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#2450 - MARGARET ATWOOD

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.17

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Desejar conhecer o escritor porque se gosta da sua obra é o mesmo que querer conhecer o ganso porque se gosta de "foie gras".

 

Margaret Atwood

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publicado às 18:33


#2441 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.17

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. A mulher-Sem-Cabeça - onde está ela?

 

A mãe avança sozinha, já sem cabeça, e procura os seus três filhos. Está no quintal, a cabeça foi cortada e o sangue que vai saindo traça um percurso, um itinerário que será fundamental para os três filhos a encontrarem. Porque a mãe quer encontrar os seus três filhos, mas está já sem cabeça - e assim não é possível.

 

A mãe sem cabeça corre no quintal e várias galinhas afastam-se, olham para cima e não percebem a forma daquele ser humano.

 

O quintal é grande e a mulher a quem cortaram a cabeça continua a avançar, passo a passo, como um ser humano a quem tivessem vendado os olhos. Parece a brincadeira infantil - a  cabra-cega - mas àquela mulher não taparam os olhos com uma venda, cortaram a cabeça com um machado. Ela avança a chamar pelos filhos (mas por onde grita?) e subitamente percebe: está perdida. A Mulher-Sem-Cabeça está no que é certamente um Labirinto, e nesse Labirinto vai-se cruzando com os mais variados animais: cabras, porcos, galinhas, um cavalo - animais. Dois porcos copulam, mas a Mãe-Sem-Cabeça não vê. 

(...)

 

Início do livro de Gonçalo M. Tavares "A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado", página 9, edição Bertrand Editora, Abril de 2017.

 

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publicado às 14:49


#2437 - Prémio Camões 2017 - Manuel Alegre, o eleito

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.06.17
 

 

Manuel Alegre venceu o Prémio Camões 2017, foi anunciado no dia 8 de junho de 2017, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Em comunicado enviado às redações, o Ministro da Cultura anunciou que o "Prémio Camões 2017 foi atribuído ao escritor Manuel Alegre" no "seguimento da reunião do júri da 29ª edição do Prémio Camões, que decorreu no Rio de Janeiro no dia 8 de junho".
O prémio reconhece a "vasta obra literária, traduzida e publicada em diversos países".

O "Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, é o maior prémio de prestígio da língua portuguesa. Com a sua atribuição, é prestada anualmente uma homenagem à literatura em português, recaindo a escolha num escritor cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da língua portuguesa", lê-se no comunicado.

Manuel Alegre disse à RTP que ficou surpreendido porque não "sabia que o júri estava reunido" e considerou "natural" que lhe tivesse sido "atribuído o Prémio Camões" por causa do impacto "que os meus livros tiveram".

Manuel Alegre nasceu em Águeda em 1936. Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.

Como poeta, "começou a destacar-se nas coletâneas Poemas Livres (1963-1965). Mas o grande reconhecimento nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), apreendidos pelas autoridades antes do 25 de Abril, mas com grande circulação nos meios intelectuais".

O júri da 29ª edição do Prémio Camões foi constituído por Paula Morão, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal); Maria João Reynaud, professora associada jubilada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal); Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (Brasil); José Luís Jobim, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Brasil); pelos PALOP, Lourenço do Rosário, Doutor em Literaturas Africanas pela Universidade de Coimbra e Reitor da Universidade Politécnica de Maputo (Moçambique); José Luís Tavares, poeta (Cabo Verde).

"O Prémio Camões foi já atribuído, por ordem cronológica a Miguel Torga (Portugal), João Cabral de Mello Neto (Brasil), José Craveirinha (Moçambique), Vergílio Ferreira (Portugal), Rachel de Queiroz (Brasil), Jorge Amado (Brasil), José Saramago (Portugal), Eduardo Lourenço (Portugal), Pepetela (Angola), António Cândido (Brasil), Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal), Autran Dourado (Brasil), Eugénio de Andrade (Portugal), Maria Velho da Costa (Portugal), Rubem Fonseca (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Lygia Fagundes Telles (Brasil), Luandino Vieira (Angola), António Lobo Antunes (Portugal), João Ubaldo Ribeiro (Brasil), Arménio Vieira (Cabo Verde), Ferreira Gullar (Brasil), Manuel António Pina (Portugal), Dalton Trevisan (Brasil), Mia Couto (Moçambique), Alberto da Costa e Silva (Brasil), Hélia Correia (Portugal), Radouan Nassar (Brasil)."

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publicado às 02:29


#2435 - Mário Cláudio vence Prémio dst com Astronomia

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.06.17

 

Mário Cláudio com o livro "Astronomia" foi o vencedor do Grande Prémio Literário dst.

Este Prémio Literário é atribuído pela empresa Domingos da Silva Teixeira e tem o valor de 15 mil euros.

 

Este livro já tinha ganho em Abril passado o Prémio D. Dinis, da Casa de Mateus.

 

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publicado às 09:15


#2427 - George Steiner

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.06.17

 George Steiner - (1929 - )

 

A retórica política é capaz de matar. A política pode assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica, na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. O totalitarismo funciona através da linguagem. E também existe outro fenónemo: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diários de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a reveer o 3.º acto do "Tristão". Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados."

 

(...) O nacionalismo é um veneno absoluto. Lembro-me das palavras justíssimas de Georges Clemenceau: "Não somos patriotas, somos chauvinistas." É uma distinção importante. O patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo - o nacionalismo - é algo muito, muito feio. Desprezar outra pessoa por ter uma nacionalidade diferente, isso não o posso compreender nem aceitar. Porque, afinal, o que é que nós escolhemos? Não escolhemos onde nascemos, quando, com que condições. Somos convidados nesta terra. Vou dizer-lhe uma coisa central: acredito que cada lugar deste mundo pode ser interessante. Não consigo pensar num lugar que não o pudesse ser. Se fosse mais novo e tivesse de voltar a mudar de país, tentaria, primeiro, aprender a língua. Seria certamente fascinante aceder a uma nova civilização. Não há lugares aborrecidos na Terra. Isto é o que receio em relação aos mais novos hoje em dia: que  por causa da sua obsessão com os media artificiais, tenham pouco entusiasmo pelas experiências genuinamente criativas."

 

Excerto da entrevista realizada por Luciana Leiderfarb a George Steiner e publicada na Revista "E" - A revista do Expresso, Edição 2327, de 3 de Junho de 2017

 

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publicado às 19:50


#2425 - A edição n.º 195 da revista COLÓQUIO | Letras

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

N.º 195, Maio-Ago. 2017 - Carlos de Oliveira

Por Revista Colóquio/Letras, publicado em 5.5.2017 na secção Notícias

 

Capa do número 194 
 
 
 
 
 
 
No ano em que os trabalhos sobre o espólio   de Carlos de Oliveira, depositado no Museu   do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, se   materializam na exposição “Carlos de      Oliveira: a parte submersa do iceberg”, a    revista Colóquio/Letras dedica, no seu  número 195, um dossiê temático ao autor, composto por cinco ensaios e vários inéditos.

Os ensaios — da autoria de Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Mateus, José Geraldo, Ricardo Namora e Clara Rowland —, exploram o espólio, apresentando novas perspetivas de abordagem e novos leitores de Carlos de Oliveira, aspeto fundamental para a duração longa de uma obra.

Quanto aos inéditos, são uma primeira amostra dessa “parte submersa do iceberg” que é o espólio do escritor, e permitem perceber o potencial de releitura crítica aí contido. O dossiê conclui-se com alguns depoimentos de portugueses e estrangeiros, todos eles partes de um diálogo intenso que a própria correspondência do autor regista.

Para além das habituais secções da revista, destacam-se ainda neste número a entrevista ao poeta sírio Adonis, a evocação de João Lobo Antunes e o belíssimo contributo de Ilda David com um conjunto de imagens inéditas.


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publicado às 19:01


#2419 - Morte do poeta Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.17

 ARMANDO SILVA CARVALHO (28 de março de 1938 - 1 de Junho de 2017)

 

Armando Silva Carvalho nasceu em Olho Marinho, Óbidos, em 1938. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia por pouco tempo, optando pelo jornalismo, pelo ensino, pela publicidade e pela tradução.
A sua obra tem vindo a ser reconhecida pela crítica e distinguida com diversos prémios, como o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas, para citar apenas alguns.

Morreu aos 79 anos de idade.

 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

____________________________________________

 

Ninguém é filho do poema universal.

Nem pai

do seu rebanho de versos.

O que eu busco é um lar.

Um lar mais natural nas palavras

da terra

com os lábios invisíveis sobre o livro

dos mortos.

 

Dois poemas de Armando Silva Carvalho retirados do livro "Obra Poética (1965-1995)", páginas 631 e 634 - Edições Afrontamento, Julho de 1998 e com prefácio de José Manuel de Vasconcelos.

 

 

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publicado às 17:12


#2408 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.05.17

RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

ANTES DO INÍCIO

 

 

Abriu o livro e procurou a primeira frase.

 

Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante, porque se percebe logo o que podemos esperar.

Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia:

 

«Abriu o livro e procurou a primeira frase.»

 

Além da surpresa, sentiu-se observado, apanhado na inesperada e impossível ideia de que alguém lhe lia o pensamento, na livraria quase deserta.

 

Rodou a cabeça, espreitou por cima do ombro. Perto dele, com o mesmo livro na mão, outro leitor espreitava também, e os seus olhares encontraram-se.

Perceberam de imediato que a ambos acontecera a mesma coisa.

 

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos. (...)

 

Início do novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho "O Pianista de Hotel", pág. 11 - Edição Publicações Dom Quixote - Maio 2017

 

 ___________________________________________________________________________________

Rodrigo Guedes de Carvalho nasceu em 1963, no Porto.

Recebeu o Prémio Especial do Júri do Festival Internacional FIGRA, em França, com uma Grande Reportagem sobre urgências hospitalares (1997).

Estreou-se na ficção com o romance Daqui a nada (1992) vencedor do Prémio Jovens Talentos da ONU.
Seguiram-se-lhe A Casa Quieta (2005), Mulher em Branco (2006) e Canário (2007).

Elogiado pela crítica, foi considerado uma das vozes mais importantes da nova literatura portuguesa.

É ainda autor dos argumentos cinematográficos de Coisa Ruim (2006) e Entre os Dedos (2009), e da peça de teatro Os pés no arame (estreada em 2002, com nova encenação em 2016).

Regressa ao romance com O Pianista de Hotel (2017).

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publicado às 18:56


#2403 - ÉRAMOS TRÊS, ÉRAMOS DOIS, ERA SÓ EU, ÉRAMOS NENHUM...

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

JOSEP VICENÇ FOIX (1894-1987)

 

ÉRAMOS TRÊS, ÉRAMOS DOIS, ERA SÓ EU, ÉRAMOS NENHUM...

 

Éramos três, esquivos, no escuro das vindimas,

com o mar nos olhos, vinho de mosto nas mãos,

quando no sal dos bosques o rego lança fumo

e um choro de criança rebrilha no cerrado.

 

Éramos dois, erguidos na rocha das estrelas,

o coração sangrando, sem uma funda e dados,

quando o ermo se queima e soluçam os breus

nos charcos latentes de canteiros de faróis.

 

Era eu só, umbroso entre sombras já velhas,

a figurar uma outra sombra no varadouro

onde marinha, entre redes estendidas,

o sono de todos em poentes febris.

 

Éramos nenhum, entre folhas de treva,

quando o medo chove nas pétalas das poças

e o outro, o Puro, livre de velas e de leme,

vidente, zarpa, rumo ao Instante claro.

 

Poema do poeta catalão Josep Vicenç Foix

______________________________________________________________________

Josep Vicenç Foix

Poeta catalán cuya obra es emblemática de la vanguardia del siglo XX en su lengua. No concluyó los estudios de derecho y se dedicó al periodismo en La Revista (1918), Trossos (1918) y L´Amic de les Arts (1926-1928), y fue jefe de Cultura de La Publicidad (1922-1936). Sus principales textos teóricos los publicó en Quaderns de Poesia (1935-1936). Tras la Guerra Civil renunció a seguir en la profesión, ante la imposibilidad de ejercerla en catalán, y pasó a hacerse cargo de la empresa de pastelería familiar. Aun así colaboró con Ariel y Dau al Set.

