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#1985 - Letra Aberta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.05.16

põe um pé sobre a minha mão legítima que ela nunca mais escreva,

põe o outro pé sobre a parte mais alerta da cabeça e faz com que ela esqueça,

os dois pés sobre todo o meu corpo como se estivesse morto,

toca-me na testa e sopra-me na boca,

e eu fique tão sensível ao mundo que se transforme tudo,

ao quente do meu sangue,

ao frio do juízo,

que eu ganhe de repente o meu tamanho próprio,

como a luz deitada sobre si mesma, bicho que ao sol se

      enrole tão enorme como a sombra deitada sobre a luz,

que eu me transforme enfim em tudo o que me toque,

que sopre por mim adentro com a extensão do fogo,

se tenho os braços abertos

para apanhar espiga a espiga todo o trigal do mundo,

e assim se faça o poema desde o leite que bebo

até ao frio fundo dentro das mãos fechadas,

oh punhos duros,

laços de sangue torto, sangue torto,

vívido, terrífico, oh sangue tão agudo,

e mo dobre o vento passando sobre as torres,

passando o fogo,

passando o ar mais acima do fogo,

mais acima da cabeça que ele toca se o sono é tocado pelo sonho,

para ser semeado à volta delas todas,

e grita do cimo dessas torres: - estrela! estrela! estrela!

nome a nome a nomeação da terra com suas pedras sôltas,

a cada pedra onde ela pedra é tão assim tocada,

no ar cego,

pelo ar como o amor toca o sangue e é o sôpro de quem ama

- o pé em cima da mão verídica com a chaga e com o beijo:

que eu não escreva nunca

nem abaixo nem acima do umbigo,

mas no umbigo mesmo,

que me dêem o nó agora à tripa entre mãe e filho,

que eu vá com toda a astúcia à minha vida tão difícil

 

Poema de Herberto Helder in "Letra Aberta, edição Porto Editora, Março de 2016

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publicado às 15:45


#1978 - Herberto Helder - Letra Aberta

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.04.16

 

a noite feita, ela toda, em segredo

passando da mão direita para a esquerda

e ficar acordado enquanto se adormece

e acordando se se vê que está escrito

de cabeça para baixo

que o mundo de tão lento não se encurva

que tudo está no ovo

e o ovo não aquece nem arrefenta

e que nada está onde é suposto

e o lenço é ar apenas na mão do mágico

e nada se encontra agora onde se encontra

nem a cabeça

nem a caneta

nem a palavra certa para ser escrita

há duzentos ou trezentos anos

quando eu era criança algures noutro alfabeto

e escrevia alto numa espécie de caderno

sem páginas de um lado e de outro

e sem palavra nenhuma

sobretudo

 

Poema de Herberto Helder in "Letra Aberta", editado em Março de 2016 pela Porto Editora

 

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publicado às 18:11


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