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#2225 - Os 10 romances mais importantes da literatura brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.17

 

POR MIGUEL SANCHES NETO 

 

As listas são um instrumento crítico de grande relevância, pois trazem, subjacente, um conceito de literatura — este conceito talvez seja mais importante do que as obras escaladas. Ao escolher apenas dez romances brasileiros eternos, segui alguns critérios: não repetiria livros do mesmo autor; privilegiaria obras que trouxeram alguma inovação formal; e daria preferência a livros que fossem mais do que uma história, que tivessem um valor metonímico, representando um período literário, um painel histórico, um grupo social, uma tendência estética. Podem ser considerados como marcas comuns a todas as narrativas listadas o desejo de construir um retrato do Brasil e o investimento em uma linguagem identitária — cada título, logicamente, à sua maneira. Teríamos aqui então um pequeno mapa do grande romance nacional.

Miguel Sanches Neto, doutor em Teoria Literária pela Unicamp, é autor, entre outros, dos romances “Chove Sobre Minha Infância” (Record), “Um Amor Anarquista (Record)” e “A Máquina de Madeira”.

 

IN "REVISTA BULA"

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publicado às 15:35


#2162 - A conspiração contra a América

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.02.17

 BERNARD-HENRI LEVY

 

Não é bizarro, perguntei a Roth, que a maior democracia do mundo dependa de um sistema de separação de poderes tão improvável?

 

No dia da tomada de posse de Donald Trump conheci Philip Roth. Foi uma experiência estranha passar, com o nosso amigo comum Adam Gopnik, o fim de um dia louco na companhia do escritor que, há 13 anos, em A Conspiração contra a América (Dom Quixote, 2005), descrevia exactamente o pesadelo arrepiante em que os EUA entraram.

Encontrámo-nos no seu apartamento forrado a livros de Manhattan, para onde se mudou depois de ter anunciado que se reformava da escrita. Ttinha passado a manhã desse dia de 20 de Janeiro em frente à televisão. Tal como muitos americanos, mas talvez com um grau de estupefacção suplementar, viu as imagens chocantes do bebé crescido que, com grande estardalhaço, pequenos punhos erguidos, insultava as elites de Washington, o povo americano, o mundo inteiro.

Falámos da outra criança, a verdadeira, o pequeno Barron Trump, vestido como príncipe de comédia e deslocado como se fosse um pacote, ou um troféu, entre os pódios onde se celebrou o triunfo de César seu pai.

Roth tem, como se sabe, um carinho particular pelas heroínas literárias, por isso detivemo-nos no caso de Melania, a first lady, com o seu ar estranhamente ausente durante a cerimónia — lúcida? Informada? Pressentindo, melhor do que todos nós, as catástrofes que se estão a preparar? Ou será apenas a história da mais bonita rapariga do subúrbio que um adolescente ávido convidou para dançar e aperta de mais?

Roth falou também das forças que, no seu romance ou mais exactamente no novo romance que o mundo está a escrever, e de que ele, conhecedor, extrai as linhas cómicas e trágicas, podem resistir a esta maré negra de vulgaridade e de violência. 1. O povo soberano que desceu em massa às ruas das grandes cidades do país, lembrando que em termos de votos totais foi ele, e não Trump, que ganhou as eleições. 2. Os republicanos que sabem que entre Trump, o antigo democrata que se tornou populista, e o grand old party, que ele usou como trampolim, se trava uma luta de morte. 3. A CIA, cuja sede Trump visitou no dia após a posse, sem dispensar uma palavra aos 117 agentes mortos em missão, cujos nomes estão gravados na parede mesmo por trás dele, quando se entregou a um exercício de auto-satisfação pueril e grotesco sobre o número de apoiantes que tinham chegado a Washington para celebrar [a tomada de posse]. 4. Os responsáveis do FBI que não lhe perdoarão ter duvidado da sua probidade no caso da pirataria informática por parte dos serviços secretos russos para influenciar os resultados da campanha a seu favor. 

Não é bizarro, perguntei a Roth, que a maior democracia do mundo dependa de um sistema de separação de poderes tão improvável? O que é bizarro, responde-me ele, com uma grande gargalhada, inclinando a cabeça para trás, é o estado de insurreição em suspenso, pelo qual é responsável este Presidente mal eleito e para o qual se pode prever um mandato ainda mais curto do que o do herói do seu romance. 

Claro que as situações não são comparáveis. O romance decorre em 1940.

Retrata Charles Lindbergh, o herói aviador com simpattias nazis, que ganha por pouco ao candidato favorito da época, F. D. Roosevelt. Lindbergh era um anti-semita assumido.

Mas ao mesmo tempo....

Esta retórica mussoliniana...

E depois há o slogan "América primeiro", surpreendendo que nos EUA não se tenha agitado o coração de gente com um pouco de cultura política, independentemente das simpatias políticas – porque era este o slogan oficial dos nazis americanos no tempo de Charles Lindbergh. Era a resposta aos que queriam que a América resistisse à Alemanha de Hitler. Foi em seu nome que foram denunciados os "judeus belicistas". E foi este slogan que Trump repetiu na escadaria do Capitólio e fez com que David Duke, antigo líder do Klu Klux Klan, soltasse um estrondoso: "Conseguimos!"

Donald Trump sabe tudo isso e, quando lho apontam, responde que está a olhar "para o futuro", não "para o passado".

Mas o mundo divide-se entre os niilistas sem memória e os que sabem que as línguas têm uma história. O jogo faz-se entre os que crêem que se pode, sem mal, repetir 15 vezes num discurso o slogan dos supremacistas brancos e os que sabem que a genealogia das palavras, quando negada, vinga-se.

Trump, um pseudo-aliado dos maiores demagogos do nosso tempo, está a ser rejeitado em todo o mundo. Mas consideremos esta estranha e sinistra particularidade: o mais impopular Presidente da América visitou recentemente Jerusalém e criou um afinidade com aqueles que o seu predecessor na ficção considerava sub-humanos.

E há o seu slogan "América primeiro". É surpreendente que estas palavras não tenham dado a volta ao estômago a todo o espectro político americano.

Possam os destinatários desta súbita solicitude protegerem-se deste seu novo amigo como fazem em relação aos seus inimigos.

Possam nunca esquecer que o destino de Israel é uma coisa demasiado séria para que um aventureiro impulsivo e inculto o use para demonstrar a sua autoridade ou o seu suposto talento para fazer negócios.

E que sejam poupados ao dilema, descrito no romance de Roth, de ter de escolher entre dois destinos igualmente funestos: o da vítima, Winchell, e do refém, Bengelsdorf.

A America não leu Philip Roth tanto quanto devia.

O mundo de Roth ou o de Trump: essa é a questão.

