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#2679 - Os Loucos da Rua Mazur

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

 

O mais recente Prémio Leya chega hoje às livrarias. Leia aqui o primeiro capítulo do novo romance de João Pinto Coelho.

Chega hoje às livrarias o mais recente Prémio Leya de Literatura, o romance Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho. O autor, que já tinha sido finalista deste prémio em 2014 com o livro Perguntem a Sarah Gross, regressa ao mesmo tema, o do holocausto e de uma das épocas do século XX mais dramáticas da história da humanidade. O cenário do romance é duplo, passando-se uma parte na atualidade e outra na Polónia, durante a II Guerra Mundial. Recorde-se que o júri presidido por Manuel Alegre escolheu este original entre 400 por ser "bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos".

Para João Pinto Coelho, a edição que hoje chega aos leitores, menos de um mês depois de ter sido anunciado vencedor, só tem a ganhar por ser fruto do "reconhecimento que resulta da atribuição de um prémio literário com este prestígio, que acaba sempre por contribuir para a visibilidade do romance distinguido". Quanto ao futuro profissional passar pela atividade literária, Pinto Coelho não é por enquanto assim tão entusiasta: "No futuro imediato, não creio. É uma hipótese que poderei colocar, mas apenas quando tiver três ou quatro livros publicados."

Segundo o autor, este livro começou a ser pensado enquanto escrevia o anterior. Daí que admita que o cenário semelhante de ambos se deva à sua perceção sobre a necessidade de voltar a esta época: "Tive sempre a convicção de que havia coisas cruciais sobre a perseguição aos judeus naquele período que não constavam no meu primeiro romance. Além dos alemães, houve outros perpetradores; tem que ver com a universalidade do mal, e tinha de escrever sobre isso ou sobraria a sensação de uma história incompleta."

No que respeita à investigação, João Pinto Coelho voltou aos muitos livros que leu sobre o tema nos últimos trinta anos, não esquecendo os muitos contactos que estabeleceu com historiadores polacos ao longo de diversas visitas à Polónia. Questionado sobre se leu os livros dos seus antecessores premiados, aponta o de João Ricardo Pedro e o de Afonso Reis Cabral: "Dois romances magníficos."

 

Pré-publicação do primeiro capítulo de Os Loucos da Rua Mazur

Por João Pinto Coelho

 

PARIS, 2001

A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha. O tampo estava vago, apenas papéis dispersos, uma telefonia a pilhas e um rosto num passe-partout, o rosto de Fidelia.

 

 

 

Artigo escrito por João Céu e Silva para o  DN - Diário de Notícias

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publicado às 22:31


#2639 - João Pinto Coelho venceu Prémio Leya 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.10.17

 João Pinto Coelho com o livro "Os loucos da rua Mazur" foi o vencedor do Prémio Leya 2017.

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance.

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publicado às 20:10

António Lobo Antunes
 

Avô

 Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse

Ilustração: Susa Monteiro

O compartimento onde escrevo, um andar muito alto sobre as traseiras da Penitenciária, de onde vejo até falcões que passam de quando em quando com um rato nas unhas, falcões, andorinhas, gaivotas, outros pássaros, traz-me todos os dias à memória o pai do meu pai, que se chamava António Lobo Antunes e esteve uns bons tempos preso aqui. Morreu pouco depois de eu fazer dezoito anos e desde então não houve um só dia sem me lembrar dele, pelo muito amor que continuo a ter-lhe. Foi a pessoa central da minha infância, é uma das duas ou três pessoas essenciais da minha vida. Imagino-o ali de novo, nesta prisão enorme, recordo-me do meu pai contar as visitas que lhe fazia em pequeno, de mão dada com a minha avó grávida, que o trazia aqui a ele e à irmã que nasceu a seguir a ele, recordo-me do meu pai contar o medo que sentia nesta cadeia enorme, cheia de homens e ecos. Às vezes oiço as vozes dos condenados lá em baixo, durante o recreio e, sem dar por isso, não, e, dando por isso, imagino o meu avô entre eles, a sorrir-me aquele sorriso tão bonito que era o seu, um homem grande, muito forte, extraordinariamente belo e terno, que tinha por mim um amor ilimitado, que me fazia tantas festas, até na rua, e eu cheio de vergonha, a pensar

– Vão achar que somos maricas

já parvo, claro, incomodado, aflito. A minha mãe contava que uma vez, de manhã muito cedo, telefonaram ao meu pai para ele dizer que o tio João, o irmão mais velho do meu avô, tinha morrido de repente e pedindo-lhe que fosse comunicar a notícia ao meu avô. De modo que a minha mãe e o meu pai lá foram os dois, a seguir a vestirem-se à pressa, e os meus avós estavam ainda deitados. Olharam os meus pais, surpreendidos, o meu pai disse

– Pai, trago-lhe uma notícia muito triste

e segundo a minha mãe o meu avô tornou-se rígido na cama, de olhos fechados. Após um silêncio o meu pai disse

– Pai, o tio João morreu

ao cabo de outro silêncio comprido, contava a minha mãe, o meu avô abriu os olhos e respondeu

– Pensei que fosse o António

e, comentava ela, o meu avô, que gostava muito do irmão

– Até parecia aliviado.

Pouco antes de morrer, e não morreu velho, disse-me

– Tenho tanta pena de te deixar

e sorriu-me. Depois foi-se embora e perdi-o para sempre. 
A ideia da minha morte, e já estive perto dela em mais de uma ocasião, a ideia da minha morte, quer dizer o que eu penso da minha morte, o que me consola na minha morte é a certeza que vou estar com ele de novo, aquele homem moreno

(eu que sou loiro)

de uma coragem física que me mete a um canto, de uma generosidade sem fim, com uma capacidade de amar que não encontrei em mais ninguém, com um sentido de família único, de uma fidelidade absoluta a si mesmo e aos outros, com quem não me pareço em quase nada, muito melhor do que eu, sociável, alegre, que nunca vi ler um livro, que às vezes me olhava com pena

– Quando tiveres um filho já eu estou a fazer tijolo há que tempos
tão valente, tão generoso, tão bom, salazarista, monárquico, intensamente religioso, sociável, divertido, um patriarca no sentido mais nobre da palavra, com um extraordinário talento para alcunhas

(a um conhecido político, por exemplo, chamava-lhe Pneu Mabor, porque a única coisa que tinha de bom era o ar)

amando a vida, ele que não vivia, comia os dias, com uma enorme capacidade de perdoar, um rei, um príncipe, um líder natural, o meu herói. Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse. Preso, condenado, obrigado a sair de Portugal, foi para Tanger, onde uma das minhas tias nasceu e só nos anos trinta lhe permitiram regressar a Portugal, e sei que a estadia no Norte de África não foi fácil, obrigado a trabalhar numa fábrica de conservas

(ele que nascera aristocrata e rico, essas célebres fortunas da borracha do Brasil)

e nunca lhe escutei uma queixa ou lamento. Em Portugal refez a sua vida toda, não voltou ao Brasil a não ser numa ocasião, numa breve visita, com toda a família de lá à sua espera no Rio, pegado como era a esta terra aqui, ele que passou a infância em Belém do Pará e cujas memórias, até nas canções que às vezes me cantava

Mamãe diz ao Papai
que eu quero ir para a guerra
do Paraguai.
Não vês meu filho
que podes morrer
tão pequenino
que irá acontecer?

eram tão brasileiros. É que a sua alma é suficientemente grande para ocupar dois países. Nada disto eu herdei, claro. Mas basta-me o orgulho de ter o seu nome, António Lobo Antunes, e a felicidade de haver sempre recebido o seu amor. E agora não estou a olhar a Penitenciária lá em baixo. Estou com ele em Pádua a fazer a primeira comunhão na igreja de Santo António, em resultado da promessa que fez nesse sentido se eu não morresse de meningite que tive aos oito meses, como o irmão mais novo do meu pai, morto dela com a idade em que eu ia morrendo, e António Lobo Antunes também. Sabe, avozinho, acho sempre que os falcões que passam na janela me trazem recados seus. Eu sei que olha por mim e não me deixa. E o que traz nas garras não é um bicho morto é o nosso amor que continua vivo. Olhe, fico contente que este texto esteja tão mal escrito. 

Acho que me comovi demais.

 

Crónica publicada na VISÃO 1283 de 5 de outubro

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publicado às 17:53

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS (1845-1900)

 

"Nos finais do século XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena  e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.

 

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869, acompanhou o  seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egito para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações leem e releem. Três anos depois ingressou  na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muitos diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Émile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: «Fala-lhes um discípulo de Flaubert.»

 

Cada oração que Eça de Queirós  publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o  sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o  Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra, a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

 

No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."

 

TEXTO DE JORGE LUIS BORGES, DO LIVRO "BIBLIOTECA PESSOAL", PÁGINAS 23 E 24, EDIÇÃO QUETZAL, 2014

 

 

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publicado às 18:12

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava

A escritora Gertrude Stein insistia com os jovens escritores americanos de quem era protectora, Hemingway, Fitzgerald, tantos outros, da importância que teria para eles viverem em Paris. A sua explicação era simples:

– Não é tanto o que Paris dá

(insistia ela)

é o que Paris não tira. Esta frase traz-me sempre à ideia a pergunta que Alexandre Dumas

(gosto de Alexandre Dumas)

faz no seu diário:

“Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”

Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir que só pode ser um problema de educação. Por exemplo os desenhos das crianças em geral são magníficos, os dos adultos, excepto no caso de serem artistas de talento, uma bodega. Claro que é um problema de educação: uma criança criativa é herética e subversiva

(até rima, olha)

e claro que isso assusta os professores que exigem dos alunos uma normalização que conduz inevitavelmente à mediocridade que tanto tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa, um ordenado simpático, filhos bem educados. Claro que admitimos Gauguin ou Mozart desde que não façam parte da família. Em geral as famílias defendem-se criando um maluquinho. Todas têm aquilo que consideram o maluco da família e, quando o maluco, por qualquer motivo, deixa de o ser, apressam-se a arranjar outro antes que a estrutura se desagregue. Não há nada que assuste mais as pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença. A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza. Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles. Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas

– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?

não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos porque matámos o máximo de crianças que perdemos quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo.

 

Crónica publicada na VISÃO 1272 de 20 de julho

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publicado às 17:42


#2408 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.05.17

RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

ANTES DO INÍCIO

 

 

Abriu o livro e procurou a primeira frase.

 

Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante, porque se percebe logo o que podemos esperar.

Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia:

 

«Abriu o livro e procurou a primeira frase.»

 

Além da surpresa, sentiu-se observado, apanhado na inesperada e impossível ideia de que alguém lhe lia o pensamento, na livraria quase deserta.

