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#2545 - ALGUNS POEMAS DE PAUL CELAN

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

arte poetica paull celan004.jpg

 Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

 

__________________________

 

Quatro estações do ano e nenhuma quinta para se decidir por uma delas.

 

__________________________

 

Era tão grande o seu amor por ela que teria conseguido levantar a tampa do caixão - se a flor que ela aí colocou não fosse tão pesada.

 

POEMAS DE PAUL CELAN DO LIVRO ARTE POÉTICA - O MERIDIANO E OUTROS TEXTOS, PAGS. 23 E 24, EDIÇÕES COTOVIA, 1996.

ESTES POEMAS FORAM PUBLICADOS NO JORNAL DIE TAT, DE ZURIQUE, EM 12 DE MARÇO DE 1949.

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publicado às 15:43


#2106 - Quem domina?

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.16

 PAUL CELAN

QUEM

DOMINA?

 

Cercada de cores a vida, comprimida por cifras.

 

O relógio

rouba o tempo no cometa,

as espadas

pescam,

o nome

doura as fintas,

a balsamina, de elmo,

cifra os pontos na pedra.

 

Dor, enquanto sombra de lesma.

Ouço que não se faz mais tarde.

Insípido e errado, nas selas,

medem também isto aqui.

 

Lâmpadas esféricas em vea da tua.

Ciladas de luz, divino-liminar, em vez de

nossas casas.

 

O gurupés do mágico

diáfano-negro

em culminação

inferior.

 

A metafonia conquistada na impalavra:

teu reflexo: o epitáfio

de uma das sombras de pensamento

aqui.

 

POEMA DE PAUL CELAN RETIRADO DO LIVRO "NÃO SABEMOS MESMO O QUE IMPORTA", EDIÇÃO RELÓGIO D'ÁGUA, OUTUBRO DE 2014

 

 

 

 

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publicado às 18:49


#2100 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.09.16

img004.jpg

 

e a boca já do mar

emerge

para o beijo infinito

 

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publicado às 23:33


#2013 - Carta de Paul Celan a Hans Bender (1960)

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.16

Paul Celan

 Hans Bender

 

 

Meu caro Hans Bender,

 

Agradeço-lhe a sua carta de 15 de Maio e o amável convite para colaborar na sua antologia Mein Gedicht ist mein Messer (O meu poema é a minha faca). (1)

 

Lembro-me de há tempos lhe ter dito que assim que o poema verdadeiramente está, o poeta volta a libertar-se da sua cumplicidade original. Hoje formularia esta opinião de maneira completamente diferente, ou então tentaria diferenciá-la; mas no fundo continuo a ter esta - velha - opinião. É claro que existe também o que hoje, tão fácil e despreocupadamente, se designa de ofício. Mas - permita-me esta redução do pensamento e da experiência - o ofício é, como a correcção em geral, condição de toda a poesia. Este ofício não se faz, com certeza, sobre um chão dourado. (2) - quem sabe até se ele assenta sobre algum chão. Tem os seus abismos e profundezas, e alguns - ah, mas eu não faço parte deles - Têm até um nome para isso.

 

Ofício - é coisa das mãos. E estas mãos, por outro lado, só pertencem a um indivíduo, isto é, a um único ser mortal que com a sua voz e o seu silêncio busca um caminho.

 

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema. E não nos venham com o "poieín" e coisas assim. Isso significava, juntamente com as suas proximidades e distâncias, sem dúvida qualquer coisa totalmente diferente do que no seu contexto actual.

 

Existem, com certeza, exercícios - no sentido espiritual, caro Hans Bender! E para além disso há também, a cada esquina lírica, toda a espécie de experiências com o chamado material verbal. Poemas são também oferendas - oferendas àqueles que são atentos. (3) Oferendas que transportam um destino.

 

"Como se fazem poemas?"

 

Há anos atrás pude, por algum tempo, ver e, mais tarde, a partir de uma certa distância, observar atentamente como o "fazer" se vai transformando, através da factura, em contra-facção. (4) Sim, isto também existe, como deve saber... Não acontece por acaso.

 

Vivemos sob  céus sombrios e...  existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.

 

Com os melhores votos, para si e para o seu trabalho,

 

                                                                                                                   Paul Celan

                                                                                                                   Paris, 18 de Maio de 1960

 

(1) A antologia em questão, que inclui a carta de Paul Celan, é uma edição aumentada, em relação à primeira, de 1955, e foi publicada pela Editora List, de Munique, em 1961. A páginas 166 pode ler-se a seguinte nota do organizador: "Paul Celan autorizou a publicação desta sua carta pelo organizador da Antologia, com o desejo expresso de que "ela fosse tomada por aquilo que é: como uma carta dirigida a si, com a data do dia de hoje (18 de Maio de 1960)".

___________________________________________

 

(2) A frase só se compreende à luz de um antigo provérbio segundo o qual um bom ofício, uma vez aprendido, é sempre rentável. Nos Provérbios de Sebastian Franck (Franckfurt, 1560) ele é citado na versão atribuída ao humanista Johannes Agricola: "Um ofício tem um chão de ouro".

 

____________________________________________

 

(3) Cf. nota 21 a "O Meridiano".