 

CRÓNICA DE  BERNARD-HENRI LEVY PUBLICADA NO JORNAL ON-LINE  "PÚBLICO" DE 14 DE FEVEREIRO DE 2017

 

 

 

 

 

 

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publicado às 21:29


#2001 - O DESAPARECIMENTO DA MINHA MULHER

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.16

 António Lobo Antunes

O meu filho nunca fala da mãe, o cão nunca fala da dona. Sou eu quem o passeia agora, às vezes fico séculos à espera segurando na ponta da trela que ele se decida entre dois pneus, cheira o primeiro, cheira o segundo, hesita, reflecte. Nota-se a indecisão no seu focinho

Ilustração de Susa Monteiro

Ilustração de Susa Monteiro

 

Faz domingo à tarde quinze dias que a minha mulher saiu para passear o cão e não voltou mais. Ia com a roupa normal, sem bagagem, claro, sem dinheiro

(ainda há umas moedas em cima da mesa da cozinha)

nem sequer maquilhada, nem sequer muito bem penteada, exactamente conforme costuma andar em casa, de cabelo preso às três pancadas com um gancho, era só uma volta ao quarteirão para o bicho se aliviar contra um pneu, e até hoje. Telefonaram duas ou três vezes do emprego a perguntar se ela estava doente, respondi que não e se calhar fiz mal porque não telefonaram mais, provavelmente já a substituíram porque o que não falta por aí é gente à procura de trabalho, a mãe dela não sabe de nada, o irmão dela não sabe de nada, a Dália, que é a melhor amiga, não sabe de nada, eu e o meu filho claro que não sabemos de nada, não tomou café no café, o sujeito que mora dois prédios a seguir ao nosso e estava a limpar o carro dos pombos e das folhas das árvores viu-a passar com o bicho pela trela, ainda se cumprimentaram, ainda sorriram um ao outro, a minha mulher pareceu-lhe completamente normal

– Educada como sempre, amigo

a senhora do rés do chão mais à frente, que costuma estar sempre à janela, trocou um

– Boa tarde

com um

– Finalmente já cá temos a primavera

a minha mulher voltou na rua que conduz à praceta com o busto do matemático num canteiro e, que eu saiba, mais ninguém recorda nada conforme me explicaram na esquadra da polícia

– Tirando o vizinho e a velhota não temos informações

a fotografia que saiu no jornal com a descrição dela não trouxe novidade alguma, não apareceu nenhum cadáver no rio, os hospitais népia, a morgue népia, evaporou-se por aqui onde nem sequer há um buraco aberto no alcatrão por causa de um cano ou assim, portanto sumiu-se para cima mas que eu saiba não voa, mesmo que subisse e baixasse os braços o peso dos sapatos mantinha-a na calçada, não tem grandes amizades no quarteirão porque não é pessoa de conversas compridas, aliás mesmo em casa pouco falava, herdou isso do pai que não soltava um pio, sentado no sofá a fumar sem se abrir com ninguém, o cão, esse, regressou sozinho, com a trela de rojo, porque na manhã seguinte estava a porta de casa a gemer. O meu filho trouxe-o para a cozinha e não larga o cesto, enrolado lá dentro a olhar-nos, porém esse não fala, experimentei passeá-lo eu, depois de lhe dar a cheirar um vestido da minha mulher que tirei do armário, procurando entusiasmá-lo

– Busca, busca

mas urinou num pneu e foi tudo, a seguir ao pneu começou logo a puxar-me na direção do prédio, saudoso do cesto, sou eu quem cozinha agora para o miúdo e para mim, quem vai às compras ao fim de semana, quem dá uma espécie de limpeza nas três assoalhadas, não tão bem como ela mas pronto e quanto à minha mulher continuamos na mesma, não está, não telefona, não escreve, não mete a chave à porta, claro, vou dizendo ao rapaz que a mãe foi de férias e ele um soslaio calado, só lhe falta o cigarro para ser igual ao avô, acho que a pouco e pouco me vou habituando à sua falta, guardei-lhe os chinelos no armário dado que não precisa deles, não tarda muito deito-lhe a escova de dentes no lixo, enfio as três ou quatro joias que tem na gaveta, ofereço os trapos dela ao prior e acabará por ser como se nunca houvesse morado aqui. É possível que surja outra mulher, é possível que não, não tenho tido tempo para pensar nisso porque andamos lá no emprego a preparar o balanço e por conseguinte o patrão e eu trabalho que não acaba, se calhar devia sentir saudades porém que me dê conta não me atacaram ainda, às vezes falta-me um corpo ao lado a meio da noite, não posso dizer que muito mas falta-me e depois esqueço, torno a adormecer e pronto. Isto de há quinze dias para cá, quando a minha mulher saiu para passear o cão e não voltou mais. Parece-me aliás que o meu filho e eu já começámos a esquecê-la. Pelas minhas contas dentro de um mês já não existirá nem rastro dela neste andar, cada vez lhe recordo as feições de forma mais vaga e quem diz as feições diz a maneira de falar, os gestos, o que ela gostava de comer, essas coisas que dentro de nós compõem uma pessoa e tudo isto acontece sem dor, sem lágrimas, claro, sem tristeza até. Sem espanto igualmente como se ela não tivesse existido e cada vez mais não existiu de facto. E se não existiu de facto para quê ralar-me? O meu filho nunca fala da mãe, o cão nunca fala da dona. Sou eu quem o passeia agora, às vezes fico séculos à espera segurando na ponta da trela que ele se decida entre dois pneus, cheira o primeiro, cheira o segundo, hesita, reflecte. Nota-se a indecisão no seu focinho, ergue a pata para um, ergue a pata para o segundo, olha um terceiro, acaba por se decidir por um tronco, não inteiramente satisfeito

(compreende-se pela expressão que não inteiramente satisfeito mas enfim)

até se aproximar de mim numa resignação mole, e tornamos devagar para casa um ao lado do outro como dois amigos de há muitos anos que já esgotaram as conversas. No meio disto só um pormenor me preocupa: é que eu possa, como a minha mulher, sumir-me também e o miúdo tenha dificuldade em se amanhar sozinho, mas julgo não existirem razões para me inquietar: ao fim e ao cabo a gente habitua-se a tudo não é? E ele graças a Deus é uma pessoa como as outras, isto para além de haver imensas bolachas no armário da cozinha.

 

TEXTO DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES publicado na Revista  VISÃO online de 19 de Maio de 2016

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publicado às 19:02


#1844 - As leis fundamentais da estupidez humana

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.04.13

Anselmo Borges

 

 

Este - "as leis fundamentais da estupidez humana" - é o título de um livrinho famoso, publicado há muitos anos, mas sempre actual. Apareceu em inglês, depois em italiano. Acabo de lê-lo em francês. O seu autor, Carlo M. Cipolla (1922-2000), historiador da economia, foi professor na Universidade de Berkeley e na Escola Normal Superior de Pisa.

 

Para estabelecer as leis fundamentais da estupidez, é preciso, primeiro, definir quem é o estúpido. Para isso, ajudará a comparação com outros tipos de gente. Diz o autor que, quando temos um indivíduo que faz algo que nos causa uma perda, mas lhe traz um ganho a ele, estamos a lidar com um bandido. Se alguém realiza uma acção que lhe causa uma perda a ele e um ganho a nós, temos um imbecil. Quando alguém age de tal maneira que todos os interessados são beneficiados, estamos em presença de uma pessoa inteligente. Ora, o nosso quotidiano está cheio de incidentes que nos fazem "perder dinheiro, e/ou tempo, e/ou energia, e/ou o nosso apetite, a nossa alegria e a nossa saúde", por causa de uma criatura ridícula que "nada tem a ganhar e que realmente nada ganha em causar-nos embaraços, dificuldades e mal". Ninguém percebe por que razão alguém procede assim. "Na verdade, não há explicação ou, melhor, há só uma explicação: o indivíduo em questão é estúpido."

