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#2630 - Tragicamente, Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.10.17

 

Adormeci.

Já não acordei:

Sou apenas um monte de cinzas

que o vento ardente espalha pela

terra onde nasci,

fui feliz,

chorei,

e... morri.

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publicado às 19:01


#2618 - Interrogações

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.17

Quando estivermos perto do fim,

ao avistar o sinal que anuncia o fim da estrada,

o que há para além do precipício?

 

Quando tudo parecer acabar,

o que haverá para além do tempo, da matéria e da luz...

um novo sopro?

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publicado às 20:25


#2600 - OUTONO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.09.17

 

No Outono

as manhãs são tranquilas

e as tardes melancólicas

a folha que era verde

lentamente muda de cor e

tem ainda o odor tardio

dos dias de verão

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publicado às 14:50


#2592 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 

ALEXANDRA DE PINHO (SECRETOS REGISTOS) - TECIDOS, DESENHOS E RESINA DE POLIÉSTER

QUADRO COM 20x20 cm - 2005

 

O mundo escurece

para quem nunca sonha, 

não vê,

não se interroga:

como se o pavio de velas terminasse,

um a seguir ao outro,

até ao último milímetro de luz.

 

Por isso, o  medo

ganhará vontade e

tomará conta de nós,

aprisionará o dia

e será sempre noite,

e reduzirá as estações a um inverno eterno.

 

E os nossos olhos cegarão

E as nossas bocas se fecharão

pois o tempo de ver, de falar, de protestar

já esgotou.

 

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publicado às 21:45


#2592 - Despejo

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 ALEXANDRU VLAHUTA (1859 - 1919)

 

DESPEJO

 

Gente coitada, não pagou a renda

E a tralha para a rua lhes deitaram:

Roupas de pobre - só trapos rasgados...

Esta mudança parece agonia.

 

E a chuva molha com seu ar de troça

Velhos farrapos, móveis roídos

Pelo caruncho, nus, desvergonhados.

Há dentro deles uma alma que chora.

 

E a cama ainda pensa nas carícias

Que amparou e que à dor deitaram

Dois magrizelas com as mãos de cera...

Oh, malditos amores da pobreza!

 

E grita ao vento: Mas por que direito

A mulher fraca, esfomeada, atira

Nova vida ao inferno - por um beijo?

Entre os pobres o amor é um crime.

 

Chia a carroça à chuva: sua ruína

Devagar vai seguindo um operário,

Cabeça baixa, seco, de dor mudo,

E os olhos tristes para trás nem vira.

 

Ao lado, a mulher cansada, leva

Dois miúdos pela mão. E em silêncio,

Vão sem parar - nem eles sabem onde,

E a chuva os açoita sem piedade.

 

Tormento horrível, quase ameaça

Oculta-se no monte de farrapos,

No carro velho que a gemer estala,

Nos quatro vagabundos macilentos.

 

Essa miséria que os caminhos trava,

Os móveis desengonçados, gastos,

Que a lama cortam rumo ao futuro,

Sáo como início de uma barricada.

 

Poema do poeta romeno Alexandru Vlahuta, tradução de Doina Zugravescu

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publicado às 19:57


#2585 - Poema sobre Lourenço Marques revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 Eugénio Lisboa

 

Regresso, mas não regresso

ao paraíso perdido,

ao centro de mim, possesso

de quanto, aqui, retido,

de novo vejo, sem ver,

sendo eu quem já não sou:

mundo outro eu quero haver,

nesta fome em que me dou.

Este mar (a cor, a vida)

durou só o que durou:

a corrida é já perdida

e o barco naufragou.

 

No entanto, a casa é minha,

mesmo podre e desdourada:

o calor é o que antes tinha,

nela está minha morada!

 

(O frio é apenas meu

e não da velha cidade:

só em mim esmoreceu

o calor da mocidade.)

 

30 de Setembro de 1989

 

___________________________________________________________________________________________________________________________

Eugénio Lisboa  
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]  

Eugénio Lisboa
Ensaísta e crítico literário. 

Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa em Letras, pelas Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988) e Aveiro. 

Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo promoveu a divulgação da cultura portuguesa e a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. 

Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal público de uma exigente e continuada atenção à obra regiana. 

 
 

 

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publicado às 17:46


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28


#2580 - Terreiro do Paço

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 Glória de Sant' Anna (1925-2009)

 

TERREIRO DO PAÇO

 

cavalga o rei de ferro em seu cavalo

verdoengos os dois no pedestal

recortados lá em cima

 

e alonga-se a crina

em falso movimento sugerido

pela água azul inquieta deste rio

 

cujas ninfas suportam a epopeia

de um povo que se esparsa pelo tempo

 

onde semeia trigo e saramago

no mesmo vento

 

Poema de Glória de Sant' Anna retirado da revista "Colóquio | Letras" n.º 110-111 - Julho / Outubro de 1989

 

coloquio letras 110-111013.jpg

 

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publicado às 15:49


#2565 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

IMG_0866.JPG

 

Gosto que gostes de mim e os

teus dedos espreitem o meu coração.

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publicado às 06:49


#2564 - ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.08.17

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

 

JACKSON,

nem amigo nem inimigo,

nem mesmo (o que seria cómodo) espectador displicente na sua poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,

mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,

mais distante ainda dos mundos que exploraste, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los,

e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,

aqui estou, testemunha, depondo.

 

Jackson,

os que te conheceram e te amaram,

os que te conheceram e não te amaram,

os que não tiveram tempo de te amar,

os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististe,

estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.

Outros, o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.

 

Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.

Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus, Jackson,

e eu o sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.

 

Voltou o tempo dos prodígios.

Ainda há pescas maravilhosas, eu sei,

e os peixes que arrebataste a um mar mais crespo que o de Tiberíades

estão cantando  a glória do Senhor.

 

Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas

elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu

e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,

que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar,

enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.

 

Agora sentimos que estás mais perto de nós,

que por obscuros caminhos nos chegamos mais a ti,

(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir

e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano,

pesca terrível e prodigiosa de amor e de redenção.

 

Belo Horizonte, 1929.

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publicado às 15:15


#2562 - O ORIENTE É UMA BOCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.08.17

 

 

ISRAEL ELIRAZ

 

O ORIENTE É UMA BOCA

 

I .

Levanta o dedo e aponta

o centro no qual

 

o rapaz (de joelhos,

à tua frente) desenha

 

segundo as leis da luz

e as leis do ragga,

 

e como ele pergunta:

"estás dentro do teu corpo

 

ou és

o teu corpo?"

 

Põe no teu caminho

uma pausa de

flores

 

 

2 .

Um homem nu

levanta a alma

 

que levanta o corpo

à mão.

 

Subitamente ao corpo

falta corpo.

 

A boca, punho de ouro

empunha carvões de prazer.

 

Como uma pena,

uma mancha sobe

do calor do peito.

 

O que é que nasce

em ti, sem ti,

 

quando perguntas,

"estou mais ou menos

no centro disto?"

 

3 .

O oriente

é uma boca

 

para onde te voltas

de joelhos

 

à procura de matéria

mais rápida

 

que a luz, que o

ragga. Aprendes

 

com a energia do sol, com

o fruto acobreado no forno do olho:

 

o  que há - 

é isto! é o que há!

 

e há aquele

que antecede tudo

 

o que se disser 

dele

 

e sem ele -

não somos.

 

Poema de Israel Eliraz traduzido por Lúcia Liba Muckznik

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publicado às 09:58


#2560 - As contradições de um corpo mergulhado numa piscina

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.08.17

 

IMG_1650.JPG

 

a oscilação da vontade e da recusa em fazer alguma coisa

a fala que não se entende com a língua

a luz brilhante e quente que não aquece

a chuva que bate na vidraça em silêncio

as portas que só rangem no escuro

percorrer o quarto obliquamente suspenso do tecto sobre o ar amarelo da poeira

uma cambalhota e o corpo desmaia

um cão atravessa a madrugada

gotas de suor escorrem das torneiras

quando o sol se põe a árvore amadurece e a fruta flutua no vazio

as pedras rosnam quando são calcadas e armadilham o caminhar desprevenido do caminhante

parece caótico o carreiro das formigas dizem as cigarras

um crocodilo pisca o olho a outro crocodilo e morde-lhe o rabo

uma garrafa de cristal que julga ser a aristocrata do vidro

um grito ou um gemido?

há diferenças no prazer e na dor

o espelho parte-se discreto sem alarido sem sangue era vidro muito antigo

a vontade é resoluta a recusa também

na arte de não ceder anunciam-se acordos de paz para melhor pensar a guerra

querubins sopram trompetes

as notas da partitura guardadas em meias com mau cheiro exalam fedor

as cadeiras estão vazias o maestro perdeu a batuta a sala está vazia

silêncio absoluto

uma mosca bate as asas

o ruído provoca mais ruído e o pente que já não penteia

a cabeça está careca e em vez de cabelo nasceu musgo e o pente isso não penteia

 

rapidamente anoitece e as portas só rangem no escuro  para amedrontar o medo

enquanto o corpo adormecido repousa sobre a membrana da água de uma piscina

 

É Verão simplesmente

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publicado às 15:14


#2557 - SOLIDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.08.17

 ALEXANDRA DE PINHO (CONTRA-CORPO)

 

SOLIDÃO

 

No meio da multidão  somos apenas mais um.

Anónimos.

Quase todos se devem sentir assim.

Anónimos,

sem rosto,

iguais a tantos outros,

indistintos,

como se nós fossemos todos e não nós.

Mas subitamente

sentimos que estamos sós

às escuras,

encerrados dentro de um círculo de sombras

em confronto directo connosco

e com os nossos desejos

impulsos

fantasmas

fantasias

frustraçoes.

E vemos

gente que se atropela, que se toca, que se roça.

E vemos

gente perplexa suspensa nos gestos de outrem,

as bocas que se abrem e tomam  a forma do espanto.

E os olhos que não pestanejam

hipnotizados  pelas luzes vermelhas

das palavras  penduradas nas portas

que são um sinal,

um código

que anunciam para iminências urgentes

de corpos ardentes

que buscam o ventre da noite para se tocarem

nos sítios do desejo, e do desespero.

E das janelas dos quartos escorre uma luz coada

que ilumina as silhuetas difusas de corpos nus

que se abraçam

antes que a melancolia da noite chegue

e o prazer dê lugar ao cansaço

ou à desilusão.

E continamos sós.

Apenas nós e a solidão.

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publicado às 19:46


#2555 - NOCTURNO DOS ANJOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.08.17

 XAVIER VILLAURRUTIA (1903-1950)

 

NOCTURNO DOS ANJOS

 

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.

As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,

o segredo dos homens que passeiam, conhecem,

porque estão todos imersos no segredo

não ganhariam nada em fragmentá-lo

sim, é bom guardá-lo

e dividi-lo só com a pessoa eleita.