 

Rodou a cabeça, espreitou por cima do ombro. Perto dele, com o mesmo livro na mão, outro leitor espreitava também, e os seus olhares encontraram-se.

Perceberam de imediato que a ambos acontecera a mesma coisa.

 

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos. (...)

 

Início do novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho "O Pianista de Hotel", pág. 11 - Edição Publicações Dom Quixote - Maio 2017

 

 ___________________________________________________________________________________

Rodrigo Guedes de Carvalho nasceu em 1963, no Porto.

Recebeu o Prémio Especial do Júri do Festival Internacional FIGRA, em França, com uma Grande Reportagem sobre urgências hospitalares (1997).

Estreou-se na ficção com o romance Daqui a nada (1992) vencedor do Prémio Jovens Talentos da ONU.
Seguiram-se-lhe A Casa Quieta (2005), Mulher em Branco (2006) e Canário (2007).

Elogiado pela crítica, foi considerado uma das vozes mais importantes da nova literatura portuguesa.

É ainda autor dos argumentos cinematográficos de Coisa Ruim (2006) e Entre os Dedos (2009), e da peça de teatro Os pés no arame (estreada em 2002, com nova encenação em 2016).

Regressa ao romance com O Pianista de Hotel (2017).

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publicado às 18:56


#2387 - Nem todas as baleias voam

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.05.17

 Afonso Cruz

 

(...) Erik Gould deu o seu primeiro concerto a solo no bar de Manhattan onde, em mil novecentos e trinta e nove, Eleanora Fagan, conhecida por Billie Holiday (com uma gardénia no cabelo, vinte e três anos), cantara sobre pretos linchados e pendurados em árvores. Na altura, o racismo americano fazia que os pomares frutificassem cadáveres. ("Strange Fruit" era uma canção tão boa que Nina Simone, completamente fascinada, afirmou: "Nunca ouvi nada tão desagradável." E a seguir teve de ir à casa de banho, tinha os intestinos às voltas, a alma a pingar. Há canções que fazem bater palmas, não são más; mas depois há outras, as que silenciam a plateia ou que fazem uma revolução no corpo ou que dão um coice na boca do estômago.) 

Billie Holiday fazia às músicas o mesmo que Gould. Acariciava-as com a voz, deitava-as e fazia amor com elas. E talvez tenha sido nessa altura que Gould aprendeu a beijar o que tocava no piano, a usar os dedos como objectos sensuais e, ao pousá-los nas teclas, acariciar a melodia juntamente com o ébano e marfim. Foi também com Billie Holiday que Gould aprendeu a tocar "I committed crime Lord I needed", não só como quem faz sexo mas também como quem espeta uma faca, "Crime of being hungry and poor". Ou as duas coisas ao mesmo tempo: "I left the grocery store man bleedin'." 

Estamos demasiado familiarizados com esta ideia de dor e felicidade que, perversamente, se misturam e se engendram, mas também é verdade que tendemos a separar as duas como se tivessem existências autónomas. Este matrimónio aflitivo entre duas experiências superficialmente antagónicas, mas que formam um tecido comum, é uma espécie de ironia subjacente ao Universo. Junqueiro chamou à dor o "substrato último da Natureza, o fundo irredutível do Universo", acrescentando-lhe, claro, a possibilidade de ser transformada em algo mais luminoso: "Não há beleza esplendente que não fosse dor caliginosa. A flor é a dor da raiz, a luz, a dor das estrelas." Acrescentou: "Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. O meu amigo colecciona dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas." Cabe-nos, ao aceitar as regras deste jogo, uma espécie de exercício de mineração, trabalhar afanosamente e sem tréguas na extracção de virtudes de dentro de matéria vil. Orígenes vislumbrou, na sua apocatástase, um final feliz para o Universo, resultante deste trabalho redentor, um final glorioso em que o próprio Diabo seria perdoado, fazendo culminar o preceito bíblico "amar o inimigo". Com música, em vez de explosões e danações. Um eterno baile. (...)

 

Excerto retirado do livro  de Afonso Cruz "Nem todas as baleias voam", pags. 16 e 17, edição Companhia das Letras, Novembro de 2016

_________________________________________________________________________

Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014.

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publicado às 19:38


#2307 - Uma Viagem à Índia (Excerto)

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.04.17

 

«55

 

E a cidade ganhou dependências: abastece-se

de homens e mulheres vindos de países trágicos

e passa por caridosa momentos antes de

os expulsar. A Europa começa a ficar inclinada,

é necessário vigiar. De noite, é um facto, os pobres correm

muito para debaixo dos tapetes. Na Idade Média

havia epidemias de ratos, mas  o caso foi resolvido

a tempo. Nascemos no século em que, de longe, a lista

de medicamentos é mais longa. Festejemos, pois,

com a bebida certa.

 

56

 

O dinheiro tornou-se moralmente inatacável. Para os pobres

as leis parecem ser pormenorizadas, para os ricos

abordam generalidades: abaixo de um massacre

não devemos incomodar os tribunais

- estaríamos a insultar o bom nome dos sujeitos.

E somos tão felizes! As mulheres mais aperfeiçoadas

dançam à moeda como as velhas máquinas de canções.

Ao amor, para ser deste século, só falta a ranhura

adequada ao câmbio actual.

 

57

 

Somos muito felizes. Nas análises, a urina

nada acusa, e o sangue não é tirado à força com uma espada

como acontecia nas batalhas de séculos anteriores;

o sangue agora sai através  de uma finíssima agulha

trazida por uma enfermeira obesa.

O estado preocupa-se com a tua saúde

e, progresso enorme, manda as boas-festas pela televisão.

 

58

 

E há depois as palavras. A relação entre os homens

está gramaticalmente outra. Tolerância,

respeito, leis serenas: a cidade vista de cima

parece um lago, tão calma que está.

É tão perfeita que não se percebe como é que os animais

da floresta não se mudam todos para cá.»

 

Excerto do livro de Gonçalo M. Tavares «Uma Viagem à Índia» páginas 227 e 228 - Canto V

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publicado às 17:30


#2278 - Violência Civilizada

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.04.17

 "A pena de morte decidida por um tribunal torna-se assim, subitamente, num assassinato educado, segundo as determinações da civilização; assassinato delicado, pois, quase uma demonstração de boas-maneiras por parte do Estado: matamos, mas depois de ouvir os dois lados, depois do Tribunal reflectir longamente: matamos, ou apenas prendemos, mas de uma maneira intelectualmente elevada (continuemos na ironia): não somos bichos: não matamos nem raptamos sem primeiro reflectirmos. Depois de muito estudo e discussão dialéctica, então sim: agimos violentamente.

 

As decisões legais de um tribunal sobre o corpo são vistas assim, não como violências físicas mas como processos intelectuais, conclusões racionais de uma série de procedimentos cerebrais; a pena de morte ou a sentença que determina a prisão surgem como aparições racionais e não como aparições animalescas (como no caso dos crimes individuais). Determina-se a pena de morte da mesma maneira que se chega ao resultado único de uma equação matemática, com a mesma satisfação do dever cumprido e como conclusão de um processo longo. Diz-se, e repete-se: a lei não é  uma ciência e, no entanto, a lei tem consequências práticas mais importantes do que qualquer determinação científica. Uma lei age directa e imediatamente sobre o corpo dos homens, enquanto uma descoberta científica pode demorar anos até ter interferência concreta no dia concreto dos Homens. As leis do Estado são assim como que leis da Física - pensemos na lei da gravidade por exemplo -, que são feitas cumprir, não pela própria natureza - como a lei da gravidade (experimenta voar e verás) - mas pelos outros homens. Não voo, porque a Natureza não me deixa; e não mato porque os outros homens não me deixam.

 

Claro que há limites para esta aceitação da lei. Didier Eribon, num livro sabre a vida de Michel Foucault, cita a famosa frase de Camus: "Acredito na justiça, mas defenderei a minha mãe primeiro que a justiça"

 

Excerto do livro de Gonçalo M Tavares "Atlas do corpo e da imaginação", Editorial Caminho, Setembro de 2013

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publicado às 16:37

 

 

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publicado às 21:20

"Não me ocorreu dizer mais nada." É a última frase dos três espessos volumes que reúnem em 2795 páginas várias centenas de textos dispersos de Agustina Bessa-Luís que a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta hoje no Porto, numa sessão na Fundação Serralves.

Com recolha e organização da neta da autora, Lourença Baldaque, Ensaios e Artigos (1951-2007) permite a radiografia completa do seu pensamento sobre quase tudo, sendo muito curiosa a recordação das opiniões políticas no pós-25 de Abril, bem como os comentários sobre alguns ícones da música popular, Madonna e Bob Dylan (parcialmente reproduzido abaixo). Mas é a sua rudeza ou sedução nos comentários sobre os seus pares escritores que geram mais polémica, já que Agustina não se proíbe de dizer o que realmente pensa sobre a Literatura. Leia algumas partes no A a Z literário que se segue.

Agustina: "Decorre a apresentação do livro de Cavaco Silva no salão nobre [do Centro Cultural de Belém], e os carros pretos dos ministérios sobem a rampa com uma lentidão consular. (...) Freitas do Amaral acaba também de escrever um livro e é saudado triunfalmente. Eu escrevi cinquenta e não me prestam tanta atenção. Pelo que fico, por um momento, desencorajada." (1994)

Bob Dylan: "A multidão serve-se dos mitos no grande banquete frio de ideias feitas. A ideia romântica e a ideia triunfal, a ideia extradoméstica. Mas os anos 60 passaram. No seu rochedo sobre o mar, Bob Dylan está só. (...) Um tipo domesticado, como todos os velhos dizem. O seu lado espiritual deixa-o na sombra. O seu motivo cavalheiresco torna-o solitário." (1987)

Camilo Castelo Branco: "Um homem dotado para a vida é um homem angustiado; ele sabe que quanto mais o seu génio progride e se expande, mais cria para si próprio condições de invulgar desastre. (1964) " Tanto temia Camilo o punho da sociedade para quem escrevia e que, afinal, não era persistente na crueldade nem obstinada na estupidez. (...) Na verdade, não sei que lhe deu a Camilo para escrever este romance (A Enjeitada) a não ser o desprezo pela sua atividade face a um público que lhe exigia emoções calculadas, e para quem o melodramático se confunde com o sério." (1980)

Dostoievski: "Não há melhor maneira de perceber a intimidade de Dostoievski senão fazendo da sua obra uma Bíblia, pegando nela à boa maneira russa e deixando que se abram as folhas do destino, ao acaso, no encontro desse romântico calor e realidade profunda que foram seus dons. Como eu faço agora, detendo-me num parágrafo de Niétochka, um dos seus primeiros ensaios da longa novela, escrita na prisão e que tem por inteiro o estremecimento da aspiração frustrada do amor humano." (1981)

Éxito: "O êxito dos romances de Lawrence Durrell pode corresponder a uma fraqueza da personalidade, é natural que corresponda a uma fraqueza da personalidade de todos nós." (1965)

Fellini: "O que Fellini chama inocência é a libertação do aborrecimento. É o riso, o prazer, a espontaneidade inglória mas eficaz, e coisas assim. (...) Mas não é inocência. A inocência é o insulto que o amor aprova. E, como o amor, é rara. O que Fellini chama inocência é a libertação do aborrecimento. É o riso, o prazer, a espontaneidade." (1973)

Goethe: "O "eterno feminino", com que Goethe termina o segundo Fausto, é um aditamento à insuficiência humana com que todos os trabalhos e ideias se defrontam. Se a mulher assumisse o Poder, com todas as suas objetas funções o homem fica muito inexpressivo e o seu sentido da divindade perde-se."

