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#2714 - ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

 AMADEU BAPTISTA

 

 

ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

 

Vi como a actriz levitou entre as sete paredes da sala

e soube imediatamente como isso era bom.

O céu de antracite dos últimos dias

foi um sinal do tempo nos meus olhos

que de uma árvore a outra projectou

um momento único de calor e vida.

A actriz era o primeiro êxtase

nos vários segmentos dos meus olhos,

silenciosa sequência de roldanas

onde a luz é um milagre e algo palpita

nas têmporas como uma recordação.

Falou da ausência, a actriz?

Fumava em Roma num vestidinho negro

tão frágil como uma pérola

e actuava sobre as palavras como se algo real

estivesse para acontecer à nossa frente.

Sentada no banco de madeira,

com os botões da camisa sensulmente abertos

e os lábios vermelhos que lembravam um Verão próximo

         do passado

ela esculpia na terra

algo tão perturbador como  o princípio do mundo.

Foi bom  olhá-la nos olhos,

tomar a eloquência por uma evocação

onde o silêncio tem o poder de despertar no corpo

um ritmo alucinante de febre e de loucura.

Ela, a actriz, nada podia fazer,

embora invocasse a infância com todas as forças do espírito,

em nítidas sucessões de terríveis marés-vivas.

Sentei-me e aplaudi.

Ela era sobretudo o exercício das coisas que nos fazem aproximar da solidão dos homens,

a cidade cercava-a e entontecia-a

porque algo se lhe colava à pele, um enigma, uma ave, talvez,

essa memo a que perdemos o rastro entre Bari e La Spezia

quando os múltiplos sinais da representação nos intimidavam

a conferir à comunicação o estatuto do medo e do fascínio.

A actriz? Agora podes vê-la.

Entre os toldos amarelos e azuis e a areia ocre dessa praia

ela penteia meditativamente os cabelos de oiro,

embala a boneca de trapos,

canta sentada num trono onde cada um de nós já se sentou

          um dia

para se sentir espectador de algo fascinante

que em silêncio responde à nossa solidão.

Escuta-a.

Ela chama  um nome desconhecido num rumor incontornável,

o nome do homem que partiu,

persegue-o num único movimento,

a sombra do seu corpo alonga-se na ausência

e o arco dos seus braços transfigura-lhe o olhar,

é uma mulher que vem com o rosto iluminado pela escuridão

para regressar do outro lado da noite

com uma criança nos braços,

ela própria,

um peixe vermelho que cintila

como uma pedra na distância

que vai do inferno ao paraíso,

de Capri a Peruggia.

Não é um incêndio que ela tem na boca?

A actriz tem na boca um incêndio

que é tanto a ternura como a exaltação,

ela entregou-se ao grito pela incandescência pura,

é um sonho e exalta-se pela beatitude de um crime

nesse sangue espesso

que é um círculo fulvo noutra esfera do mundo,

um brilho que se amplia numa barra de vidro

onde o rosto reflecte mil acrobacias

que reencontra a pedra onde a limpidez preserva

a tensão dos rostos em cada expectativa.

E a actriz sorri ainda porque o poder da luz amplia nos lugares

formas tão indistintas como as que há no coração

e outras tão belas como as corças que correm na planície

e nós pensamos que nos pertencem com o mesmo vigor

da agilidade do salto que empreendem.

Chamaste? Viste como isto era bom?

E o sortilégio era esse,

a magia do mundo,

a passagem de um lugar para outro lugar

onde tudo era possível

e um tiro à queima-roupa sobre o nosso peito

continha em si a graça de nos devolver à vida.

 

POEMA DE AMADEU BAPTISTA

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publicado às 18:31


#2711 - CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.12.17

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 

CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

 

Principia a estação, com o seu ruído

feito de sons de pássaros, que eu decifro.

Mais difícil sinal são as cores várias,

que despontam cada dia e eu vejo,

ano após ano, iguais e singulares.

Primeiro, um pouco além, o lírio roxo,

que me traz consigo a criança viva

que o colheu e, tal como a um barco

o fez singrar, só, roxo, macerado,

na água que descia por um rego.

Um lírio com a mão que o cortara

já decepada e presa ao passado,

sem o seu corpo. Vejo as três pétalas

assim a confundir-se com os três dedos,

como se as nossas mãos por vezes vivessem

mais do que os passados corpos.

Depois, foi esta a manhã das camélias

brancas, cravadas com dureza em rostos,

que, ainda de olhos fechados, tocam

as corolas em busca do seu cheiro.

São camélias mortais, e ainda atraem

a face dos mortos, que algum dia

as bafejaram com o seu hálito próximo.

Manchas brancas de círculos informes,

cada círculo contendo outro círculo.

E, no centro de cada rosto, apenas,

em cada Primavera, duram os olhos.

 

Já caem as glicínias, de alto, sobre

o esplendor do crânio ou do cabelo.

São cachos também roxos, em manhãs

de assombro, por cada dia mais

trazer um diverso cacho pendente.

Misturam-se com a cabeleira antiga

estes cachos de glicínias de hoje.

Mas são absolutos, novos, singulares

os momentos com a sua luz e cor,

os seus insectos e as suas sombras.

Alguém, que os colhera os fez prender

entre cabelos fecundos, de orelhas,

adornos para os filhos da Terra.

Estão, depois dos lírios e das camélias,

para salvar, em cada dia novo,

o viço dos cabelos, mais eternos

do que a já sepultada carne. Carne

de alguém que tinha um nome seu e que

se oferecia, com deleite, ao Tempo.

Só pode ter sido a de parentes, dúbios

cohabitantes do ser que relata

esta actual Primavera, com saudade.

A Primavera, que me surpreende

somente por estar a ser olhada.

 

Se aquela rosa rubra, na manhã

em que surgiu, logo fosse ignorada,

eu não estaria aqui neste papel,

dando-me inteira à nova Primavera.

Recebo-a, olho-a como um visitante,

aliás porque, na sua latada,

ela está perto do meu sólio. Rosa

de repente vista, primeira rosa

na natural frescura. E, também,

o vento lhe tocou, e já a abrem

aquelas mãos que haviam sabido

lançar barcos de pétalas aqui.

Junto da rosa só cabe esta boca,

pronta a beijar com amor as suas línguas

ou a beber a linfa que é da abelha.

Havia uma boca assim, sem a face,

a respirar ao ritmo dessa rosa,

que hoje nasceu fadada para ser

a sempre minha, única, igual.

A cor da rosa mostra-me o lugar

daquela boca, e eu quero sentir-me

aqui e ali. Pois vejo-te, rosa,

e vejo a outra, a que foi beijada.

Assim, não posso mais do que olhar.

Rosas terás em redor, solitária.

 

- Eis os melros, rasteiros, que insistem

em tornar-se evidentes, saltitando

sobre cômoros de terra. Mas hoje

perante o mistério das flores súbitas,

são como eu, embora não como eu,

com a negra plumagem que os cobre.

Sobre a lage do poço correm dois,

negros contendores no mesmo sprint,

músicos de assobio que eu bem entendo.

 

E, próximos da rosa, mas alheios,

estão a nascer os narcisos, de amarelas

frisadas campânulas e de sépalas

perto do solo, e que se elevam

na luz de cor. Também uma figura

de mulher genuflectida as colhia,

e uma criança, oscilando no riso,

quer ter para si uma flor solar.

Junto aos eternos matizes das pedras,

a cor dos narcisos, nítida, clara,

evoca esses desejos saciados

em tempo ido: o da mulher, prendendo-os

no seu seio, e os da criança, seguindo

o movimento que pertence ao tempo.

Hoje, como hei-de separar os corpos

da haste e da corola dos narcisos,

pois a mancha amarela tem a forma

humana contida em si, curva, erecta.

 

Salva-me o vermelho vivo da rosa,

que atrai a cor intensa dos narcisos

para contraste, outra tensão,

que eu revivo, amando o beijo da rosa

e a prece ao sol destes narcisos.

Mas outra prece, hesitante, desponta

ao raso dos terrenos, dispersa, ágil.

Flores que vibram esguias e tácteis,

de um vermelho ardente, submissas

como pálpebras, ao cair da noite.

Abrem-se na aurora, comovidas

pela unção da luz, porque se chamam

páscoas. E são amadas, benditas.

Anunciam a passagem eterna

da luz sagrada entre noite e aurora.

A aragem devagar as sacode,

finas folhas e hastes a dançar,

em pleno dia de êxtase, no sono

das corolas exaustas pela noite.

 

Noutra manhã, eu vejo, deslumbrada,

a poalha da brancura florida

que envolve os troncos velhos da ameixoeira,

flores que o ar conhece e o vento leva,

há muito, para lugares e tempos.

Poalha em que não estão vultos humanos.

Apenas um nó de sombra, atrás

de cada flor, mostra a imagem de antes

ou a espessura de um fruto futuro.

São as flores do jardim que guardam o enigma,

pois cada espécie vista tem em si

um sinal visível de outra estação.

Flores solitárias que, uma a uma, vêm

ligar-se a fragmentos de vida antiga.

 

- Repetem-se os melros p'lo empedrado,

a debicar sempre nas pedras húmidas,

sob o fascínio do cálido dia.

Tão nítidos, tão certos, a presença deles

não cabe ao lado de uma flora rara,

a desta Primavera em narração.

 

Também os loureiros em flor, visíveis

ao longe como nuvens, são visões

completas, com  a floração e as folhas

na mesma cor de sempre, indecifrável.

Alguém pega no ramo do loureiro,

num verso clássico, e o dá a toda

a humanidade, pois a memória

da poesia passa de poeta a poeta,

para o mundo. Se o meu relato é vivo

é porque olho c'os outros a Primavera,

e nesta Primavera eu vi melhor,

presa do assombro do que é novo e antigo.

Os meus olhos, o espírito e as mãos

pegam em cada imagem de uma flor,

em cada dia de visão e ganho.

Mas a perda, enfim, virá somar tudo

igual a si mesmo, uno, passado.

E, de repente, uma flor de palavras

muito branca chega até mim, e é

esta estação, nesse florir de goivos.

Uma carta traz-me inscrita as palavras

de Eugénio, goivos, e o seu eflúvio.

Esta transcreve-a ele de Pessanha,

diante de tão nítidos canteiros.

Grata, prendo-me a esses elos vivos

da corrente de vozes, que se oferecem

aos ouvintes, depois de recolherem

o real, o findo, o que foi amado.

Aqui, depois do loureiro, floriu

a acácia, também sem qualquer vulto

escondido no seu florir imenso.

São árvores solitárias, constantes

na pura relação com a luz solar.

E, talvez por fim, neste  infinito,

uma inflorescência de gladíolo

rosada, erecta, se tenha aberto.

 

Vem de um único bolbo, soterrado,

está só, entre a verdura vária.

Junto de si viveram outras hastes

também de gladíolos, há muito tempo.

Braços levaram-nas juntas, consigo,

em braçadas de amor e de alegrias.

Os braços são as linhas de matizes,

unidas em redor da cor suavíssima

das flores de hoje, a florir aqui.

