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#2585 - Poema sobre Lourenço Marques revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 Eugénio Lisboa

 

Regresso, mas não regresso

ao paraíso perdido,

ao centro de mim, possesso

de quanto, aqui, retido,

de novo vejo, sem ver,

sendo eu quem já não sou:

mundo outro eu quero haver,

nesta fome em que me dou.

Este mar (a cor, a vida)

durou só o que durou:

a corrida é já perdida

e o barco naufragou.

 

No entanto, a casa é minha,

mesmo podre e desdourada:

o calor é o que antes tinha,

nela está minha morada!

 

(O frio é apenas meu

e não da velha cidade:

só em mim esmoreceu

o calor da mocidade.)

 

30 de Setembro de 1989

 

___________________________________________________________________________________________________________________________

Eugénio Lisboa  
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]  

Eugénio Lisboa
Ensaísta e crítico literário. 

Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa em Letras, pelas Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988) e Aveiro. 

Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo promoveu a divulgação da cultura portuguesa e a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. 

Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal público de uma exigente e continuada atenção à obra regiana. 

 
 

 

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publicado às 17:46


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28


#2580 - Terreiro do Paço

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 Glória de Sant' Anna (1925-2009)

 

TERREIRO DO PAÇO

 

cavalga o rei de ferro em seu cavalo

verdoengos os dois no pedestal

recortados lá em cima

 

e alonga-se a crina

em falso movimento sugerido

pela água azul inquieta deste rio

 

cujas ninfas suportam a epopeia

de um povo que se esparsa pelo tempo

 

onde semeia trigo e saramago

no mesmo vento

 

Poema de Glória de Sant' Anna retirado da revista "Colóquio | Letras" n.º 110-111 - Julho / Outubro de 1989

 

coloquio letras 110-111013.jpg

 

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publicado às 15:49


#2549 - PRÉMIO DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

João Luís Barreto Guimarães, poeta portuense, venceu a 6.ª Edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa com o seu livro "Mediterrâneo" publicado em Março de 2016 pela Editora Quetzal.

Este Prémio foi criado em 1999 pela Câmara Municipal de Faro e a cerimónia de entrega realizar-se-á no dia 9 de Setembro.

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Biografia:

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967.

Vive em Leça da Palmeira.

É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.

Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro(1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006), A Parte pelo Todo (2009), Poesia Reunida (2011), Você Está Aqui (2013) e Mediterrâneo (2016).

Organizou a antologia de poesia mundial sobre gatos Assinar a Pele (2000).

A sua obra está editada em antologias e revistas literárias de uma dezena de países.

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publicado às 16:48


#2500 - O DEUS NULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.07.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

 

Não o espero. Não chegarei jamais, nem estarei aqui, ele não falará. Desejaria dizer o seu infortúnio inominável, o seu silêncio impossível. Desejaria acolhê-lo na sua nudez, no seu silêncio. Espera-me decerto, na sua pobreza incomensurável, pobre deus mudo, sem abrigo, de uma infinita miséria. O que escrevo, o que escreverei será a oferenda para o encontro dele. Mas não haverá encontro se ele não respirar na inesperada transparência de uma linguagem branca. Nada poderei oferecer se as palavras não constituírem essa íntima aliança que é o mistério mesmo da linguagem.

 

Estou só e continuarei  a estar só, na árida  e ávida deambulação destas palavras sem caminho. Lancinante, a suspensão interminável. Aqui agora é nunca. Julguei que poderia estabelecer uma relação serena e confiante mas não ouviaind nenhum apelo. Estou dentro de um círculo calcinado.

 

Poema de António Ramos Rosa, do livro "Antologia Poética" com Prefácio, Bibliografia e Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes - Edição Publicações Dom Quixote - Fevereiro de 2001

 

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Biografia                                                                                    

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 

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publicado às 10:54


#2490 - TEORIA SENTADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.07.17

 alexandra de pinho

 

TEORIA SENTADA

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade 

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.

 

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

 

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

 

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

 

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra 

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

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publicado às 18:56


#2482 - Poemas inéditos de Fernando Pessoa

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.07.17
 
 

O grupo editorial mexicano Fondo de Cultura Económica, que possui filiais em 11 países, acaba de colocar no mercado brasileiro a antologia bilíngue “Pessoa Múltiple”, organizada pelos professores Jerónimo Pizarro e Nicolás Barbosa. A antologia, reúne em um só volume, parte da produção do poética de Fernando Pessoa, com destaque para os poemas franceses e ingleses e o os livros “Rubayiat” e “Quadras”, além de poemas inéditos.

 

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em junho de 1888, e morreu em novembro de 1935, na mesma cidade, aos 47 anos, em consequência de uma cirrose hepática. Seus poemas mais conhecidos foram assinados pelos heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20. Além de exímio poeta, Fernando Pessoa foi um grande criador de personagens. Mais do que meros pseudônimos, seus heterônimos foram personagens completos, com biografias próprias e estilos literários díspares.

Após sua morte, em seus “baús cheios de gente”, foram encontrados mais de 30 mil escritos que, ainda hoje, continuam sendo editados e que, pouco a pouco, vão sendo conhecidos em toda a sua amplitude.

 

Sobre os antologistas

Jerónimo Pizarro é professor, tradutor, crítico e editor, responsável pela maior parte das novas edições e séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal desde 2006. Nicolás Barbosa é estudante de PhD em Literatura Portuguesa da Universidade Brown (E.U.A.), professor de inglês na Universidade Nacional da Colômbia, tradutor e intérprete.

O livro pode ser adquirido na livraria cultura. Os poemas selecionados são inéditos em antologias ou não foram publicadas em edições brasileiras.

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publicado às 17:57


#2471 - Cidade Velha - Cabo Verde I

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.06.17

CIDADE VELHA - CABO VERDE I

 

Manuel Maria de Moura e sua mulher Josefa Alvarenga

à mercê das sevícias que lhes excretam a campa

lado a lado progridem o húmus.

A igreja de lava amarelece

e conserva apenas dois portais,

as pombas não pousaram nos lambris

no fluxo da tarde a caminho da noite,

uma cabra sustida na janela,

entre a pedra e a pedra,

reflecte o mar numa pupila.

Sobe-se ao fortim

e a estrada como fita enrola-se à montanha.

Antigos  portugueses construíram-no

guiando pela mão os seus escravos,

Cabo-verdes ariscos debaixo do chicote

nivelaram o monte

e mantiveram

ritmo desigual.

Os guardas a cavalo

certificavam exacta proporção

e o forte ressurgia das matéria porosa,

coralínea

perfusa de bolhas minerais.

É baixo

e a nascente envolvem-no arestas.

Há nele precisão

rasgado no metal à força de buril

à custa de cinzel

liberta muralha onde fenece a lógica.

A meio fica a cisterna

memória da nascente ainda nos refresca.

No chão entre conchas

apanho um fragmento,

detecto um azulejo

azul magoando aquela superfície.

Onde perdeu a casa

na indecisa determinação

que Cabo Verde brande como lança de penas?

Nas alabardas os mapas de ferrugem

apontam à penúria as bocas sem mordaça,

o escudo português

inciso a fogo

um número sobre pele

começa a desfazer-se,

a esvair-se como o sangue sai do suicida

e o submete à própria crueldade.

Manuel Maria de Moura

deixou na pedra tumular

um voto de imprudência

«Até ao fim dos séculos não poderá abrir-se

o que ficou selado.»

Quando ao cair da noite via a lua roçar

contra o mar sua branda penugem

não suspeitou esgarçasse

a estável divisão

e o império, desfeito como um cirro,

liquefizesse abandonando os mortos.

Manuel Maria de Moura

ficaste solitário

acompanha-te o pelourinho branco,

intacto,

cornos de impala os ferros.

Aqui permaneceste

sujeito à  supressão, pouco te resta,

apenas uma pedra inchada de certezas.

 

Poema de Fátima Maldonado

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 Fátima Maldonado (Santo Amaro, Sousel, 1941). Ex-jornalista. Antiga crítica literária do jornal Expresso. Fez a sua estreia como poeta em 1980 com Cidades Indefesas. Publicou ainda: Os Presságios (1983), Selo Selvagem (1985), A urna no Deserto (1989), Caça e Persuasões (com Paula Rego, 1991), Cadeias de Transmissão (1999) e Vida Extenuada (2007).

 

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publicado às 22:48


#2466 - MÚSICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.06.17

ANTÓNIO GANCHO (1940-2005)

 

 

MÚSICA

 

A música vinha duma mansidão de consciência

era como que uma cadeira sentada sem

um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo

nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima

e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante

era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa

nós não movimentamos o espaço mas a vida erige a cifra

constrói por dentro um vocábulo sem se saber

como o que será

era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante

silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

 

Poema de António Gancho (O Ar da Manhã, 1995)

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António Gancho  
[Évora, 1940 - Telhal/Sintra, 2006]  
Poeta e ficionista. 

Nascido no início da década de 40, a poesia de António Gancho permaneceu inédita até 1985, data em que Herberto Helder reuniu, na sua antologia Edoi Lelia Doura, onze poemas do autor até então completamente desconhecido. As poucas informações biográficas disponíveis sobre António Gancho encontram-se aí expostas, dando a perceber a razão da escassez de publicação da obra deste poeta: «Com pouco mais de 20 anos foi internado numa clínica psiquiátrica, tendo vivido desde então em estabelecimentos deste género.» Sabe-se hoje que António Gancho viveu no estabelecimento psiquiátrico de Telhal (arredores de Lisboa) desde 1967 até à sua morte a 2 de Janeiro de 2006. 

Retirado da convivência editorial devido ao seu internamento, foi através do contacto com alguns amigos (de entre os quais se destacam Álvaro Lapa, António Palolo e Mário Cesariny, com os quais António Gancho tinha primeiramente contactado aquando da sua frequência do Café Gelo, ligado ao grupo dos surrealistas) que a sua produção chegou às mãos do editor. Assim, só em 1995 foi possível reunir, no volume intitulado O Ar da Manhã, toda a sua produção poética, datada de entre 1960 e 1985. 

Dividido em três conjuntos autónomos de poemas («Gaio do Espírito», 1985/86, «Poesia Prometida», 1985, e «Poemas Digitais», 1989), o livro em que se reúne a poesia de António Grango evidencia alguma heterogeneidade de temas e de formas poéticas, não sendo fácil a sua síntese. Assim, a par de poemas em que se explora ludicamente a materialidade sonora da linguagem como, por exemplo, nos versos «Route / Rota / Caminho puro e são / Chanção / Coração / Sahara / Uazara / Oasara / Oasimara»), com evidentes ressonâncias surrealistas, existem também alguns poemas, escritos na língua original dos autores homenageados, que se constituem como tributos a, entre outros, François Villon e Oscar Wilde, por via dos quais se estabelece uma interessante intertextualidade com os autores citados. 

Alguns dos mais interessantes poemas de António Gancho são aqueles em que está presente uma certa auto-reflexividade sobre os princípios de criação poética e que dão a ler os alicerçes da sua prática poética: «Nasce o sol e nasce o poema / e com esta simultaneidade / o que o poeta significa é que a sua arte é luz». Concebida como um processo de simultânea integração e totalização do homem na natureza, a poesia de António Gancho poderia ser sintetizada nestes versos seus, onde se afirma que «A poesia nasce e faz-se aqui neste fazer-se poesia. / […] A poesia assim maravilhosamente constituída / […] faz do homem o ser absoluto por natureza», sobretudo porque esta se funda num princípio de transmutação de todas as coisas: «A poesia assim é uma maravilhosa alquimia da vida». 
Centro de Documentação de Autores Portugueses
01/2009
 

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publicado às 22:17


#2464 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.17

 RUY BELO (1933-1978)

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que  o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopre e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente cala-se e mais nada

A boca é pra comer e para trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe,

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e a gente em vão requer

curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o  homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO

 

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publicado às 20:20


#2459 - À MEMÓRIA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.17

 EUGÉNIO DE ANDRADE

 

À MEMÓRIA DE RUY BELO

 

Provavelmente já te encontrarás à vontade

entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância

tomava sempre o comboio para as férias grandes,

já terás feito amigos, sem saudades dos dias

onde passaste quase anónimo e leve

como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,

que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,

sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso

ela aí estava, um pouco distraída, é certo,

mas estava, como estava o  mar e a alegria

ou a chuva nos versos da tua juventude.

 

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta

página de um jornal trazido pelo vento,

nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,

jornal onde em primeira página também vinha

a promoção de um militar a general,

ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:

isto de militares custa a distingui-los,

feitos em forma como os galos de Barcelos,

igualmente bravos, igualmente inúteis,

passeando de cu melancólico pelas ruas

a saudade e a sífilis do império,

e tão inimigos todos daquela festa

que em ti, em mim, e nas dunas principia.

 

 

Consola-me ao menos a ideia de te haverem

deixado em paz na morte; ninguém na assembleia

da república fingiu que te lera os versos,

ninguém, cheio de piedade por si próprio,

propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,

te quiz fazer visconde, cavaleiro, comendador,

qualquer coisa assim para estrumar os campos.

Eles não deram por ti, e a culpa é tua,

foste sempre discreto (até mesmo na morte),

não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,

não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,

e foste a enterrar numa aldeia que não sei

onde fica, ma seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol

 

Poema de Eugénio de Andrade in Epitáfios de Agosto, 1978

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publicado às 19:53


#2454 - BORRAS DE IMPÉRIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.06.17

 

BORRAS DE IMPÉRIO

 

I

Os impérios sempre se fizeram

com os que são forçados a fazê-los

e com os que ficam para ser mandados

e cuspidos pelos que querem fazê-los

Por isso, há nos povos imperiais

algo de um visgo de alma: que ou é cuspo,

ou um prazer dolente como  de escarra e cospe.

 

II

Há impérios que deixam no deserto ruínas de capitais pomposas.

 

E há os outros que se desculpam com tremores de terra

de terem passado sobre si mesmos como gafanhotos.

 

III

Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:

ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja

uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,

ou é com gente dessa que os impérios se fazem,

já que nada glorioso se constrói humanamente

sem 10% de heróis e 90% de assassinos.

 

Que coisa fedorenta a glória, sobretudo

enquanto não passam séculos e só ruínas

fiquem - onde nem o pó dos mortos

ainda cheire mal.

 

IV

Portugal é feito dos que partem

e dos que ficam. Mas estes

numa inveja danada por aqueles terem

sido capazes de partir, imaginam-lhes a vida

a série de triunfos sonhados por eles mesmos

nas horas de descrerem da mesquinhez em que triunfam

todos os dias. E raivosamente

escondem a frustração nos clamores

da injustiça por os outros lá não estarem

(como eles estão), do mesmo passo

que se ocupam afanosamente em suprimi-los

(não vão eles ser tão tolos - 

- a ponto de voltarem).

 

POEMA DE JORGE DE SENA ESCRITO EM 8 DE JUNHO DE 1971

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Jorge de Sena

Nasceu a 02 Novembro 1919
(Lisboa)

Morreu em 04 Junho 1978
(Santa Bárbara, Califórnia, EUA)

Jorge Cândido de Sena foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.
 
Escritor português, natural de Lisboa e naturalizado brasileiro, em 1963. Estudou em Lisboa, no colégio Vasco da Gama e no liceu Luís de Camões, onde, segundo o próprio, «andava já fazendo versos». Em 1937, entrou para a Escola Naval. A 1 de Outubro do mesmo ano, partiu no navio-escola Sagres, em viagem de instrução, que decorreu até Fevereiro do ano seguinte, após o que foi demitido da Armada. Entrou então para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Num jornal da faculdade, Movimento, publicou o poema Nevoeiro. Estabeleceu contacto com a revista Presença, através de Adolfo Casais Monteiro, a propósito de um poema de Álvaro de Campos. Desse contacto veio a resultar a ligação aos Cadernos de Poesia, onde Sena publicou, em 1940, os sonetos Mastros e Ciclo, e cuja direcção integrou durante algum tempo com Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José Augusto França. Formou-se na Faculdade de Engenharia do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas até 1959, data em que se exilou voluntariamente no Brasil. A partir daí, desenvolveu uma actividade académica intensa nas áreas da literatura e cultura portuguesas. Foi catedrático contratado de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (Estado de São Paulo). Em 1961, transitou para a Universidade de Araraquara, igualmente em São Paulo, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa. Adoptou a nacionalidade brasileira em 1963. Em 1965 seguiu, também como professor, para a Universidade do Wisconsin (EUA) e, cinco anos mais tarde, para a Universidade da Califórnia, onde veio a chefiar os departamentos de Espanhol e Português e o
 

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publicado às 18:06


#2442 - CANTO DAS IMAGENS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.17

 FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

CANTO DAS IMAGENS

 

Ao princípio era só uma em cada olhar

após a grande divisão das águas

e mesmo, segundo disse Baudelaire, a imagem

até ao seu século do real múltiplo

era una, única e própria. Dementes

chamou este cantor aos fotogramas

que roubavam à alma a unicidade

e deram aos olhos frívolos as figuras

plurais, idênticas, dispersivas.

Era somente uma a imagem mística,

dos entes naturais aos transcendentes.

Só uma esta vermelha afelandra

embora as suas irmãs se lhe assemelhem

e desassemelhem, cada uma, sempre.

O concreto pulsava neste ritmo

das coisas parcas, poucas, singulares.

E de repente, nos olhos do poeta

cada coisa reproduziu a imagem

inumeradamente, e a ideia

decaíra no  banal prolixo.

Antes, podia hesitar-se entre o modelo

e as sombras de Platão, agora as flores

malignas, podem reproduzir-se no mundo

nítidas, iguais, supérfluas.

Eu ainda vejo o olhar antigo de Baudelaire

e cada coisa vibra no seu mito,

e cada imagem cria o seu espírito,

e cada cópia fotográfica muda

na liminarmente máxima diferença.

Ao crítico e amante da Pintura

as dúbias imagens decerto deram

a cada rosto um só outro rosto,

a cada paisagem uma só tela.

Já os vidros, a água, a prata traziam

a incerteza aos traços, como se os olhos

que nos deu a Natureza nos fossem

infiéis. E o poeta pôde resistir

a esta perda das formas consagradas

e consubstanciais das coisas que ainda

ecoam a Criação como o eco cósmico

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão escrito em 30 de Outubro de 1993 retirado do livro "Obra Breve - Poesia Reunida", páginas 558 e 559, com prefácio de Eduardo Lourenço, e edição da Assírio & Alvim n.º 0976, Maio de 2006

_____________________________________________________________________________________

Dramaturga, tradutora e poeta, formada em Filologia Germânica na Universidade de Lisboa, exerceu actividade de investigação na área da literatura e da linguística. Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61, colectânea que reflectia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acesso pela palavra pura a um tempo primordial. O critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maior pode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta como fontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme do Conhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar nas palavras e nas imagens e que só por acumulação diurna e através da absorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de Cântico Maior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve, 1991). Sob o Olhar de Medeia, a obra que marca a primeira incursão no romance por parte desta autora, foi publicado em 1998. Faleceu em Lisboa no dia 20 de Janeiro de 2006.

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publicado às 17:14


#2436 - AS MÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.06.17

 EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005)

 

AS MÃES

 

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes enconstam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas  pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma  ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das , tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela,regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando algumas azeitonas para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela, só ele vê.

 

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressureição.

 

Poema de Eugénio de Andrade

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publicado às 10:45


#2422 - NINGUÉM MEU AMOR

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

 SEBASTIÃO ALBA (1940-2000)

 

NINGUÉM MEU AMOR

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos

 

Poema do poeta português Sebastião Alba (1940-2000)

_____________________________________________________________________________________________

Sebastião Alba
 
Escritor português, Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu a 11 de março de 1940, em Braga.

Em 1949, partiu para Moçambique, para Tete, onde foi viver com os pais e irmãos, passando a viver, nos finais dos anos 50, em Quelimane. Aos 21 anos desertou do Contingente Militar Geral (em Boane) e no segundo dia de fuga foi preso e torturado durante dois anos.

Manifestando o seu apoio à FRELIMO,após frequentar um curso de Formação em Inhanbane, exerceu o cargo de administrador da província da Zambézia que abandonou alguns meses depois. Estabelecendo-se em Maputo, tomou contacto com intelectuais e personalidades políticas importantes, como Marcelino dos Santos, RuiNogar, SérgioVieira, Honwana, entre outros.
 
Desiludido com a situação política em Moçambique, regressou a Portugal, em1983. Após vários problemas familiares e com problemas de álcool e tabaco,Sebastião Alba resolveu ir sozinho para a sua cidade natal e, por decisão própria, passou a viver na rua.

Colaborou na revista Caliban e no Correio do Minho e publicou as seguintes obras: Poesias (1965), O Ritmo do Presságio (1974), A Noite Dividida (1982), OLimite Diáfano (1996), a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (2000, livro póstumo).
A 14 de outubro de 2000 , Sebastião Alba morreu atropelado em Braga.
 
A 7 de outubro, quase como pressentimento, tinha escrito ao amigo Vergílio AlbertoVieira: "Se um dia encontrarem morto" o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar:dois sapatos,a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá."
 

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publicado às 17:29


#2419 - Morte do poeta Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.17

 ARMANDO SILVA CARVALHO (28 de março de 1938 - 1 de Junho de 2017)

 

Armando Silva Carvalho nasceu em Olho Marinho, Óbidos, em 1938. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia por pouco tempo, optando pelo jornalismo, pelo ensino, pela publicidade e pela tradução.
A sua obra tem vindo a ser reconhecida pela crítica e distinguida com diversos prémios, como o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas, para citar apenas alguns.

Morreu aos 79 anos de idade.

 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

____________________________________________

 

Ninguém é filho do poema universal.

Nem pai

do seu rebanho de versos.

O que eu busco é um lar.

Um lar mais natural nas palavras

da terra

com os lábios invisíveis sobre o livro

dos mortos.

 

Dois poemas de Armando Silva Carvalho retirados do livro "Obra Poética (1965-1995)", páginas 631 e 634 - Edições Afrontamento, Julho de 1998 e com prefácio de José Manuel de Vasconcelos.

 

 

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publicado às 17:12


#2402 - Um poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

ALMADA NEGREIROS (1893-1970)

 

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda

não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor

de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão

de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

 

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho

sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas  viagens,

aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas

ambas com as mesmas palavras.

 

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!

Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.

Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para

a nossa casa, como a mesa.

 

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

 

Poema de Almada Negreiros

_________________________________________________________

Almada-Negreiros
Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abrilde 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

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publicado às 16:42


#2374 - GENÉRICO

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.05.17

 fernando assis pacheco (1937-1995)

 

GENÉRICO

 

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos

das lágrimas quebrando

um a um na boca triste mas

por dentro, para que digamos

mais tarde, sem invenção escusada:

o pai não chorou.

 

Eu soube das tuas fúrias

mordendo-se em silêncio,

ou de como te pões

às vezes tão de cinza.

O barco, o barco. Ficaremos

ainda estes minutos quantos.

Do que quiseres. E como quiseres.

Fala. Mas nada de telegramas

para depois da barra

- posso não os abrir,

juro que posso.

Se eu fosse um amigo, se estivesses

em frente dum copo.

Custava menos. Assim

deslizas a unha

pelo tecido da farda, inútil

dedo terno com os olhos longe.

O pai, que não chorou, tremia

de modo imperceptível.

 

Lembro-me da bebedeira

em Alpedrinha, na estalagem,

com o Luís Melo

subitamente velho.

«Tramados, pá, tramados.»

O carro falha, são as velas

os platinados sujos

«a puta que os pariu» (Luís).

 

Um último aceno só vinho

para estas adolescentes

ao balcão do bar e depois e depois?

 

Mas o pai não chora.

Segura-me pelo braço, não chora.

Eis o filho

dos anos meus incorruptíveis.

Nasceria de uma pedra.

Longe do mundo é que ele nasceu.

E não mo tireis nunca

ó cegos capitães!

 

Meia hora antes o pai

filmou o Tejo, as tropas.

Era um barco, um barco onde ele ia.

Era um barco cheio.

 

Poema de Fernando Assis Pacheco (CÃU KIÊN: UM RESUMO, 1972)

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publicado às 18:19


#2373 - ANTI-ÉCLOGA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

 JOSÉ MIGUEL SILVA

 

ANTI-ÉCLOGA

 

A verdade é que também as urtigas

me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,

a silvestre quietude da tarde atravessada

pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras

de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser

tão daninho com a luz de um semáforo

vermelho, mas um pouco de sangue

na biqueira do sapato faz-me falta.

Faz-me falta praguejar, ter um lago

de cimento onde cuspir, obstáculos

de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.

Não me sinto nada bem com a doçura,

com a paz dos ermitérios, de onde Deus

se retirou há quinze anos. Esta resignação

das árvores, dos faunos, das silvanas,

da restante bicharada típica dos lugares

onde sofrer é natural como estar só,

a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos

que me apertem. As sandálias do pescador,

as botas do alpinista, não me levam

a lado nenhum. Detesto confessá-lo,

mas eu sou da cidade até à raiz do terror.

 

Não consigo viver sem o sasco de areia

onde exercito o excessivo golpe da exasperação.

Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,

torna-se pastosa, sonolenta, felizita

como um rio de meandros preguiçosos,

lamacentos, imprestáveis - de que me serve

fingir o sossego a que não chego, brincar

às Arcádias em que não acredito?

Está decidido, prefiro sofrer.

Amanhã de manhã regresso ao abismo.

 

Poema de José Miguel Silva (Ulisses jã não mora aqui, 2002)

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publicado às 21:42


#2372 - ALEGRIA, IMENSA ALEGRIA [SUKOT]

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

ALEGRIA, IMENSA ALEGRIA [SUKOT]

 

Povoa-nos, alegria. Habita em nós como um barco ilumina o oceano,

como um cavalo na intensidade da planície deserta

levanta os seus olhos até às hastes do plátano mais incandescente.

Constrói em nós a arquitectura das cidades do sul, o labirinto,

 

o oculto, a fome, a sede, a rapidez do nome, o seu despojamento

eterno, a água dos litorais, o Outono, a passagem das aves.

Povoa-nos, alegria imensa da alegria sem adorno, apenas

alegria sem deuses, nem a passagem, o sacrifício, as leis, os rios

 

do exílio, o êxodo, a sombra das cabanas, o sangue, a terra, o rosto

frio, os astros  perdidos, os lábios secos, o coração do deserto.

Povoa-nos como a uma pátria de exilados, como a um corpo sem vestes

 

nem fragmentos, colheitas, transpiração, ardor, uníssono.

Habita em nós, alegria da vastidão, começa em nós onde o tempo

sobrevive. Povoa-nos, alegria, envolve-nos sofregamente, veloz.

 

POEMA DE FRANCISCO JOSÉ VIEGAS - (AS IMAGENS, 1987)

 

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publicado às 20:14


#2367 - I was made to love Magic

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.05.17

 

 

RUI PIRES CABRAL

I Was Made To Love Magic

A manhã com as suas proibições
na tua fala. A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos
não coincidiam com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido
uma mudança, onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.

Rui Pires Cabral, in 'Música Antológica & Onze Cidades' ,1997

 

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publicado às 19:09


#2365 - O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANNA ALCOFORADO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.05.17

 ADÍLIA LOPES - PSEUDÓNIMO DE MARIA JOSÉ DA SILVA VIANA FIDALGO DE OLIVEIRA

O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANNA ALCOFORADO

 

Minha senhora deve ter

uma coisa muito urgente e capital

a dizer-me

porque me tem escrito muito

e muitas vezes

porém lamento dizer-lho

mas não percebo

a sua letra

já mostrei as suas cartas

a todas as minhas amigas

e à minha mãe

e elas também não percebem bem

não me poderia dizer

o que tem a dizer-me

em maiúsculas?

ou pedir a alguém

com uma letra mais regular

que a sua

que me escreva

por si?

como vê tenho a maior boa vontade

em lhe ser útil

mas a sua letra minha senhora

não a ajuda

 

Poema de Adília Lopes (O Marquês de Chamilly (Kabale Und Liebe), 1987)

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publicado às 13:29


#2364 - UM CÉU DE FUNCIONÁRIOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.05.17

UM CÉU DE FUNCIONÁRIOS

 

Apetecia-lhe escarrar a alma contra o pára-brisas, para que esse escarro ficasse a boiar na solidão, a fazer corpo com ela, e aí se diluíssem os traços fisionómicos de todos os transeuntes. «Uma aberta», implorou mentalmente, «uma aberta», como se as nuvens lhe entrassem na garganta e a névoa o sufocasse. Ao aguardar vez para entrar num dos grandes eixos da cidade o aroma pisado a ervas trouxe-lhe dum tímido canteiro o primeiro sinal da primavera. Aspirou-o como se o esgotasse, como se tudo o que naquelas ervas houvesse de fragrância dentro de si pudesse fazer corpo com os olhos, os ouvidos e o palato. «Consubstanciação», pensou, «transubstanciação». Subitamente sucederam-se parkings, estações de  serviço, anúncios de escritórios, versiekerung, na própria treva que os portais bolçavam havia algo de estagnado, amarelado, a luz seguia algures o seu percurso, sentia a vida nos escapes dos camiões como se ao meterem as mudanças os condutores metessem outra realidade, era pelo menos essa a sensação que dava quando ouvidos na distância. Num carro ao lado beijavam-se dois heterossexuais aproveitando mais uma paragem forçada, semáforo ou novo engarrafamento.O que do almoço lhe restava na lembrança era mais real do que o que dele trazia no estômago, rua após rua, esquinas, travessas sucedendo-se às avenidas, gruas subitamente hieráticas, totémicas, um escarro, a luz tornando a solidão tangível, luz onde as janelas se rasgam como coisas vivas, como se por trás delas houvesse água, poços onde a treva fermentasse, de uma janela aberta chegaram-lhe aos ouvidos duas ou três notas de um piano, duas ou três notas musicais onde uma vida inteira se poderia cifrar, bastaria que para tanto se encontrasse uma forma, um estilo (diria o poeta), algo que nos seus moldes contivesse o esparramar da vida. Ia chegando atrasado, disso não havia a menor dúvida.

 

Como se algures, num plano que ele apenas intuía, a luz rodopiasse velozmente, sorvida por um invisível ralo que ele trouxesse dentro do seu espírito.

 

Um céu de funcionários.

 

Poema de Luís Miguel Nava retirado do livro «Poesia Completa - 1979/1994» com prefácio de Fernando Pinto do Amaral e organização e posfácio de Gastão Cruz, editado pelas Publicações Dom Quixote em Março de 2002

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publicado às 20:27


#2362 - ATRÁS DA PÁGINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.17

LUÍS MIGUEL NAVA

(BIOGRAFIA) 

 

ATRÁS DA PÁGINA

 

As mãos no poema, pelas páginas

acima escoam-se os espelhos, a trovoada

vermelha emerge das imagens. A trovoada

redonda. Uma revoada

de espelhos é a alba, há poços nos espelhos

onde a nudez

se precipita, a luz mordendo a água.

 

Do poema vêem-se as trovoadas

imóveis

atrás da página, as imagens,

da alba, as dum rapaz arriando a noite, os astros

a afluirem-lhe aos cabelos. Vêem-se

à tona da trovoada os lenços

caindo  na manhã, com as veias do rapaz

as desta a confundirem-se, depois

os poços da nudez abertos pelos astros.

 

Esse rapaz as suas próprias veias

o amarram à manhã.

Não me olhar ele ateia-me. Pequenos

incêndios, os da abóbada

do poema, arrancam-lhe a nudez.

Está alguém ao poema como a um espelho.

 

POEMA DE LUÍS MIGUEL NAVA, DO LIVRO "POESIA COMPLETA - 1979/1994", EDIÇÃO PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE, MARÇO DE 2002. O LIVRO TEM O PREFÁCIO DE FERNANDO PINTO DO AMARAL E A ORGANIZAÇÃO E POSFÁCIO DE  GASTÃO CRUZ

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publicado às 22:56


#2340 - À MANEIRA DE YUAN MEI

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.05.17

 

 À MANEIRA DE YUAN MEI

 

No meio do silêncio

a memória fustiga

o rosto do homem

que fechou o coração

ele sabe que a chuva e o vento

não são nada comparados

com a tempestade que se abate

sobre a sua consciência

não ousa abrir a porta

ou mesmo um postigo

que dá para um pátio interior,

por qualquer deles

poderiam entrar as montanhas

e os mares em fúria.

 

Poema incluído no livro Memórias da Casa da China e de Outras Visitas, edição de fevereiro de 2017 da Assírio & Alvim

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publicado às 17:45


#2322 - BLOCO INTACTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.04.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

BLOCO INTACTO

 

Abrindo a álea

vertical sobre o vértice do instante

sem frenesim mas denso de

todo o sangue que me enche no silêncio desta álea

caminho para ti

lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança

e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio

a permanente coroa branca efervescente branca

na tranquila anónima macia dourada suburbana álea

a seda deste instante não se rasga

é um grande bloco intacto que se desloca

para a minha eternidade

a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva

a parede de água que contenho a porta doce e clandestina

a porta que desliza

e é então que

no espaço da vertigem

em ti me uno à sede e das raízes subo

e pelas raízes sou

 

Poema de António Ramos Rosa do livro "Antologia Poética", com selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes, edição Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2001

 

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publicado às 18:10


#2313 - MEMÓRIAS DA CASA DA CHINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.04.17

 

MEMÓRIAS DA CASA DA CHINA

 

Wei Mu e Wang Wei

apropriaram-se de nuvens

brancas e de coração pleno

foram juntar-se aos sete Sábios

do bosque sagrado de bambus

ao cruzarem-se com Ruan Ji

receberam como prova

da sua bondade

o negrume austero

dos olhos do poeta,

e assim, de coração lavado,

foram como eremitas purificar

os campos de levante

e abençoar os frutos

temporãos da primavera;

 

com um coração assim

até se pode viver

no meio dos homens.

 

POEMA DE MANUEL AFONSO COSTA INCLUÍDO NO LIVRO "MEMÓRIAS DA CASA DA CHINA E DE OUTRAS VISITAS" - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM DE FEVEREIRO DE 2017

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publicado às 13:20


#2312 - TAU - Um poema de Ruy Cinatti

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.04.17

 RUY CINATTI (1915-1986)

 

TAU

 

O  tempo passa tão devagarinho

quando Tu passas, meu Deus,

e quando a velocidade é repentina

eu fico alucinado, perdido de todo,

ruído de barracas de feira, de comícios de partido,

de qualqer coisa, enfim, o hino nacional,

um cântico religioso, um blue,

Harry Belafonte, Ella Fitzgerald, outros e outras,

bêbedos, drogados, sim ou não, inoculados, imunizados quando te honram nos seus spirituals,

tanto se me importa...

Eu quero é ouvir invocar o Teu nome, ó Senhor meu, em nome colectivo e também só meu

e adormeço sossegado, humilde e consciente

de que Te amo muito mais do que a mim

aos Outros que desconheço e de quem gosto muito, ó indivíduo Emmanuel.

O Poder e a Glória, esses Teus atributos,

e eu, Ruy Cinatti, agradecido cão,

que olha líquido prò olhar do Dono, ò Coisa inefável!...

um trilo pastoril de flauta na Serra da Estrela, Marão ou no Soajo - transumância, eu quero mudar de vida!-

ou em Timor-Ocússi... Atóni, Atóni... chamam por ti, homem, tantos homens te procuram

ó desgraçado Mau Bére... ó Timor meu Amigo.

Ó Pastor, procura-a, não deixes que se perca a Tua ranhosa ovelhinha...

A palavra cala-se, a boca fede, o silêncio é de oiro

O silêncio é de oiro, a palavra cala-se, a boca sorri

 

e depois, ó maravilha de delicadeza, Tu salvas a nossa Vida!

 

Poema de Ruy Cinatti in "Obra Poética" - Volume I, edição Assírio & Alvim de Outubro de 2016

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publicado às 20:23


#2298 - OLHANDO O MURO

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.04.17

 LUÍS MIGUEL NAVA (1957-1995)

 

OLHANDO O MURO

 

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então

na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam,

nos fragmentos vários do horizonte de que a luz fazia

um jogo insuportável. Tão pouco em como a sublevação

das paisagens é matéria da linguagem, tão pouco nisso

ele atentava ao colocar o olhar no muro, outro suporte

procurando, a ele idêntico, no leite à superfície do qual

pequeninos nós de fezes eclodiam, nós que com uma

vara ele agitava e perturbava com fascínio. Metade do

seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da

fabulação de que apenas os animais o libertavam contra a 

face lhe quebrando imagens fortes - as fezes imiscuindo-se

no muro, a luz uma indecção que alastra pelo leite, a vara

de agitá-lo desviada desse ofício. Estranhos actos cometia

ele então, deles o mais minucioso sendo  a introdução de

mínimos calhaus nos intestinos.

 

Poema de Luís Miguel Nava 

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publicado às 19:03


#2282 - Não há outro caminho

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

 Rui Pires Cabral

 

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

para o Vítor

 

Os poemas podem ser desolados

como uma carta devolvida,

por abrir. E podem ser o contrário

disso. A sua verdadeira consequência 

raramente nos é revelada. Quando,

a meio de uma tarde indistinta, ou então 

à noite, depois dos trabalhos do dia,

a poesia acomete o pensamento, nós

ficamos de repente mais separados

das coisas, mais sozinhos com as nossas

obsessões. E não sabemos quem poderá 

acolher-nos nessa estranha, intranquila

condição. Haverá quem nos diga, no fim

de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?

Não sabemos. Mas escrevemos, ainda

assim. Regressamos a essa solidão

com que esperamos merecer, imagine-se,

a companhia de outra solidão. Escrevemos,

regressamos. Não há outro caminho. 

 

Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim 

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publicado às 16:53


#2281 - Os Cegos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

 Alexandre O'Neill

 

OS CEGOS

 

                                                                                                      Ah, Madame! que la morale des aveugles

                                                                                                                  est différente de la nôtre!

 

                                                                                                                              DIDEROT - Lettre sur les aveugles  

 

 

Durante os meses de inverno, podemos ver os cegos, sobre os telhados, acariciando os dedos - à procura duma mãe que não seja virgem.

 

O prazer torna-os redondos como ovos e o vapor de água vem flutuar sobre os seus bigodes sempre em sangue.

 

Às vezes soluçam e deixam escapar da boca pequenas coisas - o  que não basta para interromper o jogo.

 

Quando chega a primavera, os cegos caem dos telhados e começam a andar  pelas ruas à procura da moeda de perfil de luz.

 

Prosa escrita por Alexandre O'Neill in POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS - ASSÍRIO & ALVIM 2017

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publicado às 16:24


#2279 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

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 POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS de Alexandre O'Neill - Edição e posfácio de Maria Antónia Oliveira.

Livro publicado em Março de 2017 por Assírio & Alvim

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publicado às 15:26


#2275 - UM POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

 

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 

 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal 

 

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publicado às 18:32


#2274 - TABACARIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

(Fernando Pessoa)

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

 

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

 

 

 

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publicado às 18:13


#2243 - DO LIVRO DO DESASSOSSEGO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.17

...O velho sem interesse das polainas sujas, que cruzava
freqüentemente comigo às nove e meia da manhã? O caute-
leiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e
corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da
tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os
tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também
eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da
Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que
sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã
eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que
outros vagamente evocarão com um "o que será dele?". E
tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não
será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de
ruas de uma cidade qualquer (...)

 

Fernando Pessoa - Excerto do Livro do Desassossego (Edição Brasileira)

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publicado às 20:07


#2169 - Correntes d' Escritas - Póvoa de Varzim

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.02.17

 

 

 ARMANDO SILVA CARVALHO

 

Armando Silva Carvalho, com o livro "A Sombra do Mar", foi o vencedor do prémio literário "Corrente d' Escritas" que decorre na Póvoa do Varzim até ao dia 25 de Fevereiro.

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publicado às 18:24


#2142 - FICÇÃO [1985]

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.01.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

O desejo do início e do silêncio

para que o instante seja a fábula do instante

O silêncio para dizer as palavras anteriores

É o centro talvez a suspensão a perda

o fundo: a ausência de cor

fundo incessante que procuro defender

do assédio do sentido contra

as presenças acidentais e a agitação da superfície

Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:

como transpor a parede circular

das coisas?

                          Lá fora a forma opaca

e provisória do ar as mesmas marcas

coloridas a distraída escrita

do acontecimento As pessoas passam

inscritas na janela com as casas e as árvores

e a árvore negra na curva, o céu oblíquo

Um olhar geral penetra-me e na ausência

de uma perspectiva já não sou

uma visão do mundo mas a subterrânea

corrente das intensidades do desejo

Aqui reina a imagem de um olho global

e é aqui que invento a metáfora da Figura.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA RETIRADO DO LIVRO "ANTOLOGIA POÉTICA" EDITADO EM 2001 POR PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE E CUJO PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO É DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

 

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publicado às 16:40


#2139 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.17

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publicado às 16:35


#2108 - Balada dos amigos separados

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.16

BALADA DOS AMIGOS SEPARADOS

 

Onde estais vós Alberto Henrique

João Maria Pedro Ana?

Onde anda agora a vossa voz?

Que ruas escutam vossos passos?

Ao norte? ao sul? aonde? aonde?

José António Branca Rui

E tu Joana de olhos claros

E tu Francisco E tu Carlota

E tu Joaquim?

Que estradas colhem vosso olhar?

Onde anda agora a vossa vida repartida?

A oeste? A leste? Aonde? aonde?

Olho prà frente prà cidade

e pràs outras cidades por tràs dela

onde se agitam outras gentes

que nunca ouviram vosso nome

e vejo em tudo a vossa cara

e oiço em tudo o som amigo

a voz de um a voz de outro

e aquele fio de sol que se agitava

sempre

em todos nós

Dançam as casas nesta noite

ébrias de sombra nesta noite

que se prolonga em plena angústia

aos solavancos do destino

e não consegue estrangular-nos

Sigo e pergunto ao vento à rua

e a esta ânsia inviolável

que embebe o ar de calafrios

Onde estais vós? onde estais vós?

E por detrás de cada esquina

e por detrás de cada vulto

o vento traz-me a vossa voz

a rua traz-me a vossa voz

a voz de um a voz de outro

toada amiga que me banha

tão confiante tão serena

Aqui aqui em toda a parte

Aqui aqui E tu? aonde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO RETIRADO DO LIVRO "POESIA COMPLETA" EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA 2016

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publicado às 19:17


#2107 - Um poema de Mário Dionísio

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.16

MÁRIO DIONÍSIO

 

eis-te de novo minha pátria inquietante

de esquinas fugidias nua aos perigos

de novo o fosso aberto o passo instável

as porteiras olhando os vizinhos olhando

e o riso frio das ilusões denunciadas

nas clareiras do espanto abertas pelo escuro

 

de novo tu minha pátria invisível

dos pontos cardeais em chama lenta

de novo tu minha pátria forçosa

do silêncio gritante e desolado

 

de novo as portas se nos fecham e os olhos

passam de largo e fingem não nos ver

de novo sós nas ruas alvejadas e de novo

os tijolos primeiros nos degraus hesitantes

cada um em seu posto a estrada vive entre folhas que voam

cada um em seu posto ergue-se a vida ao alto

 

vem coração aqui está a tua pátria

vem coração operário de outras horas

vem ledo e forte pelos bairros tristes

nas macieiras rompem as maçãs

desponta loiro o trigo no chão negro

é entre mortos que o futuro floresce

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA, 2016

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publicado às 18:49


#2101 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.09.16

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 MÁRIO DIONÍSIO

 

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publicado às 12:45


#2075 - Poema de António Franco Alexandre

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.07.16

 ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

 

 

o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,

espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,

o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;

ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,

surpreende o vigor, a plenitude

das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,

separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,

e o circuito das chamas recomeça.

 

é um país subtil, o olho franco das mulheres,

há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,

os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,

morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,

viajar de navio de buenos aires a montevideu.

esta é a viagem que não faremos nunca, soltos

na minuciosa tarde dos lábios,

ágil pobreza.

 

permanentemente floresce o horizonte em colinas,

os animais olham por dentro, cheios de vazio,

como um ladrão de pouca perícia a luz

desfaz devagarmente os corpos.

ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,

para que seja

alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,

no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

 

POEMA DE ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

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publicado às 15:46


#2063 - MAOMÉ E A MONTANHA

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.16

 ROSA  ALICE BRANCO

 

MAOMÉ E A MONTANHA

 

Guardo o mais absoluto segredo
das pedras que rolam no fundo dos leitos
embora nada saiba,
nada ouse saber.
Vou pelo olhar até ao rio,
o rio vem a mim
e ambos caminhamos deslumbrados
para fora de nós.

O cantar da água
corre nos meus olhos exactamente como corre
a manhã
até que o sol a prumo
faz de mim o desenho do rio
que vejo,
o mapa das veias
onde o corpo nasce de novo.

À vinda procuro a minha sombra.
O coração que me há-de trazer de volta
demora-se no rio
como se nele corresse
uma sede de olhar.

Os pés colam-se à margem.
Do outro lado as casas vão mudando
de expressão
mais lentamente do que a água corre.
O sol abraça-me pelas costas
e deixa-se escorregar como crianças
que riem,
que não distinguem a voz seca do tempo.

É noite à lareira da casa.
Os objectos acendem-se:
também eles mudam de rosto
como tudo o que é iluminado por amor.
Aproximo-me de longe,
venho do rio,
o rio vem de mim.

Rosa Alice Branco, in 'O Único Traço do Pincel' , 1997

 

 

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publicado às 18:21


#2054 - ENGANOS E DESENCONTROS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.16

 RUY BELO

 

ENGANOS E DESENCONTROS

 

Canto o homem solar que pisa a neve

A palavra confirma-se em silêncio

as metáforas sobem as metáforas descem

O homem é desejo e não trabalho

é essa mesmo uma das suas definições

Todos os paraísos se baseiam no presente

mas ao matar a morte  matam o prazer

O agora do corpo une-nos à morte

O que é que eu fiz da minha juventude?

pergunta tristão uma vez findo o sortilégio

que o unia a isolda a loura e do rosto claro

Canto esse antigamente esse tempo impossível hoje para nós

quando rivalen o súbdito de marc

com o furor dos amadores da cornualha

se apaixonou por brancaflor irmã de marc

e assim deu início a um conto de amor e da morte

Isolda amou tristão com louco amor

e ouvia o seu cantar como só canta

o rouxinol quando o verão acaba

Ambos refugiados na floresta de morois

vêem chegar a estação quente uma terceira vez

tão belos e imóveis como estátuas mas

marc o ingénuo tio de tristão

em vez da realidade via as aparências e

quanta tortura amor terá causado

A única época feliz do homem terá sido o neolítico

quando o momento triunfava do futuro

Aquele que depois se dedicou a edificar a casa de amanhã

foi vítima do quadro do presente

O paraíso é de anjos e animais

articulemos nós só a palavra vida

Com a frágil felicidade sempre ameaçada

tristão despede-se da sua loura amiga

e extrai o seu prazer do esquecimento

Pesa-lhe na cabeça um pensamento

aves do bosque sede ao seu serviço

E tristão busca isolda com

a cruz no crânio dos loucos de outrora

Quando o sol se levanta traz a claridade

deixai-os ir ao fundo da loucura no

país afortunado dos viventes

Mas nunca mais na vida a voltaria a ver

Cólera de mulher é coisa de temer

e a mulher de tristão fá-lo morrer

antes que chegue o navio de isolda

Sem alteridade não há unidade

A poesia pode muito para mim

pois vem iluminar os meus fantasmas

Quando uma sociedade se corrompe

corrompe-se primeiro a linguagem

 

A tarde escreve uma curva suave

Vou muito simplesmente com o vento

sem sequer conhecer que fujo de mim mesmo

O trigo na campina amadurece

passeio no jardim a cena passa-se no espírito

digo-te adeus e digo adeus à minha juventude

Falo desses teus olhos matutinos

coroo-te de flores ó donzela

tão branca como a cera alta como a gazela

Tens no olhar o prestígio da guerra

voz velada de sol talvez luar

Quero um país que tenha a minha idade

Sinto ter ante mim tempos sem fim

Chego ao termo de quanto pode amar um homem

Já não há uma pátria para mim

falas e logo o tempo se detém

na fragrante fragrância do teu rosto

que luz constantemente em abundância

O murmúrio da minha indignação

por graça da beleza e juventude ignora

o impuro comércio cortesão

Morrer é uma coisa que se vê

O teu amor cresce como uma árvore

há vozes de desgosto na separação dos corpos

Eu canto aves animais herbívoros ou carnívoros

e centra-se na tarde e cerca-me completamente

este crepúsculo esta hora de poetas

A noite entra depois pelas nossas janelas

e traz consigo pitagóricos gente que vive só pelos desertos

Eu porém vivo vou de cidade em cidade

Escrever-te é a maneira de te ter presente

deste satisfação a um amigo e companheiro

pagaste a dívida de amizade e de fraternidade

Por confia em ti nada perdi

é a ti que te quero e não abraços teus

addeus mulher amada mundo meu

Eu digo eu canto e logo o mundo faz-se

ó ave vida momentânea sobre as águas

Chorar eis tudo o que por fim me é possível

antes a sepultura para mim que para ti

eu prefiro seguir-te a enterrar-te

se morres despedimo-nos da vida 

pensar-te morta é morte para mim

que a dor que for me chegue sem aviso

tudo menos o meio de ficar no receio

Mas se te perco tu que és a minha esperança

qual é então a esperança que me resta?

Mais amarga a mulher que a própria morte

mais amarga que a morte é a separação

e aí tu em paris e eu em argenteuil

Louvados os caminhos da mulher

e aquele que por eles caminhar

Em mim canta por vezes abelardo

e é a mim que heloísa tenta

por vezes agradar e não a deus

Os actos de um amor que for em mim contentamento

não podem apoiar agora a penitência

Os sítios e as horas nossas testemunhas

encontram-se na minha consciência

Deus sonda os rins e o que neles se esconde

artistas da mentira e da bajulação e canto a

desolada mulher do fim do mundo mulher que

não teme o tema da prosperidade

não a venha a vaidade a visitar

A morena é do sol que nela incide mas

tu virgem loura és o lírio da montanha

Introduziu-te o rei na sua câmara

e tocou-te de estrelas de mistério

Alterno a alegria com a dor

na pureza da prece perturbada

participo da angústia e do prazer

em tanto desespero quanto aspiro

Ando em prosperidade e aflição

sou um homem de júbilo e de pena

e rio tanto mais quanto mais choro

Arrebata-me o róbur do rubor

Galateia desdenha mas espera

enjeita mas seduz ao mesmo tempo

Eu faço uso da carne e roupa branca

à minha mágoa impus um fundo freio

como de tudo o que se vende no mercado

pois é de deus a terra e quanto encerra

Quando eu despertar hei-de aflorar o vinho

não darei importância a quanto não

me preparar para a definitiva posição

Há muito desertei da minha fé

são meus amigos pecadores e publicanos

recuso aquele que sonda corações e rins

não me suja comer com as mãos por lavar

Eu suportei o dia e o calor

deixai-me ao acabar rezar completas

Pequenino e submisso como um riso

eu canto o insensível pássaro do nada os

lençóis de linho sob o cáustico cloreto as

estampas antigas onde os anjos sobem

escadas de salvação com homens pela mão

de olhos cheios de sombra e de penumbra em

casinhas térreas esmagadas pelas chuvas na

consequente conclusão do verão

Eu canto a solidão do céu só entre céu e terra

palavras pitorescas proferidas  num

discurso dominado pela erudição

combinações confusas e entrecruzadas a

vermelhidão do púcaro da peste

Eu canto as rosas de trepar abertas em fevereiro a

tesoura que podava pela tarde

as casas corpos definidos sobre a terra as

luzes da ceia abertas nos casebres as

covas que o vento cava na água do mar

esse mar bravo de muitos dias de fevereiro

Já os olhos das árvores abotoam

Viajo pelo tempo até ao porto da velhice

onde poisar a pluma da penumbra

 

Eu canto as violetas vistas nos teus olhos

canto a cega conspiração das tuas mãos canto o

paquete que aparelha para o mar a

missa rezada em capela escusa

naquela noite confidente e cúmplice

dos olhos das mulheres ardendo como tochas

Neste verão fechado em nevoeiros

de dias devassados pelo som da ronca

eu canto a tarde posta sobre a tua testa

a ressalga do mar na minha casa

nas minhas duas mãos nas minhas lágrimas

Eu canto o teu vulto evidente nesta praia

e lá na ponta o forte dando já o corpo ao anoitecer

e sinto aqui o mar mesmo na cama

valsar a toda a volta desta tonta vida

Eu canto o pássaro que poisa já no ramo ou

uma reviravolta de quadrante

que arrasta folhas mortas no outono

e retiro a cabeça das vidraças desta vida da

terra deixada da mulher amada no

furor ambulatório dos meus passos

Durmo cego no mais secreto mar

A vida é como um manto ó agustina

e o adultério não é fácil à mulher

como o não era no século sétimo anterior a cristo

quando alguém começava a esperar pela morte

ou no século doze quando a fonte de vaucluse

corria e o verão chegava sem eu esperar

e a voz da tempestade vinha na idade

Eu canto as tardes frescas qundo nas

repartições nos não congregam os cuidados

e as longas alamedas se cumulam de flores vermelhas

e as donzelas se embrenham em silêncios tão pesados como bofetadas

Canto as rameiras que usam nos cabelos uns pentes de pedras

e se lhes vêem as saias de baixo amarelas e lilases

e há mulheres nobres de rostos com tons de um verde-maçã e violeta

sob os ramos mais baixos de sinceiros

e outras árvores de folhas amarelas e reversos brilhantes como prata

e a voz de uma ave oculta em laranjeiras

pode subitamente provocar o pranto

Canto uma flor desconhecida que abre

seu ventre mate na íntima penumbra de florestas

quando em quase toda a natureza humana

a vibração de besta substitui a alegria

e as mulheres multiplicam os cabelos

de uma cor fulva e serpenteantes

eu canto o despertar da ira como um gesto inicial

quando não descoberto o mundo apetece e

nos poemas não cabem as ffelpudas folhas das nespereiras e

se sabe esperar meses pelo resultado de uma frase dita num salão

Eu canto a crueldade generosa e o febril fogo castigador

vivos no homem que não pervertia ainda

essa paixão vencida que há por baixo da mentira

canto o cansaço de quem cai na relva e sob a gigantesca tília

jaz quando as rameiras não eram ainda

as aves proibidas que só saem ao anoitecer

e a pequena pedra sua a sua água perlada

e há no manso mar nuvens que anunciam o calor

canto aquele português que não domina ainda

a face decomposta e deformada

mas onde se reflecte a luz do sol e onde cai a chuva

e que sabe saborear amoras bravas

e os caldos de sêmola aprecia

num retiro furtivo de evasão das mundanas congregações

canto o tempo em que havia colóquios mortais

debaixo das ameixieiras rutilantes

e o pecado não era tíbio e consentido

por mulheres que viviam na intimidade da sensualidade

e amavam quer o cheiro quente de um campo lavrado

quer a emanação olorosa da fruta

que amadurecia nas salas das casas

canto a miséria franca inda sem luvas

eu canto tudo isso ou não canto realmente nada disso

Canto o tempo dos gastos com as permanentes

deslocações da corte de uma terra para outra

e os cortesãos há séculos vergados sobre o chão

rodeados talvez de espargos bravos quando

os dias se passavam em amores

e nos mais variados exercícios de armas

e uma casta esmoler aliviava os precisados

sem em troca exigir-lhes as virtudes dos vencidos

Canto o tempo de sol e as pragas de gafanhotos vindas com a chuva

quando a sensualidade corroía já esse homem altivo

por se saber prestes  a morrer

quando ninguém gostava da ambiguidade fugidia e fácil

e as mulheres se mostravam já capazes

da verdadeira compreensão da sensualidade

amiúde divinizadas perlos homens para as isolarem

Canto os contemporâneos dos homens ilustres

que mais tarde falhavam outra vez

quando a felicidade era um sofrimento já passado

junto de tílias perto de alguns pássaros

que caíam cerrados como pedras

canto os poços tão fundos que segundo os velhos

se ouvia o cantar dos galos nesse dia que havia para lá do fundo

quando havia inúmeros objectos cujo uso se esqueceu

e um silêncio pouco após ameaçado levemente

pelo cantar dos galos pelas flautas dos pastores

e a penumbra  não era precursora da sombra

Eu encho o peito de ar e canto tudo isso

Que alguém ampare o que for que em nós espere

que alguma coisa dure antes de ir-

-se embora ó morna urna eterna e nocturna

ávida e lêveda dúvida lívida mas tórrida

parássemos e víssemos e velhíssimos nos embrulhássemos num

sensual servil lençol sob o dossel azul e mole

A área da matéria é vária e etérea

o átrio é pétreo e vítreo

mas a larva ou a erva que sirva para que a água ferva

que a vida a não absorva nem a ponha turva

que o debate debite azeite por quem opte e lute

Contemplo por exemplo o amplo tempo

onde o tema do drama recai numa trama

e o meu acto é um tecto para um grito

que gosto de ver roto quando luto num

segundo que descendo dura menos que subindo

muito menos que amando nada se me afundo ao

relento cego sossegado branco

Não mais hei-de voltar ao estaleiro onde me despedi de solteiro

na noite solitária de mãos dadas com o vento

Foi da maré vazante a vitória precária e aparente

da terra e sua gente sobre a pátria permanente

de peixes e corais conchas e tudo o mais

Eu canto as mulheres cabelos de sargaço e áticos narizes de aço

ou rostos de marfim que me perdem a mim

e entre elas tu comprida cabeleira

tanto tempo perdido coisas sem sentido

palavras para o teu ouvido flores do teu vestido

mulher que choro agora e ausente embora é comigo que mora

causa desta tristeza que me altera a natureza

enfim coisas insignificantes que hoje valem mais que antes

E aquele pinheiro positivo e uno

oposto aos fáceis fogos vesperais

pinheiro antes de mim e digno de respeito

mais profundo que um homem e que sabe mais

alheio às manhas que por si a própria vida tem

e muito mais as tem naturalmente quem

com paixão vive a vida e a vive sem medida

e a consente em imolar ao mar

que há muito ouve insistente chamar

e é complexo como a máxima mulher

Ó mar azul meu actual paul

ó catedral de angústia ó pequena réstia

dessa feliz felicidade que sei que não há-de

haver sem eu correr o risco de a perder

ó essa voz que cresce com o dia que desce

sobre esse pinheiro manso onde ainda me condenso

e não nesta miséria que é eu ser pessoa séria

Canto a vela cheia de vento que me arranca num momento

e me faz imolar ao mar que como um deus exige a vida de homens

que lhe ouviram a voz sentiram vocação e

cedo se iniciaram nos mistérios de um supremo ser

que na água que é rapidamente a mim me lava

E canto a neve que se atreve ao que me deve

névoa vinda do sul por sobre o mar azul

luz do lápis-lazúli que se azula

e açula a rasa solidão do mar

melancólica morte dessa praia ao norte

a praia onde desmaia toda aluz que saia

do dia luminar que lá ao longe vai levar

a alegria feroz da luz veloz

deixando sobre o mundo o grito do meu luto

ebulição da vida a custo reprimida

viola violenta que a luz é que sustenta

E sonho como fausto em renovar a vida

gesta já gasta que arrasta a flor da giesta e

sustento-me de ti mesa da vida posta

luz que me aquece quando tudo me arrefece

mulher que passas pela estrada branca

da vida amena ao som da leve avena

olhos redondos olhos como abrunhos

e que vergas à luz como uma verdadeira amendoeira

e morro muito a custo após o mês de agosto

dor dolorosa minha e do meu sonho

num pensamento ermo de um enfermo

que ora aspiro a frescura perfumada de um limão

termo e habitação da terra por deus dada

ora é meu destino a dor lida no olhar do pescador

e mesmo quando durmo em dor me afirmo

 

O meu desporto é a versificação

e troco o próprio verão por três quatro palavras

dessas a que é alheio o coração

Um verdadeiro pescador é dias que nas redes traz

uma vida não chega pra fazer um pescador

na consciência oculta e ignorada do seu tempo

Mas tantas coisas houve que passaram para mim

essa dor onde havia íntimas mulheres

largos ao sol quadros antigos tons de luz

recantos odorosos como a adolescência

essa prega dos lábios onde nasce o riso

o limiar da dor ou os acessos ao amor

tudo isso situado nas imediações dos  olhos

Canto o homem que tinha ainda alguma voz no rio

que corria veloz pra preservar a limpidez e

no rosto um resto de malícia e de melancolia

e a voz na noite tanto esmorecia

que por cima do vento mal se ouvia

e os medronhos caíam as folhas buliam

na perfídia do perigo ou na nudez da perversão

Mas nada disso havia ainda nesse  tempo

além do célere corcel do tempo que corria

do dispensável excesso de experiência

convite à convicção da consciência

terrível e terrestre turbulência

Eu canto a mínima ruína de queimar os dedos o

passo tão calculado como o de uma prostituta

infiltração nas íntimas instituições

pródigos monumentos a nós próprios e

o terrível turíbulo da torpe turbulência

abundância de mãos em máximas imersas

acção dispendiosa para a paz do mundo

Quem se busca a si próprio bruscamente afasta

o manto gotejante das águas tirrenas

do peregrino pertinaz de ítaca ou da

criança apenas convencida da recente vida

sem bem conhecer afinal como conseguida

A útil única e vibrátil vida que

no ríspido rigor real ainda vibra

no quente coração dos corajosos homens

ao ritmo de uma néscia narrativa

provém dos livros desse adolescente aberto

às grandes massas do instinto e risco

dificilmente tributáveis pelo fisco

Se aos deuses nada há a acrescentar

pouco lhes há também a retirar

e muitas vezes mesmo a invejar

Conhecesse eu as ruas tão bem como a vida

recebesse no rosto o bafo azul do nevoeiro

e as amplas janelas que de par em par

deixam entrar em casa imenso o mar

jamais haviam de deixar passar

a nesga negra da profunda negação

esse orgulho do sexo que odeia o segredo

as vozes do serão no morno ar às vezes

Canto a destra desenvoltura que amestra a desventura

e o castigo que traz a paz da culpa

e os grandes gritos só devidos aos aflitos

manto de insulsa água que rodeia as árvores

e o ríspido risco assumido vivo e a

rajada de luar humilde na calçada

Envelheci talvez. Tenho coisas atrás

essa cara convulsa agora causa de rerpulsa

os sórdidos recantos desse rosto

que um intenso gosto antes tivera em contemplar

o desnível possível à cascável acessível

alguém menor que a pedra inferior à onda

mais planta do que absurdo e árvore jamais

onde desprevenida se jogava a nossa vida

sem ser-nos devolvida alguma imagem

onde minimamente esparso ardesse o remorso

Sempre fora o meu mal evitar fazer mal

Esse espectro do nosso desespero o confidente

amara apenas essa rapariga

para a emancipar do infortúnio

Aqui sobre estas águas eu suspenso deixo

a vida até qualquer outro verão

onde outra vez procure em vão o que ora procurei

Eu canto a margem terra empedernida

que exagera e se mostra enfim tão indecisa

quanto antes entre terra e água e o

vento devorador dessas nocturnas raparigas

Das amadas mulheres só me ficam

as que no casamento buscam a legalização

do ouro que a especulação assegurou aos seus antepassados

hoje tão cintilantes quão discretas antes

Viram-se homens de muitos gestos mas de poucas mãos

e viu-se o ar mandado pelo mar

atravessar as ávidas janelas

e entrar de mansinho nas primeiras casas

representantes da cidade e dos seus habitantes

de sorriso escolástico nos lábios

As ondas de tão sôfregas mordiam

pretensas pedras mas afinal terra

e contra o cais as palmas como que batiam

na tragédia que toda a festa encerra

A cidade era parda àquela hora

naquele tempo em que nascem brancas maias

e a mais bela é a cor rubro-saturno

Névoa ou mágoa de sal tudo era azul

Toda a noite eu dançava entre as fogueiras

precisava de ouvir vozes humanas

para me dissipar a solidão

e queria viver e não morrer

e via corações nos cântaros de barro

e ria e ria mais ao vê-los rebentar

a golpes de espadim entre sério e a brincar

Onde estavam agora os amigos de outrora

que comigo corriam pelas praias

e a inocente fronte só de beijos me a cobriam

 no correr dos dias?

Só me quedava ver escorrer das bocas negras dos mendigos

aquela água que corre das carrancas

quando a tormenta cerra o céu dos templos

As aves são um sol branco e maior

sobre o trigo que cresce e que decresce

como o homem que nasce e nascendo envelhece

e eu passo e vou e volto e então abro

os olhos sobre o rio do balcão do paço

e há um vasto espaço nos meus olhos

E canto a alegria de volúveis bailarinos

camareiros arautos fâmulos donzéis

e sonho que não mais acabará essa alegria

As casas as fachadas tudo se reveste de veludo

e casa por ladrões rondada é casa roubada

E a resina arde em meio da multidão

que enche as ruas onde então já danço

entre o aroma ou música que areja

os quartos já fechados desde há muito

que ergue casas já há muito demolidas

e uma voz ouvida e perdida

se vê pelo presente repetida

inicial lustral como uma madrugada

Que importa que no mundo morram os ministros?

É patriótico negar a nacionalidade

aos naturais de um país vencido

que só buscou no mar razão de ser. Eu canto a

memória fugitiva como a água

que parece estender alguma mão de paz

sobre a ácida lâmina de um sabre

Gente amarela e morna amordaçada

domina esse país aonde a ironia

dissimula a impossível alegria

numa vida que vai por mim contaminada

vida do largo da areia e do vento

À minha personalidade própria de poeta

na carne cerebral de que careço

a eternidade vem-me das papoilas

desfolha-se-me a vida como as pétalas das rosas

e pensei e li mais do que vivi

E só tu sobressais entre as demais

mulher eterna com a luz na fronte

e dominante agora em todo o horizonte

Humano mesmo se demasiado humano

povoam-me cidades sossegadas

de sonhos que semeiam as semanas

onde o só silêncio é soberano

Dobra-se a brisa à mão do meio-dia

a fantasia é fértil em verdade

e do presente obscuro português

algum futuro há-de enfim nascer

Do salmo lúgubre da luz final do dia

que já há quatro séculos se entoa

hão-de rasgar a noite portuguesa

as raparigas da cidade de lisboa

E eu hei-de voar ao vento do momento

Dizias qualquer coisa? Esta manhã? Perfeitamente

 

 

Madrid, 31/V/1977

 

POEMA DE RUY BELO IN «O TEMPO DAS SUAVES RAPARIGAS E OUTROS POEMAS DE AMOR»

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publicado às 14:50


#2053 - PORTUGAL

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

JORGE DE SOUSA BRAGA

 

PORTUGAL

 

Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir

como se tivesse oitocentos

Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África

só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais

e nunca mais voltasse

Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante 

D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney

e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal

Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo

Anda na consulta externa do Júlio de Matos

Deram-lhe uns electrochoques e está a recuperar

aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas

Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império

mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado

Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse

das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém

Sabes

estou loucamente apaixonado por ti

Pergunto a mim mesmo

como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu

mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal

e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade

Portugal estás a ouvir-me?

Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos

O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos

Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos

Portugal  depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga

ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional

Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou

Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?

São castanhos como os da minha mãe

Portugal gostava de te beijar muito apaixonadamente

na boca

 

(DE MANHÃ VAMOS TODOS ACORDAR COM UMA PÉROLA NO CU, 1981)

 

 

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publicado às 22:58


#2052 - GRAFIA 1

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

 FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 

GRAFIA 1

 

Água significa ave

 

se

 

a sílaba é uma pedra álgida

sobre o equilíbrio dos olhos

 

se

 

as palavras são densas de sangue

e despem objectos

 

se

 

o tamanho deste vento é um triângulo na água

o tamanho da ave é um rio demorado

 

onde

 

as mãos derrubam arestas

a palavra principia

 

(MORFISMOS, 1961)

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publicado às 22:44


#2051 - XC

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

 ARMINDO RODRIGUES

 

 

XC

 

Pouco é um homem e, no entanto, nele

cabe tudo o que existe e fica ainda

espaço bastante para poder negá-lo.

 

(BELEZA PROMETIDA, 1950)

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publicado às 22:37


#2050 - 26

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

 VITORINO NEMÉSIO

 

26

 

O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.

 

 

Poema de Vitorino Nemésio (EU, COMOVIDO A OESTE, 1940)

 

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publicado às 19:35


#2033 - Poema de António Ramos Rosa

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.05.16

ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

 

Havia na madeira uma penumbra

de criação que entrava pelas narinas

e quase triste num arvoredo madrugava

irrigando toda a construção sonora.

Num frescor de matéria se ensombrava

dos concêntricos alicerces se elevando

à folhagem da cúpula animal.

Agreste, o seu estuar é paz de sombra

demorando o assombro da frescura

em verdade de horizonte interno.

Poro a poro as crinas da madeira

rodeiam a atenção e a inclinam

para onde é mais limpo o coração.

E o olvido é a frescura da memória

que abre os largos vales solitários

em que pastam cavalos silenciosos 

entre verdes girassóis incendiados

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publicado às 17:51


#2032 - A (I)LEGIBILIDADE DO LIVRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.05.16

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

O livro está aberto e há demasiada luz.

 

Tudo o que escreves está contido nesse livro de letras

brancas como a tua morte.

 

Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco

eternamente branco e silencioso?

 

Como conter a àvida necessidade de devorá-lo como se o

livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma

linguagem legível e luminosa?

 

Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso

de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável

possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não

lemos.

 

Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura

transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos

imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada

pela luz.

 

Poema de António Ramos Rosa in "Antologia Poética", Publicações Dom Quixote, edição de Fevereiro de 2001

 

 

 

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publicado às 18:10


#2023 - Tu estás aqui

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.16

 RUY BELO

 

TU ESTÁS AQUI

 

Estás aqui comigo à sombra do sol

escrevo e oiço certos ruídos domésticos

e a luz chega-me humildemente pela janela

e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou

Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano

e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama

que uso para ser também isto este bicho

de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos

quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o

que faço ou então sou eu que julgo que o sabem

e sou amável e selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras

e sei que afinal  posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa

esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior

a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço

bem entendido o que faço com este braço

Estás aqui comigo e à volta são as paredes

e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa

e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho

e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado

passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes

esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa

essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol

Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso

diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome

este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro

nome embora no mesmo nome este nome

de terra de dor de paredes este nome domértico

Afinal fui isto nada mais do que isto

as outras coisas qu fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto

a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda

e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir umas coisas das outras coisas

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto

pena até mesmo de dizere que sou só isto como se fosse também outra coisa

uma coisa para além disto que não isto

Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo

é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos

mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos

tu és em cada gesto todos os teus gestos

e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas

perdoa pagares tão alto preço por estar aqui

perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui

prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente

deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias

e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer

sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

 

Poema de Ruy Belo in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor", edição Assírio & Alvim (1402), Julho 2010

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publicado às 19:24


#2009 - Bellini e Pablo também

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.16

BELLINI E PABLO TAMBÉM

 

Para o Alberto de Lacerda

 

Alberto    Alberto

como os números enganam

 

você completou setenta

setenta anos de vida

três vezes mais de vivências

metade no coração

 

                                não diga nada já sei

você vai-me responder

                               (citando Yeats)

que o coração envelhece

 

          mas não o seu

           o seu não

 

o seu floresce todas as manhãs

mesmo quando o tempo é mau

 

                                   e como o tempo agreste o martiriza

 

toca o telefone

                      é você

 

          : já viu como o tempo está?

          uma coisa pavorosa

                                             não se aguenta

 

mas a conversa prossegue

e o seu clima interior levanta logo

             começa

                         a resplandecer

 

você nisso é singular Alberto

 

nisso e muitas outras coisas

 

o seu spaghetti com peixe

                         por exemplo

 

quase ninguém acredita

- o  Alberto a cozinhar?

 

e que gosto você põe

em fazer condimentos de alcaparras

             você desencanta sítios para as comprar 

 

você desencanta tudo

          Victoria Square

                 (um assombro)

                                       Paris no centro de Londres

 

e a pia baptismal de William Blake

e poetas que nunca foram publicados

e as galerias de arte de Mayfair

 

                  estou em crer que elas estão lá

                  só por si

                  para lhe agradar

 

toca o telefone

 

o telefone para nós dois

tornou-se fundamental

 

trim trim

         é você de longe

Londres Boston Nova Iorque

 

                 : acabo de vir do MoMA

                 você não pode perder

                 a exposição que lá está

 

primeiro as suas recomendações

                   : vá cedo

                            não perca tempo

                            a exposição

                    é exigentíssima      imensa

                    tem que ser vista com o maior rigor

 

depois vem o conversete

palavra sua

                 hoje nossa

interrompido por mil divagações

porque como

                  você diz

                   você escreveu

                   num poema que inspirou Octavio Paz

                                        conversar é divino

 

e tem razão 

 

e às vezes você anoitece

são nuvens      sombras

                        o exílio

tantos exílios

 

ninguém pode sequer imaginar

 

e noutras ocasiões a gente liga

e o telefone toca     toca

e você sem responder

 

                    : não ouvi

                                  estava a ouvir música

 

esclarece você depois

 

e a sguir

                       : espere um momento

os seus momentos são eternidades

 

o auscultador pousado      

apanha um leve tossir

um breve passarinhar

 

e de novo a sua voz

 

                 : está com paciência?

                 posso ler-lhe um poema

                 escrito no Café Picasso esta manhâ?

 

é claro que pode     Alberto

você pode sempre       Alberto

você com essa até me faz lembrar

a preta Irene do Manuel Bandeira

 

Manuel

          poeta querido

                      amigo seu

 

tantos amigos

         tantas

                    amizades

 

e a nossa também    Alberto

que vai crescendo e permanece igual

que vence fusos horários

para dar vivas a Bellini

                      Bellini e Pablo também

 

que é local    inter-urbana

e atravessa continentes

e me nome da qual pergunto

 

                 : tem paciência para ler isto?

 

é uma cantiga de amigo

que lhe dedica

                   a vinte de Setembro

o seu

             mais do que amigo

                                                 irmão

                        Luís

 

Poema de Luís Amorim de Sousa in BELLINI E PABLO TAMBÉM, 2007. Este poema foi escrito em antecipação da data de 20 de Setembro

Londres/Fergus Falls, Minnesota 28/6-2/7 de 1998

 

 

 

 

                    

                       

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publicado às 17:00


#2008 - Coisas

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.16

 Luís Amorim de Sousa

 

COISAS

 

Há coisas que vão ficando

fotografias    louças    contas antigas

                                         não sei

 

debruçámo-nos tanto

sobre a minúcia do quotidiano

           que o dia a dia excedeu as nossas vidas

 

não sei como resiste o que perdura

 

olho o telefone de coração na boca

e aponto coisas para não me esquecer

 

Poema de Luís Amorim de Sousa in NADAR NO ESCURO, 1997 

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publicado às 16:43


#1999 - Carta de Orfeu a Eurídice

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.16

 Nuno Júdice

 

A brevidade: por vezes, a mais longa das linhas

do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência

que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos

impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,

com a melancolia que arrasta o sentimento da 

passagem, como se o rio pudesse parar para sempre

no instante em que a felicidade parece suspender

o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações

que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol

do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja

com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas

emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde

uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação

da morte.

 

Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto

cada uma das olheiras construídas no trabalho

do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento

as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas 

palavras trocaram esses amantes que o passado

vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã

não chegasse, trazendo a separação que corrói

a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão

de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que

vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como

se não soubesses que nada o substitui? Não

te enganes, como não se engana esse des cego às concessões

do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,

e levando no bater das asas o mais fundo

dos abraços.

 

Segue esse voo com o impulso antigo; e

não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios

trocaram, no mais solitário dos instantes.

 

Poema de Nuno Júdice

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publicado às 18:17


#1985 - Letra Aberta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.05.16

põe um pé sobre a minha mão legítima que ela nunca mais escreva,

põe o outro pé sobre a parte mais alerta da cabeça e faz com que ela esqueça,

os dois pés sobre todo o meu corpo como se estivesse morto,

toca-me na testa e sopra-me na boca,

e eu fique tão sensível ao mundo que se transforme tudo,

ao quente do meu sangue,

ao frio do juízo,

que eu ganhe de repente o meu tamanho próprio,

como a luz deitada sobre si mesma, bicho que ao sol se

      enrole tão enorme como a sombra deitada sobre a luz,

que eu me transforme enfim em tudo o que me toque,

que sopre por mim adentro com a extensão do fogo,

se tenho os braços abertos

para apanhar espiga a espiga todo o trigal do mundo,

e assim se faça o poema desde o leite que bebo

até ao frio fundo dentro das mãos fechadas,

oh punhos duros,

laços de sangue torto, sangue torto,

vívido, terrífico, oh sangue tão agudo,

e mo dobre o vento passando sobre as torres,

passando o fogo,

passando o ar mais acima do fogo,

mais acima da cabeça que ele toca se o sono é tocado pelo sonho,

para ser semeado à volta delas todas,

e grita do cimo dessas torres: - estrela! estrela! estrela!

nome a nome a nomeação da terra com suas pedras sôltas,

a cada pedra onde ela pedra é tão assim tocada,

no ar cego,

pelo ar como o amor toca o sangue e é o sôpro de quem ama

- o pé em cima da mão verídica com a chaga e com o beijo:

que eu não escreva nunca

nem abaixo nem acima do umbigo,

mas no umbigo mesmo,

que me dêem o nó agora à tripa entre mãe e filho,

que eu vá com toda a astúcia à minha vida tão difícil

 

Poema de Herberto Helder in "Letra Aberta, edição Porto Editora, Março de 2016

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publicado às 15:45


#1983 - Anna Akhmatova

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.05.16

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ANNA AKHMATOVA

 

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.

Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros

a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: "Os teus

ombros de clepsidra..." E eu sentia esse rumor límpido, que levava

as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita

inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar

pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram

os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta

apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas

esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos

perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem

com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul

que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski

nos vinha explicar: "a rima é a forma canonizada, métrica

da eufonia." E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido

entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher

aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou

iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo

que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta

esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria

os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia

que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei

um jardim e olhei as pegadas deixadas há muito nos caminhos. Pensei

nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia ver-se

alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam

da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessava estes corredores

vegetais. Tornava-se maior a minha sombra

em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde

            ficou um pano

estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei

a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio

uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito

agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue

nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas

de um livro. - Ficou caída sobre os joelhos esta manta cujas pregas

componho devagar; atravessada  pelo frio húmido, desce até ao soalho  que

           cuidadosamente

enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: "Espero a noite

e os cavalos que a seduzem." A noite... É nela que irei procurar os limites

silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se

sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo

nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece

quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que

             ficaram esquecidas.

Era assim que começava um poema ?  Tornaram-se mais cansados os

             gestos. Apenas sei

que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora

os meus passos são de água.

 

Poema de Fernando Guimarães in [Casa: O seu desenho, 1986]

 

 

 

 

 

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publicado às 21:15


#1978 - Herberto Helder - Letra Aberta

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.04.16

 

a noite feita, ela toda, em segredo

passando da mão direita para a esquerda

e ficar acordado enquanto se adormece

e acordando se se vê que está escrito

de cabeça para baixo

que o mundo de tão lento não se encurva

que tudo está no ovo

e o ovo não aquece nem arrefenta

e que nada está onde é suposto

e o lenço é ar apenas na mão do mágico

e nada se encontra agora onde se encontra

nem a cabeça

nem a caneta

nem a palavra certa para ser escrita

há duzentos ou trezentos anos

quando eu era criança algures noutro alfabeto

e escrevia alto numa espécie de caderno

sem páginas de um lado e de outro

e sem palavra nenhuma

sobretudo

 

Poema de Herberto Helder in "Letra Aberta", editado em Março de 2016 pela Porto Editora

 

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publicado às 18:11


#1976 - 37

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.16

 MÁRIO DIONÍSIO

 

37

 

mil anos que viva não se apaga

a imagem sombria e vacilante

dum homem desconhecido numa esquina

com um lenço na mão manchado de sangue

 

uma imagem sombria e vacilante

cambaleante no regresso instável

das zonas baças onde o tempo pára

com um lenço na mão manchado de sangue

 

cambaleante no regresso instável

sem se lembrar da rua onde morou

só com uma ténue sombra do passado

no lenço na mão manchado de sangue

 

ninguém sabia a sua história

ninguém ouvira a sua voz

de seu só tinha bem pesado

um lenço na mão manchado de sangue

 

não tinha voz não tinha nome

não tinha pais não tinha amigos

não tinha lar só tinha um lenço

na mão manchado de sangue

 

Poema de Mário Dionísio [1916-1993] in "O Riso Dissonante", 1950

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publicado às 18:44


#1975 - Sonambulismo

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.16

 JOAQUIM NAMORADO

 

SONAMBULISMO

 

Tombam os dias inúteis:

amanhece, é tarde, anoitece.

Mas a nós que nos importa

ser manhã, meio dia ou noite?!...

Sonâmbula a vida decorre

- nas ruas, a paz larvar dos grandes cemitérios;

dentro de nós, cada um

apodrece.

Enchem-se de títulos vibrantes os jornais

- mas tudo é tão longe...

Passam homens por homens e não se conhecem:

Boa tarde! Bom dia!

Cada um fechado nas suas fronteiras,

os gestos vazios,

a vida sem sentido

- sonambulismo apenas.

 

Acorda!

Ainda que seja só para o sobressalto,

que as ilusões do sonho se desfaçam

e as esperanças morram todas nessa hora!

 

Acorda!

ainda que o caminho a percorrer te espante

e o peso da obra a realizar te esmague!

 

Ainda que acordar seja

morrer depois aos poucos, em cada momento,

dolorosamente

 

Poema de Joaquim Namorado [1914 - 1986] in Agora, 1945

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publicado às 18:14


#1971 - AZULIANTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.16

ANTÓNIO JOSÉ FORTE

 

AZULIANTE

 

Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho    e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome    a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e    ver no meio do deserto    o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito    eu sei choverá    muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
        cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz     contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre     o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente     meu amor     de oriente a ocidente

Digo não     Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
                                                                           para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite    mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua    eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos    e este será o sinal

 

Poema de António José Forte [1931-1988]

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publicado às 22:33


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