 

Se cada um falasse uma vez só,

e com uma só palavra, aquilo que pensa,

as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,

uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.

Seria uma constelação ardente como o sexo

no corpo profundo da noite,

ou como os gémeos que pela primeira vez na vida

se olham de frente, e se abraçam para sempre.

 

A rua enche-se como um rio de seres ávidos,

caminham, aguardam, prosseguem.

Trocam olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis...

 

Há esquinas e bancos sombrios,

auras indistintas, formas profundas,

e súbitos vãos com uma luz que cega

e portas que cedem à mais leve pressão.

 

A rua fica deserta num instante.

Parece afugentar de si mesmo

o desejo de começar de novo.

Está paralisado, mudo, ofegante

como o coração entre dois espamos.

 

Mas uma nova pulsação

lança ao  rio da rua outros seres sedentos.

Cruzam-se, e sobem,

voam ao rés do chão,

nada de forma milagrosa

e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

 

São anjos,

desceram à terra

através de degraus invisíveis.

Vieram do mar, espelho do céu,

em barcos de fumo e sombra,

a fundir-se e confundir-se com os mortais,

a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,

a deixar que outras mãos apalpem febrilmente os seus corpos,

e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los

como os lábios que se fecham,

a fatigar a boca  tanto tempo estagnada,

a libertar as suas línguas de fogo,

a dizer juramentos, canções, e palavras porcas

com que os homens concentram o antigo mistério

da carne, do sangue, e do desejo.

 

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.

Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.

Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.

Passeiam, aguardam, e seguem.

Trocam olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis.

 

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis

donde ainda praticam um voo lento e vertical.

Em seus corpos nus há vestígios celestiais,

signos, estrelas, e letras azuis.

Deixam-se cair nas camas,e afundam-se nas almofadas

que os fazem pensar um momento nas nuvens.

Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,

e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

 

Poema do poeta mexicano Xavier Villaurrutia

 

 

 

 

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publicado às 18:28


#2554 - MULHERES DE PASSAGEM

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.08.17

 KÓSTAS OURÁNIS (1890-1953)

 

MULHERES DE PASSAGEM

 

Mulheres a quem vi por um instante

dentro de trens à hora em que partiam

para outro lugar, mulheres que riam

nos braços de um outro homem, exultantes;

mulheres em balcões, a olhar diante

de si, tão distraídas, o vazio,,

ou a agitar do convés de um navio

que zarpava seus lenços vacilantes:

se soubésseis com quanta nostalgia

eu vos trago de novo ao pensamento

pelas tardes de chuva, tardes frias,

mulheres que passastes um momento

em minha vida - e agora conduzis

minha alma a um exótico país!

 

POEMA DE KÓSTAS OURÁNIS, POETA GREGO

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 Ouranis (1850 - 1953) was born in Constantinople, the son of Nikolaos Niarchos and Algeliky Giannusi.He received his Elementary and High School educations in Leonidio and Nafplion, Greece and Constantinople, Turkey, respectively; and his college education in Paris, France. In 1920, he was appointed Greek Consul General of Lisbon, Portugal; and in 1924 he settled in Athens, where he subsequently held a number of prominent journalistic and managerial positions in a number of newspapers and magazines there. He died in the Athens area on 12 June 1953

His poetic works published prior to his death include: "Like Dreams" (1909), "Spleen" (1912), and "Nostalgias" (1920). He is known as the last Greek romanticist of the modern times.

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publicado às 16:09

 

DISCURSO DO GRANDE PÁSSARO

 

Ai de mim! As flores, ainda que tenham resisitido no ano anterior, são levadas pelo gelo no ano seguinte;

Assim é levado este tempo impermanente e ilusório;

O arco-íris, por mais soberbas que sejam as suas cores, desaparece no espaço;

Assim desaparecem os trajos de gala, por mais faustosos que sejam.

A palavra, embora o seu eco seja claro, não tem poder para durar;

Assim como não duram os poderes mundanos, por mais amplos que sejam.

Os visitantes da feira, embora tenham estado reunidos, estão agora dispersos.

Assim se dispersa o círculo de família, por mais unido que tenha sido.

Embora acumulado pelas abelhas, o mel não serve a ninguém.

O mesmo se passa com os bens, as riquezas, e as fortunas.

As acções do mundo são como brincadeiras de crianças.

Ainda que o corpo e as palavras sejam reduzidos a nada, as causas não são eliminadas.

Renunciai pois a este mundo ilusório e falso.

Segui a boa e santa doutrina, ó passaros reunidos.

O corpo no fim recusa alimentar-se:

Bom é se o nosso ser se realizou.

Os bens acumulados gastam-se até ao derradeiro:

Bom é se antes se deram esmolas.

Um homem perdeu todos os que ama até ao derradeiro:

Bom é se a partir de agora, rompeu todos os seus laços.

Um palácio desmorona-se até ao derradeiro muro:

Bom é se se fica solitário sem certeza.

O recurso aos poderosos é o começo da prova:

Bom é se nos apoiamos num Reverendo Lama.

O mundo perecível destrói-se até à sua derradeira realização:

Bom é se nos afastamos do desejo.

Abraçar a Boa Lei é um mérito duradoiro para o presente e o futuro.

E bom é se a ensinamos desde agora.

As (Três) Jóias são um refúgio duradoiro para o presente e o futuro:

Bom é se lhes rezámos neste mundo.

Enquanto os seres, torturados pelo amor, matam com prazer a sede na água da miragem.

É bom abstrairmo-nos na meditação.

Por isso, renunciai ao mundo e cumpri a Boa Lei!

 

Poema tibetano do século XVIII traduzido por Maria Jorge Vilar de Figueiredo

 

 

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publicado às 23:36


#2550 - VEM TROVÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

CHRISTOPHER OKIGBO (1932-1967)

 

VEM  TROVÃO

 

Agora que a marcha triunfante entrou nas últimas esquinas da rua,

Recordai, ó dançarinos, o trovão entre as nuvens...

 

Agora que a gargalhada, partida em duas, trémula, está suspensa nos dentes,

Recordai, ó dançarinos, o relâmpago além da terra...

 

O cheiro do sangue já flutua na neblina que, na tarde, cheira a lavanda.

A sentença de morte está emboscada nos corredores do poder;

E uma enorme coisa pavorosa é já arrastada pelos cabos do ar livre,

Uma névoa imensa e incomensurável, uma noite de águas profundas -

Um sonho de ferro que não pode ser nomeado nem impresso, uma vereda de pedra.

 

As cabeças sonolentas das vagens em quintas maninhas testemunham-no,

As casa abandonadas no matagal durante o fogo deste século testemunham-no:

Os múltiplos olhos de maçarocas de milho abandonadas em celeiros ardidos testemunham-no:

Pássaros mágicos com o milagre do relâmpago nas suas penas...

 

As setas de Deus tremem nos portões da Luz,

Os tambores do recolher prestam-se a uma doença de morte;

E a coisa secreta no seu impulso

Ameaça com máscara de ferro

A última torcha alumiada do século...

 

POEMA DO POETA NIGERIANO CHRISTOPHER OKIGBO, TRADUZIDO POR JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

 

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Christopher Okigbo nasceu na pequena vila de Ojoto, nos arredores de Onitsha no sudeste da Nigéria, em 1932. Seu pai era professor de uma escola católica, no auge do domínio britânico da região. O jovem poeta cresceria sob a influência de seu pai, católico fervoroso, e a de seu avô, um sacerdote da deusa das águas Idoto, personificada no rio de mesmo nome que corre na região de sua infância. Idoto seria a deusa invocada naquele que é o mais famoso poema de Christopher Okigbo, "The passage", aqui traduzido como "A passagem", mas também conhecido como "Heavensgate". Este sincretismo religioso pode ser sentido com força em seu poema, que inicia com a invocação a Idoto, para logo em seguido invocar Ana, que em comentários críticos sobre o poema tem sido identificada como a santa do catolicismo. Christopher Okigbo viria a se formar na mesma universidade em que estudaram o conhecido romancista nigeriano Chinua Achebe (n. 1930) e o poeta Wole Soyinka (n. 1934), ganhador do Prêmio Nobel de 1986, de quem Okigbo foi amigo.

 

Começou a publicar poemas na revista Black Orpheus, dedicada ao trabalho de poetas africanos e afro-americanos. Seus poemas seriam reunidos postumamente no volume Labyrinths (1971). Christopher Okigbo morreu em 1967, com apenas 35 anos, lutando na guerra pela independência da República de Biafra (1967 - 1970), região separatista que permaneceria parte do território nigeriano.
 
A poesia de Okigbo é hoje considerada uma das mais importantes obras da poesia africana pós-colonial. Ainda que críticos nacionalistas o tenham criticado por adotar a língua inglesa, o poeta parece apropriar-se da língua do colonizador para implantar uma consciência mítica que só pode ser totalmente compreendida através da poética mística e vocal dos poetas africanos. Para nossa sensibilidade cristã, algo da poesia de Okigbo pode parecer alinhar-se a poetas como o W.B. Yeats do volume The Tower (1932) ou o T.S. Eliot de Choruses from "The Rock"(1934), mas a mim me parece que um dos poetas de língua inglesa com quem poderíamos traçar paralelos interessantes, passando pela poética de Christopher Okigbo, é o norte-americano Robert Duncan (1919 - 1988), de livros como The Opening of the Field (1960) e Bending the Bow (1964).
 
Christopher Okigbo nasceu em 1932, o que o faz contemporâneo de brasileiros como Ferreira Gullar (n. 1930) e Augusto de Campos (n. 1931). Sua poética, porém, visionária e mística, talvez o ligue mais a um brasileiro como Roberto Piva (n. 1937). A experiência da leitura de seus poemas, contudo, parece-me de uma beleza bastante singular.



--- Ricardo Domeneck

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publicado às 21:32


#2549 - PRÉMIO DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

João Luís Barreto Guimarães, poeta portuense, venceu a 6.ª Edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa com o seu livro "Mediterrâneo" publicado em Março de 2016 pela Editora Quetzal.

Este Prémio foi criado em 1999 pela Câmara Municipal de Faro e a cerimónia de entrega realizar-se-á no dia 9 de Setembro.

 ________________________________________________________

Biografia:

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967.

Vive em Leça da Palmeira.

É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.

Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro(1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006), A Parte pelo Todo (2009), Poesia Reunida (2011), Você Está Aqui (2013) e Mediterrâneo (2016).

Organizou a antologia de poesia mundial sobre gatos Assinar a Pele (2000).

A sua obra está editada em antologias e revistas literárias de uma dezena de países.

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publicado às 16:48


#2546 - DOS LABIRINTOS DA MEMÓRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

 

Há palavras que se inclinam obedecendo à vontade do corpo

e letras que subitamente se empertigam reagindo contra a vontade do corpo.

E a escrita soluça

fica suspensa

em alerta

a língua se dobra num último esforço para

expulsar a palavra que por baixo dela se esconde.

 

É a memória que se apaga

fica vazia 

numa luz negra qual

nuvem de algodão que a afoga

e as gavetas estão fechadas

onde estão escondidas

as urgentes palavras.

 

 

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publicado às 22:30


#2545 - ALGUNS POEMAS DE PAUL CELAN

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

arte poetica paull celan004.jpg

 Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

 

__________________________

 

Quatro estações do ano e nenhuma quinta para se decidir por uma delas.

 

__________________________

 

Era tão grande o seu amor por ela que teria conseguido levantar a tampa do caixão - se a flor que ela aí colocou não fosse tão pesada.

 

POEMAS DE PAUL CELAN DO LIVRO ARTE POÉTICA - O MERIDIANO E OUTROS TEXTOS, PAGS. 23 E 24, EDIÇÕES COTOVIA, 1996.

ESTES POEMAS FORAM PUBLICADOS NO JORNAL DIE TAT, DE ZURIQUE, EM 12 DE MARÇO DE 1949.

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publicado às 15:43


#2538 - A história repete-se com uma surpreendente regularidade

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.08.17

Um velho jornal enxotado pelo vento cai-me no regaço.

As letras húmidas, quase transparentes dão corpo a efemérides, notícias e artigos de opinião.

A impressão tem uma data - Janeiro de 1900 - início do século XX.

O editorial escrito pelo seu director cujo nome é ilegível anuncia

em letra robusta

o  acontecimento

e prevê com enorme entusiasmo

tempos de prosperidade, paz, grandes avanços na ciência e na economia...

Só não foi capaz de perceber

as fragilidades dos sistemas político, económico e social

 e a decadência de vários estados,

alguns deles imperiais,

que iriam tornar o século xx

catastrófico, sangrento, violento, brutal, mortal.

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publicado às 15:46


#2536 - A TERRA E O HOMEM

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.07.17

 

É necessário virar as palavras ao contrário para entender o gesto acerbo do homem que se apoia na terra em posição inversa. O corpo encostado no azul cobalto do ar é um pêndulo que oscila sempre no sentido contrário do vento para equilibrar o desequilíbrio. E a terra que se espanta com a persistência do corpo que faz um perfeito ângulo recto com a sua sombra; e  com os olhos agarrados a um ponto como se quisessem proteger um segredo  guardado na parte mais funda, aquosa e quente do seu ventre. E a boca que se abre para receber a respiração da terra e a terra que se abre para receber a respiração do  homem num diálogo vivo, harmonioso e mecânico entre as raízes da terra e as veias do homem.

E da esquina do seu rosto correm gotas de água doce e límpida que alimentam flores multicor, árvores, arbustos, ervas que crescem para cima e para baixo onde pássaros aéreos e subterrâneos as protegem de devoradores insectos humanos.

Esta cumplicidade depende de um cordão umbilical frágil que os liga para sempre  e a toda a restante irmandade.

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publicado às 22:34


#2510 - A lentidão do gesto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.07.17

 

A lentidão do gesto diz o quê?

O reflexo tardio à brusquidão do impulso

O atropelo à palavra conjugada de um verbo rasteiro

O passo que se atrapalha e é surdo à exigência do outro passo

A resposta que não se quer ouvir da pergunta que nunca foi feita

A ferida que se rasga sem sangrar

A vontade que se resigna para não se magoar 

A luz da estrela que teima em brilhar depois de morrer.

 

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publicado às 19:14


#2504 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.07.17

 

No topo da mais alta montanha

onde o  ar é rarefeito por estar

muito perto do céu que

quase toco se

mais alto fosse, 

uma flor rara

filigrana de luz brilhante

imaculada

ilumina a passagem para outras dimensões

temporais

espirituais.

 

Dispo-me

só deixo ficar a pele que me aquece e protege

na minha viagem  de peregrino

para descobrir a matéria de que é feita

a minha alma ou

se ela existe

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publicado às 16:32


#2503 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.07.17

 

Repouso a cabeça

no ângulo

mais suave do

vento

e

lentamente

adormeço.

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publicado às 16:24


#2502 - Os Novos Deuses

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.07.17

 

Na saliência mais luminosa do queixo

apoiado em mãos lavradas pela erosão dos ventos,

brincos de água de manhãs de orvalho

deslizam até ao peito.

 

E o peito abre-se.

E o peito aberto mostra o galope poderoso das ondas contra a parede da escarpa,

a espuma salgada de nuvens densas que

escondem o latejar do trovão e calam o

choro de deuses antigos, mitológicos, nocturnos, decadentes.

 

E o vento ardente, vindo do norte de outro continente

chicoteia a pele rasteira das ervas dos sagrados montes.

É um vento seco, irado, mas lamentoso

soprado pelos deuses de dedo em riste enquanto

entoam canções amargas sobre poderes antigos.

 

Escarnecem da nudez dos novos deuses algorítmicos

tão caprichosos e violentos como eles,

mas muito mais perigosos.

 

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publicado às 22:01


#2501 - EU SEI!

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.07.17

caos 3.jpg

 

Eu sei que a palavra dita corrompe a palavra escrita e as estações, sítios de embarque e desembarque, abraços e despedidas ou simplesmente de passagem.

 

Eu sei quando os rostos diurnos revelam os excessos da noite comprida, e que um sorriso pode ser amarelo, vermelho ou de um branco complacente.

 

Eu sei que o sol nasce todos os dias, acorda sempre do mesmo lado e, às vezes, de humores difíceis  e que a corrupção é o pecado original do homem aquando da  perda da sua inocência; e o seu fim só com o seu fim.  Alguém conhece outra maneira?

 

Eu sei que a nudez não é uma estátua e que ter um pensamento fora do estabelecido é, em alguns casos, passível de causar a morte.

 

Eu sei que é bom regressarmos aos lugares onde já fomos felizes e que uma mentira mil vezes repetida continuará a ser uma mentira.

 

Eu sei que um pássaro todos os dias me espreita da janela do meu quarto.

Eu sei que é um delator.

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publicado às 19:01


#2500 - O DEUS NULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.07.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

 

Não o espero. Não chegarei jamais, nem estarei aqui, ele não falará. Desejaria dizer o seu infortúnio inominável, o seu silêncio impossível. Desejaria acolhê-lo na sua nudez, no seu silêncio. Espera-me decerto, na sua pobreza incomensurável, pobre deus mudo, sem abrigo, de uma infinita miséria. O que escrevo, o que escreverei será a oferenda para o encontro dele. Mas não haverá encontro se ele não respirar na inesperada transparência de uma linguagem branca. Nada poderei oferecer se as palavras não constituírem essa íntima aliança que é o mistério mesmo da linguagem.

 

Estou só e continuarei  a estar só, na árida  e ávida deambulação destas palavras sem caminho. Lancinante, a suspensão interminável. Aqui agora é nunca. Julguei que poderia estabelecer uma relação serena e confiante mas não ouviaind nenhum apelo. Estou dentro de um círculo calcinado.

 

Poema de António Ramos Rosa, do livro "Antologia Poética" com Prefácio, Bibliografia e Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes - Edição Publicações Dom Quixote - Fevereiro de 2001

 

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Biografia                                                                                    

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 

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publicado às 10:54


#2493 - QUANDO A ALMA DÁ LUGAR À SOMBRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.07.17

 

 

 

 SECRETOS REGISTOS - ALEXANDRA DE PINHO

 

QUANDO A ALMA DÁ LUGAR À SOMBRA

 

Um homem parado.

Um homem deitado sobre as sombras

gasosas de um néon decadente

 

E a  sombra do homem que se alonga pela intermitência

da luz do reclamo que anuncia empréstimos

a quem tiver dificuldades e der garantias

 

E a sua sombra que se esconde dentro

da luz que se apaga

para se tornar invisível e anónimo

 

E a  alma que foge

do homem parado

sem forças para voar

 

Os seus olhos

duas gemas de sal

de tanto chorar

 

Na extremidade dos braços as mãos em forma de concha

por tanto esmolar mas depois de o insultar

ainda tem que agradecer

 

Um novo dia começa

parido das entranhas

de uma insónia grávida de dor e desespero

 

E o homem

magoado

e

envergonhado

continua parado à porta do agiota

com ar de derrotado.

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publicado às 21:46

 GRAPHIDIS SCIENTIA 5

Linhas de algodão cosidas em papiro

35cm x 35cm   -   2010

AUTORA: ALEXANDRA DE PINHO

 

 

Sente-se.

Está sentado?

Encoste-se tranquilamente na cadeira.

Deve sentir-se bem instalado e descontraído.

Pode fumar.

É importante que me escute com muita atenção.

Ouve-me bem?

Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

 

Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me?

Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?

Então

Repito: você é um idiota.

Um idiota.

I como Isabel, D como Dinis, outro I como Irene, O como Orlando, T como Teodoro, A como Ana.

Idiota.

 

Por favor não me interrompa.

Não deve interromper-me.

Você é um idiota.

Não diga nada. Não venha com evasivas.

Você é um idiota.

Ponto final.

 

Aliás não sou o único  a dizê-lo.

A senhora sua mãe já  o diz há muito tempo.

Você é um idiota.

Pergunte pois aos seus parentes

Se você não é um I.

Claro, a você não lho dirão

Porque você se tornaria vingativo como  todos os idiotas.

Mas

Os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.

 

É típico que você o negue.

Isso mesmo: é típico que o I negue o que é.

Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um I.

É francamente fatigante.

 

Como vê, preciso de dizer mais uma vez

Que você é um I.

E no entanto não é desinteressante para você saber o que você é

E no entanto é uma desvantagem para você não saber o  que toda a gente sabe.

Ah, sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.

 

Mas também ele é um idiota.

Faça favor, não se console a dizer

Que há outros I.

Você é um I.

 

De resto isso não é grave.

É assim que você poderá chegar aos 80 anos.

Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.

E então na política!

Não há dinheiro que o pague.

Na qualidade de I você não precisa de se preocupar com mais nada.

 

E você é I.

(Formidável, não  acha?)

 

Você ainda não está ao corrente?

Quem há-de então dizer-lho?

O próprio Brecht acha que você é um I.

Por favor, Brecht, você que é um perito na matéria, dê a sua opinião.

 

Este homem é um I.

Nada mais

 

Não basta tocar o disco uma só vez.

 

Poema de Bertolt Brecht, in Colecção Forma da Editorial Presença, selecção e estudo de Arnaldo Saraiva.

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publicado às 15:06


#2491 - AS MARÉS DO CORPO

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.07.17

 TRÍPTICO - QUADRO DA AUTORIA  DE ALEXANDRA DE PINHO

 

AS MARÉS DO CORPO

 

O corpo

que se vai inclinando

na exacta medida

do tempo que o dia

demora a encontrar

a noite e

que ganha sombras e asas

até ficar 

na horizontal

em

linha paralela 

com a luminosa vertigem do

sonho.

 

 

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publicado às 22:51


#2490 - TEORIA SENTADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.07.17

 alexandra de pinho

 

TEORIA SENTADA

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade 

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.

 

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

 

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

 

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

 

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra 

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

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publicado às 18:56


#2486 - Na quietude dos dias felizes

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.07.17

IMG_0229.jpg

Hoje, quero passear de mão dada com o tempo.

Não com o tempo mecânico, matemático e da física que

escorre no interior da ampulheta;

mas com o outro tempo:

O tempo dos afectos e das doces melancolias e

do perfume que dele eflui,

do teu olhar verde que era o meu mar, 

dos verões morenos que passavam lentos e quentes,

um beijo desajeitado num pôr do sol cinematográfico,

as almas  juntas sentadas numa cadeira  do cinema onde

um leve e suave roçar punha o corpo a latejar,

conversas sobre assuntos filosóficos para parecermos inteligentes,

a cumplicidade do banco do jardim que assistia à falta de jeito das palavras

que atrapalhavam a vontade do corpo.

O tempo das ausências, das despedidas e dos reencontros.

O tempo dos interregnos para outros encontros e descobertas.

O tempo de novas paixões e, depois, novamente o regresso.

 

 

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publicado às 14:33


#2482 - Poemas inéditos de Fernando Pessoa

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.07.17
 
 

O grupo editorial mexicano Fondo de Cultura Económica, que possui filiais em 11 países, acaba de colocar no mercado brasileiro a antologia bilíngue “Pessoa Múltiple”, organizada pelos professores Jerónimo Pizarro e Nicolás Barbosa. A antologia, reúne em um só volume, parte da produção do poética de Fernando Pessoa, com destaque para os poemas franceses e ingleses e o os livros “Rubayiat” e “Quadras”, além de poemas inéditos.

 

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em junho de 1888, e morreu em novembro de 1935, na mesma cidade, aos 47 anos, em consequência de uma cirrose hepática. Seus poemas mais conhecidos foram assinados pelos heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, além de um semi-heterônimo, Bernardo Soares, que seria o próprio Pessoa, um ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa e autor do “Livro do Desassossego”, uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século 20. Além de exímio poeta, Fernando Pessoa foi um grande criador de personagens. Mais do que meros pseudônimos, seus heterônimos foram personagens completos, com biografias próprias e estilos literários díspares.

Após sua morte, em seus “baús cheios de gente”, foram encontrados mais de 30 mil escritos que, ainda hoje, continuam sendo editados e que, pouco a pouco, vão sendo conhecidos em toda a sua amplitude.

 

Sobre os antologistas

Jerónimo Pizarro é professor, tradutor, crítico e editor, responsável pela maior parte das novas edições e séries de textos de Fernando Pessoa publicadas em Portugal desde 2006. Nicolás Barbosa é estudante de PhD em Literatura Portuguesa da Universidade Brown (E.U.A.), professor de inglês na Universidade Nacional da Colômbia, tradutor e intérprete.

O livro pode ser adquirido na livraria cultura. Os poemas selecionados são inéditos em antologias ou não foram publicadas em edições brasileiras.

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publicado às 17:57


#2471 - Cidade Velha - Cabo Verde I

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.06.17

CIDADE VELHA - CABO VERDE I

 

Manuel Maria de Moura e sua mulher Josefa Alvarenga

à mercê das sevícias que lhes excretam a campa

lado a lado progridem o húmus.

A igreja de lava amarelece

e conserva apenas dois portais,

as pombas não pousaram nos lambris

no fluxo da tarde a caminho da noite,

uma cabra sustida na janela,

entre a pedra e a pedra,

reflecte o mar numa pupila.

Sobe-se ao fortim

e a estrada como fita enrola-se à montanha.

Antigos  portugueses construíram-no

guiando pela mão os seus escravos,

Cabo-verdes ariscos debaixo do chicote

nivelaram o monte

e mantiveram

ritmo desigual.

Os guardas a cavalo

certificavam exacta proporção

e o forte ressurgia das matéria porosa,

coralínea

perfusa de bolhas minerais.

É baixo

e a nascente envolvem-no arestas.

Há nele precisão

rasgado no metal à força de buril

à custa de cinzel

liberta muralha onde fenece a lógica.

A meio fica a cisterna

memória da nascente ainda nos refresca.

No chão entre conchas

apanho um fragmento,

detecto um azulejo

azul magoando aquela superfície.

Onde perdeu a casa

na indecisa determinação

que Cabo Verde brande como lança de penas?

Nas alabardas os mapas de ferrugem

apontam à penúria as bocas sem mordaça,

o escudo português

inciso a fogo

um número sobre pele

começa a desfazer-se,

a esvair-se como o sangue sai do suicida

e o submete à própria crueldade.

Manuel Maria de Moura

deixou na pedra tumular

um voto de imprudência

«Até ao fim dos séculos não poderá abrir-se

o que ficou selado.»

Quando ao cair da noite via a lua roçar

contra o mar sua branda penugem

não suspeitou esgarçasse

a estável divisão

e o império, desfeito como um cirro,

liquefizesse abandonando os mortos.

Manuel Maria de Moura

ficaste solitário

acompanha-te o pelourinho branco,

intacto,

cornos de impala os ferros.

Aqui permaneceste

sujeito à  supressão, pouco te resta,

apenas uma pedra inchada de certezas.

 

Poema de Fátima Maldonado

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 Fátima Maldonado (Santo Amaro, Sousel, 1941). Ex-jornalista. Antiga crítica literária do jornal Expresso. Fez a sua estreia como poeta em 1980 com Cidades Indefesas. Publicou ainda: Os Presságios (1983), Selo Selvagem (1985), A urna no Deserto (1989), Caça e Persuasões (com Paula Rego, 1991), Cadeias de Transmissão (1999) e Vida Extenuada (2007).

 

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publicado às 22:48


#2466 - MÚSICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.06.17

ANTÓNIO GANCHO (1940-2005)

 

 

MÚSICA

 

A música vinha duma mansidão de consciência

era como que uma cadeira sentada sem

um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo

nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima

e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante

era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa

nós não movimentamos o espaço mas a vida erige a cifra

constrói por dentro um vocábulo sem se saber

como o que será

era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante

silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

 

Poema de António Gancho (O Ar da Manhã, 1995)

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António Gancho  
[Évora, 1940 - Telhal/Sintra, 2006]  
Poeta e ficionista. 

Nascido no início da década de 40, a poesia de António Gancho permaneceu inédita até 1985, data em que Herberto Helder reuniu, na sua antologia Edoi Lelia Doura, onze poemas do autor até então completamente desconhecido. As poucas informações biográficas disponíveis sobre António Gancho encontram-se aí expostas, dando a perceber a razão da escassez de publicação da obra deste poeta: «Com pouco mais de 20 anos foi internado numa clínica psiquiátrica, tendo vivido desde então em estabelecimentos deste género.» Sabe-se hoje que António Gancho viveu no estabelecimento psiquiátrico de Telhal (arredores de Lisboa) desde 1967 até à sua morte a 2 de Janeiro de 2006. 

Retirado da convivência editorial devido ao seu internamento, foi através do contacto com alguns amigos (de entre os quais se destacam Álvaro Lapa, António Palolo e Mário Cesariny, com os quais António Gancho tinha primeiramente contactado aquando da sua frequência do Café Gelo, ligado ao grupo dos surrealistas) que a sua produção chegou às mãos do editor. Assim, só em 1995 foi possível reunir, no volume intitulado O Ar da Manhã, toda a sua produção poética, datada de entre 1960 e 1985. 

Dividido em três conjuntos autónomos de poemas («Gaio do Espírito», 1985/86, «Poesia Prometida», 1985, e «Poemas Digitais», 1989), o livro em que se reúne a poesia de António Grango evidencia alguma heterogeneidade de temas e de formas poéticas, não sendo fácil a sua síntese. Assim, a par de poemas em que se explora ludicamente a materialidade sonora da linguagem como, por exemplo, nos versos «Route / Rota / Caminho puro e são / Chanção / Coração / Sahara / Uazara / Oasara / Oasimara»), com evidentes ressonâncias surrealistas, existem também alguns poemas, escritos na língua original dos autores homenageados, que se constituem como tributos a, entre outros, François Villon e Oscar Wilde, por via dos quais se estabelece uma interessante intertextualidade com os autores citados. 

Alguns dos mais interessantes poemas de António Gancho são aqueles em que está presente uma certa auto-reflexividade sobre os princípios de criação poética e que dão a ler os alicerçes da sua prática poética: «Nasce o sol e nasce o poema / e com esta simultaneidade / o que o poeta significa é que a sua arte é luz». Concebida como um processo de simultânea integração e totalização do homem na natureza, a poesia de António Gancho poderia ser sintetizada nestes versos seus, onde se afirma que «A poesia nasce e faz-se aqui neste fazer-se poesia. / […] A poesia assim maravilhosamente constituída / […] faz do homem o ser absoluto por natureza», sobretudo porque esta se funda num princípio de transmutação de todas as coisas: «A poesia assim é uma maravilhosa alquimia da vida». 
Centro de Documentação de Autores Portugueses
01/2009
 

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publicado às 22:17


#2464 - MORTE AO MEIO-DIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.17

 RUY BELO (1933-1978)

 

MORTE AO MEIO-DIA

 

No meu país não acontece nada

à terra vai-se pela estrada em frente

Novembro é quanta cor o céu consente

às casas com que  o frio abre a praça

 

Dezembro vibra vidros brande as folhas

a brisa sopre e corre e varre o adro menos mal

que o mais zeloso varredor municipal

Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?

A gente é previdente cala-se e mais nada

A boca é pra comer e para trazer fechada

o único caminho é direito ao sol

 

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

 

E juntam-se na casa portuguesa

a saudade e o transístor sob o céu azul

A indústria prospera e fazem-se ao abrigo

da velha lei mental pastilhas de mentol

 

Morre-se a ocidente como o sol à tarde

Cai a sirene sob o sol a pino

Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde

Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

 

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe,

atenta a gravidade do momento

 

O meu país é o que o mar não quer

é o pescador cuspido à praia à luz do dia

pois a areia cresceu e a gente em vão requer

curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

 

A minha terra é uma grande estrada

que põe a pedra entre o  homem e a mulher

O homem vende a vida e verga sob a enxada

O meu país é o que o mar não quer

 

POEMA DE RUY BELO

 

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publicado às 20:20


#2459 - À MEMÓRIA DE RUY BELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.17

 EUGÉNIO DE ANDRADE

 

À MEMÓRIA DE RUY BELO

 

Provavelmente já te encontrarás à vontade

entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância

tomava sempre o comboio para as férias grandes,

já terás feito amigos, sem saudades dos dias

onde passaste quase anónimo e leve

como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,

que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,

sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso

ela aí estava, um pouco distraída, é certo,

mas estava, como estava o  mar e a alegria

ou a chuva nos versos da tua juventude.

 

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta

página de um jornal trazido pelo vento,

nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,

jornal onde em primeira página também vinha

a promoção de um militar a general,

ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:

isto de militares custa a distingui-los,

feitos em forma como os galos de Barcelos,

igualmente bravos, igualmente inúteis,

passeando de cu melancólico pelas ruas

a saudade e a sífilis do império,

e tão inimigos todos daquela festa

que em ti, em mim, e nas dunas principia.

 

 

Consola-me ao menos a ideia de te haverem

deixado em paz na morte; ninguém na assembleia

da república fingiu que te lera os versos,

ninguém, cheio de piedade por si próprio,

propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,

te quiz fazer visconde, cavaleiro, comendador,

qualquer coisa assim para estrumar os campos.

Eles não deram por ti, e a culpa é tua,

foste sempre discreto (até mesmo na morte),

não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,

não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,

e foste a enterrar numa aldeia que não sei

onde fica, ma seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol

 

Poema de Eugénio de Andrade in Epitáfios de Agosto, 1978

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publicado às 19:53


#2458 - A POESIA SOVIÉTICA DE BELLA AKHMADULINA

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.17

Izabella Akhatovna Akhmadulina, conhecida como Bella Akhmadulina, poeta, tradutora e ensaísta russa.

Nasceu em Moscou, a 10 de abril de 1937, filha de um tártaro e de uma russa, com raízes italianas. Segundo Mikhail Vizel, em artigo especial para a Gazeta Russa do dia 10/04/2017, Bella era “filha do vice-ministro e tradutora da ONU (o que significava, mais provavelmente, uma agente da KGB), além de sobrinha-neta de um amigo pessoal de Lênin que está enterrado junto ao muro do Kremlin”.

 

 

Começou a escrever poemas muito cedo, trabalhou em um jornal de Moscou, frequentava os círculos literários organizados por Evgeny Vinokurov (1925-1993), participou das lendárias “noites de poesia no Museu Politécnico” e dos concertos no estádio Lujniki.

Em 1953, após a morte de Stálin, iniciou o “degelo da União Soviética (URSS)” quando Nikita Kruschev assume o poder. Este período, entre a década de 1950 e meados de 1960, conhecido como “degelo de Kruschev” foi caracterizado pela desativação do Gulag (sigla russa para Glavnoe Upravlenie Legarei, que significa “Administração Central dos Campos”) que eram campos de trabalhos forçados soviéticos e retorno da liberdade de expressão e criativa, assim as restrições sobre a literatura foram flexibilizadas e muitos nomes surgiram. A poesia ganhou força e eram declamadas em estádios para as massas.

Casou-se em 1954, com o também escritor russo Evguêni Ievtuchenko (1933-2017). Seus primeiros poemas foram publicados em 1955, na revista “Oktyábr” (outubro). Terminou os estudos no Instituto de Literatura Maxim Gorki em 1960 neste momento já havia se divorciado de Ievtuchenko. Sua primeira coletânea foi publicada em 1962.

Muito atraente era considerada a musa de todos os poetas.

 

Seu segundo marido foi Yuri Nagibin. Em 1968, divorciou-se de Nagibin. Voltou a casar, em 1971, com Eldar Kuliev, de quem teve uma filha, Elizaveta Kuliev. O casamento durou pouco tempo. Em 1974, Akhmadulina casou-se com o artista Boris Messerer.

Bella Akhmadulina escrevia sobre relações humanas voltadas ao amor e amizade, evitava escrever sobre política, mas mesmo assim se popularizou pela transformação de alguns dos seus poemas em canções.

Ainda na minha pesquisa por mais detalhes sobre Bella, encontrei uma série chamada "Таинственная страсть"( Mysterious Passion):

Esta série é baseada no livro homônimo do escritor russo Vasily Aksyonov (1932-2009), publicado pouco antes de sua morte em 2009. O romance discorre sobre a década de 1960 e seus protagonistas são os ícones da literatura e da arte soviética deste período e entre os nomes representados está o de Bella, além disso o livro contém fotos raras dessa época.

Vasily Aksyonov era filho de Evgenia Ginzburg (1904-1977), jornalista comunista presa no Gulag, acusada de participar de um grupo trotskista contra-revolucionário, permaneceu por 18 anos presa no campo de concentração soviético. Escritor de inúmeras novelas, possui vasta quantidade de obras, mas nenhuma foi traduzida para o português.

POEMAS

 

 Texto de Adriana Caló para a Revista OBVIOUS

 

 

 

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publicado às 19:26


#2457 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.17

A luz é baça: não ilumina nem aquece.

Apenas serve para

revelar o

microscópico pó

pousado 

no vidro

de antigas molduras que protegem

retratos

que ainda cheiram a alfazema

de espíritos já ausentes

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publicado às 19:13


#2455 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.06.17

Um rumor roça as minhas pálpebras.

Finjo que sou mouco.

Amordaço os  olhos.

Tapo a boca com uma venda.

Não quero estar presente.

Mas não posso fingir que estou ausente.

Engulo em seco. Suo poeira vermelha.

Abraço o tórrido vazio.

Quero erguer os braços suplicantes, não consigo.

Pesam mais que o ar denso.

Vozes iradas vindas não sei de onde gritam ameaças.

As pernas querem fugir mas a cabeça não deixa.

Sinto o hálito mortífero do deserto e a respiração espinhosa dos cactos.

O chão cospe cortinas transparentes de fogo, o corpo não vai aguentar.

Preciso urgentemente de água.

Acordo. Ligo o interruptor. Ilumino o medo.

Adormeço.

 

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publicado às 23:31


#2454 - BORRAS DE IMPÉRIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.06.17

 

BORRAS DE IMPÉRIO

 

I

Os impérios sempre se fizeram

com os que são forçados a fazê-los

e com os que ficam para ser mandados

e cuspidos pelos que querem fazê-los

Por isso, há nos povos imperiais

algo de um visgo de alma: que ou é cuspo,

ou um prazer dolente como  de escarra e cospe.

 

II

Há impérios que deixam no deserto ruínas de capitais pomposas.

 

E há os outros que se desculpam com tremores de terra

de terem passado sobre si mesmos como gafanhotos.

 

III

Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:

ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja

uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,

ou é com gente dessa que os impérios se fazem,

já que nada glorioso se constrói humanamente

sem 10% de heróis e 90% de assassinos.

 

Que coisa fedorenta a glória, sobretudo

enquanto não passam séculos e só ruínas

fiquem - onde nem o pó dos mortos

ainda cheire mal.

 

IV

Portugal é feito dos que partem

e dos que ficam. Mas estes

numa inveja danada por aqueles terem

sido capazes de partir, imaginam-lhes a vida

a série de triunfos sonhados por eles mesmos

nas horas de descrerem da mesquinhez em que triunfam

todos os dias. E raivosamente

escondem a frustração nos clamores

da injustiça por os outros lá não estarem

(como eles estão), do mesmo passo

que se ocupam afanosamente em suprimi-los

(não vão eles ser tão tolos - 

- a ponto de voltarem).

 

POEMA DE JORGE DE SENA ESCRITO EM 8 DE JUNHO DE 1971

____________________________________________________________________________________________

Jorge de Sena

Nasceu a 02 Novembro 1919
(Lisboa)

Morreu em 04 Junho 1978
(Santa Bárbara, Califórnia, EUA)

Jorge Cândido de Sena foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.
 
Escritor português, natural de Lisboa e naturalizado brasileiro, em 1963. Estudou em Lisboa, no colégio Vasco da Gama e no liceu Luís de Camões, onde, segundo o próprio, «andava já fazendo versos». Em 1937, entrou para a Escola Naval. A 1 de Outubro do mesmo ano, partiu no navio-escola Sagres, em viagem de instrução, que decorreu até Fevereiro do ano seguinte, após o que foi demitido da Armada. Entrou então para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Num jornal da faculdade, Movimento, publicou o poema Nevoeiro. Estabeleceu contacto com a revista Presença, através de Adolfo Casais Monteiro, a propósito de um poema de Álvaro de Campos. Desse contacto veio a resultar a ligação aos Cadernos de Poesia, onde Sena publicou, em 1940, os sonetos Mastros e Ciclo, e cuja direcção integrou durante algum tempo com Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José Augusto França. Formou-se na Faculdade de Engenharia do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas até 1959, data em que se exilou voluntariamente no Brasil. A partir daí, desenvolveu uma actividade académica intensa nas áreas da literatura e cultura portuguesas. Foi catedrático contratado de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (Estado de São Paulo). Em 1961, transitou para a Universidade de Araraquara, igualmente em São Paulo, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa. Adoptou a nacionalidade brasileira em 1963. Em 1965 seguiu, também como professor, para a Universidade do Wisconsin (EUA) e, cinco anos mais tarde, para a Universidade da Califórnia, onde veio a chefiar os departamentos de Espanhol e Português e o
 

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publicado às 18:06


#2449 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.17

No tampo da mesa

velhas cicatrizes

marcam o lugar onde os

cotovelos descansam e onde

os mornos pensamentos irão adormecer

afogados no

silêncio quente da

madeira

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publicado às 22:06


#2448 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.17

O rio que nasce no mar:

Água salgada

Peixes com asas voam entre as algas e o alecrim

A árvore pasmada

Os ossos já dobrados

Pela idade avançada

Inversão de sentido só na nascente de pedras graníticas

Jáspeas

Que fica bem alto

Bem longe

No princípio de tudo

O sol que arrefece no espelho da alma

Escolher o sítio da desova

O urso à espreita

Velha sentinela

A luta que dura há séculos com tréguas nos intervalos

Corredores de fundo e obstáculos

Melhores que olímpicos

Não há medalhas para vencedores nem

Loas para os vencidos

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publicado às 22:01


#2442 - CANTO DAS IMAGENS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.17

 FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

CANTO DAS IMAGENS

 

Ao princípio era só uma em cada olhar

após a grande divisão das águas

e mesmo, segundo disse Baudelaire, a imagem

até ao seu século do real múltiplo

era una, única e própria. Dementes

chamou este cantor aos fotogramas

que roubavam à alma a unicidade

e deram aos olhos frívolos as figuras

plurais, idênticas, dispersivas.

