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#2639 - João Pinto Coelho venceu Prémio Leya 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.10.17

 João Pinto Coelho com o livro "Os loucos da rua Mazur" foi o vencedor do Prémio Leya 2017.

João Pinto Coelho nasceu em Londres em 1967. Licenciou-se em Arquitetura em 1992 e viveu a maior parte da sua vida em Lisboa. Passou diversas temporadas nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar num teatro profissional perto de Nova Iorque e dos cenários que evoca neste romance. Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto. No mesmo período, concebeu e implementou o projeto Auschwitz in 1st Per-son/A Letter to Meir Berkovich, que juntou jovens portugueses e polacos e que o levou uma vez mais à Polónia, às ruas de Oswiécim e aos campos de concentração e extermínio. A esse propósito tem realizado diversas intervenções públicas, uma das quais, como orador, na conferência internacional Portugal e o Holocausto, que teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2012. Perguntem a Sarah Gross é o seu primeiro romance.

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publicado às 20:10

 Ana Margarida de Carvalho com o livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" foi o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. A escritora é, também, finalista do Prémio Oceanos, do Brasil, com este livro.

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publicado às 17:48


#2636 - FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.10.17

VER PROGRAMAÇÃO AQUI»»»»

 

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publicado às 17:39


#2635 - Tu, Lisboa. Você, Lisboa. Senhora Dona Lisboa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 Antonio Tabucchi (1943-2012)

 

"No que se refere a formas de tratamento, meu caro Cardoso Pires, a tua bela língua possui um número considerável delas, para desconcerto do turista optimista que aterra no aeroporto de Lisboa munido do tranquilizador | Speak Portuguese, e para pânico do aprendiz cheio de boa vontade que tenha feito o curso linguafone  O Português em 4 Semanas.

 

Um número tão considerável que - assegurava o linguista Luis Lindley Cintra, teu companheiro de oposição àquele Salazar que parecia imortal (e que, em tempo de bocas e canetas amordaçadas, tu imortalizaste deveras, tornando-o o fóssil protagonista da tua "fábula" Dinossauro Excelentíssimo) - não deixa a tua língua ficar atrás de nenhuma outra na Europa, parecendo que, no mundo, só o fica do japonês. Bem pode dizê-lo uma  pessoa como eu que um dia, com a arrogância aprendida no manual de gramática e convencido que o Você (que na minha língua é o Lei) servia para todas as ocasiões, afrontou candidamente a infinita babel hierárquica das formas de tratamento que o português prevê. E aconteceu-lhe ouvir um miúdo da rua que, a jogar à bola no adro de uma igreja de Alfama, reagiu deste modo para com o seu companheiro de jogo demasiado individualista: "Você devia ter-me passado a bola, seu palerma!" * Ou aconteceu-lhe escutar, numa educadíssima discussão conjugal de um casal pequeno-burguês, a seguinte pérola linguística pronunciada pelo marido empertigado: "A menina tenha paciência, mas não estou de acordo consigo". * Ou ainda uma senhora de certo tom que, chamada apenas "Dona Josefa"  e não "Senhora Dona Josefa" como a sua classe exigia, considerou o pobre visitante estrangeiro um verdadeiro troglodita.

 

Isto para não falar de quando nas formas de tratamento, para complicar as coisas, se insinua o sub-reptício diminutivo, de uso muito frequente e com as nuances mais insuspeitáveis que podem significar ternura, familiaridade, confidência, mas também, em certos casos, inferioridade hierárquica e atenções servis para com o superior. Eis uma frase pronunciada durante a não remota guerra de África entre Portugal e as suas "Províncias Ultramarinas" Angola e Moçambique. Contou-ma o antropólogo e escritor José Cutileiro, alto funcionário da União Europeia em Bruxelas, onde certamente é confortado pelo uso de "Vous" da Revolução Francesa e pelo "You" dos pragmáticos albiões. A personagem era neste caso um cabo,e  o destinatário era neste caso um cabo, e o destinatário o oficial da companhia: "Meu capitão, a metralhadorazinha

está prontinha". * E o capitão, graças àqueles diminutivos, percebeu imediatamente que podia contar em absoluto com aquele cabo:  ele estava completamente ao seu serviço.

 

Vá-se lá saber como se safou o snobíssimo Beckford, refugiado na Lusitânia a chular a aristocracia portuguesa da época (à qual, aliás, reservou um desprezo arrogante, como revela o seu diário), que de certeza com o seu insuficiente "You" deve ter cometido gaffes vergonhosas. Dá-me mais prazer em Fielding, a quem aconteceu passar por Lisboa e lá morrer (repousando agora no Cemitério Monumental), e cuja ironia atenta às matizes linguísticas das classes sociais o guiou provavelmente no labirinto das formas de tratamento.

 

Formas de tratamento, Lisboa. Como bem sabes, meu caro José (aliás recorda-lo afectuosamente neste Livro de Bordo), também eu deambulei pela ponte da nau "Lisboa": não só com os pés, mas sobretudo com os passos da fantasia, das impressões, das sensações e das recordações. Aquele meu percurso bastante ilógico, que preferi chamar "uma alucinação", tornou-se um livro intitulado Requiem, que escrevi na tua língua. Não tanto por capricho, mas porque, para falar de Lisboa (e para a viver), o português impôs-se. Talvez isso tenha sido a minha maneira de lhe prestar homenagem. E no entanto não tive a coragem de a interpelar, de encontrar uma das muitas formas de tratamento para dizer: Lisboa. Eu, toscano da minha Toscana marítima, que me apaixonei por ela quando era jovem e ela uma senhora de certa idade, aprendendo com  esforço os sons por vezes roucos e por vezes de sereia que tão bem descreves neste teu livro, não sabia de que maneira devia  dirigir-me a ela. Excelentíssima Senhora Dona Lisboa? Querida Dona Lisboa? Minha Amiga Lisboa? E que pronome  pessoal usar? No embaraço da escolha, desisti.

 

Mas tu tratas Lisboa por tu, e podes bem fazê-lo. É a tua companheira. E como uma abelha visitas o seu cálice. E é por isso que a sua flor continua a florir através dos séculos na literatura portuguesa: porque há escritores e artistas como tu, que não se lembram dela apenas quando está na mó de cima, mas também nos momentos mais obscuros da sua existência, que tu atravessaste com ela.

 

Seco, sonoro como o estalido de uma vela, assim é o estilo deste teu livro de bordo, bem longe daquela escrita colorida que, revestindo de roupa reciclada um certo "realismo mágico" de boa memória, procura o sucesso fácil descrevendo Portugal como um país sul-americano da operetta, graças ao "pitoresco" que tanto agrada no estrangeiro (Portugal is different).

 

E agora fazes levantar âncora à "tua" Lisboa como um veleiro do qual és ao mesmo tempo piloto e escrivão de bordo. Porque é verdade que a tua cidade, "pousada no Tejo como uma cidade que navega", em outros tempos fez-se ao mar e penetrou nos oceanos, à aventura. E contornou Áfricas, visitou Índias e Malacas, descobriu Brasis. Em suma, "por mares nunca dantes navegados", como diz Camões, levou a Europa ao mundo e o mundo à Europa.

 

Mas nesta Lisboa também eu quero embarcar, mesmo que seja com uma tarefa humilde que no entanto me agrada: a de grumete a polir os latões.

 

Se não te importas, vou pois subir contigo para este veleiro que aparentemente está ancorado, mas que todavia viaja, viaja.

 

Texto de Antonio Tabucchi traduzido por M.C.Loureiro. Este texto foi escrito como prefácio às edições italiana e alemã do livro de José Cardoso Pires intitulado Lisboa, Livro de Bordo.

Este texto foi publicado na Revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, número cinco-Inverno 1997, páginas 3, 4 e 5.

 

 

 

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publicado às 21:54


#2632 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

Hoje, 18 de Outubro, é o dia de S. Lucas.

 

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A 18 de Outubro de 1909 nasceu na cidade de Turim Norberto Bobbio (1909-2004).

 Formado em Filosofia e Direito, foi professor universitário e jornalista, filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício. Morreu na cidade de Turim no dia 9 de Janeiro de 2004.

 

 

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publicado às 17:42

 

 

Lincoln in the Bardo wins 2017 Man Booker Prize

Lincoln in the Bardo by George Saunders is named winner of the 2017 Man Booker Prize for Fiction. Lincoln in the Bardo is the first full-length novel from George Saunders, internationally renowned short story writer.

The 58-year-old New York resident, born in Texas, is the second American author to win the prize in its 49-year history. He was in contention for the prize with two British, one British-Pakistani and two American writers.

 Lincoln no Bardo é o primeiro romance de George Saunders. Nestas páginas, o autor revela-nos o seu trabalho mais original, transcendente e comovedor. A acção desenrola-se num cemitério e, durante apenas uma noite, a história é-nos narrada por um coro de vozes, que fazem deste livro uma experiência impar que apenas George Saunders nos conseguiria dar.


Ousado na estrutura, generoso e profundamente interessado nos sentimentos, Lincoln no Bardo é uma prova de que a ficção pode falar sobre as coisas que realmente nos interessam. Saunders inventou uma nova forma narrativa, caledoscópica e teatral, entoada ao som de diferentes vozes, de modo a fazer-nos uma pergunta profunda e intemporal: como podemos viver e amar sabendo que tudo o que amamos tem um fim?

 Informação  relacionada com o livro vencedor retirada da página do editor em Portugal (RELÓGIO D'ÁGUA)

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publicado às 22:42

 

 

Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira é agora a vez de destacar a vida e a obra de Miguel Sousa Tavares.

 
Miguel Sousa Tavares, jornalista português, escritor e autor do romance português mais vendido no século XXI, será o homenageado da próxima edição do Escritaria.
 
A 10.ª edição do Festival Literário vai decorrer de 20 a 22 de outubro, sendo que a partir de dia 16 de outubro decorre uma grande feira do livro com diversas apresentações de livros e uma forte aposta na memória de edições passadas, onde marcaram presença grandes nomes da Literatura Portuguesa contemporânea. Do programa constam, ainda, exposições, teatro de rua, música, momentos de leitura, lançamento de livros e objetos que contaminam uma cidade inteira e que prometem interagir com leitores e transeuntes que vão nesta edição ser confrontados com novas experiências.
 
Miguel Sousa Tavares, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares, exerceu advocacia antes de se dedicar exclusivamente ao jornalismo.
 
Estreou-se na ficção com “Não te deixarei morrer David Crockett" (2001), constituído por um conjunto de contos e textos dispersos. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, “Equador”, que vendeu mais de 400.000 exemplares em Portugal, traduzido em 12 línguas e editado em cerca de 30 países e adaptado para televisão, em Portugal e no Brasil.
 
Ao longo de 20 anos, Miguel Sousa Tavares tem 16 livros editados com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.
 
Dez anos. Dez edições do Escritaria. Dez grandes nomes da literatura, num festival que mantém a tónica em homenagear um escritor de língua portuguesa, vivo, e de transformar, durante vários dias, Penafiel na cidade do Escritor(a) a homenagear.


