eu punha as culpas no meu primo, dizia que tinha sido ideia dele, e tinha mesmo. Abre a porta, Zé Luís. A voz do meu pai era sólida. Eu tinha oito ou nove anos e pedia perdão. Abre a porta, Zé Luís. Eu chorava e dizia que não queria. E, de repente, um estrondo ampliado pelo eco. Outro estrondo. A porta inteira a ceder na fechadura e nas dobradiças. O meu pai estava a arrombar a porta e a minha voz tremia. Espere. Não faça isso. Eu tremia.

Agora, 1938-2008, faltam poucas semanas para o dia em que o meu pai faria setenta anos. Há quase treze anos, 1938-1996, que sinto falta dele. Estou fechado na casa de banho de um hotel em Boston e penso no que farei para sobreviver se ficar aqui para sempre. Volto a gritar, tento chamar alguém, mas paro. Lembro-me que, antes de adormecer, pendurei na porta do quarto o pequeno letreiro que diz “não incomode”.


VÍDEO

http://www.vimeo.com/3079969

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António Lobo Antunes

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente
António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente

 

Revista BRAVO! | Junho/2009

Crítica - Lobo e seus Demônios

Em seu novo romance, “Meu Nome É Legião”, Lobo Antunes expressa em múltiplas vozes a violência de um Portugal periférico na União Europeia

Por Jefferson Del Rios

 

António Lobo Antunes não deixa por menos: o "legião" do título de seu novo romance é o nome dos espíritos malignos dentro de um homem citado no Evangelho de São Lucas. Na história atual, o mal se traduz em delinquência e ódio racial, em vidas medíocres sob a violência que se esparrama por Lisboa. O escritor português, uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, em julho, nunca deixou por menos. Começou quando, estarrecido com as guerras coloniais, estreou com Os Cus de Judas (1979), expressão chã que definia os soldados portugueses que se danavam, matando e morrendo em Angola, Moçambique e Guiné. Psiquiatra, Lobo Antunes serviu entre 1970 e 1973 como médico militar em Angola, onde teve de colocar de lado os problemas da mente para costurar jovens rasgados pela metralha. Na volta a Lisboa, acerta contas com o passado, cujos resquícios perduram, de maneira tacanha, em Portugal.

Além de Os Cus de Judas, reviu a história lusitana em obras provocadoras como Conhecimento do Inferno, Fado Alexandrino, Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal. Nesses livros, deixou de lado a linearidade da escrita em favor de enredos superpostos com cortes bruscos no tempo e espaço. A opção gerou encanto e polêmica. Há, mesmo entre seus admiradores, os que temem ter Lobo Antunes começado a abusar desse, digamos, experimentalismo. Mas ele se mantém irredutível a achar que escreve fácil. Agora avança sobre a atualidade portuguesa do euro, uma nova periferia com novas barbáries.

 

MEMÓRIAS FRAGMENTADAS
Em Meu Nome É Legião, uma gangue de brancos, mestiços e um negro pratica roubos violentos, numa vertigem de cenas cruéis — como arrancar a frio o aparelho dos dentes de um adolescente. A elas, misturam-se delírios — ossos de cemitério, cano de arma, carros em alta velocidade. Os acontecimentos são narrados por múltiplas vozes, sobretudo as dos extremos da ação: o policial deprimido numa rotina de misérias e os agressores, pequenos bandidos de 12 a 19 anos. O escritor joga com a fragmentação da memória: como a dos psicóticos, a dos soldados feridos e em pânico de Os Cus de Judas e, por que não?, a nossa, prosaicos leitores.

Sobre, ou sob, esse caos percebe-se, implícito e firme, o conhecimento que Lobo Antunes tem dessa gente. Se no geral seus romances são históricos e sociais, nem por isso deixam de ser algo como um gesto, íntimo e final, de compreensão cética de uma realidade em que as verdades absolutas são tão vãs como ter saudade do passado mítico de um país que não volta mais.

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publicado às 18:15


José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.09

Croácia e República Checa

 

ACTUALIZAÇÕES


Durante este viagem entre a Croácia e a República Checa, tentei por diversas vezes actualizar o blog e dar, na hora, notícias sobre aquilo que ia vendo nos diversos lugares por onde passei. Infelizmente, o meu computador e/ou a internet não deixaram. Muito frustrante. Não sei explicar exactamente o que se passou. Sei que nas tentativas que fiz, apenas o título ficava online. Todo o texto era ignorado. Já nem falo de colocar fotos ou vídeos. Nem alimento essa ambição.

Quanto às razões disso, percebo zero. Não sei se é o sinal wireless dos hotéis que não tem capacidade, não sei se são as definições do meu macintosh ou do servidor do blog (a propósito, será que vai haver arquivo para 2009?)

É pena que tenha sido assim porque se perde o entusiasmo do momento. Perdem-se os pormenores que gostava de vos ter contado na hora e que, parte dos quais, possivelmente, já esqueci.

Ainda assim, vou tentar fazer o meu melhor. Aqui ficam notícias destas duas últimas semanas.




CROÁCIA


Cheguei a Zagreb num domingo, dia 10. Para mim, regressar a Zagreb é chegar a um dos meus lugares. Tenho muitas recordações da Ilica, da Praça das Flores, de tantos e tantos lugares dessa cidade, de tantos detalhes que me constituem, que fazem parte daquilo que sou. Chegar a Zagreb num domingo, pousar as malas no hotel e ir comer Cevapi é algo que só consigo fazer com um sorriso permanente.

Depois, encontrar os amigos, que existem por baixo da pele e que, também eles fazem parte de mim. São como o nome de uma das minhas amigas croatas: Vida.

Depois, começam a regressar à minha memória todas as palavras em croata que sei e que, no dia-a-dia, quase esqueço que sei: putovanje, zivot, ljubav.

Muito bom.

Terminei essa noite no festival Queer Zagreb, a assistir a uma peça de teatro de um grupo de São Paulo, em que cerca de uma dúzia de homens e mulheres meio despidos e meio vestidos com túnicas romanas falavam das virtudes da homossexualidade. A maioria dos actores eram croatas e falavam em croata, com um painel electrónico a passar o texto em português.

Na segunda-feira, foi dia de apresentação. Quando foi marcada, estava prevista para a Universidade de Zagreb. No entanto, a Universidade está ocupada pelos alunos há cerca de um mês. Estão em protesto contra as propinas. Estão espalhados pela cidade, junto aos semáforos, com cartazes que dizem “Buzine pela educação”. Na Universidade, quando passei por lá, jogava-se às cartas e havia altifalantes que passavam o “the eye of the tiger”. Assim, a apresentação passou para o Centro de Língua do Instituto Camões em Zagreb. Falei apenas em português porque a audiência era composta exclusivamente por alunos de português (e portugueses em Zagreb). Correu muito bem. O Centro de Língua Portuguesa é novo. Na última vez que estive em Zagreb ainda não existia. É fruto de um trabalho que, estou certo, encheria de orgulho todos os portugueses que o conhecessem.

Outra coisa que, de certeza, surpreenderia muitos portugueses seria saberem que, na Croácia, há mais de 400 alunos de português. Com óptimo domínio da língua, acrescente-se. Quantos alunos de croata existirão em Portugal? E quantos existirão no Brasil?

Para ir ao encontro de mais alguns desses alunos, fui para Zadar, na costa do Adriático. O centro de Zadar fica numa península. Com o tempo muito bom, sol, calor, havia bastante gente a nadar mesmo no centro da cidade (eu inclusive). Não creio que existam muitas universidades no mundo que fiquem a pouco mais de dez metros do mar. Esse é o caso da Universidade de Zadar. A vista das janelas é um mar muito azul e, lá ao fundo, ilhas. Na universidade, os alunos em greve, dividiam-se entre as esplanadas e os mergulhos no Adriático. Foi aí que participei nas jornadas ibéricas onde, além de mim, participaram um autor galego, um asturiano, um catalão e uma autora das Ilhas Canárias que escrevia em castelhano. Em conjunto, fizemos uma leitura num lugar impressionante chamado Arsenal. Li em português o conto “Eu e as poetisas”, cuja tradução croata (feita por alunos da Universidade de Zadar) ia sendo projectada numa tela atrás de mim. Transcrevo o texto abaixo para que o conheçam. Além disso, entreguei prémios aos alunos que se distinguiram pelas melhores traduções de português e, no final, dei uma entrevista para o jornal cultural Zarez.

De todas as vezes em que estive na Croácia, nunca tinha tido a oportunidade de visitar Zadar, apesar de já ter ouvido falar bastante. É, sem dúvida, um daqueles lugares inesquecível (como toda a costa e ilhas da Croácia, aliás). Eu, pelo menos, não irei esquecer Zadar.



VIENA

A viagem de avião entre Zagreb e Praga tinha uma escala em Viena. Era pouco o tempo para mudar de avião, por isso, saí a correr à procura da entrada para o voo entre Viena e Praga. Cheguei ofegante e a senhora da Austrian Airlines disse-me que o meu lugar não estava confirmado. Fiquei perplexo. Tratava-se de um overbooking... Após uma espera, confirmou-se que não estava confirmado. Era de noite e, por isso, levaram-me para um hotel no centro de Viena, onde fiquei a esperar o próximo voo para Praga (sete da manhã). Acabou por não ser mau de todo porque me deu a oportunidade de passear um pouco por Viena e ir beber um copo (dois) com o meu amigo Michael. Mas, ainda assim, confesso que não percebo qual a lógica do overbooking. Alguém me consegue explicar por que motivo as companhias aéreas vendem mais bilhetes do que o número de lugares que têm no avião?



REPÚBLICA CHECA

Assim, cheguei a Praga pouco antes da hora em que tinha de ir para a Feira do Livro. No início da tarde, apresentava a edição checa de “A Criança em Ruínas”, traduzido por Vlastimil Váne e publicado pela editora Dauphin (www.dauphin.cz), com o título “Díte V Troskách”. Vi pela primeira vez essa edição no tram (eléctrico, troley?) já a caminho da feira do livro. Quando puder, hei-de tentar afixar aqui a capa dessa edição, é de um azul-céu e tem uma imagem de Jan Horacek, onde surge um monte de fotografias a preto e branco. A apresentação foi muito simpática. Falei sobre o livro, li “Arte Poética” e li este poema, que talvez já conheçam e que transcrevo aqui em checo (sem acentos checos):


kdyz se prostíral stul, byvalo nás pet:

muj otec, má matka, mé sestry

a já. pak se má starsi sestra

vdala. pak se má mladsi sestra

vdala. pak muj otec zemrel. dnes,

kdyz se prostírá stul, je nás pet,

krome mé starsi sestry, která je

u sebe doma, krome mé mlasdsi

sestry, která je u sebe doma, krome mého

otce, krome mé ovdovelé matky. kazdy

z nich je prázdné místo u tohoto stolu, kde

jídám sám. ale vzdycky budou zde.

kdyz se bude prostírat stul, bude nás vzdycky pet.

dokut jeden z nás zustane nazivu, bude nás

vzdycky pet.


Tradução de Vlastimil Váne.

 

 

Após o lançamento, houve autógrafos. Além da edição checa de “A Criança em Ruínas”, autografei também o Nikdo se Nedívá, que é como se chama o “Nenhum Olhar” em checo e que foi traduzido em 2004 pela Desislava Dimitrovová.

Logo a seguir, fui participar num debate com uma escritora belga e um escritor grego, moderado por uma jornalista checa, sobre “Literature across the media”. Aquilo que se pretendia era que se falasse sobre projectos com meios para lá do livro. A belga trabalhava com vídeo, o grego fez um livro com um fotógrafo, eu falei do “Antídoto” e dos Moonspell, das letras para cantores, do Intermezzo, do trabalho com coreógrafos, fotógrafos, etc. No dia seguinte, saiu um artigo a resumir o que foi dito no jornal da Feira do Livro de Praga.

No fim de semana, tive oportunidade de passear um pouco pela maravilhosa cidade de Praga.

Na segunda-feira, apanhei o comboio das 13 horas para Brno. Na vez anterior em que estive em Praga, tinham-me falado bastante de Brno, mas não tinha tido oportunidade de me deslocar até lá. Tinha expectativas e foram todas cumpridas. Apesar de ter ficado pouco tempo (o suficiente para almoçar, apresentar o livro e voltar para Praga), gostei muito de Brno. O livro foi apresentado na sala subterrânea de um bar perante algumas dezenas de pessoas. Voltei a fazer leituras, mas falei bastante mais do que em Praga. O público colocou mais questões e ainda nos rimos todos um pouco. Além disso, venderam-se todos os livros que havia e autografei uma boa parte deles, assim como mais alguns romances em checo.

Em princípio, o meu próximo romance a ser traduzido para checo será “Uma Casa na Escuridão”. Seja como for, espero reencontrar os amigos checos antes disso. Quando cheguei a casa, já tinha vários “pedidos de amizade” vindo da República Checa (e da Croácia) no facebook e no myspace. Assim, é mais fácil dizer “até breve”.




AGRADECIMENTOS

Acho que não é necessário escrever aqui os nomes das pessoas que me convidaram, traduziram e acompanharam nesta viagem pela Croácia e pela República Checa. Sinto uma gratidão imensa, comparável apenas à amizade que lhes guardo.



IMAGENS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS


Na próxima semana, regresso aos Estados Unidos, onde vou participar de conversas sobre “The Implacable Order of Things” (“Nenhum Olhar”) em Boston e Nova Iorque. Estou muito curioso acerca da Universidade de Harvard e das pessoas que encontrarei por lá. Acredito que será memorável.