Henry Miller: "Vejamos o caso de Henry Miller, que conta já mais de oitenta primaveras e diz fluentemente as mesmas coisas que um moço de vinte primaveras comenta por conta própria, ainda que de maneira mais ingrata e verde. Ambos se encontram no mesmo ponto: viver não é conhecer a vida." (1973)

Inspiração: "Escrever uma página inspirada não acontece todos os dias. Às vezes movemos o pensamento pelos atribulados caminhos do doméstico, que corrompem a subtileza e a graça; outras vezes pomos na cabeça o nosso gorro sábio, e resulta uma enfadonha tabuada de sentimentos." (1966)

José Régio: "É cedo ainda para que eu fale do Régio. Vejo-o ainda de desvelada maneira, "quieto no seu canto", porque a poesia é incomunicável. O que víamos era talvez uma dinâmica infeliz e um deserto de orgulho crucificado." (1970)

Kafka: "As criaturas isoladas, diamantinas, como Kafka, simulam toda a vida uma coragem normal de relações, contactos, até amores perdoáveis. Mas ficam sempre naquela terra hostil onde se murmura; nas selvas negras de Brecht onde se murmura: "Nós não pudemos ser amáveis... recordai-nos com indulgência." (1968)

Lobo Antunes. "Se me dissessem, há um tempo atrás, que eu haveria de fazer a apresentação dum livro de Lobo Antunes, e um livro chamado Tratado das paixões da alma, eu não teria levado a sério. (...) Das leituras que fiz algo de fundamental: que não se tratava de um carreirista das letras nem jovem zangado, como foi moda apelidar os snobs inteligentes. Tratava-se muito simplesmente dum homem em más relações com a justiça dos homens. A até com a injustiça deles." (1990)

Mecenas: "A cultura não é custear espetáculos. A cultura não se elabora, vive de uma filtragem moral e sentimental da sociedade que a produz. Não é obra de empresários nem de mecenas. Não é programa de Estado." (1977)

Namora: "Com o livro de Fernando Namora, URSS Mal amada bem amada, dá-se um caso de protocolo sem boa construção. Se percorremos um país estranho, há que em ter em conta o que é realmente degradação e costume. (...) O livro de Namora é um roteiro em que a imparcialidade não nos comove, simplesmente porque ela não interessa a ninguém. Namora escreve com certa usura de emoções. Sempre foi assim, ou descobre um registo mais profundo ao ficar fora da sua própria identidade?" (1986)

Odisseia: "Há uma teoria quanto ao autor da Odisseia que atribui a uma siciliana a obra imortal de Homero. Essa atrevida opinião funda-se em traços psicológicos, que não são para desprezar. Por exemplo, o grande conhecimento da vida doméstica demonstrado pela primeira Nausica, em contraste com a sua ignorância a respeito de navegação e os trabalhos pastoris." (1992)

Público: "O que acorre a esta conferência (...) é gente nova quase toda, dita das Artes, e que se preocupa extraordinariamente com a moldagem da sua personalidade." (1960)

Quadro: "O retrato presidencial de Jorge Sampaio é um retrato à margem do retratado. Paula Rego tem dificuldades em pintar pessoas. Desenha-as mas não as inventa, não as estuda, não reage com elas a isto que se chama o mundo. O retrato do Presidente Mário Soares, que confiou num amigo para o fazer, obedece a um absurdo lógico. Parte do conhecimento da sua personalidade, arrebatada e impaciente, para exprimir o lado facecioso dum temperamento. Não trai, apenas se destina a círculo dos amigos e nem sequer à roda da família." (2006)

Romance: "O romance é ainda um "jogo de palavras" e não corresponde, mesmo quando obtém grande sucesso, à exigência do homem. Porque, para lá dos seus intuitos de diversão ou aventura, talvez pressinta o pequeno campo de imagens do romance como coisa que não deve ser tomada a sério." (1963)

Salman Rushdie: "Não se podem ler os livros sagrados dando-lhes um significado panfletário. (...) Gibreel , o homem armado, personagem de Versículos Satânicos, de Salman Rushdie, achava que a fé era como uma doença, e que havia de voltar sempre. Por isso preferiu puxar o gatilho e libertar-se da infância da sua credulidade e dos génios de outrora." (1991)

Timidez: "A mulher tímida encontra o sucesso ao pé da porta, e foi nessa nota que os empresários de Marilyn se garantiram. Mas é muito raro que as mulheres sejam tímidas. Para isso têm que possuir um elevado sentido metafísico, sem o qual a timidez é apenas insuficiência mental. Quando Greta Garbo diz: "Tive hoje uma grande discussão com Deus", está explicado o teor da sua beleza e fascinação."(1992)

Uso: "Os usos estéticos da língua portuguesa começam notoriamente nos cronistas do século XIV, com Fernão Lopes. Até então, a prosa escrita destinava-se a atos de doação e testamentos e ao registo de propriedades. A redação desses papeis era confiada ao tabelião ou secretário régio, que não punham empenho na elegância da língua, mal socorrida por um latim bárbaro e menos que vulgar." (2005)

Vinha do Douro: "De maneira muito inesperada, indo ao Douro onde ainda há uma casa de família meio entregue a fantasmas competentes e que não pomos em dúvida, encontrei-me com Madame Bovary ali ao lado. Filmava-se um mortório, e as jovens do lugar, vestidas de preto, rodeavam o caixão da Dona Augusta, que era a Laura Soveral muito engripada. É estranho essa encarnação em figuras que os não inspiram. (...) E se eu tivesse melhor caneta, mais diria. Mas acaba-se aqui a tinta; não o canto que faltou a Camões, porque nesse tempo vinho de cheiro não havia."

Wilhelm Reich: "Há muito tempo que não lia Wilhelm Reich. No meio de muitas ideias mal sucedidas, de muitos absurdos concubinatos com a verdade, Reich mantém algo de surpreendente no seu discurso. A linguagem é, às vezes, delirante, outras vezes profética. Decerto comoveu muitos psiquiatras com veia revolucionária. Recorrem a Reich como a um precursor no âmbito das informações genitais, mas ignoram a teoria do novo líder." (1992)

Xenófanes: "A ignorância do magistério que determina a obra de Xenófanes não basta para o tomarmos como autodidata. Quer aprendesse nos livros ou nas palavras dos mestres, ele foi poeta e admite-se que foi professor de Parménides. Xenófanes dizia que a verdade não é para ser divulgada, porque as imagens da opinião ou do senso comum são historicamente mais fortes do que a justiça da verdade ou a verdade da justiça." (1995)

Yourcenar: "Antes de tudo, posto que para Filipe La Féria o cenário antecipa o teatro e é o seu porta-voz, a cova de Electra, aos nossos pés. (...) Mas o drama não está lá. O estudo dos atores não foi fecundo. Os atores estão vestidos como se fossem hunos e não gregos. Eu penso que a peça de [Marguerite] Yourcenar é débil, muito perto de um drama burguês, com um tempero de psicanálise que nos fatiga e nos dececiona." (1987)

Zarco: "Há um monumento a Gonçalves Zarco, mas não exige que os corredores de fundo da História parem diante dele, esperando indicações preciosas para poderem prosseguir. (...) Chegada à Madeira, depois de duas ou três conversas com jornalistas, apercebi-me de que eles sabiam mais de mim do que eui própria. Sabiam quem me estima e que me detesta, facto que parece bizarro se o tornarmos público aqui. Isto quer dizer que a ilha exerce um poder desinibidor e que lá o sintoma de identidade não é visto da mesma maneira." (1995)

 

NOTÍCIA RETIRADA DO JORNAL ON-LINE "DIÁRIO DE NOTÍCIAS" , ESCRITA POR João Céu e Silva

 

 

 

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publicado às 16:51


#2126 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.17

afonso cruz026.jpg

 

 "De todas as operações conhecidas da CIA, a agência de informação norte-americana, entre as ridículas e as tenebrosas, há uma que se destaca, pelo facto inusitado de a arma usada ter sido a música, mais concretamente o jazz. Trata-se de um programa criado em mil novecentos e sessenta e oito, depois do falhanço da Baía dos Porcos e da operação Northwoods. Esta última parece mais uma absurda teoria da conspiração do que um projecto factual: foi recusada por John F. Kennedy e tinha por objectivo organizar e levar a cabo, dentro das fronteiras americanas, diversos actos terroristas, entre sequestros, atentados bombistas, sabotagens, etc., atribuindo as culpas a Cuba e justificando assim uma possível invasão do país caribenho; estes documentos foram tornados públicos em mil novecentos e noventa e sete. A par disto, já no final dos anos sessenta, a CIA criou o programa Jazz Ambassadors, com o qual se prertendia, através da música, melhorar a percepção internacional dos Estados Unidos da América, à época especialmente negativa. Em plena Guerra Fria, organizaram-se diversos concertos do outro lado da Cortina de Ferro, com vários elementos do jazz, incluindo Satchmo (Louis Armstrong), Benny Goodman, Dizzy Gillespie e Duke Ellington, entre outros. Os músicos negros eram os eleitos para mostrar ao mundo que, afinal, os Americanos não eram racistas. Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.

 

Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. E não tem sequer de ser música de qualidade para o conseguir. Uma pintura de Van Gogh não nos põe a dançar, mas uma canção, por pior que seja, é bem capaz de o fazer. O programa americano pode ter falhado - o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num  baile em vez da explosão  de uma bomba de hidrogénio. "

 

INÍCIO DO NOVO LIVRO DE AFONSO CRUZ  «NEM TODAS AS BALEIAS VOAM» EDIÇÃO COMPANHIA DAS LETRAS PORTUGAL, NOVEMBRO DE 2016

 

 

 

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publicado às 18:12


#1979 - Vive o Dia de Hoje!

