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#2717 - PARA EDWARD MUNCH

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 LARRY SAWYER

 

 

PARA EDWARD MUNCH

 

Os gritos dos montes

estão inchados de sentido

enquanto a boca se enche

com a cor azul

que gela o céu

e rouba a frieza

pelo sangue ardente

ou será que isso não funciona

esta manhã

à hora do costume

como se nos pudéssemos atrasar

para a noite que chega

através da pele

entrando pelos poros

horas de halogéneo irradiando

o seu sentido

como um coração a bater,

algumas nuvens nervosas, um

Inverno.

 

Poema de Larry Sawyer

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publicado às 16:36


#2716 - PHTONOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

ENIS BATUR

 

 

PHTONOS

 

"Diz-se que na Grécia antiga alguns deuses não tinham corpo.

O que os mantinha não era uma figura, mas um som, um sinal."

Puxou o seu cabelo de prata para trás das orelhas,

fazendo uma pausa entre as frases:

"o que sempre me faz recordar o Requiem de Mozart:

se uma mão ajudar, a morte e a vida podem sobreviver

no mesmo vaso de plantas. Se uma alimentar a outra,

qual é esta, pergunto-me? Algumas perguntas a que não podemos responder

infiltram-se pelos anos, fazem poça na nossa vida."

Distracção. Invocando uma manhã chuvosa de Salzburgo, talvez

a memória lhe esteja sobrecarregada por imagens do hospital

para onde fora levado, a seguir à noite em que começou

o último andamento do seu concerto para violino.

"Por detrás do coro esconde-se o próprio medo, solitário,

inultrapassável: escolher para que lado se virar num cruzamento

parece-me ser a mais glacial das decisões

- sorri com pesar por um momento - talvez seja por isso

que nunca consegui passar o portal que alcancei."

Semente dura, solo fértil - se regados separadamente,

também se alimentariam um ao outro: raízes misturam-se, num enredamento impossível,

tece-se um emaranhado pela sobrevivência lentamente partilhada.

Mas se é mesmo verdade que alguns deuses vivem sem corpo,

então o som phi faz assentar uma mancha escura na sala:

O vaso racha-se, o solo seca, tantas mortes

podem elevar o seu pendão na nossa vida enquanto vivemos.

 

Poema de Enis Batur, in O Divã Cinzento, 1990

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publicado às 14:09


#2715 - A Europa em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.17

 MICHEL DEGUY

 

A EUROPA EM LISBOA

 

O amor "libertou-se" da prisão de Amor

Olha: fica esse belo vazio

do amor esvaziado    o lenço de mármore

que a amante agitava ao oceano agitado

ou à cativa amante um trovador cativo

 

E agora descreve o castelo de água pétrea

O castelo de gávea capitaina

Que fez  renascentistas pensarem feudalismos

Voto cumprido de um príncipe cumprindo o verso de Gôngora

"de uma torre de vento delgadamente erguida"

 

E agora

O sereno tapete do Tejo estirado retira-se a seus pés

E também o saber se retirou

Como um refluxo sob a secura ignara

Em que as novas despejam uma espuma de datas

 

Da torre de Belém à torre de Stephen

Não quero pôr em causa o sentido da visita

Que o passe cultural poliglota autoriza

Nessa gaiola fui atrás da mulher da limpeza

 

A quem incumbe zelar pelo vazio bem vazio  

Amarrar favores da pedra ao terceiro patamar

E arrumar turbantes, de pedra, escudos, de pedra,

                 de sultão, de cruzado

                                       abrir caminho à volta

do Amor que não regressará.

 

 

Lisboa, 1993

 

Poema de Michel Deguy traduzido por Vasco Graça Moura

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publicado às 10:03


#2714 - ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

 AMADEU BAPTISTA

 

 

ALBERTO MORAVIA: O PARAÍSO

 

Vi como a actriz levitou entre as sete paredes da sala

e soube imediatamente como isso era bom.

O céu de antracite dos últimos dias

foi um sinal do tempo nos meus olhos

que de uma árvore a outra projectou

um momento único de calor e vida.

A actriz era o primeiro êxtase

nos vários segmentos dos meus olhos,

silenciosa sequência de roldanas

onde a luz é um milagre e algo palpita

nas têmporas como uma recordação.

Falou da ausência, a actriz?

Fumava em Roma num vestidinho negro

tão frágil como uma pérola

e actuava sobre as palavras como se algo real

estivesse para acontecer à nossa frente.

Sentada no banco de madeira,

com os botões da camisa sensulmente abertos

e os lábios vermelhos que lembravam um Verão próximo

         do passado

ela esculpia na terra

algo tão perturbador como  o princípio do mundo.

Foi bom  olhá-la nos olhos,

tomar a eloquência por uma evocação

onde o silêncio tem o poder de despertar no corpo

um ritmo alucinante de febre e de loucura.

Ela, a actriz, nada podia fazer,

embora invocasse a infância com todas as forças do espírito,

em nítidas sucessões de terríveis marés-vivas.

Sentei-me e aplaudi.

Ela era sobretudo o exercício das coisas que nos fazem aproximar da solidão dos homens,

a cidade cercava-a e entontecia-a

porque algo se lhe colava à pele, um enigma, uma ave, talvez,

essa memo a que perdemos o rastro entre Bari e La Spezia

quando os múltiplos sinais da representação nos intimidavam

a conferir à comunicação o estatuto do medo e do fascínio.

A actriz? Agora podes vê-la.

Entre os toldos amarelos e azuis e a areia ocre dessa praia

ela penteia meditativamente os cabelos de oiro,

embala a boneca de trapos,

canta sentada num trono onde cada um de nós já se sentou

          um dia

para se sentir espectador de algo fascinante

que em silêncio responde à nossa solidão.

Escuta-a.

Ela chama  um nome desconhecido num rumor incontornável,

o nome do homem que partiu,

persegue-o num único movimento,

a sombra do seu corpo alonga-se na ausência

e o arco dos seus braços transfigura-lhe o olhar,

é uma mulher que vem com o rosto iluminado pela escuridão

para regressar do outro lado da noite

com uma criança nos braços,

ela própria,

um peixe vermelho que cintila

como uma pedra na distância

que vai do inferno ao paraíso,

de Capri a Peruggia.

Não é um incêndio que ela tem na boca?

A actriz tem na boca um incêndio

que é tanto a ternura como a exaltação,

ela entregou-se ao grito pela incandescência pura,

é um sonho e exalta-se pela beatitude de um crime

nesse sangue espesso

que é um círculo fulvo noutra esfera do mundo,

um brilho que se amplia numa barra de vidro

onde o rosto reflecte mil acrobacias

que reencontra a pedra onde a limpidez preserva

a tensão dos rostos em cada expectativa.

E a actriz sorri ainda porque o poder da luz amplia nos lugares

formas tão indistintas como as que há no coração

e outras tão belas como as corças que correm na planície

e nós pensamos que nos pertencem com o mesmo vigor

da agilidade do salto que empreendem.

Chamaste? Viste como isto era bom?

E o sortilégio era esse,

a magia do mundo,

a passagem de um lugar para outro lugar

onde tudo era possível

e um tiro à queima-roupa sobre o nosso peito

continha em si a graça de nos devolver à vida.

 

POEMA DE AMADEU BAPTISTA

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publicado às 18:31


#2713 - Então queres ser um escritor?

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.12.17

CHARLES BUKOWSKI

 

ENTÃO QUERES SER UM ESCRITOR?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 

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publicado às 17:12


#2711 - CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.12.17

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 

CATÁLOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA

 

Principia a estação, com o seu ruído

feito de sons de pássaros, que eu decifro.

Mais difícil sinal são as cores várias,

que despontam cada dia e eu vejo,

ano após ano, iguais e singulares.

Primeiro, um pouco além, o lírio roxo,

que me traz consigo a criança viva

que o colheu e, tal como a um barco

o fez singrar, só, roxo, macerado,

na água que descia por um rego.

Um lírio com a mão que o cortara

já decepada e presa ao passado,

sem o seu corpo. Vejo as três pétalas

assim a confundir-se com os três dedos,

como se as nossas mãos por vezes vivessem

mais do que os passados corpos.

Depois, foi esta a manhã das camélias

brancas, cravadas com dureza em rostos,

que, ainda de olhos fechados, tocam

as corolas em busca do seu cheiro.

São camélias mortais, e ainda atraem

a face dos mortos, que algum dia

as bafejaram com o seu hálito próximo.

Manchas brancas de círculos informes,

cada círculo contendo outro círculo.

E, no centro de cada rosto, apenas,

em cada Primavera, duram os olhos.

 

Já caem as glicínias, de alto, sobre

o esplendor do crânio ou do cabelo.

São cachos também roxos, em manhãs

de assombro, por cada dia mais

trazer um diverso cacho pendente.

Misturam-se com a cabeleira antiga

estes cachos de glicínias de hoje.

Mas são absolutos, novos, singulares

os momentos com a sua luz e cor,

os seus insectos e as suas sombras.

Alguém, que os colhera os fez prender

entre cabelos fecundos, de orelhas,

adornos para os filhos da Terra.

Estão, depois dos lírios e das camélias,

para salvar, em cada dia novo,

o viço dos cabelos, mais eternos

do que a já sepultada carne. Carne

de alguém que tinha um nome seu e que

se oferecia, com deleite, ao Tempo.

Só pode ter sido a de parentes, dúbios

cohabitantes do ser que relata

esta actual Primavera, com saudade.

A Primavera, que me surpreende

somente por estar a ser olhada.

 

Se aquela rosa rubra, na manhã

em que surgiu, logo fosse ignorada,

eu não estaria aqui neste papel,

dando-me inteira à nova Primavera.

Recebo-a, olho-a como um visitante,

aliás porque, na sua latada,

ela está perto do meu sólio. Rosa

de repente vista, primeira rosa

na natural frescura. E, também,

o vento lhe tocou, e já a abrem

aquelas mãos que haviam sabido

lançar barcos de pétalas aqui.

Junto da rosa só cabe esta boca,

pronta a beijar com amor as suas línguas

ou a beber a linfa que é da abelha.

Havia uma boca assim, sem a face,

a respirar ao ritmo dessa rosa,

que hoje nasceu fadada para ser

a sempre minha, única, igual.

A cor da rosa mostra-me o lugar

daquela boca, e eu quero sentir-me

aqui e ali. Pois vejo-te, rosa,

e vejo a outra, a que foi beijada.

Assim, não posso mais do que olhar.

Rosas terás em redor, solitária.

 

- Eis os melros, rasteiros, que insistem

em tornar-se evidentes, saltitando

sobre cômoros de terra. Mas hoje

perante o mistério das flores súbitas,

são como eu, embora não como eu,

com a negra plumagem que os cobre.

Sobre a lage do poço correm dois,

negros contendores no mesmo sprint,

músicos de assobio que eu bem entendo.

 

E, próximos da rosa, mas alheios,

estão a nascer os narcisos, de amarelas

frisadas campânulas e de sépalas

perto do solo, e que se elevam

na luz de cor. Também uma figura

de mulher genuflectida as colhia,

e uma criança, oscilando no riso,

quer ter para si uma flor solar.