Conto que li em Zadar

Este conto foi publicado originalmente no Jornal de Letras. Depois, revisto e publicado no volume "Hoje Não", que foi oferecido com a revista Sábado.

 
 

EU E AS POETISAS

 

Ninguém entendia a melhor poetisa do Quirguistão. Não porque ela não fosse fluente em várias línguas, mas porque falava demasiado baixo. Na fila do almoço, com um prato e talheres, enquanto esperava para servir-se de salmão fumado, uma tradutora finlandesa dobrava-se toda sobre a melhor poetisa do Quirguistão para tentar ouvi-la e, talvez, entendê-la. Cheguei a falar com o romancista mais promissor da Estónia sobre isto. Estávamos no alpendre da casa de madeira onde existia um bar. Eu cheguei para fumar um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia já lá estava. Era um vulto semi-iluminado com mais de um metro e noventa. Tínhamos falado antes, mas não estávamos completamente à-vontade. O silêncio e a noite trouxeram-nos uma intimidade que não estávamos preparados para suportar. Foi ele que começou a falar de qualquer assunto sem importância. Talvez tenha falado de algo que o historiador fascista e escandaloso da Itália fez ou exigiu. Quando não tínhamos assunto, podíamos sempre falar das últimas novidades do historiador fascista e escandaloso da Itália. Quando não sabíamos nenhuma novidade, podíamos sempre perguntar por ele. Enquanto o romancista mais promissor da Estónia falava, o fumo do meu cigarro ondulava numa coluna branca que terminava no centro dos seus olhos. Eu desviava o cigarro, ele desviava o rosto, mas o capricho do fumo, como uma vontade humana e sólida, dirigia-se sempre aos seus olhos. Foi num desses momentos, depois de mais silêncio, que resolvi falar-lhe da melhor poetisa do Quirguistão. Falei-lhe da sua dificuldade em fazer-se entender e do seu ar vagamente misterioso, misterioso porque vago. O romancista mais promissor da Estónia olhou-me com embaraço e respondeu meio concordando, meio divergindo. Fiquei com a sensação de que tinha sido indiscreto e, não tendo mais nada para dizer, voltámos a partilhar o silêncio. Felizmente, apareceu o escritor exuberante da República Checa. Pediu-me um cigarro e o romancista mais promissor da Estónia aproveitou para sair. Entre dentes, menos que sussurrando, disse que ia à casa de banho, mas, por cima do ombro do escritor exuberante da República Checa, vi-o juntar-se a um grupo de pessoas que conversavam encostadas ao balcão.

Na manhã seguinte, enquanto passeava nas margens do lago, descalço sobre a relva, cruzei-me com a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia. Seria difícil saber exactamente no raio de quantos quilómetros não havia nenhuma mulher mais atraente do que ela. Apesar de não haver resposta, essa questão era válida e ela sabia-o. Talvez fosse por isso que a poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia era pouco simpática, ou talvez fosse por ser pouco simpática que, numa contradição vulgar da natureza, se tornava atraente. Quando me cumprimentou, estremeci. Já tínhamos sido apresentados, mas não esperava que reparasse em mim. Foi ela que começou a falar. Com um inglês com sotaque da Lapónia, disse qualquer coisa com que concordei. Sorri. Disse mais qualquer coisa e voltei a concordar. Voltei a sorrir. Quando chegou o silêncio, perguntei-lhe pelo historiador fascista e escandaloso da Itália. Ela riu-se e respondeu que, naquele dia, ainda não tinha tido nenhuma notícia dele. Ela riu-se. Estava tudo a correr-me bem. Nesse momento, eu estava consciente de que aquilo que estávamos a fazer tinha, no contexto internacional, o agradável nome de flirt. Eu sabia que havia revistas especializadas, com páginas inteiras de publicidade a perfumes, que teorizavam sobre essa questão em artigos com títulos como: 10 conselhos práticos sobre o que deve fazer durante o flirt, 10 conselhos práticos sobre o que não deve fazer durante o flirt. Enquanto o riso dela esmorecia, como a água do lago junto dos nossos pés, eu arrependia-me de nunca ter prestado a atenção devida a essas revistas e a única certeza que parecia apertar-me o peito era a necessidade de evitar o silêncio. Foi apenas com essa motivação que lhe falei da melhor poetisa do Quirguistão. Perguntei-lhe se conseguia entender alguma palavra daquilo que ela dizia. O rosto da poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia desfez-se e voltou à sua altivez. Como se não percebesse porque estava ainda a falar comigo, despediu-se rígida e continuou o seu caminho, contornando o lago. Sozinho, com as sandálias na mão, fiquei a vê-la afastar-se.

Passou a manhã e passou a tarde. Telefonei para casa e disse que estava com saudades. Foi já ao início do serão, quando todos esperavam o jantar. Estava sentado numa cadeira nas traseiras da casa de madeira onde existia um bar, apreciava a vista sobre o lago e entregava-me a pensamentos do tamanho da paisagem. De repente, saindo disparada pela porta, a melhor poetisa do Quirguistão veio a caminhar directa para mim. Sorri-lhe, mas ela não me sorriu de volta. Quando começou a falar, levantei-me porque achei que seria falta de educação continuar sentado. O rosto dela era sério enquanto falava. Das suas palavras, eu não conseguia entender mais do que um sussurro incompreensível. Ela, no entanto, não se calava. Erguia o indicador à frente do meu rosto e agitava-o com convicção. Do seu rosto asiático, percebi claramente que estava irritada. Aos poucos, foram saindo pela porta da casa de madeira várias pessoas que se paravam a olhar para nós. Em momentos, procurando compreensão, eu olhava para eles e encolhia os ombros. Nenhum deles reagia. A melhor poetisa do Quirguistão continuava a falar para mim como se aquilo que tinha para dizer não se esgotasse nunca. Ao mesmo tempo, agitava o indicador diante do meu rosto como se procurasse a melhor maneira de espetar-mo num olho. Não passou muito tempo até que estivesse uma multidão reunida junto à porta da casa de madeira. O romancista mais promissor da Estónia comentava qualquer coisa que a escritora finlandesa que vive na Noruega e que escreve em norueguês sobre a Finlândia escutava com atenção. A editora da Macedónia olhava-me com desdém. O escritor exuberante da República Checa parecia enjoado. A poetisa que escrevia em dialecto da Lapónia olhava-me como se fosse fulminar-me. Desisti de entender a melhor poetisa do Quirguistão e, pouco depois, ela desistiu de falar para mim. Começou a afastar-se e, quando passou entre a multidão, houve vários que a tentaram confortar. Quando entrou na casa de madeira, todos a seguiram.

O único que ficou, que me sorriu e que caminhou na minha direcção foi o historiador fascista e escandaloso da Itália. Satisfeito, passou a mão pela careca, cumprimentou-me e, após poucos minutos, perguntou-me se queria ser seu amigo.

 

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publicado às 16:02


João Pombo Barile escreve sobre Mário de Andrade

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.09

O escritor Mário de Andrade. Entre 1917 e 1945, ele manteve com o tio Pio uma correspondência sobretudo afetiva  e a mais longa de sua vida

Revista BRAVO! | Maio/2009

Mário, Íntimo e Pessoal

A vida do mentor do modernismo brasileiro sempre foi cercada de mistério. A correspondência com o fazendeiro Pio Lourenço Corrêa, uma espécie de pai postiço do escritor, abre caminho para a compreensão das angústias do homem e, em consequência, de sua obra

 

Em uma das incontáveis cartas que escreveu, Mário de Andrade relatou a Manuel Bandeira: "O caso típico da minha afetividade foi a morte de meu mano mais moço, que me levou quase pra morte também. (...) os médicos chegaram a não dar mais nada por mim. Não comia, não dormia. Foi o bom senso de um tio, espécie de neurastênico de profissão, que me salvou. Pegou em mim, me levou pra fazenda dele, me deixou lá sozinho. (...) Voltei poeta da fazenda". Referindo-se ao episódio da morte de seu irmão Renato, em decorrência de uma cabeçada em um jogo de futebol em 1913, quando este contava apenas 14 anos, o grande mentor do modernismo revelava a importância do fazendeiro Pio Lourenço Corrêa — o "tio" da carta — na sua formação. Uma formação que, além dos aspectos literários e teóricos, foi forjada também nas angústias e neuroses do autor de Macunaíma.

Boa parte dessa faceta pessoal de Mário de Andrade pode ser vislumbrada em Pio & Mário — Diálogo da Vida Inteira, que chega às livrarias neste mês. O volume, ilustrado por dezenas de fotos, reúne 105 cartas de Pio e 84 de Mário, escritas entre 1917 a 1945. É a mais longa troca de correspondência do escritor de que se tem notícia, começando quando ele era ainda um desconhecido e indo até cinco dias antes de sua morte. Discreto, Mário falava pouco da vida íntima. Embora não seja pródiga em desabafos, a correspondência com Pio é das mais pessoais entre todas as que Mário mantinha. Bem esmiuçada, pode abrir caminho para a compreensão das angústias do escritor, estudo que seria importantíssimo para a melhor compreensão de sua obra.

Mas quem era Pio? Nascido em 1875, tinha 18 anos a mais que Mário e, embora este o chamasse de "tio", Pio era, na realidade, casado com sua prima Zulmira de Moraes Rocha. O casal era proprietário da chácara Sapucaia, em Araraquara, no interior de São Paulo, onde o escritor se hospedava com frequência. Foi lá que, deitado em uma rede durante uma semana de 1927, Mário escreveria Macunaíma. "É a minha Pasárgada", gostava de dizer.

À diferença dos outros correspondentes de Mário, Pio não era artista, mas teve um papel fundamental na trajetória do escritor por conta dessa dimensão afetiva. Embora a correspondência seja pontuada por discussões intelectuais (Pio manifesta restrições, por exemplo, a Amar, Verbo Intransitivo e a Macunaíma), esse não era, evidentemente, o ponto principal da relação. Quem o diz com clareza é Mário. Numa carta datada de 11 de maio de 1931, ele escreve a respeito das divergências: "Às minhas loucuras, fantasias, curiosidades, a sua simplicidade sistematizada de ser deu maior paciência, mais precisão de fortificarem-se no estudo; à minha sensibilidade o senhor e sua vida trouxe novos lados, desconhecidos antes, por onde ela se experimentasse e enriquecesse; e finalmente à riqueza milionária das minhas fraquezas veio a sua belíssima e tão nobre atitude moral por freios".

Com essa "nobre atitude moral" a colocar freios, Pio foi uma espécie de pai postiço de Mário, cuja relação com o pai verdadeiro, o jornalista Carlos Augusto de Andrade, sempre foi conturbada. Um dos fundadores do primeiro vespertino da capital paulista, a Folha da Tarde, Carlos seria sempre retratado como figura autoritária na obra do filho escritor — como no poema A Escrivaninha (1922) e no conto O Peru de Natal (1938-1942).

Não eram poucas as angústias familiares de Mário. Espécie de caçula indesejado, "meio amulatado e feio", como dizia, conviveu na infância com a predileção da família por Renato, o irmão "bonito e loiro". Talvez por isso a morte precoce e trágica do menino tenha devastado tanto Mário, a ponto de, como já vimos relatado pelo próprio escritor, ter-se tornado um divisor de águas. Pio estava lá, mas os acontecimentos deixariam marcas em Mário, sobretudo um tremor nas mãos que o impediria de ser concertista.

Ao componente racial, motivo de um complexo que acompanharia o escritor ao longo da vida, somaram-se questões de classe. À diferença de Oswald de Andrade, por exemplo, o "homem sem profissão" que assumiria a vanguarda literária do início do século 20 financiado pela fortuna pessoal, Mário foi o protótipo do que o sociólogo Sergio Miceli chamou de o "primo pobre" do modernismo brasileiro. Nascido na capital paulista em 1893 e formado no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Mário teria de trabalhar a vida inteira, levando uma vida modesta de professor.

Com seu "complexo de inferioridade orgulhosíssimo", como escreveu em certa ocasião, Mário também se tornaria um homem metódico e cioso de sua memória. Desde 1923, ele já catalogava todos os seus documentos, e hoje seus milhares de cartas e fichas de leitura estão devidamente guardados no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). No artigo Fazer a História, de 1944, ele escreveu: "Tudo será posto a lume um dia, por alguém que se disponha a realmente fazer a História. E imediato, tanto correspondências como jornais e demais documentos não opinarão como nós, mas provarão a verdade".

"BONECA DE PICHE"

A despeito de tamanho cuidado de Mário, ainda existem vários pontos obscuros em sua biografia. O principal — e mais polêmico de todos — diz respeito à suposta homossexualidade do escritor. O tema foi levantado pela primeira vez pelo jornalista e escritor Moacir Werneck de Castro em 1989, no livro Mário de Andrade: Exílio no Rio, em que narra sua convivência com o poeta entre os anos 1938 e 1940, quando Mário lecionou na capital fluminense. "Na raiz do drama existencial de Mário de Andrade jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada em difusa pan-sexualidade", escreveu.

Em 1998, foi a vez da escritora Rachel de Queiroz, que, em Tantos Anos, sua autobiografia, afirmou que Mário teria sido mais feliz se tivesse assumido a homossexualidade. Entretanto, o que se falou sobre o assunto se esgota praticamente aí. Há até hoje um cordão de isolamento em torno do assunto entre seus herdeiros paulistas, e há quem diga — principalmente em universidades de outros estados — que existe uma parte da correspondência de Mário que segue sob censura na Universidade de São Paulo, onde está baseada.

