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#2142 - FICÇÃO [1985]

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.01.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

O desejo do início e do silêncio

para que o instante seja a fábula do instante

O silêncio para dizer as palavras anteriores

É o centro talvez a suspensão a perda

o fundo: a ausência de cor

fundo incessante que procuro defender

do assédio do sentido contra

as presenças acidentais e a agitação da superfície

Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:

como transpor a parede circular

das coisas?

                          Lá fora a forma opaca

e provisória do ar as mesmas marcas

coloridas a distraída escrita

do acontecimento As pessoas passam

inscritas na janela com as casas e as árvores

e a árvore negra na curva, o céu oblíquo

Um olhar geral penetra-me e na ausência

de uma perspectiva já não sou

uma visão do mundo mas a subterrânea

corrente das intensidades do desejo

Aqui reina a imagem de um olho global

e é aqui que invento a metáfora da Figura.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA RETIRADO DO LIVRO "ANTOLOGIA POÉTICA" EDITADO EM 2001 POR PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE E CUJO PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO É DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

 

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publicado às 16:40


#2108 - Balada dos amigos separados

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.16

BALADA DOS AMIGOS SEPARADOS

 

Onde estais vós Alberto Henrique

João Maria Pedro Ana?

Onde anda agora a vossa voz?

Que ruas escutam vossos passos?

Ao norte? ao sul? aonde? aonde?

José António Branca Rui

E tu Joana de olhos claros

E tu Francisco E tu Carlota

E tu Joaquim?

Que estradas colhem vosso olhar?

Onde anda agora a vossa vida repartida?

A oeste? A leste? Aonde? aonde?

Olho prà frente prà cidade

e pràs outras cidades por tràs dela

onde se agitam outras gentes

que nunca ouviram vosso nome

e vejo em tudo a vossa cara

e oiço em tudo o som amigo

a voz de um a voz de outro

e aquele fio de sol que se agitava

sempre

em todos nós

Dançam as casas nesta noite

ébrias de sombra nesta noite

que se prolonga em plena angústia

aos solavancos do destino

e não consegue estrangular-nos

Sigo e pergunto ao vento à rua

e a esta ânsia inviolável

que embebe o ar de calafrios

Onde estais vós? onde estais vós?

E por detrás de cada esquina

e por detrás de cada vulto

o vento traz-me a vossa voz

a rua traz-me a vossa voz

a voz de um a voz de outro

toada amiga que me banha

tão confiante tão serena

Aqui aqui em toda a parte

Aqui aqui E tu? aonde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO RETIRADO DO LIVRO "POESIA COMPLETA" EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA 2016

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publicado às 19:17


#2107 - Um poema de Mário Dionísio

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.16

MÁRIO DIONÍSIO

 

eis-te de novo minha pátria inquietante

de esquinas fugidias nua aos perigos

de novo o fosso aberto o passo instável

as porteiras olhando os vizinhos olhando

e o riso frio das ilusões denunciadas

nas clareiras do espanto abertas pelo escuro

 

de novo tu minha pátria invisível

dos pontos cardeais em chama lenta

de novo tu minha pátria forçosa

do silêncio gritante e desolado

 

de novo as portas se nos fecham e os olhos

passam de largo e fingem não nos ver

de novo sós nas ruas alvejadas e de novo

os tijolos primeiros nos degraus hesitantes

cada um em seu posto a estrada vive entre folhas que voam

cada um em seu posto ergue-se a vida ao alto

 

vem coração aqui está a tua pátria

vem coração operário de outras horas

vem ledo e forte pelos bairros tristes

nas macieiras rompem as maçãs

desponta loiro o trigo no chão negro

é entre mortos que o futuro floresce

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA, 2016

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publicado às 18:49


#2063 - MAOMÉ E A MONTANHA

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.16

 ROSA  ALICE BRANCO

 

MAOMÉ E A MONTANHA

 

Guardo o mais absoluto segredo
das pedras que rolam no fundo dos leitos
embora nada saiba,
nada ouse saber.
Vou pelo olhar até ao rio,
o rio vem a mim
e ambos caminhamos deslumbrados
para fora de nós.

O cantar da água
corre nos meus olhos exactamente como corre
a manhã
até que o sol a prumo
faz de mim o desenho do rio
que vejo,
o mapa das veias
onde o corpo nasce de novo.

À vinda procuro a minha sombra.
O coração que me há-de trazer de volta
demora-se no rio
como se nele corresse
uma sede de olhar.

Os pés colam-se à margem.
Do outro lado as casas vão mudando
de expressão
mais lentamente do que a água corre.
O sol abraça-me pelas costas
e deixa-se escorregar como crianças
que riem,
que não distinguem a voz seca do tempo.

É noite à lareira da casa.
Os objectos acendem-se:
também eles mudam de rosto
como tudo o que é iluminado por amor.
Aproximo-me de longe,
venho do rio,
o rio vem de mim.