Junto aos eternos matizes das pedras,

a cor dos narcisos, nítida, clara,

evoca esses desejos saciados

em tempo ido: o da mulher, prendendo-os

no seu seio, e os da criança, seguindo

o movimento que pertence ao tempo.

Hoje, como hei-de separar os corpos

da haste e da corola dos narcisos,

pois a mancha amarela tem a forma

humana contida em si, curva, erecta.

 

Salva-me o vermelho vivo da rosa,

que atrai a cor intensa dos narcisos

para contraste, outra tensão,

que eu revivo, amando o beijo da rosa

e a prece ao sol destes narcisos.

Mas outra prece, hesitante, desponta

ao raso dos terrenos, dispersa, ágil.

Flores que vibram esguias e tácteis,

de um vermelho ardente, submissas

como pálpebras, ao cair da noite.

Abrem-se na aurora, comovidas

pela unção da luz, porque se chamam

páscoas. E são amadas, benditas.

Anunciam a passagem eterna

da luz sagrada entre noite e aurora.

A aragem devagar as sacode,

finas folhas e hastes a dançar,

em pleno dia de êxtase, no sono

das corolas exaustas pela noite.

 

Noutra manhã, eu vejo, deslumbrada,

a poalha da brancura florida

que envolve os troncos velhos da ameixoeira,

flores que o ar conhece e o vento leva,

há muito, para lugares e tempos.

Poalha em que não estão vultos humanos.

Apenas um nó de sombra, atrás

de cada flor, mostra a imagem de antes

ou a espessura de um fruto futuro.

São as flores do jardim que guardam o enigma,

pois cada espécie vista tem em si

um sinal visível de outra estação.

Flores solitárias que, uma a uma, vêm

ligar-se a fragmentos de vida antiga.

 

- Repetem-se os melros p'lo empedrado,

a debicar sempre nas pedras húmidas,

sob o fascínio do cálido dia.

Tão nítidos, tão certos, a presença deles

não cabe ao lado de uma flora rara,

a desta Primavera em narração.

 

Também os loureiros em flor, visíveis

ao longe como nuvens, são visões

completas, com  a floração e as folhas

na mesma cor de sempre, indecifrável.

Alguém pega no ramo do loureiro,

num verso clássico, e o dá a toda

a humanidade, pois a memória

da poesia passa de poeta a poeta,

para o mundo. Se o meu relato é vivo

é porque olho c'os outros a Primavera,

e nesta Primavera eu vi melhor,

presa do assombro do que é novo e antigo.

Os meus olhos, o espírito e as mãos

pegam em cada imagem de uma flor,

em cada dia de visão e ganho.

Mas a perda, enfim, virá somar tudo

igual a si mesmo, uno, passado.

E, de repente, uma flor de palavras

muito branca chega até mim, e é

esta estação, nesse florir de goivos.

Uma carta traz-me inscrita as palavras

de Eugénio, goivos, e o seu eflúvio.

Esta transcreve-a ele de Pessanha,

diante de tão nítidos canteiros.

Grata, prendo-me a esses elos vivos

da corrente de vozes, que se oferecem

aos ouvintes, depois de recolherem

o real, o findo, o que foi amado.

Aqui, depois do loureiro, floriu

a acácia, também sem qualquer vulto

escondido no seu florir imenso.

São árvores solitárias, constantes

na pura relação com a luz solar.

E, talvez por fim, neste  infinito,

uma inflorescência de gladíolo

rosada, erecta, se tenha aberto.

 

Vem de um único bolbo, soterrado,

está só, entre a verdura vária.

Junto de si viveram outras hastes

também de gladíolos, há muito tempo.

Braços levaram-nas juntas, consigo,

em braçadas de amor e de alegrias.

Os braços são as linhas de matizes,

unidas em redor da cor suavíssima

das flores de hoje, a florir aqui.

Cada manhã me põe diante dos olhos

nova forma de cor e  luz e, às vezes

figuras esbatidas de outra estação

igual, porém perdida já, inane.

 

- Melro audaz, que te aproximas mais

de mim, ou do que eu fui e agora sou,

não vejas que eu represento o Tempo.

A tua colheita de grãos e de larvas

seja o teu mais subtil pensamento.

 

- E, afinal, entraste no meu espaço,

num intervalo entre o concreto e o abstracto.

 

 

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

Carcavelos, Março, 1997

 

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Fiama Hasse Pais Brandão
 
Dramaturga, tradutora e poetisa, nasceu a 15 de agosto de 1938, em Lisboa,faleceu a 19 de janeiro de 2007, na mesma cidade. Frequentou o colégio St.Julian's School, em Carcavelos, e, mais tarde, o curso de Filologia Germânicada Universidade de Lisboa. Fez crítica de teatro, estagiou no TeatroExperimental do Porto (1964), e foi, com Gastão Cruz - com quem se casaria - e outros, fundadora do grupo Teatro Hoje (1974). Ao longo da sua vida,exerceu  atividade de investigação na área da linguística assim como  pesquisa histórica e literária sobre o século XVI em Portugal. Traduziu vários autores como Bertolt Brecht, Antonin Artaud, Novalis e    Anton Chekhov e colaborou em revistas literárias, como Seara Nova Cadernos do Meio-Dia Vértice entre outras. 
                                                                                                                                                                                                                                    Revelou-se com "Morfismos", no âmbito da iniciativa Poesia 61 coletânea que refletia uma tendência poética atenta à palavra, à linguagem  na sua opacidade, na busca de uma expressão depurada e não discursiva. A criação poética de Fiama Hasse Pais Brandão                             i impõe-se pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma essência perdida, anterior à erosão do              tempo e do uso corrente. A desconstrução das articulações do discurso e a sua metaforização provocam um estranhamento que conduz o leitor a despir a linguagem da sua convencionalidade e a entrever o acessopela palavra pura a um tempo primordial. 
critério de "amor pela leitura" que presidiu à versão de Cântico Maiorpode, por extensão, ser aplicado à obra da autora que apresenta comofontes de emoção poética "o texto que cabe na pupila: o simultâneo, a grande cena das metáforas e das comparações, a Visão multiforme doConhecimento (pus no coração a Sabedoria de Ezra), que é parcelar naspalavras e nas imagens e que  por acumulação diurna e através daabsorção pupilar (como a do ar) tende para o Todo." ("Do prefácio de CânticoMaior", reproduzido em "Apêndice" a Obra Breve 1991).
 
Sob o Olhar de Medeia , a obra que marca a primeira incursão no romance porparte desta autora, foi publicado em 1998. 
Fiama Pais Brandão recebeu várias distinções, entre as quais se destacam o Prémio Adolfo Casais Monteiro, 1957; o Prémio Revelação de Teatro, 1961; o Prémio Pen Clube Português de Poesia, 1985; o Grande Prémio de PoesiaAPE/CTT, 1996; o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, 1996; e o Prémio Pen Clube Português de Ficção e o Prémio da Crítica da AssociaçãoPortuguesa de Críticos Literários, ambos em 2005.
 

 

 

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publicado às 19:03


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

mario cesariny poesia003.jpg

Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

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#2707 - CONVERSANDO COM OS ASTROS

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.17

 TERESA RITA LOPES

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS

 

1

Confesso que me desiludiste um pouco

Quando ouvi dizer que estavas para chegar

pus-me ansiosa à tua espera

                                             Foste o primeiro

cometa da minha vida

                                  Antes de te conhecer pensava

que serias maior mais vistoso mais em fogo

                                                                    Depois

aceitei o teu recato a tua timidez

                                                  e tentámos

acertar o passo e o olhar

                                      Encontrámo-nos no céu

da Cacela e depois puseste-te a caminhar comigo

até Lisboa

               Aqui perdemo-nos de vista

                                                        Há luz eléctrica

a mais     Nesta cidade até do céu somos despossuídos:

o buruburinho das luzes obscurece os astros

                                                                      que fogem

a esconder-se atrás dos  montes mais próximos

                                                                           Dizem

os cientistas que voltas daqui a três mil anos

Que é isso para o deus de quem és brinquedo

e eu também?

                    Em breve regressarás ao teu abismo

e um dia destes também eu mergulharei no meu

Marquemos já encontro para o dia 11 de Abril

de 4997

           à esquina do crepúsculo

 

2

Eis-te de repente     Espreitas e devagar

levantas-te do leito do rio afogueada

sacudindo a saia

                         Que fazias aí deitada com ele

minha magana?

                     ah lua! maluca lua que não tomas

juízo!

      Aqui estamos de novo   cara a cara

sorriso no sorriso

                         Quantas vezes já nos olhámos

assim nos olhos    tão enamoradas?

                                                       Saboreio

daqui deste meu décimo andar jardim suspenso

todos os momentos da tua caminhada céu acima

Agora já estás perfeitamente senhora de ti

redonda e rutilante

                             e olhas de alto o rio

que se aquieta para te receber e espelhar

tua inevitável retirada

                                 Ninguém te dá a idade

que tens

            Quem havia de dizer que ficaríamos

grisalhas um dia!

Mas a ti fica-te bem esse

cabelo de neve luminosa     O meu pediu ao Outono

o ruivo fulgor de suas folhas

                                           Ah lua amiga minha

da longínqua infância da perdida juventude

cúmplice de tanto fervor adulto    sozinho e

comungado   confidente de tanto pranto em fogo

transformado   à tua alquímica maneira em fina

prata

       aonde vais buscar esse sorriso manso

teu sereno aceitar de tudo o que acontece

tua ironia doce?

                       Quem me dera libertar-me assim

da canseira do dia!

                             Minha amiga minha Mãe meu amor

porque és tudo isso ao mesmo tempo

                                                            afaga o áspero

dorso da minha irrequieta mágoa

                                                   e afoga-me no teu

mar de luar

                que é água e ar e fogo ao mesmo tempo

 

CONVERSANDO COM OS ASTROS - POEMA DE TERESA RITA LOPES

 

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publicado às 22:19


#2706 - O Homem Solitário

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

BORIS HRISTOV

 

O HOMEM SOLITÁRIO

 

Tem uma cicatriz na testa e senta-se sempre na ponta,

mesmo quando é grande o homem solitário é pequeno.

 

Junta ervas ou talha com a tesoura das recordações,

se não tem nada a fazer - e arrasta a sua manta gasta.

 

Uma cabeça de cavalo ilumina os campos e

o  homem solitário vai apenas olhá-la - não quer que tenha uma crina.

 

Enquanto os outros gritam ou falam da arte

à mesa, o homem solitário apanha as moscas e deixa-as voar.

 

Mas se escreve versos deixará sem dúvida

uma lágrima nos olhos ou um arranhão na vossa memória.

 

Tem um lar e sopa quente, mas está tão só;

a sua vida - abandonada como uma arca no fundo do corredor.

 

Que a sua casa se desmorone,

comerá cinzas, mas não se ajoelhará perante ninguém.

 

Em que fogo ardeu? E sob que ferro de passar?

Para o saber ter-se-á de beber com ele muito vinho.

 

Enquanto caminha com uma mancha na camisa limpa,

o homem solitário desaparece na multidão como átomo.

 

Com uma das mão leva um livro para a sua alma doente,

com a outra o homem solitário segura a pequena corda que traz no bolso.