Longe de pertencer ao reino da fofoca, o tema é fundamental para entender a obra de Mário e algumas de suas relações pessoais mais importantes — como, por exemplo, a amizade entre o escritor e a pintora Anita Malfatti. Pelas cartas que ambos trocaram, pode-se inferir que a artista alimentou um amor platônico por Mário, ao qual ele nunca correspondeu. O estudo do tema é também fundamental para entender uma questão central do modernismo, o rompimento entre Mário e Oswald. Em artigo sobre o assunto, o jornalista Humberto Werneck conta como o autor de Serafim Ponte Grande gostava de fazer piadas venenosas sobre a suposta homossexualidade de Mário. Oswald chegou a escrever, por exemplo, que de costas Mário se parecia muito com Oscar Wilde, numa alusão ao escritor inglês que enfrentou um doloroso processo judicial por causa da orientação sexual.

Em tom de brincadeira, Oswald também gostava de assinar artigos com o codinome Cabo Machado, referência a um personagem de um poema de Mário: "Cabo Machado é cor de jambo,/ (...) Cabo Machado é moço bem bonito./ (...) Cabo Machado é doce que nem mel (...)". De acordo com Mário da Silva Brito, o historiador pioneiro do modernismo também citado no artigo de Humberto Werneck, o rompimento definitivo pode ter ocorrido por causa de um texto escrito por Oswald em 1929, com o título Boneca de Piche — alusão à suposta homossexualidade e à cor da pele do escritor.

Naquela mesma carta endereçada a Pio no dia 11 de maio de 1931, Mário escreve mais adiante: "Estava carecendo deste desabafo e me sinto feliz agora. Desabafo saído com toda a espontaneidade e que teve a enorme utilidade de me botar bem no meu lugar". Quem sabe a divulgação da correspondência com Pio Lourenço, revelando "desabafos" como aquele, não ajude a chegar a uma "verdade" mais completa sobre Mário, como ele queria. Tabus infundados têm atrapalhado as pesquisas sobre a biografia de Mário de Andrade. Que a correspondência com o "tio Pio" ajude a colocá-los por terra. A moderna teoria literária prega que só o entendimento do homem, em sua inteireza, pode ajudar a compreender e iluminar a obra do escritor.

João Pombo Barile é jornalista.

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publicado às 15:44

Murillo Meirelles

Chico Buarque e Caetano Veloso no Rio de Janeiro. Um encontrou a voz na literatura e o outro nos blogs, shows, CDs...
Chico Buarque e Caetano Veloso no Rio de Janeiro. Um encontrou a voz na literatura e o outro nos blogs, shows, CDs...

 

Revista BRAVO! | Abril/2009

A Palavra e o Som

Por Heitor Ferraz, José Flávio Júnior e João Gabriel de Lima

 Veja a galeria de imagens do making-of da seção de fotos exclusivas com os dois grandes artistas e as capas alternativas da edição

 

Numa cena do filme Invasões Bárbaras, um dos clássicos da primeira década do século 21, um grupo de professores de história elabora a teoria da "quantidade de inteligência". Segundo eles, por razões aleatórias, existem determinados momentos e lugares com alta concentração de gente talentosa, e essas pessoas fazem a diferença em suas épocas. São citadas no filme a Florença de Dante e Boccaccio e a Filadélfia dos "pais fundadores" da revolução americana. Aplicando a teoria à vida cultural brasileira, pode-se dizer que o país viveu uma espécie de auge nos anos 60 e 70, explosão criativa da música popular (e, por mais que se cunhem teorias pretensamente sociológicas — a mais famosa e absurda diz que a arte floresce em períodos de ditadura —, nada explica isso além da sorte). Primeiro veio a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto. Depois, a MPB surgida nos festivais, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Zé e Gilberto Gil. Esses músicos têm em comum, além do talento, a carreira extremamente longa, que dura até os dias de hoje. Numa coincidência digna da teoria da inteligência aleatória de Invasões Bárbaras, dois desses artistas darão à luz novas criações neste mês de abril. Saem o novo CD de Caetano Veloso, Zii e Zie, e o novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado. Disco e livro são pontos de chegada de trajetórias paralelas — e o lançamento simultâneo provoca reflexões sobre a cultura brasileira e sobre o caminho que ambos percorreram para chegar até aqui.

 

Não existem mais artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso — os ícones de geração, os compositores que são chamados a opinar sobre todos os assuntos. Nos anos 90, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) observou, numa entrevista famosa, que no Brasil eram os cantores populares, e não os escritores ou intelectuais da academia, que pautavam o debate cultural. Tolentino emitiu sua observação em tom de crítica — ele via isso como um sintoma de decadência. O que faltou em seu raciocínio foi observar que acontecia o mesmo no resto do mundo. Se os anos 40 e 50 foram dos escritores e filósofos, em que nomes como Norman Mailer e Jean-Paul Sartre pontificavam sobre todos os assuntos, os 60 e 70 foram dos astros da música pop. Artistas como John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan e David Bowie, entre outros, eram considerados as "antenas" de um período de intensa mudança cultural e de costumes. É um pouco espírito de época, mas também mérito de uma geração excepcionalmente talentosa — é só pensar que apenas no ano de 1966 foram lançados pelo menos três álbuns clássicos da música de todos os tempos, Blonde on Blonde (Bob Dylan), Pet Sounds (Beach Boys) e Revolver (Beatles). Cantores como Chico Buarque e Caetano Veloso eram as versões brasileiras desse fenômeno. É uma simplificação, no entanto, entender tudo isso apenas como marca de um tempo, ignorando as peculiaridades e contribuições particulares de cada artista.

 

Numa comparação redutora porém ilustrativa, Chico e Caetano estão para a MPB assim como Bob Dylan e David Bowie para o pop internacional. Dylan e Chico se destacam mais pela qualidade de suas letras do que por suas performances, em geral discretas, em shows. Mais do que bons compositores, letristas e intérpretes fulgurantes, Bowie e Caetano são famosos pelas diversas reviravoltas que deram em suas carreiras, captando diferentes espíritos de época. Bowie usou sintetizadores para falar de viagens espaciais nos anos 60, foi andrógino nos 70 (era o principal nome do glitter, o velho e colorido rock-lantejoula) e voltou a ser roqueiro nos 80. Caetano surgiu no tropicalismo dos anos 60, escreveu o "hino do desbunde" nos anos 70 (a música Odara), foi pioneiro na utilização de sonoridades do pop na MPB da década de 1980 (o marco é o memorável álbum Velô) e ainda promoveu o relançamento de clássicos da música latina nos 90. Tudo isso enquanto Chico Buarque lapidava seu estilo de composição calcado nas raízes da MPB — e Bob Dylan se aprimorava cada vez mais em sua peculiar fusão de blues e música country engajada.

 

Neste mês em que Caetano e Chico lançam seus novos CD e romance, é interessante comparar os pontos de chegada das duas trajetórias. Chico, o compositor que fazia incursões no teatro e criava personagens em suas letras (Pedro Pedreiro, Ana de Amsterdam, Bárbara), se tornou escritor. Continuou fazendo música embora tenha declarado, em entrevistas, que considerava a canção uma "arte de juventude", em contraposição à literatura, que seria uma forma de criação mais madura (leia texto ao lado). Enquanto isso, Caetano dava nova reviravolta em sua carreira ao se aproximar de músicos jovens e lançar um álbum antológico,. Não parou por aí: criou um blog, lançou músicas na internet, testou-as no show e as reuniu no novo álbum, Zii e Zie, tornando-se talvez o artista brasileiro da área musical que melhor entendeu a interatividade dos novos tempos (leia texto a partir da página 32). Tempos estes em que a multiplicidade de criadores de todas as áreas explode na internet. Em que não existe mais o que se chamava antigamente de mainstream. Em que, no Brasil ou lá fora, se observa o fim dos ícones de geração — e não se espera mais que cantores sejam "antenas da raça" ou falem sobre todos os assuntos. Nestes tempos de cauda longa, Caetano Veloso e Chico Buarque encontraram, cada um a seu modo, suas vozes. Chico na literatura. Caetano nos sites de música, no blog, no show, no CD...


 

João Gabriel de Lima


O parto de Eulálio d'Assumpção, protagonista de Leite Derramado, foi mais tranquilo do que o de José Costa, o personagem principal de Budapeste. Na feitura de seu romance anterior, Chico Buarque chegou a descartar uma versão inteira, na qual o protagonista era um arquiteto. Foram três anos de elaboração. Já o novo livro nasceu em menos de um ano. Houve apenas uma hesitação, como lembra o editor Luiz Schwarcz, com quem Chico sempre se comunica quando começa a escrever um novo trabalho. "Ele ficou na dúvida, achou que podia ter se enganado", conta Luiz. Mas com a dúvida veio também o aviso: "Se estiver enganado, pode me dizer. Eu jogo tudo fora e começo outro, pois estou com a mão boa", disse Chico a Schwarcz. Não houve engano. Leite Derramado chegou ao mercado com uma tiragem inicial de 70 mil exemplares — o padrão do mercado é de 3 mil —, duas versões de capas, um site especial (www.leitederramado.com.br) e campanha publicitária da AlmapBBDO.

Chico faz 65 anos em junho. Quando se iniciou na literatura, em 1993, com o romance Estorvo, estava realizando um sonho de juventude. "Meu pai, historiador e crítico literário, não me pressionou a escrever, mas apreciava quando eu escrevia. Aos 21 anos, comecei a compor canções, e isso foi o que me sequestrou", disse em 2005 numa mesa-redonda em Nova York, da qual participou também o autor americano Paul Auster.

Desde esse sequestro, Chico procura sempre manter separado o escritor do compositor, num esquema que ele mesmo chamou de "esquizofrênico". Quando se dedica à literatura, deixa o violão no estojo e evita ouvir música. Quando termina o livro e passa a temporada de lançamento e de traduções, volta a procurar os acordes e as linhas melódicas de suas canções, com um frescor de quem estivesse começando do zero. Quando lançou Carioca, há dois anos, ele deu uma série de entrevistas, comentando o disco — que é um dos mais brilhantes de sua carreira e tem como destaque a faixa Subúrbio, com uma linha melódica que sobe e desce como se galgasse os morros que dividem a zona sul e a zona norte do Rio de Janeiro. Mas, quando o assunto é livro novo, Chico se retrai. Pelo menos durante um tempo. Depois, acaba fatalmente comentando sua literatura e suas leituras.

Para o escritor e jornalista Humberto Werneck, autor de Tantas Palavras, o artista tem uma espécie de "monogamia criativa", alternando os momentos de autor com os de compositor. A única coisa que se mantém tanto no músico como no escritor é a caminhada — além do futebol, o principal esporte de Chico é andar pelo calçadão do Rio de Janeiro. Seguindo o ritmo de um passo paulista, mais apressado, Chico aproveita para ir resolvendo o enredo ou a letra da canção. Não são apenas passeios e exercício físico, mas horas de trabalho mental. Como diz Werneck, no livro, "compor e escrever são solicitações diversas de sua criatividade, cada uma a seu tempo". Numa conversa com o cineasta Roberto de Oliveira (que resultou posteriormente em uma caixa com 12 DVDs), Chico Buarque comentou: "Não há um parentesco próximo entre romance e música. Mas existe uma música na estrutura dos meus livros. E também há sempre uma música no fundo da minha cabeça quando escrevo, quase uma trilha sonora, um assovio, um cantarolar que dita o ritmo".

A carreira literária de Chico, assim como a de músico, atravessou o oceano. Seu primeiro romance, Estorvo, logo ganhou tradução no estrangeiro. Saiu na França, na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos e em outros países. O mesmo destino tiveram seus dois romances posteriores, Benjamim e Budapeste. Lá como cá, o nome do escritor sempre vem acompanhado do do compositor. "Um dos mais importantes músicos do Brasil", dizia o francês L'Express, na abertura de uma entrevista, em 1998. Vale lembrar que na França o músico é muito conhecido, principalmente por causa da música Essa Moça Tá Diferente, que virou jingle de um comercial (bem ridículo, diga-se de passagem) de uma marca de refrigerantes.

A crítica fora do Brasil sabe separar, no entanto, o músico do escritor. "Ninguém espere encontrar na literatura de Chico Buarque elementos parecidos com as suas canções, pois estamos diante de uma narração pouco colorida, de ritmo escasso e com nenhuma mudança de tempo", dizia o autor espanhol Mariano Antolín Rato, sobre o lançamento, na Espanha, de Estorvo. Apesar de dizer que o livro era um tanto decepcionante, o crítico também dava a mão à palmatória dizendo que pouco sabia sobre o Brasil e talvez isso lhe impedisse de entender melhor a obra. Já sua conterrânea, a crítica e poeta Beatriz Hernanz, lembrando a atividade de compositor e cantor de Chico, fazia uma leitura mais atenta do romance — principalmente para o impasse moderno do mundo sem saída apontado pela narrativa — e lembrava que a obra certamente surpreenderia o leitor espanhol.