Rosa Alice Branco, in 'O Único Traço do Pincel' , 1997

 

 

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publicado às 18:21


#2054 - ENGANOS E DESENCONTROS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.16

 RUY BELO

 

ENGANOS E DESENCONTROS

 

Canto o homem solar que pisa a neve

A palavra confirma-se em silêncio

as metáforas sobem as metáforas descem

O homem é desejo e não trabalho

é essa mesmo uma das suas definições

Todos os paraísos se baseiam no presente

mas ao matar a morte  matam o prazer

O agora do corpo une-nos à morte

O que é que eu fiz da minha juventude?

pergunta tristão uma vez findo o sortilégio

que o unia a isolda a loura e do rosto claro

Canto esse antigamente esse tempo impossível hoje para nós

quando rivalen o súbdito de marc

com o furor dos amadores da cornualha

se apaixonou por brancaflor irmã de marc

e assim deu início a um conto de amor e da morte

Isolda amou tristão com louco amor

e ouvia o seu cantar como só canta

o rouxinol quando o verão acaba

Ambos refugiados na floresta de morois

vêem chegar a estação quente uma terceira vez

tão belos e imóveis como estátuas mas

marc o ingénuo tio de tristão

em vez da realidade via as aparências e

quanta tortura amor terá causado

A única época feliz do homem terá sido o neolítico

quando o momento triunfava do futuro

Aquele que depois se dedicou a edificar a casa de amanhã

foi vítima do quadro do presente

O paraíso é de anjos e animais

articulemos nós só a palavra vida

Com a frágil felicidade sempre ameaçada

tristão despede-se da sua loura amiga

e extrai o seu prazer do esquecimento

Pesa-lhe na cabeça um pensamento

aves do bosque sede ao seu serviço

E tristão busca isolda com

a cruz no crânio dos loucos de outrora

Quando o sol se levanta traz a claridade

deixai-os ir ao fundo da loucura no

país afortunado dos viventes

Mas nunca mais na vida a voltaria a ver

Cólera de mulher é coisa de temer

e a mulher de tristão fá-lo morrer

antes que chegue o navio de isolda

Sem alteridade não há unidade

A poesia pode muito para mim

pois vem iluminar os meus fantasmas

Quando uma sociedade se corrompe

corrompe-se primeiro a linguagem

 

A tarde escreve uma curva suave

Vou muito simplesmente com o vento

sem sequer conhecer que fujo de mim mesmo

O trigo na campina amadurece

passeio no jardim a cena passa-se no espírito

digo-te adeus e digo adeus à minha juventude

Falo desses teus olhos matutinos

coroo-te de flores ó donzela

tão branca como a cera alta como a gazela

Tens no olhar o prestígio da guerra

voz velada de sol talvez luar

Quero um país que tenha a minha idade

Sinto ter ante mim tempos sem fim

Chego ao termo de quanto pode amar um homem

Já não há uma pátria para mim

falas e logo o tempo se detém

na fragrante fragrância do teu rosto

que luz constantemente em abundância

O murmúrio da minha indignação

por graça da beleza e juventude ignora

o impuro comércio cortesão

Morrer é uma coisa que se vê

O teu amor cresce como uma árvore

há vozes de desgosto na separação dos corpos

Eu canto aves animais herbívoros ou carnívoros

e centra-se na tarde e cerca-me completamente

este crepúsculo esta hora de poetas

A noite entra depois pelas nossas janelas

e traz consigo pitagóricos gente que vive só pelos desertos

Eu porém vivo vou de cidade em cidade

Escrever-te é a maneira de te ter presente

deste satisfação a um amigo e companheiro

pagaste a dívida de amizade e de fraternidade

Por confia em ti nada perdi

é a ti que te quero e não abraços teus

addeus mulher amada mundo meu

Eu digo eu canto e logo o mundo faz-se

ó ave vida momentânea sobre as águas

Chorar eis tudo o que por fim me é possível

antes a sepultura para mim que para ti

eu prefiro seguir-te a enterrar-te

se morres despedimo-nos da vida 

pensar-te morta é morte para mim

que a dor que for me chegue sem aviso

tudo menos o meio de ficar no receio

Mas se te perco tu que és a minha esperança

qual é então a esperança que me resta?