 

Poema do poeta bulgaro Boris Hristov

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publicado às 20:46


#2705 - No Palácio do Marquês de Fronteira em Lisboa

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.12.17

EVA CHRISTINA ZELLER

 

NO PALÁCIO DO MARQUÊS DE FRONTEIRA EM LISBOA

 

Um gato preto guia-nos:

queiram ter a bondade os aposentos particulares do Marquês

aqui tomam-se as refeições

aqui acende-se a lareira à noite

atrás destas portas vivem os gatos

não, crianças não

azulejos centenários

batalhas caçadas um pastor pintado

voilá e aqui fora queiram ter a bondade sob o azul

o azul cacos mosaicos azulejos reunidos e desbotados

Poesia Diana Neptuno

a Justiça é cega minhas senhoras

mas ali estão so cisnes pretos devido ao ruído da cidade passam pelas grutas

e os seus pescoços

não, vejam com os vossos próprios olhos

e no parque cuidado por favor

em restauro as fachadas

já muitos caíram estenderam-se

como a deusa da Vitória dentro da hera

compreendem, todo esse tempo e o ruído

o  betão nos ossos corrói

um pequeno rosto olha-me, vindo do arbusto de buxo

como se fosse o meu

 

POEMA DE EVA CHRISTINA ZELLER

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publicado às 20:03


#2700 - Quatro e Meia da Manhã

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.11.17

 CHARLES BUKOWSKI

 

os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre

quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo e
como algo esfaqueado
e cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

 

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publicado às 18:16


#2698 - O PÁSSARO AZUL

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 CHARLES BUKOWSKI

Nascimento16 de agosto de 1920, Andernach, Alemanha
 
 

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

 

POEMA DE CHARLES BUKOWSKI

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publicado às 23:16


#2696 - DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

ARMANDO SILVA CARVALHO

Nascimento28 de março de 1938, Olho Marinho
Falecimento1 de junho de 2017, Caldas da Rainha
 
 
DOIS POEMAS DE MAR E UM DE SALA
 
Gosto de sentir a natureza e fingir
que não lhe pertenço.
O vento é esta mão gigante e nunca vista
que sacode o carro perante um mar
em brancas gargalhadas.
Não é o mundo que tenho na cabeça.
Penso nas gotas de água que embaciam o vidro,
e vejo o véu da chuva que ainda não chegou
com as nuvens atrasadas.
 
As palavras recusam-se a ser irmãs das ondas.
O meu silêncio não quer ser filho do clamor da tempestade
que faz dançar as aves na escuridão das nuvens
como sondas.
 
Mas como é belo
que tudo viva na luta de viver,
a fúria da maré o espelho do  meu rosto debruçado para dentro
como um poema de Pedro Homem de Melo.
 
O mundo natural dá-me a acidez da voz
que se solta
nos cabos teleféricos
e transporta o ruído dos loucos suicidas
a luxúria do tempo
ou esse luxo que se chama esperança.
 
No céu desamarrado a gaivota baila,
no chão perto do mar outro baile circunda
o meu coração desordenado.
 
E nunca saberei como se dança.
 
POEMA DE ARMANDO SILVA CARVALHO

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publicado às 19:11


#2695 - COM PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.11.17

Casimiro de Brito.jpg

 CASIMIRO  DE  BRITO

 

 

COM PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA

 

Também eu me sentei, anos a fio,

à mesa de Pessoa no Martinho

da Arcada e olhei para dentro do novelo emaranhado

da sua vida. Não há nada

para desenrolar, concluímos. Corriam

os anos setenta, oitenta

e os meus dias eram uma concha recheada de

metáforas cotações enigmas letras

de câmbio de afectos graffitti estatísticas

enquanto nas ruas de Lisboa a revolução rolava

ao sabor da maré e das brisas agitadas

pelo patrão Vasques e por outras

abelhas mestras. "Governa quem é alegre (...)

para ser triste é preciso sentir".

Também eu tomei café

de costas viradas para o Tejo e encontrei

o meu sossego no desassossego de Soares

como se fôssemos o mesmo guarda-livros cansado

que descia a Rua Augusta e depois se dividia

em dois, ele

a caminho da Rua da Madalena, eu

da Rua do Ouro, onde escrevíamos

apressadas sílabas no verso de papéis comerciais

que nos pagavam o pão e a renda

da casa. Do meu gabinete eu via o "lago azul" do Tejo,

ele não. O que mais me fascina

nesta fotografia

é a página que o poeta lê como se fosse

a mãe louca que embala um  filho

morto. Uma tãbua

"todos os papéis estão brancos"

"todas as mensagens se adivinham"

onde eu posso entrar e entrava nesses dias

quando me cansava de caminhar nas ruas baixas

que vão dar ao Cais das Colunas e então sentava-me

à sua mesa e misturava

como se fossem obscuras folhas de café

as palavras dele e outras minhas:

 

Sofro de não sofrer e sobre a morte

escrevo em seu trabalho de não saber

sofrer lavrando-a enquanto

a vida visita. Vivo ou finjo que vivo?

O discurso do corpo

canta, uma vaga aragem que sai fresca

do calor do dia e me faz

esquecer tudo e com as aves

resvalo e com os rios...

 

Incontáveis foram as veze em que o meu cansaço

da bolsa e da vida,

dos ruídos da baixa e dos barcos que partiam

no azul nevoeiro

se aconchegava na página desconhecida

como se fosse um velho buraco de

família uma espécie de sono

metafórico uma imersão

em águas antigas que exerciam em mim

um vago domínio. E então eu lia

o que ele talvez ali

estivesse lendo:

"Nem uma saudade já me resta

dos búzios à beira dos mares"

e também eu me sentia

nesses momentos

o sócio minoritário de um pequeno comércio de poetas

sentados na bruma: havia um que buscava

o mar dos búzios, outro que partia

para as praias onde havia búzios

e ouvia o mar "só e calmo",

como quem habita um aroma

paciente. Também eu

escrevi versos como se fossem lançamentos

de escrita, "com cuidado

e indiferença": havia que fundir-me,

entrar para dentro da areia

idizível; havia que pesar o ouro das palavras

sabendo que pesava

cinza. "O universo

não ẽ meu", lia Pessoa na página em que não sei

o que lia, o universo "sou eu" - fonte

sonolenta

 que se bebe a si própria

e mais nada. Também a mim

me doeu "a cabeça e o universo" nesses dias

em que fui abandonado à tona de água

como se a água tivesse um dentro e um fora

e os cabelos que me foram caindo não dissessem

que tudo são cabelos correndo como rios

um pouco loucos

de um lado para o outro - "uma vaga doença",

"um prenúncio de morte"

que não tem outro mistério além do mistério

de partirem barcos. Também eu

me sentei à mesa de Pessoa no Martinho

da Arcada enquanto lá fora chovia

"como se houvesse chovido (...)

desde a primeira página do mundo"

e o que faço agora é vê-lo estar lendo um nada

que é tudo basta olhar

para o olhar do amigo que sobre o poeta se debruça,

mudo. O enigma que vê outro enigma

no palco ainda verde

e já em ruína

 

POEMA DE CASIMIRO DE BRITO

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publicado às 21:36


#2694 - SEM TÍTULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

Um corpo deitado sobre a pedra fria de um beco.

A alma é uma sombra inquieta que

sabe não ter força para

erguer o corpo.

Gotas de chuva escorrem

dos seus olhos assustados e

desaguam nas margens da boca.

Palavras surdas rasgam a pele

implorando ajuda -

ninguém as ouvirá:

está só num beco e assim ficará.

 

Na grande avenida,

a dois passos dali,

gente festiva celebra entre efusivos

beijos e promessas solenemente proclamadas

a passagem para um novo dia, um novo ano.

 

E o corpo já não os ouvirá.

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publicado às 18:24


#2693 - LISBOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

bernard-noel.jpg

 BERNARD NOËL

 

LISBOA

 

sete colinas e nenhum papa um tremor

quando o grande sol mastiga o mar da palha

as casas alinhadas como espectadores

de pé diante de outras que vêem

envelhecer por cima delas as roupas estendidas do tempo

a cidade está tão cumeada de vermelhos

que vista de cima parece menchada de sangue

o olhar procura em todo o lado o branco de uma lenda

mas o presente pequenino tudo tapou

só o corpo do poeta ficou intacto

o álcool conserva muito melhor do que a memória

assim se esconde debaixo de uma pedra pesada

a prova de que o ser é menos que o não ser

quem saberá jogar com o desassossego

para que a duração empalhe enfim a pele

e mude a aparência em carne imortal

de um momento para o outro um novo morto morreu

tanto como o mais antigo de todos os mortos

estranha igualdade que desafia o tempo

 

POEMA DO POETA FRANCÊS BERNARD NOËL

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publicado às 16:04


#2692 - Amanhã, o Fim do Mundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.11.17

 PENTTI HOLAPPA

 

AMANHÃ, O FIM DO MUNDO

 

O fim do mundo chega amanhã

passeamos no jardim de inverno de Lisboa.

É Janeiro, as camélias florescem e

os flamingos nadam na lagoa artificial.

A água é H2O original e a terra antiga.

Parece maravilhoso dividir um destino que se separa.

Acertou-nos uma flecha vinda de longe.

Alguém pensou em nós, na nossa espécie, no mundo.

Há só um único ponto, em que tudo se apoia, 

e está escondido no nosso conhecimento

ou no lixo ao lado da rua ou no

outro lado da Via Láctea, ou em Deus, mesmo no Amor.

Percebi hoje uma coisa tremenda.

Estou tão perto de ti, que me lanço para longe.

Na última noite quero passear

contigo em Lisboa.

 

Poema do poeta finlandês Pentti Holappa

 

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publicado às 16:00


#2690 - FERNANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.17

 

 

FERNANDO PESSOA, LISBOA ODER UMGEKEHRT

FERNANDO PESSOA, LISBOA, OU VICE-VERSA

 

Boa tarde, Álvaro de Campo.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no engraxador da Rua de Santa Marta.

Os teus jogos de mão são um soneto

perfeito e acabado, evocando brilhos

em que Lisboa se revê -

lusitana, lascivamente cortejada

com olhos de alçapão.

O Tejo a teus pés engole as lágrimas

negras aqui choradas

pelas vítimas de conquistadores armados de gravata.

 

Boa tarde, Alberto Caeiro.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no cauteleiro de camisa azul,

aquele com os discos de suor nos sovacos.

Como um profeta, prometes na Baixa a toda a gente

o céu na terra.

A tua voz ardente de fadista atravessa-se

entre as casas,

para nos fazer tropeçar nos sons guturais

e cair nos braços da tristeza ferida,

atordoados do bacalhau.

 

Boa tarde, Ricardo Reis.

A mim não me trocas as voltas, reconheço-te

no guarda-freio da linha 12.

Brilha em ti a criança através das lunetas

quando travas e aceleras o cometa de lata,

sedento de carris, e os passageiros pensam

que chegou o Juízo Final.

Arrastas-te por Alfama, vais-lhe deixando cair

no coração as tuas odes nocturnas,

ancorando os seus dias no devaneio,

apesar da miséria.