Nos Estados Unidos, onde ele é conhecido, mas não é um nome popular, o New York Times publicou uma reportagem, em 1999, dando conta de toda a sua carreira, destacando as letras de suas canções e apresentando o autor de Turbulence, como foi batizado lá o livro Estorvo, lançado pela Pantheon, em 1993. O livro também saiu na Inglaterra, onde teve críticas positivas. Os artigos sempre lembram a faceta do músico, mas logo se voltam para o enredo criado pelo escritor e destacam sua condição de brasileiro e o seu tema, o Brasil. Por aqui, a obra de Chico Buarque em geral rende resenhas positivas — claro que alguns comentários dissonantes não faltaram, nem faltarão, por conta do livre exercício da crítica. Ele começa também a ser tema de teses acadêmicas. Numa primeira fase, relacionando sua obra com o momento político do país. Mais recentemente, e sobretudo a partir de Budapeste, elas começam a se voltar para o trabalho de linguagem do escritor.

O novo romance, Leite Derramado, dá margem aos dois tipos de análise. Há pouco tempo, Chico Buarque comentava o que ele chamou de nova mania: a publicação de livros com genealogias de famílias tradicionais brasileiras. Ele se divertia um pouco com esse tipo de empreitada, pois lá pelas tantas sumiam uns nomes da árvore. Como se um galho tivesse sido arrancado. "As pessoas no Brasil pensam que são brancas, que eu sou branco", dizia. "Impossível imaginar uma família que esteja aqui desde o século 16 e não tenha se misturado com índios e pretos. Não tem como." O comentário — feito num dos 12 programas que ele gravou com Roberto de Oliveira, em 2007 — parece ter frutificado na cabeça do escritor. Ele procurou, em seu romance, dar conta dessa mania nacional de nobiliarquia, de bater orgulhoso no peito dizendo "sou descendente de barão".

O narrador de seu novo livro é um velho gagá, para lá de 100 anos, com fumos de nobreza, relatando, de um leito de hospital — não se sabe bem para quem, ora para uma enfermeira, ora para a filha, ora para uns sequestradores —, a esgarçada história de sua vida. Eulálio d'Assumpção — a se fiar no que ele narra ("lembrança de velho não é confiável", diz) — é daqueles que carregam, por toda parte, sua árvore genealógica na cabeça, com galhos por todos os lados. O trisavô teria desembarcado no Brasil com a corte portuguesa, o bisavô seria um tal "barão de Arcos", o avô, "um figurão do Império", o pai foi senador da República (íntimo de vários presidentes) e armeiro. A brincadeira de Chico Buarque, inventando uma família de filhos únicos, lembra o ditado "pai rico, filho nobre, neto pobre". No entanto, a decadência familiar desemboca no "comércio de entorpecentes". O Brasil vai pautando essas gerações, indo da corrupção dos antepassados (o pai que se utilizava do título de "senador" para abrir aqui uma filial de uma empresa francesa de armas) até a mixórdia do presente.

Há um humor desabusado que perpassa o livro inteiro. Um humor calcado numa espécie de supremacia de classe — ou melhor, de casta, pois Eulálio já está no fim da linha, já teve de morar no subúrbio, em casinhas pequenas, na velhice, levando apenas a cama e uma escrivaninha barroca como bens de família; a ascensão dos Assumpção agora vem por meio do novo descendente, que namora uma menina com piercing no umbigo e tem atividades ilegais — se for crível o que diz o vai-e-vem da memória do velho Eulálio. Chico Buarque procurou refazer assim uma história do Brasil vista por um sujeito da elite e já decadente, ainda obcecado pela mulher, retratada por ele apenas como objeto de um desejo físico. Aos poucos, vai emergindo como vítima do ciúme e dos próprios preconceitos. Ao ler o livro, é inevitável pensar no Machado de Assis de Dom Casmurro e de Memórias Póstumas de Brás Cubas — este último por conta do enredo em que aparentemente não acontece nada e nenhuma narrativa se estabelece como determinante. O diálogo eficiente com o maior escritor brasileiro dá a medida do triunfo literário que é este novo romance de Chico Buarque.


Heitor Ferraz

Há exatamente um ano, Caetano Veloso disse para Hermano Vianna que estava com vontade de fazer uma série de shows em que pudesse mostrar para a plateia composições novas, à medida que fossem sendo compostas. O antropólogo achou a ideia genial e sugeriu que Caetano tivesse um blog para mostrar a evolução dessas canções ao longo dos shows. O blog poderia hospedar os vídeos das músicas sendo executadas, para que não apenas os que estivessem presentes nos espetáculos pudessem ouvi-las. Caetano também poderia pedir sugestões sobre o material novo e postar textos que ajudassem o público a entrar na onda. Seria algo inédito, que nem artistas de gerações mais novas teriam tentado. Para sorte da música brasileira, a loucura saiu do papel. Virou a temporada Obra em Progresso, vencedora do último Prêmio Bravo! como grande espetáculo de música popular de 2008, gerou o blog obraemprogresso.com.br e desemboca este mês no álbum Zii e Zie, resumo do que foi essa aventura que mesclou palco com internet, mundo real com mundo digital.

"Fico impressionado com o tempo que ele dedica ao espaço, lendo e respondendo diretamente a qualquer pessoa que se manifeste. Poucos artistas têm essa disposição e esse interesse", afirma Hermano Vianna, que, além de filmar entrevistas com Caetano, sugerir tópicos e moderar os comentários dos frequentadores do blog, atuava publicando as mensagens que recebia do músico baiano. Mas o cantor, que tem 66 anos, logo aprendeu a mexer nas ferramentas do site e dispensou o auxílio do amigo para isso. Rapidamente também começou a diversificar os assuntos. Em vez de focar as músicas novas, passou a discutir política (respondeu a uma análise equivocada que Fidel Castro fez da música Base de Guantánamo, destaque de Zii e Zie), jornalismo cultural (rebateu as críticas dos jornais de São Paulo ao show em homenagem a Tom Jobim que dividiu com Roberto Carlos), reforma ortográfica (criticou linguistas e atraiu um enxame deles para a discussão) e até futebol (elogiou a humildade dos jogadores do time pelo qual torce, o Bahia, por eles terem "se recusado" a golear o time do Poções numa partida válida pelo Campeonato Baiano). "Eu, tendo um blog dedicado a esse disco, não ia deixar de fazer o que sempre fiz", disse Caetano em entrevista a BRAVO!. "Antigamente, comentava as críticas que recebia no palco do show. Era superengraçado. Mas o blog foi criado para acabar quando o disco saísse. E assim será. Pode virar outra coisa ou simplesmente sumir. Continuar sendo o boteco virtual onde a gente conversa e discute é que não vai."

Por enquanto são raros os dias em que o cantor não surge no espaço reservado aos comentários para falar com a turma assídua do obraemprogresso.com.br. Em princípio, os músicos que formam a banda Cê — que começaram a trabalhar com Caetano no álbum de mesmo nome e seguem com ele em Zii e Zie — também deveriam usar o blog para escrever sobre o processo de confecção do álbum. Mas isso nunca ocorreu. O baixista e tecladista Ricardo Dias Gomes, de 28 anos (o mais jovem da Cê), confessa que a timidez o impediu de postar no blog, mas diz acompanhar as discussões e admirar o diálogo que se estabeleceu ali. "O Caetano é um brasileiro que vive a história do país intensamente. Viu muitas coisas se transformarem, e sua memória apurada faz com que suas análises tenham relevância acima da média e despertem outras mentes pensantes, o que faz o blog seguir em frente", opina.

Completam o time musical de Caetano o baterista Marcelo Callado, de 29 anos, e o guitarrista Pedro Sá, de 34. Por ser íntimo de Moreno Veloso, filho mais velho de Caetano, Pedro frequentava a casa do baiano desde a adolescência. Não tardou muito até ser convidado para entrar na banda de Caetano. Hoje, o guitarrista é visto como um dos principais responsáveis pela guinada artística dada pelo cantor a partir do disco Eu não Peço Desculpa, de 2002, gravado em parceira com Jorge Mautner. Pedro Sá é fã de bandas americanas como Pavement e Pixies, expoentes do que se convencionou chamar de rock alternativo ou indie rock, estilo em que as guitarras ruidosas são muito valorizadas. Ele soube adicionar essas influências tanto em quanto no novo álbum, sem que isso soasse forçado ou desconectado das intenções de Caetano. "O Pedro faz o papel que o Lanny Gordin fazia nos anos 60", compara Kassin, músico da Orquestra Imperial e produtor de Eu não Peço Desculpa, citando o guitarrista símbolo da tropicália, responsável por injetar rock nas obras de Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e tantos outros.

"Caetano sempre teve como característica essa sede, essa antena em riste, uma relação libidinosa com as coisas que acontecem a todo instante no mundo", interpreta Jonas Sá, irmão de Pedro e dono da voz cavernosa que encerra o álbum. Apesar de reafirmar a boa fase, Zii e Zie talvez não receba a aprovação quase unânime de — que, mais do que um disco de rock, é um disco simples, sem grandes pretensões e povoado por letras concisas. O novo CD nasce de uma vontade que Caetano tinha de "tratar levadas de samba com timbre elétrico forte". Seriam os "transambas", sambas com DNA modificado, executados por músicos de rock, com guitarra no lugar do cavaquinho. Ou seja, é um disco, a priori, de caráter experimental, ainda que Tarado ni Você, Sem Cais, A Cor Amarela e outras faixas tenham estrutura de canção pop. "A nova abordagem de aspectos do samba é sempre em torno do óbvio, mas é radical", classifica Caetano. De qualquer forma, não resta dúvida de que ele fez mais um trabalho que vai brigar por vaga no top 10 de grandes álbuns de sua carreira.


José Flávio Júnior

O Livro
Leite Derramado, de Chico Buarque. Companhia das Letras, 200 págs., R$ 36.

O CD
Zii e Zie (Universal), de Caetano Veloso. Produtores: Moreno Veloso e Pedro Sá. Preço médio: R$ 30.

Leia também:
• "
Chega de Verdade" - A íntegra da entrevista que Caetano Veloso concedeu a BRAVO!

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publicado às 18:22


José Luis Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.04.09


Dois meses

Estou vivo. Ao longo destes dois meses, iniciei mentalmente a escrita destas palavras dezenas de vezes. No entanto, as passagens pela internet foram sempre demasiado rápidas, com dois ou três emails urgentes para responder e, logo a seguir, o regresso ao mundo e às palavras. Pensei falar-vos da breve viagem que fiz a Marrocos e da antologia de contos que saiu por lá (o conto "Dia de anos" a ler-se da direita para a esquerda,em árabe); pensei falar-vos da edição de "Morreste-me" e de "Gaveta de Papéis" em braille, das idas a escolas preparatórias e secundárias, etc. Ou seja, pensei falar-vos de várias coisas que me deixam feliz, orgulhoso, e que, se existir amizade desse lado, vos poderão dar alguma alegria também.


Além disso, há o romance, solitário e silencioso, o grande segredo.


Voltei.




 

Sim significa não

   

A única vez em que estive na presença da actriz Alexandra Lencastre foi em 1995. O país atravessava um período de alegre contestação. Toda a gente que eu conhecia estava contra o governo e Março, a confiar na minha memória, não tinha sido demasiado frio ou chuvoso. Se Portugal fosse um carro, bastava destravá-lo e deixá-lo deslizar, não se vislumbrava a necessidade de esforçar o motor contra qualquer espécie de subida. Os penteados e os bigodes dos anos oitenta estavam extintos. Os hipermercados prosperavam. Não tínhamos telemóvel ou internet, mas se estávamos destinados à felicidade, éramos felizes. Eu tinha vinte anos e estudava em Lisboa. Quem me via não desconfiava mais do que normalmente se desconfia de alguém com essa idade.

Quando fui chamado para comparecer na pré-selecção, num apartamento em Sete Rios, ao lado do Jardim Zoológico, custou-me a acreditar. Para mim, os concursos de televisão eram uma realidade distante. Eu era anarquista, vegetariano, punk friendly e quase virgem. É certo que tinha autorizado a minha irmã a escrever o meu nome nos cupões, mas imaginava que concorressem milhares de pessoas e não conhecia ninguém que alguma vez tivesse participado num concurso de televisão. Eu nem tinha a certeza que a minha irmã se lembrasse mesmo de enviar os postais. Mas lembrava. Acordei cedo, faltei a uma aula e, com um pull-over cinzento, que ainda tenho, respondi às perguntas que me fizeram. Quando saí, não pensei se ia ser apurado, pensei no almoço.

Telefonaram poucos dias depois. Eu não estava em casa. Foi a minha irmã que atendeu. O concurso chamava-se “Trocado em Miúdos”. Havia palavras e crianças a tentarem explicá-las. Havia palavras e o seu significado mais inocente. Depois, quem acertasse nas palavras-mistério ia acumulando pontos. Os parceiros dos concorrentes eram figuras públicas. A minha parceira foi a actriz Alexandra Lencastre. Havia palmas gravadas e, por isso, sempre que chegava um momento de aplaudir, fazíamos o gesto, mas não podíamos fazer barulho. Sozinhos no estúdio, com as luzes e com as câmaras, passámos grandes períodos a bater palmas em silêncio. Creio que não haveria grande possibilidade de contestar a nossa vitória. Foi clara. Eu e a actriz Alexandra Lencastre sorrimos um para o outro e não voltámos a ver-nos.

