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 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Nós, homens, nunca saberemos o que é uma vida a nascer dentro do nosso corpo, numa intimidade absoluta. De certo modo tento compensar isso com o que escrevo. Vou parindo livros, mas os livros não me abraçam da mesma maneira

Ilustração: Susa Monteiro

Numa entrevista a propósito deste último livro o jornalista perguntou-me

– Matou alguém em África?

respondi

– Passe à questão seguinte

e não percebeu que estava a dizer-lhe, com delicadeza, que isso não era uma questão que se pusesse, que mais não fosse por pudor, que mais não fosse por respeito humano. Eu nunca me atreveria a colocar essa questão a ninguém. Mas uma coisa posso contar, porque aliás foi publicada na Fotobiografia de Tereza Coelho a meu respeito e contada a ela por camaradas meus: Devo ter sido o único militar que, em Angola, torturou um bocado um Pide. Quando li o livro nem me recordava já do episódio, foram outros que o disseram, depois do dito Pide contar algumas histórias horríveis de África, e ao ler o que se passou vieram-me à cabeça os gritos do homem. Está lá escrito

(a Fotobiografia teve mais que uma edição)

na boca de, pelo menos, dois militares, mas claro que não vou falar dessa história. Também não me orgulho mas é verdade, e não foi feito às escondidas. Nunca fiz coisas às escondidas. Ainda hoje não percebo a intenção do jornalista nem quero pensar. Ganhou uma caixa? Ganhou um título? Mostraram--me, no facebook dele, essa pergunta e, por baixo da pergunta uma fotografia minha a tapar a cara, num gesto que faço muitas vezes quando estou cansado, nada tinha a ver com esse assunto, mas é lógico que quem tenha visto o retrato de imediato pensaria numa admissão de culpa da minha parte, o que é feio, muito feio. E aproveita para atacar o livro. Tem todo o direito de o atacar, sobretudo porque ficou furioso por eu ter dado antes da sua, uma entrevista a outra pessoa. Qual o mal? Uma entrevista não é uma notícia. Já dei tantas antes dessa sobre tantos romances e por conseguinte no lugar dele tanto me fazia, o que me ralava isso? Comigo, no lugar em que escrevo, estava o Prof. Gordon Love que assistiu a tudo, ele que vive em Portugal agora, não nos Estados Unidos, a traduzir o romance em apreço e a investigar a minha obra, e que por isso comigo, como assistiu às visitas de vários jornais estrangeiros e continuará a assistir nos próximos meses, trabalha aqui à minha frente e sinto-
-me bem na sua companhia. Isto de que me ocupo é tão solitário, tão difícil, que o facto de haver uma pessoa por perto me faz bem. Um livro sempre foi para mim um penar profundo. Termino os dias exausto. E ver outra criatura a penar palavra de honra que ajuda. Quando estava a fazer quimioterapia a sala, bastante grande, encontrava-se cheia de companheiros de infortúnio, o que ajudava a sentir-me acompanhado. Auxiliaram--me tanto como a sua dignidade, a sua coragem, a solidariedade que me manifestaram sempre. Claro que aquilo não era muito agradável: era um horror. Mas fiquei a conhecer melhor os portugueses, sempre cheio de orgulho por ser um deles, sempre cheio de orgulho de estar rodeado de príncipes. Lembro-me de um homem numa situação terminal me dizer:

– Abrace-me que é o último abraço que me dá

e nunca esquecerei o seu sorriso, nunca esquecerei a sua cara quase encostada à minha. Morreu muito pouco tempo depois. Quer dizer: continua vivo em mim. Continuará para sempre vivo em mim, o sorriso não se vai apagar nunca. Trago-o comigo para me iluminar quando estiver muito escuro. Sempre que vou ao Serviço de Oncologia fazer revisões passo sempre pela sala da quimioterapia e cumprimento as pessoas uma a uma. Sinto-me entre irmãos junto deles. Sou um deles. Serei sempre um deles. Engraçado como o Prof. Gordon Love está cada vez mais português, o sotaque vai desaparecendo aos poucos, tem um calão e uma coleção de palavrões notável que melhora todos os dias, no caminho para aqui e daqui se vai enriquecendo porque faz o trajecto a pé. E vê ministros e deputados a dar com um pau dado que mora perto da Assembleia da República. Alto, ruivo, chegou magrinho e engorda que é uma beleza, já de barriga respeitável. De vez em quando fazemos uma pausa, tiramos ambos os óculos e conversamos um bocadinho antes de recomeçar, eu que ando a corrigir um livro que me está a dar um trabalhão sem fim. Olha, comecei este livro perto dele, o anterior também, chegou estava eu a acabar Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, portanto agora conheço-o melhor, somos amigos oferece-me exemplares da Library of America, foi a Espanha com a família e trouxe-me de lá uma edição óptima da obra completa de Quevedo, autor que muito admiro, nascido no ano em que Camões morreu. Parafraseando o meu amigo George Steiner, em Tolstoi e Dostoievski, ou se é filho de Quevedo ou se é filho de Gôngora, e eu sou filho de Quevedo. Ou de Bashô, o grande poeta japonês do século XVII.

Uma tradução minha de um dos seus hai-ku:

Os quimonos secam ao sol.
Ai as mangas pequenas 
da criança morta.

Que extraordinário, não é? Mas voltando ao princípio e a

– Matou alguém em África?

O que me vem à cabeça é que me matei a mim: nunca mais tornei a ser o mesmo e julgo que isto se passa com toda a gente que lá esteve, é inevitável. Qualquer experiência radical nos muda, e toda a gente sabe isto, toda a gente passou por isto de uma maneira ou outra. Uma mulher, por exemplo, depois de ter um filho torna-se inevitavelmente uma nova pessoa. Freud falava muito da inveja do pénis, mas nunca falou da inveja, a maior parte das vezes inconsciente, que os homens têm de não poderem engravidar e parir, e quando fui médico senti isso tantas vezes nas psicoterapias, era tão óbvio. Nós, homens, nunca saberemos o que é uma vida a nascer dentro do nosso corpo, numa intimidade absoluta. De certo modo tento compensar isso com o que escrevo. Vou parindo livros, mas os livros não me abraçam da mesma maneira. Se fosse capaz de ter filhos em mim não escrevia, disso tenho a certeza. Só não sei como fazia para engravidar porque a ideia de um homem dentro de mim me repugna infinitamente, era lá capaz. Eu vi a minha mãe com todos os filhos lá dentro e ainda hoje a invejo. Vi-a dar de mamar a cinco galfarros e ela, que era muito bonita, ficava linda na sua comunhão absoluta. A única vez que a vi chorar foi quando um deles se perdeu dentro da sua barriga. E já contei que, quando o Pedro morreu, ela disse

– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto
e morreu também.

Quando foi do pai não disse

– Uma mulher não tem o direito de estar viva com o seu marido morto

ela que gostava muito dele e não voltou a ser a mesma pessoa nunca mais. Mas aguentou-se, que mais não fosse por nós. Quando eu estava com um dos cancros vi isso, tão claro, na cara dela. Teria morrido por mim também estava tão claramente escrito na sua cara, ela que não demonstrava os sentimentos e era corajosa e dura. Será que nós, homens, sabemos o que é o amor? Às vezes penso que sim, às vezes duvido. Auden: “diz-me a verdade acerca do amor”. Eu quero uma mulher que morra por mim. Como Modigliani teve. Há assim cabrões como ele, que têm essa sorte, Modigliani que morreu a dizer

– Querida, querida Itália

que não sei ao certo se é um País ou uma Mulher.

 

(Crónica de António Lobo Antunes publicada na revista VISÃO n.º 1296 de 4 de janeiro de 2018)

 

 

 

 

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publicado às 18:41


#2737 - Actual Editora edita "Fire and Fury" em Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.01.18

A Actual Editora, chancela do Grupo Almedina, adquiriu os direitos para a edição portuguesa do livro Fire and Fury, do autor Michael Wolff, sobre o presidente norte-americano, Donald Trump. O livro deverá chegar às livrarias portuguesas em Fevereiro. E no Brasil, o livro será editado pela Editora Objetiva.

A obra tem sido um dos títulos mais comentados nas últimas semanas, tendo gerado longas filas de espera no dia do lançamento nos EUA. Outras pessoas optaram pela compra online, o que em alguns casos levou a um engano. Um outro livro com um título similar foi comprado por muitos leitores. Trata-se do livro Fire and Fury: The Allied Bombing of Germany, 1942-1945 da autoria de Randall Hansen, professor da Universidade de Toronto.

No livro Fire and Fury: Inside the Trump White House, Michael Wolff analisa os esquemas internos da presidência de Trump, através de informação privilegiada a que teve acesso. Na obra, o autor explora o fenómeno Trump e a polémica, as controvérsias, os escândalos e o drama a ele associados.

 

Notícia retirada do Jornal "Público"

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publicado às 19:44

 HERBERTO HELDER

 

A Porto Editora vai editar, em Março, "Em Minúsculas", obra de Herberto Helder que reúne as crónicas e reportagens feitas pelo poeta em Angola entre Abril de 1971 e Junho de 1972.

 

Este livro resulta da investigação, transcrição, revisão e selecção de textos feita por Daniel Oliveira, filho de Herberto Helder, Diana Pimentel e Raquel Gonçalves.

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publicado às 19:26


#2721 - Uma Viagem à Índia (Gonçalo M. Tavares) - Excerto

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.12.17

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Gonçalo M. Tavares

 

(...)

1

Embora a humanidade demore tempo a chegar

a um sítio, devido a imprevistos espantosos

e a obras no caminho, a natureza, essa,

nunca se atrasa.

Sempre com a luz certa, a natureza prossegue.

Era já, então, fim de tarde, quando Maria E abriu a porta

e disse: Oh, caro Thom C, que bom ver-te,

trouxeste um amigo?

 

2

No jornal as notícias podem, em dias de chuva,

ser dobradas para caberem no bolso, permanecendo secas.

Qualquer notícia grandiosa, um terramoto mortífero

ou um palácio recém-inaugurado, quando bem dobrada,

cabe num espaço de 8 por 6 centímetros,

o que não deixa de surpreender. Esta imagem é ainda relevante

para quem não quer perceber a importância e o espaço

ocupados pelo universo ou pelos países adjacentes

na vida de um pequeno cidadão.

 

3

E mesmo um indivíduo de estatura mediana

poderá esquecer, durante meses,

o mapa da mundo no bolso de trás das calças.

Tal facto, parecendo paralelo à nossa história,

não deixa de se cruzar com ela, mostrando que nas ideias

o infinito é coisa para o início da manhã

do dia seguinte.

 

4

Maria E convidou, então, delicadamente, Thom C

e o seu amigo Bloom a entrarem, oferecendo-lhes de imediato

poltronas cómodas, whisky perfeito, aperitivos,

uma vista deslumbrante  sobre as chaminés de uma fábrica

de grande importância na região,

e, pormenor não irrelevante, mostrando ainda, nos movimentos que fazia,

aquilo que de longe eram os melhores indícios do apartamento: seios felizes,

pernas de fazer parar o pensamento e

nádegas espantosas, imprescindíveis, duplas e fortes.

Esta é a melhor região de Londres, disse Bloom,

enquanto da janela admirava o belo e espesso fumo negro

que da fábrica saía.

 

5

Porém, Bloom não se sentou logo nas poltronas

que lhe pareciam ter um conforto excessivo.

Com prudência e curiosidade perguntou

se poderia passear um pouco por tão delicioso apartamento

que, apesar de pequeno, era prometedor,

sendo que todos sabem

que um homem pode demorar mais tempo

a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja

do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra,

com mochila às costas.

(...)

 

Canto II (Excerto) - Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 73 e 74 - Edição Editorial Caminho, Agosto de 2011

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publicado às 13:34


#2709 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.17

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Mário Cesariny

Poesia

Edição, Prefácio e Notas - Perfecto E. Cuadrado

Editora - Assírio & Alvim (Chancela da Porto Editora)

1.ª Edição - Novembro de 2017

Distribuição - Porto Editora

Páginas - 773

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publicado às 16:38


#2699 - OS LIVROS QUE O CENTRO NACIONAL DE CULTURA RECOMENDA

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 

DEZ LIVROS PARA LER ABSOLUTAMENTE…

 

Aproveitando a aproximação das Festas, publicaremos, ao longo do mês de dezembro, diversas sugestões de boa leitura.

Hoje apenas literatura portuguesa…

Eis o começo!

 

1) Até que as Pedras se Tornem mais leves que a Água, António Lobo Antunes (D. Quixote);

2) O Bebedor de Horizontes, Mia Couto, Terceiro volume de As Areias do Imperador (Caminho);

3) Domingo à Tarde, Fernando Namora (Caminho) - reedição;

4) Esta noite sonhei com Brueghel, Fernanda Botelho (Abysmo) - reedição;

5) Cinzento e Dourado – Raul Brandão em Foco nos 150 anos do seu Nascimento, Vasco Rosa (Imprensa Nacional);

6) Tempo de Escolha, António Barreto (Relógio d’Água);

7) Bíblia, volume III, tradução do grego de Frederico Lourenço (Quetzal);

8) Poesia, Eugénio de Andrade (Assírio e Alvim);

9) Transporte no Tempo, Ruy Belo (Assírio e Alvim);
10) Gastão Cruz, Existência (Assírio e Alvim).

 

POST RETIRADO DO BLOGUE DO CENTRO NACIONAL DE CULTURA

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publicado às 23:38


#2697 - Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.11.17

 

Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa anunciou no dia 29 de novembro os vencedores da edição de 2017, que avaliou 1.215 obras publicadas em 2016.

 

Karen, romance da portuguesa Ana Teresa Pereira, ficou em primeiro lugar, recebendo prêmio de R$ 100 mil. Ela é a primeira mulher a obter o prêmio máximo nas 15 edições do prêmio, que foi criado em 2003 como Prêmio Portugal Telecom e, desde 2015, passou a se chamar Oceanos. Nas edições anteriores, as escritoras Beatriz Bracher, Marina Colasanti, Cíntia Moscovich, Elvira Vigna e Ana Martins Marques haviam sido premiadas, porém não obtiveram o primeiro posto.

