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#2650 - Prémio Literário José Saramago

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.10.17

 

Julián Fuks, escritor brasileiro, vence Prémio Literário José Saramago atribuído pela Fundação Círculo de Leitores com o livro "A Resistência" editado pela Companhia das Letras

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publicado às 14:52


#2566 - Com olho de peixe

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

 

 

"Acredito no rio Amazonas desde que eu era menino. Meu pai foi quem primeiro me falou dele. Disse que sua largura era tamanha que o lado de lá não se via. Eu, acostumado a pescar lambaris em ribeirões e riachinhos, ouvia ele dizer que o rio maior que tinha visto, o Grande, perto do Amazonas não passava de um mijinho de menino. No Grupo decorei e recitei feito poesia os nomes dos afluentes dele: Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu. Aprendi também sobre a pororoca, briga que o rio perde sempre, porque o mar é maior do que ele. Assim é a vida: o mar tem sempre a última palavra... Mas o que me fascinava mais, mesmo, era a notícia de uma planta de folha tão grande que nela se podia deitar uma criança. Tudo era assombroso.

 

Acreditei sem nunca ter visto, só de ouvir dizer. Acreditei tanto que cheguei mesmo a viajar para lá para ver o rio. Quem vai é porque acreditou. E vi com estes olhos, e quando o quero rever releio o poema de Heládio Brito:

 

Eu vim de ver o rio

o frouxo ir das águas,

pesadas delas mesmas,

grossas das lonjuras vindas

no irem sendo rio.

Líquido boi cansado

carregado de peixes,

trabalha o rio

para os homens da margem,

que ao suado lombo lhe fustigam

com seus anzóis e redes...

 

Cheguei mesmo a navegar nas suas águas, se atravessar de balsa é navegar. Não, não é não. Quem navega com a cabeça fora d'água nada sabe. É preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. Mas, para isso, serai preciso que fôssemos como os peixes. O Guimarães Rosa amava tanto os rios que desejava, numa outra encarnação, nascer crocodilo. Nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. Os crocodilos os conhecem nas funduras. Nas funduras os rios são escuros e tranquilos como os sofrimentos dos homens. Essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranquilos.

 

Aí ele diz uma coisa inusitada: que o rio é palavra mágica para conjugar eternidade. Eu havia aprendido o contrário, que o rio é palavra para conjugar tempo. Pelo menos foi assim  que ouvi de Heráclito, o filósofo: "tudo flui, nada permanece, tudo é rio..."

 

Mas lendo as Escrituras Sagradas percebi que certo estava o João: "a eternidade mora no fundo das águas, no fundo do tempo". Quando Deus quis fazer artes mágicas com Jonas, jogou-o no mar, onde um peixe o aguardava de boca aberta, e por três dias ficou na fundura das águas, como feto na barriga da mãe, até que se transformasse em profeta. O que não é muito diferente das metamorfoses que fazem um poeta - portanto confirmado pela Cecília Meireles e pelo T.S. Eliot que afirmam que, para fazer poesia, é preciso ter olhos de peixe. Não é por acaso, portanto, que o ritual mágico para transformação do velho em criança, a que se dá o nome de "batismo", siga a metáfora do afogamento e do nascimento: o adulto é mergulhado, de corpo inteiro, nas águas de um rio: o velho que mergulha morre; a criatura que sai das águas é menino.

 

Não é por acaso, portanto, que o peixe seja, a um tempo, símbolo poético e símbolo profético: é que ele nada nas funduras do tempo, onde a eternidade gera os seus milagres.

 

Na superfície do rio é o tempo que flui, sem parar. Assim estava escrito nos carrilhões antigos, aqueles relojões enormes de pêndulos sem pressa: tempus fugit - o tempo passa, a vida vai se perdendo nas águas do nunca mais. Resta então a saudade sem remédio, caso tenha havido amor e alegria. A festança ao fim do tempo só se justifica se amor não houve, nem alegria. A perda da coisa amada não pode ser festejada. Só pode ser lamentada.

 

Mas pensando no que dizem os poetas e profetas, eu me descubro transformando o choro em riso: os que semeiam com lágrimas com alegria ceifarão, pois Deus é o rio mostrando as suas entranhas. No fundo, na eternidade, as águas correm ao contrário, disso sabem os peixes, que nadam contra a correnteza - a alma também; na superfície a gente nasce nenezinho, tempus fugit e a gente fica adulto, tempus fugit e a gente fica velho, tempus fugit e a gente morre. Nas funduras, onde mora a eternidade, é ao contrário. Primeiro é a velhice. Aí tempus fugit , a gente vira menino.

 

Deus começa sempre pelo fim. Nas Escrituras Sagradas o dia começa com a tarde e termina com a manhã. Está escrito no poema da Criação: "E foi a tarde e a manhã do primeiro dia..." O sol se põe, mais um dia se inicia. O fim é o lugar do começo.

 

Ao recitar as estações do ano a gente, automaticamente, diz: primavera, verão, outono, inverno. Mas lendo D. Miguel Unamuno percebi que isso não está certo. O tempo é uma roda. Se nas Escrituras o dia começa com a tarde, no ano as estações podem muito bem se iniciar com o inverno. Inverno, primavera, verão, outono... O inverno é a infância do ano. No seu silêncio profundo a primavera está em gestação... No silêncio do fim moram os começos. No silêncio da velhice mora a infância...

 

Tem gente que acredita em Deus com firmeza, do jeito mesmo como eu acreditava no rio Amazonas, por ouvir dizer - chegando a discorrer com autoridade, invocando teologia e dogma, feito o meu pai, que ensinava sem nunca ter ido ou visto. Não mergulha, por medo de se afogar. Agora eu acredito em Deus como crocodilo ou peixe, para me des-afogar... Eu preciso dele para o tempo andar ao contrário. E é assim que eu o imagino, como um pescador que vai lançando nas águas do tempo as redes da eternidade, para pescar tudo aquilo que foi amado e que se perdeu. Para nos devolver. É o "eterno retorno". É a "ressurreição dos mortos". É a primavera nascendo do inverno. É a criança nascendo do velho.

 

Isso eu desejo do ano novo, criança nascida do velho; que eu seja mais criança do que fui."

 

 VER BIOGRAFIA DE RUBEM ALVES »»»»

 

CRÓNICA DE RUBEM ALVES PUBLICADA NO LIVRO "SOBRE O TEMPO E A ETERNIDADE", EDIÇÃO DA PAPIRUS, SPECULUM, 1995, BRASIL.

 

 

 

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publicado às 10:57


#2361 - Morreu o escritor brasileiro Antonio Candido de Mello e Souza

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.17

ANTONIO CANDIDO DE MELLO E SOUZA (1918-2017)

 

Morreu António Candido de Mello e Souza aos 98 anos.

Escritor, crítico literário, sociólogo e professor universitário foi, também, um reputadíssimo estudioso da literatura brasileira e estrangeira.

Vulto maior da cultura brasileira, foi galardoado com o Prémio Camões em 1998.

 

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publicado às 22:29


#2345 - Tatiana Salem Levy

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.05.17

 

Enquanto pudermos escrever - e sobretudo ler - haverá sempre mundos

 

Tatiana Salem Levy nasceu em 1979. É escritora, tradutora e doutora em Letras pela PUC-Rio. O seu romance A Chave de Casa foi o vencedor do Prémio São Paulo de Literatura 2008, na categoria Melhor Livro de Autor Estreante, e finalista dos prémios Jabuti e Zaffari & Bourbon. Está publicado no Brasil, em Portugal, França, Espanha, Itália e Turquia. O segundo romance, Dois Rios (Tinta-da-china, 2012), foi finalista dos prémios PT e São Paulo de Literatura 2012. Publicou ainda dois livros infantis, Curupira Pirapora (Prémio FNLIJ) e Tanto Mar (Prémio ABL). Paraíso foi publicado no Brasil em 2014.

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publicado às 19:15


#2195 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.03.17

RADUAN NASSAR,MENINA A CAMINHO030.jpg

RADUAN NASSAR

 

HOJE DE MADRUGADA

 

"O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali no canto, me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la.  (...)"

 

Excerto do conto "Hoje de Madrugada" escrito por Raduan Nassar, que faz parte do livro de contos "Menina a Caminho", edição Companhia das Letras, Fevereiro de 2017

 

 

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publicado às 22:05


#2037 - Raduan Nassar galardoado com o Prémio Camões 2016

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.16

REDUAN NASSAR

 

Raduan Nassar Vence o Prémio Camões 2016

 

O Prémio Camões de 2016 foi atribuído ao escritor brasileiro Raduan Nassar. O anúncio foi feito no dia 30 de maio, às 19h00, em Lisboa, pelo Secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado e pelo júri da 28ª edição do concurso.

Descendente de libaneses, nasceu em Pindorama, Estado de São Paulo, em 1935. Estudou Direito e Letras na Universidade de São Paulo, apesar de ali ter concluído a sua formação académica em Filosofia. É autor de uma obra de intervenção, promovendo uma consciência política e social contra o autoritarismo.

Raduan Nassar estreou-se na literatura em 1975, com o romance Lavoura arcaica. Em 1978, foi publicada a novela Um copo de cólera, e em 1997  a coletânea de contos Menina a caminho.

Com apenas três livros publicados, é considerado pela crítica como um grande escritor e comparado a nomes consagrados da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, graças à extraordinária qualidade da sua linguagem e da força poética da sua prosa. Os seus livros tornaram-se conhecidos do público em geral com as versões cinematográficas de Um copo de cólera e Lavoura arcaica.

Com a obra traduzida em várias línguas, Raduan Nassar está publicado pela Penguin no Reino Unido, tendo feito parte, em 2016, da longlist do MAN Booker International Prize com a tradução de Um copo de cólera.

O júri foi constituído pela professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Paula Mourão, pelo escritor português Pedro Mexia, pela escritora e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Flora Sussekind, pelo escritor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais Sérgio Alcides do Amaral, pelo reitor da Universidade Politécnica de Maputo, Lourenço do Rosário, e pela professora da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade de Macau Inocência Mata, natural de S. Tomé e Príncipe.

O Prémio Camões foi instituído por Portugal e pelo Brasil, em 1988, e atribuído pela primeira vez em 1989, ao escritor Miguel Torga (1907-1995), autor, entre outras obras, de “Os bichos”, “Contos da montanha” e “Criação do mundo”.

Em 2015, o prémio foi atribuído à escritora portuguesa Hélia Correia e, em 2014, ao historiador e ensaísta brasileiro Alberto da Costa e Silva.

O moçambicano Mia Couto (2013), os brasileiros Dalton Trevisan (2012), Ferreira Gullar (2010) e João Ubaldo Ribeiro (2008), os portugueses Manuel António Pina (2011) e António Lobo Antunes (2007) e o cabo-verdiano Arménio Vieira (2009) são outros vencedores recentes.

Dos 27 distinguidos, apenas o angolano Luandino Vieira, de 79 anos, autor de “Luuanda”, atualmente a viver no Alto Minho, em Portugal, recusou o prémio.

João Cabral de Melo Neto (1990), Vergílio Ferreira (1992), Jorge Amado (1994), José Saramago (1995) e Eduardo Lourenço (1996) foram outros galardoados com o Prémio Camões.

Rachel Queiroz (1993), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Maria Velho da Costa (2002), Agustina Bessa-Luís (2004), Lygia Fagundes Telles (2005) e Hélia Correia são as seis mulheres distinguidas, até agora, com o Prémio Camões.

 

Notícia retirada do site «Camões, Instituto da Cooperação e da Língua

 

 

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publicado às 16:56


#1699 - Dalton Trevisan distinguido com o Prémio Camões

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.05.12

 

Dalton Trevisan foi distinguido com o Prémio Camões, no valor de cem mil euros, anunciou, esta segunda-feira, em Lisboa, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

A atribuição do Prémio ao autor de "O Vampiro de Curitiba" foi feita por unanimidade.

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publicado às 14:55


#1650 - A última entrevista de Guimarães Rosa

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.03.12
Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido


Arnaldo Saraiva

Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?

Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.

Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Ita­­bira de Drum­mond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de con­tar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses... 

Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Ham­­burgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.

Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?

Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto mui­to do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Gui­marães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.

Mas não chegou a conhecer Aquilino?

Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi al­guns livros dele, o empregado per­guntou-me se eu queria co­nhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.

Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os "notáveis escritores e poetas" que estavam a "encostar a pena contra a lava" que ia no Brasil "sepultando prosódia e morfologia da língua-mater"? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal...

Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.

Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.

Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, co­mo infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.

Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?

Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Por­tugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber­nardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” es­tão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me se­para dos portugueses.

Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Gui­marães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado ne­nhum livro de ca­valaria, nem ne­nhuma novela bu­cólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Gran­de Sertão: Veredas”...

Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber­nardim (Bernardim Ri­beiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca­milo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal...

... que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” - e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso - pelo campo da “invenção linguística?

Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um ca­derninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.

Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo:  “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Cor­po de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção...”.

 

 

Texto de , revista BULA

 

Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.

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publicado às 17:10


#1637 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.03.12

 

Rostos na Multidão é o primeiro romance da mexicana Valeria Luiselli editado em Portugal em 2012 pela Bertrand.

 

«Rostos na Multidão é uma história onde se encontram duas vozes: a da jovem editora, uma espécie de Emily Dickinson do século XXI, e a de Owen, um obscuro poeta mexicano que viveu em Harlem nos anos vinte. À medida que ela conta o seu intenso passado como editora em Nova Iorque, altura em que tentou desesperadamente convencer o diretor a publicar a obra de Owen, entretanto feito fantasma que a assombrava no metro, vai deixando transparecer a lenta mas inevitável desintegração da sua família no presente. Até que a sua história se desdobra na do próprio Owen, o poeta em tempos amigo de García Lorca e que termina os seus dias febrilmente num apartamento em Filadélfia. Um romance intimista, vertiginoso e original, onde a vida e o destino dos dois protagonistas se cruzam de forma inesperada e vão convergindo até um final surpreendente e inesquecível.»

 

 

 

«O assassinato de duas prostitutas, no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso sindicato do crime. A história passa-se em boîtes e bares sórdidos, em sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de casais fazendo sexo.» Do posfácio de Mario Vargas Llosa.»

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publicado às 23:01


#1472 - Prémio Portugal Telecom da Literatura 2011

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.11.11

 

Este romance de escritura primorosa narra um percurso. É o que se opera na consciência de Pedro durante uma viagem de ônibus para o bairro do Tirol, na periferia pobre da cidade onde mora — uma espécie de panela de pressão de violência e injustiça sistemática. É lá que mora Rosane, namorada de Pedro: faz algum tempo que ele passa os fins de semana com ela.

De radinho no ouvido, lendo a intervalos, observando o que se passa dentro do ônibus e fora nas ruas, Pedro, sem se dar conta, costura as ideias. Ao fim da viagem ele não será mais o mesmo: o que vê e pensa durante o trajeto, os fatos de sua vida, seus afetos, o mundo em que está imerso, tudo reunido terá formado um novo conhecimento, mais profundo e mais crítico, mas que nem por isso o deixará desprotegido numa sociedade em que parece não haver como fugir de um destino opressivo.

O passageiro do fim do dia não deixa dúvida sobre a importância de Rubens Figueiredo no cenário literário contemporâneo no Brasil.

 

 

 

 O livro "Passageiro do Fim do Dia" (Companhia das Letras), do carioca Rubens Figueiredo, 55, foi o grande vencedor da nona edição do Prêmio Portugal Telecom de Literatura, um dos principais da língua portuguesa.

 

Figueiredo, que também é tradutor de importantes autores russos como Turgenyev e Tolstói para o português, narra o trajeto de ônibus do centro a um bairro de periferia feito por Pedro em um fim de semana em que visita a namorada. Por "Passageiro do Fim do Dia" o autor recebeu o prêmio de R$ 100 mil (em agosto, a mesma obra foi vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura e ganhou R$ 200 mil).

 

A noção de viagem também está no segundo colocado, o português nascido em Angola Gonçalo M. Tavares, 40. "Uma Viagem à Índia" (Leya) aborda o "herói individualista" Bloom em uma estrutura narrativa que remete a "Os Lusíadas", de Camões. O prêmio da Portugal Telecom foi R$ 35 mil. O livro tem rendido vários prêmios ao autor, como o Fernando Namora/Estoril Sol 2011 (25 mil euros; cerca de R$ 60.400).

 

O terceiro lugar do Portugal Telecom foi para "Minha Guerra Alheia" (Editora Record), da jornalista e escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti, 74, que recebeu R$ 15 mil. O livro narra a infância da autora, que nasceu em Asmara, capital da Eritreia (África), quando tropas italianas invadiram a região. A família da escritora retornou então à Itália e, em seguida, com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi ao Brasil.

Em 2012, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura completa dez anos.

 

In

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publicado às 17:59


#1157 - BOA NOITE, SENHOR

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10

 

Ele me esperava à saída do baile. Parado na esquina, retocou as pontas da gravata borboleta. Ainda de longe, magrinho, idade incerta, sorria para mim.


- Boa noite.


-Boa noite, senhor.


Andando a meu lado, disse que me viu a dançar com a loira. Ele a achava linda, com sua boca pintada. Respondi que a odiava. Ele disse que sofreu muito com as mulheres - um puxão raivoso na gravatinha azul. Da própria mulher, casado e com filho, não queria saber.


Falava tanto e tão depressa, a voz pastosa de saliva. Acendi um cigarro - não é que os dedos tremiam? Perguntou se ele me provocara, mas não respondi. Compreendia muito bem, a mulher sem piedade enlouquece um pobre moço. Capaz de matar a loira de olho pérfido.


- Ainda bem não tenho olho verde!


Piscou um olho de cada vez. Eu não sabia nada do mundo, ele disse, a cada palavra a voz mais rouca. Intrigava gentilmente os plátanos, a loira, a maldita lua no céu. Uma baba de lesma no dente de ouro... Não falava da loira - e como se eu sobesse de quem. Perto da igreja o guincho aflito dos morcegos.


Ele perguntou a hora. Eu não tinha relógio. Parados na esquina, injuriou ainda mais a loira, que tinha boca pintada, promessa de delícias loucas, mas seu olhar era frio, seu loiro coração era amargo. Sabia de outras bocas, a sua, por exemplo, rainha do maior gozo. Molhou o lábio com a ponta da língua vermelha - no canto a espuma do agonizante. Se eu nunca o vira, havia muito que esperava. Tudo sabia de mim, quem eu era:


- A um menino bonito ofereço o trono do mundo.


Até dinheiro, ele disse, tesouros que eu não ganhava de nenhuma loira. Protestei que ela não merecoa ódio, moça de boa família.


Olhou o relógio no pulso: três horas da manhã.


- Boa noite, senhor.


Sem rsponder, subiu as mãos trémulas ao nó da minha gravata - dois ratos de focinhos quentes e húmidos.


- Tem cabelo no peito!


Na ponta dos dedos o cuidado reverente de quem consagra o cálice.


- Ora, quem não...


Seus olhos se abriam para a lua, eu podia jurar que verdes.


- Como é forte!


Meu Deus, aquele riso... Gritinhos de morcego velho e cego. Falando do vento que anunciava chuva, ensaiou um gesto - o gesto da loira!


A ponta da língua se mexia, um papel debaixo da porta.


- Não tem medo?


Um gato saltou do muro. Espiei do gato para o homem e a rua deserta: ajoelhado na adoração da lua.


Passos de criança perdida, gotas de chuva estalavam nas folhas.


- Boa noite, boa noite, boa noite.


Chorava o dente de ouro, as lágrimas riscavam as velhas rugas.


Escondeu-as na mão - o relógio faiscando no pulso.


- O meu presente?


Ele olhou o relógio.


- De estimação. Lembrança da minha mãe.


As folhas húmidas brilhavam na calçada. Todas as árvores pingavam a duas portas de casa.


- Melhor que...


Não ficava bem dar senhorio.


- ... volte daqui.


Quis pegar na mão e guardei-a no bolso.


- Mais um pouco - ele pediu.


Todas as árvores gotejavam. Ali na porta de casa - o relógio na palma da mão.


Ele me perguntou a hora.


Conto de Dalton Trevisan  traduzido do texto holandês por José Augusto Pinto de Sousa e retirado de um artigo de August Willemsen "Sobre a evolução estilística na obra de Dalton Trevisan e as consequências que daí advêm para o tradutor" publicado na revista  "Colóquio | Letras, n.º 132/133, Abril-Setembro de 1994

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publicado às 17:04


#1156 - Retrato

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.01.10

 

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

 

Poema de Cecíla Meireles

 

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publicado às 16:57

Inicialmente previsto para 2010, a Dom Quixote antecipou para 30 de Novembro a publicação do livro Histórias de Canções - Chico Buarque, de Wagner Homem, lançado pela Leya Brasil em Outubro.

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publicado às 13:03


#1028 - Prémio Portugal Telecom de Literatura

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.11.09


O escritor brasileiro Nuno Ramos, autor do livro "Ó", venceu a edição 2009 do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, anunciou terça-feira o presidente-executivo da empresa.

 

Os também autores brasileiros João Gilberto Noll, com "Acenos e Afagos", e Lourenço Mutarelli, com "A Arte de Produzir Efeito sem Causa", ficaram, respectivamente, em segundo e terceiro lugares.

Numa conferência de imprensa, em São Paulo, o escritor Nuno Ramos revelou-se "surpreso" com o prémio, que vai na sua sétima edição.

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publicado às 09:46


#1014 - Ferreira Gullar

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.11.09



ARTE POÉTICA


Não quero morrer não quero

Apodrecer no poema

Que o cadáver de minhas tardes

Não venha feder em tua manhã feliz

               E o lume

Que a tua boca acenda acaso das palavras

- ainda que nascido da morte -

                    some-se

                    aos outros fogos do dia

aos barulhos da casa e da avenida

                      no presente veloz


Nada que se pareça

a pássaro empalhado múmia

de flor

dentro do livro

                             e o que da noite volte

volte em chamas

               ou em chaga


                  vertiginosamente como o jasmim

que num lampejo só

ilumina a cidade inteira


Poema de Ferreira Gullar

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publicado às 22:54


1001 - Prémio Jabuti de melhor ficção do ano para Moacyr Scliar

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.11.09

Depois do Jabuti de melhor romance, o escrito gaúcho recebeu ontem novo prémio por Manual da Paixão Solitária (Companhia das Letras). Melhor obra de não-ficção do ano: Monteiro Lobato: Livro a Livro, de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Unesp).

 

In Revista Ler

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publicado às 22:09


Mário de Andrade e o modernismo brasileiro

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.09

Os artistas que fizeram a Semana de Arte Moderna de 1992, numa foto histórica. À frente está Oswald de Andrade  que acabou ganhando a preferência dos críticos. Mário é o primeiro à esquerda na primeira fileira em pé, com Manuel Bandeira, no alto, às suas costas. Também nessa fileira, está Graça Aranha (o terceiro da direita para a esquerda); no centro, com a mão levantada, Paulo Prado
Os artistas que fizeram a Semana de Arte Moderna de 1992, numa foto histórica. À frente está Oswald de Andrade — que acabou ganhando a preferência dos críticos. Mário é o primeiro à esquerda na primeira fileira em pé, com Manuel Bandeira, no alto, às suas costas. Também nessa fileira, está Graça Aranha (o terceiro da direita para a esquerda); no centro, com a mão levantada, Paulo Prado

 

Revista BRAVO! | Maio/2009

O Enigma do Modernismo

Mário de Andrade fez do paradoxo e do desencontro o coração de sua obra. Com isso, ele nos obriga a pensar com ousadia e a duvidar de nós mesmos

Por José Castello

 

A crítica sempre teve muita dificuldade para fixar a imagem de Mário de Andrade. Vulto arredio às classificações e às reduções, ele até hoje ocupa, no cenário do modernismo, o lugar de um enigma. Os críticos, quase sempre, se encantaram mais com Oswald de Andrade, que, panfletário, enfático, dogmático, nunca deixou dúvidas a respeito de quem era. Em 1916, um Oswald cheio de si já se declarava, sem meias palavras, um "futurista". Fixava, assim, sua filiação nobre ao Manifesto Futurista, que o italiano Filippo Tommaso Marinetti havia publicado no jornal Le Figaro, em 1909. Ao contrário dele, um renitente Mário ainda protestava, em 1921 (um ano antes da Semana de Arte Moderna!), quando o chamavam de "futurista". A dissensão e a discórdia estão no coração do modernismo; Mário fez desses desencontros e paradoxos o coração de sua obra.

Para complicar, o próprio Mário se definia por uma profusão de etiquetas. "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta", disse. Gostava de provocar os inimigos com uma tirada célebre: "Um dia afinal eu toparei comigo". O escritor, que se sentia cada vez mais distante de si, fez da insatisfação o seu caminho, definindo-se mais pelo que procurava do que pelo que era. A esse respeito, vale lembrar a avaliação do crítico Álvaro Lins, que, em Os Mortos de Sobrecasaca, assim o definiu: "Em nenhum poeta moderno mais do que no sr. Mário de Andrade se poderá sentir essa contradição própria da poesia moderna: a de um pensamento que procura a sua forma". Em seu célebre Prefácio Interessantíssimo, que escreveu para Pauliceia Desvairada (1922), é o próprio Mário quem se descreve como um intelectual em contínuo movimento. O dogma não o interessava. Como definir, então, um escritor que repudiava as definições?

Antonio Candido devassou a alma de Mário quando escreveu: "Há, com efeito, muitos Mários de Andrade além dos conhecidos". Para Mário, a literatura deriva da insatisfação, e não da lucidez. O escritor, ele pensava, deve ser vulnerável, deve ser frágil — deve expor-se, continuamente, ao que não é. Para Mário, a força da literatura se define pelo sacrifício de si. Mais de uma vez, ele criticou o "cultivo imoderado do prazer", que se disseminou entre os modernistas de 22 —o prazer e a alegria acima da persistência e do risco. Essa diferença está na base de sua ruptura com Oswald de Andrade, em 1929 (leia perfil de Mário de Andrade a partir da página 70). Decepcionado com Oswald, a quem dizia "odiar friamente", ele se declarou mais próximo de Jorge de Lima, o poeta católico, a quem via como um intelectual "dominado pela prudência".

POLITICAMENTE INCORRETO
A obra de Mário de Andrade, de fato, parece, até hoje, assinada por muitos Mários diferentes. Com ferocidade, ele criticava aqueles que "caem no gosto da imitação de si mesmos". Em outras palavras: criticava os que "sabem o que fazem". Mário sempre preferiu a instabilidade, o ecletismo, o sincretismo que caracterizam a alma brasileira. Por isso criticou, com ênfase, os que sofriam da "Moléstia de Nabuco" — mal que foi o primeiro a diagnosticar. Assim o definiu: "É isso de vocês andarem sentindo saudade do cais do Sena em plena Quinta da Boa Vista". Com a piada, plantou muitos inimigos em seu caminho. A preferência pelo instável e pelo incompleto levou um crítico de índole conservadora como Wilson Martins a escrever: "Mário é um autor que está em segundo plano em todos os gêneros".

Mário nunca se esforçou para ser politicamente correto. "As revoluções brasileiras, especialmente a de 1932, atrasaram muito São Paulo", disse certa vez. Essa obsessão pelas revoluções, pensava ainda, dificultou a renovação da literatura paulista. Acreditava Mário que, se as revoluções despertaram a consciência cívica dos paulistas, "tiveram por outro lado a fatalidade de fixar demasiado essa consciência cívica dentro de problemas muito particulares e talvez desimportantes" — como declarou em uma célebre entrevista a Martins Castello, publicada em O Jornal, em 1935.

Avesso às certezas, preferia uma arte em movimento, em constante descompasso com as ideias consagradas e com as palavras de ordem corretas. Aos que revidavam dizendo que ele não passava de um nacionalista à antiga, respondia afirmando que era "muito mais marcado pelo tropicalismo do que pelo nacionalismo". Em 1939, confrontado com uma enquete que investigava os dez melhores romances brasileiros da década, não pensou duas vezes: em sua lista, incluiu Mundos Mortos, livro do católico e conservador Octávio de Faria. Não foi uma provocação, mas uma prova de seu coração aberto.

Seus grandes livros — como o maior de todos, Macunaíma — até hoje nos provocam como um enigma que desafia nossa noção de identidade. O que é ser um "herói sem caráter"? Tal ideia do heroísmo é, até hoje, motivo de muitas controvérsias. Seria mesmo um achado intelectual ou um jogo de palavras? João Cabral de Melo Neto, que sempre preferiu Oswald a Mário, duvidava de sua célebre erudição. Mário, aliás, lhe deu razão ao dizer: "Não sou crítico, não sou culto, tenho horror de me chamarem indivíduo culto só porque leio um bocado". Na mesma entrevista a O Jornal, ele diz ainda: "Na verdade sou artista, sou poeta, sou romancista, mas o resto não e não".

Ao se definir pela negação, Mário de Andrade nos deixou uma imagem forte, mas em estilhaços. Vulto que ainda hoje nos obriga a pensar com ousadia e a duvidar de nós mesmos. Não haveria herança mais digna.

 

José Castello é jornalista e escritor, autor A Literatura na Poltrona e Vinicius de Moraes — O Poeta da Paixão, entre outros.

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publicado às 15:57


João Pombo Barile escreve sobre Mário de Andrade

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.09

O escritor Mário de Andrade. Entre 1917 e 1945, ele manteve com o tio Pio uma correspondência sobretudo afetiva  e a mais longa de sua vida

Revista BRAVO! | Maio/2009

Mário, Íntimo e Pessoal

A vida do mentor do modernismo brasileiro sempre foi cercada de mistério. A correspondência com o fazendeiro Pio Lourenço Corrêa, uma espécie de pai postiço do escritor, abre caminho para a compreensão das angústias do homem e, em consequência, de sua obra

 

Em uma das incontáveis cartas que escreveu, Mário de Andrade relatou a Manuel Bandeira: "O caso típico da minha afetividade foi a morte de meu mano mais moço, que me levou quase pra morte também. (...) os médicos chegaram a não dar mais nada por mim. Não comia, não dormia. Foi o bom senso de um tio, espécie de neurastênico de profissão, que me salvou. Pegou em mim, me levou pra fazenda dele, me deixou lá sozinho. (...) Voltei poeta da fazenda". Referindo-se ao episódio da morte de seu irmão Renato, em decorrência de uma cabeçada em um jogo de futebol em 1913, quando este contava apenas 14 anos, o grande mentor do modernismo revelava a importância do fazendeiro Pio Lourenço Corrêa — o "tio" da carta — na sua formação. Uma formação que, além dos aspectos literários e teóricos, foi forjada também nas angústias e neuroses do autor de Macunaíma.

Boa parte dessa faceta pessoal de Mário de Andrade pode ser vislumbrada em Pio & Mário — Diálogo da Vida Inteira, que chega às livrarias neste mês. O volume, ilustrado por dezenas de fotos, reúne 105 cartas de Pio e 84 de Mário, escritas entre 1917 a 1945. É a mais longa troca de correspondência do escritor de que se tem notícia, começando quando ele era ainda um desconhecido e indo até cinco dias antes de sua morte. Discreto, Mário falava pouco da vida íntima. Embora não seja pródiga em desabafos, a correspondência com Pio é das mais pessoais entre todas as que Mário mantinha. Bem esmiuçada, pode abrir caminho para a compreensão das angústias do escritor, estudo que seria importantíssimo para a melhor compreensão de sua obra.

Mas quem era Pio? Nascido em 1875, tinha 18 anos a mais que Mário e, embora este o chamasse de "tio", Pio era, na realidade, casado com sua prima Zulmira de Moraes Rocha. O casal era proprietário da chácara Sapucaia, em Araraquara, no interior de São Paulo, onde o escritor se hospedava com frequência. Foi lá que, deitado em uma rede durante uma semana de 1927, Mário escreveria Macunaíma. "É a minha Pasárgada", gostava de dizer.

À diferença dos outros correspondentes de Mário, Pio não era artista, mas teve um papel fundamental na trajetória do escritor por conta dessa dimensão afetiva. Embora a correspondência seja pontuada por discussões intelectuais (Pio manifesta restrições, por exemplo, a Amar, Verbo Intransitivo e a Macunaíma), esse não era, evidentemente, o ponto principal da relação. Quem o diz com clareza é Mário. Numa carta datada de 11 de maio de 1931, ele escreve a respeito das divergências: "Às minhas loucuras, fantasias, curiosidades, a sua simplicidade sistematizada de ser deu maior paciência, mais precisão de fortificarem-se no estudo; à minha sensibilidade o senhor e sua vida trouxe novos lados, desconhecidos antes, por onde ela se experimentasse e enriquecesse; e finalmente à riqueza milionária das minhas fraquezas veio a sua belíssima e tão nobre atitude moral por freios".

Com essa "nobre atitude moral" a colocar freios, Pio foi uma espécie de pai postiço de Mário, cuja relação com o pai verdadeiro, o jornalista Carlos Augusto de Andrade, sempre foi conturbada. Um dos fundadores do primeiro vespertino da capital paulista, a Folha da Tarde, Carlos seria sempre retratado como figura autoritária na obra do filho escritor — como no poema A Escrivaninha (1922) e no conto O Peru de Natal (1938-1942).

Não eram poucas as angústias familiares de Mário. Espécie de caçula indesejado, "meio amulatado e feio", como dizia, conviveu na infância com a predileção da família por Renato, o irmão "bonito e loiro". Talvez por isso a morte precoce e trágica do menino tenha devastado tanto Mário, a ponto de, como já vimos relatado pelo próprio escritor, ter-se tornado um divisor de águas. Pio estava lá, mas os acontecimentos deixariam marcas em Mário, sobretudo um tremor nas mãos que o impediria de ser concertista.

Ao componente racial, motivo de um complexo que acompanharia o escritor ao longo da vida, somaram-se questões de classe. À diferença de Oswald de Andrade, por exemplo, o "homem sem profissão" que assumiria a vanguarda literária do início do século 20 financiado pela fortuna pessoal, Mário foi o protótipo do que o sociólogo Sergio Miceli chamou de o "primo pobre" do modernismo brasileiro. Nascido na capital paulista em 1893 e formado no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Mário teria de trabalhar a vida inteira, levando uma vida modesta de professor.

Com seu "complexo de inferioridade orgulhosíssimo", como escreveu em certa ocasião, Mário também se tornaria um homem metódico e cioso de sua memória. Desde 1923, ele já catalogava todos os seus documentos, e hoje seus milhares de cartas e fichas de leitura estão devidamente guardados no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). No artigo Fazer a História, de 1944, ele escreveu: "Tudo será posto a lume um dia, por alguém que se disponha a realmente fazer a História. E imediato, tanto correspondências como jornais e demais documentos não opinarão como nós, mas provarão a verdade".

"BONECA DE PICHE"

A despeito de tamanho cuidado de Mário, ainda existem vários pontos obscuros em sua biografia. O principal — e mais polêmico de todos — diz respeito à suposta homossexualidade do escritor. O tema foi levantado pela primeira vez pelo jornalista e escritor Moacir Werneck de Castro em 1989, no livro Mário de Andrade: Exílio no Rio, em que narra sua convivência com o poeta entre os anos 1938 e 1940, quando Mário lecionou na capital fluminense. "Na raiz do drama existencial de Mário de Andrade jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada em difusa pan-sexualidade", escreveu.

Em 1998, foi a vez da escritora Rachel de Queiroz, que, em Tantos Anos, sua autobiografia, afirmou que Mário teria sido mais feliz se tivesse assumido a homossexualidade. Entretanto, o que se falou sobre o assunto se esgota praticamente aí. Há até hoje um cordão de isolamento em torno do assunto entre seus herdeiros paulistas, e há quem diga — principalmente em universidades de outros estados — que existe uma parte da correspondência de Mário que segue sob censura na Universidade de São Paulo, onde está baseada.

Longe de pertencer ao reino da fofoca, o tema é fundamental para entender a obra de Mário e algumas de suas relações pessoais mais importantes — como, por exemplo, a amizade entre o escritor e a pintora Anita Malfatti. Pelas cartas que ambos trocaram, pode-se inferir que a artista alimentou um amor platônico por Mário, ao qual ele nunca correspondeu. O estudo do tema é também fundamental para entender uma questão central do modernismo, o rompimento entre Mário e Oswald. Em artigo sobre o assunto, o jornalista Humberto Werneck conta como o autor de Serafim Ponte Grande gostava de fazer piadas venenosas sobre a suposta homossexualidade de Mário. Oswald chegou a escrever, por exemplo, que de costas Mário se parecia muito com Oscar Wilde, numa alusão ao escritor inglês que enfrentou um doloroso processo judicial por causa da orientação sexual.

Em tom de brincadeira, Oswald também gostava de assinar artigos com o codinome Cabo Machado, referência a um personagem de um poema de Mário: "Cabo Machado é cor de jambo,/ (...) Cabo Machado é moço bem bonito./ (...) Cabo Machado é doce que nem mel (...)". De acordo com Mário da Silva Brito, o historiador pioneiro do modernismo também citado no artigo de Humberto Werneck, o rompimento definitivo pode ter ocorrido por causa de um texto escrito por Oswald em 1929, com o título Boneca de Piche — alusão à suposta homossexualidade e à cor da pele do escritor.

Naquela mesma carta endereçada a Pio no dia 11 de maio de 1931, Mário escreve mais adiante: "Estava carecendo deste desabafo e me sinto feliz agora. Desabafo saído com toda a espontaneidade e que teve a enorme utilidade de me botar bem no meu lugar". Quem sabe a divulgação da correspondência com Pio Lourenço, revelando "desabafos" como aquele, não ajude a chegar a uma "verdade" mais completa sobre Mário, como ele queria. Tabus infundados têm atrapalhado as pesquisas sobre a biografia de Mário de Andrade. Que a correspondência com o "tio Pio" ajude a colocá-los por terra. A moderna teoria literária prega que só o entendimento do homem, em sua inteireza, pode ajudar a compreender e iluminar a obra do escritor.

João Pombo Barile é jornalista.

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publicado às 15:44


Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.04.09

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publicado às 16:19


A voz de Chico Buarque

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.03.09

Desta vez não canta. Desta vez lê em voz alta excertos do seu próximo romance: Leite Derramado (Companhia das Letras).

 

post retirado do blog "bibliotecário de babel"

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publicado às 23:23


Milton Hatoum lança livro de contos e explica porquê

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.03.09

 

 

Foi por causa de “Longe de Manaus” de Francisco José Viegas (ed. Asa) que fiquei a conhecer Milton Hatoum e a sua obra (ele é “o grande escritor de Manaus”).
No Brasil acaba de ser lançado o seu primeiro livro de contos. Seis são inéditos e os que não o são, foram reescritos. “A Cidade Ilhada” é editado pela
Companhia das Letras que fez este vídeo de promoção onde o escritor lê alguns excertos da sua nova obra. E aqui pode ler-se um excerto.
Em Portugal, Milton Hatoum é publicado pela
Cotovia.


Post retirado do blog ciberescritas

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publicado às 17:55


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