O prémio foi um fim-de-semana em Londres para duas pessoas. A minha irmã agradeceu. Levantei o bilhete e os pormenores do hotel numa agência de viagens nas Olaias. À hora em que o concurso ia ser transmitido, a minha irmã, o meu cunhado e eu estávamos em frente à televisão, tínhamos o vídeo ligado e uma cassete preparada. A minha irmã tinha o dedo sobre o botão REC do comando. Esperámos duas horas. A minha irmã telefonou para lá. Sem aviso, o concurso tinha sido suspenso. Não cheguei a aparecer na televisão. Os bilhetes estavam guardados numa gaveta.

Foi assim que viajei pela primeira vez de avião. A minha irmã tinha um guia de bolso e um plano exacto para aqueles três dias e meio. Creio que estávamos convencidos de que nunca mais voltaríamos a Londres. À noite, chegávamos ao nosso quarto na Russel Square e não tínhamos força para falar. No dia seguinte, acordávamos às sete. Os dias eram longos como quilómetros. No fim daqueles três dias e meio éramos uma espécie de emigrantes. Um para o outro, dizíamos “lá, na Trafalgar Square”, ou “lá, no British Museum”. Tínhamos feito tudo. Tínhamos a barriga cheia. E, na minha segunda viagem de avião, regressávamos felizes. Trazíamos porta-chaves para todos, ímanes de frigorífico e chocolates. No aeroporto, as malas chegaram ao tapete rolante como nos filmes. Tínhamos um carrinho para levá-las. Seguindo as indicações para a saída, ao longe, começámos a ver o meu cunhado e o nosso pai. Ao longe, os nossos sorrisos chocaram com os seus rostos sérios. Logo nesse momento percebemos que tinha acontecido algo.

Foi o meu pai que nos disse que a nossa avó tinha morrido. Saímos do aeroporto e fomos para um velório quase deserto em Massamá. Caminhámos na direcção da nossa mãe, órfã. A nossa avó estava deitada num caixão. Chamava-se Joaquina e, a mim, chamava-me “o meu Zé Luís”. Havia velas eléctricas que se acendiam com moedas de vinte escudos. Nessa sala de uma igreja moderna, passámos a noite. O enterro aconteceu no dia seguinte, já na nossa terra. Eu e a minha irmã não chegámos a contar as histórias da viagem a Londres. As fotografias foram reveladas e guardadas. Dessa maneira, aprendi uma lição que continua comigo. Dessa maneira, aprendi que há palavras que significam o seu absoluto contrário. Às vezes, sim significa não.
*Publicado originalmente na revista Visão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Posts extraídos do blog de José luis Peixoto, da Revista Bravo

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publicado às 13:08


Ferreira Gullar

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.09

Ferreira Gullar. Um intelectual que é, acima de tudo, poeta
Ferreira Gullar. Um intelectual que é, acima de tudo, poeta

 

Revista BRAVO! | Março/2009

O Maior Poeta do Brasil

Reedição da obra e novos lançamentos preparam as comemorações dos 80 anos de Ferreira Gullar, um autor que atravessou todos os momentos da poesia brasileira e assegurou seu lugar entre os grandes do século 20

Por Almir de Freitas

Leia também entrevista com o autor feita por Armando Antenore

Sobre Ferreira Gullar, ninguém menos que Vinicius de Moraes escreveu, em 1976, que se tratava do "último grande poeta brasileiro". Na época, o maranhense estava exilado em Buenos Aires, depois de cumprir um longo périplo — Moscou, Santiago, Lima — fugindo da mão pesada da ditadura militar. Ali, um ano antes, espremido entre os golpes no Chile e na Argentina, temendo "desaparecer" em meio à proliferação de ditaduras latino-americanas, Gullar tinha escrito a sua obra-prima, Poema Sujo (1975). Poema-limite, vertiginoso na evocação da São Luís da infância do poeta, das histórias, personagens e sensações prestes a mergulhar no esquecimento da morte, Poema Sujo levaria o nome de Ferreira Gullar, de fato, ao panteão mítico dos grandes nomes da poesia brasileira, ao lado de Murilo Mendes, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e — à parte a modéstia do próprio — Vinicius de Moraes.

Se ele não era exatamente o "último" naquela época, hoje não são poucos os que o consideram o maior poeta vivo do Brasil — e não apenas pelo impacto de Poema Sujo. Nascido José Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930, o também dramaturgo, ficcionista e crítico se aproxima das comemorações de seus 80 anos de idade não como mero sobrevivente de uma era que passou. Ferreira Gullar é, antes, um intelectual e um escritor a quem não falta o gosto pelo estudo, pelo debate e, sobretudo, pela poesia. Só neste ano, a editora José Olympio prepara a edição de dois volumes: uma reunião dos poemas de cordel escritos pelo autor nos anos 70, ilustrados pelo artista paraibano Ciro Fernandes; e Em Alguma Parte Alguma, seu novo livro de poemas, o primeiro desde Muitas Vozes (1999). Além disso, a Nova Aguilar acaba de lançar Ferreira Gullar — Poesia Completa, Teatro e Prosa, um volume de mais de mil páginas que traz, além da obra poética completa acompanhada de farta bibliografia, a reunião de textos antes esparsos, duas peças de teatro e um ensaio inéditos.

São 60 anos de carreira, período em que ele atravessou, ativamente, todos os episódios decisivos da moderna poesia brasileira. Da mesma maneira que sua obra se localizou em algum ponto entre dois extremos — o lirismo e a sordidez, o local e o universal, a multidão de vozes e a solidão —, sua trajetória revela um poeta que oscilou entre a ousadia aberta e a prevenção contra os formalismos ocos. Parafraseando Caetano Veloso, pode-se dizer que Ferreira Gullar "entrou em todas as estruturas e saiu de todas", num movimento contínuo de experimentação de sintaxes em busca do aperfeiçoamento da própria voz — uma busca pelo novo em que ele nunca perdeu de vista suas origens.

Foi assim desde quando, ainda no Maranhão e incrivelmente atrasado em relação aos modernistas, Ferreira Gullar estreou na literatura, em 1949, com as redondilhas, decassílabos e alexandrinos de Um Pouco Acima do Chão, livro de lustroso sotaque parnasiano. "Talvez eu nasça amanhã", diz o último verso do último poema desse livro que ele, mais tarde, renegaria. Como se cumprisse uma profecia, o poeta, já vivendo no Rio de Janeiro, abandonou a régua e a rima no livro A Luta Corporal (1954). E o fez com autoridade e desassombro: na concepção de uma poesia visual, formada por estilhaços de palavras que exploravam novas possibilidades sonoras, Gullar não apenas superava certo prosaísmo que rondava a poesia do modernismo da época, como também antecipava os procedimentos do concretismo. Poeta visceral, ele, contudo, desembarcou do movimento atirando contra a racionalização "matemática" promovida pelo grupo paulista — Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos à frente. O racha provocou uma das cizânias mais persistentes e ferozes da literatura brasileira, até hoje responsável por uma resistência a Gullar em certos círculos de São Paulo.

O ciclo, poém, estava estabelecido. Inovador mas avesso ao dogma, Gullar deu prosseguimento, na prática, à profunda reflexão sobre o papel da poesia. Em 1959, lançou as bases do movimento neoconcreto, a partir do qual construiu o corpo principal de sua (polêmica) abordagem das artes plásticas. Já nos anos 60, ingressou no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes, iniciando uma fase "popular" e engajada politicamente, cujas ramificações se estenderam ao teatro. Mas, se as frias ortodoxias estéticas não serviam a Gullar, o mesmo se aplicaria às normatizações de uma arte concebida como assessório da revolução social.

Na soma dessas idas e vindas, forjou a poesia que conquistaria Vinicius de Moraes. Naquele ano de 1976, foi Vinicius quem trouxe ao Brasil a fita cassete gravada pelo próprio Ferreira Gullar com Poema Sujo, promovendo "sessões" no Rio de Janeiro para exibir a todos a poesia "orgânica, crua, fecunda, emocionante" daquele intelectual maranhense que, no exílio, procurava traduzir a totalidade de sua própria existência.

O curioso é que a crueza de

Poema Sujo

— e também de

Dentro da Noite Veloz

(1975) — teve a capacidade tanto de elevar Ferreira Gullar àquele panteão mítico de poetas quanto de aproximá-lo (por conta das circunstâncias, inclusive) da "poética deliberadamente impura da poesia marginal", na expressão do crítico José Guilherme Merquior. Nesse momento, Ferreira Gullar, que voltaria ao Brasil em 1977, ainda trafegava naquele território entre os extremos. Viveu os movimentos do seu tempo, apontou caminhos, experimentou. Mas sempre, ontem como hoje, desempenhando o papel de tradutor de sua própria história, a de um homem que — como todos — está num ponto difuso entre a infância e a morte.

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publicado às 23:32


José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.02.09


Asseio

Nesta época do ano, quando vivia na casa de lareiras que sempre pertencerá aos meus pais,  uma das coisas que mais gostava de fazer era atear o lume. Acender uma pinha com fósforos ou no bico do fogão. Acender um fósforo. A explosão de um fósforo na ponta dos dedos é um assunto simultaneamente intenso e frágil, como o coração de uma ave. Da chama de um fósforo pode nascer um incêndio, o inferno, ou pode nascer um lume como aquele onde me aquecia na casa dos meus pais e que ardia durante todo o dia. E coloca-se a pinha no ponto onde a construção de lenha se cruza. Depois as chamas, depois as brasas, depois a cinza.

É assim que espero que as palavras peguem.

No resto do tempo, faço como no poema de Billy Collins, que aqui deixo traduzido por mim para português:

 

CONSELHO PARA ESCRITORES


Mesmo que te mantenha a pé toda a noite,

lava as paredes e esfrega o chão

do teu estúdio antes de compores uma sílaba.


Limpa como se o Papa estivesse para vir.

O asseio imaculado é sobrinho da inspiração.


Quanto mais limpares, mais brilhante

será a tua escrita; não hesites, pois em sair

a campo aberto e lavar a face oculta

das pedras, nem de passar um trapo nos ramos mais altos

das florestas sombrias, pelos ninhos cheios de ovos.


Quando encontrares o caminho de volta para casa

e guardares as esponjas e escovas debaixo do lava-loiça,

contemplarás a luz da aurora,

o altar imaculado da tua secretária

uma superfície limpa no centro de um mundo limpo.


Então, de um pequeno copo, azul reluzente, tira

um lápis amarelo, o mais afiado do bouquet,

e cobre páginas com frases miúdas

como longas filas de formigas devotas,

que te seguiram desde o bosque.

 

Retirado do blog de José Luís Peixoto

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publicado às 18:28


O Último Português da China

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.02.09

O autor Henrique de Senna Fernandes. Em seu projeto de explorar o encontro de culturas, elevou os nativos de Macau a protagonistas de sua literatura
O autor Henrique de Senna Fernandes. Em seu projeto de explorar o encontro de culturas, elevou os nativos de Macau a protagonistas de sua literatura

 

Revista BRAVO! | Fevereiro/2009

Dois lançamentos apresentam no Brasil a literatura do macaense Henrique de Senna Fernandes, representante de um mundo em extinção, em que as culturas lusitana e chinesa dialogavam

Toca o telefone no escritório de advocacia do escritor macaense Henrique de Senna Fernandes. Chamada de São Paulo. Em Macau, ex-colônia portuguesa na Ásia e desde 1999 região administrativa especial da República Popular da China, os relógios estão no futuro — nesta época do ano, dez horas a mais em relação ao Brasil —, mas o idioma no qual se expressa o jornalista que procura pelo autor ficou no passado. "Can you speak in English?", pergunta do outro lado da linha, com voz constrangida e sotaque achinesado, uma assistente de Senna Fernandes, logo que ouve as primeiras palavras na língua da antiga metrópole.

 

O episódio reforça a ideia de que Senna Fernandes (1923) talvez represente o último capítulo de peso da história da literatura produzida em português no continente asiático — ou, ao menos, em Macau. Assim, a publicação no Brasil de dois livros do ficcionista, Nam Van (contos, 1978) e Amor e Dedinhos de Pé (romance, 1986), já constituiria, por si só, um acontecimento editorial. Há, no entanto, algo mais a sublinhar: a obra do autor é um paradigma da expressão identitária de Macau, moldada a partir da fricção entre as tradições portuguesa e chinesa, disso resultando uma "cultura de encontro". "O macaense é precisamente o produto do equilíbrio de várias culturas, entre as quais se destacam a portuguesa, a raiz, e a chinesa, o solo. Eu sempre quis mostrar essa possibilidade de duas culturas tão díspares encontrarem uma plataforma de entendimento e de adaptação, criando um mundo novo", explicou o escritor em entrevista a BRAVO!.

A primeira providência tomada por Senna Fernandes para alcançar esse objetivo foi pôr os macaenses no centro da ação narrativa. O prodígio, conforme observa Mônica Simas em Oriente, Engenho e Arte, coletânea de ensaios de vários estudiosos sobre imprensa e literatura produzidas em português na Ásia, significou um "deslizamento subversivo" das estruturas literárias até então praticadas. Em obras como a de Jaime de Inso (1880-1967), por exemplo — oficial da Marinha lusa que serviu em Macau na década de 1920 —, os nativos da colônia não passavam de "personagens secundários".

 

Escritos com apuro técnico e cuidadosa construção de personagens, Nam Van e Amor e Dedinhos de Pé são representativos do projeto literário do autor. O volume de contos parece já querer concretizá-lo desde o título: Nam Van é a denominação chinesa da Praia Grande, o coração social e administrativo de Macau, além de "zona residencial preferida da população". Em suas cercanias, Senna Fernandes nasceu e passou parte da infância e lá foi morar quando regressou a Macau, depois de se formar no curso de direito na Universidade de Coimbra, para não falar que ele atribui ao local a inspiração de seus textos iniciais — o que vale dizer que, para além do jogo linguístico de reunir histórias em português sob um título chinês, o nome da obra relaciona as memórias espacial, coletiva e pessoal.