     Consulte o Programa Completo do Escritaria 2017

 

Post retirado do "site" da Câmara Municipal de Penafiel
 

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publicado às 17:05

António Lobo Antunes
 

Avô

 Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse

Ilustração: Susa Monteiro

O compartimento onde escrevo, um andar muito alto sobre as traseiras da Penitenciária, de onde vejo até falcões que passam de quando em quando com um rato nas unhas, falcões, andorinhas, gaivotas, outros pássaros, traz-me todos os dias à memória o pai do meu pai, que se chamava António Lobo Antunes e esteve uns bons tempos preso aqui. Morreu pouco depois de eu fazer dezoito anos e desde então não houve um só dia sem me lembrar dele, pelo muito amor que continuo a ter-lhe. Foi a pessoa central da minha infância, é uma das duas ou três pessoas essenciais da minha vida. Imagino-o ali de novo, nesta prisão enorme, recordo-me do meu pai contar as visitas que lhe fazia em pequeno, de mão dada com a minha avó grávida, que o trazia aqui a ele e à irmã que nasceu a seguir a ele, recordo-me do meu pai contar o medo que sentia nesta cadeia enorme, cheia de homens e ecos. Às vezes oiço as vozes dos condenados lá em baixo, durante o recreio e, sem dar por isso, não, e, dando por isso, imagino o meu avô entre eles, a sorrir-me aquele sorriso tão bonito que era o seu, um homem grande, muito forte, extraordinariamente belo e terno, que tinha por mim um amor ilimitado, que me fazia tantas festas, até na rua, e eu cheio de vergonha, a pensar

– Vão achar que somos maricas

já parvo, claro, incomodado, aflito. A minha mãe contava que uma vez, de manhã muito cedo, telefonaram ao meu pai para ele dizer que o tio João, o irmão mais velho do meu avô, tinha morrido de repente e pedindo-lhe que fosse comunicar a notícia ao meu avô. De modo que a minha mãe e o meu pai lá foram os dois, a seguir a vestirem-se à pressa, e os meus avós estavam ainda deitados. Olharam os meus pais, surpreendidos, o meu pai disse

– Pai, trago-lhe uma notícia muito triste

e segundo a minha mãe o meu avô tornou-se rígido na cama, de olhos fechados. Após um silêncio o meu pai disse

– Pai, o tio João morreu

ao cabo de outro silêncio comprido, contava a minha mãe, o meu avô abriu os olhos e respondeu

– Pensei que fosse o António

e, comentava ela, o meu avô, que gostava muito do irmão

– Até parecia aliviado.

Pouco antes de morrer, e não morreu velho, disse-me

– Tenho tanta pena de te deixar

e sorriu-me. Depois foi-se embora e perdi-o para sempre. 
A ideia da minha morte, e já estive perto dela em mais de uma ocasião, a ideia da minha morte, quer dizer o que eu penso da minha morte, o que me consola na minha morte é a certeza que vou estar com ele de novo, aquele homem moreno

(eu que sou loiro)

de uma coragem física que me mete a um canto, de uma generosidade sem fim, com uma capacidade de amar que não encontrei em mais ninguém, com um sentido de família único, de uma fidelidade absoluta a si mesmo e aos outros, com quem não me pareço em quase nada, muito melhor do que eu, sociável, alegre, que nunca vi ler um livro, que às vezes me olhava com pena

– Quando tiveres um filho já eu estou a fazer tijolo há que tempos
tão valente, tão generoso, tão bom, salazarista, monárquico, intensamente religioso, sociável, divertido, um patriarca no sentido mais nobre da palavra, com um extraordinário talento para alcunhas

(a um conhecido político, por exemplo, chamava-lhe Pneu Mabor, porque a única coisa que tinha de bom era o ar)

amando a vida, ele que não vivia, comia os dias, com uma enorme capacidade de perdoar, um rei, um príncipe, um líder natural, o meu herói. Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse. Preso, condenado, obrigado a sair de Portugal, foi para Tanger, onde uma das minhas tias nasceu e só nos anos trinta lhe permitiram regressar a Portugal, e sei que a estadia no Norte de África não foi fácil, obrigado a trabalhar numa fábrica de conservas

(ele que nascera aristocrata e rico, essas célebres fortunas da borracha do Brasil)

e nunca lhe escutei uma queixa ou lamento. Em Portugal refez a sua vida toda, não voltou ao Brasil a não ser numa ocasião, numa breve visita, com toda a família de lá à sua espera no Rio, pegado como era a esta terra aqui, ele que passou a infância em Belém do Pará e cujas memórias, até nas canções que às vezes me cantava

Mamãe diz ao Papai
que eu quero ir para a guerra
do Paraguai.
Não vês meu filho
que podes morrer
tão pequenino
que irá acontecer?

eram tão brasileiros. É que a sua alma é suficientemente grande para ocupar dois países. Nada disto eu herdei, claro. Mas basta-me o orgulho de ter o seu nome, António Lobo Antunes, e a felicidade de haver sempre recebido o seu amor. E agora não estou a olhar a Penitenciária lá em baixo. Estou com ele em Pádua a fazer a primeira comunhão na igreja de Santo António, em resultado da promessa que fez nesse sentido se eu não morresse de meningite que tive aos oito meses, como o irmão mais novo do meu pai, morto dela com a idade em que eu ia morrendo, e António Lobo Antunes também. Sabe, avozinho, acho sempre que os falcões que passam na janela me trazem recados seus. Eu sei que olha por mim e não me deixa. E o que traz nas garras não é um bicho morto é o nosso amor que continua vivo. Olhe, fico contente que este texto esteja tão mal escrito. 

Acho que me comovi demais.

 

Crónica publicada na VISÃO 1283 de 5 de outubro

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publicado às 17:53

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

O SENHOR VICENTE

 

O senhor Vicente trabalhava na Administração do Posto de Marimba, uma terra pequena acima de Malanje, na Baixa do Cassanje. Julgo que era uma espécie de escriturário, porque não usava a farda dos funcionários coloniais nem o uniforme dos sipaios. Vestia-se à paisana, como um civil normal, era extremamente bem educado para toda a gente e eu considerava-o um génio. Tanto podia ter trinta como quarenta anos, pertencia de certeza à etnia ginga porque o seu kimbundo era perfeito, tal como o seu português, aliás, e eu gostava de conversar com ele porque aprendia sempre. Em regra ao fim da tarde passeávamos juntos sob a imensa fila das mangueiras gigantescas que iam de uma ponta à outra da vila, desde a Administração às sanzalas, ou descíamos ao rio Cambo a olhar os crocodilos. Foi numa dessas saídas que encontrámos, na picada para o rio, uma jiboia enorme que morrera engasgada com a metade traseira de uma cabra grande entalada na boca. Isto entre outras descobertas mirabolantes mas, para mim, o senhor Vicente era a personagem mais notável que conheci. Solitário e introvertido com toda a gente conversava imenso comigo. Vivia na dor permanente de se ter apaixonado por uma mulher ou rapariga branca cujos pais se opuseram com ferocidade ao casamento dela com um africano, e o senhor Vicente vivia aquele grande amor frustrado mantendo uma fidelidade absoluta a um fantasma que habitava em Luanda e nem a esmola de uma carta lhe fazia. Tomava todas as manhãs uma aspirina embora se sentisse fisicamente bem porque as doenças eram um terror para ele. Um dia disse-lhe

– Mas se está bem porquê tomar aspirina?

quando estávamos a chegar ao quimbo do Soba Macau, um senhor idoso da mais alta nobreza

(nome completo: Sebastião José de Mendonça Macau)

e de uma sabedoria infinita, que tinha muito respeito por mim devido ao facto extraordinário de eu ter olhos azuis, coisa que até então ele nunca tinha visto e portanto tratava-me por Kimbanda Kindele, o que significa feiticeiro branco, e escutava tudo o que eu dizia numa atenção respeitosa que, na prática, me dava um trabalhão. Por ordem dele lá tive que andar às voltas com um súbdito a quem um crocodilo comeu uma perna e um segundo todo furadinho pelos cornos de uma pacaça: nenhum deles morreu o que colocou o meu prestígio nos píncaros. Mas voltando ao senhor Vicente e à minha pergunta

– Se está bem porquê tomar aspirina?

o senhor Vicente estacou e respondeu-me, em voz pousada, esta evidência

– Pelo sim pelo não

contra a qual, é óbvio, eu não tinha argumentos, e voltou, de imediato, ao tema da sua vida, isto é à sua paixão contrariada, que eu escutava num silêncio côncavo, a fim de que o seu sofrimento me coubesse inteiro na alma. Não há nada mais horrível do que o mal de amor e após meses a escutá-lo acabei por soltar uma breve frase de compreensão

– Ó senhor Vicente isso é chato.

Mal acabei a frase arrependi-me logo. O senhor Vicente estacou diante de mim a ruminar a minha opinião em silêncio, cara a cara comigo, meditando cada uma das minhas sílabas até me agarrar os dois braços com as mãos e me soprar na cara, baixinho, a mais lancinante frase que alguma vez escutei:

– É chato na medida em que se torna aborrecido.

No início desta prosinha falei em génio. E de facto quem é capaz de suportar o sofrimento com uma dignidade assim e resumi-lo com o poder de condensação de um espírito superior que merece entrar de imediato na galeria dos grandes conhecedores da alma humana:

– É chato na medida em que se torna aborrecido

resume, com extraordinária simplicidade e não menos extraordinário conhecimento uma boa parte das questões essenciais da vida. A frase é cegante de evidência: as coisas chatas são chatas na medida em que se tornam aborrecidas e basta aprofundar e conhecer a extensão do aborrecimento, entrar nele, vivê-lo, pesá-lo, tomá-lo por aquilo que é para se começar a dissolver a chatice. Há qualquer coisa em

– É chato na medida em que se torna aborrecido

(ele dizia borrêcido)

que tem a cristalina simplicidade da célebre fórmula de Einstein

E = mc2

ou, sei lá, do Teorema de Pitágoras

(o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos)

e o senhor Vicente merece estar ao lado dos raríssimos espíritos de síntese que nos dão a conhecer o mundo com a simplicidade óbvia dos eleitos. Quando o grande Laplace publicou o seu livro acerca das órbitas dos planetas, ofereceu um exemplar a Napoleão, Napoleão perguntou-lhe

– E Deus?

E Laplace respondeu

– Sire, não tive necessidade de introduzir essa hipótese

tornando-se ainda mais justamente célebre por isso mas não conseguiu alcançar, no meu modesto entendimento, a profunda análise que o senhor Vicente logrou:

– É chato na medida em que se torna aborrecido

constitui, a meu ver, uma descoberta inigualável que abre estradas novas para o desvendar do espírito humano. Tenho esperança que isto seja reconhecido para glória de Portugal, de Angola também, claro, e que esta fórmula entre, majestosa e única, na curta lista das sentenças essenciais que nos oferecem o mecanismo do Mundo e abrem amplas avenidas aos, até agora tortuosos, caminhos da Alma.