Mais amarga a mulher que a própria morte

mais amarga que a morte é a separação

e aí tu em paris e eu em argenteuil

Louvados os caminhos da mulher

e aquele que por eles caminhar

Em mim canta por vezes abelardo

e é a mim que heloísa tenta

por vezes agradar e não a deus

Os actos de um amor que for em mim contentamento

não podem apoiar agora a penitência

Os sítios e as horas nossas testemunhas

encontram-se na minha consciência

Deus sonda os rins e o que neles se esconde

artistas da mentira e da bajulação e canto a

desolada mulher do fim do mundo mulher que

não teme o tema da prosperidade

não a venha a vaidade a visitar

A morena é do sol que nela incide mas

tu virgem loura és o lírio da montanha

Introduziu-te o rei na sua câmara

e tocou-te de estrelas de mistério

Alterno a alegria com a dor

na pureza da prece perturbada

participo da angústia e do prazer

em tanto desespero quanto aspiro

Ando em prosperidade e aflição

sou um homem de júbilo e de pena

e rio tanto mais quanto mais choro

Arrebata-me o róbur do rubor

Galateia desdenha mas espera

enjeita mas seduz ao mesmo tempo

Eu faço uso da carne e roupa branca

à minha mágoa impus um fundo freio

como de tudo o que se vende no mercado

pois é de deus a terra e quanto encerra

Quando eu despertar hei-de aflorar o vinho

não darei importância a quanto não

me preparar para a definitiva posição

Há muito desertei da minha fé

são meus amigos pecadores e publicanos

recuso aquele que sonda corações e rins

não me suja comer com as mãos por lavar

Eu suportei o dia e o calor

deixai-me ao acabar rezar completas

Pequenino e submisso como um riso

eu canto o insensível pássaro do nada os

lençóis de linho sob o cáustico cloreto as

estampas antigas onde os anjos sobem

escadas de salvação com homens pela mão

de olhos cheios de sombra e de penumbra em

casinhas térreas esmagadas pelas chuvas na

consequente conclusão do verão

Eu canto a solidão do céu só entre céu e terra

palavras pitorescas proferidas  num

discurso dominado pela erudição

combinações confusas e entrecruzadas a

vermelhidão do púcaro da peste

Eu canto as rosas de trepar abertas em fevereiro a

tesoura que podava pela tarde

as casas corpos definidos sobre a terra as

luzes da ceia abertas nos casebres as

covas que o vento cava na água do mar

esse mar bravo de muitos dias de fevereiro

Já os olhos das árvores abotoam

Viajo pelo tempo até ao porto da velhice

onde poisar a pluma da penumbra

 