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.04.16

Vergílio Ferreira

 

Vive o Dia de Hoje!

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora. Lê os jornais. O futuro é o embrulho que fizeres com eles ou o papel urgente da retrete quando não houver outro.

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

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publicado às 19:00


# 1938 - David Machado vence prémio de literatura da União Europeia

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.04.15

David Machado vence prémio de literatura da União Europeia

 

O autor português está entre os doze vencedores do Prémio de Literatura da União Europeia, destinado a escritores em início de carreira e que antes distinguiu Dulce Maria Cardoso e Afonso Cruz.

David Machado viu-se galardoado com o Prémio de Literatura da União Europeia (UE) de 2015 com a obra Índice Médio de Felicidade (Dom Quixote, 2013). O escritor português é um dos doze vencedores cujos nomes e nacionalidades foram hoje revelados na Feira do Livro de Londres por Tibor Navracsics, Comissário Europeu para a Educação, a Cultura, a Juventude e o Desporto.

 

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publicado às 18:28


#1916 - Poema na tabacaria

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.03.15

discurso sobre a cidade.jpg

 

Pois, senhores, falo-vos hoje da Maria de Lourdes, empregada de tabacaria e poeta. Tem vinte anos, olhos negros e tristes, vive num quarto sem janela e é orfã de pai e mãe. Não me perguntem como foi que adivinhei o segredo escondido: acreditem, apenas.

 

Há no mundo muita coisa inexplicada: guerras, fortuna, jogo, jeito para o negócio, navios da carreira de África. Matéria-prima para sonhos passados aos direitos. Aventura. Milagre.

A Maria de Lourdes tem vinte anos. (E isso que importa?). A Maria de Lourdes é poeta. (Melhor fora que tivesse voz e cantasse em programas radiofónicos). A Maria de Lourdes é triste. A Maria de Lourdes é feliz. (Será?).

 

Todos os dias, chega um navio ao porto. (É o teu, Maria?). Todos os dias se embarca para a América.(E tu, Maria, e tu, Maria?). Todos os dias se vendem maços de tabaco, bilhetes de cinema, consciências. (Cautela, Maria; cautela, Maria...):

 

Bom dia, Maria. Boa noite, Maria. Boa tarde, Maria, triste e feliz, que fazes versos a pedir desculpa. E se o milagre acontecesse? Olha o Menino, a descer pela corda frágil de um raiozinho de lua!

 

Beija-lhe os pés, Maria. O céu é para todos.

 

Esta madrugada olhei a estrela-d'alva e lembrei-me de ti, Maria. De ti, rapariguinha triste, poeta, empregada de tabacaria. Há quem diga que a Terra é redonda. Mentira, Maria - ou pelo menos não o é, se não houver sentido para o amor iconsequente.

 

E o cansaço nos ombros, Maria? E  a saudade sem nome? E Paris, cada vez mais distante? E o teu vestido azul, primaveril? E os fantasmas com passaporte para as Ilhas, acções desvalorizadas, compromissos de emprego e de família?

 

Não há nada a fazer, minha filha. (D. Quixote casou com Dulcineia que era, ao que me dizem, um óptimo partido). Das nove às sete, com intervalo para almoço, escrever poemas na Praça da República: para quê, Maria, para quê?

 

Adeus, Maria

 

Crónica de Daniel Filipe in "Discurso sobre a cidade" editado pela Editorial Presença em Setembro de 1977.

 

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publicado às 15:29

 O Prémio Vergílio Ferreira 2015 foi atribuído à escritora Lídia Jorge. Este galardão incide sobre o conjunto da obra de um autor que se tenha distinguido nos domínios da ficção ou do ensaio.

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publicado às 18:47


#1899 - Alexandra Lucas Coelho vence Grande Prémio de Romance da APE

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.11.13

 

 

 

O romance E a Noite Roda de Alexandra Lucas Coelho (Tinta da China) é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) relativo a 2012. O prémio, que tem o valor de 15 mil euros e é co-promovido pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, foi atribuído por unanimidade.

 

José Correia Tavares, Ana Marques Gastão, Clara Rocha, Isabel Cristina Rodrigues, Luís Mourão e Manuel Gusmão compuseram o júri, que já se reunira por duas vezes antes de tomar uma decisão final, esta segunda-feira.

 

E a Noite Roda, história de amor entre uma jornalista catalã – Ana Blau, a narradora – e um jornalista belga, batia-se com mais cinco finalistas:O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, de Mário de Carvalho, Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz, A Rapariga Sem Carne, de Jaime Rocha, e O Banquete, de Patrícia Portela.


Jornal "Público on-line"

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publicado às 17:54


#1870 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.08.13

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publicado às 19:25

O escritor Gonçalo M. Tavares está entre os 25 nomeados para o Prémio de Melhor Livro Traduzido nos Estados Unidos na categoria de ficção, com a obra A Máquina de Joseph Walser , anunciou hoje a editora Caminho.

 

De acordo com a editora, a Three Percent, criada pela Universidade de Rochester, organizadora do galardão patrocinado pela Amazon, anunciou na terça-feira a lista de nomeados, entre os quais constam, além do autor português, Herta Müller, Clarice Lispector e Michel Houellebecq.

 

Gonçalo M. Tavares também está nomeado para o International IMPAC Dublin Literary Award 2013, pelo livro Aprender a rezar na era da Técnica.

Publicado nos Estados Unidos pela Dalkey Archive Press sob o título Joseph Walser’s Machine ( A Máquina de Joseph Walser), o livro foi traduzido por Rhett McNeil.

 

O Prémio de Melhor Livro Traduzido nos Estados Unidos é atribuído anualmente ao melhor livro traduzido para inglês e publicado nos Estados Unidos, tendo habitualmente em conta a qualidade da obra e a tradução.

 

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publicado às 15:58


#1790 - João Ricardo Pedro, numa perspectiva brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.12

Sentidos e azares da vida


 

Em sua estreia, o português João Ricardo Pedro faz um painel de memórias particulares e coletivas para (não) encontrar explicações

 

por Reginaldo Pujol Filho


 

“Uma coisa parecia certa”: assim começa Teu Rosto Será o Último, vencedor do Prêmio Leya 2011, que, além do valor monetário (100.000€, “quantia simpática”, segundo o autor) foi vitória pessoal do estreante português João Ricardo Pedro: há 2 anos, foi demitido e decidiu escrever a obra que em Portugal vendeu mais de 30 mil exemplares em 6 meses.

 

 

Pois o início, “Uma coisa parecia certa”, lembra que nada é mais incerto que uma coisa que parecia certa. E a pseudocerteza anuncia uma metáfora possível para as 207 páginas por ler: a busca do sentido de estar no mundo e para o que se passou. Achar algo que pareça certo, motivos sólidos para acordar de manhã ou para um pneu furado. Busca feita sobretudo na memória. Lembrar, filtrar, esquecer: dar ao passado o verniz da lógica. Pinçar da memória capítulos para narrar-se com algo que cheire a verossímil.

 

 

Todos fazem isso. João Ricardo o faz no livro que abre a coleção Novíssimos da Leya. Mas a memória onde pesca sentidos não é a sua. É da família do Dr. Augusto Machado e de Portugal dos anos 30 à beira do século 21.

 

 

Seguro e irônico (“pressentindo que isso de golpes era coisa para levar o seu tempo”, sobre a rural dona de casa pensando no almoço para os homens que debatem política no 25 de abril de 1974), em vez de narrar três gerações da família do Dr. Augusto, o autor pendura memórias quase aleatórias, retratos de personagens em diversas épocas que, ao se revelarem, revelam brechas entre si num texto sem medo de lacunas. Fendas para o leitor embutir sentidos ou intrigar-se com o pai obrigando os filhos a comer o próprio gato ou com uma misteriosa carta pela metade.

 

 

Entre incertezas e figuras errantes em busca do sentido que não há ‒ o jovem Dr. Augusto que parte, sem mais, para o interior; Celestino, forasteiro que ele acolhe; o filho do Doutor que vai e vem de guerras coloniais mesmo após o fim delas; e o neto Duarte perdido entre partituras ‒, duas coisas são certas: a meio do livro, metáfora sem-querer-querendo do sem sentido, ou como se o narrador fosse errante também, a narração do livro perde rumo. A prosa segura enche-se de maneirismos. Enciclopedismo e listagens se acumulam e tipos curiosos (oboísta sem uma orelha, argentino dado a calças justas e anéis, pintora misteriosa...) brotam e somem como se o autor quisesse exibir todas suas ideias.

 

Não que haja recurso certo e errado. É que as firulas não deram efeito estético, nem simbólico, nem estranhamento ao todo. Mas cabe lembrar: é o primeiro livro dele. Só que o belo início subiu o próprio sarrafo. Fez esquecer que é sim estreia e, como tal, sujeita à gana juvenil (mesmo aos 39 anos) de provar numa só vez tudo o que sabe fazer, garoto com 15 minutos para furar a peneira do time de futebol. Em paralelo, a trama de nós soltos se desfaz. O livro foca em cenas de Duarte, com Portugal de fundo. Mas mantém o tom memória-seletiva de quem elege fatos para se narrar e ver sentido nos próprios gestos.

 

 

No caso de Duarte, de outros personagens ou de Portugal, ao fim, parece que o único sentido possível é dado pelo simplório Celestino. O sujeito estropiado que chega à vila e, indagado sobre seu estado, diz: “azares da vida”.


Revista Bravo

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publicado às 23:38


#1773 - PRÉMIO REVELAÇÃO AGUSTINA-BESSA LUÍS 2012

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.12


O júri do prémio literário revelação Agustina Bessa-Luís, presidido por Vasco Graça Moura, distinguiu a estreante Marlene Correia Ferraz e o seu romance A Vida Inútil de José Homem, que será agora editado pela Gradiva.

 

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publicado às 12:23

 

O livro “Como se desenha uma casa”, do escritor Manuel António Pina, recentemente falecido, é o vencedor da 8ª edição do Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, organizado pelo Município de Amarante.

A obra, editada pela Assírio & Alvim, foi escolhida de entre os 166 livros, de cento e cinquenta e nove autores, apresentados a concurso, tendo o júri sido constituído pelos escritores Abel Barros Batista, António José Queiroz, João Paulo Sousa, Joana Matos Frias e Luís Adriano Carlos.

Com entrega marcada para 15 de dezembro, no auditório da Biblioteca Municipal Albano Sardoeira, o Prémio Teixeira de Pascoaes, de periodicidade bienal, foi instituído em 1997, aquando do 120º aniversário do nascimento do poeta.