Sus primeras prosas poéticas, Gertrudis (1927) y KRTU (1932) compiladas luego en Diari 1918 (1956) evidencian múltiples influencias, con predominio del surrealismo. Pronto, sin embargo, se aleja de las corrientes vanguardistas en pro de un camino propio en el que incorpora los más variados procedimientos y que se traduce en la alternancia de formas y estilos.

Entre los círculos minoritarios será reconocido como uno de los grandes poetas catalanes del siglo a raíz de Sol, i de dol (1947), recopilación de sonetos que sintetiza su particular síntesis de clasicismo y vanguardia, con un riquísimo léxico en el que se combinan arcaísmos y neologismos. La metafísica, la búsqueda de lo absoluto, constituye una de las constantes de su obra. Les irreals omegues (1949) es una muestra de su estilo más barroco. En On he deixat les claus (1953) ensaya el verso más corto y las formas populares. Importante es también Onze Nadals i un Cap d´Any (1960). Ciego ya, dictó L'estació (1985).

 

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publicado às 18:21


#2402 - Um poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

ALMADA NEGREIROS (1893-1970)

 

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda

não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor

de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão

de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

 

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho

sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas  viagens,

aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas

ambas com as mesmas palavras.

 

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!

Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.

Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para

a nossa casa, como a mesa.

 

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

 

Poema de Almada Negreiros

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Almada-Negreiros
Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abrilde 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

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publicado às 16:42


#2401 - BALADA DOS SUPLÍCIOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.17

LOUIS ARAGON (1897-1982)

 

BALADA DOS SUPLÍCIOS

 

- «Pudesse eu recomeçar

e este caminho seguia...»

Uma voz fala das grades

sobre a futura alegria.

 

Na sua cela, dois homens

por essa noite comprida,

murmuravam-lhe: «Confessa.

Ou estás cansado da vida?

 

Podes viver como nós,

viver, viver anos vastos...

Uma só palavra, és livre...

e podes viver de rastos...»

 

- «Pudesse eu recomeçar

e este caminho seguia...»

A voz que sobe das grades

canta a futura alegria.

 

«Apenas uma palavra,

abre-se a porta e tu sais:

já o carrasco se some,

já acabaram teus ais!

 

Apenas uma mentira

para mudares o destino...

sonha, sonha, sonha

o claro sol matutino!»

 

«Disse o que tinha a dizer,

como o Rei Henrique falo:

uma missa por Paris...

p'lo meu reino, um cavalo...

 

Nada a fazer.» E partiram!

Cobre-o já seu sangue quente!

Era o seu único triunfo:

saber morrer inocente!

 

Pudesse ele recomeçar

ia esta sorte escolher?

Diz a voz que vem das grades:

- «Torná-lo-ia a fazer.

 

 Eu morro e tu, França, ficas,

meu refúgio e minha fé.

Ó meus amigos, se morro,

vós sabeis pelo que é!»

 

Vieram para o prender,

falavam em alemão.

Disse-lhe um: - «Queres-te render?»

Respondeu com decisão:

 

- «Pudesse eu recomeçar

queria esta sorte seguir...»

A voz que sobe das grades

fala aos homens do porvir.

 

- «Pudesse eu recomeçar

queria esta sorte seguir.

Mesmo carregado de ferros,

que cante em mim o porvir!»

 

E cantava sob as balas:

«... sangrento se levantou...»

Até que nova rajada

veio por fim e o tombou.

 

Mas outra canção francesa

já dos seus lábios se evade

acabando a Marselhesa

para toda a Humanidade!

 

Poema da poeta francês Louis Aragon

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La literatura francesa nos invita desde siempre a posar nuestra atención en diversas personalidades que, a lo largo de los años, han dejado huella en las letras galas. Una de las figuras que ha dejado un legado valioso allí es Louis Andrieux, más conocido como Louis Aragon.

aragon-louisEste novelista y poeta nacido el 3 de octubre de 1897 en París se dejó cautivar en un momento por el dadaísmo y, con el tiempo, llegó a impulsar junto a André Bretony Philippe Soupault el surrealismo. Quien fuera estudiante del Lycée Carnot experimentó desde temprana edad un gran interés por la lectura y la escritura pero, aún así, quiso formarse en Medicina, carrera que interrumpió en 1914 y retomó en 1917, llegando a realizar prácticas en un importante centro hospitalario ubicado en su ciudad natal.

El 28 de febrero de 1939, este militante del Partido Comunista Francés contrajo matrimonio con su colega Elsa Triolet, a quien había conocido durante 1928 en un café de la capital francesa. Juntos se involucraron con la Resistencia Francesa y visitaron de manera frecuente las naciones del bloque socialista.

Como exponente del universo literario, Aragon cultivó la novela, el ensayo y la poesía. Su producción literaria, traducida a múltiples lenguas, permite apreciar trabajos como “Fuego de alegría”, “Tratado de estilo”, “El movimiento perpetuo”, “El campesino de París”, “Una ola de sueños”, “Las campanas de Basilea”, “Los viajeros de La Imperial”, “Hurra por los Urales” y “Los ojos de Elsa”, entre muchos otros.

Este autor que en 1967 fue admitido en la Academia Goncourt como académico (cargo al que renunció un año después) encontró la muerte el 24 de diciembre de 1982. Sus restos fueron inhumados en el parque del Molino de Villeneuve, donde también fue enterrado el cuerpo de su esposa, fallecida el 16 de junio de 1970.

 

Publicado por Verónica Gudiña 11 de Septiembre de 2015

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publicado às 21:22

Os melhores livros de todos os tempos, segundo nove autores fundamentais

Os melhores livros de todos os tempos, segundo nove autores fundamentais

 

Um escritor é mais importante pelo que lê, do que pelo que escreve, seguindo a máxima, a Revista Bula reuniu os livros que influenciaram nove autores fundamentais de diferentes épocas e escolas literárias: Gabriel García Márquez (Cem Anos de Solidão), Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram), F. Scott Fitzgerald (O Grande Gatsby), Stephen King (A Dança da Morte), Philip Roth (O Complexo de Portnoy), Charles Bukowski (Factotum), David Foster Wallace (Graça Infinita) e Edmund White (O Flâneur). Díspares e antagônicos — da prosa elegante de F. Scott Fitzgerald a linguagem obscena e crua de Charles Bukowski —, os autores selecionados e os livros citados por eles, trazem em comum o fato de ter influenciado e encantando milhões de leitores em todo o mundo.

 

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publicado às 18:33


#2395 - A MÁQUINA DO MUNDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.17

 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)

 

A MÁQUINA DO MUNDO

 

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.

 

Poema de Carlos Drummond de Andrade

 

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Carlos Drummond de Andrade
nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.

Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.

 

 

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publicado às 19:44


#2391 - QUE COMOVENTE, UM MAU POETA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.05.17

QUE COMOVENTE, UM MAU POETA

 

Que comovente, um mau poeta. Não falam dele

há muitos anos; depois, lentamente, esquecem-no.

Inspirado e branco, agora cambaleia, vacilam

os botões no sobretudo roto e assobia poemas inéditos

ao vento de Inverno.

Que orgulho e força. No seu rosto,

ódio e inveja semelham, de longe, algo como

tristeza etérea. A seu lado, os famosos,

que incensaram artigos pagos e celebram

plateias selvagens, mercadores, ou aventureiros.

Na calva, na fronte altiva de apóstolo, pôs-lhe a vida

coroa de lágrimas, divinizando

sonhos da mocidade, em que prefere acreditar.

Até a má alimentação e magreza que dá

a tísica é uma questão de estilo. Como nos seus livros.

Crítica, literatura - em vão falais.

Ele é o idealismo. Ele é o poeta verdadeiro.

 

Poema do poeta hungaro Kosztolányi Dezsfi (1885-1936)

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publicado às 19:49


#2390 - UM HEMISFÉRIO NUMA CABELEIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.05.17

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

 

UM HEMISFÉRIO NUMA CABELEIRA

 

Deixa-me respirar longamente, longamente, o aroma dos teus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma nascente, e agitá-los na minha mão como um lenço aromático, para sacudir recordações no ar.

 

Se pudesses saber tudo aquilo que eu vejo! tudo aquilo que eu sinto! tudo aquilo que ouço nos teus cabelos! A minha alma viaja por sobre o perfume como a alma dos outros homens sobre a música.

 

Os teus cabelos levam um sonho inteiro, cheio de velames e de mastreações; levam grandes mares de monções que me transportam para encantadores climas, onde  o espaço é mais azul e mais profundo, de atmosfera perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.

 

No oceano da tua cabeleira, avisto um porto irrompendo em cantos melancólicos, homens vigorosos de todas as nações e navios de todos os formatos recortando arquitecturas finas e complicadas num céu imenso em que preguiça o eterno calor.

 

Nas carícias da tua cabeleira, reencontro as demoras das longas horas passadas num divã, no quarto de um belo navio, embaladas pelo rolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os cântaros refrescantes.

 

No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco mesclado em ópio e açucar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do horizonte tropical; nas margens sedosas da tua cabeleira embriago-me com os aromas misturados do almíscar, do alcatrão e do óleo de coco.

 

Deixa-me morder demoradamente as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes, julgo estar a mastigar recordações.

 

Poema do poeta francês Charles Baudelaire

 _______________________________________________________________________

Charles Pierre Baudelaire, poeta e escritor francês, nasceu em Paris a 9 de abril de 1821 e morreu a 31 de agosto 1867, nessa mesma cidade. Herdeiro do Romantismo , conseguiu exprimir a tragédia do destino humano e dar uma visão mística do universo.

Durante os seus estudos no liceu tornou-se viciado em ópio e haxixe,contraindo ainda doenças venéreas que viriam,mais tarde,a ser a causa da sua morte.


O pai era um homem de cultura e um amante de pintura, e levava-o, com apenas quatro ou cinco anos de idade, a apreciar a beleza das formas e das linhas. Pouco tempo passou até que, em 1827, perdeu o pai; mas o que mais lhe atormentou a infância foi o facto de a mãe ter casado com o general Aupick, que o enviaria para uma viagem por mar até à Índia, promovida para o fazer esquecer a carreira das Letras.

Pelo contrário, regressou cheio de imaginação e determinado a ser poeta.Desenvolveu também uma tendência para um estado de espírito de intensa melancolia e de natureza solitária. Com o capital herdado do pai, viveu como um típico dândi.

Em 1844 juntou-se a Jeanne Duval, relação que lhe trouxe muita infelicidade,ao ponto de se sentir tentado a suicidar-se. Mesmo assim, Jeanne foi motivo de inspiração dos poemas eróticos de Charles Baudelaire. Baudelaire torna-se conhecido como crítico de artes plásticas em revistas onde formula a sua conceção daquilo que deve ser a arte moderna.

Em 1847 escreve o seu único romance, autobiográfico, La Fanfarlo . Em 1852 descobre a escrita de Edgar Poe e decide traduzi-la. Ocupa-se deste escritor até 1865. Em Poe descobre pela primeira vez alguém com quem se identifica espiritualmente. As traduções e as críticas de arte aumentaram a sua reputação e levaram-no a publicar os primeiros poemas numa revista que era considerada o bastião conservador do Romantismo, o que motivou acusações de obscenidade.

Na primavera de 1857, saíram nove poemas em "La Revue Française" e três em"L'Artiste" , e em junho publica o seu primeiro livro, Les Fleurs du Mal , alvo de um escândalo na época, devido ao erotismo de algumas poesias. Esta obra valeu-lhe um processo judicial por ultraje à moral pública e às boas maneiras.Para pagar as despesas do tribunal colaborou em diversas revistas. Ainda em1857 escreve Petits Poèmes en Prose .

Em 1861 publicou a segunda edição alargada e engrandecida de Les Fleurs duMal mas omitindo os poemas banidos, publicados na Bélgica. Uma terceira edição viria a ser publicada em 1966. Em 1862 Baudelaire tinha declarado falência e as dificuldades económicas levaram-no ao desespero. Para escapar aos credores fez uma viagem à Bélgica em 1864. Em fevereiro de 1866, ainda na Bélgica, encontrava-se gravemente doente. Regressou a Paris e viria afalecer nos braços da mãe, em agosto do ano seguinte.