 

Lá está a primeira lei: "Cada um subestima sempre inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos que existem no mundo." Já a Bíblia constata: "Stultorum infinitus est numerus" (o seu número é infinito) - evidentemente, sendo o número das pessoas finito, trata-se de um exagero.

 

Os estúpidos estão em todos os grupos, pois "a probabilidade de tal indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras características desse indivíduo": segunda lei.

 

A terceira lei corresponde à própria definição do estúpido: "É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio." A maioria dos estúpidos persevera na sua vontade de causar males e perdas aos outros, sem tirar daí nenhum proveito. Mas há aqueles que não só não tiram ganho como, desse modo, se prejudicam a si próprios: são atingidos pela "super-estupidez".

 

É desastroso associar-se aos estúpidos. A quarta lei diz: "Os não estúpidos subestimam sempre o poder destruidor dos estúpidos. Em concreto, os não estúpidos esquecem incessantemente que em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as circunstâncias tratar com e/ou associar-se com gente estúpida se revela inevitavelmente um erro custoso." A situação é perigosa e temível, porque quem é racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido. Schiller escreveu: "Contra a estupidez mesmo os deuses lutam em vão."

 

Como consequência, temos a quinta lei: "O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso." O corolário desta lei é: "O indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido." De facto, se a sociedade fosse constituída por bandidos, apenas estagnaria: a economia limitar-se--ia a enormes transferências de riquezas e de bem-estar a favor dos que assim agem, mas de tal modo que, se todos os membros da sociedade agissem dessa maneira, a sociedade no seu conjunto e os indivíduos encontrar-se-iam numa "situação perfeitamente estável, excluindo toda a mudança". Porém, quando entram em jogo os estúpidos, tudo muda: uma vez que causam perdas aos outros, sem ganhos pessoais, "a sociedade no seu conjunto empobrece".

 

A capacidade devastadora do estúpido está ligada, evidentemente, à posição de poder que ocupa. "Entre os burocratas, os generais, os políticos e os chefes de Estado, é fácil encontrar exemplos impressionantes de indivíduos fundamentalmente estúpidos, cuja capacidade de prejudicar é ou se tornou muito mais temível devido à posição de poder que ocupam ou ocupavam. E também se não deve esquecer os altos dignitários da Igreja."

 

É assim o mundo.


Artigo de opinião escrito por Anselmo Borges in "DN online"

 

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publicado às 13:59


#1809 - O Estado social

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.01.13

VIRIATO SORMENHO-MARQUES



Encerra hoje, em Lisboa, uma conferência sobre a reforma do Estado. Já se sabe o que em português corrente isso significa: trata-se de perguntar onde é que o nosso débil "Estado social" pode ser (ainda mais) sangrado para se atingir o desiderato de reduzir quatro mil milhões de euros na despesa.

 

A hostilidade deste Governo contra as políticas públicas de proteção social assenta em duas premissas ideológicas, totalmente erradas.

A primeira consiste em acreditar que o Estado social nasceu de uma posição política de esquerda. A segunda assenta na ideia de que só em períodos de crescimento se poderá consentir no "luxo" de políticas sociais.

 

A história - essa dimensão do conhecimento esquecida por quem hoje manda na Europa - ensina-nos o contrário.

 

O Estado social moderno nasceu com o chanceler Bismarck, numa Alemanha recentemente unificada. Bismarck era profundamente hostil a tudo o que cheirasse a "socialismo", mas integrou a classe operária alemã no contrato social através da Lei dos Seguros de Saúde (1883), da Lei do Seguro de Acidentes de Trabalho (1884), da Lei do Seguro de Velhice e Invalidez (1889).

 

A segunda premissa também está errada. O impulso para o Estado social foi dado no meio das ruínas da Grande Depressão dos anos 30, com altos níveis de desemprego e a queda brutal do PIB. Foi em 1933 que Salazar lançou o Estatuto do Trabalho Nacional. Foi em 1935 que Roosevelt fez aprovar o Social Security Act. Foi em 1936 que, na França governada por Léon Blum, os trabalhadores tiveram férias pagas e na Suécia se efetuou o grande acordo entre patronato e sindicatos que ainda hoje explica como esse país se tornou um farol de civilização. Mas numa conferência inaugurada por Carlos Moedas seria demasiado pedir que os factos contassem para alguma coisa.




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publicado às 19:06


#1722 - Constituição a pedido

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.07.12

 

O presidente do BPI, Fernando Ulrich, já classificara a decisão do TC que confirmou a inconstitucionalidade dos confiscos dos subsídios de férias e Natal a funcionários públicos e pensionistas de "negativa", "perigosa" e "inaceitável". Agora é o presidente do BCP, Nuno Amado, a clamar que foi "uma decisão muitíssimo infeliz".

 

A banca (falta conhecer a opinião de Ricardo Salgado, do omnipresente BES, para o ramalhete ficar completo) não só tem enormes responsabilidades na crise como tem sido beneficiária da maior parte dos sacrifícios que, a pretexto dela, vêm sendo impostos aos portugueses. Mas a banca quer mais do que o seu financiamento com a "ajuda" que a 'troika' cobra ao país em desemprego, fome e miséria ou do que a destruição do SNS que alimenta os seus negócios na Saúde, a banca quer também uma Constituição "sua", já que a Constituição da República se revela, pelos vistos, "negativa", "perigosa", "inaceitável" e "muitíssimo infeliz" para os seus interesses.

 

Nem Ulrich nem Amado o escondem: "É premente alguma revisão da Constituição" (Amado), e a decisão do TC pode "justificar a discussão de uma revisão constitucional, o que até seria positivo" (Ulrich).

 

Numa democracia que cumprisse os serviços mínimos, os desejos de dois banqueiros valeriam apenas dois votos. Não tardará que vejamos quanto valem num regime do género "que se lixem as eleições".

 

 

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publicado às 19:55


#1713 - O silêncio dos condenados

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.07.12

A elogiada paciência dos portugueses perante a austeridade imposta pelo governo é um dos verdadeiros motivos pela situação de desastre económico em que nos encontramos

 

Crónica de Nuno Ramos de Almeida no Jornal i

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publicado às 17:50


#1694 - Incompetência ou fraude?

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.12

 

A notícia ontem conhecida segundo a qual as remunerações dos gestores das principais empresas cotadas subiram 5,3% em 2011 enquanto o salário médio dos trabalhadores (dos privilegiados que ainda têm trabalho e salário) baixou quase 11%, apenas confirma - se isso precisasse de confirmação - a quem está o Governo a cobrar os custos da "crise" e contra quem é dirigida a política de "empobrecimento" de que fala o primeiro-ministro.

 

Cresceu igualmente o fosso da desigualdade entre salários de topo e de base: em 2010, os executivos recebiam 37 vezes mais do que os trabalhadores; em 2011, com a propalada "austeridade para todos", essa diferença aumentou... para 44 vezes.