Ler o resto aqui

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publicado às 19:27


#1770 - À atenção da senhora Isabel Jonet

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.11.12

OS POBREZINHOS



Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre  pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e comida.


Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços para poderem ser calçados pelos donos, de preferência rotos para poderem vestir camisas velhas que se salvavam desse modo de um destino natural de esfregões, de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina) deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder ofendido e soberbo a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria


- Eu não sou o seu pobre eu sou o pobre da menina Teresinha.


O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era esta gente. No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes e deslocavam-se piedosamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à estrada militar, a fim de distribuírem numa pompa de reis magos peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas alvoraçados e gratos e as minhas tias preveniam-me logo enxotando-os com as costas da mão


- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.


Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer moedas aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto


( - Esta gente coitada não tem a noção do dinheiro)


de forma deletéria e irresponsável. O pobre da minha tia Carlota, por exemplo,foi proibido de entrar em casa dos meus avós porque quando ela lhe meteu dez tostões na palma, recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico


- Agora veja lá não gaste tudo em vinho


o atrevido lhe respondeu malcriadissimo


- Não minha senhora vou comprar um Alfa-Romeo.


Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros


- O que é que o menino quer esta gente é assim


e eu entendi que ser pobre, mais que um destino, era uma espécie de vocação como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.


Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o Padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O Padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e a partir da altura em que me revelaram esse milagre tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse


- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar


e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.


Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado Almanaque da Sãozinha, se narravam em comunhão de bens os milagres de ambos, que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos de incenso.


Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me.


E creio que foi por essa época que principiei a olhar com afecto crescente uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.



Crónica de António Lobo Antunes in "Livro de Crónicas", editado por Dom Quixote, 1998

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publicado às 00:37


#1765 - Novo romance de António Lobo Antunes

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.12

 

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publicado às 18:55


#1746 - Prémio da União Europeia de Literatura 2012

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.10.12

 

Afonso Cruz está entre os doze escritores vencedores do Prémio da União Europeia de Literatura 2012 com o seu livro "A Boneca de Kokoschka" (Quetzal). O prémio, no valor de 5 mil euros, permite que os vencedores tenham prioridade de acesso a um programa da União Europeia, para que o seu livro seja traduzido em várias línguas.

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publicado às 18:43


#1733 - Novo livro de Mário de Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.12

 

Mário de Carvalho afirmava há poucas semanas que o seu novo livro estava pronto e tinha como título O Varandim Seguido de Ocaso em Carvangel. Sabe-se agora que será lançado pela Porto Editora a 6 de setembro, que inicia assim a publicação da obra completa do escritor.

 

In "Bibliotecário de Babel"

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publicado às 18:59

 

'Tempo Contado', o livro de J. Rentes de Carvalho, é o vencedor do Grande Prémio de Literatura Biográfica 2010/2011 atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

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publicado às 23:30


#1657 - O primeiro livro infantil de José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.04.12

 

O protagonista do primeiro livro infantil de José Luís Peixoto é filho da chuva. Com uma mãe tão original, tão necessária a todos, tem de aprender a partilhar com o mundo aquilo que lhe é mais importante: o amor materno. Através de uma ternura invulgar, de poesia e de uma simplicidade desarmante, este livro homenageia e exalta uma das forças mais poderosas da natureza: o amor incondicional das mães.

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publicado às 18:20


#1654 - José Rentes de Carvalho regressa com "O Rebate"

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.04.12

 

Chama-se O Rebate, foi escrito por José Rentes de Carvalho em 1971 e chega às livrarias no dia 13 pela mão da Quetzal. A chancela que tem vindo a reeditar toda a obra deste autor.

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publicado às 11:44


#1653 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.03.12

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publicado às 12:20


#1639 - O coala

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.12

 

O COALA

 

«O coala é levado às cavalitas pela mãe» e isso parece excelente também aqui nas ruas do México, em que as mães levam os filhos às cavalitas e também ne europa os meninos vão às cavalitas e também nas inundações e por vezes nos incêndios e por vezes nos terramotos, é bom sempre este dorso de cavalo que a mãe tem e que permite que os meninos subam às suas cavalitas e pensem que é uma brincadeira o que afinal é desespero.

 

Texto de Gonçalo M. Tavares in «Canções Mexicanas»

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publicado às 22:11


#1619 - Correspondências > Camilo Castelo Branco

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.02.12

 

Ill.mo e Ex.mo Sr.

Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho.

Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.

Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.

Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex.a. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.

Poderá V. Ex.a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.

Mas poderá V. Ex.a dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?

Digne-se V. Ex.a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece.

Camilo Castelo Branco

(Última carta de Camilo Castelo Branco ao Dr. Edmundo de Magalhães Machado, seu médico oftalmologista)

 

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publicado às 23:04


#1555 - Novo livro de Gonçalo M. Tavares

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.12.11

 

'Canções Mexicanas' é o mais recente livro de Gonçalo M. Tavares. Editado pela Relógio D'Água, o livro regista a passagem do escritor pela Cidade do México há quatro anos.

 

A obra é uma ficção fragmentária sobre um homem inquieto que mergulha numa cidade que "não tem rios de água mas sim de gente", onde as crianças mandam e os adultos obedecem, onde as casas e as ruas perdem as fronteiras.

A editorial Caminho editou, também este mês, outro livro de Tavares. Chama-se 'Short Movies' e representa uma tentativa de fazer um filme a partir de fragmentos de texto que aspiram chegar à máxima visualidade possível.

 

Ler as primeiras páginas deste livro aqui.

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publicado às 18:02


#1545 - 'Puta Que os Pariu', a biografia do iconoclasta Luíz Pacheco

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.12.11

 

João Pedro George e a Tinta da China lançaram a primeira biografia do escritor, editor e panfletário Luíz Pacheco. Chama-se ' Puta que os Pariu' e pretende fazer um retrato do homem para além dos mitos que foram construídos em seu redor.

 

Como explicou ao DN, o autor do livro, " a obra é o espelho de uma geração através da história ímpar de Pacheco". Ao longo de 600 páginas são ouvidas muitas fontes (entre elas o próprio Luíz Pacheco), desde amigos a inimigos, filhos e amantes.

 

São ainda recolhidos excertos dos diários, livros, panfletos e artigos de jornal escritos pelo homem que escreveu "A Comunidade" e deu a conhecer Herberto Helder.

 

In

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publicado às 12:03

 

O romance “Trás-os-Montes”, de Tiago Manuel Ribeiro Patrício, venceu por unanimidade o Prémio Revelação Agustina-Bessa Luís, no valor de 25 mil euros, disse hoje à Lusa fonte da Estoril Sol que institui o galardão.

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publicado às 21:10


# 1450 - O Filho de Mil Homens

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.09.11

valter hugo mãe

 

Foi lançado sexta-feira, 23de Setembro de 2011, o novo romance de Valter Hugo Mãe "O filho de mil homens"

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publicado às 19:49


O escritor Gonçalo M. Tavares foi distinguido com o Prémio Literário dos Jovens Europeus, com o livro “O Senhor Kraus”, um dos habitantes do Bairro que criou e continua a povoar.

 

In

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publicado às 20:51


#1365 - Poesia, saudade da prosa - novo livro de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.05.11


Um novo livro de Manuel António Pina, uma antologia poética feita pelo próprio autor, vai ser lançada nas próximas semanas.

 

 

 
 
Novo livro de Manuel António Pina publicado nas próximas semanas
 
 

"É uma selecção que ele fez sobre os poemas de sua autoria que considera mais marcantes. São apenas 80 páginas mas permitem um olhar bastante profundo sobre o seu universo poético", revelou ao JN Manuel Rosa, editor da Assírio & Alvim

Intitulado "Poesia, saudade da prosa", o título vai ser apresentado durante a Feira do Livro do Porto, em data ainda a anunciar.

A Assírio & Alvim prevê publicar ainda nos próximos meses um novo livro de poesia de Manuel António Pina, o primeiro nos últimos oito anos. "Pelas indicações que tenho, encontra-se mesmo a ultimá-lo", adiantou o editor.

 

In "JN"

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publicado às 16:50


#1364 - Manuel António Pina ganha prémio Camões

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.11

 

O escritor português Manuel António Pina ganhou o Prémio Camões, o maior prémio literário de língua portuguesa. A decisão foi consensual e unânime numa reunião que durou menos de meia hora, disseram os membros do júri no final da reunião na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Manuel António Pina (Sabugal, 18 de Novembro de 1943) é um jornalista e escritor português.

O autor licenciou-se em Direito em Coimbra e foi jornalista do Jornal de Notícias durante três décadas. É actualmente cronista do Jornal de Notícias e da revista Notícias Magazine.

A sua obra é principalmente constituída por poesia e literatura infanto-juvenil. É ainda autor de peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e TV e editadas em disco.

Está traduzido em França (francês e corso), EUA, Espanha (espanhol, galego e catalão); Dinamarca, Alemanha, Holanda, Rússia, Croácia e Bulgária.

 

Prémios

(1978)Prémio de Poesia da Casa da Imprensa (“Aquele que quer morrer”); (1987)Prémio Gulbenkian 1986/1987 (“O Inventão”); (1988)Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, Itália (“O Inventão); (1988)Prémio do Centro Português para o Teatro para a Infância e Juventude (CPTIJ) (conjunto da obra infanto-juvenil); (1993)Prémio Nacional de Crónica Press Club/ Clube de Jornalistas; (2002)Prémio da Crítica, da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários” ("Atropelamento e fuga"); (2004)Prémio de Crónica 2004 da Casa da Imprensa (crónicas publicadas na imprensa em 2004).

2004 - Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2003 (Os livros).