 

Crónica publicada na VISÃO 1282 de 28 de setembro

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publicado às 16:07


#2612 - Kazuo Ishiguro é o novo Prémio Nobel da Literatura 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.10.17

 2017 Nobel Prize in Literature

The Nobel Prize in Literature for 2017 is awarded to Kazuo Ishiguro"who, in novels of great emotional force, has uncovered the abyss beneath our illusory sense of connection with the world".

 

               Kazuo Ishiguro, escritor britânico de origem japonesa, 63 anos - nasceu na cidade de Nagasaki, Japão, fixando-se com a família no Reino Unido no início da década de 1960 - é novo Prémio Nobel da Literatura 2017.

               Destacou-se com os primeiros contos publicados na revista Granta, escreveu para cinema e televisão e é autor de canções. Com o livro "Despojos do Dia" venceu em 1989 o Booker Prize.

               A Gradiva tem seis livros do autor editados: Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize; adaptado ao cinema), Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize), Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize), Nunca me Deixes (2005, nomeado para o Booker Prize; adaptado ao cinema), Nocturnos (2009) e O Gigante Enterrado.

              As Colinas de Nagasaki foi editado pela editora de Francisco Vale - Relógio D'Água - em Abril de 1989.

 

 

 

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publicado às 15:26

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS (1845-1900)

 

"Nos finais do século XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena  e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.

 

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869, acompanhou o  seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egito para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações leem e releem. Três anos depois ingressou  na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muitos diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Émile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: «Fala-lhes um discípulo de Flaubert.»

 

Cada oração que Eça de Queirós  publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o  sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o  Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra, a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

 

No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."

 

TEXTO DE JORGE LUIS BORGES, DO LIVRO "BIBLIOTECA PESSOAL", PÁGINAS 23 E 24, EDIÇÃO QUETZAL, 2014

 

 

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publicado às 18:12


#2610 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.10.17

jorge luis borges024.jpg

 

 " Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e que gostaríamos de partilhar. Os textos dessa biblioteca íntima não são forçosamente famosos. A razão é clara. Os professores, que são quem dispensa a fama, interessam-se menos pela beleza do que pelos vaivéns e pelas datas da literatura e pela prolixa análise de livros que se escreveram para essa análise, não para o prazer do leitor.

 

A série que prologo e que já entrevejo quer dar esse prazer. Não escolherei os títulos em função dos meus hábitos literários, de uma determinada tradição, de uma determinada escola, de tal país ou de tal época.

 

«Que outros se gabem dos livros  que lher foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler», disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor.

Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. Sei que o romance não é menos artificial do que a alegoria ou a ópera, mas incluirei romances porque também eles entraram na minha vida. Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências.

 

María Kodama e eu errámos pelo globo da terra e da água. Chegámos ao Texas e ao Japão, a Genebra, a Tebas e, agora para juntar os textos que foram essenciais para nós, percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho.

Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. «A rosa é sem porquê», disse Angelus Silésius; séculos depois Whistler declararia «A arte acontece».

 

Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava."

 

PRÓLOGO ESCRITO POR JORGE LUIS BORGES IN BIBLIOTECA PESSOAL, PÁGINAS 7 E 8 - EDIÇÃO QUETZAL, 2014

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publicado às 20:20

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

A FELICIDADE

 

Há quanto tempo estamos juntos meu Deus, não era assim ao princípio, não foi assim durante algum tempo e depois, a pouco e pouco, isto, esta ideia de para quê que se irá eternizando a menos que ela lhe apeteça deixá-lo mas porquê deixá-lo tanto mais que ele não incomodava, ia durando por ali, não aborrecia, não fazia perguntas, quase não ocupava espaço

 

Olhou em volta, para a casa onde morava, e sentiu-se um estranho. Pensou

 

– Não vivo aqui

 

pensou

 

– Nunca vivi aqui

 

porque tudo lhe parecia insólito, móveis, bilelôs, jornais que não lia, até o quadro que lhe tinham oferecido era de outra pessoa, não sabia ao certo qual, aliás pouco lhe importava, considerava as coisas numa indiferença mansa conforme considerava o prédio do outro lado da rua, sem repugnância nem afecto, via janelas, cortinas, talvez as pessoas que ali morassem se sentissem bem, não as conhecia, passava os dias num quarto pequeno, a maior parte do tempo a observar a parede, sem sentir nada a não ser que era um inútil, perguntou-se para dentro

 

– O que faço eu aqui?

 

sem achar a resposta, também pouco lhe importava a resposta, deixara de se fazer perguntas, de imaginar outra vida, não lia os jornais no sofá porque não eram dele, não mexia em nada, não abria gavetas, dizia-se apenas

 

– O que faço eu aqui?

 

sem esperar resposta alguma, que respostas haveria, mesmo que houvesse respostas não acreditava nelas, aliás a mulher também não falava a não ser com os amigos, o telemóvel dela constantemente a tocar, entrava, saía, às vezes um sorriso rápido, às vezes sorriso nenhum, a maior parte das vezes sorriso nenhum, ia para a cama mais cedo do que ela que ficava diante da televisão interessada num programa qualquer, dantes conversavam, agora frases curtas a propósito de assuntos que esqueciam logo, levantava-se da cadeira, ia beber água à cozinha, tornava a sentar-se, não lhe apetecia sair, não lhe apetecia comer fora, o que podia contar sem interesse nenhum, durante o jantar a mulher falava com a filha, não falava com ele, assuntos que não lhe diziam respeito acerca de pessoas que não fazia ideia quem eram e ele calado a escutá-las, pensando

 

– E agora?

 

sem que agora nenhum lhe ocorresse, não se sentia amargo, não se sentia infeliz, sentia-se um cacto no vaso, sentia-se um estrangeiro, sentia-se sobretudo supérfluo, quem precisa de mim, quem se inquieta 
comigo, a quem faço eu falta e não fazia falta a ninguém, já não tinha pais, tinha um irmão ainda mas não se viam há meses embora morassem na mesma cidade, gostava do irmão, gostava da cunhada, ignorava se o irmão e a cunhada gostavam um do outro, pensava

 

– Se eu tivesse dinheiro

 

e se eu tivesse dinheiro o quê, alguns colegas ainda que lhe contavam a vida deles, perguntavam

 

– O que é que tu achas?

 

e ele, que não achava nada, inventando que achava, os colegas

 

– Pois é

 

dividiam a conta no fim, um aperto de mão e adeus, um ou outro

 

– Pareces esquisito

 

ele conseguia um sorriso

 

– Esquisito?

 

que não queria dizer nada, voltava para casa devagarinho cruzando-se com estranhos para quem não olhava e que não olhavam para ele, a pensar

 

– O que pode a minha mulher sentir por mim?

 

e de facto o que podia a mulher sentir por ele, não era um marido, era um hábito, uma cara a que se acostumara como às cadeiras ou à cama, mais nada, sou um objecto, uma jarra, uma dessas almofadas que dão cor aos sofás, uma certa cor aos sofás e acabou-se, há quanto tempo estamos juntos meu Deus, não era assim ao princípio, não foi assim durante algum tempo e depois, a pouco e pouco, isto, esta ideia de para quê que se irá eternizando a menos que ela lhe apeteça deixá-lo mas porquê deixá-lo tanto mais que ele não incomodava, ia durando por ali, não aborrecia, não fazia perguntas, quase não ocupava espaço, não queria mudar o canal da televisão, ficava no seu canto a trabalhar sozinho, traduzia livros técnicos com a ajuda de um dicionário, tomava um comprimido de oito em oito horas porque às vezes o coração se desviava, não gritava nunca, não discutia, aceitava os silêncios, talvez fumasse demais dado que às vezes a respiração se interrompia, mas não era gastador, não ligava ao dinheiro, não aborrecia ninguém, quando o chamavam para a mesa ia para a mesa, arrumava no lava-loiças os seus talheres, o seu prato, depois levantava-se, agradecia e sumia-se no cubículo com as suas traduções, o cabelo já branco, já ralo, as pernas menos rápidas, os movimentos mais lentos mas não se lamentava fosse do que fosse nem protestava nunca, faltava-lhe alegria mas a quem não falta alegria, um domingo tirou a mala do armário, abriu-a sobre a cama mas tornou a guardá-la sem meter fosse o que fosse lá dentro, sentou-se na sala, não no sofá, claro, numa cadeira pequena e ficou para ali de queixo na palma, sem exprimir nenhum desejo, à espera, sozinho, não se entendia de quê.

 

(Crónica publicada na VISÃO 1281, de 21 de setembro de 2017)

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publicado às 19:35


#2594 - Inês Pedrosa criou a sua própria Editora

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

 

Inês Pedrosa, escritora, é também editora. Acaba de montar a "Sibila Publicações", uma editora que vai priveligiar a escrita feita por mulheres.

Joumana Haddad e Maria Antónia Palla são as primeiras escritoras publicadas pela novíssima Editora.

 

 

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publicado às 07:46


#2589 - PRÉMIO PARA A PAZ GUSTAV HEINEMANN 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.09.17

ISABEL MINHÓS MARTINS - ESCRITORA

 BERNARDO P. CARVALHO - ILUSTRADOR

 

O livro «Daqui ninguém passa» escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo P. Carvalho venceu o Prémio Para a Paz Gustav Heinemann 2017, um dos mais importantes prémios alemães para livros infantis.

 

Criado em 1983, em homenagem às políticas de paz do presidente alemão Gustav Heinemann, o prémio, que tem o seu nome, é dado a livros que estimulem  a coragem moral, a tolerância e os direitos humanos.

 

"Daqui ninguém passa" foi publicado em língua alemã sob o título "Hier Kommt Keiner Durch" pela editora Klett, de Leipzig.

 

 

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publicado às 17:19


#2587 - Prémio Literário Oceanos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

A edição 2017 do prêmio Oceanos – realizado em parceria com o Itaú Cultural e com patrocínios do Itaú Unibanco, CPFL Energia e do governo de Portugal, por meio do Fundo de Fomento Cultural Português – é um marco na história das premiações literárias do mundo lusófono: a partir de 2017, o Oceanos ampliou sua abrangência para todos os livros publicados em língua portuguesa, em versão impressa e digital. 


O prêmio contempla cinco categorias – Poesia, Romance, Conto, Crônica e Dramaturgia. Podem ser inscritos quaisquer livros dessas categorias que tenham sido publicados em 2016. Isso significa que o Oceanos passa a ser o prêmio de maior alcance dentro da lusofonia, constituindo um instantâneo da produção editorial nos diferentes gêneros e traduzindo a cena literária de Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Brasil, onde o prêmio foi criado. Além disso, obras eventualmente editadas em língua portuguesa em países não lusófonos no ano de 2016 podem ser inscritas e concorrer à edição do Oceanos 2017, conforme o novo regulamento disponível neste site. 