 

Tudo isto nos deveria levar a cotejar "as propostas (...) para levar a cabo e as medidas que (...) são para cumprir", do programa eleitoral do PSD com o que o PSD fez mal chegou ao poder.

 

Se tudo o que o PSD prometeu sob "compromisso de honra" a que "não faltaremos em circunstância alguma", foi, como assegura o programa, "estudado, testado e ponderado", é de temer que notícias como a referida (ou como os catastróficos números do desemprego e da pobreza) sejam resultado, não apenas de incompetência e pusilânime servilismo ante as forças financeiras de (não tenhamos medo da palava) ocupação, mas de fraude premeditada.

 

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publicado às 11:48


#1690 - A fé que move montanhas

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.05.12

 

A fé cega de Vítor Gaspar em que a receita neoliberal que aprendeu nos livros (mais empobrecimento dos pobres e mais enriquecimento dos ricos) resolverá, se o Deus Mercado quiser, todos os problemas do país é de tipo mágico e não de tipo racional, a versão em economista do mito infantil segundo o qual, se acreditarmos muito numa coisa, ela acabará por realizar-se. 

 

Da História, tal tipo de fé aproveita apenas aquilo que a reforça, ignorando tudo o que a contraria: se funcionou no Chile de Pinochet, porque não há-de funcionar em Portugal?; ou: "Portugal não é a Grécia". E o mesmo da realidade: ainda há dias, uma descida episódica dos juros da dívida pública era um "sinal" de que vamos no bom caminho, agora que os juros voltaram a subir, isso já não é sinal de coisa nenhuma.

 

O método até pode, sabe-se lá, vir a dar certo. Pelo menos deu certo com aquele personagem de Carl Sandburg que comprou o 42 na Lotaria, anunciando que era nesse número que iria sair a "taluda" e que, quando o 42 de facto saiu, perguntado se acertara por palpite ou se usara um método, respondeu algo do género: "Usei um método científico: atirei ao ar o álbum de família e ele caiu aberto na página 7, onde estavam as fotos do meu avô e da minha avó. O meu avô e a minha avó ambos na página 7, estão a ver? Ora 7 vezes 7 são 42..."

 

JN

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publicado às 11:58


#1662 - "Nos países desenvolvidos"

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.04.12

 

É conhecida a anedota da singular noção de causalidade daquele investigador que cortou as patas a uma rã e lhe disse: "Salta!"; e que, como a rã não saltasse, concluiu que, quando se cortam as patas às rãs, elas deixam de ouvir. 

 

Ocorreu-me essa história ao saber do estudo que sustenta mais uma nova redução das indemnizações por despedimento que o ministro Álvaro (quem haveria de ser?) anunciou que levará à Concertação Social, estudo que conclui que... nos países desenvolvidos indemnizar trabalhadores despedidos não é obrigatório. Assim, acabam-se com as indemnizações por despedimento e, zás!, passamos a "país desenvolvido". E poder-se-ia ainda aumentar também os salários para os níveis praticados nos países desenvolvidos e então é que ficaríamos tão desenvolvidos, ou mais, que os países desenvolvidos. A ideia, no entanto, não ocorreu ao ministro Álvaro, como não lhe ocorreu a ideia de se demitir, pois nos países desenvolvidos ninguém salta da blogosfera para ministro...

 

mesma provinciana lógica causal foi recentemente invocada pelo secretário de Estado da Saúde para justificar uma nova cruzada antitabagista: nos países desenvolvidos - mais um esforço, portugueses, se quereis ser nova-iorquinos! - é proibido fumar na rua, no automóvel, na própria casa de cada um.

 

E, já agora, por que não restaurar também a pena de morte, seguindo esse exemplo extremo de país desenvolvido que são os Estados Unidos?

 

Crónica de Manuel António Pina in 

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publicado às 19:15


#1660 - Sentir o perigo

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.04.12

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

 

Max Weber considerava serem três as qualidades que permitem a um ator político tornar-se num estadista. São elas: a paixão; o sentido da responsabilidade; e a capacidade de avaliação. Quem tenha escutado Passos Coelho e Paulo Portas no "debate" parlamentar sobre a ratificação dos Tratados da chanceler Merkel facilmente perceberá que Portugal, nem remotamente, é governado por estadistas. Os Tratados de Merkel não valem nada por si próprios. Nunca serão cumpridos. A Espanha do socialista Zapatero apressou-se a inserir a regra de ouro (do défice orçamental) na Constituição, e o resultado foi um explosivo valor de 8,5% em 2011! A Grécia, que está em estado comatoso, foi o primeiro país a votar o Tratado Orçamental. A falta de capacidade de avaliação de Passos e Portas é tal que nem percebem o ridículo de nos juntarmos aos gregos na pressa de ratificar tratados que nunca iremos cumprir! O sentido da ratificação destes tratados por Portugal não pertence à política, mas à etologia, à ciência do comportamento animal. A UE, agora que o Tratado de Lisboa está enterrado, pode ser comparada a um bando de gorilas, trocando entre si gestos de domínio e submissão. A irresponsabilidade de Passos e Portas apenas diz: "A chanceler manda, e nós obedecemos!" Berlim está a conduzir a Europa de uma situação de crise para a catástrofe geral. Os danos materiais e morais causados pela rigidez germânica na periferia europeia são já de um valor incalculável. A Passos e Portas falta, ainda, uma qualidade mais básica para o bom governo: ser capaz de pressentir o perigo iminente. O País está exangue, face a um abismo onde a sombra da morte do projeto europeu se insinua, avassaladora. Passos e Portas apenas têm paixão para sussurrar ao ouvido de Merkel: "Vamos em frente!"

 

In 

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publicado às 18:53


#1558 - Eduardo Lourenço no nosso labirinto

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.11

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

 

O Prémio Pessoa atribuído a Eduardo Lourenço não poderia ter chegado em hora mais adequada. Quando o País se encontra encurralado pela história, talvez forçado a improvisar em meses ou escassos anos uma correcção de rumo estratégico que, normalmente, as nações demoram décadas a amadurecer. É fundamental que os decisores políticos apurem o ouvido para os conselhos que um mergulhador das profundidades da alma lusa, e um arguto perscrutador dos horizontes longínquos do destino europeu e ocidental, tem para dar.

 

A "dramaturgia europeia" é um assunto que se respira em toda a obra de Eduardo Lourenço. Nos últimos anos, o seu pensamento tem chamado a atenção para o ruidoso movimento das placas tectónicas, que parece afastar a Europa dos Estados Unidos, e ambos das suas raízes fundamentais, empurrando-os para um futuro onde o Ocidente parece condenado a ocupar um lugar cada vez menos relevante. Em 1991, a Europa, acomodada num conforto negligente, deixou a guerra regressar aos Balcãs, e teve, no limite, de pedir socorro ao poderio militar norte-americano. Em 2003, na hubris do Iraque, G. W. Bush rasgava a tábua dos valores anti-imperialistas fundacionais. Obama resgatou, por algum tempo, a esperança de se reabrirem as pontes entre os dois lados do Atlântico, até que os europeus, tal como os gregos na Guerra do Peloponeso, se atiraram ao pescoço uns dos outros na catastrófica Guerra das Dívidas Soberanas, em pleno curso. Eduardo Lourenço diz sempre não ser Cassandra. Ainda bem, acrescento eu, pois precisamos que o seu aviso seja escutado. Em toda a Europa. Ele é o nosso Voltaire, mas a sua voz tem de ir mais longe do que a de Erasmo. Para que a Europa não se estilhace outra vez.

 

in 

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publicado às 17:07


#1557 - A mentira e o desprezo

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.12.11

BAPTISTA-BASTOS

 

Parece que há excesso de portugueses em Portugal. Para remediar tão desgraçada contrariedade, o Governo decidiu minguar-nos tomando decisões definitivas. Há semanas, um secretário de Estado estimulou a emigração de estudantes. Há dias, o primeiro-ministro alvitrou que os professores desempregados ou com dificuldade em empregar-se deviam encaminhar-se para os países lusófonos, nos quais encontrariam a felicidade que lhes era negada na pátria. O dr. Telmo Correia, sempre inteligente e talentoso, elogiou, na SIC-Notícias, a sabedoria cristã de tão arguta ideia.

Acontece um porém: e os velhos? Que fazer dos velhos que enchem os jardins e a paciência de quem governa? Os velhos não servem para nada, nem sequer para mandar embora, não produzem a não ser chatices, e apenas valem para compor o poema do O'Neill, e só no poema do O'Neill eles saltam para o colo das pessoas. Os velhos arrastam-se pelas ruas, melancólicos, incómodos e inúteis, sentam--se a apanhar o sol; que fazer deles?

Talvez não fosse má ideia o Governo, este Governo embaraçado com a existência de tantos portugueses, e estorvado com a persistência dos velhos em continuar vivos, resolver oferecer-lhes uns comprimidos infalíveis, exactos e letais. Nada que a História não tivesse já feito. Os celtas atiravam os velhos dos penhascos e seguiam em frente, sem remorsos nem pesares.

Mas há outro problema. A fome. A fome que alastra como endemia, toca a quase todos, abate-se nos velhos e, agora, nos miúdos. Os miúdos das escolas chegam às aulas com as barrigas vazias: pais desempregados, famílias desgarradas, "a infância, ah!, a infância é um lugar de sofrimento, o mais secreto sítio para a solidão", disse-o Ruy Belo; e as escolas já não têm o que lhes dar. As cantinas reabrem, mesmo durante as férias, e sempre se arranja uma carcaça, um leite morno, nada mais, oferecidos por quem dá o pouco que não tem.

Vêm aí mais fome, mais miséria, mais desespero, mais assaltos, mais violência, mais velhos desamparados, mais miúdos espantados com tudo o que lhes acontece e não devia acontecer. Mais desemprego, num movimento cumulativo, mecânico a automático, como nos querem fazer crer. Diz o Governo. Como se esta realidade fosse natural; como se a semântica moderna da sociedade explicasse a amoralidade da eliminação da justiça e a inevitabilidade do que sucede.

 

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publicado às 17:03


#1551 - O caixote do lixo

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.12.11

Vasco Graça Moura

 

Para o ano, é provável que Portugal seja um dos piores sítios da Europa para se viver. Tudo nos vai cair em cima, sem apelo nem agravo, e nesse monturo de entupimentos acumulados, deixará de fazer sentido o eufemismo que por enquanto consiste em se falar de "apertos de cinto". Não vamos ficar de cinto mais apertado: vamos ser estrangulados, sem alternativa, por uma série de violências oficiais e oficiosas.

 

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publicado às 17:45


#1550 - Quem está por detrás de Merkel?

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.12.11

BAPTISTA-BASTOS

 

Que Europa se espera da Europa, depois da reverente entronização de Angela Merkel feita por essas sobras menores de "estadistas", reunidas numa cimeira tão desacreditante quanto insensata? Os que nela participaram, de regresso a seus países, proferiram declarações graciosamente imbecis e desprovidas de qualquer centelha de dignidade. A alemã foi a vencedora do conclave e parece que nenhum dos presentes deu conta rigorosa dos perigos que representa. Como lucidamente Viriato Soromenho-Marques escreveu no DN (segunda-feira, 12, pág., 8), "a senhora Merkel, mãe do monstro de pobreza e proteccionismo que quer oferecer como rosto da Europa futura, tem um problema fundamental, que é a arma apontada à cabeça de 500 milhões de europeus. A sua tacanhez mental é ainda maior do que a sua influência letal sobre os primeiros-ministros que actualmente governam a Europa. Uma medrosa selecção, que parece ter saído dos lesionados das divisões de honra dos campeonatos distritais de futebol (...)."

 

O projecto imperial está à vista. E tanto Helmut Kohl (CDU, o partido dela) quanto Helmut Schmidt (SPD), horrorizados com o caminho que as coisas estão a tomar, vieram a público exigir que se questionasse a verdadeira dimensão do empreendimento. Não se serviram de metáforas para esclarecer os seus pontos de vista: usaram analogias históricas a fim de agitar as cabeças quadradas dos dirigentes políticos.

 

Aceitando-se o facto de que a senhora Merkel ser tida e havida como tonta, quem está por detrás dela?, quais os ideólogos que a impulsionam?, quais os poderes que nos querem condenar a uma espécie de desconstrução identitária? Porque é disso que se trata, quando se desarma o princípio de equilíbrio social e se o substitui por um jogo de hegemonia do mais forte, com a decorrente submissão total do mais fraco.

 

A Europa, nas mãos de Angela Merkel (o pobre Sarkozy faz papel de compère resignado e cortês), favorece o aparecimento dos nacionalismos e da proeminência aguerrida do económico sobre o político. O hiato criado por estas circunstâncias faz- -nos viver na ilusão de que as previsíveis derrotas da alemã e do francês, nas próximas eleições, nos permitirão respirar melhor.

 

Mas a questão não reside em eleições: está nas deformidades de um sistema que conduz a tudo, até a ressurreições dos fascismos. Em causa emerge não apenas a ameaça de eliminação dos padrões, sob os quais nos habituámos a viver, como a benevolência com que estes dirigentes europeus admitem a servidão. A mediocridade circundante conduz a tudo: até à imprudente aceitação do económico, não como utensílio mas como valor absoluto. Para não irmos mais longe, basta olhar Portugal e atentar na pobreza intelectual e nas debilidades éticas e políticas dos que nos dirigem.

 

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publicado às 13:13


#1455 - Fogo grego

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.11

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES


 

Nenhuma cultura europeia amou tanto a herança da Grécia clássica como a cultura germânica no período do seu apogeu, que vai de Hölderlin e Hegel até Nietzsche. Este último, ao lado do nosso Andrade Corvo, foi um dos primeiros intelectuais europeus a antecipar a grande guerra civil europeia de 1914-1945, que deixaria o mundo, por duas vezes, em escombros.

 

Nietzsche, que como enfermeiro tinha visitado os campos de batalha da guerra franco-prussiana de 1870, teve uma clara visão da hecatombe que aí vinha. Em 1878, numa época de felicidade quase hipnótica - para evocar as memórias do grande escritor judeu, de língua alemã, Stefan Zweig -, Nietzsche recorreu à Grécia Antiga para representar o trágico futuro da Europa. Escreveu ele que os europeus iriam imitar os gregos, no seu pior. No auge do seu poderio, em vez de transformarem a sua profunda unidade cultural e civilizacional numa comunidade política ao serviço do espírito, fazendo de cada Estado um cantão numa grande Confederação Europeia, Nietzsche temia que a Europa replicasse, em escala ciclópica, a Guerra do Peloponeso. A Europa, tal como a Grécia clássica o fizera, caminharia para um suicídio sangrento.