Eu canto as violetas vistas nos teus olhos

canto a cega conspiração das tuas mãos canto o

paquete que aparelha para o mar a

missa rezada em capela escusa

naquela noite confidente e cúmplice

dos olhos das mulheres ardendo como tochas

Neste verão fechado em nevoeiros

de dias devassados pelo som da ronca

eu canto a tarde posta sobre a tua testa

a ressalga do mar na minha casa

nas minhas duas mãos nas minhas lágrimas

Eu canto o teu vulto evidente nesta praia

e lá na ponta o forte dando já o corpo ao anoitecer

e sinto aqui o mar mesmo na cama

valsar a toda a volta desta tonta vida

Eu canto o pássaro que poisa já no ramo ou

uma reviravolta de quadrante

que arrasta folhas mortas no outono

e retiro a cabeça das vidraças desta vida da

terra deixada da mulher amada no

furor ambulatório dos meus passos

Durmo cego no mais secreto mar

A vida é como um manto ó agustina

e o adultério não é fácil à mulher

como o não era no século sétimo anterior a cristo

quando alguém começava a esperar pela morte

ou no século doze quando a fonte de vaucluse

corria e o verão chegava sem eu esperar

e a voz da tempestade vinha na idade

Eu canto as tardes frescas qundo nas

repartições nos não congregam os cuidados

e as longas alamedas se cumulam de flores vermelhas

e as donzelas se embrenham em silêncios tão pesados como bofetadas

Canto as rameiras que usam nos cabelos uns pentes de pedras

e se lhes vêem as saias de baixo amarelas e lilases

e há mulheres nobres de rostos com tons de um verde-maçã e violeta

sob os ramos mais baixos de sinceiros

e outras árvores de folhas amarelas e reversos brilhantes como prata

e a voz de uma ave oculta em laranjeiras

pode subitamente provocar o pranto

Canto uma flor desconhecida que abre

seu ventre mate na íntima penumbra de florestas

quando em quase toda a natureza humana

a vibração de besta substitui a alegria

e as mulheres multiplicam os cabelos

de uma cor fulva e serpenteantes

eu canto o despertar da ira como um gesto inicial

quando não descoberto o mundo apetece e

nos poemas não cabem as ffelpudas folhas das nespereiras e

se sabe esperar meses pelo resultado de uma frase dita num salão

Eu canto a crueldade generosa e o febril fogo castigador

vivos no homem que não pervertia ainda

essa paixão vencida que há por baixo da mentira

canto o cansaço de quem cai na relva e sob a gigantesca tília

jaz quando as rameiras não eram ainda

as aves proibidas que só saem ao anoitecer

e a pequena pedra sua a sua água perlada

e há no manso mar nuvens que anunciam o calor

canto aquele português que não domina ainda

a face decomposta e deformada

mas onde se reflecte a luz do sol e onde cai a chuva

e que sabe saborear amoras bravas

e os caldos de sêmola aprecia

num retiro furtivo de evasão das mundanas congregações

canto o tempo em que havia colóquios mortais

debaixo das ameixieiras rutilantes

e o pecado não era tíbio e consentido

por mulheres que viviam na intimidade da sensualidade

e amavam quer o cheiro quente de um campo lavrado

quer a emanação olorosa da fruta

que amadurecia nas salas das casas

canto a miséria franca inda sem luvas

eu canto tudo isso ou não canto realmente nada disso

Canto o tempo dos gastos com as permanentes

deslocações da corte de uma terra para outra

e os cortesãos há séculos vergados sobre o chão

rodeados talvez de espargos bravos quando

os dias se passavam em amores

e nos mais variados exercícios de armas

e uma casta esmoler aliviava os precisados

sem em troca exigir-lhes as virtudes dos vencidos

Canto o tempo de sol e as pragas de gafanhotos vindas com a chuva

quando a sensualidade corroía já esse homem altivo

por se saber prestes  a morrer

quando ninguém gostava da ambiguidade fugidia e fácil

e as mulheres se mostravam já capazes

da verdadeira compreensão da sensualidade

amiúde divinizadas perlos homens para as isolarem

Canto os contemporâneos dos homens ilustres

que mais tarde falhavam outra vez

quando a felicidade era um sofrimento já passado

junto de tílias perto de alguns pássaros

que caíam cerrados como pedras

canto os poços tão fundos que segundo os velhos

se ouvia o cantar dos galos nesse dia que havia para lá do fundo

quando havia inúmeros objectos cujo uso se esqueceu

e um silêncio pouco após ameaçado levemente

pelo cantar dos galos pelas flautas dos pastores

e a penumbra  não era precursora da sombra

Eu encho o peito de ar e canto tudo isso

Que alguém ampare o que for que em nós espere

que alguma coisa dure antes de ir-

-se embora ó morna urna eterna e nocturna

ávida e lêveda dúvida lívida mas tórrida

parássemos e víssemos e velhíssimos nos embrulhássemos num

sensual servil lençol sob o dossel azul e mole

A área da matéria é vária e etérea

o átrio é pétreo e vítreo

mas a larva ou a erva que sirva para que a água ferva

que a vida a não absorva nem a ponha turva

que o debate debite azeite por quem opte e lute

Contemplo por exemplo o amplo tempo

onde o tema do drama recai numa trama

e o meu acto é um tecto para um grito

que gosto de ver roto quando luto num

segundo que descendo dura menos que subindo

muito menos que amando nada se me afundo ao

relento cego sossegado branco

Não mais hei-de voltar ao estaleiro onde me despedi de solteiro

na noite solitária de mãos dadas com o vento

Foi da maré vazante a vitória precária e aparente

da terra e sua gente sobre a pátria permanente

de peixes e corais conchas e tudo o mais

Eu canto as mulheres cabelos de sargaço e áticos narizes de aço

ou rostos de marfim que me perdem a mim

e entre elas tu comprida cabeleira

tanto tempo perdido coisas sem sentido

palavras para o teu ouvido flores do teu vestido

mulher que choro agora e ausente embora é comigo que mora

causa desta tristeza que me altera a natureza

enfim coisas insignificantes que hoje valem mais que antes

E aquele pinheiro positivo e uno

oposto aos fáceis fogos vesperais

pinheiro antes de mim e digno de respeito

mais profundo que um homem e que sabe mais

alheio às manhas que por si a própria vida tem

e muito mais as tem naturalmente quem

com paixão vive a vida e a vive sem medida

e a consente em imolar ao mar

que há muito ouve insistente chamar

e é complexo como a máxima mulher

Ó mar azul meu actual paul

ó catedral de angústia ó pequena réstia

dessa feliz felicidade que sei que não há-de

haver sem eu correr o risco de a perder

ó essa voz que cresce com o dia que desce

sobre esse pinheiro manso onde ainda me condenso

e não nesta miséria que é eu ser pessoa séria

Canto a vela cheia de vento que me arranca num momento

e me faz imolar ao mar que como um deus exige a vida de homens

que lhe ouviram a voz sentiram vocação e

cedo se iniciaram nos mistérios de um supremo ser

que na água que é rapidamente a mim me lava

E canto a neve que se atreve ao que me deve

névoa vinda do sul por sobre o mar azul

luz do lápis-lazúli que se azula

e açula a rasa solidão do mar

melancólica morte dessa praia ao norte

a praia onde desmaia toda aluz que saia

do dia luminar que lá ao longe vai levar

a alegria feroz da luz veloz

deixando sobre o mundo o grito do meu luto

ebulição da vida a custo reprimida

viola violenta que a luz é que sustenta

E sonho como fausto em renovar a vida

gesta já gasta que arrasta a flor da giesta e

sustento-me de ti mesa da vida posta

luz que me aquece quando tudo me arrefece

mulher que passas pela estrada branca

da vida amena ao som da leve avena

olhos redondos olhos como abrunhos

e que vergas à luz como uma verdadeira amendoeira

e morro muito a custo após o mês de agosto

dor dolorosa minha e do meu sonho

num pensamento ermo de um enfermo

que ora aspiro a frescura perfumada de um limão

termo e habitação da terra por deus dada

ora é meu destino a dor lida no olhar do pescador

e mesmo quando durmo em dor me afirmo

 