Era somente uma a imagem mística,

dos entes naturais aos transcendentes.

Só uma esta vermelha afelandra

embora as suas irmãs se lhe assemelhem

e desassemelhem, cada uma, sempre.

O concreto pulsava neste ritmo

das coisas parcas, poucas, singulares.

E de repente, nos olhos do poeta

cada coisa reproduziu a imagem

inumeradamente, e a ideia

decaíra no  banal prolixo.

Antes, podia hesitar-se entre o modelo

e as sombras de Platão, agora as flores

malignas, podem reproduzir-se no mundo

nítidas, iguais, supérfluas.

Eu ainda vejo o olhar antigo de Baudelaire

e cada coisa vibra no seu mito,

e cada imagem cria o seu espírito,

e cada cópia fotográfica muda

na liminarmente máxima diferença.

Ao crítico e amante da Pintura

as dúbias imagens decerto deram

a cada rosto um só outro rosto,

a cada paisagem uma só tela.

Já os vidros, a água, a prata traziam

a incerteza aos traços, como se os olhos

que nos deu a Natureza nos fossem

infiéis. E o poeta pôde resistir

a esta perda das formas consagradas

e consubstanciais das coisas que ainda

ecoam a Criação como o eco cósmico

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão escrito em 30 de Outubro de 1993 retirado do livro "Obra Breve - Poesia Reunida", páginas 558 e 559, com prefácio de Eduardo Lourenço, e edição da Assírio & Alvim n.º 0976, Maio de 2006

_____________________________________________________________________________________

Dramaturga, tradutora e poeta, formada em Filologia Germânica na Universidade de Lisboa, exerceu actividade de investigação na área da literatura e da linguística. Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61, colectânea que reflectia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acesso pela palavra pura a um tempo primordial. O critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maior pode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta como fontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme do Conhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar nas palavras e nas imagens e que só por acumulação diurna e através da absorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de Cântico Maior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve, 1991). Sob o Olhar de Medeia, a obra que marca a primeira incursão no romance por parte desta autora, foi publicado em 1998. Faleceu em Lisboa no dia 20 de Janeiro de 2006.

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publicado às 17:14


#2436 - AS MÃES

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.06.17

 EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005)

 

AS MÃES

 

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem orfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes enconstam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas  pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma  ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das , tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela,regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando algumas azeitonas para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela, só ele vê.

 

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressureição.

 

Poema de Eugénio de Andrade

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publicado às 10:45


#2434 - Poema de Ryszard Krynicki

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.17

 Sobrevivemos à guerra - sobrevivemos à paz:

 

volta  e meia acreditávamos que os períodos passados

nunca mais se repetiriam

e de facto, nunca se repetiam

(mas seguiam-se um após outro),

a infância se foi para sempre,

não quis voltar a juventude perdida

e ninguém prestou contas

do nosso tempo desperdiçado.

 

Faltava-nos fé

e por isso acreditávamos em qualquer coisa

em qualquer luta falsa,

mas não em luta solitária, porque cada um de nós

que a arriscou

teve de lutar contra as sombras de ferro,

contra o algodão de ferro que o cercava,

impedia de respirar, expunha ao ridículo;

era cada vez mais difícil se mover,

o algodão das verdades mentirosas tapava nossos ouvidos,

até as pequenas esperanças tornavam-se difíceis

de se concretizar

e quanto mais depressa podíamos vencer grandes distâncias,

tanto mais tempo era preciso para o entendimento mútuo,

quanto mais longe nos aventurávamos no futuro,

tanto mais se alongava a distância de coração a coração,

quanto mais sabíamos da vida dos outros,

vivos, mortos e a nascer,

tanto menos conhecíamos a nós próprios;

meios de espasmo de massa

nos acostumavam sem dor às tragédias do mundo contemporâneo,

ainda éramos capazes  de cuidar

das nossas flores e animais domésticos,

mas temíamos até pensar que os pequenos países

são polígonos de experiência das grandes potências;

votávamos - em silêncio,

só manifestávamos nossa presença

quando nossos amadores ganhavam dos profissionais,

e então os arranha-céus tremiam com o grito:

transformavam-se em altíssimas barricadas,

que ninguém atacava,

pois há muito tinham sido conquistadas.

[...]

 

Poema do poeta polaco Ryszard Krynicki

 

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publicado às 22:04


#2429 - CÂNTICO DA JUVENTUDE CONDENADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.06.17

WILFRED OWEN (1893-1918)

 

CÂNTICO DA JUVENTUDE CONDENADA

 

Que sinos dobram por estes que morrem como gado?

- Apenas a monstruosa ira das armas.

Apenas o estrépito veloz do  gaguejar das espingardas

Lhes pode recitar maquinalmente apressadas preces.

Por eles não há agora motejo; nem orações nem sinos,

Nem nenhuma voz de pranto a não ser a dos coros -

Coros estridentes e loucos de granadas lastimando-se;

E clarins reclamando-os em terras tristes.

 

Que velas se poderão acender para os apressar a todos?

Não nas mãos dos rapazes, mas nos seus olhos

Brilharão os sagrados lampejos das despedidas.

Os rostos pálidos das raparigas são as suas mortalhas;

As suas flores, a ternura de mentes resignadas,

E cada lento anoitecer um cerrar de persianas.

 

Poema do poeta inglês Wilfred Owen

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Wilfred Edward Salter Owen (18 de março, 18934 de novembro, 1918) foi um poeta e militar inglês (Plas Wilmot, Shropshire, 1893-Batalha de la Sambre, 1918). Estudou nas Universidades de Liverpool e Londres, e veio a morrer em combate, sete dias antes do armistício. As suas elegias sobre a guerra — Poems — publicadas por S. Sassoon em 1920, revelam-nos um poeta, na linha de Keats, de gosto depurado e pleno de autenticidade, que veio a exercer um fascínio decisivo na poesia inglesa da década de 30. Alguns dos seus poemas inspiraram o War Requiem de B. Britten.

 

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publicado às 21:06


#2424 - Poema de Mahmud Darwish

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

 MAHMUD DARWISH (1941-2008)

 

só me resta

perder-me pela tua sombra, que é a minha.

só me resta

habitar a tua voz, que é a minha.

 

afastei-me da cruz estendida

como claridade em horizonte que não se inclina

até ao mais minúsculo monte que a vista alcança

mas não achei minha ferida, minha liberdade.

 

porque não sei onde moras

não encontro o caminho,

e porque meu dorso não se apoia em ti com pregos

inclinei-me tanto

como teus céus fazem

a quem espreita de escotilhas de avião

 

devolve-me os pedaços do meu nome

para que possa convocar as fibras das árvores

devolve-me as letras do meu rosto

para que possa chamar as tempestades próximas

devolve-me as razões do meu prazer

para que possa invocar esse regresso sem razão

 

porque a minha voz está seca como pau de bandeira

e a minha mão vazia como o hino nacional

porque a minha sombra é ampla como se fora uma festa

e os traços do meu rosto se passeiam de ambulância,

porque eu não sou mais do que isto:

o cidadão de um reino que não nasceu ainda.

 

Poema do poeta palestiniano Mahmud Darwish

 

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Mahmoud Darwish (1942–2008)

Palestinian Mahmoud Darwish was born in al-Birwa in Galilee, a village that was occupied and later razed by the Israeli army. Because they had missed the official Israeli census, Darwish and his family were considered “internal refugees” or “present-absent aliens.” Darwish lived for many years in exile in Beirut and Paris. He is the author of over 30 books of poetry and eight books of prose, and earned the Lannan Cultural Freedom Prize from the Lannan Foundation, the Lenin Peace Prize, and the Knight of Arts and Belles Lettres Medal from France.

In the 1960s Darwish was imprisoned for reciting poetry and traveling between villages without a permit. Considered a “resistance poet,” he was placed under house arrest when his poem “Identity Card” was turned into a protest song. After spending a year at a university of Moscow in 1970, Darwish worked at the newspaper Al-Ahram in Cairo. He subsequently lived in Beirut, where he edited the journal Palestinian Affairs from 1973 to 1982. In 1981 he founded and edited the journal Al-Karmel. Darwish served from 1987 to 1993 on the executive committee of the Palestinian Liberation Organization. In 1996 he was permitted to return from exile to visit friends and family in Israel and Palestine.

Mahmoud Darwish’s early work of the 1960s and 1970s reflects his unhappiness with the occupation of his native land. Carolyn Forché and Runir Akash noted in their introduction to Unfortunately It Was Paradise (2003) that “as much as [Darwish] is the voice of the Palestinian Diaspora, he is the voice of the fragmented soul.” Forché and Akash commented also on his 20th volume, Mural: “Assimilating centuries of Arabic poetic forms and applying the chisel of modern sensibility to the richly veined ore of its literary past, Darwish subjected his art to the impress of exile and to his own demand that the work remain true to itself, independent of its critical or public reception.”

Poet Naomi Shihab Nye commented on the poems in Unfortunately It Was Paradise: “[T]he style here is quintessential Darwish—lyrical, imagistic, plaintive, haunting, always passionate, and elegant—and never anything less than free—what he would dream for all his people.”

Mahmoud Darwish died in 2008 in Houston, Texas.

 

 

 

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publicado às 17:55


#2422 - NINGUÉM MEU AMOR

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

 SEBASTIÃO ALBA (1940-2000)

 

NINGUÉM MEU AMOR

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos

 

Poema do poeta português Sebastião Alba (1940-2000)

_____________________________________________________________________________________________

Sebastião Alba
 
Escritor português, Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasceu a 11 de março de 1940, em Braga.

Em 1949, partiu para Moçambique, para Tete, onde foi viver com os pais e irmãos, passando a viver, nos finais dos anos 50, em Quelimane. Aos 21 anos desertou do Contingente Militar Geral (em Boane) e no segundo dia de fuga foi preso e torturado durante dois anos.

Manifestando o seu apoio à FRELIMO,após frequentar um curso de Formação em Inhanbane, exerceu o cargo de administrador da província da Zambézia que abandonou alguns meses depois. Estabelecendo-se em Maputo, tomou contacto com intelectuais e personalidades políticas importantes, como Marcelino dos Santos, RuiNogar, SérgioVieira, Honwana, entre outros.
 
Desiludido com a situação política em Moçambique, regressou a Portugal, em1983. Após vários problemas familiares e com problemas de álcool e tabaco,Sebastião Alba resolveu ir sozinho para a sua cidade natal e, por decisão própria, passou a viver na rua.

Colaborou na revista Caliban e no Correio do Minho e publicou as seguintes obras: Poesias (1965), O Ritmo do Presságio (1974), A Noite Dividida (1982), OLimite Diáfano (1996), a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (2000, livro póstumo).
A 14 de outubro de 2000 , Sebastião Alba morreu atropelado em Braga.
 