 

Agosto de 1997

Poema escrito por Martin Steiner e traduzido por João Barrento

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publicado às 22:53


#2689 - LISBOA

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.11.17

 WILLIAM CLIFF

 

LISBOA

 

o céu do Atlântico o grande céu errante

o céu e estas nuvens que passam lentamente

o céu que com o vento se nos faz inconstante

e nos despeja água que colhe prontamente

 

céu que faz renascer o gosto das viagens

no corpo do que quer por certo ainda sonhar

enquanto vê correr a sombra das imagens

pensamentos e fumos lá por fora a voar

 

oh! como é triste aqui desejar o amor

neste canto da terra tão longe da Europa

oh! como nos enfraquece todo este céu sem cor

e estas ondas que caem com a dureza da rocha

 

como está só aquele que passeia com o cão

e quer beber ao longe a sua solidão

com o seu negro olhar odeia e não mais quer

que olhar as mesmas ondas sem sequer as ver

 

oh! como este vento nos corta já a pele

como é mais forte aqui o sopro do mar alto

e como é tão difícil achar neste vergel

um lugar para o barco onde ancorar a salvo

 

e todo o mau humor na cara desta gente

e o silêncio diante da imensidão marinha

e este enorme rio com o seu maldoso vento

onde passam vapores para a Praça sozinha

 

Poema do poeta belga William Cliff

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publicado às 22:20


#2684 - Os Homens Ocos

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.17

T. S. Eliot

 

OS HOMENS OCOS

 

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

 

(Trecho de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot.) 

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publicado às 18:28


#2683 - Aprendizagem

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.11.17

 

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

 

Poema de Ferreira Gullar

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publicado às 18:14


#2682 - GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.11.17

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GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

 

O corpo não espera. Não. Por nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura assetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sede, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo...

 

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

 

Poema de Jorge de Sena

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publicado às 23:36

"Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos", escritos por cem poetas, acaba de ser publicado pela Companhia das Letras, celebrando a pluralidade da poesia com autores famosos, mais desconhecidos, esquecidos ou acidentais.

A recolha foi feita pelo jornalista e escritor José Mário Silva que introduz a antologia com breves notas, nas quais se defende ainda antes do ataque: "Os cem poemas aqui reunidos não serão os melhores de um século, 'stricto sensu', mas fixam a resposta do antologiador à pergunta 'Quais são, para si, os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos?'".

José Mário Silva reconhece que entre milhares de poemas portugueses escritos ao longo de um século é impossível escolher os melhores, não só por a escolha ser sempre incompleta, mas pela própria indefinição quanto ao que significa "melhor" em poesia, e sobretudo pela subjetividade do ato: "Uma antologia diz sempre mais sobre quem seleciona do que sobre a matéria selecionada".

"Nem o mais amplo e lúcido comité de sábios poderá chegar a um consenso que é, por definição, impossível", escreve José Mário Silva, que avançou, então, para a definição de critérios de escolha dos poemas.

O mais difícil prendeu-se com a representatividade e José Mário Silva optou por não fazer corresponder o número de textos escolhidos de cada autor com a sua importância relativa na história da literatura, para permitir uma maior variedade de vozes.

Se assim não fosse, "gigantes" como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Herberto Helder teriam de estar muito mais representados do que um jovem escritor com escassa bibliografia.

Ainda se levantaria outro problema, que era o de o leitor ser induzido a pensar que um Vitorino Nemésio era mais significativo do que um Mário Cesariny, só por o livro conter mais poemas do primeiro do que do segundo.

Assim, chegou o antologiador ao "critério radical" de escolher apenas um poema por autor, ou seja, o livro reúne cem poemas de cem poetas, sendo que -- e esta é a exceção -- Fernando Pessoa, que foi vários num só, aparece quatro vezes, enquanto ortónimo e enquanto cada um dos seus principais heterónimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis).

A baliza temporal do século implicou a exclusão de poemas publicados pela primeira vez em livro antes de 1917, mas ainda assim foi suficiente para abranger autores ainda nascidos antes de 1900, como Camilo Pessanha, Angelo de Lima, Teixeira de Pascoaes, Judith Teixeira, Almada Negreiros ou Florbela Espanca.

São evocados também alguns poetas mais esquecidos, entre os quais José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, António Maria Lisboa, Ana Hatherly ou Luís Pignatelli, e outros que nem têm a poesia como género literário principal, como é o caso de Jorge de Sena, Carlos de Oliveira ou Eduardo Guerra Carneiro.

Na lista contam-se, entre muitos outros, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, Herberto Helder, Ruy Belo, Al Berto, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão, António Ramos Rosa, Hélia Correia ou Nuno Júdice.

Também as vozes mais jovens e menos conhecidas da poesia portuguesa, como é o caso de Rui Lage, Golgona Anghel, Raquel Nobre Guerra ou Matilde Campilho, constam deste livro de 192 páginas, dividido em quatro partes, intituladas "Retratos", "Relatos", Desacatos", "Hiatos".

 

AUTOR: AGÊNCIA LUSA

 

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publicado às 22:54


#2678 - A FLOR DA SOLIDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

A FLOR DA SOLIDÃO

 

Vivemos convivemos resistimos

cruzámo-nos nas ruas sob as árvores

fizemos porventura algum ruído

traçámos pelo ar tímidos gestos

e no entanto por que palavras dizer

que nosso era um coração solitário

silencioso profundamente silencioso

e afinal o nosso olhar olhava

como os olhos que olham nas florestas

No centro da cidade tumultuosa

no ângulo visível das múltiplas arestas

a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa

Nós tínhamos um nome para isto

mas o tempo dos homens impiedoso

matou-nos quem morria até aqui

E neste coração ambicioso

sozinho como um homem morre cristo

Que nome dar agora ao vazio

que mana irresistível como um rio?

Ele nasce engrossa e vai desaguar

e entre tantos gestos é um mar

Vivemos convivemos resistimos

sem saber que em tudo um pouco nós morremos

 

Poma de Ruy Belo

 

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publicado às 19:34


#2677 - RUA DE ROMA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

RUA DE ROMA

 

Quero uma rua de Roma

com seus rubros    com seus ocres

com essa igreja barroca

essa fonte    esse quiosque

aquele pátio na sombra

ao longe a luz de um zimbório

mais o cimo dessa torre

que não tem raiz no solo

Em troca darei Moscovo

Oslo    Tóquio    Banguecoque

Fugaz e secreta à força

de se mostrar rumorosa

só essa rua de Roma

em cada nervo me toca

Por isso a quero assim toda

opulenta de tão pobre

com o voo desta poma

o ribombar desta moto

com este bar de mau gosto

em cuja esplanada tomo

este espresso após o almoço

à tarde um campari soda

Em troca darei Lisboa

Londres    Rio    Nova Iorque

toda a prata    todo o ouro

que não tenho em nenhum cofre

só no cotão do meu bolso

e no que a pátria me explora

Quero essa rua de Roma

Aqui onde estou sufoco

Aqui as manhãs irrompem

de noites que nunca morrem

Quero esse musgo    essa fonte

essas folhas que se movem

sob o sopro do siroco

ora tépido ora tórrido

frente à igreja barroca

tão apagada por fora

mas que do altar ao coro

por dentro aparece enorme

Quero essa rua de Roma

casta    rugosa    remota

Em troca darei as lobas

que  não aleitaram Rómulo

mas me deixaram na boca

o travo do transitório

Quero essa rua de Roma

sem conhecer quem lá mora

além da madonna loura

misto de corça e de cobra

que ao longo de tantas noites

tanta insónia me provoca

Quanto às restantes pessoas

inventarei como sofrem

Quero essa rua de Roma

Terá de ser sem demora

Sabemos lá quando rondam

abutres à nossa roda

Mas não me lembro do nome

da rua que assim evoco

soberba se bem que tosca

direita se bem que torta

com um Sol que tanto a doura

como a seguir a devora

Em troca darei o troco

do que por nada se troca

o florescer de uma bomba

o deflagrar de uma rosa

Quero essa rua de Roma

Amanhã    Ontem    Agora

Que importa saber-lhe o nome

se a trago dentro dos olhos

Há uma igual em Verona

Outra ainda mais a norte

Outra talvez nem tão longe

num burgo que o mundo ignora

Outra que apenas se encontra

onde a paixão a descobre

Mas rua sempre de Roma

Romana em todo o seu porte

mistura de alma e de corpo

aquém    além    do ilusório

Romana mesmo que em Roma

não haja que a recorde

Onde quer que o sexo a sonhe

e o coração a coloque

é lá que todo sou todo

Aqui não    Aqui não posso

 

POEMA DE DAVID  MOURÃO-FERREIRA

 

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publicado às 18:51

 

 

 

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros

Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores

Os pássaros começam onde as árvores acabam

Os pássaros fazem cantar as árvores

Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se

deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal

Como pássaros poisam as folhas na terra

quando o outono desce veladamente sobre os campos

Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores

mas deixo essa forma de dizer ao romancista

é complicada e não se dá bem na poesia

não foi ainda isolada da filosofia

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros

Quem é que lá os pendura nos ramos?

De quem é a mão a inúmera mão?

Eu passo e muda-se-me o coração

 

POEMA DE RUY BELO

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publicado às 18:45


#2674 - Soneto

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.17

Nascimento10 de agosto de 1921, Belém, Pará, Brasil
Falecimento1 de julho de 1981, Lisboa
 
 
SONETO
 
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
 
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
 
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
 
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
 
Poema de Carlos de Oliveira
 
 

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publicado às 17:46


#2673 - Um Poema de Vitorino Nemésio

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.17

Nascimento19 de dezembro de 1901, Ilha Terceira
Falecimento20 de fevereiro de 1978, Lisboa
 
 
 
O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-loo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para aconsciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.
 
Poema de Vitorino Nemésio

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publicado às 17:22


#2671 - Um poema de José Ángel Valente

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.11.17

 

Se depois de morrer nos levantamos,

se depois de morrer

venho para ti como dantes vinha

e algo há em mim que desconheces

porque não sou o mesmo,

que dor o morrer, saber que nunca

alcançarei as margens 

do ser que foste para mim tão dentro

de mim mesmo,

se tu eras eu e inteiro me invadias

porque é tão cega agora  esta fronteira,

tão aziago este muro de palavras

subitamente geladas

quando mais te requeiro,

te digo vem e às vezes

ainda me olhas com ternura

apenas nascida da lembrança.

 

Que dor é morrer, chegar a ti, beijar-te

desesperadamente

e sentir que o espelho

não reflecte o meu rosto

nem tu sentes,

tu que tanto amei,

a minha ansiosa impresença.

 

Poema de José Ángel Valente, traduzido por Pedro Tamen.

 

_________________________________________________________________________________________________________________

José Ángel Valente nasceu em Orense em 1929.

Estudou nas Universidades de Santiago de Compostela e de Madrid, onde se licenciou em Filologia Românica.

Estudou em Oxford, onde obteve o Master of Arts.

De1958 a 1980 viveu em Genebra, onde foi tradutor em organizações internacionais, e posteriormente em Paris, onde dirige um serviço da Unesco.

Poeta conceituado, obteve em 1955 o Prémio Adonais da Poesia, em 1960 e 1980 o Prémio da Crítica, e em 1988 o Prémio Príncipe das Astúrias.

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publicado às 19:10


#2666 - Eu sou outro

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 YOLANDA PANTIN

 

EU SOU OUTRO

 

Aceitei o convite para viajar.

No carro,

a paisagem passa demasiado depressa.

Roça o ouvido

a música surda que o interior repele.

Atravessamos o país sem parar,

a não ser para urinar ou beber um gole de água

nas estações de serviço.