 

Veja aqui os livros concorrentes

Clique aqui para baixar  a lista de livros concorrentes 

 

 

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publicado às 14:32


#2586 - Lista dos seis finalistas do "The Man Booker Prizes"

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

 

The 2017 shortlist: 

4 3 2 1 by Paul Auster (US) (Faber & Faber)
History of Wolves by Emily Fridlund (US) (Weidenfeld & Nicolson)
Exit West by Mohsin Hamid (Pakistan-UK) (Hamish Hamilton)
Elmet by Fiona Mozley (UK) (JM Originals)
Lincoln in the Bardo by George Saunders (US) (Bloomsbury Publishing)
Autumn by Ali Smith (UK) (Hamish Hamilton)

 

 

 

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publicado às 12:23


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28

TATANGA MANI (1871-1967)

 

"Éramos um povo sem leis, mas estávamos em muito boas relações com o Grande Espírito, criador e senhor de todas as coisas. Julgáveis vós, os brancos, que éramos selvagens. Não compreendestes as nossas orações. Não procurastes compreendê-las. Quando cantávamos os nossos louvores ao Sol, ou à Lua, ou ao Vento, dissestes que éramos idólatras. Sem compreenderdes, condenaste-nos como se fôssemos almas penadas, simplesmente porque o nosso culto era diferente do vosso.

 

Nós víamos a obra do Grande Espírito em quase todas as coisas: no Sol, na Lua, nas árvores, no vento, nas montanhas. Por vezes aproximávamo-nos dele por intermédio destas coisas. Que mal tinha isso? Penso que tínhamos uma crença sincera no ser supremo, e uma fé maior do que a de muitos dos brancos que nos chamavam pagãos... Os índios, ao viverem junto da natureza e do Senhor da natureza, não vivem na obscuridade.

 

Sabíeis vós que as árvores falam? Pois falam. Falam entre elas, e hão-de, se as escutardes, falar-vos a vós. O problema dos brancos é não ouvirem. Nunca aprenderam a ouvir os Índios; por isso estimo que não ouvem outras vozes da natureza. As árvores, porém, a mim ensinaram-me muito: umas vezes a respeito do tempo, outras vezes a respeito dos animais, outras ainda a respeito do Grande Espírito."

 

in "A Fala do Índio", de Teri C. McLuhan, página 25, edição da Fenda Edições, Outubro de 1996

 

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publicado às 17:54


#2574 - A Fala do Índio

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.09.17

 

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"A Terra foi criada com a ajuda do Sol, e deveria ser deixada como era... O país foi feito sem fronteiras, e não cabe ao homem dividi-la... Bem vejo os brancos enriquecerem pelo país fora, e vejo o desejo deles de nos darem terras sem valor... A terra e eu somos do mesmo espírito. A medida da terra e a medida dos nossos corpos são as mesmas. Dizei-nos, se a tal vos atreveis, que fostes enviados pelo Poder Criador para nos falardes. Julgais por certo que o Criador aqui vos enviou a fim de dispordes de nós como julgais legítimo. Se eu pensasse que fostes enviados pelo Criador, seria levado a julgar que teríeis o direito de dispor de mim. Não me entendias mal; procurai, pelo contrário, entender por completo a minha afeição pela terra. Eu nunca proclamei que a terra é minha, a fim de fazer dela o que me aprouvesse. Quem tem direito a dispor dela é quem a criou. Requeiro pois o direito de viver na minha terra, e a vós concedo-vos o privilégio de viver na vossa."

 

Hin-Mah-too-yah-lat-kekt (Chief Joseph), dirigente da tribo dos Nez Percé.  Do Livro «A FALA DO ÍNDIO», de Teri C. McLuhan, página 48, edição FENDA EDIÇÕES, Outubro de 1996.

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publicado às 19:11


#2568 - FEIRA DO LIVRO DO PORTO | 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.08.17

 

Feira do Livro do Porto

Feira do Livro do Porto, 1 a 17 Setembro 2017, Jardins do Palácio de Cristal,

programação de Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa

 

Dia 1

Uma máquina voadora movida por vontades (Saramago),  22h

spoken word por

André e. Teodósio, encenador, e Teatro Praga;

 

Dia 2

Clarice Lispector por Carlos Mendes de Sousa (lição, 12h);

Miguel Sousa Tavares, Frederico Lourenço e Ana Luísa Amaral conversam sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (19h);

 

Dia 3

José Luís Peixoto e Patrícia Reis conversam sobre o sagrado e o profano na literatura com moderação de João Paulo Sacadura (16h);

Han Kang, escritora coreana cujo romance, “A Vegetariana”, venceu o prestigiado Booker International de 2016, conversa sobre a sua obra com José Mário Silva (19h);

 

Dia 6

"Memorial do Convento" de Saramago por Carlos Reis (lição, 19h);

 

Dia 8

De Ana Hatherly a Tarkovsky (palavras, imagens e um fio de música) 21.30

por

Matilde Campilho (poeta)

Tomás Cunha Ferreira (artista plástico e músico)

Mariano Marovatto (poeta e músico)

Anastasia Lukovnikova (cineasta)

 

Dia 9

Sophia de Mello Breyner por Ana Luísa Amaral (lição, 12h); 

A escritora brasileira Tatiana Salem Levy conversa com a portuguesa Dulce Maria Cardoso (que estará lançando um novo livro) sobre a importância da literatura num mundo à beira do abismo — ou da salvação. Mediação de Raquel Marinho (15h);

Que mistérios tem Clarice? 

spoken word, 21.30, por

Carlos Mendes de Sousa (selecção de textos)

Ana Vidigal (imagem)

Marta Hugon (a dizer e a cantar)

Filipe Raposo (piano)

 

Dia 10

Teju Cole conversa com Isabel Lucas (16h);

Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida conversam sobre a  construção e a reinvenção da memória, com mediação de Carlos Vaz Marques (19h);

 

Dia 13

"A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, por Clara Rowland

(lição, 19h);

 

Dia 16

David Mourão Ferreira por Fernando Pinto do Amaral (lição, 12h);

Laurent Binet conversa com Ana Sousa Dias (19h);

 

Dia 17

"Húmus" de Raul Brandão por Maria João Reynaud (lição, 12h);

Alexandra Lucas Coelho e Gonçalo M. Tavares conversam sobre o  corpo e o mal, com moderação de Luís Caetano (19h);

 

 

"Num mundo em convulsão, atormentado por grandes e imprevistas mudanças, e em busca de novos caminhos e ideais, a literatura tem um papel cada vez mais importante: o de promover o debate e pensar o futuro. Para esta edição da Feira do Livro do Porto iremos trazer um conjunto de escritores de grande relevância a nível internacional e no espaço da lusofonia, os quais irão discutir entre si, e com os leitores presentes, temas como a construção e a reinvenção da memória, a instalação do mal, ou o lugar do sagrado e do profano na literatura e na sociedade.

Iremos ainda recordar e homenagear Sophia de Mello Breyner e Júlio Diniz.

A nossa intenção é criar um Porto de Ideias, um lugar de encontro de escritores e pensadores, dando assim continuidade a uma tradição de cosmopolitismo e de partilha, característica da natureza de todas as antigas urbes portuárias.

José Eduardo Agualusa"

 

"Para explicar o modo como pensei alguns eventos da Feira do Livro do Porto (1 a 17 Set), socorro-me do maravilhoso trabalho, feitas de palavras desenhadas, de Ana Hatherly. Há nele uma forma que não é definitiva, que está em mutação, como que levada pelo vento; e, nesse movimento, contagia, assume novas configurações, incorpora um saber e uma relação que vem com os outros. Aprender é isto. Aprender implica uma dinâmica, uma abertura, a contaminação. Uma nova realidade que é criada, distinta da precedente, algo que nos faz ser outros e em que intervimos. Há elementos especialmente activos nesta metamorfose. Poetas, palavras, imagens, uma evocação, a música. Princípios, partículas essenciais, que nos levam, implicam, transformam. E intérpretes (aventurosos) que prolongam o movimento, desafiam limites, convocam outros e ainda outros. Tudo parte de uma matéria orgânica.

Nas sessões de spoken word, a palavra é dita, literalmente, mas está longe de se esgotar no dizer; ao invés, ela é apropriada pela imagem, pelo som, pela diversidade linguística e de suportes. Trazemos Clarice, Saramago, vamos de Hatherly a Tarkovsky.

Nas lições, recordamos os 30 anos da partida de Carlos Drummond de Andrade (e analisamos o seu mais famoso poema, A Máquina do Mundo), os 40 anos da morte de Clarice Lispector, David Mourão Ferreira que faria 90 anos, se fosse vivo, os 35 anos da invenção de uma máquina que voa movida por vontades ("Memorial do Convento") e Sophia, a autora homenageada na Feira, fada-menina-musa-tudo.

Anabela Mota Ribeiro"

 

A Feira do Livro do Porto conta ainda com um ciclo de cinema, exposições, discussões, entre outras iniciativas. 

 

A INFORMAÇÃO SOBRE A FEIRA DO LIVRO DO PORTO FOI RETIRADA DO "SÍTIO" DA ANABELA MOTA RIBEIRO

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publicado às 09:10


#2566 - Com olho de peixe

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

 

 

"Acredito no rio Amazonas desde que eu era menino. Meu pai foi quem primeiro me falou dele. Disse que sua largura era tamanha que o lado de lá não se via. Eu, acostumado a pescar lambaris em ribeirões e riachinhos, ouvia ele dizer que o rio maior que tinha visto, o Grande, perto do Amazonas não passava de um mijinho de menino. No Grupo decorei e recitei feito poesia os nomes dos afluentes dele: Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu. Aprendi também sobre a pororoca, briga que o rio perde sempre, porque o mar é maior do que ele. Assim é a vida: o mar tem sempre a última palavra... Mas o que me fascinava mais, mesmo, era a notícia de uma planta de folha tão grande que nela se podia deitar uma criança. Tudo era assombroso.

 

Acreditei sem nunca ter visto, só de ouvir dizer. Acreditei tanto que cheguei mesmo a viajar para lá para ver o rio. Quem vai é porque acreditou. E vi com estes olhos, e quando o quero rever releio o poema de Heládio Brito:

 

Eu vim de ver o rio

o frouxo ir das águas,

pesadas delas mesmas,

grossas das lonjuras vindas

no irem sendo rio.

Líquido boi cansado

carregado de peixes,

trabalha o rio

para os homens da margem,

que ao suado lombo lhe fustigam

com seus anzóis e redes...

 

Cheguei mesmo a navegar nas suas águas, se atravessar de balsa é navegar. Não, não é não. Quem navega com a cabeça fora d'água nada sabe. É preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. Mas, para isso, serai preciso que fôssemos como os peixes. O Guimarães Rosa amava tanto os rios que desejava, numa outra encarnação, nascer crocodilo. Nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. Os crocodilos os conhecem nas funduras. Nas funduras os rios são escuros e tranquilos como os sofrimentos dos homens. Essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranquilos.