2005 - Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT (Os Livros)

2011 - Prémio Camões

 

 Bibliografia

1973 - "O país das pessoas de pernas para o ar" (lit. infanto-juvenil)

1974 - "Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo, calma é apenas um pouco tarde" (poesia)

1974 - "Gigões & anantes" (lit. infanto-juvenil)

1976 - "O têpluquê" (lit. infanto-juvenil)

1978 - Aquele que quer morrer (poesia)

1981 - "A lâmpada do quarto? A criança?" (poesia)

1983 - "O pássaro da cabeça" (poesia)

1983 - "Os dois ladrões" (teatro)

1984 - "Nenhum sítio" (poesia)

1984 - "História com reis, rainhas, bobos, bombeiros e galinhas" (lit. infanto-juvenil)

1985 - A guerra do tabuleiro de xadrez(lit. infanto-juvenil)

1986 - Os piratas(ficção)

1989 - "O caminho de casa" (poesia)

1987 - "O inventão" (teatro)

1991 - Um sítio onde pousar a cabeça (poesia)

1992 - "Algo parecido com isto, da mesma substância" (poesia)

1993 - "Farewell happy fields" (poesia)

1993 - "O tesouro" (lit. infanto-juvenil)

1994 - "Cuidados intensivos" (poesia)

1994 - "O anacronista" (crónica)

1995 - O meu rio é de ouro /Mi rio es de oro (lit. infanto-juvenil)

1998 - "Aquilo que os olhos vêem, ou O Adamastor" (teatro)

1999 - Nenhuma palavra, nenhuma lembrança (poesia)

1999 - "Histórias que me contaste tu" (lit. infanto-juvenil)

2001 - "Atropelamento e fuga" (poesia)

2001 - "A noite" (teatro)

2001 - "Pequeno livro de desmatemática" (lit. infanto juvenil)

2002 - "Poesia reunida" (poesia)

2002 - "Perguntem aos vossos gatos e aos vossos câes" (teatro)

2002 - "Porto, modo de dizer" (crónica)

2003 - Os livros (poesia)

2003 - "Os papéis de K." (ficção)

2004 - "O cavalinho de pau do Menino Jesus" (lit. infanto-juvenil)

2005 - "Queres Bordalo?" (ficção)

2005 - "História do Capuchinho Vermelho contada a crianças e nem por isso por Manuel António Pina segundo desenhos de Paula Rego" (lit. infanto-juvenil)

2007 - "Dito em voz alta" (entrevistas)

2008 - "Gatos" (poesia)

2009 - "História do sábio fechado na sua biblioteca" (teatro)

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publicado às 22:20


#1333 - Outubro, o mês de Gonçalo M. Tavares

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.09.10

A segunda quinzena de Outubro traz dois novos livros de Gonçalo M. Tavares: Uma Viagem à Índia (Caminho) e Matteo Perdeu o Emprego (Porto Editora).


In "LER"

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publicado às 22:34


#1330 - Prémio Fernando Namora para Luísa Costa Gomes

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.09.10

 

O romance “Ilusão (ou o que quiserem)”, de Luísa Costa Gomes, é o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol, pela inovação e ágil registo estilístico, como assinalou em acta o júri.

 

A obra editada em Novembro do ano passado marcou o regresso da escritora ao romance, dez anos depois de “Educação para a tristeza”. “Ao galardão, com o valor pecuniário de 25 mil euros, concorreram meia centena de obras, todas editadas em 2009, tendo a escolha de “Ilusão (ou o que quiserem)” sido unânime, disse à Lusa a mesma fonte.

O júri considerou a obra “manifestamente inovadora, quer pela sua excelente construção, quer pelo seu ágil registo estilístico de constante ironia, quer pela análise penetrante de alguns comportamentos tipo da actual sociedade portuguesa, muito em especial no tocante a métodos pedagógicos aplicados nas escolas e à animação cultural na província, bem como à densidade da narrativa”.

Quando do seu lançamento em Novembro passado, a escritora afirmou à Lusa: “Este meu novo romance é a ilusão do realismo, em que a expressão ‘ou o que quiserem’ é uma alusão a uma peça de William Shakespeare”. A escritora de 56 anos referia-se à peça “As you like it” (“Como quiserem”), que é “uma reflexão sobre o género comédia que é difícil de homogeneizar”, explicou. A autora acrescentou que “há no romance várias referências” ao dramaturgo inglês.

Constituíram o júri o escritor Vasco Graça Moura, Guilherme d’Oliveira Martins em representação do Centro Nacional de Cultura, José Manuel Mendes pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Loureiro pela direção geral do Livro e das Bibliotecas, Manuel Frias Martins pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual, e Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, em representação da Estoril Sol.

Luísa Costa Gomes nasceu em Lisboa, licenciou-se em Filosofia e foi professora do ensino secundário, actividade que abandonou para se dedicar à escrita e à realização de Oficinas da Escrita em diversas escolas.

 

in Jornal

 

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publicado às 15:54

 

A obra de António Lobo Antunes será o tema de um programa de mais 50 espectáculos em Paris entre Janeiro e Junho de 2011, afirmou hoje, quinta-feira, a editora francesa do autor português.

"É a maior homenagem de sempre feita em França a um escritor português vivo", declarou à Lusa a editora francesa de António Lobo Antunes, Dominique Bourgois.

Os actores portugueses Luís Miguel Cintra e Maria de Medeiros fazem parte do elenco de nomes envolvidos no projecto para o MC93, uma instituição teatral internacional em Bobigny, no Norte de Paris, onde encenadores como Bob Wilson e Peter Sellars realizaram dezenas de espectáculos.

Com arranque marcado para 17 de Janeiro de 2011, trata-se de "uma aventura literária no teatro", resumiu Dominique Bourgois, sobre o programa de adaptações dramatúrgicas e leituras em torno dos 25 livros de António Lobo Antunes traduzidos em França, quase todos na Christian Bourgois.

Dominique Bourgois explicou que a ideia partiu do actor e encenador Patrick Pineau, principal responsável de um projecto que, frisou a editora francesa, "juntou muitos outros nomes franceses, portugueses e de outros países europeus, muitas vezes espontaneamente".

O programa dedicado à obra de António Lobo Antunes, que será apresentado oficialmente no próximo sábado em Bobigny, inclui "alguns dos melhores actores franceses" e envolve também o escritor Olivier Rolin, o dramaturgo e músico David Lescot e o autor, tradutor e encenador  Michel Deutsch.

Entre os músicos envolvidos estão Ami Flammer, Hubertus Biermann e Lazare Boghossian.

Entre as várias iniciativas previstas do programa do MC93 está uma leitura colectiva pelo "grupo dos 200", na sala maior do teatro de Bobigny, de textos de António Lobo Antunes.

Além de mais de meia centena de espectáculos e leituras no MC93, o programa inclui uma vertente escolar com a possibilidade de estágios de jovens alunos.

Dominique Bourgois salientou que a grande homenagem a António Lobo Antunes confirma o autor português como objecto de um "culto" entre os leitores franceses.


In

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publicado às 20:36


#1299 - Manuel António Pina homenageado na Feira do Livro

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.10

Nas crónicas como na poesia, abarca a desmesura do Mundo, como se procurasse "desimaginá-lo e descriá-lo".

Manuel António Pina - cujas crónicas no JN, "Notícias Magazine" e "Visão" foram parcialmente reunidas no livro "Por outras palavras", que foi apresentado ontem, na Invicta - vai ser homenageado hoje, às 17.30 horas, na Feira do Livro do Porto, numa sessão em que intervêm Álvaro Magalhães, Sousa Dias e Luís Miguel Queirós.

É alvo de mais uma homenagem. Ainda reage com desconforto a estas manifestações de apreço?

Com desconforto e com gratidão. Também sou leitor, embora bissexto, da minha "obra" e, sem pretender representar a rábula da modéstia, sou lúcido q.b. em relação a ela para aceitar iniciativas do género sem cepticismo.

Mesmo já tendo afirmado que não pertence a lugar nenhum mas a muitos, reconhece que o Porto e a Beira Alta são lugares especiais da sua geografia de afectos?

É minha convicção de que somos sobretudo memória, memória de lugares, de gente e mais dispersas existências, de livros, filmes, sonhos, desejos, medos... O Porto e a Beira Alta são, na minha memória, um pouco de tudo isso.

Não publica poesia desde 2003. O cronista tem silenciado o poeta?

Não escrevo poesia como escrevo crónicas, profissionalmente. No caso da poesia, sou, antes, amador, isto é, aquele que ama. Só escrevo poesia quando não posso deixar de escrevê-la. Passar anos sem publicar poesia não significa que tenha deixado de escrever poesia. Tenho há muito um livro praticamente pronto, reunindo poemas dispersamente publicados aqui e ali, em jornais e revistas, e inéditos.

Continua a escrever regularmente, apesar da publicação irregular?

Escrevo como publico, irregularmente. Para regularidade, basto-me com as crónicas. O meu processo é esperar. Passo bem sem escrever poesia (sem ler poesia já é outro assunto). Quando começo a passar mal, o poema encarrega-se de se escrever a si mesmo em mim. O resto é trabalho, "transpiração", como António Ferreira dizia.

Acaba de ser lançada a antologia "Por outras palavras". Como foi esse confronto com as crónicas?

Na verdade, foi Sousa Dias quem as leu e escolheu umas 250. O autor dessas crónicas sou eu, mas o autor do livro é Sousa Dias. E também o editor José da Cruz Santos, que há anos insistia comigo. Foi a generosidade de ambos que venceu a minha inércia; e ambos sabem como a minha inércia é difícil de vencer. Sousa Dias diz-me constantemente que posso ter orgulho neste livro. Tenho orgulho é de o ter a ele e ao Cruz Santos como amigos.

Afirma que "as crónicas do jornal duram um dia e morrem". Não concorda que há escritos que resistem ao tempo?

Nada resiste ao tempo. Vista a coisa a suficiente distância, um dia depois, ou um século depois, tudo (crónicas, poemas, romances) acaba na mesma imensa campa rasa do esquecimento. Isto é, como diziam os velhos tipógrafos dos jornais, tudo serve, no dia seguinte, só para embrulhar peixe. Tenho consciência de que algumas crónicas (como alguns poemas) lutam desesperadamente, como nós próprios lutamos, contra o tempo. Sabendo que é uma luta perdida. Acho que há alguma grandeza nisso.

Numa crónica recente, escrevia que o jornalismo continua subserviente. O "respeitinho" é atávico?

Não é característica apenas lusitana, o "respeitinho". Há profissionais disso por todo o lado, no jornalismo como na vida. Também nisso não somos originais. A nossa única originalidade é apenas a convicção de que somos originais, que, como dizemos constantemente, "isto só em Portugal". Não, "isto", como o resto, não é só em Portugal, é em todo o lado.

No prefácio, o director do JN conta que, "se a sua crónica falha, chovem telefonemas e cartas de leitores". A "violência" que significa escrever sempre sobre a actualidade é compensada pelas manifestações de afecto?

Devo isso aos leitores do JN. E também esta antologia, que me foi sugerida por muitos deles. Sinto uma grande responsabilidade por isso, e faço todos os dias um esforço enorme para tentar não frustrar as expectativas desses leitores. Essa é também uma espécie de servidão, mas, às vezes, chego a achar que não há nada mais libertador do que uma boa servidão.

Lendo as suas crónicas, não se pode dizer que esteja surpreendido com o estado a que Portugal chegou. Viver num país destes é o sonho de um cronista e o pesadelo dum cidadão?

Diz-se que os povos felizes não têm história. Às vezes, a infelicidade de um povo é a felicidade dessa espécie de historiadores do presente que os cronistas (sobretudo aqueles que, como eu, praticam a crónica como género jornalístico e não literário) são.


in

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publicado às 21:09


#1297 - João Aguiar [28 Outubro 1943 - 3 Junho 2010]

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.10

 

 

João Aguiar nasceu em Moçambique  em 1943, faleceu em Lisboa em 3 de Junho 2010,  sendo licenciado em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas. No catálogo da ASA figuram os seus catorze romances (A Voz dos Deuses, O Homem Sem Nome, O Trono do Altíssimo, Os Comedores de Pérolas, A Hora de Sertório, A Encomendação das Almas, Navegador Solitário, Inês de Portugal, O Dragão de Fumo, A Catedral Verde, Diálogo das Compensadas, Uma Deusa na Bruma, O Sétimo Herói e O Jardim das Delícias) e um livro de contos (O Canto dos Fantasmas), além da série juvenil O Bando dos Quatro.
Parte da sua obra está traduzida em Espanha, Itália, Alemanha e Bulgária.

 

Bibliografia ASA

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publicado às 20:13

 

Poemas inéditos de Branquinho da Fonseca foram editados, pela primeira vez, através da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Os poemas, que integrariam o livro "Vento de Longe", surgem no primeiro volume das obras completas do escritor, que reúne também textos dispersos.

 

In Jornal

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publicado às 22:36


#1267 - Lançamento de ‘Mulher ao Mar’

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.04.10

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Finalmente, eis o muito aguardado primeiro livro de poemas de Margarida Vale de Gato: Mulher ao Mar (Mariposa Azual). A autora, sobretudo conhecida pelos seus excelentes trabalhos de tradução a partir do inglês, vai celebrá-lo, ao livro, com um «Baile da Revolução» na noite do dia 25 de Abril, o que me parece mais do que adequado.
Pela minha parte, depois de ouvir Hélia Correia, tenciono dançar ao som de Bella Ciao & etc.

 

In "Bibliotecário de Babel"

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publicado às 22:21


#1257 - A Arte de Morrer Longe nas livrarias a 21 de Abril

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.04.10

«Descortina o leitor um tipo de português largo e inflado, ovante e intrusivo, propenso à calvície, com sobrancelhas de escovilhão, riso beiçudo, pelame encaracolado em todo o corpo, amador da piadola e da pirraça, grosseiro para os mais fracos, airoso para os superiores, em absoluto impenetrável a noções básicas de decência e decoro? Uma figura digna das Metamorfoses, em que se hibridam o entranhado lanzudo e o atávico malandrim? Não descortina? Então é porque este Quintão Malpique era uma raridade e convém, na passagem, examiná-lo mais de perto como espécime singular.
Se lhe perguntassem por que é que ele se tinha queixado à polícia, por carta anónima, duma velha dependurava os cobertores nas traseiras do prédio, sem que isso afectasse ninguém, e muito menos os empregados duma empresa que não moravam ali, ele responderia, rindo: «É só p`ra chatear.» Do mesmo modo, quando telefonava para a Câmara, disfarçando a voz , a denunciar um vizinho que fazia obras clandestinas numa casa de banho, era «só p`ra chatear». Também era «só p`ra chatear» o gesto de deixar o elevador encravado no nono andar para que um casal de idosos , com o seu velho cão, tivesse de se arrastar pelas escadas.
Comprazia-se, naturalmente, com a incomodidade dos outros. Uma acção que tivesse como motivação «chatear» parecia-lhe absolutamente justificada, desde que não fosse ele o chateado. Uma representação popular – aliás falsa e caluniosa – que atribui o incêndio de Roma a Tibério Nero Enobarbo, para depois celebrar a catástrofe, a toque de cítara, poderá não andar longe do feitio de Quintão Malpique, descontando o pendor artístico.
Desde que descobrira a Internet, aliás tardiamente, tinha sido um alvoroço. Aplicava boa parte das horas de serviço a escrever comentários anónimos nos blogues alheios e nas páginas que os admitissem. Apreciava especialmente os jornais e as suas colunas de posts.
Eis uma amostra de uma contribuição de Quintão Malpique para o debate nacional, que pode ser encontrada facilmente na imprensa electrónica, a propósito da questão, hoje esquecida, dos apoios ao cinema português:
Esses senhores o que querem é repimpar-se!!! É só mama!!! Banquetes de lagosta, em Nice e em Cannes, aproveitando os favores do Estado e o dinheiro dos contribuintes. Isto é tudo sempre no poleiro, a chuchar no orçamento, à custa do Zé Povinho, e a gastar os nossos ricos carcanhóis com filmalhadas que ninguém percebe nem ninguém vê. Topam? Deviam era mandá-los todos cavar batatas e elas coser meias, a ver se ganhavam calos nas mãos e eram úteis ao povo que é quem mais ordena. Tá? Ao menos o doutor Salazar tinha critério e dava ao povo aquilo que o povo queria.»

 

Leia as primeiras páginas dos novo romance de Mário de Carvalho na edição de Abril da LER, já nas bancas!

 

In Blog "LER"

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publicado às 22:34


Novo romance histórico de Isabel Stilwell

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.03.10

Dona Amélia, a última Rainha portuguesa, foi uma mulher determinada e com capacidade de ultrapassar as dificuldades, disse Isabel Stilwell, autora do romance histórico “D. Amélia”.

 

A jornalista e escritora disse que “os romances históricos são um meio de trazer o passado até ao presente” e defendeu que podem servir como manuais de História. “Tudo o que sei da História de Inglaterra foi através dos romances históricos que li”, asseverou.

“É importante conhecer o passado para perceber o presente e o futuro, e a História não pode cristalizar nos manuais escolares”, defendeu a escritora, para quem a História é muitas vezes leccionada de acordo com certas ideologias de regime. “Para nos aproximarmos das personagens históricas e para percebermos as épocas, precisamos de recriar com o máximo de emoção e diversidade e com uma grelha histórica rigorosíssima por detrás, como é o meu caso. Senão não conseguimos trazer o passado ao presente”, defendeu.

A narrativa do livro “D. Amélia. A rainha exilada que deixou o coração em Portugal”, editado pela Esfera dos Livros, começa em 1871, quando a família Orleães atravessa o canal da Mancha para voltar a França, pondo fim ao exílio que foi decretado à Família Real pela República Francesa; Maria Amélia Luísa Helena de Orleães contava cinco anos. Ao longo da narrativa são transcritas várias cartas de e para a Rainha, entre elas, uma que Dona Amélia envia de Biarritz ao filho D. Manuel a propósito do seu casamento com Luísa de Battenberg, que a autora julga ser até agora desconhecida.

Se o canal da Mancha é o primeiro cenário, ao longo do livro de 542 páginas há vários cenários desde o Castelo de Eu na Normandia a Paris, onde se celebra uma pomposa festa de noivado sem D. Carlos, o Palácio de Belém ou o das Necessidades, até ao Castelo Bellevue (próximo de Paris). A ideia, disse Isabel Stilwell, foi conseguir “uma imagem próxima e real da Rainha, equidistante do que escreveu a História pró Monarquia ou a História pró República.

Amélia teve “uma educação rigorosa, com algumas chapadas da mãe, Maria Isabel de Orleães, com um sentido de dever e de missão, mas calorosa, num ambiente afável, em que se percebe que há uma relação calorosa e de clã”. Para a autora, aquela que foi a última Rainha de Portugal, pelo casamento com D. Carlos, “com o tempo tornou-se mais dura e com as defesas aguerridas porque passou por sofrimentos e era uma mulher determinada que teve a capacidade de superar os obstáculos e as tragédias”, entre estas a morte de dois irmãos ainda crianças e os assassinatos do marido e do filho em Fevereiro de 1908.

 

In Jornal Público

 

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publicado às 19:58


#1245 - SINAIS DE FOGO - A obra-prima indispensável

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.10


 


Numa iniciativa do Casino Figueira e da BABEL, realizar-se-á no sábado, 27 de Março, na cidade da Figueira da Foz, - cenário do romance “Sinais de Fogo” - uma homenagem a Jorge de Sena, uma das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX , nos trinta anos da publicação (póstuma) desta obra-prima da ficção nacional.


"Ler Sinais de Fogo – Homenagem a Jorge de Sena" é como se intitula esta iniciativa que, para além da conferência inaugural de Jorge Vaz de Carvalho, autor da primeira tese de doutoramento sobre a obra “Sinais de Fogo”, reunirá, em dois Debates, seis professores universitários de Portugal e Espanha.


António Manuel Ferreira (Univ. Aveiro) Fernando Cabral Martins (Univ. Nova), Jorge Fazenda Lourenço (Univ. Católica), José Carlos Seabra Pereira (Univ. Coimbra), Margarida Braga Neves (Univ. Lisboa) e José Luís Garcia Martín (Univ. Oviedo – Espanha) participam numa reflexão sobre um romance fundamental para a compreensão da criação poética em Jorge de Sena e da cultura portuguesa no contexto dos conflitos sociais e políticos que fizeram a história dos anos 30, na Península Ibérica, tendo como pano de fundo a Guerra Civil de Espanha.


Haverá também leituras de excertos do romance pelo actor Luís Lucas e será exibido o filme “Sinais de Fogo” realizado por Luís Filipe Rocha em 1995, apresentado por Eugénia Vasques, professora e crítica de teatro, e Jorge Leitão Ramos, crítico de cinema do jornal “Expresso”. Na galeria do Casino, o fotógrafo Alfredo Cunha inaugurará a exposição “Sinais de Fogo na Figueira”.

Este evento conta com o apoio da Fundação José Saramago e do Instituto Cervantes de Lisboa. Chama a atenção dos portugueses, para uma obra essencial da cultura contemporânea recomendada, de resto, para leitura autónoma pelo Plano Nacional de Leitura e integrada como obra de referência no âmbito do Programa de Língua Portuguesa do Ensino Secundário.


Retirado do blog "Babel"

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publicado às 22:50

Vítor Aguiar e Silva é o primeiro vencedor do Grande Prémio Ensaio Eduardo Prado Coelho da Associação Portuguesa de Escritores pelo seu livro “Jorge de Sena e Camões - Trinta Anos de Amor e Melancolia”. A deliberação do júri teve resultado unânime.

In "Público"

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publicado às 22:11


#1238 - Novo livro de Mário de Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.10



De acordo com a editora (Caminho),  A Arte de Morrer Longe — «história do jovem casal Arnaldo e Bárbara, lisboetas, empregados de escritório, moradores num pequeno apartamento no Lumiar e que se encontram em processo de divórcio — chegará às livrarias na segunda quinzena de Abril.