 

No deserto de cultura humanista que hoje habita as chancelarias europeias, estas palavras soam aos ouvidos como se fossem proferidas em mandarim. Daria tudo para estar enganado, mas, quando em 2012, as ruas das cidades europeias, de Lisboa a Paris, passando por Berlim e Roma, forem ocupadas por multidões que vão exigir aos seus governos a devolução de um futuro que lhes foi roubado, então até as bisonhas criaturas que nos governam vão perceber que a Grécia, afinal, não habita a periferia, mas sim o coração da Europa.

 

In

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publicado às 19:01


#1446 - Tudo mudando "como soía"

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.07.11

 

Se "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e "muda-se o ser, muda-se a confiança", porque não haveria de mudar a opinião do presidente da República sobre as agências de "rating"? E se "todo o Mundo é composto de mudança", porque não haveria de mudar a pequeníssima, embora irritante, parte do Mundo que é Macário Correia?

 

Dir-se-á que, se as agências de "rating" eram para Cavaco Silva, ainda há meses, uma espécie de anjo vingador das más políticas do Governo e se tornaram entretanto diabos, não foi Cavaco quem mudou mas a realidade (e o Governo).

 

O mesmo se diga de Macário Correia. Se, há um ano, portagens na Via do Infante eram uma "perfeita idiotice" e "uma medida tonta, esquisita, anárquica, de quem não tem noção da realidade" e, antes das eleições, uma "imposição pouco democrática" (pois "temos de ser sérios, coerentes, honestos e ter princípios"), e agora são "inevitáveis", não foi porque Macário Correia deixasse de ser "sério, coerente, honesto e ter princípios", mas porque a realidade é que deixou de ser honesta e ter princípios no dia 5 de Junho.

 

"Continuamente vemos novidades" e quem sabe?, um dia destes veremos Macário Correia convertido ao tabaco (os prejuízos da Tabaqueira pode bem ser uma pedra no sapato do desenvolvimento e, afinal de contas, os pulmões dos fumadores também têm que sacrificar-se pelo défice) proclamando que "beijar um cinzeiro é como lamber uma fumadora".

 

In "

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publicado às 23:09


#1427 - FRASES

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.06.11

"...Vivemos num país de aldrabões congénitos. De facto, existe uma linha horizontal que divide a Europa. A norte, a mentira é tida como uma falta grave; a sul fazemo-lo todos os dias"

 

Maria Filomena Mónica, In O Plágio e o Perjúrio, Expresso, 25 de Junho de 2011

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publicado às 18:45


#1425 - As 'sopas' do Espírito Santo

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.06.11

 

ANSELMO BORGES

 

Várias vezes Natália Correia me desafiou para as festas do Divino Espírito Santo, nos Açores - ela era espírito-santista. Então, não foi possível. Mas este ano aconteceu.

 

É capaz de ser a festa mais humanista do mundo. Ah!, aquela coisa dos "impérios"! Chegue quem chegar, senta-se e come e bebe fartamente, sem que alguém lhe pergunte quem é, donde é, o que faz. De graça. No "império" a que me acolhi, lá estava o espírito: "A hora de repartir/Que a gente tanto gosta./Pão, carne, massa e vinho/Temos sempre a mesa posta." Ali, foram servidas mais de 600 "sopas" (um ensopado de carne excelente).

 

Se formos à procura da origem destas festas, encontraremos um monge célebre do século XII, Joaquim de Fiore, que deu o joaquimismo. Segundo ele, a História do mundo está dividida em três Idades: a Idade do Pai ou da Lei, que é a idade da servidão e do medo; a Idade do Filho, que é a idade da submissão filial; a Idade do Espírito Santo, na qual se ia entrar, e que é a idade do Amor, da Liberdade e da Fraternidade.

 

Houve sempre, ao longo da história da Igreja, um conflito entre os que acentuam o lado visível, institucional, hierárquico, e os que sobrepõem à Igreja visível uma Igreja espiritual, carismática, fraterna. O joaquimismo constituía uma mensagem revolucionária de contestação de uma Igreja pecaminosamente mundana; os franciscanos "espirituais" - fraticelli (irmãozinhos) -, desgostados com os Papas que abafavam o Espírito, aderiram à inspiração carismática, espírito-santista do joaquimismo.

 

Em 1282, D. Dinis casa com D. Isabel de Aragão, a futura Rainha Santa. O casamento realizou-se em Trancoso, que, significativamente, havia de ser a terra do sapateiro Bandarra, profeta do Quinto Império, tão querido do Padre António Vieira e Fernando Pessoa. Toda a família da nova rainha de Portugal era partidária dos frades espirituais, e a própria rainha possuía um conceito franciscano da vida: simplicidade, desapego dos bens terrenos, amor aos pobres e fracos. Santa Isabel protegia os franciscanos, e foi por seu intermédio que entrou um culto especial ao Espírito Santo. Fundaram-se confrarias do Espírito Santo, irmandades de socorro mútuo, e instauraram-se as Festas do Império do Espírito Santo, nas quais se celebrava o Pentecostes, comemorando a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos.

 

A principal cerimónia desse culto, durante a semana do Pentecostes, realizada por um franciscano, constava da coroação com três coroas, uma imperial e duas reais, do Imperador e dois Reis, geralmente na pessoa de uma criança e dois homens do povo pertencentes à Confraria do Espírito Santo. O Imperador, um menino, símbolo da humanidade renovada, religada às verdades básicas da pobreza evangélica e do amor ao próximo, empunhava o ceptro com que, tocando na fronte, se significava a bênção do Espírito Santo, e, depois de ter recebido as homenagens da população e das autoridades civis, militares e religiosas "fora" da igreja, procedia à libertação dos presos e à distribuição do pão, não como esmola, mas como preâmbulo da instauração na Terra da era da fraternidade profetizada.

 

Esta Festa dos Imperadores generalizou-se e encontramo-la em muitos pontos do País, mas de modo especial em Tomar e a sua Festa dos Tabuleiros ou do Divino Espírito Santo. Aqui, no fim da procissão, há a distribuição do bodo aos pobres.

 

Mas as festas do Divino Espírito Santo enraizaram sobretudo nos Açores e, por causa da emigração, em vários núcleos portugueses dos Estados Unidos e do Canadá. Nos Açores, temos as chamadas Igrejas "paralelas", de que ainda hoje é possível encontrar vestígios. No quadro das celebrações religiosas, continuam com lugar destacado as Festas do Divino Espírito Santo e do "Império", procedendo-se à coroação de uma criança, que segue na procissão com o ceptro, sendo igualmente de destacar as referidas "sopas". A soçobrar na crise, é bom lembrar estas Festas da Fraternidade universal. A utopia tem duas funções essenciais: criticar o presente e obrigar a transformá-lo. Outro mundo é possível.