 

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(4) O original explora um jogo de palavras que se procurou manter: a machen (o acto) / die Mache (o processo e o resultado) / Machenschaft (o fazer intriga, trama, manobra) corresponde "fazer" / "factura" / "contra-facção".

 

"Carta a Hans Bender" foi retirada do livro de Paul Celan "Arte Poética - O Meridiano e outros textos", editado em 1996 por Edições Cotovia

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publicado às 17:39


#1855 - Contraluz

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.05.13

Tantas vezes o cântaro partido vai à fonte até que esta seca.

 

Poema de Paul Celan publicado no jornal Die Tat, de Zurique,  em 12 de Março de 1949

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publicado às 21:11


Carta a Hans Bender [1960]

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.08

Meu caro Hans Bender,

 

Agradeço-lhe a sua carta de 15 de Maio e o amável convite para colaborar  na sua antologia Mein Gedicht ist mein Messer (O meu poema é a minha faca).1

 

Lembro-me de há tempos lhe ter dito que assim que o poema verdadeiramente está , o poeta volta a libertar-se da sua cumplicidade original. Hoje formularia esta opinião de maneira completamente diferente, ou então tentaria diferenciá-la; mas no fundo continuo a ter esta - velha - opinião. É claro que existe também o que hoje, tão fácil e despreocupadamente, se designa de ofício. Mas - permita-me esta redução do pensamento e da experiência - o ofício é, como a correcção em geral, condição de toda a poesia. Este ofício não se faz, com certeza, sobre um chão dourado. -  quem sabe até se ele assenta sobre algum chão. Tem os seus abismos e profundezas, e alguns - ah, mas eu não faço parte deles - têm até um nome para isso.

 

Ofício - é coisa das  mãos. E estas mãos, por outro lado, só pertencem a um indivíduo, isto é, a um único ser mortal que com a sua voz e o seu silêncio busca um caminho.

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema. E não nos venham com o "poieín" e coisas assim. Isso significava, juntamente com as suas proximidades e distâncias, sem dúvida qualquer coisa totalmente diferente do que no seu contexto actual.

 

Existem, com certeza, exercícios - no sentido espiritual, caro Hans Bender! E para além disso há também, a cada esquina lírica, toda a espécie de experiências com o chamado material verbal. Poemas são também oferendas - oferendas àqueles que são atentos.3  Oferendas que transportam um destino.

 

"Como se fazem poemas?"

 

Há anos atrás pude, por algum tempo, ver e, mais tarde, a partir de uma certa experiência, observar atentamente  como o "fazer" se vai transformando, através da factura em contra-facção.Sim, isto também existe, como deve saber... Não acontece por acaso.

 

Vivemos sob céus sombrios e... existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.

 

Com os melhores votos, para si e para o seu trabalho.

 

Paul Celan

Paris, 18 de Maio de 1960

_______________________________________________________________

1 A antologia em questão, que inclui a carta de Paul Celan, é uma edição aumentada, em relação à primeira, de 1955, e foi publicada pela Editora List, de Munique, em 1961. A páginas 166 pode ler-se a seguinte nota do organizador: "Paul Celan autorizou a publicação desta sua carta pelo organizador da Antologia, com o desejo expresso de que "ela fosse tomada por aquilo que é: como uma carta dirigida a si, com a data do dia de hoje (18 de Maio de 1960)".

 

2 A frase só se compreende à luz de um antigo provérbio segundo o qual um bom ofício, uma vez aprendido, é sempre rentável. Nos Provérbios de Sebastian Franck (Frankfurt, 1560) ele é citado na versão atribuída ao humanista Johannes Agricola: "Um ofício tem um chão de ouro".

 

3 Cf. nota 21 a "O Meridiano".

 

4 O original explora um jogo de palavras que se procurou manter: a machen (o acto) / die Mache (o processo e o resultado) / Machenscaft (o fazer intriga, trama, manobra) corresponde "fazer" / "factura" / "contra-facção".

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publicado às 00:42


Arte poética

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.08

Quatro estações do ano e nenhuma quinta para se decidir por uma delas

 

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Era tão grande o seu amor por ela que teria conseguido levantar a tampa do caixão - se a flor que ela aí colocou não fosse tão pesada.

 

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O abraço dela durou tanto que o amor deseperou deles.

 

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Tinha chegado o dia do juízo e, para se procurar a maior das infâmias, a cruz foi pregada em Cristo. 

 

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Enterra a flor e põe o homem sobre esta campa.

 

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A hora saltou do relógio, pôs-se à frente dele e ordenou-lhe que andasse certo.

 

Paul Celan - A arte poética [O Meridiano e outros textos] - Edições Cotovia, 1996, e Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1971.

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publicado às 18:18


Contraluz

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.10.08

Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

 

Paul Celan - Arte Poética (O meridiano e outros textos), edições cotovia, 1996.

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publicado às 16:39


Contraluz

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.08

Tantas vezes o cântaro partido vai à fonte até que esta seca.

 

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Fala-se em vão de justiça enquanto o maior dos navios de guerra não se despedaçar contra a fronte de um afogado.

 

Do livro "Arte Poética - O Meridiano e outros textos", de Paul Celan, Edições Cotovia, 1996, e organizado por João Barrento que, também, escreveu o posfácio e as notas.

 

Contraluz foi publicado nio Jornal  DIE TAT, de Zurique, em 12 de Março de 1949

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publicado às 15:37


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