 

In Revista Ler

 

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publicado às 22:50


#1230 - Helena da Rocha Pereira recebe Prémio Vida Literária

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.03.10



A escritora Helena da Rocha Pereira foi distinguida com o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, foi hoje anunciado.


In "Público"

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publicado às 11:53

 

Maria Velho da Costa venceu o primeiro prémio da 7.ª edição do Prémio Literário Casino da Póvoa, anunciado hoje na abertura do Correntes d' Escritas, que decorre na Póvoa de Varzim. A escritora, cujo nome foi escolhido pela maioria do júri, foi distinguida pelo livro “Myra”.


In Público

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publicado às 12:29


#112 - Saramago lança livro onde “se mete com toda a gente"

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.02.10


 

Saramago lança livro onde “se mete com toda a gente” (COM VÍDEO)

O Nobel da Literatura José Saramago acaba de lançar um novo livro: ‘Caderno 2’, que resulta da compilação das suas crónicas escritas no blogue com o mesmo nome.

Depois do primeiro volume, esta continuação editada pela Caminho, com prefácio do escritor Umberto Eco, aglutina os escritos produzidos entre Setembro de 2008 e Novembro do ano passado.

No seu prefácio, Umberto Eco descreve Saramago como sendo alguém que “tem 87 anos e (diz eles) alguns achaques, ganhou o Nobel, distinção que lhe permitiria nunca mais produzir nada porque seja como for já tem no Panteão o seu lugar garantido”. Já sobre a base do blogue, o escritor de ‘O Nome da Rosa’ realça que no espaço online Saramago “se mete um pouco com toda a gente, atraindo sobre a sua pessoa polémicas e excomunhões vindas de muito lado”.

“Então volta à cena o Saramago filósofo-narrador, já não zangado mas meditativo e incerto. Contudo não nos desagrada mesmo quando se enfurece. É simpático”, acrescenta Eco. [In Correio da Manhã]

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publicado às 21:57


#1171 - Novo livro de Urbano Tavares Rodrigues

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.02.10



A novela Assim Se Esvai a Vida dá título ao novo livro de Urbano Tavares Rodrigues, que reúne três obras e é apresentado hoje, às 18.30, na Livraria Barata, em Lisboa. O livro, editado pela Dom Quixote e apresentado por Francisco José Viegas, inclui "O cornetim encarnado" e "Os olhos do demónio e outros contos".

 

In "DN"

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publicado às 12:37


#1167 - Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10

Rosa Lobato Faria morreu aos 77 anos

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publicado às 22:04


#1165 - Prémio Vergílio Ferreira

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.02.10



A Universidade de Évora decidiu distinguir, na 14ª edição do Prémio Vergílio Ferreira, a escritora Luísa Dacosta.

 

In Jornal Público

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publicado às 21:36


#1153 - Novo Livro de Valter Hugo Mãe

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10



a máquina de fazer espanhóis
Autor: valter hugo mãe
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-672-016-2
Ano de publicação: 2010

 

Em o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 2008), o anterior romance de valter hugo mãe, um ucraniano com nome de craque do Dínamo de Kiev (Andriy Shevshenko) explica a dada altura que «para abrir caminho na ferocidade de um país alheio» é preciso alcançar a «felicidade das máquinas». No novo livro do escritor de Vila do Conde, há uma extrapolação desta metáfora, se entendermos a ideia de máquina como uma entidade abstracta, composta por peças muitas vezes à mercê de uma lógica e de uma energia cinética que as ultrapassa.
A primeira máquina com que nos deparamos no livro é um lar de idosos, com o habitual nome eufemístico – Lar da Feliz Idade – e uma espécie de funcionamento para a morte. O número de residentes é fixo (93), as camas só vagam quando alguém morre, e por isso impera uma rotatividade que começa com a entrada para um dos melhores quartos (em frente ao jardim onde passam crianças) e termina na ala esquerda (com vista para o cemitério, em mórbida antecipação do fim).
É a este mundo opressivo que chega, ainda atropelado de dor pela morte da mulher (Laura), o protagonista do romance: António Silva, 84 anos, antigo barbeiro com problemas de consciência que nem o tempo foi capaz de sarar. Ele de início recusa a vida colectiva da casa, mas depois integra-se num grupo de homens palradores, quase todos partilhando o seu apelido, portugueses de gema que passam os dias a discutir justamente o que é isto de ser português, sobretudo quando todos levaram com quase meio século de fascismo em cima. Um fascismo que deixou a raiz podre dentro das cabeças, dentro dos «bons homens» que não mexeram um dedo contra Salazar, que aceitaram uma «cidadania de abstenção», por medo ou apego à família, e ainda hoje são habitados pelo fantasma do que não tiveram coragem de fazer; ou que cobardemente permitiram que se fizesse.
A segunda máquina, a que dá título ao livro, é então Portugal, esse eterno problema que temos connosco mesmos e que valter hugo mãe aborda com raro desassombro. Há ainda uma terceira máquina: a «máquina que tira a metafísica». Sem metafísica, os velhos deixam de ter algo a que se agarrar e resvalam de vez para a morte. Um tal engenho, entrevisto em delírios por alguns dos residentes, pode ser uma mera fantasia senil ou um inesperado objecto real, posto ao serviço de uma rentabilidade económica de contornos criminosos.
No seu projecto de huis clos, valter hugo mãe deparou-se com um problema. A tremenda intensidade dramática com que descreve o sofrimento das personagens (o colapso dos corpos, a solidão, a loucura, as arestas cruéis da memória) depressa se torna insustentável, demasiado violenta, irrespirável. Para escapar a isto, valter criou então pontos de fuga, mudanças de ritmo narrativo, jogos metaliterários (como o de incorporar à história Jaime Ramos e Isaltino de Jesus, agentes da PJ saídos dos livros de Francisco José Viegas, em dois capítulos que quebram a regra de só escrever com minúsculas). Acontece que estas soluções criam por sua vez novos problemas de equilíbrio e consistência narrativa, nalguns casos resolvidos de forma pouco satisfatória. O forte deste autor, diga-se, não é a estrutura. É o estilo. Como perceberá o leitor, ao deparar neste livro com algumas das páginas mais devastadoramente belas da ficção portuguesa recente.

Avaliação: 8/10

 

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

 

Este texto foi escrito por José Mário Silva e  retirado do seu Blog "O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL".

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publicado às 12:49


 

Nas livrarias desde a passada sexta-feira, "A máquina de fazer espanhóis" é o quarto romance de Valter Hugo Mãe. Antigo regime, terceira idade, provocação - de tudo se encontra num livro que o autor admite ser terapêutico, mas não piegas.

 

O pai morreu há dez anos, sem ter direito a essa idade que se chama terceira. Surge então o livro, que lhe é dedicado. "É feito para imaginar um espaço sensível, ou tempo sensível, que o meu pai não pôde viver", diz Valter Hugo Mãe, escritor e filho. Em "A máquina de fazer espanhóis" - título que aparenta ter nada a ver com nada -, o autor usa a voz de António Silva para incitar à dignificação.

Reformado de barbeiro, António Silva é um velho dos seus 84 "que começa talvez a maior aventura da vida no momento em que a esposa morre", conta, insistindo: "É um homem que tem de lidar com a revolta do efémero, com a revolta da perda, e de encontrar motivos para, naquela idade e debilitando-se cada vez mais, sobreviver".

Apesar de pouco sair à rua, a personagem central do livro carrega às costas o fardo de despertar consciências. E como? Diz à sociedade que "os velhos ainda são perigosos, neste sentido de que a opinião deles ainda tem de contar", explica o escritor. Mas há mais personagens, às quais Valter recorre para alcançar outro objectivo do novo romance, que é revelar "um certo testemunho que existe nas pessoas mais velhas em Portugal e que se prende com o facto de terem uma experiência directa do que foi o fascismo e do que foi o antigo regime".

É nesse apelo à memória que o livro identifica o que sobrou, ou pode ter sobrado, da ditadura. Eis a constatação do autor: "Que o enfraquecimento do nosso país durante o século XX - e sobretudo um enfraquecimento ao nível das consciências - nos leva a pensar que somos piores do que os outros e que estaríamos melhores se fôssemos espanhóis". Eis-nos, então, chegados ao título.

"Obviamente discordo com a manutenção dessa menorização. Temos a tendência para uma certa menorização que nos foi deixada por décadas de ditadura", critica. E, apesar de considerar que o povo português tem "valores humanos assinaláveis", não deixa de lhe apontar uma "tendência para desmobilizar". "Já passaram 30 e tal anos e a verdade é que nós continuamos, de alguma forma, à deriva", acrescenta.

Voltando à idade que é a terceira, Valter Hugo Mãe diz ainda que o livro é "uma tentativa de perceber que drama é esse de, a dada altura, estarmos a viver contra o corpo". Mas sem exageros. "O livro acaba por ser um pouco terapêutico, mas, sobretudo, não é piegas", garante. "O que pretende é incitar os cidadãos da terceira idade a uma participação maior, a uma exigência de uma dignificação", refere ainda.

A capa do livro resultou de uma feliz coincidência. É que a personagem central costumava namorar com a mulher atrás de cortinas. Depois de António Silva ter feito essa revelação na história, o autor encontrou na Internet uma fotografia muito semelhante, acabando por usá-la agora.

Valter deverá lançar dois livros infantis proximamente e, até ao fim do ano, é provável que publique um outro romance, já concluído há uns tempos. Será uma edição especial, ilustrada, espécie de oferta para quem costuma ler os seus escritos.


Notícia publicada no JN

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publicado às 22:01


#1141 - Encontro

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.01.10



ENCONTRO


Que vens contar-me

se não sei ouvir senão o silêncio?

Estou parado no mundo.

Só sei escutar de longe

antigamente ou lá prò futuro.

É bem certo que existo:

chegou-me a vez de escutar.


Que queres que te diga

se não sei nada e desaprendo?

A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:

que a ciência aprenda comigo

já que nõao soube ensinar.


O meu alimento é o silêncio do mundo

que fica no alto das montanhas

e não desce à cidade

e sobe às nuvens que andam à procura de forma

antes de desaparecer.


Para que queres que te apareça

se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo

e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.


Para que me lastimas

se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo

menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.


Levaram-me o orgulho todo

deixaram-me a memória envenenada

e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre

que dá para donde vim.


Poema de  José de Almeida Negreiros (1893-1970) dedicado a Carlos Queiroz e publicado no Suplemento Literário  Diário de Lisboa, em 25 de Novembro de 1937

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publicado às 21:42


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