A existência literária de Baudelaire é marcada por dois sonetos:Correspondances e L'Albatros . No primeiro prenuncia o simbolismo e todas as sinestesias do imaginário moderno, descobrindo "misteriosas correspondências". L'Albatros representa a condição terrena do poeta, que não sabe viver nem acomodar-se na sua existência. Em 1868 é publicada a sua obra crítica, Art Romantique . Estes trabalhos de Baudelaire são a fonte da poesia moderna.

Os seus escritos representam uma combinação perfeita entre ritmo e música. Foi perseguido por obscenidade e blasfémia e mesmo depois da sua morte continuou a ser identificado pela opinião pública como símbolo de depravação e vício. Rejeitou a posição dos românticos e voltou-se para o seu interior numa poesia introspetiva em busca de Deus, sem uma crença religiosa, procurando em qualquer manifestação da vida, como a cor de uma flor ou o olhar cerrado de uma prostituta, a sua verdade significante. Com Deus e com as pessoas,tem um movimento de atração e rebeldia, uma espécie de ressentimento contra o criador.

Baudelaire é um crítico da condição humana do mundo moderno. E moderna, foi a sua recusa em admitir restrições à escolha dos temas para poesia. Escreveu em prosa as obras: Les Paradis Artificiels , Opium e Haschisch ; Petits Poèmes en Prose ; Curiosités Esthétiques ; Art Romantique ; Le Spleen de Paris ,entre outras.

Dos seus desencontros nasce o tédio infinito, o tema dominante em Le Spleende Paris , que se torna desejo atormentador de viajar em busca de coisas novas.Chamada pelo amor iludido, surge insistente a imagem da morte, também ela odiada e galanteada como a personificação maior da pequena morte do amor.Teme a morte e deseja-a como a única libertação e o reencontro consigomesmo.

Depois do desaparecimento físico de Charles Baudelaire, as opiniões começaram a mudar e muitos poetas tornaram-se seguidores do movimento simbolista. No século XX tornou-se reconhecido como um grande poeta francês do século XIX, tendo contribuído para revolucionar a sensibilidade e a maneira de pensar da Europa Ocidental.

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publicado às 15:12


#2387 - Nem todas as baleias voam

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.05.17

 Afonso Cruz

 

(...) Erik Gould deu o seu primeiro concerto a solo no bar de Manhattan onde, em mil novecentos e trinta e nove, Eleanora Fagan, conhecida por Billie Holiday (com uma gardénia no cabelo, vinte e três anos), cantara sobre pretos linchados e pendurados em árvores. Na altura, o racismo americano fazia que os pomares frutificassem cadáveres. ("Strange Fruit" era uma canção tão boa que Nina Simone, completamente fascinada, afirmou: "Nunca ouvi nada tão desagradável." E a seguir teve de ir à casa de banho, tinha os intestinos às voltas, a alma a pingar. Há canções que fazem bater palmas, não são más; mas depois há outras, as que silenciam a plateia ou que fazem uma revolução no corpo ou que dão um coice na boca do estômago.) 

Billie Holiday fazia às músicas o mesmo que Gould. Acariciava-as com a voz, deitava-as e fazia amor com elas. E talvez tenha sido nessa altura que Gould aprendeu a beijar o que tocava no piano, a usar os dedos como objectos sensuais e, ao pousá-los nas teclas, acariciar a melodia juntamente com o ébano e marfim. Foi também com Billie Holiday que Gould aprendeu a tocar "I committed crime Lord I needed", não só como quem faz sexo mas também como quem espeta uma faca, "Crime of being hungry and poor". Ou as duas coisas ao mesmo tempo: "I left the grocery store man bleedin'." 

Estamos demasiado familiarizados com esta ideia de dor e felicidade que, perversamente, se misturam e se engendram, mas também é verdade que tendemos a separar as duas como se tivessem existências autónomas. Este matrimónio aflitivo entre duas experiências superficialmente antagónicas, mas que formam um tecido comum, é uma espécie de ironia subjacente ao Universo. Junqueiro chamou à dor o "substrato último da Natureza, o fundo irredutível do Universo", acrescentando-lhe, claro, a possibilidade de ser transformada em algo mais luminoso: "Não há beleza esplendente que não fosse dor caliginosa. A flor é a dor da raiz, a luz, a dor das estrelas." Acrescentou: "Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. O meu amigo colecciona dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas." Cabe-nos, ao aceitar as regras deste jogo, uma espécie de exercício de mineração, trabalhar afanosamente e sem tréguas na extracção de virtudes de dentro de matéria vil. Orígenes vislumbrou, na sua apocatástase, um final feliz para o Universo, resultante deste trabalho redentor, um final glorioso em que o próprio Diabo seria perdoado, fazendo culminar o preceito bíblico "amar o inimigo". Com música, em vez de explosões e danações. Um eterno baile. (...)

 

Excerto retirado do livro  de Afonso Cruz "Nem todas as baleias voam", pags. 16 e 17, edição Companhia das Letras, Novembro de 2016

_________________________________________________________________________

Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014.

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publicado às 19:38


#2382 - APELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.17

 

NAZIM HIKMET RAN (1902-1963)

 

 

APELO

 

Este país, cabeça duma égua

da Ásia ao Mediterrâneo trotando tanta légua

este país é o nosso.

Punhos em sangue banhados, dentes cerrados, planta nua

e chão feito alfombra, toda em seda crua,

este inferno, este céu é o nosso.

Fechem-se as portas de estranhos, não mais voltem a abrir!

O homem não imponha ao homem escravidão!

Este apelo é o nosso.

Viver! Qual árvore, sozinha e livre

e juntos irmanados, qual floresta.

Este anseio é o nosso.

 

Poema do poeta turco Nazim Hikmet Ran

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Nazım Hikmet Ran foi um poeta e dramaturgo turco, conhecido na Europa como o melhor poeta de vanguarda da Turquia, sendo os seus poemas traduzidos para diversas línguas.

 

 

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publicado às 10:36


#2381 - NA TORRENTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.05.17

 FADWA THUKAN (1917-2003)

 

NA TORRENTE

 

apagaram-se os rostos à nossa volta

e desapareceram as coisas nessa noite

salvo o brilho azul radioso

dos teus olhos e o apelo.

pelo azul radioso navegava,

em busca dele, meu coração qual barca

que a torrente deseja.

e a ele me amarrou essa torrente

mar sem margens infinito

e irresitível

no qual contam as ondas a história da vida

e da eternidade.

congela aqui contida num só olhar,

já a terra se funde

ao impulso do barro, dos ventos e da chuva.

 

aquela noite

despertou o meu jardim,

arrancaram-lhe a sebe

os dedos da ventania

agitaram-se sob a dança dos ventos

e da chuva

a relva do jardim

as flores e os frutos

menos o brilho radioso que navegava em busca dele

meu coração como barca que a torrente deseja.

 

Poema da palestiniana Fadwa Thukan traduzido por Adalberto Alves

 

___________________________________________________________________

Poetisa palestiniana, Fadwa Tuqan nasceu a 1 de março de 1917, em Nablus(norte da Cisjordânia).
Apesar de ter sido criada num ambiente conservador, a sua poesia apresenta,por um lado, uma consciência nacionalista e política, por outro, um sentidocritico à sociedade árabe pela sua violência, pela maneira como explorava asmulheres, entre outros assuntos.
Fadwa Tuqan conheceu o mundo da poesia através das orientações do irmão,Ibrahim Tuqan, escritor e diretor da rádio palestiniana. Fadwa começou porescrever em formas poéticas tradicionais, passando, em seguida, para o versolivre da poesia árabe. A liberdade poética e o sentido crítico presentes napoesia de Fadwa Tuqan revelaram-se a partir de 1948, ano em que morreu oseu pai e em que foi criado o Estado de Israel. Nessa altura, surgiram asprimeiras obras de Fadwa Tuqan: My Brother Ibrahim (1946, tradução inglesa;Meu Irmão Ibrahim , tradução portuguesa), Alone With The Days (1952,tradução inglesa; Sozinha com os Dias , tradução portuguesa), Give Us Love(1960, tradução inglesa; Danos de Amor , tradução portuguesa) e Before TheClosed Door (1967, tradução inglesa; Antes da Porta Cerrada , traduçãoportuguesa).

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publicado às 19:38


#2380 - TAEDIUM VITAE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.05.17

MARCELO GAMA

MARCELO GAMA

(1878- 1915)

 

TAEDIUM VITAE

 

Dias de tédio, amargurados dias,

Estes que arrasto à espera de melhores

Estes de sol, então, são os piores:

Mais me abatem as lassas energias.

 

Porque este sol que me ilumina e aquece,

Embora luz, calor e vida seja

- lascivo sol que a natureza beija

lubricamente, e os seios lhe intumesce - 

 

é o mesmo sol que me amesquinha e oprime,

o alvissareiro da maledicência,

que põe, perfeitamente, em evidência,

esta pobreza vil, que é quase um crime.

 

Por isso à lua, mal o sol se esconde,

Horas fico a cismar, contemplativo...

Abominável terra, esta onde vivo!...

Vêm-me vontades de partir... Mas onde?...

 

Mas onde achar a paz que est'alma aspira?

Se em toda a parte os homens são iguais!

Se aqui na terra são convencionais

Honra e virtude, e o mais - tudo mentira.

 

Lá onde eu fosse chegaria o tédio.

Que à vida é necessário o sofrimento,

E bem sei, para meu maior tormento,

Que esta dor só na morte tem remédio!

 

Todo este mal, toda esta desventura,

Vem do sentir e amar em demasia,

E ver que é sempre simulada ou fria

Toda afeição que eu supusera pura.

 

Conto os meus anos pelas minhas dores,

E são mais minhas dores que os meus anos;

E não bastando os próprios desenganos,

Comovem-me os alheios dissabores.

 

Que uma só vez não há, que eu não vacile,

Quando a desgraça os outros arremete!

Já chego a duvidar como Stecchetti:

- Sono un poeta o sono um imbecile?

 

Tu, que os meus versos lês e que os condenas,

Quando não és de todo indiferente,

Como és feliz! Como é feliz a gente

Que insensível assiste a alheias penas!

 

Bendita aspiração, ditosa sorte:

- extinguir-me, ou vencer estes espaços!

Por que nos teus escanifrados braços

Não me estrangulas, redentora morte?

 

Ontem levaste, aqui da vizinhança

A pobre mãe de três loiros filhinhos,

E entregaste-os à dor! Beijos, carinhos,

Mudaram-se em cruel desesperança.

 

E deixaste-me entanto, atormentado,

Escravo destes miseráveis nervos!

Meus dias, que penoso é maldizer-vos,

Sendo até pela morte desprezado!

 

Morrer!... Antes morrer! Que só existe

No renunciar à vida a paz perfeita.

Tornar-se a gente em pó, na cova estreita,

É deixar, finalmente de ser triste.

 

E se algum dia for desenterrada

Minha carcaça, hão-de me ver sorrindo...

Porque as caveiras riem, assistindo

Deste mundo à infinita mascarada.

 

Poema do poeta brasileiro Marcelo Gama

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Marcelo Gama, pseudônimo de Possidônio Cezimbra Machado foi um poeta e jornalista brasileiro. Foi um dos maiores representantes da poesia simbolista no Rio Grande do Sul, movimento forte naquele Estado.

 

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publicado às 18:47


#2378 - Espanto e fragmento

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.05.17

Gonçalo M. Tavares

a interrogação, o questionar

 

Começar aqui é interromper uma tarefa noutro lado, claro.

 

A propósito de Heidegger, Steiner escreve. "Precisamos de dar mais assistência ao pensamento." (1)  Esta assistência, esta atenção cuidadosa pode ser interpretada como a atenção que se tem em relação a um ferido e, sendo assim, é quase comovente: não tires os olhos do pensamento; ele precisa de ti. Eis o que cada um de nós poderia dizer. E neste pensamento há uma marca que permite o avanço; a "fonte do pensamento genuíno é o espanto, espanto por, e perante o ser. O seu desenvolvimento é essa cuidada tradução do espanto em acção que é o questionar"(2), escreve Steiner. Questionar "é a tradução do espanto em acção". Não basta, pois, o espanto imóvel,  o espanto contemplativo, precisamos de um espanto agressivo, que ameace, que questione. Um espanto que sabe para onde vai. Como diz uma das personagens de Musil: é "tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção!"(3)

Para Heidegger, segundo a interpretação de Steiner, as "técnicas metafísicas de argumentação e sistematização impedem-nos [...] de exprimir os nossos pensamentos no registo vital da interrogação"(4). Mas a interrogação é essencial. Impor afirmações que põem questões.

______________________________________________________

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(1) - Steiner, George - Heidegger, 1990, p. 53, Dom Quixote.

(2) - Idem, p. 54.

(3) - Muitas das vezes, escreve ainda Musil, no mesmo excerto, o Homem encontra um sentido único e fecha-se nele: "o Homem não faz mais do que repetir, durante toda a sua vida, um só acto: ingressa numa profissão e progride nela".(Musil, Robert, O Homem sem Qualidades, 3.º Tomo, p. 90, Livros do Brasil)

(4) - Steiner, George - Heidegger, 1990, p.54, Dom Quixote

 

Excerto retirado do livro Atlas do Corpo e da Imaginação de Gonçalo M. Tavares, Capítulo I - O Corpo no Método, pags., 25 e 26 - Editorial Caminho, Setembro de 2013

 

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publicado às 18:45


#2374 - GENÉRICO

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.05.17

 fernando assis pacheco (1937-1995)

 

GENÉRICO

 

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos

das lágrimas quebrando

um a um na boca triste mas

por dentro, para que digamos

mais tarde, sem invenção escusada:

o pai não chorou.

 

Eu soube das tuas fúrias

mordendo-se em silêncio,

ou de como te pões

às vezes tão de cinza.

O barco, o barco. Ficaremos

ainda estes minutos quantos.

Do que quiseres. E como quiseres.

Fala. Mas nada de telegramas

para depois da barra

- posso não os abrir,

juro que posso.

Se eu fosse um amigo, se estivesses

em frente dum copo.

Custava menos. Assim

deslizas a unha

pelo tecido da farda, inútil

dedo terno com os olhos longe.

O pai, que não chorou, tremia

de modo imperceptível.

 

Lembro-me da bebedeira

em Alpedrinha, na estalagem,

com o Luís Melo

subitamente velho.

«Tramados, pá, tramados.»

O carro falha, são as velas

os platinados sujos

«a puta que os pariu» (Luís).

 

Um último aceno só vinho

para estas adolescentes

ao balcão do bar e depois e depois?

 

Mas o pai não chora.

Segura-me pelo braço, não chora.

Eis o filho

dos anos meus incorruptíveis.

Nasceria de uma pedra.

Longe do mundo é que ele nasceu.

E não mo tireis nunca

ó cegos capitães!

 

Meia hora antes o pai

filmou o Tejo, as tropas.

Era um barco, um barco onde ele ia.

Era um barco cheio.

 

Poema de Fernando Assis Pacheco (CÃU KIÊN: UM RESUMO, 1972)

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publicado às 18:19


#2373 - ANTI-ÉCLOGA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

 JOSÉ MIGUEL SILVA

 

ANTI-ÉCLOGA

 

A verdade é que também as urtigas

me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,

a silvestre quietude da tarde atravessada

pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras

de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser

tão daninho com a luz de um semáforo

vermelho, mas um pouco de sangue

na biqueira do sapato faz-me falta.

Faz-me falta praguejar, ter um lago

de cimento onde cuspir, obstáculos

de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.

Não me sinto nada bem com a doçura,

com a paz dos ermitérios, de onde Deus

se retirou há quinze anos. Esta resignação

das árvores, dos faunos, das silvanas,

da restante bicharada típica dos lugares

onde sofrer é natural como estar só,

a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos

que me apertem. As sandálias do pescador,

as botas do alpinista, não me levam

a lado nenhum. Detesto confessá-lo,

mas eu sou da cidade até à raiz do terror.

 

Não consigo viver sem o sasco de areia

onde exercito o excessivo golpe da exasperação.

Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,

torna-se pastosa, sonolenta, felizita

como um rio de meandros preguiçosos,

lamacentos, imprestáveis - de que me serve

fingir o sossego a que não chego, brincar

às Arcádias em que não acredito?

Está decidido, prefiro sofrer.

Amanhã de manhã regresso ao abismo.

 

Poema de José Miguel Silva (Ulisses jã não mora aqui, 2002)

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publicado às 21:42


#2372 - ALEGRIA, IMENSA ALEGRIA [SUKOT]

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

ALEGRIA, IMENSA ALEGRIA [SUKOT]

 

Povoa-nos, alegria. Habita em nós como um barco ilumina o oceano,

como um cavalo na intensidade da planície deserta

levanta os seus olhos até às hastes do plátano mais incandescente.

Constrói em nós a arquitectura das cidades do sul, o labirinto,

 

o oculto, a fome, a sede, a rapidez do nome, o seu despojamento

eterno, a água dos litorais, o Outono, a passagem das aves.

Povoa-nos, alegria imensa da alegria sem adorno, apenas

alegria sem deuses, nem a passagem, o sacrifício, as leis, os rios

 

do exílio, o êxodo, a sombra das cabanas, o sangue, a terra, o rosto

frio, os astros  perdidos, os lábios secos, o coração do deserto.

Povoa-nos como a uma pátria de exilados, como a um corpo sem vestes

 

nem fragmentos, colheitas, transpiração, ardor, uníssono.

Habita em nós, alegria da vastidão, começa em nós onde o tempo

sobrevive. Povoa-nos, alegria, envolve-nos sofregamente, veloz.

 

POEMA DE FRANCISCO JOSÉ VIEGAS - (AS IMAGENS, 1987)

 

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publicado às 20:14


#2361 - Morreu o escritor brasileiro Antonio Candido de Mello e Souza

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.05.17

ANTONIO CANDIDO DE MELLO E SOUZA (1918-2017)

 

Morreu António Candido de Mello e Souza aos 98 anos.

Escritor, crítico literário, sociólogo e professor universitário foi, também, um reputadíssimo estudioso da literatura brasileira e estrangeira.

Vulto maior da cultura brasileira, foi galardoado com o Prémio Camões em 1998.

 

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publicado às 22:29


#2351 - FUNCHAL

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.05.17

TOMAS TRANSTRÖMER

FUNCHAL

 

Na praia, o restaurante, qual simples cabana levantada por náufragos. Muitos dão meia-volta ao chegar à porta, mas não os pés de vento vindos do mar. Num compartimento fumegante, um vulto, de pé, frita dois peixes segundo uma antiga receita do Atlântico: prquenas explosões de alho, azeite que ensopa rodelas de tomate. Cada garfada diz-nos que o oceano nos quer bem, é um canto a meia-voz vindo do profundo.

 

Olhamos um para o outro, ela e eu. É como subir por aquelas encostas acima, cobertas de flores silvestres, sem acusar o menor sinal de fadiga. Já tivemos tantas experiências juntos, recordamos nós, até momentos de que não éramos especialmente merecedores (como quando nos pusemos na bicha para dar sangue ao gigante do bem-estar - ele tinha ordenado transfusões (1)), acontecimentos que nos teriam separado se não nos tivessem unido, e recordámos casos que esquecemos juntos - mas que não se esqueceram de nós! Foram pedras, umas escuras, outras claras, pedras de um mosaico delapidado. E agora sucede isto: os cacos que esvoaçaram reúnem-se, o mosaico fica restaurado. Fica à nossa espera. Da parede do hotel refulge um design violento e terno, talvez seja até um rosto, não conseguimos apercerber-nos tal a pressa com que nos livrámos das roupas.

 

À tardinha, saímos. A pata enorme, de um azul-escuro, que é o cabo, parece ter sido atirada assim para o mar. Entramos no remoinho de gente: encontrões amistosos, suaves controlos, toda a gente a falar com vivacidade o idioma estrangeiro. "Ninguém é uma ilha." Fortalecemo-nos com os outros, mas também com nós próprios. Com aquilo que, dentro de nós, o outro não vê. Aquilo que tem o seu igual só em si mesmo. O paradoxo mais profundo, a flor que brota do chão da garagem, o ventilador voltado para o negrume benéfico. Uma bebida efervescente num copo vazio. Um altifalante que emite silêncio. Um atalho que fica intransitável à medida que por ele avançamos. Um livro que só pode ser lido nas trevas.

 

(1) Alusão às exortações à população sueca, por parte dos serviços do Estado.

 

Texto retirado do livro "50 Poemas" do poeta sueco Tomas Tranströmer nascido na cidade de Estocolmo a 15 de Abril de 1931. Com formação em Psicologia, História das Literatura e História das Religiões, publicou o seu primeiro livro «17 Poemas» em 1954. Ao longo da sua vida recebeu vários prémios de poesia e literatura (como o Prémio Internacional Neustadt e o do Forum de Poesia Internacional.

 

Em 2011 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura.

 

"50 Poemas" foi editado por Relógio D' Água Editores, em Julho de 2012, e a tradução do sueco foi feita por Alexandre Pastor

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publicado às 19:47


#2350 - Morreu Armando Baptista-Bastos

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.05.17

ARMANDO BAPTISTA-BASTOS (1934-2017)

 

Jornalista e escritor, morreu hoje em Lisboa aos 83 anos

 

 

 

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publicado às 19:29


#2348 - LeV - Literatura em viagem em Matosinhos

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.05.17

 Entre 12  e 14 de Maio de 2017, vai realizar-se na Biblioteca Municipal Florbela Espanca em Matosinhos mais uma edição de LeV-Literatura em Viagem. Além das conferências, haverá exposições, ilustração ao vivo e uma feira do livro.

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publicado às 20:35


#2345 - Tatiana Salem Levy

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.05.17

 

Enquanto pudermos escrever - e sobretudo ler - haverá sempre mundos

 

Tatiana Salem Levy nasceu em 1979. É escritora, tradutora e doutora em Letras pela PUC-Rio. O seu romance A Chave de Casa foi o vencedor do Prémio São Paulo de Literatura 2008, na categoria Melhor Livro de Autor Estreante, e finalista dos prémios Jabuti e Zaffari & Bourbon. Está publicado no Brasil, em Portugal, França, Espanha, Itália e Turquia. O segundo romance, Dois Rios (Tinta-da-china, 2012), foi finalista dos prémios PT e São Paulo de Literatura 2012. Publicou ainda dois livros infantis, Curupira Pirapora (Prémio FNLIJ) e Tanto Mar (Prémio ABL). Paraíso foi publicado no Brasil em 2014.

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publicado às 19:15


#2330 - Rodrigo Guedes de Carvalho com um novo romance

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.04.17

"O Pianista de Hotel" é publicado no próximo dia 16 de maio

 

O novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, "O Pianista de Hotel", é publicado no próximo dia 16 de maio, anunciou hoje a editora.

O novo romance surge dez anos depois de "Canário", o anterior romance do jornalista, também publicado pelas Publicações Dom Quixote, em 2007.

"Este seu novo trabalho, como o próprio título o indica, transporta-nos numa melodia e abre-nos a porta para um mundo redigido pela linguagem da música, pela sua força e beleza, presentes que estão no ritmo de cada frase e de cada parágrafo, rigorosamente medido", afirma a editora do Grupo LeYa, em comunicado enviado à agência Lusa.

"Com um vasto subtexto, a densidade das personagens está carregada de mistérios que nos prendem a sucessivas interrogações. E há, em cada uma delas, um pouco de nós. Tal como há um pouco de nós, também, neste mergulho ao mais fundo da alma humana.", acrescenta a editora

"É um romance que se lê e que se ouve e que mantém, por isso, todos os sentidos alerta. Uma pauta musical, com andamentos diversos, que acabam por se cruzar numa vertigem imprevisível de autêntico 'thriller' psicológico. E depois, bom, e depois há o pianista...", remata a mesma fonte.

Rodrigo Guedes de Carvalho nasceu há 53 anos no Porto, tendo-se estreado na ficção em 1992 com "Daqui a Nada", com o qual venceu o Prémio Jovens Talentos da ONU, e ao qual se seguiram "A Casa Quieta" (2005), "Mulher em Branco" (2006) e "Canário" (2007).

O jornalista é também autor dos argumentos cinematográficos de "Coisa Ruim" (2006), realizado por Tiago Guedes e Frederico Serra, de "Entre os Dedos" (2009), dos mesmos realizadores, e assinou a peça de teatro "Os Pés no Arame", estreada em 2002, que voltou à cena, com nova encenação, no ano passado.

 

FONTE: DIÁRIO DE NOTÍCIAS ONLINE

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publicado às 20:19


#2310 - A LOVE POEM BY CHARLES BUKOWSKI

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.04.17

 

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publicado às 23:25


#2309 - Charles Bukowski

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.04.17

 

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publicado às 23:18


#2307 - Uma Viagem à Índia (Excerto)

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.04.17

 

«55

 

E a cidade ganhou dependências: abastece-se

de homens e mulheres vindos de países trágicos

e passa por caridosa momentos antes de

os expulsar. A Europa começa a ficar inclinada,

é necessário vigiar. De noite, é um facto, os pobres correm

muito para debaixo dos tapetes. Na Idade Média

havia epidemias de ratos, mas  o caso foi resolvido

a tempo. Nascemos no século em que, de longe, a lista

de medicamentos é mais longa. Festejemos, pois,

com a bebida certa.

 

56

 

O dinheiro tornou-se moralmente inatacável. Para os pobres

as leis parecem ser pormenorizadas, para os ricos

abordam generalidades: abaixo de um massacre

não devemos incomodar os tribunais

- estaríamos a insultar o bom nome dos sujeitos.

E somos tão felizes! As mulheres mais aperfeiçoadas

dançam à moeda como as velhas máquinas de canções.

Ao amor, para ser deste século, só falta a ranhura

adequada ao câmbio actual.

 

57

 

Somos muito felizes. Nas análises, a urina

nada acusa, e o sangue não é tirado à força com uma espada

como acontecia nas batalhas de séculos anteriores;

o sangue agora sai através  de uma finíssima agulha

trazida por uma enfermeira obesa.

O estado preocupa-se com a tua saúde

e, progresso enorme, manda as boas-festas pela televisão.

 

58

 

E há depois as palavras. A relação entre os homens

está gramaticalmente outra. Tolerância,

respeito, leis serenas: a cidade vista de cima

parece um lago, tão calma que está.

É tão perfeita que não se percebe como é que os animais

da floresta não se mudam todos para cá.»

 

Excerto do livro de Gonçalo M. Tavares «Uma Viagem à Índia» páginas 227 e 228 - Canto V

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publicado às 17:30


#2304 - PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.04.17

Fernando Paulouro, jornalista e escritor, antigo director do Jornal do Fundão, é o vencedor da 13.ª edição do Prémio Eduardo Lourenço, no valor de 7.500 euros, foi hoje anunciado na Guarda.

Este prémio, instituído em 2004 pelo Centro de Estudos Ibéricos, com sede na cidade da Guarda, destina-se a premiar personalidades ou instituições com "intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas".

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publicado às 19:56


#2303 - The Man Booker International - Finalistas

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.04.17

The Man Booker International Prize 2017 shortlist announced

  • Mathias Enard (France), Charlotte Mandell (US), Compass (Fitzcarraldo Editions)
  • David Grossman (Israel), Jessica Cohen (US), A Horse Walks Into a Bar (Jonathan Cape)
  • Roy Jacobsen (Norway), Don Bartlett (UK), Don Shaw (UK), The Unseen (Maclehose)
  • Dorthe Nors (Denmark), Misha Hoekstra (US), Mirror, Shoulder, Signal (Pushkin Press)
  • Amos Oz (Israel), Nicholas de Lange (UK), Judas (Chatto & Windus)
  • Samanta Schweblin (Argentina), Megan McDowell (US), Fever Dream (Oneworld)
  •  

 

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publicado às 19:46

 Helder Moura Pereira, escritor, tradutor e licenciado em filologia germânica venceu O Grande Prémio de Poesia APE com o livro editado pela Assírio & Alvim "GOLPE DE TEATRO".

 

O Grande Prémio de Poesia António Feijó, no valor de 10 mil euros, é uma iniciativa da Associação Portuguesa de Escritores em parceria com a autarquia de Ponte de Lima.

 

Herlder Moura Pereira já venceu outros prémios literários entre os quais se destacam o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Prémio de Literatura Casa da América Latina | Banif.

 

 

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publicado às 22:12


#2278 - Violência Civilizada

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.04.17

 "A pena de morte decidida por um tribunal torna-se assim, subitamente, num assassinato educado, segundo as determinações da civilização; assassinato delicado, pois, quase uma demonstração de boas-maneiras por parte do Estado: matamos, mas depois de ouvir os dois lados, depois do Tribunal reflectir longamente: matamos, ou apenas prendemos, mas de uma maneira intelectualmente elevada (continuemos na ironia): não somos bichos: não matamos nem raptamos sem primeiro reflectirmos. Depois de muito estudo e discussão dialéctica, então sim: agimos violentamente.

 

As decisões legais de um tribunal sobre o corpo são vistas assim, não como violências físicas mas como processos intelectuais, conclusões racionais de uma série de procedimentos cerebrais; a pena de morte ou a sentença que determina a prisão surgem como aparições racionais e não como aparições animalescas (como no caso dos crimes individuais). Determina-se a pena de morte da mesma maneira que se chega ao resultado único de uma equação matemática, com a mesma satisfação do dever cumprido e como conclusão de um processo longo. Diz-se, e repete-se: a lei não é  uma ciência e, no entanto, a lei tem consequências práticas mais importantes do que qualquer determinação científica. Uma lei age directa e imediatamente sobre o corpo dos homens, enquanto uma descoberta científica pode demorar anos até ter interferência concreta no dia concreto dos Homens. As leis do Estado são assim como que leis da Física - pensemos na lei da gravidade por exemplo -, que são feitas cumprir, não pela própria natureza - como a lei da gravidade (experimenta voar e verás) - mas pelos outros homens. Não voo, porque a Natureza não me deixa; e não mato porque os outros homens não me deixam.

 

Claro que há limites para esta aceitação da lei. Didier Eribon, num livro sabre a vida de Michel Foucault, cita a famosa frase de Camus: "Acredito na justiça, mas defenderei a minha mãe primeiro que a justiça"

 

Excerto do livro de Gonçalo M Tavares "Atlas do corpo e da imaginação", Editorial Caminho, Setembro de 2013

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publicado às 16:37


#2274 - TABACARIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.04.17

 

(Fernando Pessoa)

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

 

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

 

 

 

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publicado às 18:13


#2270 - O poema perdido de Fernando Pessoa

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.04.17
O poema perdido de Fernando Pessoa

O poema perdido de Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa é uma mina de diamante inesgotável. Quando se acredita que não há mais nada a descobrir, aparece alguma coisa, e relevante. Agora, surge um novo e belo poema, pelas mãos do advogado brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho. O biógrafo do bardo português adquiriu um “livro de autógrafos”, no qual, durante uma travessia marítima, em 1918, o adolescente José Osório de Castro Oliveira (1900-1964) colhia recordações de seus companheiros de viagem.

No lugar de uma anotação trivial, Fernando Pessoa escreveu um poema:

 

Cada palavra dita é a voz de um morto.

Aniquilou-se quem se não velou

Quem na voz, não em si, viveu absorto.

Se ser Homem é pouco, e grande só

Em dar voz ao valor das nossas penas

E ao que de sonho e nosso fica em nós

Do universo que por nós roçou

Se é maior ser um Deus, que diz apenas

Com a vida o que o Homem com a voz:

Maior ainda é ser como o Destino

Que tem o silêncio por seu hino

E cuja face nunca se mostrou.

Fernando PessoaO poema foi publicado pelo jornal “Folha de S. Paulo” e alcançou repercussão em Portugal. O jornal “Público”, do país de Fernando Pessoa, menciona que o poema havia sido recolhido por “João Dionísio na edição de 2005 da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, ‘Poemas de Fernando Pessoa: 1915-1920’. Só que a versão que agora veio a lume é anterior e substancialmente diferente da já publicada, e tudo leva a crer que é a versão definitiva do poeta. Foi escrita, aparentemente de uma só penada, em 1918 — tinha Pessoa 30 anos”.

 

In "REVISTA BULA"

 

 

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publicado às 20:14


#2260 - Morreu o Escritor Fernando Campos (1924-2017)

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.04.17

 

Fernando Campos, filólogo e escritor, autor de romances históricos como A Casa do Pó e a Sala das Perguntas entre outros, morreu no dia 1 de Abril com 92 anos.

 

 

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publicado às 17:43


#2244 - Prisioneiros portugueses da primeira guerra mundial

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.03.17

A editora Saída de Emergência acaba de editar o livro da investigadora Maria José Oliveira «Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial - Frente Europeia - 1917/1918»

O livro tem por base o relato de centenas de cartas enviadas pelos expedicionários para as suas famílias e destas para os combatentes e que nunca foram entregues aos seus destinatários, por força da lei da censura prévia imposta a partir de Março de 1916.

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publicado às 16:20


#2235 - O II volume da Bíblia já disponível nas Livrarias

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.03.17

O segundo volume da Bíblia traduzida por Frederico Lourenço chega hoje às livrarias e conta com os textos Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse, ficando assim finalizada a publicação do Novo Testamento.

 

LER MAIS

 

 

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publicado às 15:56


#2230 - O escritor que imaginou Trump em 1935

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.03.17

 Sinclair Lewis imaginou um candidato à presidência machista, xenófobo e populista que prometia uma nova grandeza para os EUA

 

In "El País Brasil"

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publicado às 14:25


#2225 - Os 10 romances mais importantes da literatura brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.03.17

 

POR MIGUEL SANCHES NETO 

 

As listas são um instrumento crítico de grande relevância, pois trazem, subjacente, um conceito de literatura — este conceito talvez seja mais importante do que as obras escaladas. Ao escolher apenas dez romances brasileiros eternos, segui alguns critérios: não repetiria livros do mesmo autor; privilegiaria obras que trouxeram alguma inovação formal; e daria preferência a livros que fossem mais do que uma história, que tivessem um valor metonímico, representando um período literário, um painel histórico, um grupo social, uma tendência estética. Podem ser considerados como marcas comuns a todas as narrativas listadas o desejo de construir um retrato do Brasil e o investimento em uma linguagem identitária — cada título, logicamente, à sua maneira. Teríamos aqui então um pequeno mapa do grande romance nacional.

Miguel Sanches Neto, doutor em Teoria Literária pela Unicamp, é autor, entre outros, dos romances “Chove Sobre Minha Infância” (Record), “Um Amor Anarquista (Record)” e “A Máquina de Madeira”.

 

IN "REVISTA BULA"

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publicado às 15:35


#2221 - DEITADO COM O DEDO NA BOCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.03.17

 ALICE SANT'ANA

 

DEITADO COM O DEDO NA BOCA

 

deitado com o dedo na boca

o sorriso invertido

curvado como uma montanha

a pele da perna uma cédula

gasta e seca

todos os dias rigorosamente iguais

banheiro, visitas, ampolas de sangue

às vezes tem mordomias como

um pedaço de pão ou uma fruta

doces nem pensar

da janela passa uma nuvem de carros

um táxi amarelo convida

a ir a qualquer lugar

sem previsão de alta o táxi é mais

uma miragem um filme

na televisão aquele programa da tv5

sobres casas em paris sem saneamento

pessoas que moram hoje, você acredita?, em quartos

sem janelas, apartamentos no sexto andar

sem elevador, como será que fazem para subir

com a água? não tomam banho, naturalmente

depois se cansa da conversa

a nuvem se torna mais espessa

na hora do rush o táxi não tem serventia

se não puder tomar o caminho que leva

ao ponto mais alto

de onde se vê a curvatura da terra

 

Poema da poeta brasileira Alice Sant'Ana

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publicado às 12:52


#2218 - UM ARCO-ÍRIS COMPLETAMENTE VULGAR

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.03.17

 LES MURRAY

 

UM ARCO-ÍRIS COMPLETAMENTE VULGAR

 

Ouve-se dizer em Repins,

o boato segue por Lorenzinis,

em Tattersalls, homens levantam os olhos de folhas de números,

os escrevinhadores da Bolsa esquecem o giz que têm na mão

e homens com pão nos bolsos saem do Clube Grego:

Há  um tipo que chora em Martin Place. Não o conseguem deter.

 

O tráfico em George Street está engarrafado meio quilómetro,

sem se mover. As multidões conversam nervosamente

e mais multidões chegam a correr. Muitos atropelam-se em ruas laterais

que minutos antes eram atarefadas ruas principais, apontando:

Há um tipo que chora lá em baixo. Ninguém o consegue deter.

 

O homem que rodeamos, o homem de que ninguém se aproxima

chora simplesmente e nem sequer o esconde, não chora

como uma criança, nem como o vento, chora como um homem

e não o proclama, nem bate no peito, nem sequer

soluça muito alto - mas a dignidade do seu choro

 

mantém-nos afastados do seu espaço, do vazio que constrói à sua volta

na luz do meio-dia, no seu pentagrama de dor

e os funcionários na multidão que o tentam agarrar

olham para ele, abismados, com o espírito

desejando lágrimas como crianças um arco-íris.

 

Alguns dirão, anos depois, que havia uma auréola

ou um campo de força à sua volta. Não há nada disso.

Alguns dirão que se sentiram chocados e o teriam detido,

mas esses não estiveram lá. A virilidade mais bravia,

a reserva mais áspera, a inteligência mais astuta ali presente

 

treme em silêncio, e arde com juízos

inesperados de paz. No ajuntamento alguns gritam,

que se julgavam felizes. Só as crianças mais pequenas

e os que parecem ter saído do Paraíso se acercam dele

e sentam-se aos seus pés, junto de cães e pombos sujos de pó.

 

Ridículo, diz um homem perto de mim, e tapa

a boca com as mãos como se tivesse pronunciado um vómito - 

e vejo uma mulher, brilhando, estender a mão

e tremer quando recebe a dádiva do choro;

todos quantos a seguem também a recebem

 

e muitos choram só por terem aceite e muitos mais

recusam-se a chorar com medo de toda a aceitação,

mas o homem que chora, como a terra, nada exige,

o homem que chora ignora-nos, e o que na

sua face contorcida e no seu corpo vulgar ele exclama

 

não são palavras, mas dor, não são mensagens, mas pena,

duras como a terra, simples, existentes como o mar.

E quando pára, caminha placidamente por entre nós

limpando a cara com a dignidade de um

homem que chorou e agora acabou de chorar.

 

Evitando crentes, ele apressa-se pela Pitt Street.

 

Poema do poeta australiano LES MURRAY

 

 

 

 

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publicado às 18:18


#2215 - Derek Walcott, poeta, morre aos 87 anos

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.03.17

Derek Walcott, poeta caribenho, Prémio Nobel da Literatura em 1992 e galardoado com vários prémios literários e académicos, morre aos 87 anos. 

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publicado às 19:46


#2202 - O PODER DE CIRCE

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.03.17

 LOUISE GLÜCK

 

O PODER DE CIRCE

 

Nunca transformei ninguém em porco.

Algumas pessoas são porcos; faço-os

parecerem-se a porcos.

 

Estou farta do vosso mundo

que permite que o exterior disfarce o interior.

 

Os teus homens não eram maus;

uma vida indisciplinada

fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado

e das minhas ajudantes,

tornaram-se mais dóceis.

 

Depois reverti o encanto,

mostrando-te a minha boa vontade

e o meu poder. Eu vi

 

que poderíamos ser aqui felizes, 

como o são os homens e as mulheres

de exigências simples. Ao mesmo tempo,

 

previ a tua partida,

os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando

o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

 

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,

toda a feiticeira tem

um coração pragmático; ninguém

 

vê o essencial que não possa

enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter

 

podia ter-te aprisionado.

 

 

Poema de Louise Glück

 

 

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publicado às 13:04


#2195 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.03.17

RADUAN NASSAR,MENINA A CAMINHO030.jpg

RADUAN NASSAR

 

HOJE DE MADRUGADA

 

"O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali no canto, me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la.  (...)"

 

Excerto do conto "Hoje de Madrugada" escrito por Raduan Nassar, que faz parte do livro de contos "Menina a Caminho", edição Companhia das Letras, Fevereiro de 2017

 

 

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publicado às 22:05


#2190 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.03.17

PAUL AUSTER

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publicado às 19:29

 

 Helder Macedo acaba de lançar o volume de ensaios Camões e Outros Contemporâneos, um olhar sobre oito séculos de literatura portuguesa com paragens em D. Dinis, Bernardim ou Camões, mas também em alguns apeadeiros menos óbvios, de Manuel Teixeira Gomes a Manuel de Castro.

 

LER MAIS

 

TRABALHO DO JORNALISTA Luís Miguel Queirós  LUÍS MIGUEL QUEIRÓS in PÚBLICO ON-LINE

 

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publicado às 18:46

 

 

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publicado às 21:20

"Não me ocorreu dizer mais nada." É a última frase dos três espessos volumes que reúnem em 2795 páginas várias centenas de textos dispersos de Agustina Bessa-Luís que a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta hoje no Porto, numa sessão na Fundação Serralves.

Com recolha e organização da neta da autora, Lourença Baldaque, Ensaios e Artigos (1951-2007) permite a radiografia completa do seu pensamento sobre quase tudo, sendo muito curiosa a recordação das opiniões políticas no pós-25 de Abril, bem como os comentários sobre alguns ícones da música popular, Madonna e Bob Dylan (parcialmente reproduzido abaixo). Mas é a sua rudeza ou sedução nos comentários sobre os seus pares escritores que geram mais polémica, já que Agustina não se proíbe de dizer o que realmente pensa sobre a Literatura. Leia algumas partes no A a Z literário que se segue.

Agustina: "Decorre a apresentação do livro de Cavaco Silva no salão nobre [do Centro Cultural de Belém], e os carros pretos dos ministérios sobem a rampa com uma lentidão consular. (...) Freitas do Amaral acaba também de escrever um livro e é saudado triunfalmente. Eu escrevi cinquenta e não me prestam tanta atenção. Pelo que fico, por um momento, desencorajada." (1994)

Bob Dylan: "A multidão serve-se dos mitos no grande banquete frio de ideias feitas. A ideia romântica e a ideia triunfal, a ideia extradoméstica. Mas os anos 60 passaram. No seu rochedo sobre o mar, Bob Dylan está só. (...) Um tipo domesticado, como todos os velhos dizem. O seu lado espiritual deixa-o na sombra. O seu motivo cavalheiresco torna-o solitário." (1987)

Camilo Castelo Branco: "Um homem dotado para a vida é um homem angustiado; ele sabe que quanto mais o seu génio progride e se expande, mais cria para si próprio condições de invulgar desastre. (1964) " Tanto temia Camilo o punho da sociedade para quem escrevia e que, afinal, não era persistente na crueldade nem obstinada na estupidez. (...) Na verdade, não sei que lhe deu a Camilo para escrever este romance (A Enjeitada) a não ser o desprezo pela sua atividade face a um público que lhe exigia emoções calculadas, e para quem o melodramático se confunde com o sério." (1980)

Dostoievski: "Não há melhor maneira de perceber a intimidade de Dostoievski senão fazendo da sua obra uma Bíblia, pegando nela à boa maneira russa e deixando que se abram as folhas do destino, ao acaso, no encontro desse romântico calor e realidade profunda que foram seus dons. Como eu faço agora, detendo-me num parágrafo de Niétochka, um dos seus primeiros ensaios da longa novela, escrita na prisão e que tem por inteiro o estremecimento da aspiração frustrada do amor humano." (1981)

Éxito: "O êxito dos romances de Lawrence Durrell pode corresponder a uma fraqueza da personalidade, é natural que corresponda a uma fraqueza da personalidade de todos nós." (1965)

Fellini: "O que Fellini chama inocência é a libertação do aborrecimento. É o riso, o prazer, a espontaneidade inglória mas eficaz, e coisas assim. (...) Mas não é inocência. A inocência é o insulto que o amor aprova. E, como o amor, é rara. O que Fellini chama inocência é a libertação do aborrecimento. É o riso, o prazer, a espontaneidade." (1973)

Goethe: "O "eterno feminino", com que Goethe termina o segundo Fausto, é um aditamento à insuficiência humana com que todos os trabalhos e ideias se defrontam. Se a mulher assumisse o Poder, com todas as suas objetas funções o homem fica muito inexpressivo e o seu sentido da divindade perde-se."

Henry Miller: "Vejamos o caso de Henry Miller, que conta já mais de oitenta primaveras e diz fluentemente as mesmas coisas que um moço de vinte primaveras comenta por conta própria, ainda que de maneira mais ingrata e verde. Ambos se encontram no mesmo ponto: viver não é conhecer a vida." (1973)

Inspiração: "Escrever uma página inspirada não acontece todos os dias. Às vezes movemos o pensamento pelos atribulados caminhos do doméstico, que corrompem a subtileza e a graça; outras vezes pomos na cabeça o nosso gorro sábio, e resulta uma enfadonha tabuada de sentimentos." (1966)

José Régio: "É cedo ainda para que eu fale do Régio. Vejo-o ainda de desvelada maneira, "quieto no seu canto", porque a poesia é incomunicável. O que víamos era talvez uma dinâmica infeliz e um deserto de orgulho crucificado." (1970)

Kafka: "As criaturas isoladas, diamantinas, como Kafka, simulam toda a vida uma coragem normal de relações, contactos, até amores perdoáveis. Mas ficam sempre naquela terra hostil onde se murmura; nas selvas negras de Brecht onde se murmura: "Nós não pudemos ser amáveis... recordai-nos com indulgência." (1968)

Lobo Antunes. "Se me dissessem, há um tempo atrás, que eu haveria de fazer a apresentação dum livro de Lobo Antunes, e um livro chamado Tratado das paixões da alma, eu não teria levado a sério. (...) Das leituras que fiz algo de fundamental: que não se tratava de um carreirista das letras nem jovem zangado, como foi moda apelidar os snobs inteligentes. Tratava-se muito simplesmente dum homem em más relações com a justiça dos homens. A até com a injustiça deles." (1990)

Mecenas: "A cultura não é custear espetáculos. A cultura não se elabora, vive de uma filtragem moral e sentimental da sociedade que a produz. Não é obra de empresários nem de mecenas. Não é programa de Estado." (1977)

Namora: "Com o livro de Fernando Namora, URSS Mal amada bem amada, dá-se um caso de protocolo sem boa construção. Se percorremos um país estranho, há que em ter em conta o que é realmente degradação e costume. (...) O livro de Namora é um roteiro em que a imparcialidade não nos comove, simplesmente porque ela não interessa a ninguém. Namora escreve com certa usura de emoções. Sempre foi assim, ou descobre um registo mais profundo ao ficar fora da sua própria identidade?" (1986)

Odisseia: "Há uma teoria quanto ao autor da Odisseia que atribui a uma siciliana a obra imortal de Homero. Essa atrevida opinião funda-se em traços psicológicos, que não são para desprezar. Por exemplo, o grande conhecimento da vida doméstica demonstrado pela primeira Nausica, em contraste com a sua ignorância a respeito de navegação e os trabalhos pastoris." (1992)

Público: "O que acorre a esta conferência (...) é gente nova quase toda, dita das Artes, e que se preocupa extraordinariamente com a moldagem da sua personalidade." (1960)

Quadro: "O retrato presidencial de Jorge Sampaio é um retrato à margem do retratado. Paula Rego tem dificuldades em pintar pessoas. Desenha-as mas não as inventa, não as estuda, não reage com elas a isto que se chama o mundo. O retrato do Presidente Mário Soares, que confiou num amigo para o fazer, obedece a um absurdo lógico. Parte do conhecimento da sua personalidade, arrebatada e impaciente, para exprimir o lado facecioso dum temperamento. Não trai, apenas se destina a círculo dos amigos e nem sequer à roda da família." (2006)

Romance: "O romance é ainda um "jogo de palavras" e não corresponde, mesmo quando obtém grande sucesso, à exigência do homem. Porque, para lá dos seus intuitos de diversão ou aventura, talvez pressinta o pequeno campo de imagens do romance como coisa que não deve ser tomada a sério." (1963)

Salman Rushdie: "Não se podem ler os livros sagrados dando-lhes um significado panfletário. (...) Gibreel , o homem armado, personagem de Versículos Satânicos, de Salman Rushdie, achava que a fé era como uma doença, e que havia de voltar sempre. Por isso preferiu puxar o gatilho e libertar-se da infância da sua credulidade e dos génios de outrora." (1991)

Timidez: "A mulher tímida encontra o sucesso ao pé da porta, e foi nessa nota que os empresários de Marilyn se garantiram. Mas é muito raro que as mulheres sejam tímidas. Para isso têm que possuir um elevado sentido metafísico, sem o qual a timidez é apenas insuficiência mental. Quando Greta Garbo diz: "Tive hoje uma grande discussão com Deus", está explicado o teor da sua beleza e fascinação."(1992)

Uso: "Os usos estéticos da língua portuguesa começam notoriamente nos cronistas do século XIV, com Fernão Lopes. Até então, a prosa escrita destinava-se a atos de doação e testamentos e ao registo de propriedades. A redação desses papeis era confiada ao tabelião ou secretário régio, que não punham empenho na elegância da língua, mal socorrida por um latim bárbaro e menos que vulgar." (2005)

Vinha do Douro: "De maneira muito inesperada, indo ao Douro onde ainda há uma casa de família meio entregue a fantasmas competentes e que não pomos em dúvida, encontrei-me com Madame Bovary ali ao lado. Filmava-se um mortório, e as jovens do lugar, vestidas de preto, rodeavam o caixão da Dona Augusta, que era a Laura Soveral muito engripada. É estranho essa encarnação em figuras que os não inspiram. (...) E se eu tivesse melhor caneta, mais diria. Mas acaba-se aqui a tinta; não o canto que faltou a Camões, porque nesse tempo vinho de cheiro não havia."

Wilhelm Reich: "Há muito tempo que não lia Wilhelm Reich. No meio de muitas ideias mal sucedidas, de muitos absurdos concubinatos com a verdade, Reich mantém algo de surpreendente no seu discurso. A linguagem é, às vezes, delirante, outras vezes profética. Decerto comoveu muitos psiquiatras com veia revolucionária. Recorrem a Reich como a um precursor no âmbito das informações genitais, mas ignoram a teoria do novo líder." (1992)

Xenófanes: "A ignorância do magistério que determina a obra de Xenófanes não basta para o tomarmos como autodidata. Quer aprendesse nos livros ou nas palavras dos mestres, ele foi poeta e admite-se que foi professor de Parménides. Xenófanes dizia que a verdade não é para ser divulgada, porque as imagens da opinião ou do senso comum são historicamente mais fortes do que a justiça da verdade ou a verdade da justiça." (1995)

Yourcenar: "Antes de tudo, posto que para Filipe La Féria o cenário antecipa o teatro e é o seu porta-voz, a cova de Electra, aos nossos pés. (...) Mas o drama não está lá. O estudo dos atores não foi fecundo. Os atores estão vestidos como se fossem hunos e não gregos. Eu penso que a peça de [Marguerite] Yourcenar é débil, muito perto de um drama burguês, com um tempero de psicanálise que nos fatiga e nos dececiona." (1987)

Zarco: "Há um monumento a Gonçalves Zarco, mas não exige que os corredores de fundo da História parem diante dele, esperando indicações preciosas para poderem prosseguir. (...) Chegada à Madeira, depois de duas ou três conversas com jornalistas, apercebi-me de que eles sabiam mais de mim do que eui própria. Sabiam quem me estima e que me detesta, facto que parece bizarro se o tornarmos público aqui. Isto quer dizer que a ilha exerce um poder desinibidor e que lá o sintoma de identidade não é visto da mesma maneira." (1995)

 

NOTÍCIA RETIRADA DO JORNAL ON-LINE "DIÁRIO DE NOTÍCIAS" , ESCRITA POR João Céu e Silva

 

 

 

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publicado às 16:51


#2126 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.17

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 "De todas as operações conhecidas da CIA, a agência de informação norte-americana, entre as ridículas e as tenebrosas, há uma que se destaca, pelo facto inusitado de a arma usada ter sido a música, mais concretamente o jazz. Trata-se de um programa criado em mil novecentos e sessenta e oito, depois do falhanço da Baía dos Porcos e da operação Northwoods. Esta última parece mais uma absurda teoria da conspiração do que um projecto factual: foi recusada por John F. Kennedy e tinha por objectivo organizar e levar a cabo, dentro das fronteiras americanas, diversos actos terroristas, entre sequestros, atentados bombistas, sabotagens, etc., atribuindo as culpas a Cuba e justificando assim uma possível invasão do país caribenho; estes documentos foram tornados públicos em mil novecentos e noventa e sete. A par disto, já no final dos anos sessenta, a CIA criou o programa Jazz Ambassadors, com o qual se prertendia, através da música, melhorar a percepção internacional dos Estados Unidos da América, à época especialmente negativa. Em plena Guerra Fria, organizaram-se diversos concertos do outro lado da Cortina de Ferro, com vários elementos do jazz, incluindo Satchmo (Louis Armstrong), Benny Goodman, Dizzy Gillespie e Duke Ellington, entre outros. Os músicos negros eram os eleitos para mostrar ao mundo que, afinal, os Americanos não eram racistas. Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.

 

Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. E não tem sequer de ser música de qualidade para o conseguir. Uma pintura de Van Gogh não nos põe a dançar, mas uma canção, por pior que seja, é bem capaz de o fazer. O programa americano pode ter falhado - o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num  baile em vez da explosão  de uma bomba de hidrogénio. "

 

INÍCIO DO NOVO LIVRO DE AFONSO CRUZ  «NEM TODAS AS BALEIAS VOAM» EDIÇÃO COMPANHIA DAS LETRAS PORTUGAL, NOVEMBRO DE 2016

 

 

 

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publicado às 18:12


#2120 - José luís Peixoto recebe o Prémio Literário Oceanos

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.16

 

Os quatro vencedores do prêmio Oceanos 2016 traduziram a diversidade de gêneros literários da literatura contemporânea. Além do romance Galveias, do português José Luís Peixoto – primeiro colocado nesta edição –, foram premiados o romance A resistência, do escritor paulistano Julián Fuks, em segundo lugar, o volume de poesia O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques, em terceiro, e os contos de Maracanazo e outras histórias, do carioca Arthur Dapieve, quarto colocado.

Galveias, cujo título é extraído do nome da aldeia natal de Peixoto, na região do Alentejo, é um mergulho no “Portugal profundo” e rural, cuja narrativa alinha personagens emblemáticos desse universo arcaico a partir de um evento (a queda de um meteorito em Galveias), o qual, simbolicamente, confere um sentido cósmico a essa comunidade que se extingue entre rústica violência, desolação, melancolia e choque com a modernidade.

Em A resistência, o tema dos traumas familiares deixados pelas ditaduras latino-americanas reaparece sob ângulo renovado – na figura do irmão adotivo do narrador: a possibilidade de que ele seja filho de desaparecidos políticos durante o regime de exceção na Argentina lança sobre a família um véu de segredos, silêncios, não ditos e interditos que Julián Fuks (filho de psicanalistas argentinos radicados no Brasil) maneja com argúcia analítica, associando a tensão emocional à reflexão sobre os mecanismos de resistência à desocultação da verdade.

O livro das semelhanças, da mineira Ana Martins Marques, é dividido em quatro partes, que percorrem cartografias e analogias, sempre buscando delicadas iluminações sobre o cotidiano, com poemas delicada e generosamente abertos para as experiências, as quais se tornam novas experiências ­– experiências poéticas.

Maracanazo e outras histórias reúne cinco contos. Aquele que dá título ao livro, “Maracanazo”, não se refere à fatídica final da Copa de 1950, entre Brasil e Uruguai – evento que gerou essa expressão –, mas sim à série de históricos fracassos que a Espanha experimentou no Maracanã, culminando, na última Copa, com uma eliminação prematura selada num jogo contra o Chile. É a partir desse dado factual que Arthur Dapieve constrói sua narrativa, na qual se confrontam um torcedor espanhol e uma brasileira de origem chilena que vivem um breve affair, envolvendo visões políticas e valores opostos.

 

 

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publicado às 23:12


#2116 - Prémio Pessoa 2016

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.12.16

 FERDERICO LOURENÇO

 

 

Professor universitário, Frederico Lourenço, conhecido como o tradutor da Bíblia e dos grandes clássicos gregos, foi escolha do júri

Reunido em Seteais, o Júri do Prémio Pessoa 2016, constituído por Francisco Pinto Balsemão (presidente), António Domingues (vice-presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Maria de Sousa, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião e Viriato Soromenho-Marques, decidiu atribuir o Prémio Pessoa 2016 a Frederico Lourenço.

Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963. Obteve a sua Licenciatura e o seu Doutoramento em Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Lisboa, tendo lecionado também nessa Universidade, entre 1988 e 2009, antes de assumir o lugar de professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

O seu percurso profissional e criativo, assinalado pela significativa e abundante bibliografia, é caracterizado pela variedade de interesses e realizações que incluem, para além da centralidade dos estudos clássicos, a música, o romance, a poesia, o teatro, o ensaio, os estudos bizantinos, a germanística e a história da dança. O traço mais singular da sua atividade reside no modo como, ao longo de quase duas décadas, Frederico Lourenço tem vindo a oferecer à língua portuguesa as grandes obras da literatura clássica. Através de um trabalho metódico, revelador de uma ambição servida por rara erudição, Frederico Lourenço traduziu, com rigor, as obras fundamentais de Homero, a Ilíada e a Odisseia, bem como duas tragédias de Eurípedes, Hipólito e Íon. O desejo de disseminar a grande cultura clássica junto do público manifestou-se também na adaptação para jovens das referidas obras de Homero.

Em 2016, Frederico Lourenço publicou o primeiro volume, de um total de seis, do seu mais recente e ambicioso projeto, que se estenderá até 2020: a tradução integral da Bíblia para português a partir das fontes gregas, e respeitando elevados critérios de integração contextual, histórica e linguística, deste livro maior de ressonância universal em toda a história humana.

 

In "Diário de Notícias"

 

 

 

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publicado às 21:51

Ferreira Gullar durante a FLIP, em 2010 (Foto: Divulgação) 

Ferreira Gullar morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro

 

Aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, ensaísta e tradutor brasileiro, Ferreira Gullar, morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro. O autor estava internado há cerca de vinte dias no Hospital Copa D’Or, no Rio, devido a problemas respiratórios, segundo a Folha de S.Paulo

Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, Gullar começa a se dedicar à poesia a partir de 1943 e lança, então, Um pouco acima do chão, em 1949 e A luta corporal, em 1953. “A poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação, indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas”, escreve o professor Alcides Villaça na CULT 210 sobre a poética do autor.

“O poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático”, afirmou. O poeta e jornalista Álvaro Alves de Faria escreveu em sua conta no Twitter que, com a morte de Gullar,  morre também “parte da poesia brasileira”.

Em 1959, Gullar publica no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil o Manifesto Neoconcretista, também assinado por Ligia Clark, Ligia Pape, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. O documento lançou as bases para o neoconcretismo, que defendeu a busca da experimentação de múltiplas linguagens. Com ele, Gullar deu o ponto de partida em sua trajetória teórica e crítica no campo das artes visuais.

Perseguido durante a ditadura militar, escreveu uma de suas principais obras, Poema sujo, durante o exílio em Buenos Aires, em 1976, “obra prima de Gullar”, segundo Villaça. “Lê­-lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional”, escreveu.

Leia o texto de Alcides Villaça, publicado na CULT 210, na íntegra:

A poesia de Ferreira Gullar, com suas várias vozes, tem muitos pontos altos e alguns controversos, em provocadora vitalidade. A essa obra não faltam lutas pela expressão, radicalismo estético, epifanias líricas e incisivas adoções políticas: é difícil que um mesmo leitor goste de tudo, embora sempre lhe seja possível compreender a grandeza do conjunto. Vista de forma panorâmica em seus mais de sessenta anos de atividade, a melhor poesia de Gullar pode ser reconhecida, desde A luta corporal (1954), na somatória de alguns procedimentos básicos, muito marcados e mesmo obsessivos: o poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático. O que move o poeta é uma desconfiança básica diante do que não o surpreenda; em outras palavras, a qualidade do espanto parece ser o termômetro poético com que Gullar avalia as matérias que converte em poesia. Vale tentar reconhecer a variação dessas matérias, bem como a dos recursos aplicados em sua expressão.

Gullar sempre buscou traduzir a experiência vertiginosa e aprofundada que, como tempo íntimo, parece correr contra o outro, o da sequência mecanizada dos acontecimentos. Nas diferentes qualidades desses tempos – nas suas diferentes velocidades – ele vai encontrando uma poderosa fonte poética. Há a ação do passado sobre o presente e vice­‑versa, há o seu ser emergente e o desafiante ser do outro, há a presença do longínquo no que está perto e a deste naquele, há o variado pulsar da vida no confronto com as sombras da morte. O desafio aceito pela arte surge para o poeta como uma contínua tradução entre esses tempos. A qualificação diversificada desse fluir, de suas várias velocidades, prende­‑se à diversidade dos acontecimentos (que têm pesos diferentes), dos estratos sociais (com funções e direitos diferentes), das pessoas singulares (com desejos e interesses diferentes). Está nesse modo múltiplo de existência de tudo a razão de surpresa do poeta, de sua obsessão em escavar a qualidade de cada experiência.

Em A luta corporal (1954) a experiência fundamental está em submeter a linguagem a várias provas de expressão, para assim corresponder às várias expectativas do jovem dentro da vida e diante da arte. Num mesmo livro, o moço poeta se vale da velocidade interna das modulações de estilo, que são muito mais que exercícios de expressão: figuram perspectivas abertas (ou fechadas) para a vida, ângulos que vão da convenção literária já canonizada para a destruição da linguagem e o desventrar físico dos signos. É, de fato, uma luta, mais que uma promessa: é um grande livro de poesia. Já está clara, nele, a importância da corporeidade buscada pelo poeta. Ela vale tanto para as palavras, das quais se cobra um canto vivo e radical, como para a pessoa mesma do poeta, em cujo corpo confluem o tempo da vida e o da morte, emergência dos desejos instintivos combatendo a força implacável do apodrecimento. Estará sempre presente a sugestiva imagem do galo altivo que bate as asas e canta com esplendor, sem saber que está destinado, como tudo, à morte. A razão mesma de cantar, modulada em toda a sua trajetória poética, move muitos poemas de Gullar. Perguntado há algum tempo, num evento, sobre sua razão de poetar, respondeu algo próximo disto: “Eu preciso do poema porque tenho a necessidade de um segundo corpo”.

Necessária sempre, a poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas. A vanguarda construtivista, que chegou por breve momento a compartilhar parcialmente com os poetas concretos, foi subitamente abandonada pelo empenho numa arte politicamente engajada, de esquerda, atraída pelas referências diretas da realidade nacional e pela análise marxista. A princípio dócil a esquemas didáticos, essa nova luta corporal soube por vezes vencer a facilidade de um diagnóstico já elaborado, surgindo como percepção vital. Num poema como “Uma fotografia aérea”, por exemplo, de Dentro da noite veloz (1975), a perspectiva da visão do alto, colhida por uma câmera num avião, não impede o indivíduo de reconhecer­‑se lá embaixo, em sua casa, em outro tempo: fotografia e poema espantam­‑se mutuamente, conjuminados agora numa mesma tecelagem dos fios que unem o observador da foto, adulto crítico imaginando­‑se menino sob aquele telhado, ao retrato social de sua antiga São Luís. Uma coisa está em outra: será este o princípio poético que irá reger a complexidade espaço­‑temporal da obra­‑prima de Gullar, que é o Poema sujo (1976).

Lembro, antes de mais nada, o impacto a um tempo estético e político que causou a edição desse poema­‑livro entre nós, em plena Ditadura Militar. Era uma explosão doída e libertária das memórias mais vivas de um sujeito exilado e ameaçado, explosão a um tempo viril e pungente, lírica e dramática, aberta aos mais variados ritmos e andamentos. Soava, para muitos, como a reconquista da linguagem que liberta o indivíduo, repondo­‑o no centro de sua própria história, como sujeito dela, compartilhada numa plataforma social. É quando a arte efetivamente traduz “uma parte na outra parte”, isto é, faz convergirem a verticalidade íntima e a horizontalidade coletiva, em que cada um reconhece no autorretrato do poeta traços de seu próprio rosto. E por que sujo? A matéria compósita da memória é trazida em bruto, vomitada, defecada, sem a feição das coisas límpidas: não pode ser asséptica uma linguagem animada pela vivacidade dos brutos espantos, da memória das palafitas, da carniça do Matadouro, das bananas podres na quitanda do pai, do apodrecimento das peras na fruteira, da sexualidade reprimida. No entanto, não se trata de vomitar palavras ao modo de certas passagens surrealistas dos anos 50: há também, no Poema sujo, princípios recorrentes de composição disciplinada, que acabam por nortear o torvelinho da memória. Lê­‑lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional. Ocorre no Poema sujo um desdobramento básico do sujeito: há aquele que se cola à imanência dos fatos lembrados e há aquele que, instalado no presente da elaboração poética, interpreta e realinha esses fatos. O efeito na leitura é o de ir e vir do sensorial ao reflexivo, do afeto recolhido à avaliação das palavras. Vencendo a antiga dicotomia de luz ou sombra, fogo ou escuro, Gullar agora considera que “uma coisa está em outra”, forma dialética de encarar a composição das diferenças como uma legítima manifestação vital. Quando “uma coisa está em outra”, nenhuma se pertence completamente, nem é possível se ver a si mesma senão como parte – que presume uma outra parte, que participa, no mecanismo de um ‘traduzir­‑se” que leva uma ao encontro da outra. Veja­‑se como o poema “Traduzir­‑se”, do livro seguinte, Na vertigem do dia (1980), constitui uma feliz expressão desse anseio de fazer convergir lírica e sociedade. Visto de perto, esse anseio parece estar presente nos títulos mesmos de vários livros do poeta. Brincando, mas não muito, pode­‑se lembrar que essa poesia traça uma luta corporal dentro da noite veloz ou na vertigem do dia, compõe um poema sujo com barulhos e muitas vozes, em alguma parte alguma.

Nos dois últimos livros, Muitas vozes (1999) e Em alguma parte alguma (2010), Gullar tem feito predominar a instância lírica, ao que tudo indica libertando­‑se de vez do peso ostensivo da poesia política/partidária que marcou significativamente sua obra. Mas, de qualquer modo, a luta continua: trata­‑se agora de arrostar o tempo da velhice, tempo já profundamente gravado no corpo e no espírito com o peso que lhe dá a nova gravidade. Tudo se faz, aliás, em consonância com o movimento orgânico desde sempre encetado pela poesia de Gullar. Nunca teriam sido antes tão fortes como em Muitas vozes as homenagens de Gullar à vida, no que ela tem de multiplicativo, porque complexa, e de belo, porque intensa. Não me refiro apenas à qualidade estética, presente desde a juventude; refiro­‑me à força vivencial que escapa da melancolia e da nostalgia, frequentes nesse estágio da vida, para render comovido tributo tanto ao acúmulo das experiências já vividas como ao sempre intenso desejo de outras novas: “Tive um sonho conclusivo:/ sonhei que a vida era um sonho/ e quando a vida acabava/ o sonhador acordava/ vivo” (“A Augusto Willemsen”). Tanto mais brilha a vida quanto mais se espelha contra o morrer. Assim também pode ocorrer com as palavras: aprendem a depurar­‑se mais e mais quanto mais entendem do silêncio a que se estão furtando. A luz voraz que consome “nossos mortos/ acima da cidade” está também “zunindo feito dínamo/ naquelas manhãs velozes” (“Manhã”). Não à toa, diante da fotografia de Mallarmé, Gullar busca na pose cristalizada do poeta já meio que um busto o olhar vivo, o desejo oculto de imortalidade.

Já o título de Em alguma parte alguma reelabora a referida tradução gullariana, em que uma parte supõe a outra. O jogo se radicaliza: a parte está e não está ao mesmo tempo em si e na outra, o tempo determinado é também tempo nenhum. E Gullar, octogenário, continua a investigar o mundo com reflexão e algum espanto. As imagens da vida se fazem cada vez mais luminosas, a cidade vibra em todos os seus apelos, e se a investigação sobre a morte ameaça alçar­‑se a um plano rarefeito, o poeta faz com que a poesia possa gravitar, por exemplo, numa “Reflexão sobre o osso da minha perna”, quando constata que a parte (sempre a parte) do osso é a que mais dura, ao passo que “a parte mais efêmera/ de mim/ é esta consciência de que existo”. Assim também, diante do mofo “do fundo das gavetas/ de dentro das pastas” Gullar faz ver que “É apenas/ uma mínima parte/ do incalculável arquivo morto/ esta que reacende agora/ à leitura do olhar/ e em mim/ ganha voz/ por um momento”. A luz e o fogo, mais do que antigos, querem eternizar­‑se na voz do poeta. Suas percepções seguem muito vivas, e parecem ter encontrado num definitivo e assumido estatuto lírico a vocação primitiva do jovem poeta que já brigava consigo, com o mundo e com as palavras desde os anos 50. Atar as pontas da vida é um compromisso que costumam estabelecer os que postulam a maturação conclusiva.

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publicado às 15:21


#2098 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.07.16

 JULIAN BARNES

 

The Noise of Time

The Noise of Time by Julian Barnes

 

In May 1937 a man in his early thirties waits by the lift of a Leningrad apartment block. He waits all through the night, expecting to be taken away to the Big House. Any celebrity he has known in the previous decade is no use to him now. And few who are taken to the Big House ever return.

So begins Julian Barnes's first novel since his Booker-winning The Sense of an Ending. A story about the collision of Art and Power, about human compromise, human cowardice and human courage, it is the work of a true master.

Scheduled for publication in January 2016 in the UK and later in the US and Canada.

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publicado às 19:34


#2097 - Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.07.16

José  Seabra Pereira venceu o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho com o livro "O Delta Literário de Macau".

Este prémio totalmente suportado pela Edilidade de Vila Nova de Famalicão é promovido pela Associação Portuguesa de Escritores.

 

José Carlos Seabra Pereira é Doutor pelas Universidades de Poitiers e de Coimbra, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e da Universidade Católica Portuguesa. Investiga e lecciona nas áreas de Teoria Literária e Literatura Portuguesa Moderna, de Estudos Camonianos e de Estudos Pessoanos (cadeira que criou na Universidade de Coimbra). É actualmente o Coordenador Científico do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos e vice-director da Revista Camoniana (luso-brasileira), membro eleito do novo Conselho Científico da FLUC e da Comissão Científica do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, membro do Conselho Editorial da Babel, vice-presidente do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís.

 

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publicado às 13:30


#2095 - Elena Ferrante

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.07.16

"Acredito que os livros, uma vez escritos, já não precisam dos seus autores. Se tiverem alguma coisa para dizer, mais cedo ou mais tarde encontram leitores; se não, não... Gosto muito desses livros misteriosos, tanto antigos como modernos, que não têm autor definido mas têm tido e continuam a ter uma intensa vida própria. Parecem-me uma  espécie de milagre de uma noite, como as prendas da Befana, pelas quais eu esperava em criança... Os verdadeiros milagres são aqueles cujos autores nunca serão conhecidos... Além disso, não é verdade que a promoção é dispendiosa? Eu serei o autor menos dispendioso da editora. Até a minha presença vos pouparei."

 

ELENA FERRANTE

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publicado às 13:14

 Também ensaísta e tradutor de Shakespeare, Yeats ou Petrarca, foi várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura. Morreu ontem em Paris aos 93 anos

 

in "Diário de Notícias"

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publicado às 19:45


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