O meu desporto é a versificação

e troco o próprio verão por três quatro palavras

dessas a que é alheio o coração

Um verdadeiro pescador é dias que nas redes traz

uma vida não chega pra fazer um pescador

na consciência oculta e ignorada do seu tempo

Mas tantas coisas houve que passaram para mim

essa dor onde havia íntimas mulheres

largos ao sol quadros antigos tons de luz

recantos odorosos como a adolescência

essa prega dos lábios onde nasce o riso

o limiar da dor ou os acessos ao amor

tudo isso situado nas imediações dos  olhos

Canto o homem que tinha ainda alguma voz no rio

que corria veloz pra preservar a limpidez e

no rosto um resto de malícia e de melancolia

e a voz na noite tanto esmorecia

que por cima do vento mal se ouvia

e os medronhos caíam as folhas buliam

na perfídia do perigo ou na nudez da perversão

Mas nada disso havia ainda nesse  tempo

além do célere corcel do tempo que corria

do dispensável excesso de experiência

convite à convicção da consciência

terrível e terrestre turbulência

Eu canto a mínima ruína de queimar os dedos o

passo tão calculado como o de uma prostituta

infiltração nas íntimas instituições

pródigos monumentos a nós próprios e

o terrível turíbulo da torpe turbulência

abundância de mãos em máximas imersas

acção dispendiosa para a paz do mundo

Quem se busca a si próprio bruscamente afasta

o manto gotejante das águas tirrenas

do peregrino pertinaz de ítaca ou da

criança apenas convencida da recente vida

sem bem conhecer afinal como conseguida

A útil única e vibrátil vida que

no ríspido rigor real ainda vibra

no quente coração dos corajosos homens

ao ritmo de uma néscia narrativa

provém dos livros desse adolescente aberto

às grandes massas do instinto e risco

dificilmente tributáveis pelo fisco

Se aos deuses nada há a acrescentar

pouco lhes há também a retirar

e muitas vezes mesmo a invejar

Conhecesse eu as ruas tão bem como a vida

recebesse no rosto o bafo azul do nevoeiro

e as amplas janelas que de par em par

deixam entrar em casa imenso o mar

jamais haviam de deixar passar

a nesga negra da profunda negação

esse orgulho do sexo que odeia o segredo

as vozes do serão no morno ar às vezes

Canto a destra desenvoltura que amestra a desventura

e o castigo que traz a paz da culpa

e os grandes gritos só devidos aos aflitos

manto de insulsa água que rodeia as árvores

e o ríspido risco assumido vivo e a

rajada de luar humilde na calçada

Envelheci talvez. Tenho coisas atrás

essa cara convulsa agora causa de rerpulsa

os sórdidos recantos desse rosto

que um intenso gosto antes tivera em contemplar

o desnível possível à cascável acessível

alguém menor que a pedra inferior à onda

mais planta do que absurdo e árvore jamais

onde desprevenida se jogava a nossa vida

sem ser-nos devolvida alguma imagem

onde minimamente esparso ardesse o remorso

Sempre fora o meu mal evitar fazer mal

Esse espectro do nosso desespero o confidente

amara apenas essa rapariga

para a emancipar do infortúnio

Aqui sobre estas águas eu suspenso deixo

a vida até qualquer outro verão

onde outra vez procure em vão o que ora procurei

Eu canto a margem terra empedernida

que exagera e se mostra enfim tão indecisa

quanto antes entre terra e água e o

vento devorador dessas nocturnas raparigas

Das amadas mulheres só me ficam

as que no casamento buscam a legalização

do ouro que a especulação assegurou aos seus antepassados

hoje tão cintilantes quão discretas antes

Viram-se homens de muitos gestos mas de poucas mãos

e viu-se o ar mandado pelo mar

atravessar as ávidas janelas

e entrar de mansinho nas primeiras casas

representantes da cidade e dos seus habitantes

de sorriso escolástico nos lábios

As ondas de tão sôfregas mordiam

pretensas pedras mas afinal terra

e contra o cais as palmas como que batiam

na tragédia que toda a festa encerra

A cidade era parda àquela hora

naquele tempo em que nascem brancas maias

e a mais bela é a cor rubro-saturno

Névoa ou mágoa de sal tudo era azul

Toda a noite eu dançava entre as fogueiras

precisava de ouvir vozes humanas

para me dissipar a solidão

e queria viver e não morrer

e via corações nos cântaros de barro

e ria e ria mais ao vê-los rebentar

a golpes de espadim entre sério e a brincar

Onde estavam agora os amigos de outrora

que comigo corriam pelas praias

e a inocente fronte só de beijos me a cobriam

 no correr dos dias?

Só me quedava ver escorrer das bocas negras dos mendigos

aquela água que corre das carrancas

quando a tormenta cerra o céu dos templos

As aves são um sol branco e maior

sobre o trigo que cresce e que decresce

como o homem que nasce e nascendo envelhece

e eu passo e vou e volto e então abro

os olhos sobre o rio do balcão do paço

e há um vasto espaço nos meus olhos

E canto a alegria de volúveis bailarinos

camareiros arautos fâmulos donzéis

e sonho que não mais acabará essa alegria

As casas as fachadas tudo se reveste de veludo

e casa por ladrões rondada é casa roubada

E a resina arde em meio da multidão

que enche as ruas onde então já danço

entre o aroma ou música que areja

os quartos já fechados desde há muito

que ergue casas já há muito demolidas

e uma voz ouvida e perdida

se vê pelo presente repetida

inicial lustral como uma madrugada

Que importa que no mundo morram os ministros?

É patriótico negar a nacionalidade

aos naturais de um país vencido

que só buscou no mar razão de ser. Eu canto a

memória fugitiva como a água

que parece estender alguma mão de paz

sobre a ácida lâmina de um sabre

Gente amarela e morna amordaçada

domina esse país aonde a ironia

dissimula a impossível alegria

numa vida que vai por mim contaminada

vida do largo da areia e do vento

À minha personalidade própria de poeta

na carne cerebral de que careço

a eternidade vem-me das papoilas

desfolha-se-me a vida como as pétalas das rosas

e pensei e li mais do que vivi

E só tu sobressais entre as demais

mulher eterna com a luz na fronte

e dominante agora em todo o horizonte

Humano mesmo se demasiado humano

povoam-me cidades sossegadas

de sonhos que semeiam as semanas

onde o só silêncio é soberano

Dobra-se a brisa à mão do meio-dia

a fantasia é fértil em verdade

e do presente obscuro português

algum futuro há-de enfim nascer

Do salmo lúgubre da luz final do dia

que já há quatro séculos se entoa

hão-de rasgar a noite portuguesa

as raparigas da cidade de lisboa

E eu hei-de voar ao vento do momento

Dizias qualquer coisa? Esta manhã? Perfeitamente

 

 

Madrid, 31/V/1977

 

POEMA DE RUY BELO IN «O TEMPO DAS SUAVES RAPARIGAS E OUTROS POEMAS DE AMOR»

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publicado às 14:50


#2053 - PORTUGAL

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

JORGE DE SOUSA BRAGA

 

PORTUGAL

 

Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir

como se tivesse oitocentos

Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África

só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais

e nunca mais voltasse

Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante 

D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney

e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal

Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo

Anda na consulta externa do Júlio de Matos

Deram-lhe uns electrochoques e está a recuperar

aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas

Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império

mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado

Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse

das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém

Sabes

estou loucamente apaixonado por ti

Pergunto a mim mesmo

como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu

mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal

e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade

Portugal estás a ouvir-me?

Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos

O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos

Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos

Portugal  depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga

ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional

Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou

Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?

São castanhos como os da minha mãe

Portugal gostava de te beijar muito apaixonadamente

na boca

 

(DE MANHÃ VAMOS TODOS ACORDAR COM UMA PÉROLA NO CU, 1981)

 

 

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publicado às 22:58


#2052 - GRAFIA 1

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

 FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 

GRAFIA 1

 

Água significa ave

 

se

 

a sílaba é uma pedra álgida

sobre o equilíbrio dos olhos

 

se

 

as palavras são densas de sangue

e despem objectos

 

se

 

o tamanho deste vento é um triângulo na água

o tamanho da ave é um rio demorado

 

onde

 

as mãos derrubam arestas

a palavra principia

 

(MORFISMOS, 1961)

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publicado às 22:44


#2050 - 26

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.06.16

 VITORINO NEMÉSIO

 

26

 

O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.

 

 

Poema de Vitorino Nemésio (EU, COMOVIDO A OESTE, 1940)

 

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publicado às 19:35


#1983 - Anna Akhmatova

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.05.16

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ANNA AKHMATOVA

 

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.

Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros

a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: "Os teus

ombros de clepsidra..." E eu sentia esse rumor límpido, que levava

as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita

inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar

pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram

os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta

apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas

esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos

perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem

com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul

que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski

nos vinha explicar: "a rima é a forma canonizada, métrica

da eufonia." E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido

entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher

aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou

iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo

que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta

esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria

os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia

que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei

um jardim e olhei as pegadas deixadas há muito nos caminhos. Pensei

nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia ver-se

alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam

da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessava estes corredores

vegetais. Tornava-se maior a minha sombra

em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde

            ficou um pano

estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei

a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio

uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito

agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue

nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas

de um livro. - Ficou caída sobre os joelhos esta manta cujas pregas

componho devagar; atravessada  pelo frio húmido, desce até ao soalho  que

           cuidadosamente

enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: "Espero a noite

e os cavalos que a seduzem." A noite... É nela que irei procurar os limites

silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se

sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo

nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece

quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que

             ficaram esquecidas.

Era assim que começava um poema ?  Tornaram-se mais cansados os

             gestos. Apenas sei

que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora

os meus passos são de água.

 

Poema de Fernando Guimarães in [Casa: O seu desenho, 1986]

 

 

 

 

 

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publicado às 21:15


#1969 - A miséria das palavras

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.16

 Jorge de Sena

 

A MISÉRIA DAS PALAVRAS

 

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,

na liberdade.

 

Se a miséria e a pobreza

fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,

a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,

viria a liberdade por acréscimo,

sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

 

Assim, apenas se fala do que se não fala,

apenas se vive do que não se vive,

apenas liberdade é uma miséria

sem nome, sem futuro, sem memória.

 

E a miséria é isso: não imaginar

o nome que transforma a ideia em coisa,

a coisa que transforma o ser em vida,

a vida que transforma a língua em algo mais

que o falar por falar.

 

Falem. Mas não comigo. E sobretudo

sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,

no silêncio que à linguagem faz

imaginar-se mais que o próprio mundo.

 

Poema de Jorge de Sena in "Antologia Poética" escrito em 5 de Agosto de 1962, edição Guimarães, Novembro de 2010

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publicado às 19:12


#1892 - Servidões

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.11.13

 

 

nunca mais quero escrever numa língua voraz,

porque já sei que não há entendimento,

quero encontrar uma voz paupérrima,

para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa

abaixo do motor da cabeça,

tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,

uma e outra só acham

a poeira do mundo:

antes fosse a montanha ou o abismo -

estou farto de tanto vazio à volta de nada,

porque não é língua onde se morra,

esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,

esta morte não me pertence,

este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia

como se urdem os subúrbios do inferno

num poema rápido tão rápido que não doa

e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,

e não é justo, merda!

quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,

e falar nela de tudo o que não faz sentido

nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,

e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem

como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,

ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio

 

 

Poema de Herberto Helder, in "SERVIDÕES", editado pela Assírio & Alvim, Maio de 2013

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publicado às 15:01

 

O BOI DA PACIÊNCIA

 

Noite dos limites e das esquinas nos ombros

noite por de mais aguentada com filisofia a mais

que faz o boi da paciência aqui?

que fazemos nós aqui?

este espectáculo que não vem anunciado

todos os dias cumprido com as leis do diabo

todos os dias metido pelos olhos adentro

numa evidência que nos cega

até quando?

Era tempo de começar a fazer qualquer coisa

os meus nervos estão presos na encruzilhada

e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante

e a minha vida não é mais que um teorema

por de mais sabido!

Na pobreza do meu caderno

como inscrever este céu que suspeito

como amortecer um pouco a vertigem desta órbita

e todo o entusiasmo destas mãos de universo

cuja carícia é um deslizar de estrelas?