O verão castiga cinzento e estático

como o céu.

Conversas banais distraem o assédio

das horas mortas.

Montamos as tendas

na margem de um rio largo e lamacento.

As aves chilreiam ao levantar voo.

Abeiro-me do rio

como Narciso do lago.

As águas turvas não me reflectem o rosto.

Sonhei com isto

 

              (A ferida sarou sobre a carne morta)
 
_________________________________________________________________________________________________________________
Yolanda Pantin nasceu em Caracas em 1954. Estudou Letras na Universidade de Caracas. Publicou vários livros de poesia, entre os quais se destacam Casa o Lobo, Correo del Corazón, La Canción Fria, Poemas del Escritor, El Cielo de Paris. Com o livro Poemas del Escritor (1989) obteve o Prémio de Poesia Fundarte.

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publicado às 19:15


#2665 - Um poema de Al Berto

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

 Alberto Raposo Pidwell Tavares (Al Berto)

11 Jan 1948 | 13 Jun 1997
 
 
 
panos estendidos sobre os animais mortos
névoa
escondendo a paisagem onde caminha o corpo
que esqueceste ontem no limiar da manhã
 
senta-te na cama - toca nos animais
solta-os e vais ver que a paisagem gravou
sombras nos olhos - fecha-os
para que tudo arda com a itensidade de um astro
 
dá as mãos e  o coração
às feras do crepúsculo - quando o termómetro
marcar 39 e meio e nas pálpebras se abrirem
charcos de treva... mas
 
por agora
fica sossegado - bebe o leite quente
aconchega as mantas - dorme
com o fio da gadanha enrolado ao pescoço
 
POEMA DE AL BERTO
 

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publicado às 18:54


#2664 - ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.17

 FERNANDO GUIMARÃES

 

ÚLTIMAS PALAVRAS DE VIRGÍLIO

 

Foi junto dos pântanos que nasci. Neles vi o rosto de meus pais

e de todos os antepassados. Olham-me sempre através do lodo

tranquilamente. Quando me falam, talvez a água entre

pelas suas gargantas e as palavras tornam-se mais lentas e serenas.

Escuto-os e sei como hei-de continuar a viver ao seu lado. Eles ensinam-me

o sentido que procuro em cada frase. Reparo que um verso fica

mais perto, e descubro como as sílabas longas e breves encontram

a pouco e pouco o que é o seu justo lugar; trata-se da harmonia apenas

que lhes pertence. Há-de ser assim naturalmente e tudo se repete

sem qualquer esforço, como se os deuses estivessem ali. Mas eu sinto-me

tão frágil diante deles... Sei que os seus lábios são demasiado pesados

e, por isso, nada lhes pergunto. Espero, tranquilamente. Então eles olham-me

com contida alegria, acenam-me, fazem sinais que não compreendo

sequer: Há uma explicação que procuro ainda e fito de repente

as suas pupilas. Aí, nesse ponto negro, surpreendo aquilo que principia

a oscilar entre o nada e todas as coisas, a ignorância e o meu conhecimento:

esta será a claridade de que precisam para me ver. Não me ofusca

e é essa a luz que mais desejo agora. Mas sei que preciso

também da noite. E é acerca dela que tantas vezes escrevo. Há-de alguém

continuar a ler o que chega dessa sombra, mesmo que seja eu que a venha

dissipar para que se torne só meu o que digo. Pergunto algumas vezes

pela paz que existe em tudo o que perdemos. Imaginarei

depois a minha última viagrm. Só isto. Não é mais fácil falar sobre

a última viagen de cada um de nós? Ela arrasta-nos para o interior

da areia. Encontramos, depois, as mesmas ondas esquecidas, os sinais do mar

ou alguns versos, aqueles que há muito ficaram presos às nossas mãos.

Encontramos também aquilo que poderia ser apenas a proximidade

de qualquer sonho. Sim, porque é adormecidos que nós seguimos

por esse caminho difícil, entre sombras, com o peso das nossas pálpebras

pousadas sobre o corpo. Ah, conheço esse peso. Queria recordá-lo

como se viessem falar acerca do meu rosto com simplicidade

para que finalmente o consigam reconhecer. Mas quem há-de

escrever o que por mim não pode ser escrito, senão com o silêncio

de ambos? Este era o meu destino, o caminho que sigo

ao encontro de outras vozes, cercado pelas nuvens que existem

apenas no interior dos olhos, nessa escuridão súbita que se torna

uma secreta forma de saber. Aí descubro estas palavras e para elas quero

a mesma simplicidade, porque é assim que se fala da morte.

 

POEMA DE FERNANDO GUIMARÃES

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________


Escritores > Fernando Guimarães

Data Nasc: 03/02/1928 Naturalidade: Cedofeita, Porto

Na web:


 Biografia

Fernando de Oliveira Guimarães, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu na freguesia de Cedofeita, a 3 de fevereiro de 1928.

Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, viu editado, em 1956, o seu primeiro livro de poesia, ‘Face junto ao vento’, mas poucos anos antes já tinha debutado na revista Eros, com a publicação de alguns poemas.

Lecionou Filosofia em várias escolas do ensino secundário e colaborou em diversos jornais e revistas, como O Comércio do Porto, Jornal de Letras, Árvore.

O seu trabalho enquanto tradutor reflete afinidades literárias muito concretas – traduziu obras de Shelley, Keats, Byron, Dylan Thomas, Hugo von Hofmannsthal e Elaine Feinstein.

Trabalhou como investigador no Centro de Literatura da Universidade do Porto. Integrou o Conselho Científico e foi membro investigador do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa.

Recebeu, entre outros, o Prémio D. Dinis (1985), o Pen Clube Português (1988) e o Prémio Luís Miguel Nava (2003).

Em 1995 foi feito Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Fernando Guimarães é um reincidente na lista de autores galardoados com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Em 1992, a distinção reconheceu a obra ‘O Anel Débil’ (Edições Afrontamento); volvidos 15 anos, foi o livro ‘Na voz de um nome’ (Roma Editora). Este último livro valeu-lhe também o Prémio Literário Ruy Belo 2008.

Em 2006 foi-lhe atribuído pela Universidade de Évora o Prémio de Ensaio Vergílio Ferreira, tendo em vista o conjunto da sua obra ensaística.

A sua obra poética “Os caminhos Habitados”, venceu o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes 2014.

Bibliografia:

A Face Junto ao Vento, 1956 (poesia)

Os Habitantes do Amor, 1959 (poesia)

As mãos Inteiras, 1971 (poesia)

Três Poemas, 1975 (poesia)

Poesia 1952-1980, 1981

A Poesia da Presença, 1981 (ensaio)

Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, 1982 (ensaio)

Casa: o Seu Desenho, INCM, 1985 (poesia)

Tratado de Harmonia, 1988 (poesia)

Poética do Saudosismo, 1988 (ensaio)

A Analogia das Folhas, Edições Lumiar, 1990 (poesia)

Poética do Simbolismo em Portugal, 1990 (ensaio)

O Anel Débil, Edições Afrontamento, 1992 (poesia)

Conhecimento e Poesia, 1992 (ensaio)

Poesias Completas, Vol.I, Edições Afrontamento, 1994

Os Problemas da Modernidade, 1994 (ensaio)

As quatro Idades, Presença, 1996 (prosa)

Diotima e as outras Vozes, Campo das Letras, 1999 (teatro)

O Modernismo Português e a sua Poética, 1999 (ensaio)

Limites para uma Árvore, 2000 (poesia)

Lições das Trevas, 2002 (poesia)

Artes Plásticas e Literatura: do Romantismo ao Surrealismo, 2003 (ensaio)

Mulher, Asa, 2006 (poesia)

Na Voz de um nome, Roma Editora, 2006 (poesia)

Sentido e Sensibilidade, Caixotim, 2007 (ensaio)

A Obra de Arte e o Seu Mundo, 2007 (ensaio)

A Poesia Contemporânea Portuguesa (3ª edição), 2008 (ensaio)

Agumas das Palavras – Poesia Reunida 1956-2008, Quasi Edições, 2008

História do Pensamento Estético em Portugal, 2009 (ensaio)

As Raízes Diferentes, Relógio d’Água, 2011 (poesia)

Os Caminhos Habitados, Edições Afrontamento, 2013 (poesia)

 


Principais Obras Publicadas

Poesia 1952-1980
2015, Modo de Ler

As suas imagens mais significativas correspondem a um empenho de captar o ritmo de tudo quanto, de algum modo, se pode dizer palpita, ou se desenvolve a partir de um núcleo geminativo. Eis uma poesia cuja ontologia poderia mesmo exprimir, em abstrato, dizendo nós não existimos, e nada existe, salvo … Ler mais

Os Caminhos Habitados
2013, Edições Afrontamento

“Há-de ser o silêncio. Ele vem de novo ao teu encontro como se o esperasses. Talvez seja maior a tranquilidade que existe no único caminho que vinhas percorrer. Sabes que se esta sombra te acompanha é porque nela habitas.” Poema da pág. 59

A Poesia Contêmporanea Portuguesa
2009, Quasi Edições

Apresenta-se aqui uma visão geral da poesia na segunda metade do século XX. Esta poesia é atravessada por alguns movimentos que vêm de um tempo anterior ou que com ela coincidem: Neo-Realismo, Surrealismo, Poesia Experimental ou, recentemente, o Pós-Modernismo. À margem destes movimentos, vários poetas mais ou menos isolados se … Ler mais

Uma obra essencialmente filosófica que dá conta do aparecimento do pensamento estético em Portugal.

Sentido e Sensibilidade
2007, Edições Caixotim

Volume de ensaios da autoria do professor e ensaísta Fernando Guimarães, em torno da obra de diversos autores portugueses, evidenciando os traços que lhes são comuns. Obra de marcante interesse para uma compreensão alargada das intersecções dos autores românticos na literatura moderna.

Mulher
2006, Edições ASA

Em Mulher recolhe-se a poesia de Fernando Guimarães onde esta palavra, que pode estar presente ou ausente, exprime a comunicação e o encontro que se entreabrem no ser, na existência humana. Tais poemas aproximam-se de uma reflexão – digamos uma ontologia – que vai procurar o sentido que há nessa existência.

Na Voz de um Nome
2006, Roma Editora
 
Lições de Trevas
2002, Quasi Edições

Plano Nacional de Leitura Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura. Na primeira parte do seu novo livro, «Lições de Trevas», Fernando Guimarães procede a um convite à leitura. São poemas sobre como ler um livro, dirigindo-se ao leitor e explicando que a poesia não é tanto … Ler mais

 

INFORMAÇÃO RETIRADA DO «SÍTIO» ESCRITORES.ONLINE

 

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publicado às 19:09


#2663 - Sucedem-se os Dias

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.17

SUCEDEM-SE OS DIAS

 

A poesia é de facto um animal

difícil de domesticar. Há as palavras,

as tardes de sol nas esplanadas dos cafés,

as manhãs brumosas junto ao mar. Os cavalos

galopam na planície, mudam de direcção

bruscamente. Aonde irão? Mudou

de cor o céu. Ainda azul, mas baço agora.

O maço de cigarros em cima da mesa,

os estudantes loiros que tomam café,

as raparigas que com os dentes e os lábios

tentam seduzir os nossos destinos incertos.