 

A-Chan e Manuel
No primeiro dos seis relatos do livro, A-Chan, a Tancaneira — premiado em 1950 num concurso da faculdade onde o ficcionista estudou —, a personagem principal, uma interiorana, é vendida pelos pais e acaba no litoral, trabalhando no tancar, pequena embarcação macaense guiada por mulheres. No exercício dessa função, considerada desprezível na China imperial, ela conhece o marinheiro português Manuel, a quem chama de Cou-Lou (Homem Alto). Ali estão dois destinos culturais distintos, ainda que inexoravelmente ligados à água. Não demora para que a paixão entre ambos "flua" — num encontro de dessemelhanças. Embora "feia, ignorante e açulada pela canga do rio", A-Chan conquista o navegador lusitano, que chega a se chocar com sua "submissão de fêmea amorosa que nada pedia". Ela engravida, e o futuro que se vislumbra, no final do conto, para Mei Lai, sua filha com Manuel, reflete o "mundo novo" de que fala Senna Fernandes: a menina é levada para a metrópole, onde será criada pela irmã do pai.

 

Em Amor e Dedinhos de Pé, a proposta de trazer para a boca de cena os personagens e a identidade macaenses é radicalizada. Dividido em quatro partes, o romance foi inspirado, segundo o ficcionista, "numa história antiga que escutei, entre riso e comentário jocoso, num dos serões da velha casa da minha avó". Para mimetizar, a contento, o ambiente de que trata o enredo do livro, Senna Fernandes admite que devia ter escrito certos diálogos em patoá, isto é, no dialeto local, hoje em vias de total desaparecimento. "Não o fiz porque, escrevendo sobretudo para o leitor lusófono em geral, a sua leitura tornar-se-ia difícil. No entanto, aqui e ali cedi à atração, reproduzindo frases em patoá, e noutras introduzi a construção gramatical do português falado pelo macaense."

 

É desse modo que a própria língua de Macau torna-se também uma das protagonistas do livro, lapidada num coloquialismo que não abre mão do acento literário, como se vê na seguinte passagem: "Pensa que não queria ser como as outras? Ter o direito de me divertir, de dançar e não ser o jarrão de todas as festas, de ser amada? Não, não interesso a ninguém. Pensa que não queria apresentar-me melhor, despegar-me destes horríveis vestidos que trago, que me dão uma figura de espantalho?".

 

No romance, Francisco da Mota Frontaria, o Chico-Pé-Fede — descendente de uma família de lorcheiros "que tanto se tinham distinguido no tráfico de mercadorias pelos diversos portos da China e na luta contra os piratas" —, tem sua trajetória cruzada com a de Vitorina Cidalisa Padilla Vidal, dita Varapau-de-Osso, a "mulher mais feia" da cidade. Numa trama tecida de maneira hábil, várias histórias vão adensando o núcleo central. O tempo recua na segunda parte até chegar ao presente da primeira e daí partir para as restantes, retratando a Macau do início do século 20, com seus bairros lusitanos e outros tipicamente chineses, e a reviravolta na vida dos personagens principais. Tal como ocorre com tantos outros casais da ficção do escritor macaense, também Francisco e Vitorina são bastante diferentes — o que representa mais um nível de aprofundamento do livro —, mas a complexa condição de marginalidade de ambos promove sua aproximação.

"Uma língua só tem sucesso quando é amplamente utilizada. Apesar de ser idioma oficial em Macau, o português não é o que se fala muito", lamenta Senna Fernandes. De fato, consta que nos dias atuais menos de 1% da população domine o idioma luso. Diante desse quadro, o macaense afirma que a literatura de língua portuguesa produzida por escritores asiáticos "caminha para a extinção". Isolados, muitos dos ficcionistas e poetas de expressão lusitana daquele continente permaneceram, e permanecem, distantes de algumas das principais conquistas literárias do idioma. Mas o vigor de obras como Nam Van e Amor e Dedinhos de Pé deixa na ponta da língua portuguesa um gosto amargo — trazido pelo temor
de que uma literatura que foi capaz de produzir livros desse porte possa deixar de existir.




Rinaldo Gama é editor do caderno Aliás, do jornal O Estado de S. Paulo, autor de O Guardador de Signos: Caeiro em Pessoa.

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publicado às 18:21


As fases de Woody Allen

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.09

Os filmes essenciais na cinematografia de diretor americano famoso por criar tipos intelectuais e nova-iorquinos

1. Os filmes "piada-puxa-piada"
No início da carreira, Woody Allen achou que podia fazer sucesso contando ele próprio as piadas que escrevia. Seus primeiros filmes são calcados naquele tipo de roteiro que, no jargão da atividade, são chamados de "piada-puxa-piada". Entre eles estão, Bananas (1971) e O Dorminhoco (1973).

Bananas

O Dorminhoco

2. Em busca dos conflitos interiores
Depois, Allen passou a procurar enredos em que os conflitos entre os personagens decorressem mais de angústias interiores do que de situações concretas. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) é exemplo dessa vertente.

3. A fauna nova-iorquina
O círculo que se move em torno dos protagonistas dos filmes de Allen é formado por uma tribo específica de personagens: artistas, intelectuais, psicanalistas, gente envolvida com o mundo da cultura da cidade que nos anos 60 roubara de Paris o título da capital cultura do mundo: Nova Iorque. Entre as obras desse tipo, está Manhattan (1978).

4. A literatura como inspiração
De forma consciente ou inconsciente, a literatura é referência nos filmes de Allen. A peça Três Irmãs, do ruso Tchekov, é uma das inspirações para uma das obras-primas do cineasta, Hannah e Suas Irmãs (1986).


Vicky Cristina Barcelona, que estréia neste mês, também tem influências literárias. O off inicial que descreve as personalidades das protagonistas Vicky e Cristina remete aos romances da romancista inglesa Jane Austen. Mas o clima que permeia o filme é o dos livros do escritor americano Henry James. O autor, nascido nos Estados Unidos e naturalizado inglês, fala recorrentemente do choque cultural entre o Velho e o Novo mundo. Em livros como As Asas da Pomba, os americanos são pintados como ingênuos na arte de cortejar, na comparação com os europeus. Em Vicky Cristina Barcelona, algo do relacionamento intenso dos europeus Juan Antonio e Maria Elena parece escapar às americanas Vicky e Cristina.

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publicado às 13:49


Bob Dylan - O Caminhante Solitário

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.09
Bob Dylan em Manhattan, em 1983. Ele gosta de passear a pé pelas ruas de Nova York desde a época em que namorava Suze Rotolo, nos anos 60

Bob Dylan em Manhattan, em 1983. Ele gosta de passear a pé pelas ruas de Nova York desde a época em que namorava Suze Rotolo, nos anos 60

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2009

O Caminhante Solitário

Gravações inéditas trazem Bob Dylan “do puro, do legítimo, do escocês”, sem interferência de parceiros ou produtores

Por Eurípedes Alcântara

 

Quando as coisas não dão muito certo em suas parcerias artísticas, Bob Dylan ativa um mecanismo de sobrevivência que parece ser seu estado natural. Ele some. Desaparece. Abandona tudo. Sai andando pela noite de New Orleans, Los Angeles, São Francisco, Montreal, Berlim, São Paulo... ou aonde quer que o leve a Never Ending Tour, o pé na estrada sem fim que serve de metáfora da sua vida. Nas caminhadas ele recupera um pouco daquela liberdade da juventude, quando subia a enregelada rua Thomas Paine, no Village nova-iorquino, de braços dados com a namorada Suze Rotolo apenas para "tomar um pouco de ar". Hoje ele anda só e busca sons novos, se detém a cada quebrada onde alguém toque algum instrumento. Na mais extraordinária dessas fugas, Dylan deixou o grande Grateful Dead, da lenda Jerry Garcia, no palco durante um dos ensaios do que viria a ser descrito por alguns críticos como uma bem-sucedida turnê. Não foi. Foi um porre. Um desencontro quase tão grande quanto Mick Jagger cantando Like a Rolling Stone como se a canção fosse uma homenagem a ele, ou Dylan e Paul Simon se apresentando juntos no Madison Square Garden. Os shows eram cabos-de-guerra com aquela química artificial de casais tentando se acertar com a ajuda de conselheiros externos. Dylan não via a hora de o tormento acabar — e acabou numa das caminhadas em São Francisco. Ele ouviu um velho e desconhecido tocar e cantar jazz de um jeito que descreveu mais tarde ao produtor musical Daniel Lanois como "o ruído feito por alguém dizendo uma verdade".

 

Ler resto da crónica aqui

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publicado às 13:39


José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.01.09

Not dead

Tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele. Há vezes em que sou obrigado a pôr-me à sua frente e a segurá-lo pelos ombros, quer fugir, quer dar pontapés nos caixotes do lixo e deixá-los espalhados no meio da rua. Seguro-o como se tentasse evitar um briga. Não faças isso, não vale a pena. Na maior parte do tempo, esse punk está a dormir, sentado num passeio dentro de mim, encostado a uma parede, com as costas tortas, o pescoço torto, inconsciente, bêbado ou drogado com o perfume dos lugares onde vou. Esse punk dentro de mim não os suporta, prefere comer restos abandonados na mesa de esplanadas do que jantar de fato e gravata na casa de príncipes, prefere vomitar aguardente destilada pelo estômago do que ter de responder palavras vazias às palavras vazias dessas conversas. Já houve ocasiões em que esse punk quis puxar a toalha da mesa posta, aquilo que mais desejou foi ver o serviço inteiro de jantar suspenso por um instante no ar da sala e, depois, a desfazer-se no chão.

Esse punk não é uma metàfora ou uma ironia. É um punk a sério. Tem um casaco que é sempre o mesmo e tem uma camisola, tem umas calças que são sempre as mesmas, com remendos de G.B.H. e de Chaos UK que não tapam os buracos nos joelhos. Aliás, os remendos não servem para tapar os buracos nas calças, servem para outras coisas. Também os buracos têm uma função que, aqui, agora, seria difícil de explicar. É possível olhar para os olhos desse punk que está debaixo da minha pele. Há vezes em que todo o seu rosto está escuro, coberto de sombras e apenas se distinguem os seus olhos, fixos, a brilhar. É mais ou menos divertido que alguém possa pensar que esse punk é uma metáfora ou uma ironia porque, se há algo que ele rejeita no seu discurso são as metáforas e as ironias. Esse punk gosta de escrever frases nas paredes, gosta de repetir refrões quatro vezes e considera que tanto as metáforas como as ironias são subterfúgios que algumas pessoas utilizam para não serem directas, para serem mentirosas, para serem cobardes e se protegerem daquilo que têm para dizer, para se protegerem do olhar dos outros sobre aquilo que têm para dizer. Esse punk engana-se muitas vezes, mas não tem medo de utilizar o verbo ser.

Em conversas com outras pessoas, estando a falar ou a ouvir, é muito frequente que esse punk me esteja a sussurrar palavras ao ouvido. Tem uma voz riscada por grãos de areia. É como se a sua garganta fosse rugosa, e talvez seja. Esse punk prefere gastar aquilo que tem, prefere gastar-se, a ter tudo muito guardadinho em gavetas, apenas para ser usado em dias especiais, com muito cuidado para não riscar, para não sujar. Esse punk gosta de sujar-se. As outras pessoas têm dificuldade em entender o prazer imenso de estar sujo, de não tomar banho, de deixar o tempo acumular-se na pele, de torná-la morna, da certeza de vida que existe por baixo de tudo isso. Porque esse punk também tem muito dentro de si, também há muito debaixo da sua própria pele. Eu tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele, e esse mesmo punk tem muito dentro de si. Não vou enumerar, não vou cair nessa vertigem. Vou apenas assinalá-la. Essa arqueologia pode exigir a vida inteira.

Passamos muito tempo sozinhos, eu e esse punk. Se precisamos um do outro, basta chamarmos. Entendemo-nos bem, sabemos escutar-nos e, para alám da idade, somos dois velhos. Ele é um punk velho, que nunca desistiu, que nunca baixou a voz, apesar de tudo o que inventaram para o demover, para mudar o mundo que descobriu com 14, 15 anos, ou talvez antes. Eu sou um velho que, entre outras coisas, carrega um punk velho dentro de si. Ele conhece aquilo que faço quando não o estou a ouvir, ele perdoa-me aquilo que faço contra as suas convicções. Ele finge que não vê, mas vê. E entende. Eu também conheço aquilo que ele faz e que contraria o que diz, que é o exacto oposto daquilo que diz quando se exalta com as pessoas que falam na televisão ou que escrevem nos jornais. Também eu finjo que não vejo, mas vejo. E entendo. Entendo muito bem os instantes em que ele está a tratar de si, despenteado, em que passa as mãos pelo rosto, e é como um menino frágil. Esse punk, que grita rouco, que diz que quer matar este e aquele, que quer partir isto e aquilo, é como um menino fràgil, à mercê de mil coisas que o podem matar, partir, e que o matam devagar, que o desgastam, mas às quais ele resiste, porque ele tem memória, ele não esquece.