 

Aí ele diz uma coisa inusitada: que o rio é palavra mágica para conjugar eternidade. Eu havia aprendido o contrário, que o rio é palavra para conjugar tempo. Pelo menos foi assim  que ouvi de Heráclito, o filósofo: "tudo flui, nada permanece, tudo é rio..."

 

Mas lendo as Escrituras Sagradas percebi que certo estava o João: "a eternidade mora no fundo das águas, no fundo do tempo". Quando Deus quis fazer artes mágicas com Jonas, jogou-o no mar, onde um peixe o aguardava de boca aberta, e por três dias ficou na fundura das águas, como feto na barriga da mãe, até que se transformasse em profeta. O que não é muito diferente das metamorfoses que fazem um poeta - portanto confirmado pela Cecília Meireles e pelo T.S. Eliot que afirmam que, para fazer poesia, é preciso ter olhos de peixe. Não é por acaso, portanto, que o ritual mágico para transformação do velho em criança, a que se dá o nome de "batismo", siga a metáfora do afogamento e do nascimento: o adulto é mergulhado, de corpo inteiro, nas águas de um rio: o velho que mergulha morre; a criatura que sai das águas é menino.

 

Não é por acaso, portanto, que o peixe seja, a um tempo, símbolo poético e símbolo profético: é que ele nada nas funduras do tempo, onde a eternidade gera os seus milagres.

 

Na superfície do rio é o tempo que flui, sem parar. Assim estava escrito nos carrilhões antigos, aqueles relojões enormes de pêndulos sem pressa: tempus fugit - o tempo passa, a vida vai se perdendo nas águas do nunca mais. Resta então a saudade sem remédio, caso tenha havido amor e alegria. A festança ao fim do tempo só se justifica se amor não houve, nem alegria. A perda da coisa amada não pode ser festejada. Só pode ser lamentada.

 

Mas pensando no que dizem os poetas e profetas, eu me descubro transformando o choro em riso: os que semeiam com lágrimas com alegria ceifarão, pois Deus é o rio mostrando as suas entranhas. No fundo, na eternidade, as águas correm ao contrário, disso sabem os peixes, que nadam contra a correnteza - a alma também; na superfície a gente nasce nenezinho, tempus fugit e a gente fica adulto, tempus fugit e a gente fica velho, tempus fugit e a gente morre. Nas funduras, onde mora a eternidade, é ao contrário. Primeiro é a velhice. Aí tempus fugit , a gente vira menino.

 

Deus começa sempre pelo fim. Nas Escrituras Sagradas o dia começa com a tarde e termina com a manhã. Está escrito no poema da Criação: "E foi a tarde e a manhã do primeiro dia..." O sol se põe, mais um dia se inicia. O fim é o lugar do começo.

 

Ao recitar as estações do ano a gente, automaticamente, diz: primavera, verão, outono, inverno. Mas lendo D. Miguel Unamuno percebi que isso não está certo. O tempo é uma roda. Se nas Escrituras o dia começa com a tarde, no ano as estações podem muito bem se iniciar com o inverno. Inverno, primavera, verão, outono... O inverno é a infância do ano. No seu silêncio profundo a primavera está em gestação... No silêncio do fim moram os começos. No silêncio da velhice mora a infância...

 

Tem gente que acredita em Deus com firmeza, do jeito mesmo como eu acreditava no rio Amazonas, por ouvir dizer - chegando a discorrer com autoridade, invocando teologia e dogma, feito o meu pai, que ensinava sem nunca ter ido ou visto. Não mergulha, por medo de se afogar. Agora eu acredito em Deus como crocodilo ou peixe, para me des-afogar... Eu preciso dele para o tempo andar ao contrário. E é assim que eu o imagino, como um pescador que vai lançando nas águas do tempo as redes da eternidade, para pescar tudo aquilo que foi amado e que se perdeu. Para nos devolver. É o "eterno retorno". É a "ressurreição dos mortos". É a primavera nascendo do inverno. É a criança nascendo do velho.

 

Isso eu desejo do ano novo, criança nascida do velho; que eu seja mais criança do que fui."

 

 VER BIOGRAFIA DE RUBEM ALVES »»»»

 

CRÓNICA DE RUBEM ALVES PUBLICADA NO LIVRO "SOBRE O TEMPO E A ETERNIDADE", EDIÇÃO DA PAPIRUS, SPECULUM, 1995, BRASIL.

 

 

 

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publicado às 10:57


#2561 - 16 BIBLIOTECAS DIGITAIS, UMA SUGESTÃO DA REVISTA "BULA"

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.08.17

POR JÉSSICA CHIARELI

 

A revista "BULA" elaborou uma lista de 16 Bibliotecas Digitais:

 

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publicado às 22:30


#2550 - VEM TROVÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

CHRISTOPHER OKIGBO (1932-1967)

 

VEM  TROVÃO

 

Agora que a marcha triunfante entrou nas últimas esquinas da rua,

Recordai, ó dançarinos, o trovão entre as nuvens...

 

Agora que a gargalhada, partida em duas, trémula, está suspensa nos dentes,

Recordai, ó dançarinos, o relâmpago além da terra...

 

O cheiro do sangue já flutua na neblina que, na tarde, cheira a lavanda.

A sentença de morte está emboscada nos corredores do poder;

E uma enorme coisa pavorosa é já arrastada pelos cabos do ar livre,

Uma névoa imensa e incomensurável, uma noite de águas profundas -

Um sonho de ferro que não pode ser nomeado nem impresso, uma vereda de pedra.

 

As cabeças sonolentas das vagens em quintas maninhas testemunham-no,

As casa abandonadas no matagal durante o fogo deste século testemunham-no:

Os múltiplos olhos de maçarocas de milho abandonadas em celeiros ardidos testemunham-no:

Pássaros mágicos com o milagre do relâmpago nas suas penas...

 

As setas de Deus tremem nos portões da Luz,

Os tambores do recolher prestam-se a uma doença de morte;

E a coisa secreta no seu impulso

Ameaça com máscara de ferro

A última torcha alumiada do século...

 

POEMA DO POETA NIGERIANO CHRISTOPHER OKIGBO, TRADUZIDO POR JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

 

_________________________________________________________________________________________________

Christopher Okigbo nasceu na pequena vila de Ojoto, nos arredores de Onitsha no sudeste da Nigéria, em 1932. Seu pai era professor de uma escola católica, no auge do domínio britânico da região. O jovem poeta cresceria sob a influência de seu pai, católico fervoroso, e a de seu avô, um sacerdote da deusa das águas Idoto, personificada no rio de mesmo nome que corre na região de sua infância. Idoto seria a deusa invocada naquele que é o mais famoso poema de Christopher Okigbo, "The passage", aqui traduzido como "A passagem", mas também conhecido como "Heavensgate". Este sincretismo religioso pode ser sentido com força em seu poema, que inicia com a invocação a Idoto, para logo em seguido invocar Ana, que em comentários críticos sobre o poema tem sido identificada como a santa do catolicismo. Christopher Okigbo viria a se formar na mesma universidade em que estudaram o conhecido romancista nigeriano Chinua Achebe (n. 1930) e o poeta Wole Soyinka (n. 1934), ganhador do Prêmio Nobel de 1986, de quem Okigbo foi amigo.

 

Começou a publicar poemas na revista Black Orpheus, dedicada ao trabalho de poetas africanos e afro-americanos. Seus poemas seriam reunidos postumamente no volume Labyrinths (1971). Christopher Okigbo morreu em 1967, com apenas 35 anos, lutando na guerra pela independência da República de Biafra (1967 - 1970), região separatista que permaneceria parte do território nigeriano.
 
A poesia de Okigbo é hoje considerada uma das mais importantes obras da poesia africana pós-colonial. Ainda que críticos nacionalistas o tenham criticado por adotar a língua inglesa, o poeta parece apropriar-se da língua do colonizador para implantar uma consciência mítica que só pode ser totalmente compreendida através da poética mística e vocal dos poetas africanos. Para nossa sensibilidade cristã, algo da poesia de Okigbo pode parecer alinhar-se a poetas como o W.B. Yeats do volume The Tower (1932) ou o T.S. Eliot de Choruses from "The Rock"(1934), mas a mim me parece que um dos poetas de língua inglesa com quem poderíamos traçar paralelos interessantes, passando pela poética de Christopher Okigbo, é o norte-americano Robert Duncan (1919 - 1988), de livros como The Opening of the Field (1960) e Bending the Bow (1964).
 
Christopher Okigbo nasceu em 1932, o que o faz contemporâneo de brasileiros como Ferreira Gullar (n. 1930) e Augusto de Campos (n. 1931). Sua poética, porém, visionária e mística, talvez o ligue mais a um brasileiro como Roberto Piva (n. 1937). A experiência da leitura de seus poemas, contudo, parece-me de uma beleza bastante singular.



--- Ricardo Domeneck

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publicado às 21:32


#2543 - CASARIO E FIGURAS DE UM SONHO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.08.17

Casario e Figuras de um Sonho - Dominguez Alvarez

 

Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.

Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.

Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias

e dos movimentos.

 

Fernando Pessoa in «Poemas Ocultistas»

(Selecção e Glosa de Petrus - O. C., 2.º v., p.262),

C.E.P., s/d (p.43)

Retirado do Catálogo "Azares da Expressão ou a Teatralidade na Pintura Portuguesa - Algumas obras do CAM

 

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publicado às 21:38


#2535 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.07.17

"O inferno é branco; o homem e a criança são negros; uma das mulheres é da família das liliáceas, cor de jacinto azul, a outra é da cor das magnoliáceas, em tom de magnólia branca: os seus números são de cor de papoila, a sua água é verde.

O nome da minha chita é de ouro e a nossa memória anímica banha-se nua no cântico do leite reluzente.

O basalto permanece sombrio."

 

PREÂMBULO DO LIVRO "CÂNTICO DO CRIME" DE JOËLLE GHAZARIAN, PÁGINA 15, EDIÇÃO QUASI, SETEMBRO DE 2007

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publicado às 18:58

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava

A escritora Gertrude Stein insistia com os jovens escritores americanos de quem era protectora, Hemingway, Fitzgerald, tantos outros, da importância que teria para eles viverem em Paris. A sua explicação era simples:

– Não é tanto o que Paris dá

(insistia ela)

é o que Paris não tira. Esta frase traz-me sempre à ideia a pergunta que Alexandre Dumas

(gosto de Alexandre Dumas)

faz no seu diário:

“Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?”

Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir que só pode ser um problema de educação. Por exemplo os desenhos das crianças em geral são magníficos, os dos adultos, excepto no caso de serem artistas de talento, uma bodega. Claro que é um problema de educação: uma criança criativa é herética e subversiva

(até rima, olha)

e claro que isso assusta os professores que exigem dos alunos uma normalização que conduz inevitavelmente à mediocridade que tanto tranquiliza os pais. Queremos que os filhos tenham vidinhas, sejam tristemente independentes, consigam um bom casamento, uma, tanto quanto possível, boa casa, um ordenado simpático, filhos bem educados. Claro que admitimos Gauguin ou Mozart desde que não façam parte da família. Em geral as famílias defendem-se criando um maluquinho. Todas têm aquilo que consideram o maluco da família e, quando o maluco, por qualquer motivo, deixa de o ser, apressam-se a arranjar outro antes que a estrutura se desagregue. Não há nada que assuste mais as pessoas do que a criatividade, nada que as apavore mais do que a diferença. A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza. Os programas de televisão são quase sempre miseráveis mas é vital que sejam miseráveis. E queremos que as nossas crianças se tornem adultos miseráveis também, o que para as pessoas em geral significa responsáveis. Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles. Gostamos dos idiotas porque não nos colocam em causa. Quanto às pessoas de alto nível a sociedade descobriu uma forma espantosa de as neutralizar: adoptou-as. Fez de Garrett e Camilo viscondes, como a Inglaterra adoptou Dickens. E pronto, ei-los na ordem, com alguns desvios que a gente perdoa porque são assim meio esquisitos, sabes como ele é, coitado, mas, apesar disso, tem qualidades. Temos medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego. A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas

– Porque é que há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?

não tenho a certeza de ser um problema de educação que mais não seja porque os educadores, coitados, não sabem distinguir entre ensino, aprendizagem e educação. A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos porque matámos o máximo de crianças que perdemos quando elas começaram a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo.

 

Crónica publicada na VISÃO 1272 de 20 de julho

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publicado às 17:42


#2533 - PRÉMIO LITERÁRIO THE MAN BOOKER PRIZE 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.07.17

Foi hoje anunciado pelo júri do The Man Booker a lista dos 13 nomeados ao galardão.

O vencedor só será conhecido no dia 17 de Outubro.

 

The longlist, or ‘Man Booker Dozen’, for the £50,000 Man Booker Prize is announced today.

This year’s longlist of 13 books was selected by a panel of five judges: Baroness Lola Young (Chair); literary critic, Lila Azam Zanganeh; Man Booker Prize shortlisted novelist, Sarah Hall; artist, Tom Phillips CBE RA; and travel writer, Colin Thubron CBE.

The list was chosen from 144 submissions published in the UK between 1 October 2016 and 30 September 2017.

The Man Booker Prize for Fiction, first awarded in 1969, is open to writers of any nationality, writing in English and published in the UK.

 

The 2017 longlist, or Man Booker ‘Dozen’, of 13 novels, is:

Title Author (nationality) (imprint)

 

4 3 2 1 by Paul Auster (US) (Faber & Faber)


Days Without End by Sebastian Barry (Ireland) (Faber & Faber)


History of Wolves by Emily Fridlund (US) (Weidenfeld & Nicolson)


Exit West by Mohsin Hamid (Pakistan-UK) (Hamish Hamilton)


Solar Bones by Mike McCormack (Ireland) (Canongate)


Reservoir 13 by Jon McGregor (UK) (4th Estate)


Elmet by Fiona Mozley (UK) (JM Originals)


The Ministry Of Utmost Happiness by Arundhati Roy (India) (Hamish Hamilton)


Lincoln in the Bardo by George Saunders (US) (Bloomsbury)


Home Fire by Kamila Shamsie (UK-Pakistan) (Bloomsbury)


Autumn by Ali Smith (UK) (Hamish Hamilton)


Swing Time by Zadie Smith (UK) (Hamish Hamilton)


The Underground Railroad by Colson Whitehead (US) (Fleet)

 

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publicado às 17:24

 

Jorge Amado e José Saramago - Com o Mar por Meio é uma curta mas tocante troca de inconfidências e agrados entre dois dos maiores autores da língua portuguesa do século XX. A reunião e seleção da correspondência será lançada oficialmente na sexta-feira, já madrugada de sábado em Portugal, na Casa José Saramago, em Paraty, cidade sede da FLIP, feira internacional de literatura que começa hoje. Paloma Jorge Amado, filha do escritor brasileiro, e Pilar del Río, mulher do autor português, estão à frente da iniciativa.

 

NOTÍCIA RETIRADA DO DIÁRIO DE NOTÍCIAS

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publicado às 13:28


#2530 - PRONTO (Crónica de António Lobo Antunes)

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.07.17

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E PRONTO

Escrever é também isso: prazer e alegria e a minha ingénua vaidade de então, eu que não estava preparado para o sucesso nem sabia o que fazer com ele

Susa Monteiro

Eu não tenho computador, não tenho telemóvel, não tenho cartão de crédito, não tenho carro, resumindo: sou todo meu. Estou aqui sentado nesta cadeira a escrever esta crónica, cheio de vontade de voltar para o livro que ainda não parou de me trazer problemas. Do ponto de vista técnico é muito difícil, o material não cessa de crescer, estou mais ou menos a meio da primeira versão o que significa que, trabalhando as minhas doze horas diárias habituais, talvez a acabe lá para o fim do ano se nada especial acontecer na minha vida que me impeça de rabiscar. Não sei porque me meti neste livro, quer dizer sei mais ou menos: foi ele que se meteu em mim. Tinha acabado o livro anterior, estava à espera, vazio, e apareceu este primeiro depressa, depois devagar, depois depressa outra vez quando os vários elementos principiaram a juntar-se, depois devagar de novo à medida que ia crescendo. Tem vinte e cinco capítulos, acabei a primeira versão do décimo segundo hoje, queria começar a ocupar-me do décimo terceiro mas tenho de fazer estes textinhos para a revista. É horrível passar para um ritmo completamente diferente, dizer coisas levezinhas a fim de distrair as pessoas e o livro à espera, furioso comigo. Tenho sempre medo de não conseguir acabá-lo, precisa de tantas correções. É uma coisa estranha, um livro: quando tudo está a correr bem anda sozinho e de repente pumba, pára e lá fico eu à espera que ele decida continuar. Quando menos espero engrena de novo. Às vezes pergunto-me de onde é que isto vem e ignoro a resposta. Vem de um sítio qualquer, muito escondido, lá no fundo, uma espécie de cave confusa onde as palavras se organizam apesar de mim. Acho que o livro está lá todo à espera do momento de se realizar sozinho. Quer dizer não é bem assim: umas vezes organiza-se por si, outras necessita que eu seja criada para todo o serviço. Mas é fascinante vê-lo crescer, modificar-se, estruturar-se, é fascinante fazê-lo crescer, modificá-lo, estruturá-lo. Que me lembre escrevi o primeiro romance aos sete ou oito anos. Tinha quatro páginas e custou-me como o diabo. Claro que o queimei na figueira da casa dos meus pais onde queimava tudo. Os meus pais sabiam o que eu andava a fazer mas nunca me perguntaram fosse o que fosse. Enquanto eu escrevia o João estudava. Também nunca me perguntou nem eu lhe disse. Para quê? Era tão óbvio para mim que me faltava imenso caminho mas a certeza que ia ser o melhor dava-me força. Apesar de ser humilde, porque só se pode escrever sendo humilde, não tinha qualquer dúvida acerca disso. E era horrivelmente consciente das minhas múltiplas imperfeições. E depois, quando me levavam de férias com os meus irmãos, enchia um saco de livros para aprender. Fazia exercícios: escrevia à maneira deste, à maneira daquele, lia imensos romances maus, com os quais se aprende melhor que com os romances bons porque nesses não se vêem os pregos do reverso do cenário, o que há, como dizia Pascoaes, da aparição no seio da aparência. E continuava a queimar tudo, não revoltado, não zangado, porque era óbvio para mim que aquele era o caminho e que tinha de ser paciente e continuar a mamar. Não conhecia ninguém que escrevesse, nada sabia de literatura, estava completamente só. É terrível isto, durante um livro está-se completamente só. Quando me perguntavam o que queria ser não respondia porque não queria ser, já era. Só me faltava ser mas já era. E depois ia aprendendo com todos até que, aos dezassete ou dezoito anos, tive um encontro decisivo ao ler Antoine Blondin, escritor francês hoje praticamente esquecido, não é verdade, hoje esquecido, e que abriu, dentro de mim, uma porta que eu sabia que tinha. Nem sequer éramos parecidos no que ele fazia e eu tentava fazer, mas sendo tão diferente dele Antoine Blondin foi o meu encontro decisivo. Não sei bem em quê: talvez na luta pela liberdade interior. Num dos seus livros, falando da mãe, Blondin conta que ela costumava dizer: não tenho fé mas tenho tanta esperança. Esta frase foi muito importante para mim. Tanta esperança. E uma frase de Bernanos que nunca mais esqueço, e os três grandes poemas de Cendrars. Armado deste material as coisas foram-se tornando, a pouco e pouco, menos penosas. E depois a guerra. E depois a vinda da guerra. E depois, finalmente, a Memória de Elefante que nunca li nem deixava que traduzissem. O Christian Bourgois lá me convenceu e então olhei algumas páginas em francês. Para um primeiro livro achei-o do caraças mas já nada tinha a ver com o que eu fazia então. No entanto gosto dele sobretudo porque me recorda quanto me vi à brochinha para o compor, numa época da minha vida em que sofria muito por razões que não vêm ao caso nem vou maçar o leitor com isso. 
O Zé Cardoso Pires dizia-me: é preciso que a gente sofra para o leitor ter prazer. Mas gostaria que o leitor tivesse prazer com menos sofrimento da minha parte. Escrever é também isso: prazer e alegria e a minha ingénua vaidade de então, eu que não estava preparado para o sucesso nem sabia o que fazer com ele. Ainda não sei muito bem. Lembro-me sempre de Mozart depois de tocar na corte francesa, aos cinco anos. Toda a gente aplaudiu muito no fim e ele foi a correr para o colo da rainha, por acaso Maria Antonieta, saltou-lhe para os joelhos e pediu-lhe

– Gosta de mim.

E pronto, acho que estou no fim da crónica. Espero não os ter aborrecido muito. Agora vou até lá dentro sentar-me na sala a olhar para nada. Como dizem os parvos muito obrigado por este bocadinho. Fim

 

(Crónica publicada na VISÃO 1271, de 13 de julho de 2017)

 

 

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publicado às 15:48


#2526 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.07.17

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 JUAN RULFO (1917-1986)

 

"Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-he que viria vê-lo quando ela morresse.  Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo. "Não deixes de ir visitá-lo", recomendou-me. "Chama-se assim e assado. Tenho a certeza de que gostará de conhecer-te." Na altura nada mais pude fazer para além de lhe dizer que sim, que o faria, e de tanto lho dizer, continuei a dizê-lo mesmo depois do trabalho que as minhas mãos tiveram para se afastar das suas mãos mortas. Imediatamente antes, dissera-me:

- Não lhe vás pedir nada. Exige-lhe o que nos pertence. O que me devia ter dado e nunca deu... O esquecimento a que nos votou, meu filho, cobra-lho caro.

- Assim farei, mãe.

Mas não pensava cumprir a minha promessa. Até ter começado, há muito pouco , a encher-me de sonhos, a dar asas  às ilusões. E assim se foi formando um mundo em torno da esperança que era aquele senhor chamado Pedro Páramo, o marido da minha mãe. Por isso vim a Comala." (...)