 

In "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"

 

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publicado às 20:41


#1374 - Os 20 magníficos

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.11

 

Com 689 000 desempregados e 204 000 "inactivos" (pessoas que desistiram já de procurar emprego), isto é, 15,5% de gente sem trabalho que os critérios estatísticos transformaram em 12,4%, o país já há muito teria soçobrado não fosse o patriótico esforço daqueles que, para compensar a calaceirice nacional, se desdobram por sucessivos postos de trabalho, correndo incansavelmente de um para outro, indiferentes à tensão arterial, ao colesterol, aos triglicerídeos e à harmonia familiar.

 

O Relatório Anual sobre o Governo das Sociedades Cotadas em Portugal - 2009, da CMVM, agora tornado público, refere "cerca de 20" desses magníficos, todos membros de conselhos de administração de empresas cotadas, muitas delas públicas, que "acumulavam funções em 30 ou mais empresas distintas, ocupando, em conjunto, mais de 1000 lugares de administração".

 

Revela a CMVM que, por cada um destes lugares, os laboriosos turbo-administradores recebem, em média, 297 mil euros/ ano, ou, no caso dos administradores-executivos, 513 mil, havendo um recordista que, em 2009, meteu ao bolso 2,5 milhões de euros.

Surpreendente é que, no meio de tanta entrega ao interesse nacional, estes heróis do trabalho ainda encontrem nas prolixas agendas tempo para ir às TV exigir salários mais baixos e acusar desempregados, pensionistas e beneficiários dos "até" (como nos saldos) 189,52 euros de RSI de viverem "acima das suas possibilidades"

 

In ""

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publicado às 14:19


#1369 - "Eles comem tudo", de Manuel António Pima

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.11

 

Fala-se muito, nem sempre com honestidade, do chumbo do PEC 4 e da "crise internacional", atirando para as suas costas a responsabilidade da intervenção financeira externa e de todo o cortejo recessivo de consequências desastrosas que irá acarretar para a economia e para o país.

No entanto, raramente (para não dizer nunca) se ouve falar, no discurso político da "troika" partidária que se voluntariou para a capatazia das medidas "austeritárias", do papel da agiotagem financeira nacional e internacional seja na "crise" - que provocou e de que é a principal beneficiária - seja no processo que conduziu ao "resgate" (ah, as palavras!) do país.

 

Ora, se a nacionalização das fraudes financeiras do BPN e BPP já constituía um escândalo dificilmente explicável, fica agora a saber-se pelo DE que, desde o início da "crise", em 2008, o Estado, ao mesmo tempo que cortava impiedosamente nos recursos das classes médias e mais desfavorecidas, deu 6 mil milhões de euros de apoios à banca, ascendendo actualmente as garantias públicas ao sistema financeiro a 35 mil milhões. Além disso, como se sabe, ainda irá parar aos bolsos da banca uma fatia de 12 mil milhões dos 78 mil milhões do empréstimo de FMI, BCE e UE.

 

Não, não são os portugueses quem "vive acima das suas possibilidades", como constantemente bradam os banqueiros e seus factótuns nos media. Os bancos é que vivem acima das possibilidades dos portugueses.

 

In

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publicado às 14:15


# - 1341 O apelo de Mário Soares, hoje no 'DN'

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.03.11

 

No 'DN' de hoje, pode ler o "apelo angustiado" de Mário Soares

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publicado às 15:43


#1229 - O diabo do poder, de Anselmo Borges

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.10

Professor Anselmo Borges, padre, filósofo, teólogo e docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Quando se reflecte sobre o mal, o que mais impressiona é o mal moral: porque é que a liberdade não é sempre boa? Porque não fazemos sempre o bem?

 

Estas perguntas são de tal modo dramáticas que, para explicar o bem e o mal no mundo, muitas vezes se recorreu a um duplo Princípio: um Princípio do Bem e um Princípio do mal. No contexto do cristianismo, que, por sua vez, bebeu noutras fontes religiosas mais antigas, o diabo apareceu como "solução" para o enigma. Ele seria o Tentador e o ser humano nem sempre resiste à tentação.

 

Neste contexto, é preciso dizer, em primeiro lugar, que o Credo cristão não fala do diabo. O cristão não acredita no diabo, mas em Deus. Quanto ao diabo tentador, seria necessário perguntar quem tentou o diabo para, de anjo bom, se tornar anjo mau, precipitado no inferno e tentador dos homens. Lembro que já Kant fez notar que um catequizando iroquês perguntou ao missionário: porque é que Deus não acabou com o diabo? Quanto às tentações, não é preciso diabo nenhum. Bastamos nós. O Homem, entre a finitude e o Infinito, está inevitavelmente sujeito à falibilidade e à queda.

Tentação vem do latim temptare, que, para lá de ensaiar, experimentar, tentar, também quer dizer atacar, procurar seduzir e corromper, pôr à prova.

Neste quadro, a tentação maior é a do poder, não enquanto serviço, mas enquanto domínio, vanglória e exaltação do eu. Pela sua própria dinâmica, o poder tende a ser total. E porquê? Porque a ilusão da omnipotência dá a ilusão da imortalidade, de dominar, vencer e matar a morte. Omnipotentes, seríamos imortais.

Quem quiser uma prova de que a tentação maior é a do poder - financeiro, económico, político... - olhe para o palco da presente situação nacional.

A Igreja, na liturgia, muda os textos, segundo os anos. Mas, no primeiro Domingo da Quaresma, a seguir ao Carnaval, lê-se sempre o Evangelho que refere as tentações de Cristo. São três e, contra a impressão que a Igreja acabou por dar - as tentações seriam sobretudo as do sexo -, são todas relativas ao poder.

O diabo não existe, não se justificando, portanto, os exorcismos. Ali, nas tentações de Cristo, também não há diabo nenhum. O diabo não apareceu a Jesus. Todo aquele excepcional passo do Evangelho é uma encenação dramática que personifica na figura do diabo a vivência da luta de Jesus em ordem à sua decisão: há-de ser um messias do poder ou o messias do serviço? O que ali se determina é se a sua mensagem é a divinização do Homem ou a humanização de Deus. Afinal, a boa nova do Evangelho é que Deus não está interessado nele mesmo nem no culto que lhe possamos prestar, mas exclusivamente no bem-estar e realização dos seres humanos, na plena humanização de todos.

Nenhum exegeta viu tão fundo neste passo como Dostoievski em Os Irmãos Karamazov. Ivan conta a Lenda do Grande Inquisidor. Jesus aparece em Sevilha, no dia a seguir à queima de quase uma centena de hereges. A multidão reconhece-o e segue-o, mas o cardeal inquisidor manda prendê-lo. Na prisão, diz-lhe que ele não entendeu os homens, ao querer a liberdade para eles. Foi por isso que não cedeu às tentações do milagre: transformar as pedras em pães, deitar-se abaixo do pináculo do Templo. Mas os homens não suportam o fardo da liberdade. Assim, a Igreja corrigiu a sua façanha, baseando-a em milagre e poder. "E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva mais terrível que tanto sofrimento lhes causava: a liberdade." "Vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!"

A tentação maior da Igreja é a do poder: poder social e político, controlo das consciências, imposição das suas normas aos não crentes, aceitação de uma religiosidade mágica e milagreira...