Muitas vezes, quando estamos sozinhos, falamos de muitos assuntos, rimo-nos como pessoas normais. E ele não é esse punk que tenho dentro de mim, mas é uma pessoa com um nome, que chegou de um lugar. E eu não sou eu, sou também uma pessoa com um nome, que também chegou de um lugar. Rimo-nos. E parece-nos que não há outra pessoa que possa compreender as nossas histórias. Talvez seja mesmo assim: ficamos os dois, tatuados e rodeados de livros. Depois, quando estamos no centro de uma multidão, esse punk quer sair, mas eu digo-lhe que não, ninguém pode vê-lo mais do que apenas um pouco, quase nada. Se o vissem, os professores universitários iriam chocar-se. Apenas pelo seu reflexo, acreditariam saber tudo acerca dele. As senhoras que têm netas, filhas, deixariam de achar-me graça, ficariam baralhadas. Por isso, sou obrigado a pôr-me à frente do punk que está dentro de mim, debaixo da minha pele, sou obrigado a segurá-lo pelos ombros. Quando estamos sozinhos, sentamo-nos à mesa e, às vezes, juntos, ficamos em silêncio durante muito tempo.


*Publicado originalmente no Jornal de Letras.

Retirado do blog de José Luis Peixoto

 

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publicado às 16:51


Traição, de José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.09
 

 

Revista BRAVO! | Dezembro/2008

Traição

José Luís Peixoto

 

Hoje é dia 21 de outubro de 2008. Estou a beber chá.

O meu marido anda lá fora, no quintal. Na paisagem imóvel da janela, uma brisa ligeira nas folhas mais altas, vejo-o às vezes. Furtivo, o meu marido passa com a pá, ou o ancinho, ou a mangueira, ou a tesoura de podar. Na nossa casa, os catálogos de jardinagem terminam sempre como leitura de casa de banho. O meu marido anda de botas e chapéu. Não há sol, mas aquele é o chapéu da jardinagem. Também as calças dobradas na canela e as botas. Agradeço a Deus pela jardinagem. Obrigado, Senhor, pela jardinagem. O meu marido precisa de distracções. Não lhe chega a televisão, adormece. O meu marido é doente cardíaco. O vidro da janela é grosso e eu ouço mal. Ouço bem um apito fininho, constante, branco, uma linha, ouço mal tudo o resto. O vidro da janela, eu ouço mal, mas sei que o meu marido está a assobiar. As pequenas plantas fazem-no feliz.

Actualmente, o meu clitóris não é mais sensível do que qualquer outra parte do meu corpo. É feito de pele, como os meus ombros, cotovelos, joelhos. Creio que endureceu. Ainda é de tarde, são quase cinco horas, mas já se sente o início da noite. Aqui, nos arredores de Reggensburg, há pássaros que só aparecem a esta hora. Não sei porquê, alguém deve saber. São pássaros pequenos que fazem barulho. No passado, o meu clitóris deu-me grandes alegrias. Marcou o meu epicentro. Sou uma mulher, não deixei de ser uma mulher, mas agora tenho outros interesses. Não sei ainda quais são. Talvez a mágoa. Talvez a mágoa seja agora um dos meus interesses. Presto bastante atenção à mágoa, é certo. Neste verão que terminou, parecia-me que a mágoa tinha um cheiro entre os primeiros instantes de cada dia, uma nesga de luz matinal na janela do quarto. O meu marido na cozinha, acordado há horas, as chávenas a chocarem umas nas outras, e eu a decidir se estava acordada, se era outra manhã, se queria outra manhã, acordar, e a parecer-me que a mágoa tinha um cheiro. O meu marido nunca se apercebeu. O meu marido esqueceu-se de tocar-me há talvez quinze, dezasseis anos, nunca mais se lembrou. Em fevereiro, faço setenta anos. Esta parte do ano, outubro, ficou sempre ligada na minha cabeça aos outubros de quando era adolescente e ia para a escola. Na minha imagem mental dos meses, agora parece maio. Há cinco meses, em maio, eu ainda estava chocada. Ontem, ao lavar-me, passei a mão pelo clitóris e, instintivamente, admirei-me. Por instantes, pensei que pudesse ser uma verruga, um sinal, um caroço.

Os arredores de Reggensburg têm asseio, os muros estão sempre acabados de pintar. Temos vizinhos a boa distância. Gosto do vento, mesmo daquele vento frio a meio do inverno. Reggensburg fica a cerca de 225 quilómetros de Amstetten. Nunca fiz essa viagem, nem para um lado e nem para o outro. Quando saímos de Amstetten, fomos viver para Dortmund, ficámos lá dez anos. Depois, fomos para Weimar, ficámos lá dois anos, até o meu marido se reformar. Podíamos ter procurado casa em qualquer lado. O meu marido insistiu na Baviera porque ficava perto da Áustria, acabamos por concordar com Reggensburg. Quando pede alguma coisa, o meu marido gagueja. Às vezes dizia: Amstetetetetetten. Sozinho, planeava fins-de-semana em Amstetten. Dizia: vivemos cinco dos nossos melhores anos naquela cidade, porque não queres voltar? Eu começava por negar que não quisesse voltar. Depois, inventava desculpas sem tentar sequer fazer sentido. Não sei o que ele pensava de mim. Até podemos ficar no teu hotel, dizia o meu marido, sem saber o que dizia. Literatura. Adorava que o meu marido gostasse de ler. Tenho a certeza de que adoraria os russos: Tolstoi, Dostoievski, Gogol. Ah, Gogol. Quando quis trabalhar, o meu marido conseguiu-me uma posição a gerir uma pousada quase no centro de Amstetten. Após uma semana de serviço, meados de setembro, o Josef possuiu-me na cama dupla do quarto 28.

Sempre usámos este verbo um pouco antigo, talvez um pouco livresco, século XIX. Quando o Josef começava a rosnar, eu dizia-lhe: possui-me, possui-me. Tenho de falar dos seus olhos azuis. Os olhos azuis do Josef brilhavam, seriam suficientes para iluminar uma sala. Não estou a exagerar. Ou talvez só um pouco. Quando o Josef me sorriu, me tratou por menina, quando me apontou o olhar cheio de entoações, desfiz-me invisivelmente. A partir daí, tratou-se de seguir um sentido. Às vezes, quando deixávamos cair a cabeça sobre as almofadas da cama, eu ficava a fazer-lhe festas no pequeno bigode colado aos lábios. Não era ridículo. Eu sorria, enquanto a nossa respiração abrandava ao mesmo tempo. Depois, ele olhava para mim e sorria também. O Josef sabia sorrir. À noite, o meu marido contava-me todos os pormenores da vida dos seus colegas, mas eu não o ouvia. O Josef gostava de sexo de pé. Eu inclinava-me na direcção da janela e ele ficava por trás, apreciava a paisagem. Em certos assuntos, muitos, eu considerava o Josef um poeta. Amstetten era uma cidade sem sobressaltos, as campainhas das bicicletas, as estações do ano nos dias certos. O Josef tinha umas pernas firmes, que eu gostava de apertar no interior das minhas.

Quando estava bom tempo, aos sábados, o meu marido e eu fazíamos piqueniques. O Josef tinha cinquenta e oito anos, mais quatro do que eu, e bastava que me tocasse com um dedo. Se nos cruzávamos na rua, eu tremia. Ninguém podia suspeitar. Ele sorria sem olhar para mim. Uma vez, estava num restaurante, e o meu marido perguntou-me: estás com frio? Era o Josef. Quando ganhei coragem para olhar melhor, não era o Josef, não era sequer parecido, mas tremi, não consegui controlar-me. Quando o Josef punha a cabeça no meio das minhas pernas, eu fazia-lhe festas no cabelo. Havia semanas em que nos víamos duas vezes, três vezes, havia semanas em que não nos víamos. Dependia de muitos factores. Conheci o Josef quando tive aulas de dança, salsa. Estive em três aulas. Depois de conhecê-lo, desisti. Deixei de ter tempo. Precisava de todos os instantes para pensar nele.

O meu marido estava muito triste na noite em que me contou que tínhamos de partir para Dortmund. Eu disse-lhe algumas frases inacabadas, palavras incompletas. O meu marido disse: pois é. O meu marido nasceu na Saxónia, a meia dúzia de quilómetros de Dresden e, no entanto, já tinha adoptado um sotaque austríaco. Artificial, enjoativo, mas sentido. O meu marido é obediente. O Josef tinha verdadeiro sotaque austríaco, claro. Os seus érres davam-me tesão. Durante anos, eu corava só de lembrar-me dos seus érres. Nessa noite, o meu marido tinha a cabeça entre as mãos, a realidade. Eu não podia fazer outra coisa. Desde esse dia, até à partida, eu e o Josef comemo-nos como animais, como lobos, em todas as camas da pousada. Engolimo-nos. Em Dortmund, eu sonhava com ele. No duche. Em Weimar, comecei a conformar-me. Em Weimar, tivemos uma cadela, Lassie. O meu marido apareceu com ela pequenina, quando chegámos. Morreu uma semana antes de partirmos para Reggensburg, bem-educada. Conformei-me que não voltaria a ver o Josef. Por isso, nunca quis voltar a Amstetten. O Josef era um segredo para sempre. Havia momentos em que me parecia que só tinha existido na minha imaginação, mas isso é algo que me acontece com todo o passado. Há momentos em que me parece claramente que algum detalhe do passado, a minha mãe, sexo oral quando namorava com o meu marido, sopa de abóbora, só existiu na minha imaginação.

Eu não tinha qualquer fotografia do Josef. Mesmo já em Reggensburg, havia vezes em que me sentava no sofá, de braços cruzados, a esforçar-me para recordar o seu rosto. Quando não conseguia, ia à cozinha e fazia panquecas. Era uma espécie de compensação e, ao mesmo tempo, um hábito. Depois, noutros dias, via-o em tudo. Havia um calor. O rosto dele era como uma chama. Tentei aprender a bordar. Via o rosto dele nos novelos de linha, no pano esticado. Foi talvez por isso que, quando apareceu a imagem dele na televisão, não me admirei logo. Acho que não gerei sequer um pensamento, não reagi. Analisando, reconheço agora que a ordem dos meus instintos perante a sua imagem seria não verbalizar. Foi com alguns segundos de atraso que me apercebi que o Josef, o Josef, o meu Josef, estava na televisão. Não sei qual foi o meu aspecto. Perdeu-se para sempre a imagem do meu rosto porque estava sozinha, não estava ao espelho, estava em brasa, a ouvir. Eu não queria acreditar. Foi em abril. Quando acordo a meio da noite com pesadelos, acredito por instantes que posso sentir-me aliviada, que não é real, mas depois, acordada, o pesadelo é ainda mais intenso porque é real. O Josef punha a língua toda dentro da minha boca. Abril, abril, quando desliguei a televisão, cambaleei pela sala. Agarrei-me a móveis para não cair. E pensei: não. Pensei: não. Até cheguei a sorrir. Não pode ser. Em roupão, tirei o carro da garagem e fui comprar revistas e jornais. Nenhum tinha a notícia. Liguei o rádio do carro e não falavam de outra coisa. No dia seguinte, todos os jornais tinham a notícia.

O Josef tinha mantido a filha presa na cave durante vinte e quatro anos. Tinha-a violado repetidamente e tinha tido sete filhos com ela, um dos quais morreu. Na televisão e no rádio, chamavam-lhes filhos-netos. A filha do Josef e alguns dos seus filhos-netos viviam na cave. Um deles, uma rapariga com dezanove anos, nunca tinha visto o sol. Eu era obrigada a ouvir o meu marido comentar esta história e a repetir: em Amstetten, quem diria em Amstetten, e nós lá, quem diria. E perguntava-me se eu conhecia aquela rua. Eu respondia. Já me tinha perdido naquela parte da cidade. Este ano, em abril, choveu muito pouco. Tenho saudades de quando chovia em abril. Eu fixava a imagem do Josef na televisão e acreditava que os seus olhos líquidos me viam. Não tinham envelhecido. Eram os mesmos. Os lábios eram os mesmos. O Josef traiu o nosso segredo com o seu próprio segredo. Mas, agora, o seu segredo já não existe, toda a gente o conhece. Agora, só existe o nosso.

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publicado às 16:16


Almir de Freitas espreita a alma e o coração de Vinicius de Moraes

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.09
Vinicius de Moraes na década de 1950. Uma imagem diferente do homem com um copo de uísque na mão e um olho nas mulheres do calçadão
Vinicius de Moraes na década de 1950. Uma imagem diferente do homem com um copo de uísque na mão e um olho nas mulheres do calçadão

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2009

 

A Sombra de Vinícus

Novas edições, estudos e poemas antes inéditos em livro deixam para trás a imagem do “poetinha”, mostrando um autor em que a paixão se misturava com tumultos interiores

Diminutivos servem para identificar, como se sabe, coisas de pequeno porte ou, por extensão, coisas pelas quais temos carinho. Em certo sentido, as duas formas se conjugam no equívoco que fez com que Vinicius de Moraes passasse à história da literatura brasileira como "poetinha". Quase como a dizer: gostamos muito dele, de seus versos sobre o amor e a paixão - mas poetas sérios, "poetões" mesmo, são os outros. Para certa crítica acadêmica, o existencialismo prosaico de Carlos Drummond de Andrade, o lirismo de Manuel Bandeira e os versos duros da poesia engajada de João Cabral de Melo Neto encerram tudo o que de melhor e mais diverso o modernismo poderia produzir. A verdade, contudo, é que o cânone modernista não tinha como enquadrar a poesia de Vinicius, construída numa trajetória absolutamente singular, que foi das formas mais tradicionais da poesia ao trabalho como letrista da bossa nova.