 

Excerto do livro de Juan Rulfo "Pedro Páramo", página 19 - Edição Cavalo de Ferro, Junho de 2017

 

 

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publicado às 16:12


#2519 - FLIP - Festa Literária Internacional do Paraty

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.07.17

  

FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty - 15ª Edição - um dos grandes acontecimentos culturais do Brasil vai ter lugar em Paraty de 26 a 30 de Julho.

Frederico Lourenço participa da Flip 2017

 

VER PROGRAMAÇÃO AQUI

 

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publicado às 20:00

 

Não há como excluir de um cânone mínimo Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, na prosa, e Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, na poesia.
 

Como escrevo sobre livros, leitores de vários Estados estão sempre pedindo indicações de obras “literárias importantes”. Por isso, de vez em quando, publico algumas listas comentadas. Há solicitações difíceis de atender: “Quais os três maiores romancistas brasileiros?” e “Quais os três maiores poetas brasileiros?”

 

Evidentemente, não há só três grandes romancistas e três grandes poetas. Há poetas, por exemplo, que, mesmo não figurando entre os maiores, escreveram poemas belos e emblemáticos. Vinicius de Moraes é, certamente, um deles, assim como Gregório de Matos Guerra, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Mário Faustino, Oswald de Andrade, Afonso Felix de Sousa, Lêdo Ivo, Raul Bopp, Cecília Meirelles, Mario Quintana, Adélia Prado, Haroldo de Campos, José Paulo Paes, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Ruy Espinheira Filho, Heleno Godoy, Ronaldo Costa Fernandes (poeta e prosador), Nelson Ascher e Régis Bonvicino.

 

Mas ninguém, ao elaborar uma lista com os três maiores poetas, terá a ousadia de excluir Carlos Drummond de Andrade, o Sol da poesia patropi, João Cabral de Melo Neto, o T. S. Eliot verde amarelo, e Manuel Bandeira. Este menosprezava, de maneira irônica e, quiçá, falsa modéstia, sua poesia — que seria “menor”. Usando a “dica”, pode-se dizer que a grande poesia de um país é formada por vários poetas menores que também, eventualmente, escreveram poemas maiores. É possível sugerir, ainda, que são os menores que colocam as escadas para poetas como Drummond de Andrade e João Cabral se tornarem gigantes.

 

 

 

IN "REVISTA BULA"

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publicado às 07:53

 

 

Um bom livro não se torna um marco na literatura apenas pela qualidade da narrativa e estilo empregado pelo autor. O contexto em que a história está inserida e o impacto para a sociedade também são indicadores seminais. Pensando nisso, a Bula realizou uma enquete com leitores para descobrir quais são os livros mais representativos em 20 países, de quatro continentes, escolhidos aleatoriamente. As obras mais votadas foram organizadas em uma lista de acordo com o país de origem. É importante salientar que listas são sempre incompletas e idiossincráticas, não sendo possível incluir todos os livros e autores relevantes em uma única seleção. Como critério principal para a escolha deveria prevalecer o impacto causado pela obra e a capacidade de influenciar novas gerações de autores e leitores. Também deveria ser votado apenas um livro por país. O resultado não pretende ser abrangente ou definitivo e corresponde apenas à opinião dos participantes da enquete. As sinopses foram adaptadas das editoras Companhia das Letras, Alfaguara, Record, José Olympio, Bertrand, 34, Martin Claret e Zahar.

 

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publicado às 19:53

 José Rentes de Carvalho

 

PRECE DE UM TRANSMONTANO

 

(Crónica de José Rentes de Carvalho publicada na Revista Visão)

 

Mas se Trás-os-Montes, aparentemente, se acomoda ao seu destino, não se rebela nem queixa, sofre ser tratado como o parente mais pobre e desamparado de uma nação ingrata

 

Ter opiniões e saber doseá-las de acordo com os sentimentos vigentes, além de ajudar à paz de espírito facilita o ganho de uma aura de sabedoria e boa reputação. O que vai contracorrente arranja lenha para se queimar.

 

Bem me avisaram: se era meu intento escrever sobre Trás-os-Montes, levasse em conta que o caminho seguro seria não me desviar dos trilhos, carreiros e atalhos de cabras que gente de nome tinha palmilhado; referir de permeio uma ou outra citação mais saliente sobre a imponência ciclópica do fraguedo, a majestade das arribas, a emoção que causa recordar a temerosa correnteza que era o Douro, antes de ser domado pelas barragens.

 

Nesse quadro caberiam também saudosas referências ao cheiro da urze, ao chiar dos carros de bois, ao porte imponente do gado de Miranda e, aqui e ali, como nos instantâneos da saudosa fotografia a preto e branco, salpicar imagens das velhinhas que, sentadas à porta, se vêem a fazer um inútil croché, sorrindo as boas-horas a quem passa.

 

Nada contra. O conselho era avisado, boa a intenção, se de alguma forma pecava era por esperar que com os meus olhos, sentimentos, e a memória que tanto me faz repisar, eu, embora sem de todo fazer tábua rasa das recordações e vivências, desse pelo menos um jeitinho. Limasse as arestas, não forçasse o desespero, concedesse como é grande a diferença entre o hoje e o trágico ambiente que foi o da província transmontana no tempo da minha infância e adolescência.

 

Não me custa fazer mea culpa, pois sei bem onde e porque razões exagero, quais são as dores, minhas e alheias, que me ensombram a paisagem que a outros aparece colorida, rica em matizes, quiçá mais conforme à da realidade. Todavia, quando assim procedo, não o faço com o desejo de criticar, diminuir ou sonhar impossíveis, mas tão-só para que fique testemunho, com esperança de que as desigualdades e os sofrimentos se tornem história.

 

 

 

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publicado às 19:35

 

 

THIAGO RODRIGUES BRAGA VENCE PRÉMIO LITERÁRIO UCCLA

O brasileiro Thiago Rodrigues Braga venceu a segunda edição do Prémio Literário UCCLA – Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa, com a obra Diário de Cão. A menção honrosa do prémio foi atribuída ao livro de poemas Asa Norte, da também brasileira Rafaela Nogueira Barbosa.

Promovido pela União das Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), com a colaboração da editora A Bela e o Monstro e do Movimento 2014, a distinção, destinada a obras inéditas de ficção ou poesia em língua portuguesa, foi lançado em 2015.

A esta segunda edição candidataram-se 520 obras enviadas por autores dos diversos países de língua oficial portuguesa. Ao poeta e ensaísta António Carlos Cortez coube selecionar uma dezena de obras para posterior apreciação do júri composto por António Carlos Secchin (Brasil), Germano de Almeida (Cabo Verde), Inocência Mata (São Tomé e Príncipe), Isabel Alçada (Portugal), José Luís Mendonça (Angola) José Pires de Laranjeira (Portugal), João Lourenço, em representação da Biblioteca Nacional de Angola, João Pinto Sousa, pela editora A Bela e o Monstro, e Rui Ávila Lourido, coordenador cultural da UCCLA.

 

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publicado às 23:02

 JUAN RULFO (1917-1986)

 

A Editora Cavalo de Ferro vai reeditar os três livros escritos pelo escritor mexicano Juan Rulfo na década de 50 do século passado e que marcaram para sempre a literatura mexicana.

 

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publicado às 19:33


#2476 - CRÓNICA DO MENINO DE PAR DE ESTALOS [ANTÓNIO LOBO ANTUNES]

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.06.17

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

Devia ser um chato para os outros e era também um chato para mim. Tirando escrever não me apetecia mais nada, e as pessoas eram todas tão óbvias. Portanto fui um aluno péssimo, uma criança esquisita, uma entidade insólita e sofria como um cão com isso. Seguiu-se a pavorosa chumbada do liceu, sem ligar nenhuma às aulas, com notas miseráveis. Como num instante metia meia dúzia de noções no caco aos dezasseis anos matricularam-me na Faculdade de Medicina

A minha relação com a minha mãe foi sempre difícil. Começou logo com o meu nascimento

(sou o filho mais velho)

quando a pus à morte com uma eclampsia

(contava que disse ao meu pai

– Vou morrer

e que o meu pai lhe respondeu

– O que é que queres que eu faça?

 

 

 

CRÓNICA DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES - REVISTA VISÃO, 29 DE JUNHO DE 2017

 

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publicado às 17:43


#2450 - MARGARET ATWOOD

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.17

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Desejar conhecer o escritor porque se gosta da sua obra é o mesmo que querer conhecer o ganso porque se gosta de "foie gras".

 

Margaret Atwood

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publicado às 18:33


#2441 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.06.17

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. A mulher-Sem-Cabeça - onde está ela?

 

A mãe avança sozinha, já sem cabeça, e procura os seus três filhos. Está no quintal, a cabeça foi cortada e o sangue que vai saindo traça um percurso, um itinerário que será fundamental para os três filhos a encontrarem. Porque a mãe quer encontrar os seus três filhos, mas está já sem cabeça - e assim não é possível.

 

A mãe sem cabeça corre no quintal e várias galinhas afastam-se, olham para cima e não percebem a forma daquele ser humano.

 

O quintal é grande e a mulher a quem cortaram a cabeça continua a avançar, passo a passo, como um ser humano a quem tivessem vendado os olhos. Parece a brincadeira infantil - a  cabra-cega - mas àquela mulher não taparam os olhos com uma venda, cortaram a cabeça com um machado. Ela avança a chamar pelos filhos (mas por onde grita?) e subitamente percebe: está perdida. A Mulher-Sem-Cabeça está no que é certamente um Labirinto, e nesse Labirinto vai-se cruzando com os mais variados animais: cabras, porcos, galinhas, um cavalo - animais. Dois porcos copulam, mas a Mãe-Sem-Cabeça não vê. 

(...)

 

Início do livro de Gonçalo M. Tavares "A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado", página 9, edição Bertrand Editora, Abril de 2017.

 

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publicado às 14:49


#2437 - Prémio Camões 2017 - Manuel Alegre, o eleito

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.06.17
 

 

Manuel Alegre venceu o Prémio Camões 2017, foi anunciado no dia 8 de junho de 2017, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Em comunicado enviado às redações, o Ministro da Cultura anunciou que o "Prémio Camões 2017 foi atribuído ao escritor Manuel Alegre" no "seguimento da reunião do júri da 29ª edição do Prémio Camões, que decorreu no Rio de Janeiro no dia 8 de junho".
O prémio reconhece a "vasta obra literária, traduzida e publicada em diversos países".

O "Prémio Camões, instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, é o maior prémio de prestígio da língua portuguesa. Com a sua atribuição, é prestada anualmente uma homenagem à literatura em português, recaindo a escolha num escritor cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da língua portuguesa", lê-se no comunicado.

Manuel Alegre disse à RTP que ficou surpreendido porque não "sabia que o júri estava reunido" e considerou "natural" que lhe tivesse sido "atribuído o Prémio Camões" por causa do impacto "que os meus livros tiveram".

Manuel Alegre nasceu em Águeda em 1936. Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.