"A última tentação de Cristo", na cruz, não foi, como sugeriu M. Scorsese, casar com Maria Madalena, mas descer da cruz. Não cedeu. Deus não livra da finitude nem, consequentemente, da morte.


In "Diário de Notícias"

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publicado às 13:57


Crise e crítica na Igreja

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.04.09

Quem se não apercebeu ainda da crise por que passa hoje a Igreja Católica? Um grupo de 300 teólogos e responsáveis de comunidades de base espanhóis - alguns, como A. Torres Queiruga, Juan Masiá, J. A. Estrada, J. J. Tamayo, J. I. González Faus, teólogos de renome - acaba de publicar um documento intitulado Ante la crisis eclesial, no qual defende que "a causa principal da crise é a infidelidade ao Concílio Vaticano II e o medo das reformas exigidas".

 

Num procedimento que eles próprios consideram ser "extraordinário" - não é também extraordinária a causa que o motiva: "a perda de credibilidade da instituição católica"? -, reconhecem que "este descrédito pode servir de desculpa para muitos que não querem crer, mas é também causa de dor e desconcerto para muitos crentes".

 

Responsável fundamental é a Cúria Romana. O Concílio teceu-lhe críticas duríssimas, Paulo VI tentou pôr em marcha uma reforma, mas ela própria bloqueou--a. As culpas não são, pois, exclusivamente de Bento XVI, com quem aliás se solidarizam: "O erro grave de todos os pontificados anteriores foi precisamente deixar bloquear essa reforma urgente."

 

A primeira consequência do bloqueio é "o poder injusto da Cúria sobre o colégio episcopal", derivando daí "uma série de nomeações de bispos à margem das Igrejas locais e que busca não os pastores que cada Igreja precisa, mas peões que defendam os interesses do poder central".

 

Aqui assentam outras duas consequências: a mão estendida a posições da extrema-direita autoritária e ataques sem misericórdia contra quem está próximo da liberdade evangélica, da fraternidade cristã e da igualdade de todos os filhos e filhas de Deus, "tão clamorosamente negada hoje". Depois, há "a incapacidade para escutar", que faz com que "a instituição esteja a cometer ridículos maiores do que os do caso de Galileu". De facto, a ciência oferece dados que a Cúria prefere desconhecer, concretamente nos "problemas referentes ao início e ao fim da vida". A proclamada síntese entre fé e razão fica anulada.

 

Estas são "horas negras" para o catolicismo romano. Os autores lembram as rupturas de Fócio, que desembocou no grande cisma de 1054, e de Lutero, para sublinhar que também hoje "se não pode esticar demasiado a corda em tensão". Mas "Deus é maior do que a instituição" e "a alegria que brota do Evangelho dá forças para carregar com os pesos mortos". Por isso, os subscritores do documento, animado exclusivamente pelo amor a uma Igreja enferma, não se sentem superiores nem vão abandoná-la, mesmo que tenham de suportar as iras da hierarquia.

 

A quem se possa escandalizar lembram que a Igreja foi ao longo da sua história "uma plataforma de palavra livre". Assim, Santo António de Lisboa pôde pregar publicamente que Jesus tinha dito: "apascentai as minhas ovelhas", mas os bispos da altura entenderam: "ordenhai-as e tosquiai-as". O místico São Bernardo escreveu ao Papa, dizendo--lhe que não parecia sucessor de Pedro, mas de Constantino, perguntando: "Era isto que faziam São Pedro e São Paulo?" Comentando, o actual Papa escreveu, em 1962: "Se o teólogo de hoje não se atreve a falar dessa forma, é sinal de que os tempos melhoraram? Ou é, pelo contrário, sinal de que diminuiu o amor, que se tornou apático e já não se atreve a correr o risco da dor pela amada?"

 

Neste contexto e por ocasião da passagem dos 25 anos da sua morte, deixo aqui a minha homenagem ao antigo professor, Karl Rahner, um dos maiores teólogos católicos do século XX, que escreveu num pequeno livro que então traduzi - Liberdade e Manipulação - que a liberdade tem prioridade sobre a autoridade, que só se legitima como função de serviço; esta reinterpretação funcional da autoridade obrigará a superar "a mentalidade institucionalizada dos bispos, feudal, descortês e paternalista" e implicará a limitação temporal nos cargos eclesiásticos, incluindo o papal, que as decisões e directrizes sejam, em princípio, explicadas ao público, com razões, e que se volte a "pensar numa colaboração do povo na nomeação dos hierarcas".

 

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publicado às 19:43


Construção da Ibéria

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.08

Escritor Arturo Pérez-Reverte defende união de Portugal e Espanha

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publicado às 12:11


...

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.05.08

2008/02/24

||| O preço do pão e a escassez de solo

Engenheiro agrónomo afirma que em Portugal a superfície agrícola utilizada diminuiu 1,77 milhões de hectares desde 1956.
E, sustenta, que num futuro próximo, os países ricos serão aqueles que dispuserem de maior área de solo agrário "per capita".

Pedaços de um artigo retirado do Jornal "Expresso" de  23 de Fevereiro de 2008
Posted by carlos pereira at 17:42:50 | Permanent Link | Comments (0) |

2008/02/19

Manuel António Pina - Crónicas

Uma história portuguesa


Por outras palavras,  de Manuel António Pina

"A novela "Casino de Lisboa" deveria ser incluída no Plano Nacional de Leitura de modo a instruir, desde pequeninos, os portugueses em ética política. O argumento é simples e exemplar uma empresa obtém a concessão de um casino e pretende ficar com o edifício para si e não que ele, como a lei determina, reverta para o Estado. É preciso, pois, mudar a lei. O problema é que as empresas não fazem (supostamente) leis. Quem faz as leis são os políticos que os portugueses elegem para, também supostamente, defender os interesses do Estado. A empresa faz então uns telefonemas e mete no assunto o líder e o director financeiro de um partido do Governo. Ao mesmo tempo escreve ao ministro encarregado da coisa sugerindo-lhe uma "alteração cirúrgica" da lei, "insusceptível" de ser relacionada com o caso. O ministro altera a lei, a empresa mete o edifício ao bolso e todos são felizes para sempre. Às vezes, quando a história tem um "happy end" à altura, o ministro acaba no Conselho de Administração da empresa. Antes disso, se for preciso, o chefe (ou ex-chefe) do Governo vai à televisão explicar que foi tudo para "bem de Portugal" e perguntar: "Acham que eu ia dar um casino?". Obviamente (a história passa-se em Portugal, isto é, em sítio nenhum), ninguém lhe responde."

Texto de Manuel António Pina publicado no "Jornal de Notícias", 19 de Fevereiro de 2008
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2008/02/17

É a saúde, estúpido!

O estado da saúde em Portugal

Um artigo de opinião de Boaventura Sousa Santos publicado na "VISÃO" de 17 de Fevereiro de 2007

http://aeiou.visao.pt/Opiniao/boaventurasousasantos/Pages/Easaudeestupido.aspx
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2008/01/30

Sujeito+Predicado+11 de Setembro

Um texto de opinião de Ferreira Fernandes sobre Rudy Giuliani

http://dn.sapo.pt/2008/01/30/opiniao/giuliani_vai_espaco.html
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publicado às 16:28


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