A 7 de outubro, quase como pressentimento, tinha escrito ao amigo Vergílio AlbertoVieira: "Se um dia encontrarem morto" o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar:dois sapatos,a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá."
 

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publicado às 17:29


#2421 - ENCONTRO NUMA FESTA EM LONDRES

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

EUNICE DE SOUZA

 

ENCONTRO NUMA FESTA EM LONDRES

 

Durante um minuto permanecemos desconcertadamente juntos.

Perguntas a ti mesmo em que língua hás-de falar-me,

ofereces, antes, uma cebola avinagrada num palito.

És jovem e talvez te esqueças

de que o Império vive

apenas nos sons puros das vogais que te ofereço

acima do ruído.

 

Poema de Eunice de Souza

_______________________________________________________________

Eunice de Souza is an English-language poet. She has published four volumes of poetry, two novellas and edited several anthologies of poems and essays. Her most recent publication – A Necklace of Skulls, a volume of collected poems – was published by Penguin India in 2009. Her work has been translated into Portuguese, Italian, Finnish and Swedish.

De Souza retired as Head of the Department of English at St Xavier’s College, Mumbai, in 2000 after thirty years of teaching. She holds a Masters from Marquette University, Wisconsin, USA, and a doctoral degree from the University of Mumbai.

 

 

 

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publicado às 17:02


#2419 - Morte do poeta Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.17

 ARMANDO SILVA CARVALHO (28 de março de 1938 - 1 de Junho de 2017)

 

Armando Silva Carvalho nasceu em Olho Marinho, Óbidos, em 1938. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia por pouco tempo, optando pelo jornalismo, pelo ensino, pela publicidade e pela tradução.
A sua obra tem vindo a ser reconhecida pela crítica e distinguida com diversos prémios, como o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas, para citar apenas alguns.

Morreu aos 79 anos de idade.

 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

____________________________________________

 

Ninguém é filho do poema universal.

Nem pai

do seu rebanho de versos.

O que eu busco é um lar.

Um lar mais natural nas palavras

da terra

com os lábios invisíveis sobre o livro

dos mortos.

 

Dois poemas de Armando Silva Carvalho retirados do livro "Obra Poética (1965-1995)", páginas 631 e 634 - Edições Afrontamento, Julho de 1998 e com prefácio de José Manuel de Vasconcelos.

 

 

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publicado às 17:12


#2417 - A MENTE DE ALBERTO CAEIRO EM 10 TRECHOS DE SUAS POESIAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.05.17

publicado em literatura por  - REVISTA OBVIOUS

Uma seleção de versos para conhecer os temas e compreender a mente de Alberto Caeiro, o poeta da Natureza e heterônimo de Fernando Pessoa.

fernando-pessoa.jpg

Costumo dizer que Fernando Pessoa era Fernando Pessoas. Gosto desse trocadilho besta, mas muito verdadeiro. Sim, muito verdadeiro. Seus heterônimos são pessoas como eu e você. Eles têm data de nascimento e morte. Têm mapa astral – que o próprio Pessoa elaborava. Têm uma história de vida pessoal e um estilo único de escrita.

alberto_caeiro-1.jpg

Mas o que mais me impressiona é que eles são tão diferentes que chegam a ter pontos de vista contrários sobre o mundo. Enquanto um vangloria as máquinas e as construções, outro só encontra a verdade na Natureza do Ribatejo. Este último é o Alberto Caeiro, o pastor amoroso, o guardador de rebanhos, o poeta do não-pensar. Aquele que parece ter nascido de uma semente de erva do mato.

 

Para entender esse mestre, podemos imaginar que estamos aqui nessa vida, habitando esse planeta, e com isso criamos problemas demais. Procuramos muitas respostas para as nossas perguntas, o que só nos gera conflito. Desejamos demais o que não estamos vendo e assim perdemos o poder de desfrutar o que já estamos vendo.

 

Alberto Caeiro é a riqueza do mais simples. É uma ilha onde moramos e de onde tudo provém.

 

Selecionei aqui alguns trechos de alguns de seus poemas, com o intuito de conhecermos a mensagem desse loiro magrelo de olhos azuis. Um ser da natureza que não se considera mais que uma planta ou uma pedra. Que possamos ler, lendo. Sem mais perguntas, apenas vendo. Afinal, segundo nosso poeta, os pensamentos atrapalham demais o simples sentir.

 

 

 

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publicado às 21:53


#2413 - FRACASSO

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.05.17

 RAFAEL CADENAS

 

FRACASSO

 

Quando  supus ser vitória é fumo apenas.

 

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, difícil de entreler é tua letra. 

 

Quando punhas tua marca em minha fronte, nunca pensei na mensagem que trazias, mais preciosa que todos os triunfos.

Teu rosto chamejante perseguiu-me e eu não soube que era para salvar-me

Para meu bem desterraste-me para lugares recônditos, negaste-me êxitos fáceis, cortaste-me saídas.

Era a mim que querias defender ao não me conceder brilho.

De puro amor por mim manejaste o vazio que tantas noites me fez falar febril a um ausente.

Para proteger-me deixaste passar outros, fizeste que uma mulher prefira alguém mais ousado, afastaste-me de ofícios suicidas.

 

Vieste sempre dar a cara.

 

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me na minha mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.

Por loucura amaldiçoei-te, maltratei-te, blasfemei contra ti.

 

Tu não existes.

Foste inventado pela soberba delirante.

 

Quanto te devo!

Levantaste-me a um novo nível limpando-me com uma áspera esponja, lançando-me para o meu verdadeiro campo de batalha, cedendo-me as armas que o triunfo abandona.

Levaste-me pela mão à única água que ne reflecte.

Por ti não conheço a angústia de representar um papel, manter-me à força num alto, trepar com esforços próprios, discutir por causa de hierarquias, inchar até rebentar.

Fizeste-me humilde, silencioso e rebelde.

Não te canto pelo que és, mas pelo que não me deixaste ser. Por não me dares outra vida. Por me teres diminuído.

 

Ofereceste-me somente nudez.

É verdade que me ensinaste com dureza e tu mesmo trazias o cautério!, mas também me deste a alegria de não te recear.

Obrigado por me tirares espessura em troca de uma letra grande.

 

Obrigado a ti, que me privaste de vaidades.

Obrigado pela riqueza a que me obrigaste.

Obrigado por me construir com meu barro a minha morada.

Obrigado por me afastares.

Obrigado.

 

POEMA DE RAFAEL CADENAS

____________________________________________________________________________

BIOGRAFÍA

Rafael Cadenas nació en Barquisimeto, Venezuela, en abril de 1930. Empezó a escribir poesía desde muy joven y también fue temprana su actividad política en la militancia comunista, por lo que tuvo que exiliarse a Trinidad en 1952, donde permaneció hasta 1957. Allí vivió cuatro años y aprendió el inglés, lo cual le permitió leer y traducir a los poetas anglosajones. De esa experiencia surgió también, ya de regreso a Venezuela, su primer gran libro: Los cuadernos del destierro.

Rafael Cadenas fue uno de los fundadores del grupo y la revista Tabla Redonda (1959-1963).A partir de 1963, la fama de Rafael Cadenas se extendió por toda Latinoamérica tras la publicación de “Derrota”.

Fue profesor de la Escuela de Letras de la Universidad Central.

Recibió la beca Guggenheim en 1986 y el doctorado Honoris Causa de la Universidad Central de Venezuela.

Ganó el Premio Nacional de Ensayo (1984), el Premio Nacional de Literatura (1985), el Premio San Juan de la Cruz y el Premio Internacional de Poesía J. A. Pérez Bonalde (1992), así como una beca de la Fundación Guggenheim (1986). También le fue otorgado en México el Premio FIL de Literatura en Lenguas Romances, antes llamado Juan Rulfo.

Dueño de un lenguaje mágico y depurado, su obra lo sitúa como uno de los grandes exponentes de la poesía modernista  hispanoamericana.

BIBLIOGRAFÍA

Poesía:

Cantos iniciales (1946)

Una isla (1958)

Los cuadernos del destierro (1960, 2001)

"Derrota" (1963)

Falsas maniobras (1966)

Intemperie (1977)

Memorial (1977)

Amante (1983)

Dichos (1992)

Gestiones (1992)

Antología (1958-1993) (1996), (1999)

Obra entera. Poesía y prosa (Fondo de Cultura Económica, 2000)

Amante (bid & co. editor, 2002)

Poemas selectos (bid & co. editor, 2004, 2006, 2009)

El taller de al lado (bid & co. editor, 2005)

Obra entera. Poesía y prosa (1958-1995) (Editorial Pre-Textos, 2007)

 

Ensayo:

Literatura y vida (1972)

Realidad y literatura (1979)

Apuntes sobre San Juan de la Cruz y la mística (1977, 1995)

La barbarie civilizada (1981)

Anotaciones (1983)

Reflexiones sobre la ciudad moderna (1983)

En torno al lenguaje (1984)

Sobre la enseñanza de la literatura en la Educación Media (1998)

 

PREMIOS

Premio Nacional de Ensayo (1984)

Premio Nacional de Literatura (1985)

Premio San Juan de la Cruz (1991)

Premio Internacional de Poesía J. A. Pérez Bonalde (1992)

Premio FIL de Literatura en Lenguas Romances (2009)

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publicado às 18:01


#2412 - POEMA DE NÂZIK AL-MALÂ' IKA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.05.17

 NÂZIK AL-MALÂ' IKA (1926-2007)

 

a noite pergunta quem eu sou.

sou o seu profundo segredo,

inquieto e negro, seu rebelde segredo.

meu ser escondi dentro do silêncio.

meu coração envolvi em conjecturas

para aqui fiquei, pálida, inerte,

a ver os séculos que se interrogam:

quem sou eu?

 

o vento pergunta: quem sou eu?

sou o seu assombrado sopro, renegada do tempo,

tal como ele, não tenho lugar.

sem fim seguimos caminhando,

eternamente passando e, lá no cume,

encontramos apenas o limite da miséria

e então o vazio.

 

o tempo interroga-se: quem sou eu?

como ele, sou uma altiva que devora os tempos

e lhes confere vida novamente.

retrato o longínquo passado

como esperança fácil, sedutora,

e volto eu própria a sepultá-lo.

assim posso forjar-me um ontem diferente

e um futuro perplexo.

 

meu ser pergunta-se: quem sou eu?

como ele caminho, fixa nas trevas

sem nada receber da paz.

e vou sempre perguntando

mas a resposta é ela também uma miragem,

e embora a creia próxima - como sempre -

ao aproximar-se, dissolve-se.

desaparece.

morre.