 

O brasileiro Silviano Santiago ficou em segundo lugar com o romance Machado, sendo premiado com o valor de R$ 60 mil, e Golpe de Teatro, do poeta português Helder Moura Pereira, é o terceiro colocado, premiado com R$ 40 mil.

 

A premiação para o quarto lugar, no valor de R$ 30 mil, será dividida entre a poeta portuguesa Maria Teresa Horta, que concorreu com Anunciações, e o romancista brasileiro Bernardo Carvalho, com Simpatia pelo Demônio. A decisão de atribuir o quarto posto aos dois autores aconteceu após sucessivas rodadas de votação nas quais prevaleceu o empate – levando a curadoria e o Júri Final, com base no regulamento do prêmio, a reconhecerem ambos como vencedores.

 

O Júri Final do Oceanos 2017 foi formado por dois portugueses – a poeta Ana Mafalda Leite e o crítico literário António Guerreiro – e seis brasileiros – as ensaístas Beatriz Resende e Mirna Queiroz, a tradutora e editora Heloisa Jahn e os escritores Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz). A curadoria do Oceanos esteve a cargo da jornalista portuguesa Ana Sousa Dias, da gestora Selma Caetano e do jornalista Manuel da Costa Pinto, ambos brasileiros.

 

A edição de 2017 é um marco na história dos prêmios literários em língua portuguesa: este ano, Oceanos passou a contemplar obras publicadas em todos os países lusófonos e, com isso, tornou-se um radar da produção contemporânea dos países unidos pelo idioma – proporcionando conhecimento recíproco e promovendo o intercâmbio literário e editorial. Os números são expressivos: entre os 51 livros semifinalistas — 31 de autores brasileiros, 19 de autores portugueses e 1 de autor angolano —, 49 nunca foram publicados em outro país de língua portuguesa.

 

Os 19 livros de autores portugueses publicados em Portugal não haviam sido publicados no Brasil e 11 de seus autores nunca tiveram obras lançadas no Brasil; e, dentre os 31 livros semifinalistas publicados no Brasil, 30 ainda não têm edição em Portugal, sendo que 21 dos autores brasileiros semifinalistas são inéditos em Portugal – o que mostra como as sucessivas fases do Oceanos contribuem para difundir a obras dos escritores para além das fronteiras nacionais.

 

A primeira colocação obtida pelo romance Karen possibilita o reconhecimento, no Brasil, da importância que o conjunto da obra de Ana Teresa Pereira tem em Portugal, com mais de 30 livros publicados. Em contrapartida, a premiação de Silviano Santiago, que em 2015 havia vencido o Oceanos em primeiro lugar com Mil Rosas Roubadas, reitera – para o público lusitano e dos demais países lusófonos – o lugar ocupado pelo autor na cena literária brasileira.

 

Veja aqui os 04 vencedores
Clique aqui para baixar a lista de livros vencedores

 

FONTE: ITAÚ CULTURAL

 

 

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publicado às 19:48


#2681 - As coisas que mais prazer me deram na vida

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.11.17
António Lobo Antunes

Agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar-me ganhar-lhe uma corrida

Ilustração: Susa Monteiro

Agrafar, carimbar, cortar uma página pelo picotado, fazer buraquinhos numa folha com aquela maquineta de fazer buraquinhos, o palrar de um bebé, calar de súbito o som a meio de uma ária de ópera, esmagar as bolhinhas de uma folha de plástico transparente, ver da janela, lá em baixo, o primeiro pássaro da manhã, olhar o retrato do Papa Inocêncio de Velázquez, meter na boca um pé de criança de três meses, uma finta de Garrincha na televisão, o sorriso súbito de certas mulheres, um sino de aldeia ao fim da tarde, as luzes de Beja à noite na planície, a Serra da Estrela vista da varanda dos meus avós quando eu tinha cinco anos, a minha filha Joana, pequenina, a desenhar a sua primeira árvore, o meu avô a fazer-me uma festa comigo quase a adormecer, o tenente, quando eu era cadete, a ordenar a Marcha lento e à vontade, um pirilampo no quintal a meio da noite, a voz da minha mãe a recitar António Nobre, um gato caminhando devagarinho no muro da buganvília, montar uma zebra de pau no carrossel do oito, dizer gosto de ti para um rosto que aumenta, os olhos azuis da Avó Querida quando me chamava meu amor, agrafar mais, carimbar mais, uma mulher a murmurar Meu Deus na almofada, o pneu afinal não ter furo nenhum, o médico junto à minha cama Vou dar-lhe alta, um falcão a passar junto à janela, o guardanapo com uma rã a saltar ao eixo, começar a ver o fundo do prato quando me davam sopa, beber água da bilha na casa de Nelas, a campainha do recreio a meio de uma frase do professor de Matemática, a primeira vez que dancei de cara encostada com uma menina de treze anos também, o palhaço que me apertou a mão no circo, a tia Madalena para mim Estou aqui filho comigo com a tuberculose, o raio verde no Caramulo, agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zézinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar--me ganhar-lhe uma corrida, o meu irmão Pedro a contar Já vou no Pardal de regresso de uma aula de Catequese sobre o Espírito Santo, o primo Alfredo que me levantava acima da sua cabeça e eu maior do que toda a família, a minha mãe perfumada com Chanel número cinco, a Gija a coçar-me as costas antes de me vestir o pijama, a professora de Português, no primeiro ano do liceu, a apontar-me à turma Este menino vai ser um grande escritor e eu feliz, a primeira vez que li A Ruiva de Fialho de Almeida, o sabor da minha boca depois de um rebuçado de hortelã pimenta, a cor do mar da Praia das Maçãs às seis da tarde, receber uma carta de Céline quando lhe escrevi aos quinze anos, o dia em que o Cifra me veio dizer que tinha uma filha e fui chorar de felicidade e raiva para o arame farpado, os meus pais terem-me encontrado quando me perdi em Veneza aos sete anos junto a um dos leões de pedra na Praça de São Marcos, o meu avô a murmurar Meu netinho acariciando-me o pescoço, beber água da bilha, o primeiro dente de leite que descobri de manhã na almofada, a esperança de voltar a ler As Aventuras De Dona Redonda E Da Sua Gente, a minha pilinha de repente grande e eu cheio de orgulho e vergonha, com a minha mãe a fingir que não via, o tio Joaquim a levar-me até aos Correios, na Beira Alta, no quadro da bicicleta, o palhaço pobre que me deu um passou bem no circo, comer cocada de Belém do Pará feita pela tia Isabel, eu em Paris à procura da cegonha que me tinha trazido dali para Lisboa sete anos antes: ainda não perdi a esperança de a encontrar e de certeza que ela se lembra de mim, acho eu. Ter feito chichi em Nova Iorque ao lado de Mickey Rooney. Cortar, mal acabe isto, todas as páginas do bloco pelo picotado. Acho que devo ter por aí uma dessas coisas de fazer buraquinhos: que mais pode um homem desejar?

 

(Crónica publicada na VISÃO 1289 de 16 de novembro)

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publicado às 16:52


#2679 - Os Loucos da Rua Mazur

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

 

O mais recente Prémio Leya chega hoje às livrarias. Leia aqui o primeiro capítulo do novo romance de João Pinto Coelho.

Chega hoje às livrarias o mais recente Prémio Leya de Literatura, o romance Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho. O autor, que já tinha sido finalista deste prémio em 2014 com o livro Perguntem a Sarah Gross, regressa ao mesmo tema, o do holocausto e de uma das épocas do século XX mais dramáticas da história da humanidade. O cenário do romance é duplo, passando-se uma parte na atualidade e outra na Polónia, durante a II Guerra Mundial. Recorde-se que o júri presidido por Manuel Alegre escolheu este original entre 400 por ser "bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos".

Para João Pinto Coelho, a edição que hoje chega aos leitores, menos de um mês depois de ter sido anunciado vencedor, só tem a ganhar por ser fruto do "reconhecimento que resulta da atribuição de um prémio literário com este prestígio, que acaba sempre por contribuir para a visibilidade do romance distinguido". Quanto ao futuro profissional passar pela atividade literária, Pinto Coelho não é por enquanto assim tão entusiasta: "No futuro imediato, não creio. É uma hipótese que poderei colocar, mas apenas quando tiver três ou quatro livros publicados."

Segundo o autor, este livro começou a ser pensado enquanto escrevia o anterior. Daí que admita que o cenário semelhante de ambos se deva à sua perceção sobre a necessidade de voltar a esta época: "Tive sempre a convicção de que havia coisas cruciais sobre a perseguição aos judeus naquele período que não constavam no meu primeiro romance. Além dos alemães, houve outros perpetradores; tem que ver com a universalidade do mal, e tinha de escrever sobre isso ou sobraria a sensação de uma história incompleta."

No que respeita à investigação, João Pinto Coelho voltou aos muitos livros que leu sobre o tema nos últimos trinta anos, não esquecendo os muitos contactos que estabeleceu com historiadores polacos ao longo de diversas visitas à Polónia. Questionado sobre se leu os livros dos seus antecessores premiados, aponta o de João Ricardo Pedro e o de Afonso Reis Cabral: "Dois romances magníficos."

 

Pré-publicação do primeiro capítulo de Os Loucos da Rua Mazur

Por João Pinto Coelho

 

PARIS, 2001

A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha. O tampo estava vago, apenas papéis dispersos, uma telefonia a pilhas e um rosto num passe-partout, o rosto de Fidelia.

 

 

 

Artigo escrito por João Céu e Silva para o  DN - Diário de Notícias

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publicado às 22:31


#2672 - Agosto 1964

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.11.17

 

Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.

Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira

 

Poema de Ferreira Gullar

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publicado às 19:40

 António Lobo Antunes

 

O SENHOR BARATA

 

As pessoas têm a ideia que a morte é a solidão total num nada completo. E provavelmente é. Julgo que é. Mais: tenho a certeza que é, mas não somos capazes de conceber isso. Não aceitamos conceber isso. De forma alguma nos resignamos a isso. E assim nasceram as religiões. Que todas elas nos prometem, nos garantem, nos juram a existência do dia seguinte e o tornam mais ou menos aceitável

George Steiner perguntou-me

– Sabe porque é que os judeus não se matam?

esperou um bocadinho e como não disse nada respondeu ele por mim:

– Não podem suportar a ideia de não ler o jornal no dia seguinte
e fiquei a olhar para a sua cara lá em baixo

(ele é mais pequeno)

com um sorriso nos olhinhos agudos. Isto não é só verdade para os judeus, claro. Quem

(mesmo aqueles que, como eu, não lêem jornais)

suporta a ideia de não ler o jornal do dia seguinte? Não saber o que vai passar-se? Ficar sozinho num vazio absoluto? As pessoas têm a ideia que a morte é a solidão total num nada completo. E provavelmente é. Julgo que é. Mais: tenho a certeza que é, mas não somos capazes de conceber isso. Não aceitamos conceber isso. De forma alguma nos resignamos a isso. E assim nasceram as religiões. Que todas elas nos prometem, nos garantem, nos juram a existência do dia seguinte e o tornam mais ou menos aceitável. Se até há quem suba ao céu de corpo inteiro. Se até há, como Jesus garantiu ao ladrão, quem hoje mesmo estará connosco no Paraíso. No meu caso quando lá chegar encontro logo o senhor Barata, que faleceu há dias, é que nem ginjas. O senhor Barata a quem daqui a uns tempos vou dar um abraço

– Dê cá mais cinco, senhor Barata

 

e que costumava comer no mesmo restaurantezinho que eu. Era gordo, pequeno, com um eterno boné na cabeça, colocado numa exactidão de cápsula, de calções, com um saco de cabedal a cair-lhe do ombro esquerdo. Passava o almoço sem companhia, ou antes na companhia do telemóvel e do jornal, que lia todo até os anúncios

(com fotografia)

das vendedoras de carícias a preços em conta e nádegas atlânticas, oferecendo beijos na boca e

(passo a citar)

bum-buns gulosos, cujas dimensões me provocavam um certo receio de ser completamente devorado e ficar na companhia dos colegas da véspera. O senhor Barata tinha sido tipógrafo, mostrou-me logo à primeira o seu cartão de membro do Partido Comunista que, sei lá a razão, imaginava mais castos e afinal malandrecos, e um retrato dele em Maputo, fardado de soldado e com um cão da Polícia Militar pela trela, garantindo-me que, como eu, também havia passado por África a defender o Império, e decidiu tratar-me logo por tu. Respondi-lhe

– Você se quer falar comigo diz Sua Alteza

mas a sua solidão comoveu-me. Morava sozinho não percebi bem onde, cheirava a infelicidade que tresandava, adoecera tempos antes e a quimioterapia enfraquecia-o muito:

– Um cancro do pulmão, sabe?

como por acaso não sabia comovi-me mais. Apontou o boné

– Já me atingiu a cabeça

mostrou-me a papelada médica e eu lá tentava animá-lo o melhor que podia sobre os nossos pratos de peixe espada. Que eu percebesse não tinha mulher nem filhos, nunca lhe vi nenhum compincha e lá íamos falando nisto e naquilo sobre as nádegas do jornal onde às vezes me parecia que um Lenine a espreitar, embora não se sentisse com ânimo para frequentar o Partido nem as meninas. Comia no restaurantezinho, fazia os tratamentos e depois seguia para casa, tão solitário como um cacto no Pólo Norte. Não se queixava, ia aguentando com dignidade a sua cruz, caminhava na direção de uma noite secreta, sem queixas, sem azedume, sem tragédia, falando-me dos seus tempos de tipógrafo e do seu respeito pelos livros, até já lera um dos meus

(percebia-se logo que mentia)

ou um bocado de um dos meus, mas era tudo tão difícil agora. Disse-lhe que era tudo difícil desde o princípio e ele, em resposta, encheu-me dos seus tempos de África, onde ainda convertera dois ou três cabos ao marxismo-
-leninismo que continuava a apoiar sem reservas, embora crítico e lúcido. Gostou que eu também houvesse andado por esses lados, mas a possibilidade da morte levara-o a abandonar o ateísmo, com os rabos do jornal na ideia, que sempre ajudam, Alteza, pensa-se que não mas ajudam. Depois de uns dias sem aparecer no restaurantezinho perguntei por ele ao dono que me segredou

– O senhor Barata morreu

ou seja encontraram-no no chão, em casa, ainda vivo, e foi acabar ao hospital. Custa-me dar com outro freguês na sua mesa agora. Eu gostava do senhor Barata. Não pensem que não: gostava mesmo e tenho pena que não possa ver, no periódico, os rabos dos amanhãs que cantam. Escrevi isto num tom propositadamente ligeiro a fim de me impedir de secar a ramela de uma lágrima. Se eu tivesse um boné como o dele enfiava-o na cabeça numa exactidão de cápsula.

 

Crónica publicada na VISÃO 1288 de 9 de novembro

 

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publicado às 08:03

 

Rosa Montero venceu o Prémio Nacional das Letras Espanholas 2017, um galardão que o júri justificou com a longa trajetória novelística, jornalística e ensaística da escritora espanhola.

A escritora Rosa Montero venceu esta terça-feira o Prémio Nacional das Letras Espanholas 2017, no valor monetário de 40 mil euros, um galardão que o júri justificou com a longa trajetória novelística, jornalística e ensaística da escritora espanhola.

O júri do prémio destacou ainda que a trajetória da escritora madrilena demonstrou “brilhantes atitudes literárias” e enalteceu a “criação de um universo pessoal, cujo tema reflete seus compromissos vitais e existenciais, classificados como éticos e de esperança”, de acordo com o Ministério da Educação, Cultura e Desporto de Espanha, responsável pelo prémio.

Rosa Montero nasceu em Madrid em 1951, estudou jornalismo e psicologia e colaborou com grupos de teatro independentes, enquanto começava a publicar em vários meios de comunicação 1976, altura em que começou a trabalhar em exclusivo para o “El País”, tornando-se editora-chefe do suplemente de domingo em 1980 e 1981.

Em 1978, venceu o Prémio Manuel del Arco para entrevistas, em 1980, o Prémio Nacional de Jornalismo para reportagens e artigos literários e, em 2005, o Prémio da Associação da Imprensa de Madrid pela sua vida profissional.

Entre os seus romances contam-se “A filha do canibal” (Prémio Primavera de Novela em 1997), “A louca da casa” (2003), que lhe valeu os prémios “Qué Leer” 2004 para o melhor livro do ano, Grinzane Cavour para o melhor livro estrangeiro publicado na Itália em 2005, e Roman Primeur 2006, em França.

É ainda autora de “História do rei transparente” (2005), vencedor do prémio ‘Qué Leer’ 2005 para o melhor livro do ano e o ‘Mandarache Prize’ 2007.

O seu trabalho está traduzido para mais de 20 línguas.

 

Autor
  • Agência Lusa

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publicado às 23:15


#2667 - Sergio Ramírez vence Prémio Cervantes 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.11.17

O escritor nicaraguense Sergio Ramírez é o vencedor do Prémio Cervantes 2017, o mais importante Prémio Literário da literatura em língua espanhola.

Sergio Ramírez venceu em 1998 com o livro "Margarita, está lindo o mar" o Prémio Alfaguara do romance, livro publicado em Portugal pela Difel.

Tem, também, outro livro ("Tiveste medo do Sangue?") publicado em 1989 pela Editorial Caminho.
O Prémio Cervantes foi criado pelo Ministério da Cultura de Espanha em 1975 com o objectivo de reconhecer a carreira de um escritor que, através do seu trabalho, contribuiu para enriquecer o legado literário hispânico.

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publicado às 22:38


#2658 - Prémio Goncourt 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.11.17

O Prémio Goncourt 2017 foi atribuído ao escritor francês Eric Vuillard com o livro "L'Ordre du Jour".

O Prémio Goncourt é o mais importante prémio literário francófono.

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publicado às 21:26


#2650 - Prémio Literário José Saramago

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.10.17

 

Julián Fuks, escritor brasileiro, vence Prémio Literário José Saramago atribuído pela Fundação Círculo de Leitores com o livro "A Resistência" editado pela Companhia das Letras

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publicado às 14:52


#2649 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.10.17

 Maya Angelou (1928-2014)

 

Figura fundamental da cultura afro-americana e da luta pelos direitos civis nos EUA dos anos 60, ao lado de Martin Luther King e Malcolm X, Maya Angelou (1928-2014) celebrizou-se com a publicação deste primeiro volume autobiográfico, incentivada pelo seu grande amigo e escritor James Baldwin. A sua extensa obra poética – que lhe valeria a nomeação para o Prémio Pulitzer em 1972 – e o activismo social granjearam-lhe um lugar maior na cultura americana. No seu empolgante percurso de vida, da pobreza à consagração, trabalhou em clubes nocturnos como cantora de calipso e, aos 16 anos, foi a primeira revisora negra nos eléctricos de São Francisco. Na sua escrita, nunca deixou de acreditar no direito à sobrevivência num mundo ameaçado pelo ódio. Além da sua extensa autobiografia, é autora de livros de poesia como And Still I Rise (1978) e On the Pulse of Morning (1993).

 

Maya Angelou enfrenta a sua vida com uma admiração tocante e com uma dignidade luminosa. James Baldwin

Grandioso livro de memórias, Sei porque Canta o Pássaro na Gaiola (1969) é uma poética viagem de libertação e um glorioso bater de asas num mundo opressivo. Este relato inspirador da infância e da juventude da autora, nos anos 30 e 40, devolve-nos o olhar de uma extraordinária criança sobre a violência inexplicável do mundo dos adultos e a crueldade do racismo, na procura da dignidade em tempos adversos. Do Arkansas rural às cidades da Califórnia, Maya Angelou traça neste livro um tocante retrato da comunidade negra dos Estados Unidos, durante a segregação, e de uma consciência que, incapaz de se resignar, desperta rumo à emancipação. Um clássico americano que marcou gerações e que conserva toda a sua actualidade.

 

 

Informação retirada do site da Editora Antígona

 

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publicado às 13:56


#2639 - João Pinto Coelho venceu Prémio Leya 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.10.17

 João Pinto Coelho com o livro "Os loucos da rua Mazur" foi o vencedor do Prémio Leya 2017.

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance.

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publicado às 20:10

 Ana Margarida de Carvalho com o livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" foi o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. A escritora é, também, finalista do Prémio Oceanos, do Brasil, com este livro.

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publicado às 17:48


#2636 - FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.10.17

VER PROGRAMAÇÃO AQUI»»»»

 

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publicado às 17:39


#2635 - Tu, Lisboa. Você, Lisboa. Senhora Dona Lisboa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 Antonio Tabucchi (1943-2012)

 

"No que se refere a formas de tratamento, meu caro Cardoso Pires, a tua bela língua possui um número considerável delas, para desconcerto do turista optimista que aterra no aeroporto de Lisboa munido do tranquilizador | Speak Portuguese, e para pânico do aprendiz cheio de boa vontade que tenha feito o curso linguafone  O Português em 4 Semanas.

 

Um número tão considerável que - assegurava o linguista Luis Lindley Cintra, teu companheiro de oposição àquele Salazar que parecia imortal (e que, em tempo de bocas e canetas amordaçadas, tu imortalizaste deveras, tornando-o o fóssil protagonista da tua "fábula" Dinossauro Excelentíssimo) - não deixa a tua língua ficar atrás de nenhuma outra na Europa, parecendo que, no mundo, só o fica do japonês. Bem pode dizê-lo uma  pessoa como eu que um dia, com a arrogância aprendida no manual de gramática e convencido que o Você (que na minha língua é o Lei) servia para todas as ocasiões, afrontou candidamente a infinita babel hierárquica das formas de tratamento que o português prevê. E aconteceu-lhe ouvir um miúdo da rua que, a jogar à bola no adro de uma igreja de Alfama, reagiu deste modo para com o seu companheiro de jogo demasiado individualista: "Você devia ter-me passado a bola, seu palerma!" * Ou aconteceu-lhe escutar, numa educadíssima discussão conjugal de um casal pequeno-burguês, a seguinte pérola linguística pronunciada pelo marido empertigado: "A menina tenha paciência, mas não estou de acordo consigo". * Ou ainda uma senhora de certo tom que, chamada apenas "Dona Josefa"  e não "Senhora Dona Josefa" como a sua classe exigia, considerou o pobre visitante estrangeiro um verdadeiro troglodita.

 

Isto para não falar de quando nas formas de tratamento, para complicar as coisas, se insinua o sub-reptício diminutivo, de uso muito frequente e com as nuances mais insuspeitáveis que podem significar ternura, familiaridade, confidência, mas também, em certos casos, inferioridade hierárquica e atenções servis para com o superior. Eis uma frase pronunciada durante a não remota guerra de África entre Portugal e as suas "Províncias Ultramarinas" Angola e Moçambique. Contou-ma o antropólogo e escritor José Cutileiro, alto funcionário da União Europeia em Bruxelas, onde certamente é confortado pelo uso de "Vous" da Revolução Francesa e pelo "You" dos pragmáticos albiões. A personagem era neste caso um cabo,e  o destinatário era neste caso um cabo, e o destinatário o oficial da companhia: "Meu capitão, a metralhadorazinha

está prontinha". * E o capitão, graças àqueles diminutivos, percebeu imediatamente que podia contar em absoluto com aquele cabo:  ele estava completamente ao seu serviço.

 

Vá-se lá saber como se safou o snobíssimo Beckford, refugiado na Lusitânia a chular a aristocracia portuguesa da época (à qual, aliás, reservou um desprezo arrogante, como revela o seu diário), que de certeza com o seu insuficiente "You" deve ter cometido gaffes vergonhosas. Dá-me mais prazer em Fielding, a quem aconteceu passar por Lisboa e lá morrer (repousando agora no Cemitério Monumental), e cuja ironia atenta às matizes linguísticas das classes sociais o guiou provavelmente no labirinto das formas de tratamento.

 

Formas de tratamento, Lisboa. Como bem sabes, meu caro José (aliás recorda-lo afectuosamente neste Livro de Bordo), também eu deambulei pela ponte da nau "Lisboa": não só com os pés, mas sobretudo com os passos da fantasia, das impressões, das sensações e das recordações. Aquele meu percurso bastante ilógico, que preferi chamar "uma alucinação", tornou-se um livro intitulado Requiem, que escrevi na tua língua. Não tanto por capricho, mas porque, para falar de Lisboa (e para a viver), o português impôs-se. Talvez isso tenha sido a minha maneira de lhe prestar homenagem. E no entanto não tive a coragem de a interpelar, de encontrar uma das muitas formas de tratamento para dizer: Lisboa. Eu, toscano da minha Toscana marítima, que me apaixonei por ela quando era jovem e ela uma senhora de certa idade, aprendendo com  esforço os sons por vezes roucos e por vezes de sereia que tão bem descreves neste teu livro, não sabia de que maneira devia  dirigir-me a ela. Excelentíssima Senhora Dona Lisboa? Querida Dona Lisboa? Minha Amiga Lisboa? E que pronome  pessoal usar? No embaraço da escolha, desisti.

 

Mas tu tratas Lisboa por tu, e podes bem fazê-lo. É a tua companheira. E como uma abelha visitas o seu cálice. E é por isso que a sua flor continua a florir através dos séculos na literatura portuguesa: porque há escritores e artistas como tu, que não se lembram dela apenas quando está na mó de cima, mas também nos momentos mais obscuros da sua existência, que tu atravessaste com ela.

 

Seco, sonoro como o estalido de uma vela, assim é o estilo deste teu livro de bordo, bem longe daquela escrita colorida que, revestindo de roupa reciclada um certo "realismo mágico" de boa memória, procura o sucesso fácil descrevendo Portugal como um país sul-americano da operetta, graças ao "pitoresco" que tanto agrada no estrangeiro (Portugal is different).

 

E agora fazes levantar âncora à "tua" Lisboa como um veleiro do qual és ao mesmo tempo piloto e escrivão de bordo. Porque é verdade que a tua cidade, "pousada no Tejo como uma cidade que navega", em outros tempos fez-se ao mar e penetrou nos oceanos, à aventura. E contornou Áfricas, visitou Índias e Malacas, descobriu Brasis. Em suma, "por mares nunca dantes navegados", como diz Camões, levou a Europa ao mundo e o mundo à Europa.

 

Mas nesta Lisboa também eu quero embarcar, mesmo que seja com uma tarefa humilde que no entanto me agrada: a de grumete a polir os latões.

 

Se não te importas, vou pois subir contigo para este veleiro que aparentemente está ancorado, mas que todavia viaja, viaja.

 

Texto de Antonio Tabucchi traduzido por M.C.Loureiro. Este texto foi escrito como prefácio às edições italiana e alemã do livro de José Cardoso Pires intitulado Lisboa, Livro de Bordo.

Este texto foi publicado na Revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, número cinco-Inverno 1997, páginas 3, 4 e 5.

 

 

 

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publicado às 21:54


#2632 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

Hoje, 18 de Outubro, é o dia de S. Lucas.

 

________________________________

 

A 18 de Outubro de 1909 nasceu na cidade de Turim Norberto Bobbio (1909-2004).

 Formado em Filosofia e Direito, foi professor universitário e jornalista, filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício. Morreu na cidade de Turim no dia 9 de Janeiro de 2004.

 

 

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publicado às 17:42

 

 

Lincoln in the Bardo wins 2017 Man Booker Prize

Lincoln in the Bardo by George Saunders is named winner of the 2017 Man Booker Prize for Fiction. Lincoln in the Bardo is the first full-length novel from George Saunders, internationally renowned short story writer.

The 58-year-old New York resident, born in Texas, is the second American author to win the prize in its 49-year history. He was in contention for the prize with two British, one British-Pakistani and two American writers.

 Lincoln no Bardo é o primeiro romance de George Saunders. Nestas páginas, o autor revela-nos o seu trabalho mais original, transcendente e comovedor. A acção desenrola-se num cemitério e, durante apenas uma noite, a história é-nos narrada por um coro de vozes, que fazem deste livro uma experiência impar que apenas George Saunders nos conseguiria dar.


Ousado na estrutura, generoso e profundamente interessado nos sentimentos, Lincoln no Bardo é uma prova de que a ficção pode falar sobre as coisas que realmente nos interessam. Saunders inventou uma nova forma narrativa, caledoscópica e teatral, entoada ao som de diferentes vozes, de modo a fazer-nos uma pergunta profunda e intemporal: como podemos viver e amar sabendo que tudo o que amamos tem um fim?

 Informação  relacionada com o livro vencedor retirada da página do editor em Portugal (RELÓGIO D'ÁGUA)

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publicado às 22:42

 

 

Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira é agora a vez de destacar a vida e a obra de Miguel Sousa Tavares.

 
Miguel Sousa Tavares, jornalista português, escritor e autor do romance português mais vendido no século XXI, será o homenageado da próxima edição do Escritaria.
 
A 10.ª edição do Festival Literário vai decorrer de 20 a 22 de outubro, sendo que a partir de dia 16 de outubro decorre uma grande feira do livro com diversas apresentações de livros e uma forte aposta na memória de edições passadas, onde marcaram presença grandes nomes da Literatura Portuguesa contemporânea. Do programa constam, ainda, exposições, teatro de rua, música, momentos de leitura, lançamento de livros e objetos que contaminam uma cidade inteira e que prometem interagir com leitores e transeuntes que vão nesta edição ser confrontados com novas experiências.
 
Miguel Sousa Tavares, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares, exerceu advocacia antes de se dedicar exclusivamente ao jornalismo.
 
Estreou-se na ficção com “Não te deixarei morrer David Crockett" (2001), constituído por um conjunto de contos e textos dispersos. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, “Equador”, que vendeu mais de 400.000 exemplares em Portugal, traduzido em 12 línguas e editado em cerca de 30 países e adaptado para televisão, em Portugal e no Brasil.
 
Ao longo de 20 anos, Miguel Sousa Tavares tem 16 livros editados com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.
 
Dez anos. Dez edições do Escritaria. Dez grandes nomes da literatura, num festival que mantém a tónica em homenagear um escritor de língua portuguesa, vivo, e de transformar, durante vários dias, Penafiel na cidade do Escritor(a) a homenagear.


     Consulte o Programa Completo do Escritaria 2017

 

Post retirado do "site" da Câmara Municipal de Penafiel
 

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publicado às 17:05

António Lobo Antunes
 

Avô

 Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse

Ilustração: Susa Monteiro

O compartimento onde escrevo, um andar muito alto sobre as traseiras da Penitenciária, de onde vejo até falcões que passam de quando em quando com um rato nas unhas, falcões, andorinhas, gaivotas, outros pássaros, traz-me todos os dias à memória o pai do meu pai, que se chamava António Lobo Antunes e esteve uns bons tempos preso aqui. Morreu pouco depois de eu fazer dezoito anos e desde então não houve um só dia sem me lembrar dele, pelo muito amor que continuo a ter-lhe. Foi a pessoa central da minha infância, é uma das duas ou três pessoas essenciais da minha vida. Imagino-o ali de novo, nesta prisão enorme, recordo-me do meu pai contar as visitas que lhe fazia em pequeno, de mão dada com a minha avó grávida, que o trazia aqui a ele e à irmã que nasceu a seguir a ele, recordo-me do meu pai contar o medo que sentia nesta cadeia enorme, cheia de homens e ecos. Às vezes oiço as vozes dos condenados lá em baixo, durante o recreio e, sem dar por isso, não, e, dando por isso, imagino o meu avô entre eles, a sorrir-me aquele sorriso tão bonito que era o seu, um homem grande, muito forte, extraordinariamente belo e terno, que tinha por mim um amor ilimitado, que me fazia tantas festas, até na rua, e eu cheio de vergonha, a pensar

– Vão achar que somos maricas

já parvo, claro, incomodado, aflito. A minha mãe contava que uma vez, de manhã muito cedo, telefonaram ao meu pai para ele dizer que o tio João, o irmão mais velho do meu avô, tinha morrido de repente e pedindo-lhe que fosse comunicar a notícia ao meu avô. De modo que a minha mãe e o meu pai lá foram os dois, a seguir a vestirem-se à pressa, e os meus avós estavam ainda deitados. Olharam os meus pais, surpreendidos, o meu pai disse

– Pai, trago-lhe uma notícia muito triste

e segundo a minha mãe o meu avô tornou-se rígido na cama, de olhos fechados. Após um silêncio o meu pai disse

– Pai, o tio João morreu

ao cabo de outro silêncio comprido, contava a minha mãe, o meu avô abriu os olhos e respondeu

– Pensei que fosse o António

e, comentava ela, o meu avô, que gostava muito do irmão

– Até parecia aliviado.

Pouco antes de morrer, e não morreu velho, disse-me

– Tenho tanta pena de te deixar

e sorriu-me. Depois foi-se embora e perdi-o para sempre. 
A ideia da minha morte, e já estive perto dela em mais de uma ocasião, a ideia da minha morte, quer dizer o que eu penso da minha morte, o que me consola na minha morte é a certeza que vou estar com ele de novo, aquele homem moreno

(eu que sou loiro)

de uma coragem física que me mete a um canto, de uma generosidade sem fim, com uma capacidade de amar que não encontrei em mais ninguém, com um sentido de família único, de uma fidelidade absoluta a si mesmo e aos outros, com quem não me pareço em quase nada, muito melhor do que eu, sociável, alegre, que nunca vi ler um livro, que às vezes me olhava com pena

– Quando tiveres um filho já eu estou a fazer tijolo há que tempos
tão valente, tão generoso, tão bom, salazarista, monárquico, intensamente religioso, sociável, divertido, um patriarca no sentido mais nobre da palavra, com um extraordinário talento para alcunhas

(a um conhecido político, por exemplo, chamava-lhe Pneu Mabor, porque a única coisa que tinha de bom era o ar)

amando a vida, ele que não vivia, comia os dias, com uma enorme capacidade de perdoar, um rei, um príncipe, um líder natural, o meu herói. Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse. Preso, condenado, obrigado a sair de Portugal, foi para Tanger, onde uma das minhas tias nasceu e só nos anos trinta lhe permitiram regressar a Portugal, e sei que a estadia no Norte de África não foi fácil, obrigado a trabalhar numa fábrica de conservas

(ele que nascera aristocrata e rico, essas célebres fortunas da borracha do Brasil)

e nunca lhe escutei uma queixa ou lamento. Em Portugal refez a sua vida toda, não voltou ao Brasil a não ser numa ocasião, numa breve visita, com toda a família de lá à sua espera no Rio, pegado como era a esta terra aqui, ele que passou a infância em Belém do Pará e cujas memórias, até nas canções que às vezes me cantava

Mamãe diz ao Papai
que eu quero ir para a guerra
do Paraguai.
Não vês meu filho
que podes morrer
tão pequenino
que irá acontecer?

eram tão brasileiros. É que a sua alma é suficientemente grande para ocupar dois países. Nada disto eu herdei, claro. Mas basta-me o orgulho de ter o seu nome, António Lobo Antunes, e a felicidade de haver sempre recebido o seu amor. E agora não estou a olhar a Penitenciária lá em baixo. Estou com ele em Pádua a fazer a primeira comunhão na igreja de Santo António, em resultado da promessa que fez nesse sentido se eu não morresse de meningite que tive aos oito meses, como o irmão mais novo do meu pai, morto dela com a idade em que eu ia morrendo, e António Lobo Antunes também. Sabe, avozinho, acho sempre que os falcões que passam na janela me trazem recados seus. Eu sei que olha por mim e não me deixa. E o que traz nas garras não é um bicho morto é o nosso amor que continua vivo. Olhe, fico contente que este texto esteja tão mal escrito. 

Acho que me comovi demais.

 

Crónica publicada na VISÃO 1283 de 5 de outubro

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publicado às 17:53

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

O SENHOR VICENTE

 

O senhor Vicente trabalhava na Administração do Posto de Marimba, uma terra pequena acima de Malanje, na Baixa do Cassanje. Julgo que era uma espécie de escriturário, porque não usava a farda dos funcionários coloniais nem o uniforme dos sipaios. Vestia-se à paisana, como um civil normal, era extremamente bem educado para toda a gente e eu considerava-o um génio. Tanto podia ter trinta como quarenta anos, pertencia de certeza à etnia ginga porque o seu kimbundo era perfeito, tal como o seu português, aliás, e eu gostava de conversar com ele porque aprendia sempre. Em regra ao fim da tarde passeávamos juntos sob a imensa fila das mangueiras gigantescas que iam de uma ponta à outra da vila, desde a Administração às sanzalas, ou descíamos ao rio Cambo a olhar os crocodilos. Foi numa dessas saídas que encontrámos, na picada para o rio, uma jiboia enorme que morrera engasgada com a metade traseira de uma cabra grande entalada na boca. Isto entre outras descobertas mirabolantes mas, para mim, o senhor Vicente era a personagem mais notável que conheci. Solitário e introvertido com toda a gente conversava imenso comigo. Vivia na dor permanente de se ter apaixonado por uma mulher ou rapariga branca cujos pais se opuseram com ferocidade ao casamento dela com um africano, e o senhor Vicente vivia aquele grande amor frustrado mantendo uma fidelidade absoluta a um fantasma que habitava em Luanda e nem a esmola de uma carta lhe fazia. Tomava todas as manhãs uma aspirina embora se sentisse fisicamente bem porque as doenças eram um terror para ele. Um dia disse-lhe

– Mas se está bem porquê tomar aspirina?

quando estávamos a chegar ao quimbo do Soba Macau, um senhor idoso da mais alta nobreza

(nome completo: Sebastião José de Mendonça Macau)

e de uma sabedoria infinita, que tinha muito respeito por mim devido ao facto extraordinário de eu ter olhos azuis, coisa que até então ele nunca tinha visto e portanto tratava-me por Kimbanda Kindele, o que significa feiticeiro branco, e escutava tudo o que eu dizia numa atenção respeitosa que, na prática, me dava um trabalhão. Por ordem dele lá tive que andar às voltas com um súbdito a quem um crocodilo comeu uma perna e um segundo todo furadinho pelos cornos de uma pacaça: nenhum deles morreu o que colocou o meu prestígio nos píncaros. Mas voltando ao senhor Vicente e à minha pergunta

– Se está bem porquê tomar aspirina?

o senhor Vicente estacou e respondeu-me, em voz pousada, esta evidência

– Pelo sim pelo não

contra a qual, é óbvio, eu não tinha argumentos, e voltou, de imediato, ao tema da sua vida, isto é à sua paixão contrariada, que eu escutava num silêncio côncavo, a fim de que o seu sofrimento me coubesse inteiro na alma. Não há nada mais horrível do que o mal de amor e após meses a escutá-lo acabei por soltar uma breve frase de compreensão

– Ó senhor Vicente isso é chato.

Mal acabei a frase arrependi-me logo. O senhor Vicente estacou diante de mim a ruminar a minha opinião em silêncio, cara a cara comigo, meditando cada uma das minhas sílabas até me agarrar os dois braços com as mãos e me soprar na cara, baixinho, a mais lancinante frase que alguma vez escutei:

– É chato na medida em que se torna aborrecido.

No início desta prosinha falei em génio. E de facto quem é capaz de suportar o sofrimento com uma dignidade assim e resumi-lo com o poder de condensação de um espírito superior que merece entrar de imediato na galeria dos grandes conhecedores da alma humana:

– É chato na medida em que se torna aborrecido

resume, com extraordinária simplicidade e não menos extraordinário conhecimento uma boa parte das questões essenciais da vida. A frase é cegante de evidência: as coisas chatas são chatas na medida em que se tornam aborrecidas e basta aprofundar e conhecer a extensão do aborrecimento, entrar nele, vivê-lo, pesá-lo, tomá-lo por aquilo que é para se começar a dissolver a chatice. Há qualquer coisa em

– É chato na medida em que se torna aborrecido

(ele dizia borrêcido)

que tem a cristalina simplicidade da célebre fórmula de Einstein

E = mc2

ou, sei lá, do Teorema de Pitágoras

(o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos)

e o senhor Vicente merece estar ao lado dos raríssimos espíritos de síntese que nos dão a conhecer o mundo com a simplicidade óbvia dos eleitos. Quando o grande Laplace publicou o seu livro acerca das órbitas dos planetas, ofereceu um exemplar a Napoleão, Napoleão perguntou-lhe

– E Deus?

E Laplace respondeu

– Sire, não tive necessidade de introduzir essa hipótese

tornando-se ainda mais justamente célebre por isso mas não conseguiu alcançar, no meu modesto entendimento, a profunda análise que o senhor Vicente logrou:

– É chato na medida em que se torna aborrecido

constitui, a meu ver, uma descoberta inigualável que abre estradas novas para o desvendar do espírito humano. Tenho esperança que isto seja reconhecido para glória de Portugal, de Angola também, claro, e que esta fórmula entre, majestosa e única, na curta lista das sentenças essenciais que nos oferecem o mecanismo do Mundo e abrem amplas avenidas aos, até agora tortuosos, caminhos da Alma.

 

Crónica publicada na VISÃO 1282 de 28 de setembro

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publicado às 16:07


#2612 - Kazuo Ishiguro é o novo Prémio Nobel da Literatura 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.10.17

 2017 Nobel Prize in Literature

The Nobel Prize in Literature for 2017 is awarded to Kazuo Ishiguro"who, in novels of great emotional force, has uncovered the abyss beneath our illusory sense of connection with the world".

 

               Kazuo Ishiguro, escritor britânico de origem japonesa, 63 anos - nasceu na cidade de Nagasaki, Japão, fixando-se com a família no Reino Unido no início da década de 1960 - é novo Prémio Nobel da Literatura 2017.

               Destacou-se com os primeiros contos publicados na revista Granta, escreveu para cinema e televisão e é autor de canções. Com o livro "Despojos do Dia" venceu em 1989 o Booker Prize.

               A Gradiva tem seis livros do autor editados: Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize; adaptado ao cinema), Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize), Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize), Nunca me Deixes (2005, nomeado para o Booker Prize; adaptado ao cinema), Nocturnos (2009) e O Gigante Enterrado.

              As Colinas de Nagasaki foi editado pela editora de Francisco Vale - Relógio D'Água - em Abril de 1989.

 

 

 

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publicado às 15:26

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS (1845-1900)

 

"Nos finais do século XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena  e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.

 

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869, acompanhou o  seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egito para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações leem e releem. Três anos depois ingressou  na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muitos diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Émile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: «Fala-lhes um discípulo de Flaubert.»

 

Cada oração que Eça de Queirós  publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o  sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o  Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra, a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

 

No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."

 

TEXTO DE JORGE LUIS BORGES, DO LIVRO "BIBLIOTECA PESSOAL", PÁGINAS 23 E 24, EDIÇÃO QUETZAL, 2014

 

 

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publicado às 18:12


#2610 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.10.17

jorge luis borges024.jpg

 

 " Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e que gostaríamos de partilhar. Os textos dessa biblioteca íntima não são forçosamente famosos. A razão é clara. Os professores, que são quem dispensa a fama, interessam-se menos pela beleza do que pelos vaivéns e pelas datas da literatura e pela prolixa análise de livros que se escreveram para essa análise, não para o prazer do leitor.

 

A série que prologo e que já entrevejo quer dar esse prazer. Não escolherei os títulos em função dos meus hábitos literários, de uma determinada tradição, de uma determinada escola, de tal país ou de tal época.

 

«Que outros se gabem dos livros  que lher foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler», disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor.

Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. Sei que o romance não é menos artificial do que a alegoria ou a ópera, mas incluirei romances porque também eles entraram na minha vida. Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências.

 

María Kodama e eu errámos pelo globo da terra e da água. Chegámos ao Texas e ao Japão, a Genebra, a Tebas e, agora para juntar os textos que foram essenciais para nós, percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho.

Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. «A rosa é sem porquê», disse Angelus Silésius; séculos depois Whistler declararia «A arte acontece».

 

Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava."

 

PRÓLOGO ESCRITO POR JORGE LUIS BORGES IN BIBLIOTECA PESSOAL, PÁGINAS 7 E 8 - EDIÇÃO QUETZAL, 2014

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publicado às 20:20

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

A FELICIDADE

 

Há quanto tempo estamos juntos meu Deus, não era assim ao princípio, não foi assim durante algum tempo e depois, a pouco e pouco, isto, esta ideia de para quê que se irá eternizando a menos que ela lhe apeteça deixá-lo mas porquê deixá-lo tanto mais que ele não incomodava, ia durando por ali, não aborrecia, não fazia perguntas, quase não ocupava espaço

 

Olhou em volta, para a casa onde morava, e sentiu-se um estranho. Pensou

 

– Não vivo aqui

 

pensou

 

– Nunca vivi aqui

 

porque tudo lhe parecia insólito, móveis, bilelôs, jornais que não lia, até o quadro que lhe tinham oferecido era de outra pessoa, não sabia ao certo qual, aliás pouco lhe importava, considerava as coisas numa indiferença mansa conforme considerava o prédio do outro lado da rua, sem repugnância nem afecto, via janelas, cortinas, talvez as pessoas que ali morassem se sentissem bem, não as conhecia, passava os dias num quarto pequeno, a maior parte do tempo a observar a parede, sem sentir nada a não ser que era um inútil, perguntou-se para dentro

 

– O que faço eu aqui?

 

sem achar a resposta, também pouco lhe importava a resposta, deixara de se fazer perguntas, de imaginar outra vida, não lia os jornais no sofá porque não eram dele, não mexia em nada, não abria gavetas, dizia-se apenas

 

– O que faço eu aqui?

 

sem esperar resposta alguma, que respostas haveria, mesmo que houvesse respostas não acreditava nelas, aliás a mulher também não falava a não ser com os amigos, o telemóvel dela constantemente a tocar, entrava, saía, às vezes um sorriso rápido, às vezes sorriso nenhum, a maior parte das vezes sorriso nenhum, ia para a cama mais cedo do que ela que ficava diante da televisão interessada num programa qualquer, dantes conversavam, agora frases curtas a propósito de assuntos que esqueciam logo, levantava-se da cadeira, ia beber água à cozinha, tornava a sentar-se, não lhe apetecia sair, não lhe apetecia comer fora, o que podia contar sem interesse nenhum, durante o jantar a mulher falava com a filha, não falava com ele, assuntos que não lhe diziam respeito acerca de pessoas que não fazia ideia quem eram e ele calado a escutá-las, pensando

 

– E agora?

 

sem que agora nenhum lhe ocorresse, não se sentia amargo, não se sentia infeliz, sentia-se um cacto no vaso, sentia-se um estrangeiro, sentia-se sobretudo supérfluo, quem precisa de mim, quem se inquieta 
comigo, a quem faço eu falta e não fazia falta a ninguém, já não tinha pais, tinha um irmão ainda mas não se viam há meses embora morassem na mesma cidade, gostava do irmão, gostava da cunhada, ignorava se o irmão e a cunhada gostavam um do outro, pensava

 

– Se eu tivesse dinheiro

 

e se eu tivesse dinheiro o quê, alguns colegas ainda que lhe contavam a vida deles, perguntavam

 

– O que é que tu achas?

 

e ele, que não achava nada, inventando que achava, os colegas

 

– Pois é

 

dividiam a conta no fim, um aperto de mão e adeus, um ou outro

 

– Pareces esquisito

 

ele conseguia um sorriso

 

– Esquisito?

 

que não queria dizer nada, voltava para casa devagarinho cruzando-se com estranhos para quem não olhava e que não olhavam para ele, a pensar

 

– O que pode a minha mulher sentir por mim?

 

e de facto o que podia a mulher sentir por ele, não era um marido, era um hábito, uma cara a que se acostumara como às cadeiras ou à cama, mais nada, sou um objecto, uma jarra, uma dessas almofadas que dão cor aos sofás, uma certa cor aos sofás e acabou-se, há quanto tempo estamos juntos meu Deus, não era assim ao princípio, não foi assim durante algum tempo e depois, a pouco e pouco, isto, esta ideia de para quê que se irá eternizando a menos que ela lhe apeteça deixá-lo mas porquê deixá-lo tanto mais que ele não incomodava, ia durando por ali, não aborrecia, não fazia perguntas, quase não ocupava espaço, não queria mudar o canal da televisão, ficava no seu canto a trabalhar sozinho, traduzia livros técnicos com a ajuda de um dicionário, tomava um comprimido de oito em oito horas porque às vezes o coração se desviava, não gritava nunca, não discutia, aceitava os silêncios, talvez fumasse demais dado que às vezes a respiração se interrompia, mas não era gastador, não ligava ao dinheiro, não aborrecia ninguém, quando o chamavam para a mesa ia para a mesa, arrumava no lava-loiças os seus talheres, o seu prato, depois levantava-se, agradecia e sumia-se no cubículo com as suas traduções, o cabelo já branco, já ralo, as pernas menos rápidas, os movimentos mais lentos mas não se lamentava fosse do que fosse nem protestava nunca, faltava-lhe alegria mas a quem não falta alegria, um domingo tirou a mala do armário, abriu-a sobre a cama mas tornou a guardá-la sem meter fosse o que fosse lá dentro, sentou-se na sala, não no sofá, claro, numa cadeira pequena e ficou para ali de queixo na palma, sem exprimir nenhum desejo, à espera, sozinho, não se entendia de quê.

 

(Crónica publicada na VISÃO 1281, de 21 de setembro de 2017)

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publicado às 19:35


#2594 - Inês Pedrosa criou a sua própria Editora

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

 

Inês Pedrosa, escritora, é também editora. Acaba de montar a "Sibila Publicações", uma editora que vai priveligiar a escrita feita por mulheres.

Joumana Haddad e Maria Antónia Palla são as primeiras escritoras publicadas pela novíssima Editora.

 

 

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publicado às 07:46


#2589 - PRÉMIO PARA A PAZ GUSTAV HEINEMANN 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.09.17

ISABEL MINHÓS MARTINS - ESCRITORA

 BERNARDO P. CARVALHO - ILUSTRADOR

 

O livro «Daqui ninguém passa» escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo P. Carvalho venceu o Prémio Para a Paz Gustav Heinemann 2017, um dos mais importantes prémios alemães para livros infantis.

 

Criado em 1983, em homenagem às políticas de paz do presidente alemão Gustav Heinemann, o prémio, que tem o seu nome, é dado a livros que estimulem  a coragem moral, a tolerância e os direitos humanos.

 

"Daqui ninguém passa" foi publicado em língua alemã sob o título "Hier Kommt Keiner Durch" pela editora Klett, de Leipzig.

 

 

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publicado às 17:19


#2587 - Prémio Literário Oceanos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

A edição 2017 do prêmio Oceanos – realizado em parceria com o Itaú Cultural e com patrocínios do Itaú Unibanco, CPFL Energia e do governo de Portugal, por meio do Fundo de Fomento Cultural Português – é um marco na história das premiações literárias do mundo lusófono: a partir de 2017, o Oceanos ampliou sua abrangência para todos os livros publicados em língua portuguesa, em versão impressa e digital. 


O prêmio contempla cinco categorias – Poesia, Romance, Conto, Crônica e Dramaturgia. Podem ser inscritos quaisquer livros dessas categorias que tenham sido publicados em 2016. Isso significa que o Oceanos passa a ser o prêmio de maior alcance dentro da lusofonia, constituindo um instantâneo da produção editorial nos diferentes gêneros e traduzindo a cena literária de Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Brasil, onde o prêmio foi criado. Além disso, obras eventualmente editadas em língua portuguesa em países não lusófonos no ano de 2016 podem ser inscritas e concorrer à edição do Oceanos 2017, conforme o novo regulamento disponível neste site. 

 

Veja aqui os livros concorrentes

Clique aqui para baixar  a lista de livros concorrentes 

 

 

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publicado às 14:32


#2586 - Lista dos seis finalistas do "The Man Booker Prizes"

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

 

The 2017 shortlist: 

4 3 2 1 by Paul Auster (US) (Faber & Faber)
History of Wolves by Emily Fridlund (US) (Weidenfeld & Nicolson)
Exit West by Mohsin Hamid (Pakistan-UK) (Hamish Hamilton)
Elmet by Fiona Mozley (UK) (JM Originals)
Lincoln in the Bardo by George Saunders (US) (Bloomsbury Publishing)
Autumn by Ali Smith (UK) (Hamish Hamilton)

 

 

 

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publicado às 12:23


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28

TATANGA MANI (1871-1967)

 

"Éramos um povo sem leis, mas estávamos em muito boas relações com o Grande Espírito, criador e senhor de todas as coisas. Julgáveis vós, os brancos, que éramos selvagens. Não compreendestes as nossas orações. Não procurastes compreendê-las. Quando cantávamos os nossos louvores ao Sol, ou à Lua, ou ao Vento, dissestes que éramos idólatras. Sem compreenderdes, condenaste-nos como se fôssemos almas penadas, simplesmente porque o nosso culto era diferente do vosso.

 

Nós víamos a obra do Grande Espírito em quase todas as coisas: no Sol, na Lua, nas árvores, no vento, nas montanhas. Por vezes aproximávamo-nos dele por intermédio destas coisas. Que mal tinha isso? Penso que tínhamos uma crença sincera no ser supremo, e uma fé maior do que a de muitos dos brancos que nos chamavam pagãos... Os índios, ao viverem junto da natureza e do Senhor da natureza, não vivem na obscuridade.

 

Sabíeis vós que as árvores falam? Pois falam. Falam entre elas, e hão-de, se as escutardes, falar-vos a vós. O problema dos brancos é não ouvirem. Nunca aprenderam a ouvir os Índios; por isso estimo que não ouvem outras vozes da natureza. As árvores, porém, a mim ensinaram-me muito: umas vezes a respeito do tempo, outras vezes a respeito dos animais, outras ainda a respeito do Grande Espírito."

 

in "A Fala do Índio", de Teri C. McLuhan, página 25, edição da Fenda Edições, Outubro de 1996

 

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publicado às 17:54


#2574 - A Fala do Índio

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.09.17

 

a fala do índio010 (2).jpg

 

"A Terra foi criada com a ajuda do Sol, e deveria ser deixada como era... O país foi feito sem fronteiras, e não cabe ao homem dividi-la... Bem vejo os brancos enriquecerem pelo país fora, e vejo o desejo deles de nos darem terras sem valor... A terra e eu somos do mesmo espírito. A medida da terra e a medida dos nossos corpos são as mesmas. Dizei-nos, se a tal vos atreveis, que fostes enviados pelo Poder Criador para nos falardes. Julgais por certo que o Criador aqui vos enviou a fim de dispordes de nós como julgais legítimo. Se eu pensasse que fostes enviados pelo Criador, seria levado a julgar que teríeis o direito de dispor de mim. Não me entendias mal; procurai, pelo contrário, entender por completo a minha afeição pela terra. Eu nunca proclamei que a terra é minha, a fim de fazer dela o que me aprouvesse. Quem tem direito a dispor dela é quem a criou. Requeiro pois o direito de viver na minha terra, e a vós concedo-vos o privilégio de viver na vossa."

 

Hin-Mah-too-yah-lat-kekt (Chief Joseph), dirigente da tribo dos Nez Percé.  Do Livro «A FALA DO ÍNDIO», de Teri C. McLuhan, página 48, edição FENDA EDIÇÕES, Outubro de 1996.

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publicado às 19:11


#2568 - FEIRA DO LIVRO DO PORTO | 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.08.17

 

Feira do Livro do Porto

Feira do Livro do Porto, 1 a 17 Setembro 2017, Jardins do Palácio de Cristal,

programação de Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa

 

Dia 1

Uma máquina voadora movida por vontades (Saramago),  22h

spoken word por

André e. Teodósio, encenador, e Teatro Praga;

 

Dia 2

Clarice Lispector por Carlos Mendes de Sousa (lição, 12h);

Miguel Sousa Tavares, Frederico Lourenço e Ana Luísa Amaral conversam sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (19h);

 

Dia 3

José Luís Peixoto e Patrícia Reis conversam sobre o sagrado e o profano na literatura com moderação de João Paulo Sacadura (16h);

Han Kang, escritora coreana cujo romance, “A Vegetariana”, venceu o prestigiado Booker International de 2016, conversa sobre a sua obra com José Mário Silva (19h);

 

Dia 6

"Memorial do Convento" de Saramago por Carlos Reis (lição, 19h);

 

Dia 8

De Ana Hatherly a Tarkovsky (palavras, imagens e um fio de música) 21.30

por

Matilde Campilho (poeta)

Tomás Cunha Ferreira (artista plástico e músico)

Mariano Marovatto (poeta e músico)

Anastasia Lukovnikova (cineasta)

 

Dia 9

Sophia de Mello Breyner por Ana Luísa Amaral (lição, 12h); 

A escritora brasileira Tatiana Salem Levy conversa com a portuguesa Dulce Maria Cardoso (que estará lançando um novo livro) sobre a importância da literatura num mundo à beira do abismo — ou da salvação. Mediação de Raquel Marinho (15h);

Que mistérios tem Clarice? 

spoken word, 21.30, por

Carlos Mendes de Sousa (selecção de textos)

Ana Vidigal (imagem)

Marta Hugon (a dizer e a cantar)

Filipe Raposo (piano)

 

Dia 10

Teju Cole conversa com Isabel Lucas (16h);

Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida conversam sobre a  construção e a reinvenção da memória, com mediação de Carlos Vaz Marques (19h);

 

Dia 13

"A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, por Clara Rowland

(lição, 19h);

 

Dia 16

David Mourão Ferreira por Fernando Pinto do Amaral (lição, 12h);

Laurent Binet conversa com Ana Sousa Dias (19h);

 

Dia 17

"Húmus" de Raul Brandão por Maria João Reynaud (lição, 12h);

Alexandra Lucas Coelho e Gonçalo M. Tavares conversam sobre o  corpo e o mal, com moderação de Luís Caetano (19h);

 

 

"Num mundo em convulsão, atormentado por grandes e imprevistas mudanças, e em busca de novos caminhos e ideais, a literatura tem um papel cada vez mais importante: o de promover o debate e pensar o futuro. Para esta edição da Feira do Livro do Porto iremos trazer um conjunto de escritores de grande relevância a nível internacional e no espaço da lusofonia, os quais irão discutir entre si, e com os leitores presentes, temas como a construção e a reinvenção da memória, a instalação do mal, ou o lugar do sagrado e do profano na literatura e na sociedade.

Iremos ainda recordar e homenagear Sophia de Mello Breyner e Júlio Diniz.

A nossa intenção é criar um Porto de Ideias, um lugar de encontro de escritores e pensadores, dando assim continuidade a uma tradição de cosmopolitismo e de partilha, característica da natureza de todas as antigas urbes portuárias.

José Eduardo Agualusa"

 

"Para explicar o modo como pensei alguns eventos da Feira do Livro do Porto (1 a 17 Set), socorro-me do maravilhoso trabalho, feitas de palavras desenhadas, de Ana Hatherly. Há nele uma forma que não é definitiva, que está em mutação, como que levada pelo vento; e, nesse movimento, contagia, assume novas configurações, incorpora um saber e uma relação que vem com os outros. Aprender é isto. Aprender implica uma dinâmica, uma abertura, a contaminação. Uma nova realidade que é criada, distinta da precedente, algo que nos faz ser outros e em que intervimos. Há elementos especialmente activos nesta metamorfose. Poetas, palavras, imagens, uma evocação, a música. Princípios, partículas essenciais, que nos levam, implicam, transformam. E intérpretes (aventurosos) que prolongam o movimento, desafiam limites, convocam outros e ainda outros. Tudo parte de uma matéria orgânica.

Nas sessões de spoken word, a palavra é dita, literalmente, mas está longe de se esgotar no dizer; ao invés, ela é apropriada pela imagem, pelo som, pela diversidade linguística e de suportes. Trazemos Clarice, Saramago, vamos de Hatherly a Tarkovsky.

Nas lições, recordamos os 30 anos da partida de Carlos Drummond de Andrade (e analisamos o seu mais famoso poema, A Máquina do Mundo), os 40 anos da morte de Clarice Lispector, David Mourão Ferreira que faria 90 anos, se fosse vivo, os 35 anos da invenção de uma máquina que voa movida por vontades ("Memorial do Convento") e Sophia, a autora homenageada na Feira, fada-menina-musa-tudo.

Anabela Mota Ribeiro"

 

A Feira do Livro do Porto conta ainda com um ciclo de cinema, exposições, discussões, entre outras iniciativas. 

 

A INFORMAÇÃO SOBRE A FEIRA DO LIVRO DO PORTO FOI RETIRADA DO "SÍTIO" DA ANABELA MOTA RIBEIRO

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publicado às 09:10


#2566 - Com olho de peixe

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

 

 

"Acredito no rio Amazonas desde que eu era menino. Meu pai foi quem primeiro me falou dele. Disse que sua largura era tamanha que o lado de lá não se via. Eu, acostumado a pescar lambaris em ribeirões e riachinhos, ouvia ele dizer que o rio maior que tinha visto, o Grande, perto do Amazonas não passava de um mijinho de menino. No Grupo decorei e recitei feito poesia os nomes dos afluentes dele: Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu. Aprendi também sobre a pororoca, briga que o rio perde sempre, porque o mar é maior do que ele. Assim é a vida: o mar tem sempre a última palavra... Mas o que me fascinava mais, mesmo, era a notícia de uma planta de folha tão grande que nela se podia deitar uma criança. Tudo era assombroso.

 

Acreditei sem nunca ter visto, só de ouvir dizer. Acreditei tanto que cheguei mesmo a viajar para lá para ver o rio. Quem vai é porque acreditou. E vi com estes olhos, e quando o quero rever releio o poema de Heládio Brito:

 

Eu vim de ver o rio

o frouxo ir das águas,

pesadas delas mesmas,

grossas das lonjuras vindas

no irem sendo rio.

Líquido boi cansado

carregado de peixes,

trabalha o rio

para os homens da margem,

que ao suado lombo lhe fustigam

com seus anzóis e redes...

 

Cheguei mesmo a navegar nas suas águas, se atravessar de balsa é navegar. Não, não é não. Quem navega com a cabeça fora d'água nada sabe. É preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. Mas, para isso, serai preciso que fôssemos como os peixes. O Guimarães Rosa amava tanto os rios que desejava, numa outra encarnação, nascer crocodilo. Nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. Os crocodilos os conhecem nas funduras. Nas funduras os rios são escuros e tranquilos como os sofrimentos dos homens. Essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranquilos.

 

Aí ele diz uma coisa inusitada: que o rio é palavra mágica para conjugar eternidade. Eu havia aprendido o contrário, que o rio é palavra para conjugar tempo. Pelo menos foi assim  que ouvi de Heráclito, o filósofo: "tudo flui, nada permanece, tudo é rio..."

 

Mas lendo as Escrituras Sagradas percebi que certo estava o João: "a eternidade mora no fundo das águas, no fundo do tempo". Quando Deus quis fazer artes mágicas com Jonas, jogou-o no mar, onde um peixe o aguardava de boca aberta, e por três dias ficou na fundura das águas, como feto na barriga da mãe, até que se transformasse em profeta. O que não é muito diferente das metamorfoses que fazem um poeta - portanto confirmado pela Cecília Meireles e pelo T.S. Eliot que afirmam que, para fazer poesia, é preciso ter olhos de peixe. Não é por acaso, portanto, que o ritual mágico para transformação do velho em criança, a que se dá o nome de "batismo", siga a metáfora do afogamento e do nascimento: o adulto é mergulhado, de corpo inteiro, nas águas de um rio: o velho que mergulha morre; a criatura que sai das águas é menino.

 

Não é por acaso, portanto, que o peixe seja, a um tempo, símbolo poético e símbolo profético: é que ele nada nas funduras do tempo, onde a eternidade gera os seus milagres.

 

Na superfície do rio é o tempo que flui, sem parar. Assim estava escrito nos carrilhões antigos, aqueles relojões enormes de pêndulos sem pressa: tempus fugit - o tempo passa, a vida vai se perdendo nas águas do nunca mais. Resta então a saudade sem remédio, caso tenha havido amor e alegria. A festança ao fim do tempo só se justifica se amor não houve, nem alegria. A perda da coisa amada não pode ser festejada. Só pode ser lamentada.

 

Mas pensando no que dizem os poetas e profetas, eu me descubro transformando o choro em riso: os que semeiam com lágrimas com alegria ceifarão, pois Deus é o rio mostrando as suas entranhas. No fundo, na eternidade, as águas correm ao contrário, disso sabem os peixes, que nadam contra a correnteza - a alma também; na superfície a gente nasce nenezinho, tempus fugit e a gente fica adulto, tempus fugit e a gente fica velho, tempus fugit e a gente morre. Nas funduras, onde mora a eternidade, é ao contrário. Primeiro é a velhice. Aí tempus fugit , a gente vira menino.

 

Deus começa sempre pelo fim. Nas Escrituras Sagradas o dia começa com a tarde e termina com a manhã. Está escrito no poema da Criação: "E foi a tarde e a manhã do primeiro dia..." O sol se põe, mais um dia se inicia. O fim é o lugar do começo.

 

Ao recitar as estações do ano a gente, automaticamente, diz: primavera, verão, outono, inverno. Mas lendo D. Miguel Unamuno percebi que isso não está certo. O tempo é uma roda. Se nas Escrituras o dia começa com a tarde, no ano as estações podem muito bem se iniciar com o inverno. Inverno, primavera, verão, outono... O inverno é a infância do ano. No seu silêncio profundo a primavera está em gestação... No silêncio do fim moram os começos. No silêncio da velhice mora a infância...

 

Tem gente que acredita em Deus com firmeza, do jeito mesmo como eu acreditava no rio Amazonas, por ouvir dizer - chegando a discorrer com autoridade, invocando teologia e dogma, feito o meu pai, que ensinava sem nunca ter ido ou visto. Não mergulha, por medo de se afogar. Agora eu acredito em Deus como crocodilo ou peixe, para me des-afogar... Eu preciso dele para o tempo andar ao contrário. E é assim que eu o imagino, como um pescador que vai lançando nas águas do tempo as redes da eternidade, para pescar tudo aquilo que foi amado e que se perdeu. Para nos devolver. É o "eterno retorno". É a "ressurreição dos mortos". É a primavera nascendo do inverno. É a criança nascendo do velho.

 

Isso eu desejo do ano novo, criança nascida do velho; que eu seja mais criança do que fui."

 

 VER BIOGRAFIA DE RUBEM ALVES »»»»

 

CRÓNICA DE RUBEM ALVES PUBLICADA NO LIVRO "SOBRE O TEMPO E A ETERNIDADE", EDIÇÃO DA PAPIRUS, SPECULUM, 1995, BRASIL.

 

 

 

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publicado às 10:57


#2561 - 16 BIBLIOTECAS DIGITAIS, UMA SUGESTÃO DA REVISTA "BULA"

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.08.17

POR JÉSSICA CHIARELI

 

A revista "BULA" elaborou uma lista de 16 Bibliotecas Digitais:

 

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publicado às 22:30


#2550 - VEM TROVÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

CHRISTOPHER OKIGBO (1932-1967)

 

VEM  TROVÃO

 

Agora que a marcha triunfante entrou nas últimas esquinas da rua,

Recordai, ó dançarinos, o trovão entre as nuvens...

 

Agora que a gargalhada, partida em duas, trémula, está suspensa nos dentes,

Recordai, ó dançarinos, o relâmpago além da terra...

 

O cheiro do sangue já flutua na neblina que, na tarde, cheira a lavanda.

A sentença de morte está emboscada nos corredores do poder;

E uma enorme coisa pavorosa é já arrastada pelos cabos do ar livre,

Uma névoa imensa e incomensurável, uma noite de águas profundas -

Um sonho de ferro que não pode ser nomeado nem impresso, uma vereda de pedra.

 

As cabeças sonolentas das vagens em quintas maninhas testemunham-no,

As casa abandonadas no matagal durante o fogo deste século testemunham-no:

Os múltiplos olhos de maçarocas de milho abandonadas em celeiros ardidos testemunham-no:

Pássaros mágicos com o milagre do relâmpago nas suas penas...

 

As setas de Deus tremem nos portões da Luz,

Os tambores do recolher prestam-se a uma doença de morte;

E a coisa secreta no seu impulso

Ameaça com máscara de ferro

A última torcha alumiada do século...

 

POEMA DO POETA NIGERIANO CHRISTOPHER OKIGBO, TRADUZIDO POR JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

 

_________________________________________________________________________________________________

Christopher Okigbo nasceu na pequena vila de Ojoto, nos arredores de Onitsha no sudeste da Nigéria, em 1932. Seu pai era professor de uma escola católica, no auge do domínio britânico da região. O jovem poeta cresceria sob a influência de seu pai, católico fervoroso, e a de seu avô, um sacerdote da deusa das águas Idoto, personificada no rio de mesmo nome que corre na região de sua infância. Idoto seria a deusa invocada naquele que é o mais famoso poema de Christopher Okigbo, "The passage", aqui traduzido como "A passagem", mas também conhecido como "Heavensgate". Este sincretismo religioso pode ser sentido com força em seu poema, que inicia com a invocação a Idoto, para logo em seguido invocar Ana, que em comentários críticos sobre o poema tem sido identificada como a santa do catolicismo. Christopher Okigbo viria a se formar na mesma universidade em que estudaram o conhecido romancista nigeriano Chinua Achebe (n. 1930) e o poeta Wole Soyinka (n. 1934), ganhador do Prêmio Nobel de 1986, de quem Okigbo foi amigo.

 

Começou a publicar poemas na revista Black Orpheus, dedicada ao trabalho de poetas africanos e afro-americanos. Seus poemas seriam reunidos postumamente no volume Labyrinths (1971). Christopher Okigbo morreu em 1967, com apenas 35 anos, lutando na guerra pela independência da República de Biafra (1967 - 1970), região separatista que permaneceria parte do território nigeriano.
 
A poesia de Okigbo é hoje considerada uma das mais importantes obras da poesia africana pós-colonial. Ainda que críticos nacionalistas o tenham criticado por adotar a língua inglesa, o poeta parece apropriar-se da língua do colonizador para implantar uma consciência mítica que só pode ser totalmente compreendida através da poética mística e vocal dos poetas africanos. Para nossa sensibilidade cristã, algo da poesia de Okigbo pode parecer alinhar-se a poetas como o W.B. Yeats do volume The Tower (1932) ou o T.S. Eliot de Choruses from "The Rock"(1934), mas a mim me parece que um dos poetas de língua inglesa com quem poderíamos traçar paralelos interessantes, passando pela poética de Christopher Okigbo, é o norte-americano Robert Duncan (1919 - 1988), de livros como The Opening of the Field (1960) e Bending the Bow (1964).
 
Christopher Okigbo nasceu em 1932, o que o faz contemporâneo de brasileiros como Ferreira Gullar (n. 1930) e Augusto de Campos (n. 1931). Sua poética, porém, visionária e mística, talvez o ligue mais a um brasileiro como Roberto Piva (n. 1937). A experiência da leitura de seus poemas, contudo, parece-me de uma beleza bastante singular.



--- Ricardo Domeneck

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publicado às 21:32


#2543 - CASARIO E FIGURAS DE UM SONHO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.08.17

Casario e Figuras de um Sonho - Dominguez Alvarez

 

Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.

Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.

Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias

e dos movimentos.

 

Fernando Pessoa in «Poemas Ocultistas»

(Selecção e Glosa de Petrus - O. C., 2.º v., p.262),

C.E.P., s/d (p.43)

Retirado do Catálogo "Azares da Expressão ou a Teatralidade na Pintura Portuguesa - Algumas obras do CAM

 

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publicado às 21:38


#2535 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.07.17

"O inferno é branco; o homem e a criança são negros; uma das mulheres é da família das liliáceas, cor de jacinto azul, a outra é da cor das magnoliáceas, em tom de magnólia branca: os seus números são de cor de papoila, a sua água é verde.

O nome da minha chita é de ouro e a nossa memória anímica banha-se nua no cântico do leite reluzente.

O basalto permanece sombrio."

 

PREÂMBULO DO LIVRO "CÂNTICO DO CRIME" DE JOËLLE GHAZARIAN, PÁGINA 15, EDIÇÃO QUASI, SETEMBRO DE 2007

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publicado às 18:58

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava

A escritora Gertrude Stein insistia com os jovens escritores americanos de quem era protectora, Hemingway, Fitzgerald, tantos outros, da importância que teria para eles viverem em Paris. A sua explicação era simples:

– Não é tanto o que Paris dá

(insistia ela)

é o que Paris não tira. Esta frase traz-me sempre à ideia a pergunta que Alexandre Dumas

(gosto de Alexandre Dumas)

faz no seu diário:

“Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”

Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir que só pode ser um problema de educação. Por exemplo os desenhos das crianças em geral são magníficos, os dos adultos, excepto no caso de serem artistas de talento, uma bodega. Claro que é um problema de educação: uma criança criativa é herética e subversiva

(até rima, olha)

e claro que isso assusta os professores que exigem dos alunos uma normalização que conduz inevitavelmente à mediocridade que tanto tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa, um ordenado simpático, filhos bem educados. Claro que admitimos Gauguin ou Mozart desde que não façam parte da família. Em geral as famílias defendem-se criando um maluquinho. Todas têm aquilo que consideram o maluco da família e, quando o maluco, por qualquer motivo, deixa de o ser, apressam-se a arranjar outro antes que a estrutura se desagregue. Não há nada que assuste mais as pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença. A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza. Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles. Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas

– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?

não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos porque matámos o máximo de crianças que perdemos quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo.

 

Crónica publicada na VISÃO 1272 de 20 de julho

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publicado às 17:42


#2533 - PRÉMIO LITERÁRIO THE MAN BOOKER PRIZE 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.07.17

Foi hoje anunciado pelo júri do The Man Booker a lista dos 13 nomeados ao galardão.

O vencedor só será conhecido no dia 17 de Outubro.

 

The longlist, or ‘Man Booker Dozen’, for the £50,000 Man Booker Prize is announced today.

This year’s longlist of 13 books was selected by a panel of five judges: Baroness Lola Young (Chair); literary critic, Lila Azam Zanganeh; Man Booker Prize shortlisted novelist, Sarah Hall; artist, Tom Phillips CBE RA; and travel writer, Colin Thubron CBE.

The list was chosen from 144 submissions published in the UK between 1 October 2016 and 30 September 2017.

The Man Booker Prize for Fiction, first awarded in 1969, is open to writers of any nationality, writing in English and published in the UK.

 

The 2017 longlist, or Man Booker ‘Dozen’, of 13 novels, is:

Title Author (nationality) (imprint)

 

4 3 2 1 by Paul Auster (US) (Faber & Faber)


Days Without End by Sebastian Barry (Ireland) (Faber & Faber)


History of Wolves by Emily Fridlund (US) (Weidenfeld & Nicolson)


Exit West by Mohsin Hamid (Pakistan-UK) (Hamish Hamilton)


Solar Bones by Mike McCormack (Ireland) (Canongate)


Reservoir 13 by Jon McGregor (UK) (4th Estate)


Elmet by Fiona Mozley (UK) (JM Originals)


The Ministry Of Utmost Happiness by Arundhati Roy (India) (Hamish Hamilton)


Lincoln in the Bardo by George Saunders (US) (Bloomsbury)


Home Fire by Kamila Shamsie (UK-Pakistan) (Bloomsbury)


Autumn by Ali Smith (UK) (Hamish Hamilton)


Swing Time by Zadie Smith (UK) (Hamish Hamilton)


The Underground Railroad by Colson Whitehead (US) (Fleet)

 

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publicado às 17:24

 

Jorge Amado e José Saramago - Com o Mar por Meio é uma curta mas tocante troca de inconfidências e agrados entre dois dos maiores autores da língua portuguesa do século XX. A reunião e seleção da correspondência será lançada oficialmente na sexta-feira, já madrugada de sábado em Portugal, na Casa José Saramago, em Paraty, cidade sede da FLIP, feira internacional de literatura que começa hoje. Paloma Jorge Amado, filha do escritor brasileiro, e Pilar del Río, mulher do autor português, estão à frente da iniciativa.

 

NOTÍCIA RETIRADA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

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publicado às 13:28


#2530 - PRONTO (Crónica de António Lobo Antunes)

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.07.17

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E PRONTO

Escrever é também isso: prazer e alegria e a minha ingénua vaidade de então, eu que não estava preparado para o sucesso nem sabia o que fazer com ele

Susa Monteiro

Eu não tenho computador, não tenho telemóvel, não tenho cartão de crédito, não tenho carro, resumindo: sou todo meu. Estou aqui sentado nesta cadeira a escrever esta crónica, cheio de vontade de voltar para o livro que ainda não parou de me trazer problemas. Do ponto de vista técnico é muito difícil, o material não cessa de crescer, estou mais ou menos a meio da primeira versão o que significa que, trabalhando as minhas doze horas diárias habituais, talvez a acabe lá para o fim do ano se nada especial acontecer na minha vida que me impeça de rabiscar. Não sei porque me meti neste livro, quer dizer sei mais ou menos: foi ele que se meteu em mim. Tinha acabado o livro anterior, estava à espera, vazio, e apareceu este primeiro depressa, depois devagar, depois depressa outra vez quando os vários elementos principiaram a juntar-se, depois devagar de novo à medida que ia crescendo. Tem vinte e cinco capítulos, acabei a primeira versão do décimo segundo hoje, queria começar a ocupar-me do décimo terceiro mas tenho de fazer estes textinhos para a revista. É horrível passar para um ritmo completamente diferente, dizer coisas levezinhas a fim de distrair as pessoas e o livro à espera, furioso comigo. Tenho sempre medo de não conseguir acabá-lo, precisa de tantas correções. É uma coisa estranha, um livro: quando tudo está a correr bem anda sozinho e de repente pumba, pára e lá fico eu à espera que ele decida continuar. Quando menos espero engrena de novo. Às vezes pergunto-me de onde é que isto vem e ignoro a resposta. Vem de um sítio qualquer, muito escondido, lá no fundo, uma espécie de cave confusa onde as palavras se organizam apesar de mim. Acho que o livro está lá todo à espera do momento de se realizar sozinho. Quer dizer não é bem assim: umas vezes organiza-se por si, outras necessita que eu seja criada para todo o serviço. Mas é fascinante vê-lo crescer, modificar-se, estruturar-se, é fascinante fazê-lo crescer, modificá-lo, estruturá-lo. Que me lembre escrevi o primeiro romance aos sete ou oito anos. Tinha quatro páginas e custou-me como o diabo. Claro que o queimei na figueira da casa dos meus pais onde queimava tudo. Os meus pais sabiam o que eu andava a fazer mas nunca me perguntaram fosse o que fosse. Enquanto eu escrevia o João estudava. Também nunca me perguntou nem eu lhe disse. Para quê? Era tão óbvio para mim que me faltava imenso caminho mas a certeza que ia ser o melhor dava-me força. Apesar de ser humilde, porque só se pode escrever sendo humilde, não tinha qualquer dúvida acerca disso. E era horrivelmente consciente das minhas múltiplas imperfeições. E depois, quando me levavam de férias com os meus irmãos, enchia um saco de livros para aprender. Fazia exercícios: escrevia à maneira deste, à maneira daquele, lia imensos romances maus, com os quais se aprende melhor que com os romances bons porque nesses não se vêem os pregos do reverso do cenário, o que há, como dizia Pascoaes, da aparição no seio da aparência. E continuava a queimar tudo, não revoltado, não zangado, porque era óbvio para mim que aquele era o caminho e que tinha de ser paciente e continuar a mamar. Não conhecia ninguém que escrevesse, nada sabia de literatura, estava completamente só. É terrível isto, durante um livro está-se completamente só. Quando me perguntavam o que queria ser não respondia porque não queria ser, já era. Só me faltava ser mas já era. E depois ia aprendendo com todos até que, aos dezassete ou dezoito anos, tive um encontro decisivo ao ler Antoine Blondin, escritor francês hoje praticamente esquecido, não é verdade, hoje esquecido, e que abriu, dentro de mim, uma porta que eu sabia que tinha. Nem sequer éramos parecidos no que ele fazia e eu tentava fazer, mas sendo tão diferente dele Antoine Blondin foi o meu encontro decisivo. Não sei bem em quê: talvez na luta pela liberdade interior. Num dos seus livros, falando da mãe, Blondin conta que ela costumava dizer: não tenho fé mas tenho tanta esperança. Esta frase foi muito importante para mim. Tanta esperança. E uma frase de Bernanos que nunca mais esqueço, e os três grandes poemas de Cendrars. Armado deste material as coisas foram-se tornando, a pouco e pouco, menos penosas. E depois a guerra. E depois a vinda da guerra. E depois, finalmente, a Memória de Elefante que nunca li nem deixava que traduzissem. O Christian Bourgois lá me convenceu e então olhei algumas páginas em francês. Para um primeiro livro achei-o do caraças mas já nada tinha a ver com o que eu fazia então. No entanto gosto dele sobretudo porque me recorda quanto me vi à brochinha para o compor, numa época da minha vida em que sofria muito por razões que não vêm ao caso nem vou maçar o leitor com isso. 
O Zé Cardoso Pires dizia-me: é preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer. Mas gostaria que o leitor tivesse prazer com menos sofrimento da minha parte. Escrever é também isso: prazer e alegria e a minha ingénua vaidade de então, eu que não estava preparado para o sucesso nem sabia o que fazer com ele. Ainda não sei muito bem. Lembro-me sempre de Mozart depois de tocar na corte francesa, aos cinco anos. Toda a gente aplaudiu muito no fim e ele foi a correr para o colo da rainha, por acaso Maria Antonieta, saltou-lhe para os joelhos e pediu-lhe

– Gosta de mim.

E pronto, acho que estou no fim da crónica. Espero não os ter aborrecido muito. Agora vou até lá dentro sentar-me na sala a olhar para nada. Como dizem os parvos muito obrigado por este bocadinho. Fim

 

(Crónica publicada na VISÃO 1271, de 13 de julho de 2017)

 

 

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publicado às 15:48


#2526 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.07.17

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 JUAN RULFO (1917-1986)

 

"Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-he que viria vê-lo quando ela morresse.  Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo. "Não deixes de ir visitá-lo", recomendou-me. "Chama-se assim e assado. Tenho a certeza de que gostará de conhecer-te." Na altura nada mais pude fazer para além de lhe dizer que sim, que o faria, e de tanto lho dizer, continuei a dizê-lo mesmo depois do trabalho que as minhas mãos tiveram para se afastar das suas mãos mortas. Imediatamente antes, dissera-me:

- Não lhe vás pedir nada. Exige-lhe o que nos pertence. O que me devia ter dado e nunca deu... O esquecimento a que nos votou, meu filho, cobra-lho caro.

- Assim farei, mãe.

Mas não pensava cumprir a minha promessa. Até ter começado, há muito pouco , a encher-me de sonhos, a dar asas  às ilusões. E assim se foi formando um mundo em torno da esperança que era aquele senhor chamado Pedro Páramo, o marido da minha mãe. Por isso vim a Comala." (...)

 

Excerto do livro de Juan Rulfo "Pedro Páramo", página 19 - Edição Cavalo de Ferro, Junho de 2017

 

 

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publicado às 16:12


#2519 - FLIP - Festa Literária Internacional do Paraty

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.07.17

  

FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty - 15ª Edição - um dos grandes acontecimentos culturais do Brasil vai ter lugar em Paraty de 26 a 30 de Julho.

Frederico Lourenço participa da Flip 2017

 

VER PROGRAMAÇÃO AQUI

 

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publicado às 20:00

 

Não há como excluir de um cânone mínimo Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, na prosa, e Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, na poesia.
 

Como escrevo sobre livros, leitores de vários Estados estão sempre pedindo indicações de obras “literárias importantes”. Por isso, de vez em quando, publico algumas listas comentadas. Há solicitações difíceis de atender: “Quais os três maiores romancistas brasileiros?” e “Quais os três maiores poetas brasileiros?”

 

Evidentemente, não há só três grandes romancistas e três grandes poetas. Há poetas, por exemplo, que, mesmo não figurando entre os maiores, escreveram poemas belos e emblemáticos. Vinicius de Moraes é, certamente, um deles, assim como Gregório de Matos Guerra, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Mário Faustino, Oswald de Andrade, Afonso Felix de Sousa, Lêdo Ivo, Raul Bopp, Cecília Meirelles, Mario Quintana, Adélia Prado, Haroldo de Campos, José Paulo Paes, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Ruy Espinheira Filho, Heleno Godoy, Ronaldo Costa Fernandes (poeta e prosador), Nelson Ascher e Régis Bonvicino.

 

Mas ninguém, ao elaborar uma lista com os três maiores poetas, terá a ousadia de excluir Carlos Drummond de Andrade, o Sol da poesia patropi, João Cabral de Melo Neto, o T. S. Eliot verde amarelo, e Manuel Bandeira. Este menosprezava, de maneira irônica e, quiçá, falsa modéstia, sua poesia — que seria “menor”. Usando a “dica”, pode-se dizer que a grande poesia de um país é formada por vários poetas menores que também, eventualmente, escreveram poemas maiores. É possível sugerir, ainda, que são os menores que colocam as escadas para poetas como Drummond de Andrade e João Cabral se tornarem gigantes.

 

 

 

IN "REVISTA BULA"

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publicado às 07:53

 

 

Um bom livro não se torna um marco na literatura apenas pela qualidade da narrativa e estilo empregado pelo autor. O contexto em que a história está inserida e o impacto para a sociedade também são indicadores seminais. Pensando nisso, a Bula realizou uma enquete com leitores para descobrir quais são os livros mais representativos em 20 países, de quatro continentes, escolhidos aleatoriamente. As obras mais votadas foram organizadas em uma lista de acordo com o país de origem. É importante salientar que listas são sempre incompletas e idiossincráticas, não sendo possível incluir todos os livros e autores relevantes em uma única seleção. Como critério principal para a escolha deveria prevalecer o impacto causado pela obra e a capacidade de influenciar novas gerações de autores e leitores. Também deveria ser votado apenas um livro por país. O resultado não pretende ser abrangente ou definitivo e corresponde apenas à opinião dos participantes da enquete. As sinopses foram adaptadas das editoras Companhia das Letras, Alfaguara, Record, José Olympio, Bertrand, 34, Martin Claret e Zahar.

 

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publicado às 19:53

 José Rentes de Carvalho

 

PRECE DE UM TRANSMONTANO

 

(Crónica de José Rentes de Carvalho publicada na Revista Visão)

 

Mas se Trás-os-Montes, aparentemente, se acomoda ao seu destino, não se rebela nem queixa, sofre ser tratado como o parente mais pobre e desamparado de uma nação ingrata

 

Ter opiniões e saber doseá-las de acordo com os sentimentos vigentes, além de ajudar à paz de espírito facilita o ganho de uma aura de sabedoria e boa reputação. O que vai contracorrente arranja lenha para se queimar.

 

Bem me avisaram: se era meu intento escrever sobre Trás-os-Montes, levasse em conta que o caminho seguro seria não me desviar dos trilhos, carreiros e atalhos de cabras que gente de nome tinha palmilhado; referir de permeio uma ou outra citação mais saliente sobre a imponência ciclópica do fraguedo, a majestade das arribas, a emoção que causa recordar a temerosa correnteza que era o Douro, antes de ser domado pelas barragens.

 

Nesse quadro caberiam também saudosas referências ao cheiro da urze, ao chiar dos carros de bois, ao porte imponente do gado de Miranda e, aqui e ali, como nos instantâneos da saudosa fotografia a preto e branco, salpicar imagens das velhinhas que, sentadas à porta, se vêem a fazer um inútil croché, sorrindo as boas-horas a quem passa.

 

Nada contra. O conselho era avisado, boa a intenção, se de alguma forma pecava era por esperar que com os meus olhos, sentimentos, e a memória que tanto me faz repisar, eu, embora sem de todo fazer tábua rasa das recordações e vivências, desse pelo menos um jeitinho. Limasse as arestas, não forçasse o desespero, concedesse como é grande a diferença entre o hoje e o trágico ambiente que foi o da província transmontana no tempo da minha infância e adolescência.

 

Não me custa fazer mea culpa, pois sei bem onde e porque razões exagero, quais são as dores, minhas e alheias, que me ensombram a paisagem que a outros aparece colorida, rica em matizes, quiçá mais conforme à da realidade. Todavia, quando assim procedo, não o faço com o desejo de criticar, diminuir ou sonhar impossíveis, mas tão-só para que fique testemunho, com esperança de que as desigualdades e os sofrimentos se tornem história.

 

 

 

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publicado às 19:35

 

 

THIAGO RODRIGUES BRAGA VENCE PRÉMIO LITERÁRIO UCCLA

O brasileiro Thiago Rodrigues Braga venceu a segunda edição do Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa, com a obra Diário de Cão. A menção honrosa do prémio foi atribuída ao livro de poemas Asa Norte, da também brasileira Rafaela Nogueira Barbosa.

Promovido pela União das Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), com a colaboração da editora A Bela e o Monstro e do Movimento 2014, a distinção, destinada a obras inéditas de ficção ou poesia em língua portuguesa, foi lançado em 2015.

A esta segunda edição candidataram-se 520 obras enviadas por autores dos diversos países de língua oficial portuguesa. Ao poeta e ensaísta António Carlos Cortez coube selecionar uma dezena de obras para posterior apreciação do júri composto por António Carlos Secchin (Brasil), Germano de Almeida (Cabo Verde), Inocência Mata (São Tomé e Príncipe), Isabel Alçada (Portugal), José Luís Mendonça (Angola) José Pires de Laranjeira (Portugal), João Lourenço, em representação da Biblioteca Nacional de Angola, João Pinto Sousa, pela editora A Bela e o Monstro, e Rui Ávila Lourido, coordenador cultural da UCCLA.

 

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publicado às 23:02

 JUAN RULFO (1917-1986)

 

A Editora Cavalo de Ferro vai reeditar os três livros escritos pelo escritor mexicano Juan Rulfo na década de 50 do século passado e que marcaram para sempre a literatura mexicana.

 

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publicado às 19:33


#2476 - CRÓNICA DO MENINO DE PAR DE ESTALOS [ANTÓNIO LOBO ANTUNES]

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.06.17

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Devia ser um chato para os outros e era também um chato para mim. Tirando escrever não me apetecia mais nada, e as pessoas eram todas tão óbvias. Portanto fui um aluno péssimo, uma criança esquisita, uma entidade insólita e sofria como um cão com isso. Seguiu-se a pavorosa chumbada do liceu, sem ligar nenhuma às aulas, com notas miseráveis. Como num instante metia meia dúzia de noções no caco aos dezasseis anos matricularam-me na Faculdade de Medicina

A minha relação com a minha mãe foi sempre difícil. Começou logo com o meu nascimento

(sou o filho mais velho)

quando a pus à morte com uma eclampsia

(contava que disse ao meu pai

– Vou morrer

e que o meu pai lhe respondeu

– O que é que queres que eu faça?

 

 

 

CRÓNICA DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES - REVISTA VISÃO, 29 DE JUNHO DE 2017

 

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publicado às 17:43


#2450 - MARGARET ATWOOD

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.17

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Desejar conhecer o escritor porque se gosta da sua obra é o mesmo que querer conhecer o ganso porque se gosta de "foie gras".

 

Margaret Atwood

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publicado às 18:33


#2441 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.17

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. A mulher-Sem-Cabeça - onde está ela?

 

A mãe avança sozinha, já sem cabeça, e procura os seus três filhos. Está no quintal, a cabeça foi cortada e o sangue que vai saindo traça um percurso, um itinerário que será fundamental para os três filhos a encontrarem. Porque a mãe quer encontrar os seus três filhos, mas está já sem cabeça - e assim não é possível.

 

A mãe sem cabeça corre no quintal e várias galinhas afastam-se, olham para cima e não percebem a forma daquele ser humano.

 

O quintal é grande e a mulher a quem cortaram a cabeça continua a avançar, passo a passo, como um ser humano a quem tivessem vendado os olhos. Parece a brincadeira infantil - a  cabra-cega - mas àquela mulher não taparam os olhos com uma venda, cortaram a cabeça com um machado. Ela avança a chamar pelos filhos (mas por onde grita?) e subitamente percebe: está perdida. A Mulher-Sem-Cabeça está no que é certamente um Labirinto, e nesse Labirinto vai-se cruzando com os mais variados animais: cabras, porcos, galinhas, um cavalo - animais. Dois porcos copulam, mas a Mãe-Sem-Cabeça não vê. 

(...)

 

Início do livro de Gonçalo M. Tavares "A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado", página 9, edição Bertrand Editora, Abril de 2017.

 

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publicado às 14:49


#2437 - Prémio Camões 2017 - Manuel Alegre, o eleito

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.06.17
 

 

Manuel Alegre venceu o Prémio Camões 2017, foi anunciado no dia 8 de junho de 2017, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Em comunicado enviado às redações, o Ministro da Cultura anunciou que o "Prémio Camões 2017 foi atribuído ao escritor Manuel Alegre" no "seguimento da reunião do júri da 29ª edição do Prémio Camões, que decorreu no Rio de Janeiro no dia 8 de junho".
O prémio reconhece a "vasta obra literária, traduzida e publicada em diversos países".

O "Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, é o maior prémio de prestígio da língua portuguesa. Com a sua atribuição, é prestada anualmente uma homenagem à literatura em português, recaindo a escolha num escritor cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da língua portuguesa", lê-se no comunicado.

Manuel Alegre disse à RTP que ficou surpreendido porque não "sabia que o júri estava reunido" e considerou "natural" que lhe tivesse sido "atribuído o Prémio Camões" por causa do impacto "que os meus livros tiveram".

Manuel Alegre nasceu em Águeda em 1936. Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.

Como poeta, "começou a destacar-se nas coletâneas Poemas Livres (1963-1965). Mas o grande reconhecimento nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), apreendidos pelas autoridades antes do 25 de Abril, mas com grande circulação nos meios intelectuais".

O júri da 29ª edição do Prémio Camões foi constituído por Paula Morão, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal); Maria João Reynaud, professora associada jubilada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal); Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (Brasil); José Luís Jobim, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Brasil); pelos PALOP, Lourenço do Rosário, Doutor em Literaturas Africanas pela Universidade de Coimbra e Reitor da Universidade Politécnica de Maputo (Moçambique); José Luís Tavares, poeta (Cabo Verde).

"O Prémio Camões foi já atribuído, por ordem cronológica a Miguel Torga (Portugal), João Cabral de Mello Neto (Brasil), José Craveirinha (Moçambique), Vergílio Ferreira (Portugal), Rachel de Queiroz (Brasil), Jorge Amado (Brasil), José Saramago (Portugal), Eduardo Lourenço (Portugal), Pepetela (Angola), António Cândido (Brasil), Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal), Autran Dourado (Brasil), Eugénio de Andrade (Portugal), Maria Velho da Costa (Portugal), Rubem Fonseca (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Lygia Fagundes Telles (Brasil), Luandino Vieira (Angola), António Lobo Antunes (Portugal), João Ubaldo Ribeiro (Brasil), Arménio Vieira (Cabo Verde), Ferreira Gullar (Brasil), Manuel António Pina (Portugal), Dalton Trevisan (Brasil), Mia Couto (Moçambique), Alberto da Costa e Silva (Brasil), Hélia Correia (Portugal), Radouan Nassar (Brasil)."

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publicado às 02:29


#2435 - Mário Cláudio vence Prémio dst com Astronomia

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.06.17

 

Mário Cláudio com o livro "Astronomia" foi o vencedor do Grande Prémio Literário dst.

Este Prémio Literário é atribuído pela empresa Domingos da Silva Teixeira e tem o valor de 15 mil euros.

 

Este livro já tinha ganho em Abril passado o Prémio D. Dinis, da Casa de Mateus.

 

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publicado às 09:15


#2427 - George Steiner

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.06.17

 George Steiner - (1929 - )

 

A retórica política é capaz de matar. A política pode assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica, na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. O totalitarismo funciona através da linguagem. E também existe outro fenónemo: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diários de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a reveer o 3.º acto do "Tristão". Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados."

 

(...) O nacionalismo é um veneno absoluto. Lembro-me das palavras justíssimas de Georges Clemenceau: "Não somos patriotas, somos chauvinistas." É uma distinção importante. O patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo - o nacionalismo - é algo muito, muito feio. Desprezar outra pessoa por ter uma nacionalidade diferente, isso não o posso compreender nem aceitar. Porque, afinal, o que é que nós escolhemos? Não escolhemos onde nascemos, quando, com que condições. Somos convidados nesta terra. Vou dizer-lhe uma coisa central: acredito que cada lugar deste mundo pode ser interessante. Não consigo pensar num lugar que não o pudesse ser. Se fosse mais novo e tivesse de voltar a mudar de país, tentaria, primeiro, aprender a língua. Seria certamente fascinante aceder a uma nova civilização. Não há lugares aborrecidos na Terra. Isto é o que receio em relação aos mais novos hoje em dia: que  por causa da sua obsessão com os media artificiais, tenham pouco entusiasmo pelas experiências genuinamente criativas."

 

Excerto da entrevista realizada por Luciana Leiderfarb a George Steiner e publicada na Revista "E" - A revista do Expresso, Edição 2327, de 3 de Junho de 2017

 

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publicado às 19:50


#2425 - A edição n.º 195 da revista COLÓQUIO | Letras

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

N.º 195, Maio-Ago. 2017 - Carlos de Oliveira

Por Revista Colóquio/Letras, publicado em 5.5.2017 na secção Notícias

 

Capa do número 194 
 
 
 
 
 
 
No ano em que os trabalhos sobre o espólio   de Carlos de Oliveira, depositado no Museu   do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, se   materializam na exposição “Carlos de      Oliveira: a parte submersa do iceberg”, a    revista Colóquio/Letras dedica, no seu  número 195, um dossiê temático ao autor, composto por cinco ensaios e vários inéditos.

Os ensaios — da autoria de Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Mateus, José Geraldo, Ricardo Namora e Clara Rowland —, exploram o espólio, apresentando novas perspetivas de abordagem e novos leitores de Carlos de Oliveira, aspeto fundamental para a duração longa de uma obra.

Quanto aos inéditos, são uma primeira amostra dessa “parte submersa do iceberg” que é o espólio do escritor, e permitem perceber o potencial de releitura crítica aí contido. O dossiê conclui-se com alguns depoimentos de portugueses e estrangeiros, todos eles partes de um diálogo intenso que a própria correspondência do autor regista.

Para além das habituais secções da revista, destacam-se ainda neste número a entrevista ao poeta sírio Adonis, a evocação de João Lobo Antunes e o belíssimo contributo de Ilda David com um conjunto de imagens inéditas.


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publicado às 19:01


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