Cada manhã me põe diante dos olhos

nova forma de cor e  luz e, às vezes

figuras esbatidas de outra estação

igual, porém perdida já, inane.

 

- Melro audaz, que te aproximas mais

de mim, ou do que eu fui e agora sou,

não vejas que eu represento o Tempo.

A tua colheita de grãos e de larvas

seja o teu mais subtil pensamento.

 

- E, afinal, entraste no meu espaço,

num intervalo entre o concreto e o abstracto.

 

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

Carcavelos, Março, 1997

 

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Fiama Hasse Pais Brandão
 
Dramaturga, tradutora e poetisa, nasceu a 15 de agosto de 1938, em Lisboa,faleceu a 19 de janeiro de 2007, na mesma cidade. Frequentou o colégio St.Julian's School, em Carcavelos, e, mais tarde, o curso de Filologia Germânicada Universidade de Lisboa. Fez crítica de teatro, estagiou no TeatroExperimental do Porto (1964), e foi, com Gastão Cruz - com quem se casaria - e outros, fundadora do grupo Teatro Hoje (1974). Ao longo da sua vida,exerceu  atividade de investigação na área da linguística assim como  pesquisa histórica e literária sobre o século XVI em Portugal. Traduziu vários autores como Bertolt Brecht, Antonin Artaud, Novalis e    Anton Chekhov e colaborou em revistas literárias, como Seara Nova Cadernos do Meio-Dia Vértice entre outras. 
                                                                                                                                                                                                                                    Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61 coletânea que refletia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem  na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão                             i impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do              tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acessopela palavra pura a um tempo primordial. 
critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maiorpode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta comofontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme doConhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar naspalavras e nas imagens e que  por acumulação diurna e através daabsorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de CânticoMaior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve 1991).
 
Sob o Olhar de Medeia , a obra que marca a primeira incursão no romance porparte desta autora, foi publicado em 1998. 
Fiama Pais Brandão recebeu várias distinções, entre as quais se destacam o Prémio Adolfo Casais Monteiro, 1957; o Prémio Revelação de Teatro, 1961; o Prémio Pen Clube Português de Poesia, 1985; o Grande Prémio de PoesiaAPE/CTT, 1996; o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, 1996; e o Prémio Pen Clube Português de Ficção e o Prémio da Crítica da AssociaçãoPortuguesa de Críticos Literários, ambos em 2005.
 

 

 

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publicado às 19:03


#2707 - CONVERSANDO COM OS ASTROS

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.17

 TERESA RITA LOPES

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS

 

1

Confesso que me desiludiste um pouco

Quando ouvi dizer que estavas para chegar

pus-me ansiosa à tua espera

                                             Foste o primeiro

cometa da minha vida

                                  Antes de te conhecer pensava

que serias maior mais vistoso mais em fogo

                                                                    Depois

aceitei o teu recato a tua timidez

                                                  e tentámos

acertar o passo e o olhar

                                      Encontrámo-nos no céu

da Cacela e depois puseste-te a caminhar comigo

até Lisboa

               Aqui perdemo-nos de vista

                                                        Há luz eléctrica

a mais     Nesta cidade até do céu somos despossuídos:

o buruburinho das luzes obscurece os astros

                                                                      que fogem

a esconder-se atrás dos  montes mais próximos

                                                                           Dizem

os cientistas que voltas daqui a três mil anos

Que é isso para o deus de quem és brinquedo

e eu também?

                    Em breve regressarás ao teu abismo

e um dia destes também eu mergulharei no meu

Marquemos já encontro para o dia 11 de Abril

de 4997

           à esquina do crepúsculo

 

2

Eis-te de repente     Espreitas e devagar

levantas-te do leito do rio afogueada

sacudindo a saia

                         Que fazias aí deitada com ele

minha magana?

                     ah lua! maluca lua que não tomas

juízo!

      Aqui estamos de novo   cara a cara

sorriso no sorriso

                         Quantas vezes já nos olhámos

assim nos olhos    tão enamoradas?

                                                       Saboreio

daqui deste meu décimo andar jardim suspenso

todos os momentos da tua caminhada céu acima

Agora já estás perfeitamente senhora de ti

redonda e rutilante

                             e olhas de alto o rio

que se aquieta para te receber e espelhar

tua inevitável retirada

                                 Ninguém te dá a idade

que tens

            Quem havia de dizer que ficaríamos

grisalhas um dia!

Mas a ti fica-te bem esse

cabelo de neve luminosa     O meu pediu ao Outono

o ruivo fulgor de suas folhas

                                           Ah lua amiga minha

da longínqua infância da perdida juventude

cúmplice de tanto fervor adulto    sozinho e

comungado   confidente de tanto pranto em fogo

transformado   à tua alquímica maneira em fina

prata

       aonde vais buscar esse sorriso manso

teu sereno aceitar de tudo o que acontece

tua ironia doce?

                       Quem me dera libertar-me assim

da canseira do dia!

                             Minha amiga minha Mãe meu amor

porque és tudo isso ao mesmo tempo

                                                            afaga o áspero

dorso da minha irrequieta mágoa

                                                   e afoga-me no teu

mar de luar

                que é água e ar e fogo ao mesmo tempo

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS - POEMA DE TERESA RITA LOPES

 

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publicado às 22:19


#2696 - DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

ARMANDO SILVA CARVALHO

Nascimento28 de março de 1938, Olho Marinho
Falecimento1 de junho de 2017, Caldas da Rainha
 
 
DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA
 
Gosto de sentir a natureza e fingir
que não lhe pertenço.
O vento é esta mão gigante e nunca vista
que sacode o carro perante um mar
em brancas gargalhadas.
Não é o mundo que tenho na cabeça.
Penso nas gotas de água que embaciam o vidro,
e vejo o véu da chuva que ainda não chegou
com as nuvens atrasadas.
 
As palavras recusam-se a ser irmãs das ondas.
O meu silêncio não quer ser filho do clamor da tempestade
que faz dançar as aves na escuridão das nuvens
como sondas.
 
Mas como é belo
que tudo viva na luta de viver,
a fúria da maré o espelho do  meu rosto debruçado para dentro
como um poema de Pedro Homem de Melo.
 
O mundo natural dá-me a acidez da voz
que se solta
nos cabos teleféricos
e transporta o ruído dos loucos suicidas
a luxúria do tempo
ou esse luxo que se chama esperança.
 
No céu desamarrado a gaivota baila,
no chão perto do mar outro baile circunda
o meu coração desordenado.
 
E nunca saberei como se dança.
 
POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

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publicado às 19:11


#2695 - COM PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.11.17

Casimiro de Brito.jpg

 CASIMIRO  DE  BRITO

 

 

COM PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

 

Também eu me sentei, anos a fio,

à mesa de Pessoa no Martinho

da Arcada e olhei para dentro do novelo emaranhado

da sua vida. Não há nada

para desenrolar, concluímos. Corriam

os anos setenta, oitenta

e os meus dias eram uma concha recheada de

metáforas cotações enigmas letras

de câmbio de afectos graffitti estatísticas

enquanto nas ruas de Lisboa a revolução rolava

ao sabor da maré e das brisas agitadas

pelo patrão Vasques e por outras

abelhas mestras. "Governa quem é alegre (...)

para ser triste é preciso sentir".

Também eu tomei café

de costas viradas para o Tejo e encontrei

o meu sossego no desassossego de Soares

como se fôssemos o mesmo guarda-livros cansado

que descia a Rua Augusta e depois se dividia

em dois, ele

a caminho da Rua da Madalena, eu

da Rua do Ouro, onde escrevíamos

apressadas sílabas no verso de papéis comerciais

que nos pagavam o pão e a renda

da casa. Do meu gabinete eu via o "lago azul" do Tejo,

ele não. O que mais me fascina

nesta fotografia

é a página que o poeta lê como se fosse

a mãe louca que embala um  filho

morto. Uma tãbua

"todos os papéis estão brancos"

"todas as mensagens se adivinham"

onde eu posso entrar e entrava nesses dias

quando me cansava de caminhar nas ruas baixas

que vão dar ao Cais das Colunas e então sentava-me

à sua mesa e misturava

como se fossem obscuras folhas de café

as palavras dele e outras minhas:

 

Sofro de não sofrer e sobre a morte

escrevo em seu trabalho de não saber

sofrer lavrando-a enquanto

a vida visita. Vivo ou finjo que vivo?

O discurso do corpo

canta, uma vaga aragem que sai fresca

do calor do dia e me faz

esquecer tudo e com as aves

resvalo e com os rios...

 

Incontáveis foram as veze em que o meu cansaço

da bolsa e da vida,

dos ruídos da baixa e dos barcos que partiam

no azul nevoeiro

se aconchegava na página desconhecida

como se fosse um velho buraco de

família uma espécie de sono

metafórico uma imersão

em águas antigas que exerciam em mim

um vago domínio. E então eu lia

o que ele talvez ali

estivesse lendo:

"Nem uma saudade já me resta

dos búzios à beira dos mares"

e também eu me sentia

nesses momentos

o sócio minoritário de um pequeno comércio de poetas

sentados na bruma: havia um que buscava

o mar dos búzios, outro que partia

para as praias onde havia búzios

e ouvia o mar "só e calmo",

como quem habita um aroma

paciente. Também eu

escrevi versos como se fossem lançamentos

de escrita, "com cuidado

e indiferença": havia que fundir-me,

entrar para dentro da areia

idizível; havia que pesar o ouro das palavras

sabendo que pesava

cinza. "O universo

não ẽ meu", lia Pessoa na página em que não sei

o que lia, o universo "sou eu" - fonte

sonolenta

 que se bebe a si própria

e mais nada. Também a mim

me doeu "a cabeça e o universo" nesses dias

em que fui abandonado à tona de água

como se a água tivesse um dentro e um fora

e os cabelos que me foram caindo não dissessem

que tudo são cabelos correndo como rios

um pouco loucos

de um lado para o outro - "uma vaga doença",

"um prenúncio de morte"

que não tem outro mistério além do mistério

de partirem barcos. Também eu

me sentei à mesa de Pessoa no Martinho

da Arcada enquanto lá fora chovia

"como se houvesse chovido (...)

desde a primeira página do mundo"

e o que faço agora é vê-lo estar lendo um nada

que é tudo basta olhar

para o olhar do amigo que sobre o poeta se debruça,

mudo. O enigma que vê outro enigma

no palco ainda verde

e já em ruína

 

POEMA DE CASIMIRO DE BRITO

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publicado às 21:36


#2682 - GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.11.17

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GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

 

O corpo não espera. Não. Por nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura assetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sede, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo...

 

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

 

Poema de Jorge de Sena

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publicado às 23:36


#2678 - A FLOR DA SOLIDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

A FLOR DA SOLIDÃO

 

Vivemos convivemos resistimos

cruzámo-nos nas ruas sob as árvores

fizemos porventura algum ruído

traçámos pelo ar tímidos gestos

e no entanto por que palavras dizer

que nosso era um coração solitário

silencioso profundamente silencioso

e afinal o nosso olhar olhava

como os olhos que olham nas florestas

No centro da cidade tumultuosa

no ângulo visível das múltiplas arestas

a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa

Nós tínhamos um nome para isto

mas o tempo dos homens impiedoso

matou-nos quem morria até aqui

E neste coração ambicioso

sozinho como um homem morre cristo

Que nome dar agora ao vazio

que mana irresistível como um rio?