 

POEMA DA POETISA IRAQUIANA NÂZIR AL-MALÂ' IKA

______________________________________________________________

Nació en Bagdad, en 1923, en el seno de una familia culta: su madre escribía poesía y su padre también era poeta, además de editor y profesor de árabe. Aficionada a la poesía desde temprana edad, a los diez años escribió sus primeros poemas en árabe clásico y continuó escribiendo y publicando poemas en revistas y periódicos durante su periodo de formación en el Higher Teachers' Training College de Bagdad, donde se graduó en 1944. A la vez, se interesó por la música y aprendió a tocar el laúd en el Fine Arts Institute.También estudió inglés y francés y obtuvo una beca para estudiar en la Universidad de Princeton... Leer más

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publicado às 15:02


#2411 - UMA DEDICATÓRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.05.17

 JAMES MERRILL (1926-1995)

 

UMA DEDICATÓRIA

 

Hans, há momentos em que todo o espírito

Se transforma num par de olhos transbordantes, ou lábios

Abrindo-se para beber da funda nascente de uma morte

Cuja frescura ainda não precisam de entender.

São estes os momentos, se os há, em que um anjo entra

No espírito, como reis nas vestes

De um pobre cabreiro, para os seus actos de caridade.

Há momentos em que a fala é apenas uma boca colada

Breve e humildemente na mão do anjo.

 

POEMA DO POETA AMERICANO JAMES MERRILL

_______________________________________________________________

James Merrill

1926-1995 , New York City , NY
 
Chancellor 1979-1995
 

James Ingram Merrill was born in New York City on March 3, 1926, and grew up in Manhattan and Southampton. He was the son of Charles Merrill, cofounder of the brokerage firm Merrill Lynch, and his second wife, Hellen Ingram. At the age of eight, he was already writing poems, and at age sixteen, while he was in prep school, his father had a book of them privately printed under the title Jim’s Book. His parents divorced in 1939, when he was thirteen.

He attended Amherst College, where he studied under Reuben Brower, who would later, at Harvard, train many renowned critics and teachers of literature. It was also at Amherst that he first met Robert Frost. His studies were interrupted by service in the U.S. Army from 1944 to 1945. Another book, The Black Swan, was privately printed while he was still in college, in 1946, and in 1947 he graduated summa cum laude. His undergraduate thesis was on metaphor in Proust, and John Hollander writes that Merrill’s work “was continually reengaging those Proustian themes of the retrieval of lost childhood, the operations of involuntary memory and of an imaginative memory even more mysterious . . .”

He went on to teach for a year at Bard College, then spent the next two-and-a-half years traveling Europe—, a period described in his 1993 memoir, A Different Person. His first trade book, First Poems, was published by Alfred A. Knopf in 1951 to great acclaim. In 1955 he moved to the small coastal town of Stonington, Connecticut, with his companion David Jackson. (The address of that house, on Water Street, furnished the title for his 1962 book of poems.) In 1956 he used a portion of his inheritance to found the Ingram Merrill Foundation, which has since awarded grants to hundreds of artists and writers. His first novel, the semi-autobiographical Seraglio, was published by Alfred A. Knopf in 1957. Two years later, he and David Jackson moved to a house in Athens, where they spent part of each year until 1979.

James Merrill’s second novel, The (Diblos) Notebook (1965) was a finalist for the National Book Award in Fiction, and the following year his Nights and Days won the National Book Award in Poetry. He went on to earn numerous awards for his poetry, including the Bollingen Prize for Braving the Elements (1972), the Pulitzer Prize for Divine Comedies (composed with the help of a Ouija board; 1976), a second National Book Award for Mirabell (1978), the National Book Critics Circle Award for his epic poem The Changing Light at Sandover (1982), and the first Bobbitt National Prize for Poetry awarded by the Library of Congress for The Inner Room (1988).

He served as a Chancellor of the Academy from 1979 until his death on February 6, 1995. James Merrill died of a heart attack, at the age of sixty-eight, while on vacation in Arizona. His last book, A Scattering of Salts (Alfred A. Knopf), was published a month later.


Selected Bibliography

Poetry

A Scattering of Salts (1995)
Selected Poems 1946-1985 (1992)
The Inner Room (1988)
Late Settings (1985)
From the First Nine: Poems 1946-1976 (1982)
The Changing Light at Sandover (1982)
Scripts for the Pageant (1980)
Mirabell: Books of Number (1978)
Divine Comedies (1976)
Braving the Elements (1972)
The Fire Screen (1969)
Nights and Days (1966)
Water Street (1962)
The Country of a Thousand Years of Peace (1959)
First Poems (1951)

Prose

A Different Person (1993)
Recitative (1986)

Drama

The Bait (1960)
The Immortal Husband (1955)

Letters

The (Diblos) Notebook (1965)
The Seraglio (1957)

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publicado às 14:30


#2409 - TENTO POETICANENTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.05.17

 Lubertus Jacobus Swaanswijk, plus connu sous le nom de Lucebert (1924-1994

 

TENTO POETICAMENTE

 

isto é

de singeleza iluminadas águas

o espaço do pleno viver

exprimir

 

não fosse eu  homem

igual a uma multidão de homens

mas fosse eu quem sou

o anjo pétreo ou líquido

nascimento e putrefacção não me teriam tocado

o caminho de desamparo a comunhão

caminho pedras pedras bichos bichos pássaros pássaros

não ficaria tão sujo

como agora se vê nos meus poemas

instantâneos desse caminho

 

o que sempre se chamou beleza

beleza hoje queimou o rosto

já não consola o homem

consola as larvas os répteis os ratos

ao homem assusta

ferindo-o pela consciência

de que é migalha de pão na saia do universo

já não só o mal

a punhalada mortal nos humilha ou revolta

igualmente o bem

o abraço nos faz remexer desesperadamente

no espaço

 

por isso eu procurei a linguagem

em sua beleza

lá ouvi que ela de humano apenas tinha

os defeitos de fala da sombra

e os da ensurdecedora luz do sol

 

Poema do poeta holandês Lucebert

_______________________________________________________________________________

Lubertus Jacobus Swaanswijk, plus connu sous le nom de Lucebert, est un poète, peintre et dessinateur néerlandais, né le à Amsterdam et mort le à Alkmaar. Il était un membre du mouvement CoBrA. Sa phrase la plus célèbre est Alles van waarde is weerloos (ce qui pourrait se traduire en français par « Tout ce qui a de la valeur est impuissant/sans défense »).

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publicado às 20:09


#2404 - O LAMENTO DA TERRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.05.17

 JULES SUPERVIELLE (1884-1960)

 

O LAMENTO DA TERRA

 

Um dia, quando dissermos: «Era o tempo do sol,

Recordem-se, alumiava o mais pequeno ramo

E tanto a mulher idosa como a rapariga admirada,

Sabia dar a sua cor às coisas mal nelas pousava.

Seguia o cavalo corredor e parava com ele.

Era o tempo inesquecível em que estávamos sobre a Terra,

Em que fazia barulho deixar cair qualquer coisa,

Olhávamos em volta com os nossos olhos versados,

Os nossos ouvidos entendiam todas as subtilezas do ar,

E quando o passo do amigo aí vinha, logo o sabíamos;

Apanhávamos tanto uma flor como uma pedra polida,

O tempo em que não podíamos agarrar o fumo,

Ah! só isso as nossas mãos apanhariam agora.»

 

Poema de Jules Supervielle

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(1884–1960) was born in Montevideo, studied in France, then lived alternately in a Paris suburb and in Montevideo. He published ten collections of poetry. T.S. Eliot said of him and Saint-John Perse, "There are no two poets of their generations of whose permanence I feel more assured."

 

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publicado às 18:59


#2403 - ÉRAMOS TRÊS, ÉRAMOS DOIS, ERA SÓ EU, ÉRAMOS NENHUM...

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

JOSEP VICENÇ FOIX (1894-1987)

 

ÉRAMOS TRÊS, ÉRAMOS DOIS, ERA SÓ EU, ÉRAMOS NENHUM...

 

Éramos três, esquivos, no escuro das vindimas,

com o mar nos olhos, vinho de mosto nas mãos,

quando no sal dos bosques o rego lança fumo

e um choro de criança rebrilha no cerrado.

 

Éramos dois, erguidos na rocha das estrelas,

o coração sangrando, sem uma funda e dados,

quando o ermo se queima e soluçam os breus

nos charcos latentes de canteiros de faróis.

 

Era eu só, umbroso entre sombras já velhas,

a figurar uma outra sombra no varadouro

onde marinha, entre redes estendidas,

o sono de todos em poentes febris.

 

Éramos nenhum, entre folhas de treva,

quando o medo chove nas pétalas das poças

e o outro, o Puro, livre de velas e de leme,

vidente, zarpa, rumo ao Instante claro.

 

Poema do poeta catalão Josep Vicenç Foix

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Josep Vicenç Foix

Poeta catalán cuya obra es emblemática de la vanguardia del siglo XX en su lengua. No concluyó los estudios de derecho y se dedicó al periodismo en La Revista (1918), Trossos (1918) y L´Amic de les Arts (1926-1928), y fue jefe de Cultura de La Publicidad (1922-1936). Sus principales textos teóricos los publicó en Quaderns de Poesia (1935-1936). Tras la Guerra Civil renunció a seguir en la profesión, ante la imposibilidad de ejercerla en catalán, y pasó a hacerse cargo de la empresa de pastelería familiar. Aun así colaboró con Ariel y Dau al Set.

Sus primeras prosas poéticas, Gertrudis (1927) y KRTU (1932) compiladas luego en Diari 1918 (1956) evidencian múltiples influencias, con predominio del surrealismo. Pronto, sin embargo, se aleja de las corrientes vanguardistas en pro de un camino propio en el que incorpora los más variados procedimientos y que se traduce en la alternancia de formas y estilos.

Entre los círculos minoritarios será reconocido como uno de los grandes poetas catalanes del siglo a raíz de Sol, i de dol (1947), recopilación de sonetos que sintetiza su particular síntesis de clasicismo y vanguardia, con un riquísimo léxico en el que se combinan arcaísmos y neologismos. La metafísica, la búsqueda de lo absoluto, constituye una de las constantes de su obra. Les irreals omegues (1949) es una muestra de su estilo más barroco. En On he deixat les claus (1953) ensaya el verso más corto y las formas populares. Importante es también Onze Nadals i un Cap d´Any (1960). Ciego ya, dictó L'estació (1985).

 

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publicado às 18:21


#2402 - Um poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

ALMADA NEGREIROS (1893-1970)

 

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda

não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor

de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão

de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

 

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho

sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas  viagens,

aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas

ambas com as mesmas palavras.

 

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!

Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.

Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para

a nossa casa, como a mesa.

 

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

 

Poema de Almada Negreiros

_________________________________________________________

Almada-Negreiros
Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abrilde 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

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publicado às 16:42


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