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#922 - Sob céus estranhos

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.07.09



As casas velhas, estreitas, arbitrariamente altas e baixas, de dia pitorescas com as fachadas de azulejos e os balcões de ferro, distinguindo-se agora apenas pelo contraste das dimensões, talvez evocassem alguma coisa do passado, quem sabe? Mas a um estrangeiro, como ele, não diziam nada, não lhe inspiravam essa nmostalgia que podem sentir os indígenas por se suporem a continuação desse passado do qual ele, o estrangeiro, não participava, não só pela sua origem mas sobretudo porque a nostalgia de um passado histórico se cultiva na infância, tal como os usos e os costumes. O estrangeiro, quando muito, pode admirar, gostar, achar curioso, mas não se enternece nem se orgulha. As lutas e glórias de um país que não é o seu permanecewm-lhe alheias porque a  infância foi-lhe povoada de outras lutas e glórias, e a sua nostalgia é, por consequência, outra também. Era por isso que às vezes, mesmo depois de viver vários anos naquela cidade, ao deambular pelas ruas punha a si próprio a pergunta: "Mas que estou eu aqui a fazer? Por que é que ando por estas ruas?" Se um turista chega a um mundo estranho, onde nem o aspecto exterior, nem a língua, nem os costumes lhe conseguem despertar reminiscências, esse mundo exerce sobre ele um encanto delicioso. Não surge tudo isso que se oferece aos seus olhos - paisagem, costumes e fala - para o seu particular deleite? Não se lhe oferecem todas as características pitorescas ptara que ele se divirta e tire fotografias? Mas se o mesmo turista se vê, de repente, forçado a permanecer nesse mundo estranho para ganhar o seu pão, o pitoresco torna-se-lhe ambiente quotidiano, os habitantes passam a ser os seus vizinhos, amigos e inimigos e o caso muda inteiramente de figura. O que lhes parecera insólito e exótico ergue-se qual muro espesso entre ele e tudo o que constitui a sua vida, e por muito tempo não passa dum homem à parte, um observador sempre prestes a comparar com este mundo o seu de outrora: um comparsa que, não chegando a pisar o palco, permanece nos bastidores. Por isso o turista é para o estrangeiro domociliado o que o campista é para um homem que se instalou, de vez, numa cabana.


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publicado às 23:51


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