As reedições da obra de Vinicius, publicadas pela Companhia das Letras numa coleção coordenada pelo também poeta Eucanaã Ferraz, mostram que essas antigas amarras acadêmicas ficaram para trás. Acompanhadas de novos textos críticos, as edições revelam um poeta em que a intensidade da paixão se mesclava com tumultos interiores, características que refletiam uma personalidade desde sempre atormentada e sujeita a frequentes períodos de depressão (leia texto na pág. 28). No conjunto da vida e da obra, revelam-se os matizes de um poeta que estava longe da imagem limitada atribuída a ele no imaginário da literatura brasileira — a de um homem com um copo de uísque na mão e um olho nas mulheres bonitas que passam no calçadão de um Rio de Janeiro edênico. Este, o tal "poetinha".

Poemas Esparsos, o mais recente volume da coleção, apresenta, em textos inéditos em livro, outros elementos desse Vinicius distante dos temas solares. Escritos entre os anos 30 e 70, os poemas compreendem todas as "fases" do poeta — desde a da juventude, em que ele era influenciado por um simbolismo de extração européia, marcada por um catolicismo atormentado, até a posterior, em que a sua poesia ganhou mais leveza, tornou-se mais "modernista". Se as diferenças entre as duas fases são evidentes e inegáveis, a divisão rígida entre ambas acabou ocultando a persistência dos elementos sombrios da primeira na segunda, num poeta que, além de tudo, acabou sendo eclipsado pelo letrista. Trabalho, aliás, que não pode ser confundido com sua obra poética — outro equívoco comum.

Nas páginas que seguem, estão trechos de alguns desses poemas. Nem todos os textos do livro são inéditos, mas seguem sendo contundentes em revelar a obra de poeta mais inteiro, tão complexo quanto os elementos simbólicos e valores morais envolvidos — sexo e morte, culpa e prazer — na metamorfose de "poeta maldito" em "libertino". Sem esses elementos, não se pode compreender a profundidade da paixão pela qual o poeta foi reconhecido. Elementos que podem explicar muito, por exemplo, os versos de Soneto de Fidelidade (1946), talvez os mais famosos de Vinicius: "Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure".

Uma Alma Duplicada
Por José Castello

Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, foi também o poeta do desespero. Sob a máscara do artista feliz, em eterno galanteio com a vida, escondeu-se, durante 67 anos, um homem atormentado, para quem o amor foi não só alegria, mas fardo, e a vida, uma sucessão de decepções.

Comecei a trabalhar em minha biografia de Vinicius de Moraes no início dos anos 90, uma década depois da morte do poeta. A única vez em que o vi, em fins dos anos 70, contudo, me bastou para perceber, não sem dificuldades, pequenos sinais desse Vinicius desconhecido. Eu era repórter de Veja e o poeta estreava um show no Rio. A entrevista foi agendada para a hora do almoço. Habituado a trocar a noite pelo dia, Vinicius me fez esperar por quase duas horas. Quando enfim apareceu, os olhos ainda esbugalhados pela noite, a voz lenta e rouca, custei a reconhecê-lo. Era difícil aceitar que aquele homem que me tratava com impaciência e desatenção fosse, de fato, Vinicius de Moraes. Mas era.

A entrevista foi um desastre. Sim, consegui meia dúzia de informações, e algumas declarações banais, que me renderam um texto discreto para a revista. Levei de volta comigo, porém, a imagem de um homem em contínuo desalinho com o mundo. Mais de uma década depois, foi dela que parti para escrever minha biografia. Ainda hoje, 16 anos depois de publicá-la, a figura desse Vinicius atormentado e em descompasso com o mundo me incomoda. Aos admiradores de canções suaves como Garota de Ipanema e Minha Namorada, ela parece não só falsa, mas absurda. Aos leitores que se habituaram à leveza de poemas como A Balada das Meninas de Bicicleta ou a Feijoada à Minha Moda, causa estranheza, ou mesmo repulsa.

Custo a admitir, mas a vida de Vinicius de Moraes foi uma linha irregular em que os grandes momentos de prazer e euforia se revezaram com descidas íngremes rumo à tristeza e ao desamparo. Os médicos de hoje, provavelmente, o rotulariam de "bipolar". Para além de qualquer diagnóstico, Vinicius foi, sim, um homem de alma duplicada. A paixão pela vida tinha, como avesso, íngremes descidas ao inferno. Quando rapaz, Vinicius desejou ser um poeta do talhe do francês Arthur Rimbaud. Foi um leitor apaixonado de Uma Estação no Inferno e, enquanto escrevia os primeiros poemas, olhava-se no espelho e via Rimbaud. Os versos torturados de seu primeiro livro, O Caminho para a Distância, escrito aos 19 anos, confirmam essa semelhança.

Bem antes ainda, em meados dos anos 20, quando ainda usava calças curtas, Vinicius rascunhou seus primeiros poemas. Nos corredores do Colégio Santo Inácio, escondia os versos nos bolsos do uniforme, comportava-se como um criminoso. Certo dia, aproveitou a companhia solitária de um colega e desabafou: "Tenho um segredo". Com a voz vacilante, como se revelasse um crime, continuou: "Eu escrevo poemas". Desconhece-se a resposta do amigo de sala. Mas, desde então, a poesia passou a ser, para Vinicius de Moraes, um objeto sombrio e íntimo.

Em 1933, quando publica O Caminho para a Distância, o precoce Vinicius, com 20 anos incompletos, se forma em direito. Na faculdade do Catete, passa a frequentar o grupo de alunos católicos liderado por Octavio de Faria, o futuro romancista, autor dos 13 volumes obscuros de A Tragédia Burguesa. A atmosfera de culpa e de trevas toma conta de sua alma. Um de seus poemas de juventude chegou a ser publicado em A Ordem, revista católica que, fundada por Jackson de Figueiredo, servia de porta-voz da ortodoxia cristã.

Nos primeiros versos de Vinicius de Moraes, sinal da tristeza que nunca mais o deixaria, a mulher surge como uma figura inocente e inatingível, enquanto o homem não passa de um ser inferior e sujo, indigno de sua companhia. Vista como um fardo, a masculinidade aprisiona os homens em impulsos carnais e arroubos de violência. Ser homem é "sofrer" desse destino. É disso que tratam seus primeiros poemas.

No segundo livro, Forma e Exegese (1935), a imagem do poeta atormentado se aprofunda. Em um poema como O Escravo, ele descreve: "Aqui vejo coisas que a mente humana jamais viu/ Aqui sofro frio que corpo humano jamais sentiu". Há um tanto de retórica nesse jovem que dramatiza o mundo e se vê como uma vítima. Em O Outro, ele diz: "Eu sinto sobre o meu ser uma presença estranha que me faz despertar angustiado".

A nuvem negra só se dissipa quando, em 1939, Vinicius conhece sua primeira mulher, Beatriz Azevedo de Mello, a Tati. Independente, liberal e pragmática, Tati era, naquele momento, uma leitora entusiasmada dos modernistas de 22. O primeiro sinal da guinada íntima de Vinicius está em seu interesse pelo jornalismo. Mas o conflito interior persiste. Quando começou a escrever crítica de cinema, para o jornal A Manhã, em 1941, por exemplo, Vinicius se tornou um ardoroso defensor do cinema mudo — que via, naquele momento, contaminado pelo "perigo da voz". A repugnância ao cinema falado será, mais tarde, superada. A marca dessa metamorfose toma forma em um poema como a Carta aos Puros, escrito em Montevidéu, no Uruguai, em fins dos anos 50, no qual Vinicius combate, com vigor, os "homens sem sol" e também "sem sal", que fogem da realidade. Combate a si mesmo.

Triste Bahia
Num espaço de 41 anos, entre 1939, ano em que se casou com Tati, e 1980, ano em que morreu, Vinicius viveu uma série de nove casamentos oficiais, afora as incontáveis paixões informais. Viveu, sempre, subjugado pela ideia da paixão. Escravo da paixão — que definiu como um amor que é "eterno enquanto dura" —, quando sentia que ela esfriava, Vinicius não pensava duas vezes: rompia com a amada. Tomou a iniciativa de se separar de sete de suas nove mulheres, confirmando a ideia de uma delas, segundo a qual o poeta, mais que amar as mulheres, amava a condição de apaixonado.

 

O fato de ser ele o autor das rupturas afetivas não o poupou, porém, da depressão que a elas se seguia. Entre os casamentos, Vinicius afundava na melancolia e se perdia na busca frenética de um novo grande amor. O amor secreto por Regina Pederneiras, arquivista do Itamaraty a quem dedicou a célebre Balada das Arquivistas, ainda quando era casado com Tati, se torna um modelo para as relações paralelas com que sempre temperou sua teoria da paixão. Entre as nove mulheres oficiais, apenas Lucinha Proença, a quinta, ao perceber que a paixão esfriava, foi mais rápida que ele e anunciou o rompimento. Talvez por isso tenha sido a única paixão (não falo de amor) que nunca se dissipou. Nona e última, a jovem Gilda Mattoso perdeu Vinicius para a morte.

Nos breves, mas infernais, intervalos de solidão, ele se apegava à bebida e à noite. Nessas horas, fazia uso de recursos enfáticos, chegando, até mesmo, a evocar (ou a blefar com) a ideia romântica do suicídio. Mas não só a ausência de paixão o levou a esses extremos. Também a ausência de liberdade. Em Portugal, a notícia da decretação do AI-5 o pegou nos bastidores de um teatro. Atordoado, gritava pelos camarins: "Eu me mato! Eu me mato!". Baden Powell, que o acompanhava no show, tentava acalmá-lo. "Pode me prender, eu quebro as lentes dos óculos e corto os pulsos!", o poeta insistia. Só um abraço longo do parceiro amansou sua fúria.

A dor vivida no ano de 1969, quando foi exonerado do Itamaraty, por "problemas de comportamento", e não por motivos políticos, deixou cicatrizes profundas. O célebre bilhete do general Costa e Silva ao chanceler Magalhães Pinto trazia palavras grosseiras: "Demita-se esse vagabundo". A vida dupla de diplomata e showman era inaceitável para os padrões da ditadura militar. Em março de 1969, a célebre Comissão Câmara Canto, grupo secreto criado pelo AI-5 para realizar um expurgo no Itamaraty, decidiu, em um relatório confidencial, pela expulsão sumária de Vinicius da vida diplomática. Diz-se, porém, que, nesse documento, nem mesmo os detratores se abstiveram de fazer elogios a sua poesia.

Deprimido pela perseguição política, Vinicius só se recuperou quando conheceu a baiana Gesse Gessy, sua sétima mulher. Mudou-se para a praia de Itapuã, em Salvador. Passou a ser visto com longas batas brancas, ornamentos do candomblé, sandálias de hippie, publicando seus versos em precárias edições artesanais, à moda dos poetas da "poesia marginal". A Bahia era uma festa — mas havia tristeza naquela festa.

Mesmo as paixões fugidias e secretas, como a que viveu nos anos 50 com a escritora Hilda Hilst, carregam essa marca. Quando estava apaixonado, Vinicius não suportava a idéia de tristeza. Hilda gostava de recordar o dia em que os dois pararam para um almoço em um restaurante de beira de estrada especializado em cordeiros. Sentaram-se ao lado de uma janela. Do lado de fora, bem ao lado, uma ovelha pastava. "Vamos embora", Hilda lhe disse. "Não vou conseguir comer vendo pela janela o bicho que vou comer." Vinicius só se levantou a contragosto. Apaixonado, nada devia contrariar seu entusiasmo. Desencantado, o mundo se revirava e o sofrimento se espalhava por todos os lados.

As circunstâncias o levaram, tantas vezes, a expor esse lado obscuro, o que aconteceu, por exemplo, quando perdeu o pai, Clodoaldo. Vinicius, que estava no México, recebeu a notícia por telefone. O horror se estampou em um poema dolorido como Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, escrito pouco depois. O primeiro verso fala não só de sua tristeza, mas do sentimento de que ela o perseguia: "A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas".

Se a celebração da vida aparece em poemas célebres como Receita de Mulher ou na Balada das Duas Mocinhas de Botafogo, a confissão da tristeza se estampa em um poema dolorido, mas genial como Poética (II), que escreveu no Rio de Janeiro, em 1960. A abertura resume sua estratégia literária: "Com as lágrimas do tempo/ E a cal do meu dia/ Eu fiz o cimento/ Da minha poesia".

Nos anos do último casamento, com Gilda Mattoso, os sinais dessa tristeza se tornaram atordoantes. Com o passar do tempo, contudo, esse Vinicius deprimido e desesperado ficou esquecido sob a imagem luminosa do "poetinha". Avesso e direito de um mesmo poeta. Uma prova disso aparece no Soneto de Luz e Treva, em particular na dedicatória a Gesse Gessy: "Para a minha Gesse, e para que ilumine sempre a minha noite". A luz é das mulheres. Aos homens, mesmo aos poetas, resta sempre o martírio da escuridão.


JOSÉ CASTELLO é jornalista e escritor, autor da biografia Vinicius de MoraesO Poeta da Paixão, entre outros livros.


O LIVRO
Poemas Esparsos, de Vinicius de Moraes. Seleção e organização de Eucanaã Ferraz. Companhia das Letras, 256 págs., R$ 42.

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por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.08

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