Ele nasce engrossa e vai desaguar

e entre tantos gestos é um mar

Vivemos convivemos resistimos

sem saber que em tudo um pouco nós morremos

 

Poma de Ruy Belo

 

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publicado às 19:34


#2677 - RUA DE ROMA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

RUA DE ROMA

 

Quero uma rua de Roma

com seus rubros    com seus ocres

com essa igreja barroca

essa fonte    esse quiosque

aquele pátio na sombra

ao longe a luz de um zimbório

mais o cimo dessa torre

que não tem raiz no solo

Em troca darei Moscovo

Oslo    Tóquio    Banguecoque

Fugaz e secreta à força

de se mostrar rumorosa

só essa rua de Roma

em cada nervo me toca

Por isso a quero assim toda

opulenta de tão pobre

com o voo desta poma

o ribombar desta moto

com este bar de mau gosto

em cuja esplanada tomo

este espresso após o almoço

à tarde um campari soda

Em troca darei Lisboa

Londres    Rio    Nova Iorque

toda a prata    todo o ouro

que não tenho em nenhum cofre

só no cotão do meu bolso

e no que a pátria me explora

Quero essa rua de Roma

Aqui onde estou sufoco

Aqui as manhãs irrompem

de noites que nunca morrem

Quero esse musgo    essa fonte

essas folhas que se movem

sob o sopro do siroco

ora tépido ora tórrido

frente à igreja barroca

tão apagada por fora

mas que do altar ao coro

por dentro aparece enorme

Quero essa rua de Roma

casta    rugosa    remota

Em troca darei as lobas

que  não aleitaram Rómulo

mas me deixaram na boca

o travo do transitório

Quero essa rua de Roma

sem conhecer quem lá mora

além da madonna loura

misto de corça e de cobra

que ao longo de tantas noites

tanta insónia me provoca

Quanto às restantes pessoas

inventarei como sofrem

Quero essa rua de Roma

Terá de ser sem demora

Sabemos lá quando rondam

abutres à nossa roda

Mas não me lembro do nome

da rua que assim evoco

soberba se bem que tosca

direita se bem que torta

com um Sol que tanto a doura

como a seguir a devora

Em troca darei o troco

do que por nada se troca

o florescer de uma bomba

o deflagrar de uma rosa

Quero essa rua de Roma

Amanhã    Ontem    Agora

Que importa saber-lhe o nome

se a trago dentro dos olhos

Há uma igual em Verona

Outra ainda mais a norte

Outra talvez nem tão longe

num burgo que o mundo ignora

Outra que apenas se encontra

onde a paixão a descobre

Mas rua sempre de Roma

Romana em todo o seu porte

mistura de alma e de corpo

aquém    além    do ilusório

Romana mesmo que em Roma

não haja que a recorde

Onde quer que o sexo a sonhe

e o coração a coloque

é lá que todo sou todo

Aqui não    Aqui não posso

 

POEMA DE DAVID  MOURÃO-FERREIRA

 

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publicado às 18:51

 

 

 

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros

Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores

Os pássaros começam onde as árvores acabam

Os pássaros fazem cantar as árvores

Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se

deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal

Como pássaros poisam as folhas na terra

quando o outono desce veladamente sobre os campos

Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores

mas deixo essa forma de dizer ao romancista

é complicada e não se dá bem na poesia

não foi ainda isolada da filosofia

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros

Quem é que lá os pendura nos ramos?

De quem é a mão a inúmera mão?

Eu passo e muda-se-me o coração

 

POEMA DE RUY BELO

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publicado às 18:45


#2675 - ACORDAR NA RUA DO MUNDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.11.17

 

ACORDAR NA RUA DO MUNDO

 

Madrugada, passos soltos de gente que saiu

com destino certo e sem destino aos tombos

no meu quarto cai o som depois

a luz, ninguém sabe o que vai

por esse mundo, que dia é hoje?

soa o sino sólido as horas, os pombos

alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

 

um cano rebentou junto ao passeio.

um pombo morto foi na enxurrada

junto com as folhas dum jornal já lido.

impera o declive

um carro foi-se abaixo

portas duplas fecham

no ovo do sono a nossa gema.

 

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite

sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme

da joalharia. os lençóis na corda

abanam os prédios. pombos debicam

 

o azul dos azulejos. assoma à janela

quem acordou. o alarme não pára o sangue

desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o

vídeo não gravou

 

e duma varanda um pingo cai

de um vaso salpicando o fato do bancário

 

POEMA DE LUIZA NETO JORGE

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publicado às 18:18


#2674 - Soneto

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.17

Nascimento10 de agosto de 1921, Belém, Pará, Brasil
Falecimento1 de julho de 1981, Lisboa
 
 
SONETO
 
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
 
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
 
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
 
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
 
Poema de Carlos de Oliveira
 
 

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publicado às 17:46


#2673 - Um Poema de Vitorino Nemésio

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.17

Nascimento19 de dezembro de 1901, Ilha Terceira
Falecimento20 de fevereiro de 1978, Lisboa
 
 
 
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-loo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para aconsciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
 
Poema de Vitorino Nemésio

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publicado às 17:22


#2665 - Um poema de Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 Alberto Raposo Pidwell Tavares (Al Berto)

11 Jan 1948 | 13 Jun 1997
 
 
 
panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã
 
senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a itensidade de um astro
 
dá as mãos e  o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas
 
por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço
 
POEMA DE AL BERTO
 

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publicado às 18:54


#2664 - ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.17

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

 

Foi junto dos pântanos que nasci. Neles vi o rosto de meus pais

e de todos os antepassados. Olham-me sempre através do lodo

tranquilamente. Quando me falam, talvez a água entre

pelas suas gargantas e as palavras tornam-se mais lentas e serenas.

Escuto-os e sei como hei-de continuar a viver ao seu lado. Eles ensinam-me

o sentido que procuro em cada frase. Reparo que um verso fica

mais perto, e descubro como as sílabas longas e breves encontram

a pouco e pouco o que é o seu justo lugar; trata-se da harmonia apenas

que lhes pertence. Há-de ser assim naturalmente e tudo se repete

sem qualquer esforço, como se os deuses estivessem ali. Mas eu sinto-me

tão frágil diante deles... Sei que os seus lábios são demasiado pesados

e, por isso, nada lhes pergunto. Espero, tranquilamente. Então eles olham-me

com contida alegria, acenam-me, fazem sinais que não compreendo

sequer: Há uma explicação que procuro ainda e fito de repente

as suas pupilas. Aí, nesse ponto negro, surpreendo aquilo que principia

a oscilar entre o nada e todas as coisas, a ignorância e o meu conhecimento:

esta será a claridade de que precisam para me ver. Não me ofusca

e é essa a luz que mais desejo agora. Mas sei que preciso

também da noite. E é acerca dela que tantas vezes escrevo. Há-de alguém

continuar a ler o que chega dessa sombra, mesmo que seja eu que a venha

dissipar para que se torne só meu o que digo. Pergunto algumas vezes

pela paz que existe em tudo o que perdemos. Imaginarei

depois a minha última viagrm. Só isto. Não é mais fácil falar sobre

a última viagen de cada um de nós? Ela arrasta-nos para o interior

da areia. Encontramos, depois, as mesmas ondas esquecidas, os sinais do mar

ou alguns versos, aqueles que há muito ficaram presos às nossas mãos.

Encontramos também aquilo que poderia ser apenas a proximidade

de qualquer sonho. Sim, porque é adormecidos que nós seguimos

por esse caminho difícil, entre sombras, com o peso das nossas pálpebras

pousadas sobre o corpo. Ah, conheço esse peso. Queria recordá-lo

como se viessem falar acerca do meu rosto com simplicidade

para que finalmente o consigam reconhecer. Mas quem há-de

escrever o que por mim não pode ser escrito, senão com o silêncio

de ambos? Este era o meu destino, o caminho que sigo

ao encontro de outras vozes, cercado pelas nuvens que existem

apenas no interior dos olhos, nessa escuridão súbita que se torna

uma secreta forma de saber. Aí descubro estas palavras e para elas quero

a mesma simplicidade, porque é assim que se fala da morte.

 

POEMA DE FERNANDO GUIMARÃES

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Escritores > Fernando Guimarães

Data Nasc: 03/02/1928 Naturalidade: Cedofeita, Porto

Na web:


 Biografia

Fernando de Oliveira Guimarães, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu na freguesia de Cedofeita, a 3 de fevereiro de 1928.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, viu editado, em 1956, o seu primeiro livro de poesia, ‘Face junto ao vento’, mas poucos anos antes já tinha debutado na revista Eros, com a publicação de alguns poemas.

Lecionou Filosofia em várias escolas do ensino secundário e colaborou em diversos jornais e revistas, como O Comércio do Porto, Jornal de Letras, Árvore.

O seu trabalho enquanto tradutor reflete afinidades literárias muito concretas – traduziu obras de Shelley, Keats, Byron, Dylan Thomas, Hugo von Hofmannsthal e Elaine Feinstein.

Trabalhou como investigador no Centro de Literatura da Universidade do Porto. Integrou o Conselho Científico e foi membro investigador do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa.

Recebeu, entre outros, o Prémio D. Dinis (1985), o Pen Clube Português (1988) e o Prémio Luís Miguel Nava (2003).

Em 1995 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Fernando Guimarães é um reincidente na lista de autores galardoados com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Em 1992, a distinção reconheceu a obra ‘O Anel Débil’ (Edições Afrontamento); volvidos 15 anos, foi o livro ‘Na voz de um nome’ (Roma Editora). Este último livro valeu-lhe também o Prémio Literário Ruy Belo 2008.

Em 2006 foi-lhe atribuído pela Universidade de Évora o Prémio de Ensaio Vergílio Ferreira, tendo em vista o conjunto da sua obra ensaística.

A sua obra poética “Os caminhos Habitados”, venceu o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes 2014.