Para onde nos leva o tempo? E o desejo?

De madrugada acordei, assustou-me a solidão.

Tanto silêncio na noite que parece misteriosa.

Sucedem-se os dias da nossa  morte lenta.

Quem quer saber de nós? E nós,

de quem queremos saber, sinceramente?

A linguagem desenvolve em nós a ilusão

de entender o mundo e o que nos acontece.

É como ir pelos carris do comboio,

de qualquer comboio para não se sabe onde.

Vamos indo e acreditamos que uma noite

havemos de chegar ao destino. Para quê

querer ou pedir mais? Duas da tarde.

Vieram três pessoas sentar-se à minha mesa

do café. Hello, Bob, how are you doing?

O António Nobre não teria resistido

ao rosto angélico, ao olhar virginal

da rapariga que se sentou connosco a tomar

café. Que espera ela da vida, que

pensa do futuro? Que fantasias 

ou sonhos graves atormentam

o seu espírito aparentemente

tão sereno? Vive numa casa

perto do mar, é estudante. Se eu

fosse andando? Mas não me apetece.

Poesia, deixa-me ir assinalando o percurso

da intranquilidade. A minha biografia

é igual à de toda a gente, não tenho

vida privada nem sei o que isso é.

Isolando-me, preservo da corrupção o

interior.  Alimento a necessidade de

me sentir original e diferente adoptando

certa maneira de falar. Tudo o que

escrevo é autobiográfico, evidentemente.

É o que me têm sugerido, com o ar de

acusar-me. Confessional, pouco artístico.

Queriam-me solene, conformado,

obediente? Sabem mais da minha

vida do que eu, vêem-me por todo

o lado nos meus poemas. E sou apenas

o sonho de um outro, o meu e o

deles, ficção e histórias que se contam.

Escrevo porque não existo. Lugar-comum,

retórica conhecida. Questão de perspectiva.

A linguagem permite todos os abusos e a

verdade nunca existiu. Só a poesia.

De que derrotas se fez a nossa vitória

sobre o vazio que nos estava prometido?

Ir-se construíndo dia a dia, operariamente.

Abelhas modestas, vivendo na obsessão do

mel que depois nos roubam. Por que tosses,

rapariga que lês o jornal? A montanha

ao fundo, a brisa que vem do mar. Passa

o inefável sem cessar diante dos nossos

olhos, escondido na banalidade do destino.

Uma existência divina, quem pudera. De

calções, sentado na esplanada do café,

parece que nunca saí do mesmo sítio. Por

favor, rapariga, fecha um pouco o ângulo

das pernas, começam a perturbar-me as tuas

calcinhas azuis. Um pardal poisa na mesa,

depois voa de novo. Vou-me

embora também, pousar noutro lugar.

 

Poema de João Camilo

 

 

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publicado às 21:30


#2661 - CAIR DO PANO

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.17

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 RUI KNOPFLI (INHAMBANE, 1932 | LISBOA, 1998)

 

CAIR DO PANO

 

As acácias já se incendiaram de vermelho

e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante

a manhã de Dezembro. A terra exala,

em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.

Ao longe, no extremo distante da caixa

 

de areia, o monhé das cobras enrola

a esteira e leva o cesto à cabeça,

cumprido o papel exacto que lhe coube

e executou com paciente sageza hindu.

Dura um instante no trémulo contraluz

 

do lume a que se acolhe, antes da sombra

derradeira. Assim, os comparsas convocados

para esta comédia a abandonam, verso

a verso, consignando-a ao olvido

e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

 

irremediavelmente. O encenador faz

a vénia da praxe e, porque aplausos

lhe não são devidos, esgueira-se pelo

anonimato da esquerda alta. É Dezembro

a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

 

Poema de Rui Knopfli incluído no livro O Monhé das Cobras, publicado em 1997, pela 

Editorial Caminho.

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publicado às 20:58


#2659 - O Oriente é uma boca

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.11.17

Israël Eliraz

 

O ORIENTE É UMA BOCA

 

1.

Levanta um dedo e aponta

o centro no qual

 

o rapaz (de joelhos,

à tua frente) desenha

 

segundo as leis da luz

e as leis do ragga,

 

e como ele pergunta:

"estás dentro do teu corpo

 

ou és 

o teu corpo?"

 

Põe no teu caminho

uma  pausa de

flores

 

2.

Um homem nu

levanta a alma

 

que levanta o corpo

à mão.

 

Subitamente ao corpo

falta corpo.

 

A boca, punho de ouro

empunha carvões de prazer.

 

Como uma pena,

uma mancha sobe

do calor do peito.

 

O que é que nasce

em ti, sem ti,

 

quando perguntas,

"estou mais ou menos

no centro disto?"

 

3.

O oriente

é uma boca 

 

para onde te voltas

de joelhos

 

àprocura de matéria

mais rápida

 

que a luz, que o

ragga. Aprendes

 

com a energia do sol, com

o fruto acobreado no forno do olho:

 

o que há -

é isto! é o que há!

 

e há aquele

que antecede tudo

 

o que se disser

dele

 

e sem ele -

não somos

 

Poema de Israël Eliraz

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publicado às 21:37


#2655 - TAL A SALIVA DE TER SIDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.11.17

 

TAL A SALIVA DE TER SIDO

 

Faltam-nos braços e palavras,

noites horizontais de que ainda sabemos pouco,

e saber que entre a morte

e a pressa da névoa ao desvanecer-se

há-de ficar alguma lembrança consistente de ter sido.

 

Escrevo-te agora porque sei que amanhã

nunca acabaria tudo isto

que se estende sobre ti porque é saliva.

 

 Observa a luz, da varanda,

e vê a névoa caída nesta casa

onde entre lençóis prolongo a última palavra sábia:

eco inútil deste ponto onde mora

uma fugaz febril memória de amor e de cinza.

 

Poema do poeta catalão Jordi Virallonga

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publicado às 14:32


#2654 - Em Berlim

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.10.17

 Fatos Arapi (1930)

 

EM BERLIM

 

Outro modo de andar; outras vozes de chuva aqui.

Não ressoa o bronze do trovão das minhas montanhas

nem regressa o seu eco ensurdecedor

a goçpear-me outra vez e mais outra vez...

Tem um não sei quê o caminho aqui, o voo da chuva...

O calor que sobe do corpo desta mulher molhada,

as pombas em Kurfurstendamm,

igrejas e templos feridos pelas guerras.

Aqui se derrama uma alma imensa, e macia, de chuva,

e cai sobre mim, como sobre uma oliveira verde

que caminha, sentindo como as suas raízes

- como no sul - se enterram para se irem nutrir

entre antigas necrópoles.

 

Fatos Arapi nasceu em Vlorë (Albânia) em 1930.  Licenciado em Economia pela Universidade de Sofia, vive em Tirana, onde é jornalista, prosador e poeta. É considerado um dos poetas mais representativos da Albânia contemporânea

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publicado às 22:43


#2652 - Um poema de António Ramos Rosa

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.10.17

 

Que a palavra seja um volume ardente e preciosamente nu

e que trema porque o seu centro é obscuro e incerto

e que se perca na sua chama como numa nuvem

que o seu brilho não apague o movimento da sua sombra

e errante se extinga agravando a solidão de um exílio como um país de sangue

Ese for veementemente como uma onda vermelha

que nela perpasse um húmido murmúrio de névoa

Que a argila reverdeça na prateada lama das suas luas de areia

e mais do que tudo o coração e o olvido se reúnam

entre as luzes e as sombras do seu outono de água

Que a fronte se torne alta de terra vento e chama

porque nela o silêncio é a pureza que vibra

sobre o sangue incessante 

Se arder para o corpo do dia que arda para o corpo da noite

Como um arco lentíssimo sobre um espaço de vento e solidão

ou um ouvido solitário de árvore

ela será luminosa harmonia que se esvai

na sua imperfeição de sombra enamorada

e unir-nos-á docemente à sua fugidia sombra

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publicado às 18:35


#2648 - Poema em que dos meus cuidados se trata

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.17

 UWE KOLB (17 DE OUTUBRO DE 1957)

 

POEMA EM QUE DOS MEUS CUIDADOS SE TRATA

 

I

O papel do vento no fim do mundo

ainda é desconhecido, mas qundo o crânio descoberto

se ergue nesta atmosfera e o herói abandonado avança

por ruas mais quentes

dominado pelo desejo de chegada,

o caminho torna-se corrida, espera

a alma (qual relógio de quartzo ou de pedra milenária

à discrição e poupado desde aquele primeiro

som próprio),

chamada, exigida e inabalável

afastando o casaco, o cachecol, os sapatos húmidos, palavra

a palavra, tabu a tabu,

descansando, descodificando de onde, de dentro de onde,

para poder inventar -

... as matérias da infância. De facto não se assemelham.

Adulto, ousa aqui, sendo o mesmo,

descoberta e ermitério.

 

2

No meio da corja de eunucos modestos

de desistentes no meio deste povo azul,

pregar a pátria: a consciência

com o nome de dúvida fraterna,

a folha negra, brilhante, que se levanta

como olhar, fala, riso dos

sempre e ainda obrigados a encher frigoríficos.

 

3

Tão minúsculo começa o poema, enfaticamente

asfixia, nada explica além de si próprio,

remetido, como sempre, à sua resistência

às duas supralínguas alemãs,

continua agora arritmicamente (infelizmente, amor)

aterra por fim despedaçado e desviado:

tempo e lugar já não se podem escolher,

são ilha como balão preso

e tudo o que se experimentou em Patmos.

 

Poema de Uwe Kolbe, poeta alemão

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publicado às 19:58


#2644 - Vírgula

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.17

 ANTÓNIO MARIA LISBOA

Nascimento1 de agosto de 1928, Lisboa
Falecimento11 de novembro de 1953, Lisboa

 

Vírgula

Eu menino às onze horas e trinta minutos 
a procurar o dia em que não te fale 
feito de resistências e ameaças — Este mundo 
compreende tanto no meio em que vive 
tanto no que devemos pensar. 

A experiência o contrário da raiz originária aliás 
demasiado formal para que se possa acreditar 
no mais rigoroso sentido da palavra. 

Tanta metafísica eu e tu 
que já não acreditamos como antes 
diferentes daquilo que entendem os filósofos 
— constitui uma realidade 
que não consegue dominar (nem ele próprio) 
as forças primitivas 
quando já se tem pretendido ordens à vida humana 
em conflito com outras surge agora 
a necessidade dos Oásis Perdidos. 

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo 
e a custo na imensidão da desordem 
a que terão de ser constantemente arrancadas 
— são da máxima importância as Velhas Concepções pois 
a cada momento corremos grandes riscos 
desconcertantes e de sinistra estranheza. 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. 
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano 
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem 
como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos. 
 
 
POEMA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA IN POESIA DE ANTÓNIO MARIA LISBOA, ASSÍRIO & ALVIM

 

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publicado às 14:52


#2643 - Paixão de Hermes

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.10.17

tabacaria 1026.jpg

 TABACARIA - N.º UM | VERÃO - 1996

 

 ÀNGEL CRESPO

Falecimento12 de dezembro de 1995, Barcelona, Espanha
 
 
PAIXÃO DE HERMES
 
Unicamente o fogo pode unir
sabedoria e ignorância
e fundi-las num novo metal
que resista à lembrança e ao esquecimento:
um íman que igualmente atrai
plenitude e carência,
feito das quatro estações.
 
Morte é o fogo para quem o ignora,
esquecimento para quem o teme,
cadeia para quem lhe foge
- e, em troca, é liberdade para quem oferece
à sua brasa e suas línguas
quanto dúvida se é
pura sabedoria ou sua ignorância.
 
POEMA DE ÀNGEL CRESPO TRADUZIDO POR JOSÉ BENTO

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publicado às 11:15


#2630 - Tragicamente, Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.10.17

 

Adormeci.

Já não acordei:

Sou apenas um monte de cinzas

que o vento ardente espalha pela

terra onde nasci,

fui feliz,

chorei,

e... morri.

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publicado às 19:01


#2618 - Interrogações

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.17

Quando estivermos perto do fim,

ao avistar o sinal que anuncia o fim da estrada,

o que há para além do precipício?

 

Quando tudo parecer acabar,

o que haverá para além do tempo, da matéria e da luz...

um novo sopro?

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publicado às 20:25


#2600 - OUTONO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.09.17

 

No Outono

as manhãs são tranquilas

e as tardes melancólicas

a folha que era verde

lentamente muda de cor e

tem ainda o odor tardio

dos dias de verão

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publicado às 14:50


#2592 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 

ALEXANDRA DE PINHO (SECRETOS REGISTOS) - TECIDOS, DESENHOS E RESINA DE POLIÉSTER

QUADRO COM 20x20 cm - 2005

 

O mundo escurece

para quem nunca sonha, 

não vê,

não se interroga:

como se o pavio de velas terminasse,

um a seguir ao outro,

até ao último milímetro de luz.

 

Por isso, o  medo

ganhará vontade e

tomará conta de nós,

aprisionará o dia

e será sempre noite,

e reduzirá as estações a um inverno eterno.

 

E os nossos olhos cegarão

E as nossas bocas se fecharão

pois o tempo de ver, de falar, de protestar

já esgotou.

 

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publicado às 21:45


#2592 - Despejo

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 ALEXANDRU VLAHUTA (1859 - 1919)

 

DESPEJO

 

Gente coitada, não pagou a renda

E a tralha para a rua lhes deitaram:

Roupas de pobre - só trapos rasgados...

Esta mudança parece agonia.

 

E a chuva molha com seu ar de troça

Velhos farrapos, móveis roídos

Pelo caruncho, nus, desvergonhados.

Há dentro deles uma alma que chora.

 

E a cama ainda pensa nas carícias

Que amparou e que à dor deitaram

Dois magrizelas com as mãos de cera...

Oh, malditos amores da pobreza!

 

E grita ao vento: Mas por que direito

A mulher fraca, esfomeada, atira

Nova vida ao inferno - por um beijo?

Entre os pobres o amor é um crime.

 

Chia a carroça à chuva: sua ruína

Devagar vai seguindo um operário,

Cabeça baixa, seco, de dor mudo,

E os olhos tristes para trás nem vira.

 

Ao lado, a mulher cansada, leva

Dois miúdos pela mão. E em silêncio,

Vão sem parar - nem eles sabem onde,

E a chuva os açoita sem piedade.

 

Tormento horrível, quase ameaça

Oculta-se no monte de farrapos,

No carro velho que a gemer estala,

Nos quatro vagabundos macilentos.

 

Essa miséria que os caminhos trava,

Os móveis desengonçados, gastos,

Que a lama cortam rumo ao futuro,

Sáo como início de uma barricada.

 

Poema do poeta romeno Alexandru Vlahuta, tradução de Doina Zugravescu

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publicado às 19:57


#2585 - Poema sobre Lourenço Marques revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 Eugénio Lisboa

 

Regresso, mas não regresso

ao paraíso perdido,

ao centro de mim, possesso

de quanto, aqui, retido,

de novo vejo, sem ver,

sendo eu quem já não sou:

mundo outro eu quero haver,

nesta fome em que me dou.

Este mar (a cor, a vida)

durou só o que durou:

a corrida é já perdida

e o barco naufragou.

 

No entanto, a casa é minha,

mesmo podre e desdourada:

o calor é o que antes tinha,

nela está minha morada!

 

(O frio é apenas meu

e não da velha cidade:

só em mim esmoreceu

o calor da mocidade.)

 

30 de Setembro de 1989

 

___________________________________________________________________________________________________________________________

Eugénio Lisboa  
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]  

Eugénio Lisboa
Ensaísta e crítico literário. 

Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa em Letras, pelas Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988) e Aveiro. 

Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo promoveu a divulgação da cultura portuguesa e a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. 

Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal público de uma exigente e continuada atenção à obra regiana. 

 
 

 

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publicado às 17:46


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28


#2580 - Terreiro do Paço

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 Glória de Sant' Anna (1925-2009)

 

TERREIRO DO PAÇO

 

cavalga o rei de ferro em seu cavalo

verdoengos os dois no pedestal

recortados lá em cima

 

e alonga-se a crina

em falso movimento sugerido

pela água azul inquieta deste rio

 

cujas ninfas suportam a epopeia

de um povo que se esparsa pelo tempo

 

onde semeia trigo e saramago

no mesmo vento

 

Poema de Glória de Sant' Anna retirado da revista "Colóquio | Letras" n.º 110-111 - Julho / Outubro de 1989

 

coloquio letras 110-111013.jpg

 

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publicado às 15:49


#2565 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

IMG_0866.JPG

 

Gosto que gostes de mim e os

teus dedos espreitem o meu coração.

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publicado às 06:49


#2564 - ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.08.17

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

 

JACKSON,

nem amigo nem inimigo,

nem mesmo (o que seria cómodo) espectador displicente na sua poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,

mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,

mais distante ainda dos mundos que exploraste, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los,

e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,

aqui estou, testemunha, depondo.

 

Jackson,

os que te conheceram e te amaram,

os que te conheceram e não te amaram,

os que não tiveram tempo de te amar,

os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististe,

estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.

Outros, o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.

 

Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.

Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus, Jackson,

e eu o sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.

 

Voltou o tempo dos prodígios.

Ainda há pescas maravilhosas, eu sei,

e os peixes que arrebataste a um mar mais crespo que o de Tiberíades

estão cantando  a glória do Senhor.

 

Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas

elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu

e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,

que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar,

enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.

 

Agora sentimos que estás mais perto de nós,

que por obscuros caminhos nos chegamos mais a ti,

(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir

e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano,

pesca terrível e prodigiosa de amor e de redenção.

 

Belo Horizonte, 1929.

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publicado às 15:15


#2562 - O ORIENTE É UMA BOCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.08.17

 

 

ISRAEL ELIRAZ

 

O ORIENTE É UMA BOCA

 

I .

Levanta o dedo e aponta

o centro no qual

 

o rapaz (de joelhos,

à tua frente) desenha

 

segundo as leis da luz

e as leis do ragga,

 

e como ele pergunta:

"estás dentro do teu corpo

 

ou és

o teu corpo?"

 

Põe no teu caminho

uma pausa de

flores

 

 

2 .

Um homem nu

levanta a alma

 

que levanta o corpo

à mão.

 

Subitamente ao corpo

falta corpo.

 

A boca, punho de ouro

empunha carvões de prazer.

 

Como uma pena,

uma mancha sobe

do calor do peito.

 

O que é que nasce

em ti, sem ti,

 

quando perguntas,

"estou mais ou menos

no centro disto?"

 

3 .

O oriente

é uma boca

 

para onde te voltas

de joelhos

 

à procura de matéria

mais rápida

 

que a luz, que o

ragga. Aprendes

 

com a energia do sol, com

o fruto acobreado no forno do olho:

 

o  que há - 

é isto! é o que há!

 

e há aquele

que antecede tudo

 

o que se disser 

dele

 

e sem ele -

não somos.

 

Poema de Israel Eliraz traduzido por Lúcia Liba Muckznik

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publicado às 09:58


#2560 - As contradições de um corpo mergulhado numa piscina

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.08.17

 

IMG_1650.JPG

 

a oscilação da vontade e da recusa em fazer alguma coisa

a fala que não se entende com a língua

a luz brilhante e quente que não aquece

a chuva que bate na vidraça em silêncio

as portas que só rangem no escuro

percorrer o quarto obliquamente suspenso do tecto sobre o ar amarelo da poeira

uma cambalhota e o corpo desmaia

um cão atravessa a madrugada

gotas de suor escorrem das torneiras

quando o sol se põe a árvore amadurece e a fruta flutua no vazio

as pedras rosnam quando são calcadas e armadilham o caminhar desprevenido do caminhante

parece caótico o carreiro das formigas dizem as cigarras

um crocodilo pisca o olho a outro crocodilo e morde-lhe o rabo

uma garrafa de cristal que julga ser a aristocrata do vidro

um grito ou um gemido?

há diferenças no prazer e na dor

o espelho parte-se discreto sem alarido sem sangue era vidro muito antigo

a vontade é resoluta a recusa também

na arte de não ceder anunciam-se acordos de paz para melhor pensar a guerra

querubins sopram trompetes

as notas da partitura guardadas em meias com mau cheiro exalam fedor

as cadeiras estão vazias o maestro perdeu a batuta a sala está vazia

silêncio absoluto

uma mosca bate as asas

o ruído provoca mais ruído e o pente que já não penteia

a cabeça está careca e em vez de cabelo nasceu musgo e o pente isso não penteia

 

rapidamente anoitece e as portas só rangem no escuro  para amedrontar o medo

enquanto o corpo adormecido repousa sobre a membrana da água de uma piscina

 

É Verão simplesmente

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publicado às 15:14


#2557 - SOLIDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.08.17

 ALEXANDRA DE PINHO (CONTRA-CORPO)

 

SOLIDÃO

 

No meio da multidão  somos apenas mais um.

Anónimos.

Quase todos se devem sentir assim.

Anónimos,

sem rosto,

iguais a tantos outros,

indistintos,

como se nós fossemos todos e não nós.

Mas subitamente

sentimos que estamos sós

às escuras,

encerrados dentro de um círculo de sombras

em confronto directo connosco

e com os nossos desejos

impulsos

fantasmas

fantasias

frustraçoes.

E vemos

gente que se atropela, que se toca, que se roça.

E vemos

gente perplexa suspensa nos gestos de outrem,

as bocas que se abrem e tomam  a forma do espanto.

E os olhos que não pestanejam

hipnotizados  pelas luzes vermelhas

das palavras  penduradas nas portas

que são um sinal,

um código

que anunciam para iminências urgentes

de corpos ardentes

que buscam o ventre da noite para se tocarem

nos sítios do desejo, e do desespero.

E das janelas dos quartos escorre uma luz coada

que ilumina as silhuetas difusas de corpos nus

que se abraçam

antes que a melancolia da noite chegue

e o prazer dê lugar ao cansaço

ou à desilusão.

E continamos sós.

Apenas nós e a solidão.

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publicado às 19:46


#2555 - NOCTURNO DOS ANJOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.08.17

 XAVIER VILLAURRUTIA (1903-1950)

 

NOCTURNO DOS ANJOS

 

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.

As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,

o segredo dos homens que passeiam, conhecem,

porque estão todos imersos no segredo

não ganhariam nada em fragmentá-lo

sim, é bom guardá-lo

e dividi-lo só com a pessoa eleita.