Como poeta, "começou a destacar-se nas coletâneas Poemas Livres (1963-1965). Mas o grande reconhecimento nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), apreendidos pelas autoridades antes do 25 de Abril, mas com grande circulação nos meios intelectuais".

O júri da 29ª edição do Prémio Camões foi constituído por Paula Morão, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal); Maria João Reynaud, professora associada jubilada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal); Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (Brasil); José Luís Jobim, professor aposentado da Universidade Federal Fluminense e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Brasil); pelos PALOP, Lourenço do Rosário, Doutor em Literaturas Africanas pela Universidade de Coimbra e Reitor da Universidade Politécnica de Maputo (Moçambique); José Luís Tavares, poeta (Cabo Verde).

"O Prémio Camões foi já atribuído, por ordem cronológica a Miguel Torga (Portugal), João Cabral de Mello Neto (Brasil), José Craveirinha (Moçambique), Vergílio Ferreira (Portugal), Rachel de Queiroz (Brasil), Jorge Amado (Brasil), José Saramago (Portugal), Eduardo Lourenço (Portugal), Pepetela (Angola), António Cândido (Brasil), Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal), Autran Dourado (Brasil), Eugénio de Andrade (Portugal), Maria Velho da Costa (Portugal), Rubem Fonseca (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Lygia Fagundes Telles (Brasil), Luandino Vieira (Angola), António Lobo Antunes (Portugal), João Ubaldo Ribeiro (Brasil), Arménio Vieira (Cabo Verde), Ferreira Gullar (Brasil), Manuel António Pina (Portugal), Dalton Trevisan (Brasil), Mia Couto (Moçambique), Alberto da Costa e Silva (Brasil), Hélia Correia (Portugal), Radouan Nassar (Brasil)."

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publicado às 02:29


#2435 - Mário Cláudio vence Prémio dst com Astronomia

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.06.17

 

Mário Cláudio com o livro "Astronomia" foi o vencedor do Grande Prémio Literário dst.

Este Prémio Literário é atribuído pela empresa Domingos da Silva Teixeira e tem o valor de 15 mil euros.

 

Este livro já tinha ganho em Abril passado o Prémio D. Dinis, da Casa de Mateus.

 

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publicado às 09:15


#2427 - George Steiner

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.06.17

 George Steiner - (1929 - )

 

A retórica política é capaz de matar. A política pode assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica, na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. O totalitarismo funciona através da linguagem. E também existe outro fenónemo: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio. Há um momento muito importante nos diários de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a reveer o 3.º acto do "Tristão". Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus. O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados."

 

(...) O nacionalismo é um veneno absoluto. Lembro-me das palavras justíssimas de Georges Clemenceau: "Não somos patriotas, somos chauvinistas." É uma distinção importante. O patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo - o nacionalismo - é algo muito, muito feio. Desprezar outra pessoa por ter uma nacionalidade diferente, isso não o posso compreender nem aceitar. Porque, afinal, o que é que nós escolhemos? Não escolhemos onde nascemos, quando, com que condições. Somos convidados nesta terra. Vou dizer-lhe uma coisa central: acredito que cada lugar deste mundo pode ser interessante. Não consigo pensar num lugar que não o pudesse ser. Se fosse mais novo e tivesse de voltar a mudar de país, tentaria, primeiro, aprender a língua. Seria certamente fascinante aceder a uma nova civilização. Não há lugares aborrecidos na Terra. Isto é o que receio em relação aos mais novos hoje em dia: que  por causa da sua obsessão com os media artificiais, tenham pouco entusiasmo pelas experiências genuinamente criativas."

 

Excerto da entrevista realizada por Luciana Leiderfarb a George Steiner e publicada na Revista "E" - A revista do Expresso, Edição 2327, de 3 de Junho de 2017

 

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publicado às 19:50


#2425 - A edição n.º 195 da revista COLÓQUIO | Letras

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.06.17

N.º 195, Maio-Ago. 2017 - Carlos de Oliveira

Por Revista Colóquio/Letras, publicado em 5.5.2017 na secção Notícias

 

Capa do número 194 
 
 
 
 
 
 
No ano em que os trabalhos sobre o espólio   de Carlos de Oliveira, depositado no Museu   do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, se   materializam na exposição “Carlos de      Oliveira: a parte submersa do iceberg”, a    revista Colóquio/Letras dedica, no seu  número 195, um dossiê temático ao autor, composto por cinco ensaios e vários inéditos.

Os ensaios — da autoria de Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Mateus, José Geraldo, Ricardo Namora e Clara Rowland —, exploram o espólio, apresentando novas perspetivas de abordagem e novos leitores de Carlos de Oliveira, aspeto fundamental para a duração longa de uma obra.

Quanto aos inéditos, são uma primeira amostra dessa “parte submersa do iceberg” que é o espólio do escritor, e permitem perceber o potencial de releitura crítica aí contido. O dossiê conclui-se com alguns depoimentos de portugueses e estrangeiros, todos eles partes de um diálogo intenso que a própria correspondência do autor regista.

Para além das habituais secções da revista, destacam-se ainda neste número a entrevista ao poeta sírio Adonis, a evocação de João Lobo Antunes e o belíssimo contributo de Ilda David com um conjunto de imagens inéditas.


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publicado às 19:01


#2419 - Morte do poeta Armando Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.06.17

 ARMANDO SILVA CARVALHO (28 de março de 1938 - 1 de Junho de 2017)

 

Armando Silva Carvalho nasceu em Olho Marinho, Óbidos, em 1938. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia por pouco tempo, optando pelo jornalismo, pelo ensino, pela publicidade e pela tradução.
A sua obra tem vindo a ser reconhecida pela crítica e distinguida com diversos prémios, como o Grande Prémio de Poesia APE, o Prémio PEN Clube, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio DST Literatura e o Prémio Casino da Póvoa / Correntes d’Escritas, para citar apenas alguns.

Morreu aos 79 anos de idade.

 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

____________________________________________

 

Ninguém é filho do poema universal.

Nem pai

do seu rebanho de versos.

O que eu busco é um lar.

Um lar mais natural nas palavras

da terra

com os lábios invisíveis sobre o livro

dos mortos.

 

Dois poemas de Armando Silva Carvalho retirados do livro "Obra Poética (1965-1995)", páginas 631 e 634 - Edições Afrontamento, Julho de 1998 e com prefácio de José Manuel de Vasconcelos.

 

 

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publicado às 17:12


#2408 - LIVROS E LEITURAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.05.17

RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

ANTES DO INÍCIO

 

 

Abriu o livro e procurou a primeira frase.

 

Sempre ouviu dizer que o arranque de um livro é muito importante, porque se percebe logo o que podemos esperar.

Ficou surpreendido quando viu que a primeira frase dizia:

 

«Abriu o livro e procurou a primeira frase.»

 

Além da surpresa, sentiu-se observado, apanhado na inesperada e impossível ideia de que alguém lhe lia o pensamento, na livraria quase deserta.

 

Rodou a cabeça, espreitou por cima do ombro. Perto dele, com o mesmo livro na mão, outro leitor espreitava também, e os seus olhares encontraram-se.

Perceberam de imediato que a ambos acontecera a mesma coisa.

 

Abriram ambos um livro e, julgando lê-lo, estavam a ser lidos. (...)

 

Início do novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho "O Pianista de Hotel", pág. 11 - Edição Publicações Dom Quixote - Maio 2017

 

 ___________________________________________________________________________________

Rodrigo Guedes de Carvalho nasceu em 1963, no Porto.

Recebeu o Prémio Especial do Júri do Festival Internacional FIGRA, em França, com uma Grande Reportagem sobre urgências hospitalares (1997).

Estreou-se na ficção com o romance Daqui a nada (1992) vencedor do Prémio Jovens Talentos da ONU.
Seguiram-se-lhe A Casa Quieta (2005), Mulher em Branco (2006) e Canário (2007).

Elogiado pela crítica, foi considerado uma das vozes mais importantes da nova literatura portuguesa.

É ainda autor dos argumentos cinematográficos de Coisa Ruim (2006) e Entre os Dedos (2009), e da peça de teatro Os pés no arame (estreada em 2002, com nova encenação em 2016).

Regressa ao romance com O Pianista de Hotel (2017).

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publicado às 18:56


#2403 - ÉRAMOS TRÊS, ÉRAMOS DOIS, ERA SÓ EU, ÉRAMOS NENHUM...

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

JOSEP VICENÇ FOIX (1894-1987)

 

ÉRAMOS TRÊS, ÉRAMOS DOIS, ERA SÓ EU, ÉRAMOS NENHUM...

 

Éramos três, esquivos, no escuro das vindimas,

com o mar nos olhos, vinho de mosto nas mãos,

quando no sal dos bosques o rego lança fumo

e um choro de criança rebrilha no cerrado.

 

Éramos dois, erguidos na rocha das estrelas,

o coração sangrando, sem uma funda e dados,

quando o ermo se queima e soluçam os breus

nos charcos latentes de canteiros de faróis.

 

Era eu só, umbroso entre sombras já velhas,

a figurar uma outra sombra no varadouro

onde marinha, entre redes estendidas,

o sono de todos em poentes febris.

 

Éramos nenhum, entre folhas de treva,

quando o medo chove nas pétalas das poças

e o outro, o Puro, livre de velas e de leme,

vidente, zarpa, rumo ao Instante claro.

 

Poema do poeta catalão Josep Vicenç Foix

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Josep Vicenç Foix

Poeta catalán cuya obra es emblemática de la vanguardia del siglo XX en su lengua. No concluyó los estudios de derecho y se dedicó al periodismo en La Revista (1918), Trossos (1918) y L´Amic de les Arts (1926-1928), y fue jefe de Cultura de La Publicidad (1922-1936). Sus principales textos teóricos los publicó en Quaderns de Poesia (1935-1936). Tras la Guerra Civil renunció a seguir en la profesión, ante la imposibilidad de ejercerla en catalán, y pasó a hacerse cargo de la empresa de pastelería familiar. Aun así colaboró con Ariel y Dau al Set.

Sus primeras prosas poéticas, Gertrudis (1927) y KRTU (1932) compiladas luego en Diari 1918 (1956) evidencian múltiples influencias, con predominio del surrealismo. Pronto, sin embargo, se aleja de las corrientes vanguardistas en pro de un camino propio en el que incorpora los más variados procedimientos y que se traduce en la alternancia de formas y estilos.

Entre los círculos minoritarios será reconocido como uno de los grandes poetas catalanes del siglo a raíz de Sol, i de dol (1947), recopilación de sonetos que sintetiza su particular síntesis de clasicismo y vanguardia, con un riquísimo léxico en el que se combinan arcaísmos y neologismos. La metafísica, la búsqueda de lo absoluto, constituye una de las constantes de su obra. Les irreals omegues (1949) es una muestra de su estilo más barroco. En On he deixat les claus (1953) ensaya el verso más corto y las formas populares. Importante es también Onze Nadals i un Cap d´Any (1960). