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#2490 - TEORIA SENTADA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.07.17

 alexandra de pinho

 

TEORIA SENTADA

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade 

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.

 

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

 

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

 

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

 

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra 

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

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publicado às 18:56


#1985 - Letra Aberta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.05.16

põe um pé sobre a minha mão legítima que ela nunca mais escreva,

põe o outro pé sobre a parte mais alerta da cabeça e faz com que ela esqueça,

os dois pés sobre todo o meu corpo como se estivesse morto,

toca-me na testa e sopra-me na boca,

e eu fique tão sensível ao mundo que se transforme tudo,

ao quente do meu sangue,

ao frio do juízo,

que eu ganhe de repente o meu tamanho próprio,

como a luz deitada sobre si mesma, bicho que ao sol se

      enrole tão enorme como a sombra deitada sobre a luz,

que eu me transforme enfim em tudo o que me toque,

que sopre por mim adentro com a extensão do fogo,

se tenho os braços abertos

para apanhar espiga a espiga todo o trigal do mundo,

e assim se faça o poema desde o leite que bebo

até ao frio fundo dentro das mãos fechadas,

oh punhos duros,

laços de sangue torto, sangue torto,

vívido, terrífico, oh sangue tão agudo,

e mo dobre o vento passando sobre as torres,

passando o fogo,

passando o ar mais acima do fogo,

mais acima da cabeça que ele toca se o sono é tocado pelo sonho,

para ser semeado à volta delas todas,

e grita do cimo dessas torres: - estrela! estrela! estrela!

nome a nome a nomeação da terra com suas pedras sôltas,

a cada pedra onde ela pedra é tão assim tocada,

no ar cego,

pelo ar como o amor toca o sangue e é o sôpro de quem ama

- o pé em cima da mão verídica com a chaga e com o beijo:

que eu não escreva nunca

nem abaixo nem acima do umbigo,

mas no umbigo mesmo,

que me dêem o nó agora à tripa entre mãe e filho,

que eu vá com toda a astúcia à minha vida tão difícil

 

Poema de Herberto Helder in "Letra Aberta, edição Porto Editora, Março de 2016

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publicado às 15:45


#1978 - Herberto Helder - Letra Aberta

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.04.16

 

a noite feita, ela toda, em segredo

passando da mão direita para a esquerda

e ficar acordado enquanto se adormece

e acordando se se vê que está escrito

de cabeça para baixo

que o mundo de tão lento não se encurva

que tudo está no ovo

e o ovo não aquece nem arrefenta

e que nada está onde é suposto

e o lenço é ar apenas na mão do mágico

e nada se encontra agora onde se encontra

nem a cabeça

nem a caneta

nem a palavra certa para ser escrita

há duzentos ou trezentos anos

quando eu era criança algures noutro alfabeto

e escrevia alto numa espécie de caderno

sem páginas de um lado e de outro

e sem palavra nenhuma

sobretudo

 

Poema de Herberto Helder in "Letra Aberta", editado em Março de 2016 pela Porto Editora

 

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publicado às 18:11


# 1940 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.15

poemas canhotos - herberto helder.jpg

 

ESTES POEMAS QUE CHEGAM

 

estes poemas que chegam

do meio da escuridão

de que ficamos incertos

se têem autor ou não

poemas às vezes perto

da nossa própria razão

que nos podem fazer ver

o dentro da nossa morte

as forças fora de nós

e a matéria da voz

fabricada no mais fundo

de outro silêncio do mundo

que serão eles senão

uma imensidão de voz

que vem na terra calada

do lado da solidão

estes poemas que avançam

no meio da escuridão

até não serem mais nada

que lápis papel e mão

e esta tremenda atenção

este nada

uma cegueira que apaga

a luz por trás de outra mão

tudo o que acende e me apaga

alumiação de mais nada

que a mão parada

alumiação então

de que esta mão me conduz

por descaminhos de luz

ao centro da escuridão

que é fácil a rima em ão

difícil é ver se a luz

rima ou não rima com a mão

 

Poema de Herberto Helder in "Poemas Canhotos", edição Porto Editora, Maio de 2015

 

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publicado às 17:05

Em memória de Herberto Helder [1930-2015]

Herberto  Helder

 

PREFÁCIO

 

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder

tão firme e silencioso como só  houve

no tempo mais antigo.

Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,

sorrindo com ironia e doçura no fundo

de um alto segredo que os restitui à lama.

De doces mãos irreprimíveis.

- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,

as casas encontram seu inocente jeito de durar contra

a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

 

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta

do gosto, o entusiasmo do mundo.

Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio

admirável das fontes -

pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste

como fogo exemplar.

Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas

um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores

tenebrosas, e temos memória

e absorvente melancolia

e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

 

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,

espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos

que não viram as torrentes infindáveis

das rosas, ou as águas permanentes,

ou um sinal de eternidade espalhado nos corações

rápidos.

- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam

pelos muitos sentidos dos meses,

dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,

para que se faça uma ordem, uma duração,

uma beleza contra a força divina?

 

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.

Alguém viera do mar.

Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.

Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,

inspirações.

                 - Estas casa serão destruídas.

Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente

no seu casamento solar, assim

se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,

vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos

da terra

onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos

múltiplas, as caras ardendo nas velozes

iluminações.

 

Falemos de casas, É verão, outono,

nome profuso entre as paisagens inclinadas.

Traziam o sal, os construtores

da alma, comportavam em si

restituidores deslumbramentos em presença da suspensão

de animais e estrelas,

imaginavam bem a pureza com homens e mulheres

ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,

tocando uns nos outros -

comovidos, difíceis, dadivosos,

                                             ardendo devagar.

 

Só um instante em cada primavera se encontravam

com  o junquilho original,

arrefeciam o resto da ano, eram breves oa mestres

da inspiração.

                    - E as casas levantavam-se

sobre as águas ao comprido do céu.

Mas casas, arquitecos, encantadas trocas de carne

doce e obsessiva - tudo isso

está longe da canção que era preciso escrever.

 

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

 

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas

para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança

nos abandona para sempre.

Casas são rios diuturnos, nocturnos rios

celestes que fulguram lentamente

até uma baía fria - que talvez não exista,

como uma secreta eternidade.

 

Falemos de casas como quem fala da sua alma,

entre um incêndio,

junto ao modelo das searas,

na aprendizagem da paciência de vê-las erguer

e morrer com um pouco, um pouco

                                                    de beleza.

 

Poema de Herberto Helder in "A Colher na Boca", 1961

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publicado às 22:44


#1892 - Servidões

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.11.13

 

 

nunca mais quero escrever numa língua voraz,

porque já sei que não há entendimento,

quero encontrar uma voz paupérrima,

para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa

abaixo do motor da cabeça,

tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,

uma e outra só acham

a poeira do mundo:

antes fosse a montanha ou o abismo -

estou farto de tanto vazio à volta de nada,

porque não é língua onde se morra,

esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,

esta morte não me pertence,

este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia

como se urdem os subúrbios do inferno

num poema rápido tão rápido que não doa

e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,

e não é justo, merda!

quero criar uma língua tão restrita que só eu saiba,

e falar nela de tudo o que não faz sentido

nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,

e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem

como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,

ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio

 

 

Poema de Herberto Helder, in "SERVIDÕES", editado pela Assírio & Alvim, Maio de 2013

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publicado às 15:01


#1859 - "SERVIDÕES" novo livro de Herberto Helder

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.05.13

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publicado às 14:34


#1478 - Teoria Sentada

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.11.11

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem

canta empobrece nas frementes cidades

revividas. Empobrece com a alegria

por onde se conduz, e então é doce

e mortal. Um lento

prazer de escrever, imitando

cantar. E vendo a voz disposta

nos seus sinais, revelada entre a humidade

dos corpos e a sua

glória secular. Uma dor esgota

a idade, com cravos, da minha voz.

E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida

de uma inconcebível

magnitude. Ou somente de uma

voz. Um lento desprazer, uma

solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,

como um silêncio, o antigo

de minha voz.

 

O que digo é rápido, e somente o modo

de sofrer

é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal

o que agora digo, e só

as mãos lentamente levantam o alcool

da canção e a formosura

de um tempo absorvido. Digo tudo o que é

mais fácil da vida, e o fácil

é duro e batido pela paciência.

Porque a terra dorme e acorda de uma

para outra estação.

 

Porque vi crianças alojadas nos meus

melhores instantes, e vi

pedaços celestes fulminados na minha

paixão, e vi

textos de sangue marcados desordenadamente

pelo ouro. Porque vi e vi, na saída

de um dia para o começoda primeira noite, e no despadaçar da noite.

E porque me levantei para sorrir

e ser cândido. E porque então

estremeci com a rapidez das palavras e a quente

morosidade

da vida. Eu disse o que era fácil

para dizer e eu tão

dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:

um prazer, um pesado prazer de cantar

a vida, consome a única voz

de uma vida mais sombria e mais funda.

E eu mudo sobre este campo parado

de cravos, quando a lua

rebenta, quando

sóis e raios crescem para todos os lados do seu

fulminante país.

 

Alguém se debruça para gritar e ouvir os meus

vales

o eco, e sentir a alegria de sua expressa

existência. Alguém chama por si próprio,

sobre mim, em seus terríficos confins.

E eu tremo de gosto, ardo, consumo

o prnsamento, ressuscito

dons esgotados. Escrevo à minha volta,

esquecido de que é fácil, crendo

só no antigo gesto que alarga a solidão contra

a solidão do amor.

Escrevo o que bate em mim - a voz

fria, a alarmada malícia

das vozes, os ecos de alegria e a escuridão

das gargantas lascadas. Para os lados,

como se abrisse, com a doçura de um espelho

infiltrado na sombra. Fiel

como um punhal voltado para o amor

total de quem o empunha.

 

Alguém se procura dentro do meu ardor

escuro, e reconhece as noites

espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,

e vejo as mudanças e o imóvel

sentido do meu amor, e vejo

minha boca aberta contra minha própria boca

numj amargo fundo de vozes

universais.

 

Alguém procura onde eu estou só, e encontra

o campo desbaratado

e branco da sua

solidão.

 

 

Poema de Herberto Helder retirado do livro "Poesia Toda", edição Assírio & Alvim

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publicado às 18:22


#1069 - Teoria Sentada

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.12.09

                              III

A minha idade é assim - verde,sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas mãos fixam-se à sua volta.

Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

E uma raiz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.

Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.

Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciência. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Poema de Herberto Helder,  In "Ofício Cantante", edição 1297, Janeiro 2009, Assírio & Alvim

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publicado às 18:04


#998 - Herberto Helder, A Faca não corta o fogo

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.11.09

 

alexandra de pinho

O que está escrito no mundo está escrito de lado

 

 

a lado do corpo - e tu, pura alucinação da memória,

entra no meu coração como um braço vivo:

o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande

buraco selvagem -

e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações

dos membros abertos: e irrompe o sangue

das imagens ferozes:

as rótulas unidas aos dentes e,

como um sexo trilhado:

a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura

de uma paisagem - uma

paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas

de luz

que se despenharam: porque não há lembrança

dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas

fotostáticos

levitando - a loucura está tão próxima que o meu braço

se entranha na água, e este atelier onde escrevo

sobe

dos precipícios curvos, forte desde o fundo:

aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela

à purpura das madeiras, aos lençóis

ofuscantes cheios de sangue, de água

magnetizada - e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,

e em baixo a queimadura

dos instetinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto

plantado

em sua estaca de sangue como uma grande veia animal -

eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se

no remoinho da garganta - e levanto  a mão e explode

cinematograficamente

a imagem da própria mão

afogada

- porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra

do corpo cerra-se

sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre

como uma chama

por toda a casa - ceifem-me os cabelos à luz

panorâmica: e nas raízes sangrentas

a cabeça queima-se como a lua queima as roupas

levantadas - o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce

dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra

aumenta

exposta às mãos como outra mão

de carne larga - esse

osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam

como se corta a noite

com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,

na terra, num incêndio completo, enquanto

ceifam: porque há uma cabeça no centro

do choque

do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias

sem fracturas: a cabeça

que vê e cheira e que se abre e fecha

e ouve e refulge e morde

e come depressa e respira para dentro e para fora -

e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas

- a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade

entre as unhas,

labaredas, um puro génio mundial - tudo como uma forma límpida,

sutura

do coração, uma leveza tremenda

no poder: quando op dia é muito perto, uma estrela comprida

- as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam

na queimadura da paisagem: uma visão

cerrada pela força: e um comeya desentranha-se

da branca carnagem das memórias, fervendo

entre axilas e falangetas como

um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras -

o que se lembra e pulsa: fibras

vivas

de uma vara embrenhada no meio da água,

e à volta os planetas oscilam como folhas cantando

desde o abismo -

os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem

profundamente

o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose

o coração

aos pedaços de carne, entre orifícios

negros, ressacas

fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.


Poema de Herberto Helder, do livro "A Faca não corta o fogo", edição Assírio & Alvim

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publicado às 21:27


Teoria sentada

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.02.09

alexandra de pinho

 

A minha idade é assim - verde, sentada.

Tocando para baixo as raízes da eternidade.

Um grande número de meses sem muitas saídas,

soando

estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.

A minha idade espera, enquanto abre

os seus candeeiros. Idade

de uma voracidade masculina.

Cega.

Parada.

Algumas fixam-se à sua volta.


Idade que ainda canta com a boca

dobrada. As semanas caminham para diante

com um espírito dentro.

Mergulham na sua solidão, e aparecem

batendo contra a luz.

É uma idade com sangue prendendo

as folhas. Terrível. Mexendo

no lugar do silêncio.

Idade sem amor bloqueada pelo êxtase

do tempo. Fria.

Com a cor imensa de um símbolo.


Eu trabalho nas luzes antigas, em frente

das ondas da noite. Bato a pedra

dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

É uma raíz séca, canta-se

no calor. É uma idade cor da salsa.

Amarga. Imagino

dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.

Procuro uma imagem dura.


Estou sentado, e falo da ironia de onde

uma rosa se levanta pelo ar.

A idade é uma vileza espalhada

no léxico. Em sua densidade quebram-se

os dedos. Está sentada.

Os poentes ciclistas passam sem barulho.

Passam animais de púrpura.

Passam pedregulhos de treva.

É para a frente que as águas escorregam.


Idade que a candura da vida sufoca,

idade agachada, atenta

à sua ciencia. Que imita por um lado

as nações celestes. Que imita

por um lado a terra

quente.

Trabalhando, nua, diante da noite.

 

Herberto Helder - Ofício Cantante, Assírio & Alvim, edição 1297, Janeiro de 2009

 

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publicado às 12:12


Poesia completa de Herberto Helder

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.01.09

Ofício Cantante - Poesia Completa (Assírio & Alvim) em breve nas livrarias. O volume de 624 páginas inclui, entre vários inéditos, todos os poemas do já esgotado A Faca Não Corta o Fogo, lançado em 2008. [In. Revista Ler]

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publicado às 13:39


Herberto Helder - A faca não corta o fogo

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.12.08

Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?

Nem música nem cantaria.

Foi-se ver no livro: de um certo ponto de vista de:

terror sentido beleza

acontecera sempre o mesmo - quebram-se os selos aparecem

os prodígios

a puta escarlate ao meio dos cornos da besta

máquinas fatais, abismos, multiplicação de luas

- o inferno! alguém disse: afastem de mim a inocência

eu falo o idioma demoníaco.

Há imagens que se percebem: a do leão às escuras bebendo água

gelada, a imagem de uma pessoa com a mão gloriosa nas chamas

não pára de gritar mas não tira a mão do fogo

compreende-se? como se compreende?

é uma espécie de força absoluta. Há quem pinte cavaleiros luminosos

montados em cavalos azuis. Vão para a guerra, vão matar,

roubar, violar, Deus olha.

Sangue. Quais os problemas? Vermelho e azul, distribuição de formas, a beleza

e os seus segredos - o número, a razão do número

que tudo seja perfeito em coral e cobalto.

O caos nunca impediu nada, foi sempre um alimento inebriante.

O homem não é uma criatura entre mal e bem: falava-se com Deus

porque Deus era potência, Deus era unidade rítmica.

A mão sobre as coisas - cada coisa tem a sua aura, cada animal tem

a sua aura, como se pastoreiam as auras!

em transe: eu sou a coisa. Acabou.

Sento-me a conversar com Deus: palavra, música, martelo

uma equação: conversa de ida e volta.

Depois há gente que fala entre si, depouis é o medo, depois é o delírio.

Escuta a breve canção dentro de ti. Que diz ela?

Não move as coisas com as suas auras, nem tu nem a tua canção

pertencem ao mundo cheio, alma que sopra.

Nada se liga entre si, Deus não se debruça  na canção; destroça

a cadência

- o demoníaco. Já não se vê um degrau

arrancar de outro degrau pelas lentas escadarias de mármore ao fundo.

A canção abandonou o seu espaço contínuo,

Que se pode fazer? - Apenas um encontro de objectos; um degrau, outro e outro degraus onde ninguém assenta o pé

e depois o outro pé - por onde se não sobe para assistir ao braço que torcendo

laçasse o corpo num umbigo incandescente, por onde ninguém

sobe para sentar-se ao órgão

e discutir em música as proporções? Aquele que disse:

eu tenho a temperatura de Deus - era um louco meteorológico.

Mas se afinal se entende que numa resposta

se oculta uma pergunta do mundo, mas

se afinal a substância

de alguém que pôs a mão no fogo é igual à substância do fogo

enquanto grita. A substância de um homem e de uma estrela; a mesma.

O poder de criar a canção, isso.

Bato na rosácea com o martelo

o rosto onde bate a rosácea roda voltado para cima -

 

Poema extraído do livro "A faca não corta o fogo", edição 1268 da Assírio & Alvim, Setembro de 2008

 

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publicado às 13:11


A faca não corta o fogo - Herberto Helder

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.11.08

alguém salgado porventura

te 

toca

entre as omoplatas,

alguém algures sopra quente nos ouvidos,

e te apressa, enquanto corres

algumas braças acima

do chão fluido, leva-te a luz e subleva,

tão aturdidos dedos e sopros,

até ao recôndito,

alguma vez tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,

baixo,

com mais mão de sangue e abrasadura,

e te cruzaram nesse furor,

e criaram,  com bafo

ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,

a luz corrente lavrando o mundo,

cerrado e duro e doloroso, acaso

sabias

a que domínios e plenitudes idiomáticas

de íngremes ritmos, que buraco negro,

na labareda radioactiva,

bic cristal preta onde atrás raia às vezes

um pouco de urânio escrito

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publicado às 00:07


Herberto Helder - A faca não corta o fogo

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.11.08

As mulheres têm uma assombrada roseira

fria espalhada no ventre.

Uma quente roseira às vezes, uma planta

de treva.

Ela sobe dos pés e atravessa

a carne quebrada.

Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus -

e mistura-se nas águas,

no sonho da cabeça.

As mulheres pensam como uma impensada roseira

que pensa rosas.

Pensam de espinho para espinho,

param de nó em  nó.

As mulheres dão folhas, recebem

um orvalho inocente.

Depois sua boca abre-se.

Verão, outono,  a onda dolorosa e ardente

das semanas,

passam por cima. As mulheres cantam

na sua alegria terrena.

 

Que coisa verdadeira cantam?

Elas cantam.

São fehadas e doces, mudam

de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,

os dias rutilantes, a graça.

Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas

e uma suavidade amarga -

as mulheres tornam impura e magnífica

nossa límpida, estéril

vida masculina.

Porque as mulheres não pensam: abrem

rosas tenebrosas,

alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.

São altas essas roseiras de mulheres,

inclinadas como sinos, como violinos, dentro

do som.

Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

 

O pão de aveia, as maçãs no cesto,

o vinho frio,

ou a candeia sobre o silêncio.

Ou a minha tarefa sobre o tempo.

Ou o meu espírito sobre Deus.

Digo: minha vida é para as mulheres vazias,

as mulheres dos campos, os seres

fundamentais

que cantam de encontro aos sinistros

muros de DEus.

As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram

a boca e o ânus

e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

 

Espero que o amor enleve a minha melancolia.

E flores sazonadas estalem e apodreçam

docemente no ar.

E a suavidade e a loucura parem em mim,

e depois o mundo tenha cidades antiga

que ardam na treva sua inocência lenta

e sangrenta.

Espero tirar de mim o mais veloz

apaixonamento e a inteligência mais pura.

- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas

no campo.

Pensarão na noite molhada,

no dia luzente cheio de raios.

 

Vejo que a morte se inspira na carne

que a luz martela de leve.

Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura

veemente da ilusão,

nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -

vejo os meses que respiram.

Os meses fortes e pacientes.

Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.

Vejo meu pensamento morrendo na escarpada

treva das mulheres.

 

E digo: elas cantam a minha vida.

Essas mulheres estranguladas por uma beleza

incomparável.

Cantam a alegria de tudo, minha

alegria

por dentro da grande dor masculina.

Essas mulheres tornam feliz e extensa

a morte da terra.

Elas cantam a eternidade.

Cantam o sangue de uma terra exaltada.

 

Poema de Humberto Helder, extraído do Livro "A faca não corta o fogo", edição 1268, Setembro de 2008, da  Assírio & Alvim,

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publicado às 17:51


Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.08

Amanhã  (hoje) , o novo opus de Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo - súmula & inédita (Assírio & Alvim), começa a chegar às livrarias. É, não tenham dúvidas, um dos maiores acontecimentos editoriais do ano. E para o comprovar basta que leiam três dos poemas inéditos do livro:

a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
¿e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

*

aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica

*

rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
¿em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma

 

 

publicou o Bibliotecário de Babel às 19:49 de Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

 

Post retirado do blog "Bibliotecário de Babel" 

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publicado às 18:18


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