 

Se cada um falasse uma vez só,

e com uma só palavra, aquilo que pensa,

as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,

uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.

Seria uma constelação ardente como o sexo

no corpo profundo da noite,

ou como os gémeos que pela primeira vez na vida

se olham de frente, e se abraçam para sempre.

 

A rua enche-se como um rio de seres ávidos,

caminham, aguardam, prosseguem.

Trocam olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis...

 

Há esquinas e bancos sombrios,

auras indistintas, formas profundas,

e súbitos vãos com uma luz que cega

e portas que cedem à mais leve pressão.

 

A rua fica deserta num instante.

Parece afugentar de si mesmo

o desejo de começar de novo.

Está paralisado, mudo, ofegante

como o coração entre dois espamos.

 

Mas uma nova pulsação

lança ao  rio da rua outros seres sedentos.

Cruzam-se, e sobem,

voam ao rés do chão,

nada de forma milagrosa

e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

 

São anjos,

desceram à terra

através de degraus invisíveis.

Vieram do mar, espelho do céu,

em barcos de fumo e sombra,

a fundir-se e confundir-se com os mortais,

a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,

a deixar que outras mãos apalpem febrilmente os seus corpos,

e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los

como os lábios que se fecham,

a fatigar a boca  tanto tempo estagnada,

a libertar as suas línguas de fogo,

a dizer juramentos, canções, e palavras porcas

com que os homens concentram o antigo mistério

da carne, do sangue, e do desejo.

 

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.

Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.

Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.

Passeiam, aguardam, e seguem.

Trocam olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis.

 

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis

donde ainda praticam um voo lento e vertical.

Em seus corpos nus há vestígios celestiais,

signos, estrelas, e letras azuis.

Deixam-se cair nas camas,e afundam-se nas almofadas

que os fazem pensar um momento nas nuvens.

Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,

e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

 

Poema do poeta mexicano Xavier Villaurrutia

 

 

 

 

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publicado às 18:28


#2554 - MULHERES DE PASSAGEM

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.08.17

 KÓSTAS OURÁNIS (1890-1953)

 

MULHERES DE PASSAGEM

 

Mulheres a quem vi por um instante

dentro de trens à hora em que partiam

para outro lugar, mulheres que riam

nos braços de um outro homem, exultantes;

mulheres em balcões, a olhar diante

de si, tão distraídas, o vazio,,

ou a agitar do convés de um navio

que zarpava seus lenços vacilantes:

se soubésseis com quanta nostalgia

eu vos trago de novo ao pensamento

pelas tardes de chuva, tardes frias,

mulheres que passastes um momento

em minha vida - e agora conduzis

minha alma a um exótico país!

 

POEMA DE KÓSTAS OURÁNIS, POETA GREGO

_____________________________________________________________________

 Ouranis (1850 - 1953) was born in Constantinople, the son of Nikolaos Niarchos and Algeliky Giannusi.He received his Elementary and High School educations in Leonidio and Nafplion, Greece and Constantinople, Turkey, respectively; and his college education in Paris, France. In 1920, he was appointed Greek Consul General of Lisbon, Portugal; and in 1924 he settled in Athens, where he subsequently held a number of prominent journalistic and managerial positions in a number of newspapers and magazines there. He died in the Athens area on 12 June 1953

His poetic works published prior to his death include: "Like Dreams" (1909), "Spleen" (1912), and "Nostalgias" (1920). He is known as the last Greek romanticist of the modern times.

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publicado às 16:09

 

DISCURSO DO GRANDE PÁSSARO

 

Ai de mim! As flores, ainda que tenham resisitido no ano anterior, são levadas pelo gelo no ano seguinte;

Assim é levado este tempo impermanente e ilusório;

O arco-íris, por mais soberbas que sejam as suas cores, desaparece no espaço;

Assim desaparecem os trajos de gala, por mais faustosos que sejam.

A palavra, embora o seu eco seja claro, não tem poder para durar;

Assim como não duram os poderes mundanos, por mais amplos que sejam.

Os visitantes da feira, embora tenham estado reunidos, estão agora dispersos.

Assim se dispersa o círculo de família, por mais unido que tenha sido.

Embora acumulado pelas abelhas, o mel não serve a ninguém.

O mesmo se passa com os bens, as riquezas, e as fortunas.

As acções do mundo são como brincadeiras de crianças.

Ainda que o corpo e as palavras sejam reduzidos a nada, as causas não são eliminadas.

Renunciai pois a este mundo ilusório e falso.

Segui a boa e santa doutrina, ó passaros reunidos.

O corpo no fim recusa alimentar-se:

Bom é se o nosso ser se realizou.

Os bens acumulados gastam-se até ao derradeiro:

Bom é se antes se deram esmolas.

Um homem perdeu todos os que ama até ao derradeiro:

Bom é se a partir de agora, rompeu todos os seus laços.

Um palácio desmorona-se até ao derradeiro muro:

Bom é se se fica solitário sem certeza.

O recurso aos poderosos é o começo da prova:

Bom é se nos apoiamos num Reverendo Lama.

O mundo perecível destrói-se até à sua derradeira realização:

Bom é se nos afastamos do desejo.

Abraçar a Boa Lei é um mérito duradoiro para o presente e o futuro.

E bom é se a ensinamos desde agora.

As (Três) Jóias são um refúgio duradoiro para o presente e o futuro:

Bom é se lhes rezámos neste mundo.

Enquanto os seres, torturados pelo amor, matam com prazer a sede na água da miragem.

É bom abstrairmo-nos na meditação.

Por isso, renunciai ao mundo e cumpri a Boa Lei!

 

Poema tibetano do século XVIII traduzido por Maria Jorge Vilar de Figueiredo

 

 

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publicado às 23:36


#2550 - VEM TROVÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

CHRISTOPHER OKIGBO (1932-1967)

 

VEM  TROVÃO

 

Agora que a marcha triunfante entrou nas últimas esquinas da rua,

Recordai, ó dançarinos, o trovão entre as nuvens...

 

Agora que a gargalhada, partida em duas, trémula, está suspensa nos dentes,

Recordai, ó dançarinos, o relâmpago além da terra...

 

O cheiro do sangue já flutua na neblina que, na tarde, cheira a lavanda.

A sentença de morte está emboscada nos corredores do poder;

E uma enorme coisa pavorosa é já arrastada pelos cabos do ar livre,

Uma névoa imensa e incomensurável, uma noite de águas profundas -

Um sonho de ferro que não pode ser nomeado nem impresso, uma vereda de pedra.

 

As cabeças sonolentas das vagens em quintas maninhas testemunham-no,

As casa abandonadas no matagal durante o fogo deste século testemunham-no:

Os múltiplos olhos de maçarocas de milho abandonadas em celeiros ardidos testemunham-no:

Pássaros mágicos com o milagre do relâmpago nas suas penas...

 

As setas de Deus tremem nos portões da Luz,

Os tambores do recolher prestam-se a uma doença de morte;

E a coisa secreta no seu impulso

Ameaça com máscara de ferro

A última torcha alumiada do século...

 

POEMA DO POETA NIGERIANO CHRISTOPHER OKIGBO, TRADUZIDO POR JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

 

_________________________________________________________________________________________________

Christopher Okigbo nasceu na pequena vila de Ojoto, nos arredores de Onitsha no sudeste da Nigéria, em 1932. Seu pai era professor de uma escola católica, no auge do domínio britânico da região. O jovem poeta cresceria sob a influência de seu pai, católico fervoroso, e a de seu avô, um sacerdote da deusa das águas Idoto, personificada no rio de mesmo nome que corre na região de sua infância. Idoto seria a deusa invocada naquele que é o mais famoso poema de Christopher Okigbo, "The passage", aqui traduzido como "A passagem", mas também conhecido como "Heavensgate". Este sincretismo religioso pode ser sentido com força em seu poema, que inicia com a invocação a Idoto, para logo em seguido invocar Ana, que em comentários críticos sobre o poema tem sido identificada como a santa do catolicismo. Christopher Okigbo viria a se formar na mesma universidade em que estudaram o conhecido romancista nigeriano Chinua Achebe (n. 1930) e o poeta Wole Soyinka (n. 1934), ganhador do Prêmio Nobel de 1986, de quem Okigbo foi amigo.

 

Começou a publicar poemas na revista Black Orpheus, dedicada ao trabalho de poetas africanos e afro-americanos. Seus poemas seriam reunidos postumamente no volume Labyrinths (1971). Christopher Okigbo morreu em 1967, com apenas 35 anos, lutando na guerra pela independência da República de Biafra (1967 - 1970), região separatista que permaneceria parte do território nigeriano.
 
A poesia de Okigbo é hoje considerada uma das mais importantes obras da poesia africana pós-colonial. Ainda que críticos nacionalistas o tenham criticado por adotar a língua inglesa, o poeta parece apropriar-se da língua do colonizador para implantar uma consciência mítica que só pode ser totalmente compreendida através da poética mística e vocal dos poetas africanos. Para nossa sensibilidade cristã, algo da poesia de Okigbo pode parecer alinhar-se a poetas como o W.B. Yeats do volume The Tower (1932) ou o T.S. Eliot de Choruses from "The Rock"(1934), mas a mim me parece que um dos poetas de língua inglesa com quem poderíamos traçar paralelos interessantes, passando pela poética de Christopher Okigbo, é o norte-americano Robert Duncan (1919 - 1988), de livros como The Opening of the Field (1960) e Bending the Bow (1964).
 
Christopher Okigbo nasceu em 1932, o que o faz contemporâneo de brasileiros como Ferreira Gullar (n. 1930) e Augusto de Campos (n. 1931). Sua poética, porém, visionária e mística, talvez o ligue mais a um brasileiro como Roberto Piva (n. 1937). A experiência da leitura de seus poemas, contudo, parece-me de uma beleza bastante singular.



--- Ricardo Domeneck

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publicado às 21:32


#2549 - PRÉMIO DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

João Luís Barreto Guimarães, poeta portuense, venceu a 6.ª Edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa com o seu livro "Mediterrâneo" publicado em Março de 2016 pela Editora Quetzal.

Este Prémio foi criado em 1999 pela Câmara Municipal de Faro e a cerimónia de entrega realizar-se-á no dia 9 de Setembro.

 ________________________________________________________

Biografia:

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967.

Vive em Leça da Palmeira.

É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.

Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro(1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006), A Parte pelo Todo (2009), Poesia Reunida (2011), Você Está Aqui (2013) e Mediterrâneo (2016).

Organizou a antologia de poesia mundial sobre gatos Assinar a Pele (2000).

A sua obra está editada em antologias e revistas literárias de uma dezena de países.

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publicado às 16:48


#2546 - DOS LABIRINTOS DA MEMÓRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

 

Há palavras que se inclinam obedecendo à vontade do corpo

e letras que subitamente se empertigam reagindo contra a vontade do corpo.

E a escrita soluça

fica suspensa

em alerta

a língua se dobra num último esforço para

expulsar a palavra que por baixo dela se esconde.

 

É a memória que se apaga

fica vazia 

numa luz negra qual

nuvem de algodão que a afoga

e as gavetas estão fechadas

onde estão escondidas

as urgentes palavras.

 

 

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publicado às 22:30


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