Bibliografia:

A Face Junto ao Vento, 1956 (poesia)

Os Habitantes do Amor, 1959 (poesia)

As mãos Inteiras, 1971 (poesia)

Três Poemas, 1975 (poesia)

Poesia 1952-1980, 1981

A Poesia da Presença, 1981 (ensaio)

Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, 1982 (ensaio)

Casa: o Seu Desenho, INCM, 1985 (poesia)

Tratado de Harmonia, 1988 (poesia)

Poética do Saudosismo, 1988 (ensaio)

A Analogia das Folhas, Edições Lumiar, 1990 (poesia)

Poética do Simbolismo em Portugal, 1990 (ensaio)

O Anel Débil, Edições Afrontamento, 1992 (poesia)

Conhecimento e Poesia, 1992 (ensaio)

Poesias Completas, Vol.I, Edições Afrontamento, 1994

Os Problemas da Modernidade, 1994 (ensaio)

As quatro Idades, Presença, 1996 (prosa)

Diotima e as outras Vozes, Campo das Letras, 1999 (teatro)

O Modernismo Português e a sua Poética, 1999 (ensaio)

Limites para uma Árvore, 2000 (poesia)

Lições das Trevas, 2002 (poesia)

Artes Plásticas e Literatura: do Romantismo ao Surrealismo, 2003 (ensaio)

Mulher, Asa, 2006 (poesia)

Na Voz de um nome, Roma Editora, 2006 (poesia)

Sentido e Sensibilidade, Caixotim, 2007 (ensaio)

A Obra de Arte e o Seu Mundo, 2007 (ensaio)

A Poesia Contemporânea Portuguesa (3ª edição), 2008 (ensaio)

Agumas das Palavras – Poesia Reunida 1956-2008, Quasi Edições, 2008

História do Pensamento Estético em Portugal, 2009 (ensaio)

As Raízes Diferentes, Relógio d’Água, 2011 (poesia)

Os Caminhos Habitados, Edições Afrontamento, 2013 (poesia)

 


Principais Obras Publicadas

Poesia 1952-1980
2015, Modo de Ler

As suas imagens mais significativas correspondem a um empenho de captar o ritmo de tudo quanto, de algum modo, se pode dizer palpita, ou se desenvolve a partir de um núcleo geminativo. Eis uma poesia cuja ontologia poderia mesmo exprimir, em abstrato, dizendo nós não existimos, e nada existe, salvo … Ler mais

Os Caminhos Habitados
2013, Edições Afrontamento

“Há-de ser o silêncio. Ele vem de novo ao teu encontro como se o esperasses. Talvez seja maior a tranquilidade que existe no único caminho que vinhas percorrer. Sabes que se esta sombra te acompanha é porque nela habitas.” Poema da pág. 59

A Poesia Contêmporanea Portuguesa
2009, Quasi Edições

Apresenta-se aqui uma visão geral da poesia na segunda metade do século XX. Esta poesia é atravessada por alguns movimentos que vêm de um tempo anterior ou que com ela coincidem: Neo-Realismo, Surrealismo, Poesia Experimental ou, recentemente, o Pós-Modernismo. À margem destes movimentos, vários poetas mais ou menos isolados se … Ler mais

Uma obra essencialmente filosófica que dá conta do aparecimento do pensamento estético em Portugal.

Sentido e Sensibilidade
2007, Edições Caixotim

Volume de ensaios da autoria do professor e ensaísta Fernando Guimarães, em torno da obra de diversos autores portugueses, evidenciando os traços que lhes são comuns. Obra de marcante interesse para uma compreensão alargada das intersecções dos autores românticos na literatura moderna.

Mulher
2006, Edições ASA

Em Mulher recolhe-se a poesia de Fernando Guimarães onde esta palavra, que pode estar presente ou ausente, exprime a comunicação e o encontro que se entreabrem no ser, na existência humana. Tais poemas aproximam-se de uma reflexão – digamos uma ontologia – que vai procurar o sentido que há nessa existência.

Na Voz de um Nome
2006, Roma Editora
 
Lições de Trevas
2002, Quasi Edições

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Na primeira parte do seu novo livro, «Lições de Trevas», Fernando Guimarães procede a um convite à leitura. São poemas sobre como ler um livro, dirigindo-se ao leitor e explicando que a poesia não é tanto … Ler mais

 

INFORMAÇÃO RETIRADA DO «SÍTIO» ESCRITORES.ONLINE

 

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publicado às 19:09


#2663 - Sucedem-se os Dias

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.17

SUCEDEM-SE OS DIAS

 

A poesia é de facto um animal

difícil de domesticar. Há as palavras,

as tardes de sol nas esplanadas dos cafés,

as manhãs brumosas junto ao mar. Os cavalos

galopam na planície, mudam de direcção

bruscamente. Aonde irão? Mudou

de cor o céu. Ainda azul, mas baço agora.

O maço de cigarros em cima da mesa,

os estudantes loiros que tomam café,

as raparigas que com os dentes e os lábios

tentam seduzir os nossos destinos incertos.

Para onde nos leva o tempo? E o desejo?

De madrugada acordei, assustou-me a solidão.

Tanto silêncio na noite que parece misteriosa.

Sucedem-se os dias da nossa  morte lenta.

Quem quer saber de nós? E nós,

de quem queremos saber, sinceramente?

A linguagem desenvolve em nós a ilusão

de entender o mundo e o que nos acontece.

É como ir pelos carris do comboio,

de qualquer comboio para não se sabe onde.

Vamos indo e acreditamos que uma noite

havemos de chegar ao destino. Para quê

querer ou pedir mais? Duas da tarde.

Vieram três pessoas sentar-se à minha mesa

do café. Hello, Bob, how are you doing?

O António Nobre não teria resistido

ao rosto angélico, ao olhar virginal

da rapariga que se sentou connosco a tomar

café. Que espera ela da vida, que

pensa do futuro? Que fantasias 

ou sonhos graves atormentam

o seu espírito aparentemente

tão sereno? Vive numa casa

perto do mar, é estudante. Se eu

fosse andando? Mas não me apetece.

Poesia, deixa-me ir assinalando o percurso

da intranquilidade. A minha biografia

é igual à de toda a gente, não tenho

vida privada nem sei o que isso é.

Isolando-me, preservo da corrupção o

interior.  Alimento a necessidade de

me sentir original e diferente adoptando

certa maneira de falar. Tudo o que

escrevo é autobiográfico, evidentemente.

É o que me têm sugerido, com o ar de

acusar-me. Confessional, pouco artístico.

Queriam-me solene, conformado,

obediente? Sabem mais da minha

vida do que eu, vêem-me por todo

o lado nos meus poemas. E sou apenas

o sonho de um outro, o meu e o

deles, ficção e histórias que se contam.

Escrevo porque não existo. Lugar-comum,

retórica conhecida. Questão de perspectiva.

A linguagem permite todos os abusos e a

verdade nunca existiu. Só a poesia.

De que derrotas se fez a nossa vitória

sobre o vazio que nos estava prometido?

Ir-se construíndo dia a dia, operariamente.

Abelhas modestas, vivendo na obsessão do

mel que depois nos roubam. Por que tosses,

rapariga que lês o jornal? A montanha

ao fundo, a brisa que vem do mar. Passa

o inefável sem cessar diante dos nossos

olhos, escondido na banalidade do destino.

Uma existência divina, quem pudera. De

calções, sentado na esplanada do café,

parece que nunca saí do mesmo sítio. Por

favor, rapariga, fecha um pouco o ângulo

das pernas, começam a perturbar-me as tuas

calcinhas azuis. Um pardal poisa na mesa,

depois voa de novo. Vou-me

embora também, pousar noutro lugar.

 

Poema de João Camilo

 

 

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publicado às 21:30


#2661 - CAIR DO PANO

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.17

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 RUI KNOPFLI (INHAMBANE, 1932 | LISBOA, 1998)

 

CAIR DO PANO

 

As acácias já se incendiaram de vermelho

e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante

a manhã de Dezembro. A terra exala,

em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.

Ao longe, no extremo distante da caixa

 

de areia, o monhé das cobras enrola

a esteira e leva o cesto à cabeça,

cumprido o papel exacto que lhe coube

e executou com paciente sageza hindu.

Dura um instante no trémulo contraluz

 

do lume a que se acolhe, antes da sombra

derradeira. Assim, os comparsas convocados

para esta comédia a abandonam, verso

a verso, consignando-a ao olvido

e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

 

irremediavelmente. O encenador faz

a vénia da praxe e, porque aplausos

lhe não são devidos, esgueira-se pelo

anonimato da esquerda alta. É Dezembro

a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

 

Poema de Rui Knopfli incluído no livro O Monhé das Cobras, publicado em 1997, pela 

Editorial Caminho.

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publicado às 20:58


#2652 - Um poema de António Ramos Rosa

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.10.17

 

Que a palavra seja um volume ardente e preciosamente nu

e que trema porque o seu centro é obscuro e incerto

e que se perca na sua chama como numa nuvem

que o seu brilho não apague o movimento da sua sombra

e errante se extinga agravando a solidão de um exílio como um país de sangue

Ese for veementemente como uma onda vermelha

que nela perpasse um húmido murmúrio de névoa

Que a argila reverdeça na prateada lama das suas luas de areia

e mais do que tudo o coração e o olvido se reúnam

entre as luzes e as sombras do seu outono de água

Que a fronte se torne alta de terra vento e chama

porque nela o silêncio é a pureza que vibra

sobre o sangue incessante 

Se arder para o corpo do dia que arda para o corpo da noite

Como um arco lentíssimo sobre um espaço de vento e solidão

ou um ouvido solitário de árvore

ela será luminosa harmonia que se esvai

na sua imperfeição de sombra enamorada

e unir-nos-á docemente à sua fugidia sombra

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publicado às 18:35


#2644 - Vírgula

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.17

 ANTÓNIO MARIA LISBOA

Nascimento1 de agosto de 1928, Lisboa
Falecimento11 de novembro de 1953, Lisboa

 

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos 
a procurar o dia em que não te fale 
feito de resistências e ameaças — Este mundo 
compreende tanto no meio em que vive 
tanto no que devemos pensar. 

A experiência o contrário da raiz originária aliás 
demasiado formal para que se possa acreditar 
no mais rigoroso sentido da palavra. 

Tanta metafísica eu e tu 
que já não acreditamos como antes 
diferentes daquilo que entendem os filósofos 
— constitui uma realidade 
que não consegue dominar (nem ele próprio) 
as forças primitivas 
quando já se tem pretendido ordens à vida humana 
em conflito com outras surge agora 
a necessidade dos Oásis Perdidos. 

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo 
e a custo na imensidão da desordem 
a que terão de ser constantemente arrancadas 
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois 
a cada momento corremos grandes riscos 
desconcertantes e de sinistra estranheza. 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. 
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano 
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem 
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos. 
 
 
POEMA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA IN POESIA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA, ASSÍRIO & ALVIM

 

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publicado às 14:52


#2585 - Poema sobre Lourenço Marques revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 Eugénio Lisboa

 

Regresso, mas não regresso

ao paraíso perdido,

ao centro de mim, possesso

de quanto, aqui, retido,

de novo vejo, sem ver,

sendo eu quem já não sou:

mundo outro eu quero haver,

nesta fome em que me dou.

Este mar (a cor, a vida)

durou só o que durou:

a corrida é já perdida

e o barco naufragou.

 

No entanto, a casa é minha,

mesmo podre e desdourada:

o calor é o que antes tinha,

nela está minha morada!

 

(O frio é apenas meu

e não da velha cidade:

só em mim esmoreceu

o calor da mocidade.)

 

30 de Setembro de 1989

 

___________________________________________________________________________________________________________________________

Eugénio Lisboa  
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]  

Eugénio Lisboa
Ensaísta e crítico literário. 

Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa em Letras, pelas Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988) e Aveiro. 

Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo promoveu a divulgação da cultura portuguesa e a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. 

Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal público de uma exigente e continuada atenção à obra regiana. 

 
 

 

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publicado às 17:46


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

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Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28


#2580 - Terreiro do Paço

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 Glória de Sant' Anna (1925-2009)

 

TERREIRO DO PAÇO

 

cavalga o rei de ferro em seu cavalo

verdoengos os dois no pedestal

recortados lá em cima

 

e alonga-se a crina

em falso movimento sugerido

pela água azul inquieta deste rio

 

cujas ninfas suportam a epopeia

de um povo que se esparsa pelo tempo

 

onde semeia trigo e saramago

no mesmo vento

 

Poema de Glória de Sant' Anna retirado da revista "Colóquio | Letras" n.º 110-111 - Julho / Outubro de 1989

 

coloquio letras 110-111013.jpg

 

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publicado às 15:49


#2549 - PRÉMIO DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

João Luís Barreto Guimarães, poeta portuense, venceu a 6.ª Edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa com o seu livro "Mediterrâneo" publicado em Março de 2016 pela Editora Quetzal.

Este Prémio foi criado em 1999 pela Câmara Municipal de Faro e a cerimónia de entrega realizar-se-á no dia 9 de Setembro.

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Biografia:

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967.

Vive em Leça da Palmeira.

É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.

Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro(1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006), A Parte pelo Todo (2009), Poesia Reunida (2011), Você Está Aqui (2013) e Mediterrâneo (2016).

Organizou a antologia de poesia mundial sobre gatos Assinar a Pele (2000).

A sua obra está editada em antologias e revistas literárias de uma dezena de países.

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publicado às 16:48


#2500 - O DEUS NULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.07.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

 

Não o espero. Não chegarei jamais, nem estarei aqui, ele não falará. Desejaria dizer o seu infortúnio inominável, o seu silêncio impossível. Desejaria acolhê-lo na sua nudez, no seu silêncio. Espera-me decerto, na sua pobreza incomensurável, pobre deus mudo, sem abrigo, de uma infinita miséria. O que escrevo, o que escreverei será a oferenda para o encontro dele. Mas não haverá encontro se ele não respirar na inesperada transparência de uma linguagem branca. Nada poderei oferecer se as palavras não constituírem essa íntima aliança que é o mistério mesmo da linguagem.

 

Estou só e continuarei  a estar só, na árida  e ávida deambulação destas palavras sem caminho. Lancinante, a suspensão interminável. Aqui agora é nunca. Julguei que poderia estabelecer uma relação serena e confiante mas não ouviaind nenhum apelo. Estou dentro de um círculo calcinado.

 

Poema de António Ramos Rosa, do livro "Antologia Poética" com Prefácio, Bibliografia e Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes - Edição Publicações Dom Quixote - Fevereiro de 2001

 

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Biografia                                                                                    

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 

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publicado às 10:54


#2490 - TEORIA SENTADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.07.17

 alexandra de pinho

 

TEORIA SENTADA

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade 

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.

 

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

 

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

 

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

 

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra 

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

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publicado às 18:56


#2482 - Poemas inéditos de Fernando Pessoa

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.07.17
 
 

O grupo editorial mexicano Fondo de Cultura Económica, que possui filiais em 11 países, acaba de colocar no mercado brasileiro a antologia bilíngue “Pessoa Múltiple”, organizada pelos professores Jerónimo Pizarro e Nicolás Barbosa. A antologia, reúne em um só volume, parte da produção do poética de Fernando Pessoa, com destaque para os poemas franceses e ingleses e o os livros “Rubayiat” e “Quadras”, além de poemas inéditos.

 

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em junho de 1888, e morreu em novembro de 1935, na mesma cidade, aos 47 anos, em consequência de uma cirrose hepática. Seus poemas mais conhecidos foram assinados pelos heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20. Além de exímio poeta, Fernando Pessoa foi um grande criador de personagens. Mais do que meros pseudônimos, seus heterônimos foram personagens completos, com biografias próprias e estilos literários díspares.

Após sua morte, em seus “baús cheios de gente”, foram encontrados mais de 30 mil escritos que, ainda hoje, continuam sendo editados e que, pouco a pouco, vão sendo conhecidos em toda a sua amplitude.

 

Sobre os antologistas

Jerónimo Pizarro é professor, tradutor, crítico e editor, responsável pela maior parte das novas edições e séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal desde 2006. Nicolás Barbosa é estudante de PhD em Literatura Portuguesa da Universidade Brown (E.U.A.), professor de inglês na Universidade Nacional da Colômbia, tradutor e intérprete.

O livro pode ser adquirido na livraria cultura. Os poemas selecionados são inéditos em antologias ou não foram publicadas em edições brasileiras.

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publicado às 17:57


#2471 - Cidade Velha - Cabo Verde I

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.06.17

CIDADE VELHA - CABO VERDE I

 

Manuel Maria de Moura e sua mulher Josefa Alvarenga

à mercê das sevícias que lhes excretam a campa

lado a lado progridem o húmus.

A igreja de lava amarelece

e conserva apenas dois portais,

as pombas não pousaram nos lambris

no fluxo da tarde a caminho da noite,

uma cabra sustida na janela,

entre a pedra e a pedra,

reflecte o mar numa pupila.

Sobe-se ao fortim

e a estrada como fita enrola-se à montanha.

Antigos  portugueses construíram-no

guiando pela mão os seus escravos,

Cabo-verdes ariscos debaixo do chicote

nivelaram o monte

e mantiveram

ritmo desigual.

Os guardas a cavalo

certificavam exacta proporção

e o forte ressurgia das matéria porosa,

coralínea

perfusa de bolhas minerais.

É baixo

e a nascente envolvem-no arestas.

Há nele precisão

rasgado no metal à força de buril

à custa de cinzel

liberta muralha onde fenece a lógica.

A meio fica a cisterna

memória da nascente ainda nos refresca.

No chão entre conchas

apanho um fragmento,

detecto um azulejo

azul magoando aquela superfície.

Onde perdeu a casa

na indecisa determinação

que Cabo Verde brande como lança de penas?

Nas alabardas os mapas de ferrugem

apontam à penúria as bocas sem mordaça,

o escudo português

inciso a fogo

um número sobre pele

começa a desfazer-se,

a esvair-se como o sangue sai do suicida

e o submete à própria crueldade.

Manuel Maria de Moura

deixou na pedra tumular

um voto de imprudência

«Até ao fim dos séculos não poderá abrir-se

o que ficou selado.»

Quando ao cair da noite via a lua roçar

contra o mar sua branda penugem

não suspeitou esgarçasse

a estável divisão

e o império, desfeito como um cirro,

liquefizesse abandonando os mortos.

Manuel Maria de Moura

ficaste solitário

acompanha-te o pelourinho branco,

intacto,

cornos de impala os ferros.

Aqui permaneceste

sujeito à  supressão, pouco te resta,

apenas uma pedra inchada de certezas.

 

Poema de Fátima Maldonado

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 Fátima Maldonado (Santo Amaro, Sousel, 1941). Ex-jornalista. Antiga crítica literária do jornal Expresso. Fez a sua estreia como poeta em 1980 com Cidades Indefesas. Publicou ainda: Os Presságios (1983), Selo Selvagem (1985), A urna no Deserto (1989), Caça e Persuasões (com Paula Rego, 1991), Cadeias de Transmissão (1999) e Vida Extenuada (2007).

 

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publicado às 22:48


#2466 - MÚSICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.06.17

ANTÓNIO GANCHO (1940-2005)

 

 

MÚSICA

 

A música vinha duma mansidão de consciência

era como que uma cadeira sentada sem

um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo

nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima

e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante

era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa

nós não movimentamos o espaço mas a vida erige a cifra

constrói por dentro um vocábulo sem se saber

como o que será

era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante

silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

 

Poema de António Gancho (O Ar da Manhã, 1995)

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António Gancho  
[Évora, 1940 - Telhal/Sintra, 2006]  
Poeta e ficionista. 

Nascido no início da década de 40, a poesia de António Gancho permaneceu inédita até 1985, data em que Herberto Helder reuniu, na sua antologia Edoi Lelia Doura, onze poemas do autor até então completamente desconhecido. As poucas informações biográficas disponíveis sobre António Gancho encontram-se aí expostas, dando a perceber a razão da escassez de publicação da obra deste poeta: «Com pouco mais de 20 anos foi internado numa clínica psiquiátrica, tendo vivido desde então em estabelecimentos deste género.» Sabe-se hoje que António Gancho viveu no estabelecimento psiquiátrico de Telhal (arredores de Lisboa) desde 1967 até à sua morte a 2 de Janeiro de 2006. 

Retirado da convivência editorial devido ao seu internamento, foi através do contacto com alguns amigos (de entre os quais se destacam Álvaro Lapa, António Palolo e Mário Cesariny, com os quais António Gancho tinha primeiramente contactado aquando da sua frequência do Café Gelo, ligado ao grupo dos surrealistas) que a sua produção chegou às mãos do editor. Assim, só em 1995 foi possível reunir, no volume intitulado O Ar da Manhã, toda a sua produção poética, datada de entre 1960 e 1985. 

Dividido em três conjuntos autónomos de poemas («Gaio do Espírito», 1985/86, «Poesia Prometida», 1985, e «Poemas Digitais», 1989), o livro em que se reúne a poesia de António Grango evidencia alguma heterogeneidade de temas e de formas poéticas, não sendo fácil a sua síntese. Assim, a par de poemas em que se explora ludicamente a materialidade sonora da linguagem como, por exemplo, nos versos «Route / Rota / Caminho puro e são / Chanção / Coração / Sahara / Uazara / Oasara / Oasimara»), com evidentes ressonâncias surrealistas, existem também alguns poemas, escritos na língua original dos autores homenageados, que se constituem como tributos a, entre outros, François Villon e Oscar Wilde, por via dos quais se estabelece uma interessante intertextualidade com os autores citados. 

Alguns dos mais interessantes poemas de António Gancho são aqueles em que está presente uma certa auto-reflexividade sobre os princípios de criação poética e que dão a ler os alicerçes da sua prática poética: «Nasce o sol e nasce o poema / e com esta simultaneidade / o que o poeta significa é que a sua arte é luz». Concebida como um processo de simultânea integração e totalização do homem na natureza, a poesia de António Gancho poderia ser sintetizada nestes versos seus, onde se afirma que «A poesia nasce e faz-se aqui neste fazer-se poesia. / […] A poesia assim maravilhosamente constituída / […] faz do homem o ser absoluto por natureza», sobretudo porque esta se funda num princípio de transmutação de todas as coisas: «A poesia assim é uma maravilhosa alquimia da vida». 
Centro de Documentação de Autores Portugueses
01/2009
 

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publicado às 22:17


#2464 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.17

 RUY BELO (1933-1978)

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que  o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopre e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente cala-se e mais nada

A boca é pra comer e para trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe,

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e a gente em vão requer

curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o  homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO

 

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publicado às 20:20


#2459 - À MEMÓRIA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.17

 EUGÉNIO DE ANDRADE

 

À MEMÓRIA DE RUY BELO

 

Provavelmente já te encontrarás à vontade

entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância

tomava sempre o comboio para as férias grandes,

já terás feito amigos, sem saudades dos dias

onde passaste quase anónimo e leve

como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,

que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,

sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso

ela aí estava, um pouco distraída, é certo,

mas estava, como estava o  mar e a alegria

ou a chuva nos versos da tua juventude.

 

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta

página de um jornal trazido pelo vento,

nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,

jornal onde em primeira página também vinha

a promoção de um militar a general,

ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:

isto de militares custa a distingui-los,

feitos em forma como os galos de Barcelos,

igualmente bravos, igualmente inúteis,

passeando de cu melancólico pelas ruas

a saudade e a sífilis do império,

e tão inimigos todos daquela festa

que em ti, em mim, e nas dunas principia.

 

 

Consola-me ao menos a ideia de te haverem

deixado em paz na morte; ninguém na assembleia

da república fingiu que te lera os versos,

ninguém, cheio de piedade por si próprio,

propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,

te quiz fazer visconde, cavaleiro, comendador,

qualquer coisa assim para estrumar os campos.

Eles não deram por ti, e a culpa é tua,

foste sempre discreto (até mesmo na morte),

não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,

não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,

e foste a enterrar numa aldeia que não sei

onde fica, ma seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol

 

Poema de Eugénio de Andrade in Epitáfios de Agosto, 1978

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publicado às 19:53


#2454 - BORRAS DE IMPÉRIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.06.17

 

BORRAS DE IMPÉRIO

 

I

Os impérios sempre se fizeram

com os que são forçados a fazê-los

e com os que ficam para ser mandados

e cuspidos pelos que querem fazê-los

Por isso, há nos povos imperiais

algo de um visgo de alma: que ou é cuspo,

ou um prazer dolente como  de escarra e cospe.

 

II

Há impérios que deixam no deserto ruínas de capitais pomposas.

 

E há os outros que se desculpam com tremores de terra

de terem passado sobre si mesmos como gafanhotos.

 

III

Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:

ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja

uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,

ou é com gente dessa que os impérios se fazem,

já que nada glorioso se constrói humanamente

sem 10% de heróis e 90% de assassinos.

 

Que coisa fedorenta a glória, sobretudo

enquanto não passam séculos e só ruínas

fiquem - onde nem o pó dos mortos

ainda cheire mal.

 

IV

Portugal é feito dos que partem

e dos que ficam. Mas estes

numa inveja danada por aqueles terem

sido capazes de partir, imaginam-lhes a vida

a série de triunfos sonhados por eles mesmos

nas horas de descrerem da mesquinhez em que triunfam

todos os dias. E raivosamente

escondem a frustração nos clamores

da injustiça por os outros lá não estarem

(como eles estão), do mesmo passo

que se ocupam afanosamente em suprimi-los

(não vão eles ser tão tolos - 

- a ponto de voltarem).

 

POEMA DE JORGE DE SENA ESCRITO EM 8 DE JUNHO DE 1971

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Jorge de Sena

Nasceu a 02 Novembro 1919
(Lisboa)

Morreu em 04 Junho 1978
(Santa Bárbara, Califórnia, EUA)

Jorge Cândido de Sena foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.
 
Escritor português, natural de Lisboa e naturalizado brasileiro, em 1963. Estudou em Lisboa, no colégio Vasco da Gama e no liceu Luís de Camões, onde, segundo o próprio, «andava já fazendo versos». Em 1937, entrou para a Escola Naval. A 1 de Outubro do mesmo ano, partiu no navio-escola Sagres, em viagem de instrução, que decorreu até Fevereiro do ano seguinte, após o que foi demitido da Armada. Entrou então para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Num jornal da faculdade, Movimento, publicou o poema Nevoeiro. Estabeleceu contacto com a revista Presença, através de Adolfo Casais Monteiro, a propósito de um poema de Álvaro de Campos. Desse contacto veio a resultar a ligação aos Cadernos de Poesia, onde Sena publicou, em 1940, os sonetos Mastros e Ciclo, e cuja direcção integrou durante algum tempo com Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José Augusto França. Formou-se na Faculdade de Engenharia do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas até 1959, data em que se exilou voluntariamente no Brasil. A partir daí, desenvolveu uma actividade académica intensa nas áreas da literatura e cultura portuguesas. Foi catedrático contratado de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (Estado de São Paulo). Em 1961, transitou para a Universidade de Araraquara, igualmente em São Paulo, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa. Adoptou a nacionalidade brasileira em 1963. Em 1965 seguiu, também como professor, para a Universidade do Wisconsin (EUA) e, cinco anos mais tarde, para a Universidade da Califórnia, onde veio a chefiar os departamentos de Espanhol e Português e o
 

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publicado às 18:06


#2442 - CANTO DAS IMAGENS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.17

 FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

CANTO DAS IMAGENS

 

Ao princípio era só uma em cada olhar

após a grande divisão das águas

e mesmo, segundo disse Baudelaire, a imagem

até ao seu século do real múltiplo

era una, única e própria. Dementes

chamou este cantor aos fotogramas

que roubavam à alma a unicidade

e deram aos olhos frívolos as figuras

plurais, idênticas, dispersivas.

Era somente uma a imagem mística,

dos entes naturais aos transcendentes.

Só uma esta vermelha afelandra

embora as suas irmãs se lhe assemelhem

e desassemelhem, cada uma, sempre.

O concreto pulsava neste ritmo

das coisas parcas, poucas, singulares.

E de repente, nos olhos do poeta

cada coisa reproduziu a imagem

inumeradamente, e a ideia

decaíra no  banal prolixo.

Antes, podia hesitar-se entre o modelo

e as sombras de Platão, agora as flores

malignas, podem reproduzir-se no mundo

nítidas, iguais, supérfluas.

Eu ainda vejo o olhar antigo de Baudelaire

e cada coisa vibra no seu mito,

e cada imagem cria o seu espírito,

e cada cópia fotográfica muda

na liminarmente máxima diferença.

Ao crítico e amante da Pintura

as dúbias imagens decerto deram

a cada rosto um só outro rosto,

a cada paisagem uma só tela.

Já os vidros, a água, a prata traziam

a incerteza aos traços, como se os olhos

que nos deu a Natureza nos fossem

infiéis. E o poeta pôde resistir

a esta perda das formas consagradas

e consubstanciais das coisas que ainda

ecoam a Criação como o eco cósmico

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão escrito em 30 de Outubro de 1993 retirado do livro "Obra Breve - Poesia Reunida", páginas 558 e 559, com prefácio de Eduardo Lourenço, e edição da Assírio & Alvim n.º 0976, Maio de 2006

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Dramaturga, tradutora e poeta, formada em Filologia Germânica na Universidade de Lisboa, exerceu actividade de investigação na área da literatura e da linguística. Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61, colectânea que reflectia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acesso pela palavra pura a um tempo primordial. O critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maior pode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta como fontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme do Conhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar nas palavras e nas imagens e que só por acumulação diurna e através da absorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de Cântico Maior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve, 1991). Sob o Olhar de Medeia, a obra que marca a primeira incursão no romance por parte desta autora, foi publicado em 1998. Faleceu em Lisboa no dia 20 de Janeiro de 2006.

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publicado às 17:14


#2436 - AS MÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.06.17

 EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005)

 

AS MÃES

 

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes enconstam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas  pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma  ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das , tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela,regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando algumas azeitonas para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela, só ele vê.

 

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressureição.

 

Poema de Eugénio de Andrade

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publicado às 10:45


#2422 - NINGUÉM MEU AMOR

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

 SEBASTIÃO ALBA (1940-2000)

 

NINGUÉM MEU AMOR

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos

 

Poema do poeta português Sebastião Alba (1940-2000)

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Sebastião Alba
 
Escritor português, Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu a 11 de março de 1940, em Braga.

Em 1949, partiu para Moçambique, para Tete, onde foi viver com os pais e irmãos, passando a viver, nos finais dos anos 50, em Quelimane. Aos 21 anos desertou do Contingente Militar Geral (em Boane) e no segundo dia de fuga foi preso e torturado durante dois anos.

Manifestando o seu apoio à FRELIMO,após frequentar um curso de Formação em Inhanbane, exerceu o cargo de administrador da província da Zambézia que abandonou alguns meses depois. Estabelecendo-se em Maputo, tomou contacto com intelectuais e personalidades políticas importantes, como Marcelino dos Santos, RuiNogar, SérgioVieira, Honwana, entre outros.
 
Desiludido com a situação política em Moçambique, regressou a Portugal, em1983. Após vários problemas familiares e com problemas de álcool e tabaco,Sebastião Alba resolveu ir sozinho para a sua cidade natal e, por decisão própria, passou a viver na rua.

Colaborou na revista Caliban e no Correio do Minho e publicou as seguintes obras: Poesias (1965), O Ritmo do Presságio (1974), A Noite Dividida (1982), OLimite Diáfano (1996), a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (2000, livro póstumo).
A 14 de outubro de 2000 , Sebastião Alba morreu atropelado em Braga.
 
A 7 de outubro, quase como pressentimento, tinha escrito ao amigo Vergílio AlbertoVieira: "Se um dia encontrarem morto" o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar:dois sapatos,a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá."
 

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publicado às 17:29


#2419 - Morte do poeta Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.17

 ARMANDO SILVA CARVALHO (28 de março de 1938 - 1 de Junho de 2017)

 

Armando Silva Carvalho nasceu em Olho Marinho, Óbidos, em 1938. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia por pouco tempo, optando pelo jornalismo, pelo ensino, pela publicidade e pela tradução.
A sua obra tem vindo a ser reconhecida pela crítica e distinguida com diversos prémios, como o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas, para citar apenas alguns.

Morreu aos 79 anos de idade.

 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

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Ninguém é filho do poema universal.

Nem pai

do seu rebanho de versos.

O que eu busco é um lar.

Um lar mais natural nas palavras

da terra

com os lábios invisíveis sobre o livro

dos mortos.

 

Dois poemas de Armando Silva Carvalho retirados do livro "Obra Poética (1965-1995)", páginas 631 e 634 - Edições Afrontamento, Julho de 1998 e com prefácio de José Manuel de Vasconcelos.

 

 

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publicado às 17:12


#2402 - Um poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

ALMADA NEGREIROS (1893-1970)

 

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda

não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor

de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão

de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

 

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho

sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas  viagens,

aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas

ambas com as mesmas palavras.

 

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!

Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.

Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para

a nossa casa, como a mesa.

 

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

 

Poema de Almada Negreiros

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Almada-Negreiros
Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abrilde 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

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publicado às 16:42


#2374 - GENÉRICO

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.05.17

 fernando assis pacheco (1937-1995)

 

GENÉRICO

 

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos

das lágrimas quebrando

um a um na boca triste mas

por dentro, para que digamos

mais tarde, sem invenção escusada:

o pai não chorou.

 

Eu soube das tuas fúrias

mordendo-se em silêncio,

ou de como te pões

às vezes tão de cinza.

O barco, o barco. Ficaremos

ainda estes minutos quantos.

Do que quiseres. E como quiseres.

Fala. Mas nada de telegramas

para depois da barra

- posso não os abrir,

juro que posso.