 

Há uma casa que me espera

para uma festa de irmãos

há toda esta noite a negar que me esperam

e estes rostos de insónia

e o martelar opaco num muro de papel

e o arranhar persistente duma pena implacável

e a surpresa subornada pela rotina

e o muro destrutível destruindo as nossas vidas

e o marcar passo à frente deste muro

e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro

até quando? até quando?

 

Teoricamente livre para navegar entre estrelas

minha vida tem limites assassinos

Supliquei aos meus companheiros: Mas fuzilem-me!

Inventei um deus só para que me matasse

Muralhei-me de amor

e o amor desabrigou-me

Escrevi cartas a minha mãe desesperadas

colori mitos e distribuí-me em segredo

e ao fim e ao cabo

recomeçar

Mas estou cansado de recomeçar!

Quereria gritar: Dêem-me árvores para um novo recomeço!

Aproximem-me a natureza para que a cheire!

Desertem-me este quarto onde me perco!

Deixem-me livre por um momento em qualquer parte

para uma meditação mais natural e fecunda

que me afogue o sangue!

Recomeçar!

 

Mas originalmente com uma nova respiração

que me limpe o sangue deste polvo de detritos

que eu sinta os pulmões como duas velas pandas

e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos

em nome do sofrimento e da felicidade

em nome dos animais e dos utensílios criadores

em nome de todas as vidas sacrificadas

em nome dos sonhos

em nome das colheitas  em nome das raízes

em nome dos países em ome das crianças

em nome da paz

que a vida vale a pena que ela é a nossa medida

que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias

que o reino da bondade dos olhos dos poetas

vai começar na terra sobre o horror e a miséria

que o nosso coração se deve engrandecer

por ser tamanho de todas as esperanças

e tão claro com os olhos das crianças

e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele

 

Mas o homenzinho diário recomeça

no seu giro de desencontros

A fadiga substituiu-lhe o coração

as cores da inércia giram-lhe nos olhos

Um quarto de aluguer

Como preservar este amor

ostentando-o na sombra?

Somos colegas forçados

Os mais simples são os melhores

Nos seus limites conservam a humanidade

Mas este sedento lúcido e implacável

familiar do absurdo que o envolve

com uma vida de relógio a funcionar

e um mapa da terra com rios verdadeiros

correndo-lhe na cabeça

como poderá suportar viver na contenção total

na recusa permanente a este absurdo vivo?

 

Ó boi da paciência que fazes tu aqui?

Quis tornar-te amável ser teu familiar

fabriquei projectos com teus cornos

lambi o teu focinho acariciei-te em vão

 

A tua marcha lenta enerva-me e satura-me

as constelações são mais rápidas nos céus

a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo

Lá fora os homens caminham realmente

Há tanta coisa que eu ignoro

e é tão irremediável este tempo perdido!

Ó boi da paciência sê meu amigo!

 

Poema de António Ramos Rosa (O Grito Claro, 1958)

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publicado às 16:29


#1781 - Poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

Eram sete e meia.

O mais tarde que podias entrar era até às oito

e depois das oito tornava-se reparado.

Havia ordem no mundo

e meia-hora para nós,

meia-hora que não foi como queríamos

meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava

habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.

Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós

meia-hora que afinal só começou depois de terminada

ao despedirmo-nos até à vista.

E até tornar a ver-te

eu não me senti, nem a fome, nem a sede

nem outra vontade que tu,

fiz como os poetas

que apagam a realidade

para lhe pôr outra melhor por cima.

 

(Inédito)

 

Poema de Almada Negreiros in Revista Ler n.º 50, 2001

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publicado às 19:37


#1761 - ELEGIA BUFA

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.12

 

... Acuso!

 

Ai vida sem alegria,

Sem desespero nem nada!...

A gente deita-se..., é noite;

Levanta-se a gente..., é dia;

E a mesma porta fechada

Do lado de cada estrada,

De cada lado de cada!,

Finge de guia.

 

Assim, que posso eu fazer

Da minha alegria?!

 

Tinha alegrias profundas,

Só comparáveis

Aos meus desânimos...

                           ... Tenho-as:

Mas esses dons inefáveis

Sobem-me à boca,

Volvem-se em azedume...;

Que eu renho dentes postiços,

Com cárie de verdadeiros.


Protesto...!, e com todo eu.

De que me vale?

Só como

O que me dão a comer

Os carcereiros.

Só bebo

O que me dão a beber.

Só tenho o que não é meu...!

                               ...De que me vale?


("Acima, acima, gajeiro,

Acima, ao tope real!")


Ai tope real quebrado,

E conservado, embrulhado,

No quarto dos quatro muros!...

Eis o meu quarto:

Fechado;

Cortininhas nas janelas;

O tope real a um canto,

Mumificado:

... Como um violino sem cordas.

No chão, passeiam baratas:

Luzidias, bufas, gordas...

Aos cantos, teias de aranha:

... Como frangalhos de rendas

De sonhos empeçonhados,

Com insectos enredados;

Um cemitério de moscas

Pendente

Do tecto recto,

Como um pingente;

E eu..., a passear de alpercatas

E a declamar às paredes

Qualquer velha lengalenga

Com luas e pauis...


(" Vá, ... queres que te conte o conto

Das calças azuis...?")


O cemitério das moscas

Bate-me, às vezes, na testa.

Tropeço em cadeiras toscas

De pé coxinho...

E ao lado, o Senhor Antunes,

Que é meu vizinho,

Escarra tão virilmente

Que faz tremer as paredes...

A bela Dona Praxedes,

Senhora decente

Do quarto da frente,

Rompe vingativamente

Num sarcástico falsete.

E o papagaio da escada

Comente e repete:
"Má-raios de gente!,

"Tudo uma cambada...!

"Má-raios de gente!,

"Tudo uma cambada...!"

São palavras da criada.


Eis o leito em que me deito,

No buraco do meu quarto,

E em que sofro a dor do parto,

Que não acaba,

De Mim Próprio!


(... Clarões, incêndios, sóis, cúmulos,

Asas de anjos sobre cúpulas,

Passagens do Mar Vermelho...)


Eis o meu quarto, que cheira

A cisco, a velho,

E a vida podre e vazia...


Ai vida sem alegria,

Sem desespero nem nada!...

A gente deita-se: É noite.

Levanta-se a gente: É dia...


Boi gasto, sofre o teu jugo!

(... A unha maior, mordi-a:

Sabe-me a boca a sabugo...)

Puxa o teu carro!,

Sofre o teu jugo!,

Arrasta a tua charrua...!

E, se estás gasto de todo,

Podes ficar, alastrado

Na lama da rua...


Num travesseiro de lodo...


E revirando a quem passa

Um olho morto, vidrado,

Redondo, espantado, enxuto,


mas enorme,

Porque atrás dessa vidraça

Deus não dorme!


Poeta

De lábios de infante,

Cabelos de seda,

Sorrisos de luto...,

- Que pairas

Ao canto

Da janela baça?

Que sonho te enreda,

Que tanto

Desvairas?

Retira-te!, enfia

As mangas de alpaca.

E senta-te à mesa, e começa...

Inclina a cabeça,

Co'a língua de fora,

E copia, copia, copia, copia,

Com letra legível e opaca.


Ora agora,

Consegue que goste, e sorria,

Sua Senhoria

O chefe da secretaria.


... Assim, que posso eu fazer

Da minha alegria?


Acuso!, protesto!, acuso!

De que me vale?


... Teus versos,

São sérios, ou mangação?


Não sei o que são!


Tens mesa, e compras toalhas...,

Mas falta-te pão.


São soluços de ironia...


Ninguém tos compreende... E vão

Encher-tos de gralhas

Na tipografia.


... Assim, que posso eu fazer

Da minha alegria?


Que a bola que rebola achei-a pouca,

O tecto baixo e recto me pesou,

Pela frincha da porta o fumo entrou,


Por isso a fonte cantou rouca!


Por isso a fonte cantou rouca,

A fonte que Deus benzeu.


Que o mundo que lá passou

Lá se mirou...


                 , e bebeu!


Por isso, eu...,


              "Por isso grito e gritarei,

              "Do fundo da minh'alma até à morte:

              "Aqui-d'el-rei! Aqui-d'el-rei!"


Poema de José Régio



 

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publicado às 14:36


#1676 - Notícias do bloqueio

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.04.12

 

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

 

Aproveito a tua neutralidade,

o teu rosto oval, a tua beleza clara,

para enviar notícias do bloqueio

aos que no continente esperam ansiosos.

 

Tu lhes dirás do coração o que sofremos

nos dias que embranquecem os cabelos...

tu lhes dirás a comoção e as palavras

que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

 

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,

sustentando a defesa à nossa volta

- único acolchoado para a noite

florescida de fome e de tristezas.

 

Tua neutralidade passará

por sobre a barreira alfandegária

e a tua mala levará fotografias,

um mapa, duas cartas, uma lágrima...

 

Dirás como trabalhamos em silêncio,

como comemos silêncio, bebemos

silêncio, nadamos e morremos

feridos de silêncio duro e violento.

 

Vai pois e notocia com um archote

aos que encontrares de fora das muralhas

o mundo em que nos vemos, poesia

massacrada e medos à ilharga.

 

Vai pois e conta nos jornais diários

ou escreve com ácido nas paredes

o que viste, o que sabes, o que eu disse

entre dois bombardeamentos já esperados.

 

Mas diz-lhes que se mantém indevassável

o segredo das torres que nos erguem,

e suspensas delas uma flor em lume

grita o seu nome incandescente e puro.

 

Diz-lhes que se resiste na cidade

desfigurada por feridas de granadas

e enquanto a água e os víveres escasseiam

aumenta a raiva

 e a esperança reproduz-se

 

 

Poema de Egito Gonçalves (1920-2001) 

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publicado às 17:22


Espólio de Antero de Quental disponível na Internet

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.09

 

O espólio do poeta açoriano Antero de Quental existente no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional passará a partir de hoje a estar on-line em http://purl.pt/14355.

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publicado às 13:21


Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09

 

A guerra está aí. Que paz respiras?

Honra os destroços. Cobre-te com eles.

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publicado às 12:24


Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09

 

A Terra dos Eleitos

 

Era então essa

a terra do segredo,

o espaço de ventura

prometido?


De abundância

e

de doces lugares,

em que o excesso de ser

contrariava

a existência parca

da viagem?


Era essa então a terra

da promessa,

o espaço de fortuna

dos eleitos?


Devia ser:

e líquidas fronteiras

ali foram traçadas


Feitas de leite e mel

para os eleitos


e de fel e de sangue

para os

outros

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publicado às 12:12


Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09


E se a morte te esquecesse?

Ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. Silencioso,

ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares,

de peixes e de turbulentos rios - até que a luz

poeirenta do mundo se extinguisse,

para sempre.


Poema de Al Berto in "Luminoso Afogado"

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publicado às 12:05


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