Se eu fosse um amigo, se estivesses

em frente dum copo.

Custava menos. Assim

deslizas a unha

pelo tecido da farda, inútil

dedo terno com os olhos longe.

O pai, que não chorou, tremia

de modo imperceptível.

 

Lembro-me da bebedeira

em Alpedrinha, na estalagem,

com o Luís Melo

subitamente velho.

«Tramados, pá, tramados.»

O carro falha, são as velas

os platinados sujos

«a puta que os pariu» (Luís).

 

Um último aceno só vinho

para estas adolescentes

ao balcão do bar e depois e depois?

 

Mas o pai não chora.

Segura-me pelo braço, não chora.

Eis o filho

dos anos meus incorruptíveis.

Nasceria de uma pedra.

Longe do mundo é que ele nasceu.

E não mo tireis nunca

ó cegos capitães!

 

Meia hora antes o pai

filmou o Tejo, as tropas.

Era um barco, um barco onde ele ia.

Era um barco cheio.

 

Poema de Fernando Assis Pacheco (CÃU KIÊN: UM RESUMO, 1972)

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publicado às 18:19


#2373 - ANTI-ÉCLOGA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

 JOSÉ MIGUEL SILVA

 

ANTI-ÉCLOGA

 

A verdade é que também as urtigas

me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,

a silvestre quietude da tarde atravessada

pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras

de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser

tão daninho com a luz de um semáforo

vermelho, mas um pouco de sangue

na biqueira do sapato faz-me falta.

Faz-me falta praguejar, ter um lago

de cimento onde cuspir, obstáculos

de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.

Não me sinto nada bem com a doçura,

com a paz dos ermitérios, de onde Deus

se retirou há quinze anos. Esta resignação

das árvores, dos faunos, das silvanas,

da restante bicharada típica dos lugares

onde sofrer é natural como estar só,

a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos

que me apertem. As sandálias do pescador,

as botas do alpinista, não me levam

a lado nenhum. Detesto confessá-lo,

mas eu sou da cidade até à raiz do terror.

 

Não consigo viver sem o sasco de areia

onde exercito o excessivo golpe da exasperação.

Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,

torna-se pastosa, sonolenta, felizita

como um rio de meandros preguiçosos,

lamacentos, imprestáveis - de que me serve

fingir o sossego a que não chego, brincar

às Arcádias em que não acredito?

Está decidido, prefiro sofrer.

Amanhã de manhã regresso ao abismo.

 

Poema de José Miguel Silva (Ulisses jã não mora aqui, 2002)

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publicado às 21:42


#2372 - ALEGRIA, IMENSA ALEGRIA [SUKOT]

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

ALEGRIA, IMENSA ALEGRIA [SUKOT]

 

Povoa-nos, alegria. Habita em nós como um barco ilumina o oceano,

como um cavalo na intensidade da planície deserta

levanta os seus olhos até às hastes do plátano mais incandescente.

Constrói em nós a arquitectura das cidades do sul, o labirinto,

 

o oculto, a fome, a sede, a rapidez do nome, o seu despojamento

eterno, a água dos litorais, o Outono, a passagem das aves.

Povoa-nos, alegria imensa da alegria sem adorno, apenas

alegria sem deuses, nem a passagem, o sacrifício, as leis, os rios

 

do exílio, o êxodo, a sombra das cabanas, o sangue, a terra, o rosto

frio, os astros  perdidos, os lábios secos, o coração do deserto.

Povoa-nos como a uma pátria de exilados, como a um corpo sem vestes

 

nem fragmentos, colheitas, transpiração, ardor, uníssono.

Habita em nós, alegria da vastidão, começa em nós onde o tempo

sobrevive. Povoa-nos, alegria, envolve-nos sofregamente, veloz.

 

POEMA DE FRANCISCO JOSÉ VIEGAS - (AS IMAGENS, 1987)

 

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publicado às 20:14


#2367 - I was made to love Magic

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.05.17

 

 

RUI PIRES CABRAL

I Was Made To Love Magic

A manhã com as suas proibições
na tua fala. A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos
não coincidiam com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido
uma mudança, onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.

Rui Pires Cabral, in 'Música Antológica & Onze Cidades' ,1997

 

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publicado às 19:09


#2365 - O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANNA ALCOFORADO

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.05.17

 ADÍLIA LOPES - PSEUDÓNIMO DE MARIA JOSÉ DA SILVA VIANA FIDALGO DE OLIVEIRA

O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANNA ALCOFORADO

 

Minha senhora deve ter

uma coisa muito urgente e capital

a dizer-me

porque me tem escrito muito

e muitas vezes

porém lamento dizer-lho

mas não percebo

a sua letra

já mostrei as suas cartas

a todas as minhas amigas

e à minha mãe

e elas também não percebem bem

não me poderia dizer

o que tem a dizer-me

em maiúsculas?

ou pedir a alguém

com uma letra mais regular

que a sua

que me escreva

por si?

como vê tenho a maior boa vontade

em lhe ser útil

mas a sua letra minha senhora

não a ajuda

 

Poema de Adília Lopes (O Marquês de Chamilly (Kabale Und Liebe), 1987)

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publicado às 13:29


#2364 - UM CÉU DE FUNCIONÁRIOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.05.17

UM CÉU DE FUNCIONÁRIOS

 

Apetecia-lhe escarrar a alma contra o pára-brisas, para que esse escarro ficasse a boiar na solidão, a fazer corpo com ela, e aí se diluíssem os traços fisionómicos de todos os transeuntes. «Uma aberta», implorou mentalmente, «uma aberta», como se as nuvens lhe entrassem na garganta e a névoa o sufocasse. Ao aguardar vez para entrar num dos grandes eixos da cidade o aroma pisado a ervas trouxe-lhe dum tímido canteiro o primeiro sinal da primavera. Aspirou-o como se o esgotasse, como se tudo o que naquelas ervas houvesse de fragrância dentro de si pudesse fazer corpo com os olhos, os ouvidos e o palato. «Consubstanciação», pensou, «transubstanciação». Subitamente sucederam-se parkings, estações de  serviço, anúncios de escritórios, versiekerung, na própria treva que os portais bolçavam havia algo de estagnado, amarelado, a luz seguia algures o seu percurso, sentia a vida nos escapes dos camiões como se ao meterem as mudanças os condutores metessem outra realidade, era pelo menos essa a sensação que dava quando ouvidos na distância. Num carro ao lado beijavam-se dois heterossexuais aproveitando mais uma paragem forçada, semáforo ou novo engarrafamento.O que do almoço lhe restava na lembrança era mais real do que o que dele trazia no estômago, rua após rua, esquinas, travessas sucedendo-se às avenidas, gruas subitamente hieráticas, totémicas, um escarro, a luz tornando a solidão tangível, luz onde as janelas se rasgam como coisas vivas, como se por trás delas houvesse água, poços onde a treva fermentasse, de uma janela aberta chegaram-lhe aos ouvidos duas ou três notas de um piano, duas ou três notas musicais onde uma vida inteira se poderia cifrar, bastaria que para tanto se encontrasse uma forma, um estilo (diria o poeta), algo que nos seus moldes contivesse o esparramar da vida. Ia chegando atrasado, disso não havia a menor dúvida.

 

Como se algures, num plano que ele apenas intuía, a luz rodopiasse velozmente, sorvida por um invisível ralo que ele trouxesse dentro do seu espírito.

 

Um céu de funcionários.

 

Poema de Luís Miguel Nava retirado do livro «Poesia Completa - 1979/1994» com prefácio de Fernando Pinto do Amaral e organização e posfácio de Gastão Cruz, editado pelas Publicações Dom Quixote em Março de 2002

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publicado às 20:27


#2362 - ATRÁS DA PÁGINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.17

LUÍS MIGUEL NAVA

(BIOGRAFIA) 

 

ATRÁS DA PÁGINA

 

As mãos no poema, pelas páginas

acima escoam-se os espelhos, a trovoada

vermelha emerge das imagens. A trovoada

redonda. Uma revoada

de espelhos é a alba, há poços nos espelhos

onde a nudez

se precipita, a luz mordendo a água.

 

Do poema vêem-se as trovoadas

imóveis

atrás da página, as imagens,

da alba, as dum rapaz arriando a noite, os astros

a afluirem-lhe aos cabelos. Vêem-se

à tona da trovoada os lenços

caindo  na manhã, com as veias do rapaz

as desta a confundirem-se, depois

os poços da nudez abertos pelos astros.

 

Esse rapaz as suas próprias veias

o amarram à manhã.

Não me olhar ele ateia-me. Pequenos

incêndios, os da abóbada

do poema, arrancam-lhe a nudez.

Está alguém ao poema como a um espelho.

 

POEMA DE LUÍS MIGUEL NAVA, DO LIVRO "POESIA COMPLETA - 1979/1994", EDIÇÃO PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE, MARÇO DE 2002. O LIVRO TEM O PREFÁCIO DE FERNANDO PINTO DO AMARAL E A ORGANIZAÇÃO E POSFÁCIO DE  GASTÃO CRUZ

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publicado às 22:56


#2340 - À MANEIRA DE YUAN MEI

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.05.17

 

 À MANEIRA DE YUAN MEI

 

No meio do silêncio

a memória fustiga

o rosto do homem

que fechou o coração

ele sabe que a chuva e o vento

não são nada comparados

com a tempestade que se abate

sobre a sua consciência

não ousa abrir a porta

ou mesmo um postigo

que dá para um pátio interior,

por qualquer deles

poderiam entrar as montanhas

e os mares em fúria.

 

Poema incluído no livro Memórias da Casa da China e de Outras Visitas, edição de fevereiro de 2017 da Assírio & Alvim

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publicado às 17:45


#2322 - BLOCO INTACTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.04.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

BLOCO INTACTO

 

Abrindo a álea

vertical sobre o vértice do instante

sem frenesim mas denso de

todo o sangue que me enche no silêncio desta álea

caminho para ti

lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança

e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio

a permanente coroa branca efervescente branca

na tranquila anónima macia dourada suburbana álea

a seda deste instante não se rasga

é um grande bloco intacto que se desloca

para a minha eternidade

a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva

a parede de água que contenho a porta doce e clandestina

a porta que desliza

e é então que

no espaço da vertigem

em ti me uno à sede e das raízes subo

e pelas raízes sou

 

Poema de António Ramos Rosa do livro "Antologia Poética", com selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes, edição Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2001

 

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publicado às 18:10


#2313 - MEMÓRIAS DA CASA DA CHINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.04.17

 

MEMÓRIAS DA CASA DA CHINA

 

Wei Mu e Wang Wei

apropriaram-se de nuvens

brancas e de coração pleno

foram juntar-se aos sete Sábios

do bosque sagrado de bambus

ao cruzarem-se com Ruan Ji

receberam como prova

da sua bondade

o negrume austero

dos olhos do poeta,

e assim, de coração lavado,

foram como eremitas purificar

os campos de levante

e abençoar os frutos

temporãos da primavera;

 

com um coração assim

até se pode viver

no meio dos homens.

 

POEMA DE MANUEL AFONSO COSTA INCLUÍDO NO LIVRO "MEMÓRIAS DA CASA DA CHINA E DE OUTRAS VISITAS" - EDIÇÃO ASSÍRIO & ALVIM DE FEVEREIRO DE 2017

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publicado às 13:20


#2312 - TAU - Um poema de Ruy Cinatti

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.04.17

 RUY CINATTI (1915-1986)

 

TAU

 

O  tempo passa tão devagarinho

quando Tu passas, meu Deus,

e quando a velocidade é repentina

eu fico alucinado, perdido de todo,

ruído de barracas de feira, de comícios de partido,

de qualqer coisa, enfim, o hino nacional,

um cântico religioso, um blue,

Harry Belafonte, Ella Fitzgerald, outros e outras,

bêbedos, drogados, sim ou não, inoculados, imunizados quando te honram nos seus spirituals,

tanto se me importa...

Eu quero é ouvir invocar o Teu nome, ó Senhor meu, em nome colectivo e também só meu

e adormeço sossegado, humilde e consciente

de que Te amo muito mais do que a mim

aos Outros que desconheço e de quem gosto muito, ó indivíduo Emmanuel.

O Poder e a Glória, esses Teus atributos,

e eu, Ruy Cinatti, agradecido cão,

que olha líquido prò olhar do Dono, ò Coisa inefável!...

um trilo pastoril de flauta na Serra da Estrela, Marão ou no Soajo - transumância, eu quero mudar de vida!-

ou em Timor-Ocússi... Atóni, Atóni... chamam por ti, homem, tantos homens te procuram

ó desgraçado Mau Bére... ó Timor meu Amigo.

Ó Pastor, procura-a, não deixes que se perca a Tua ranhosa ovelhinha...

A palavra cala-se, a boca fede, o silêncio é de oiro

O silêncio é de oiro, a palavra cala-se, a boca sorri

 

e depois, ó maravilha de delicadeza, Tu salvas a nossa Vida!

 

Poema de Ruy Cinatti in "Obra Poética" - Volume I, edição Assírio & Alvim de Outubro de 2016

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publicado às 20:23


#2298 - OLHANDO O MURO

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.04.17

 LUÍS MIGUEL NAVA (1957-1995)

 

OLHANDO O MURO

 

E assim ficava olhando o muro. Não atentava então

na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam,

nos fragmentos vários do horizonte de que a luz fazia

um jogo insuportável. Tão pouco em como a sublevação

das paisagens é matéria da linguagem, tão pouco nisso

ele atentava ao colocar o olhar no muro, outro suporte

procurando, a ele idêntico, no leite à superfície do qual

pequeninos nós de fezes eclodiam, nós que com uma

vara ele agitava e perturbava com fascínio. Metade do

seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da

fabulação de que apenas os animais o libertavam contra a 

face lhe quebrando imagens fortes - as fezes imiscuindo-se

no muro, a luz uma indecção que alastra pelo leite, a vara

de agitá-lo desviada desse ofício. Estranhos actos cometia

ele então, deles o mais minucioso sendo  a introdução de

mínimos calhaus nos intestinos.

 

Poema de Luís Miguel Nava 

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publicado às 19:03


#2282 - Não há outro caminho

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

 Rui Pires Cabral

 

NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

para o Vítor

 

Os poemas podem ser desolados

como uma carta devolvida,

por abrir. E podem ser o contrário

disso. A sua verdadeira consequência 

raramente nos é revelada. Quando,

a meio de uma tarde indistinta, ou então 

à noite, depois dos trabalhos do dia,

a poesia acomete o pensamento, nós

ficamos de repente mais separados

das coisas, mais sozinhos com as nossas

obsessões. E não sabemos quem poderá 

acolher-nos nessa estranha, intranquila

condição. Haverá quem nos diga, no fim

de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?

Não sabemos. Mas escrevemos, ainda

assim. Regressamos a essa solidão

com que esperamos merecer, imagine-se,

a companhia de outra solidão. Escrevemos,

regressamos. Não há outro caminho. 

 

Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim 

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publicado às 16:53


#2281 - Os Cegos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

 Alexandre O'Neill

 

OS CEGOS

 

                                                                                                      Ah, Madame! que la morale des aveugles

                                                                                                                  est différente de la nôtre!

 

                                                                                                                              DIDEROT - Lettre sur les aveugles  

 

 

Durante os meses de inverno, podemos ver os cegos, sobre os telhados, acariciando os dedos - à procura duma mãe que não seja virgem.

 

O prazer torna-os redondos como ovos e o vapor de água vem flutuar sobre os seus bigodes sempre em sangue.

 

Às vezes soluçam e deixam escapar da boca pequenas coisas - o  que não basta para interromper o jogo.

 

Quando chega a primavera, os cegos caem dos telhados e começam a andar  pelas ruas à procura da moeda de perfil de luz.

 

Prosa escrita por Alexandre O'Neill in POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS - ASSÍRIO & ALVIM 2017

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publicado às 16:24


#2279 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.04.17

alexandre o´neill032.jpg

 POESIAS COMPLETAS & DISPERSOS de Alexandre O'Neill - Edição e posfácio de Maria Antónia Oliveira.

Livro publicado em Março de 2017 por Assírio & Alvim

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publicado às 15:26


#2275 - UM POEMA DE MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher 

nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias

e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança

da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

 

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo

incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os 

trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e 

falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade. 

 

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los 

da dor como aos filhos que não iremos ter nunca

porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão 

 

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem

cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.

E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem. 

 

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, ed. Quetzal 

 

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publicado às 18:32


#2274 - TABACARIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

(Fernando Pessoa)

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

 

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

 

 

 

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publicado às 18:13


#2243 - DO LIVRO DO DESASSOSSEGO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.17

...O velho sem interesse das polainas sujas, que cruzava
freqüentemente comigo às nove e meia da manhã? O caute-
leiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e
corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da
tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os
tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também
eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da
Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu — a alma que
sente e pensa, o universo que sou para mim — sim, amanhã
eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que
outros vagamente evocarão com um "o que será dele?". E
tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não
será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de
ruas de uma cidade qualquer (...)

 

Fernando Pessoa - Excerto do Livro do Desassossego (Edição Brasileira)

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publicado às 20:07


#2169 - Correntes d' Escritas - Póvoa de Varzim

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.02.17

 

 

 ARMANDO SILVA CARVALHO

 

Armando Silva Carvalho, com o livro "A Sombra do Mar", foi o vencedor do prémio literário "Corrente d' Escritas" que decorre na Póvoa do Varzim até ao dia 25 de Fevereiro.

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publicado às 18:24


#2142 - FICÇÃO [1985]

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.01.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

O desejo do início e do silêncio

para que o instante seja a fábula do instante

O silêncio para dizer as palavras anteriores

É o centro talvez a suspensão a perda

o fundo: a ausência de cor

fundo incessante que procuro defender

do assédio do sentido contra

as presenças acidentais e a agitação da superfície

Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:

como transpor a parede circular

das coisas?

                          Lá fora a forma opaca

e provisória do ar as mesmas marcas

coloridas a distraída escrita

do acontecimento As pessoas passam

inscritas na janela com as casas e as árvores

e a árvore negra na curva, o céu oblíquo

Um olhar geral penetra-me e na ausência

de uma perspectiva já não sou

uma visão do mundo mas a subterrânea

corrente das intensidades do desejo

Aqui reina a imagem de um olho global

e é aqui que invento a metáfora da Figura.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA RETIRADO DO LIVRO "ANTOLOGIA POÉTICA" EDITADO EM 2001 POR PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE E CUJO PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO É DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

 

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publicado às 16:40


#2139 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.01.17

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publicado às 16:35


#2108 - Balada dos amigos separados

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.16

BALADA DOS AMIGOS SEPARADOS

 

Onde estais vós Alberto Henrique

João Maria Pedro Ana?

Onde anda agora a vossa voz?

Que ruas escutam vossos passos?

Ao norte? ao sul? aonde? aonde?

José António Branca Rui

E tu Joana de olhos claros

E tu Francisco E tu Carlota

E tu Joaquim?

Que estradas colhem vosso olhar?

Onde anda agora a vossa vida repartida?

A oeste? A leste? Aonde? aonde?

Olho prà frente prà cidade

e pràs outras cidades por tràs dela

onde se agitam outras gentes

que nunca ouviram vosso nome

e vejo em tudo a vossa cara

e oiço em tudo o som amigo

a voz de um a voz de outro

e aquele fio de sol que se agitava

sempre

em todos nós

Dançam as casas nesta noite

ébrias de sombra nesta noite

que se prolonga em plena angústia

aos solavancos do destino

e não consegue estrangular-nos

Sigo e pergunto ao vento à rua

e a esta ânsia inviolável

que embebe o ar de calafrios

Onde estais vós? onde estais vós?

E por detrás de cada esquina

e por detrás de cada vulto

o vento traz-me a vossa voz

a rua traz-me a vossa voz

a voz de um a voz de outro

toada amiga que me banha

tão confiante tão serena

Aqui aqui em toda a parte

Aqui aqui E tu? aonde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO RETIRADO DO LIVRO "POESIA COMPLETA" EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA 2016

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publicado às 19:17


#2107 - Um poema de Mário Dionísio

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.16

MÁRIO DIONÍSIO

 

eis-te de novo minha pátria inquietante

de esquinas fugidias nua aos perigos

de novo o fosso aberto o passo instável

as porteiras olhando os vizinhos olhando

e o riso frio das ilusões denunciadas

nas clareiras do espanto abertas pelo escuro

 

de novo tu minha pátria invisível

dos pontos cardeais em chama lenta

de novo tu minha pátria forçosa

do silêncio gritante e desolado

 

de novo as portas se nos fecham e os olhos

passam de largo e fingem não nos ver

de novo sós nas ruas alvejadas e de novo

os tijolos primeiros nos degraus hesitantes

cada um em seu posto a estrada vive entre folhas que voam

cada um em seu posto ergue-se a vida ao alto

 

vem coração aqui está a tua pátria

vem coração operário de outras horas

vem ledo e forte pelos bairros tristes

nas macieiras rompem as maçãs

desponta loiro o trigo no chão negro

é entre mortos que o futuro floresce

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA, 2016

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publicado às 18:49


#2101 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.09.16

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 MÁRIO DIONÍSIO

 

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publicado às 12:45


#2075 - Poema de António Franco Alexandre

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.07.16

 ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

 

 

o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,

espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,

o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;

ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,

surpreende o vigor, a plenitude

das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,

separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,

e o circuito das chamas recomeça.

 

é um país subtil, o olho franco das mulheres,

há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,

os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,

morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,

viajar de navio de buenos aires a montevideu.

esta é a viagem que não faremos nunca, soltos

na minuciosa tarde dos lábios,

ágil pobreza.

 

permanentemente floresce o horizonte em colinas,

os animais olham por dentro, cheios de vazio,

como um ladrão de pouca perícia a luz

desfaz devagarmente os corpos.

ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,

para que seja

alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,

no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

 

POEMA DE ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

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publicado às 15:46


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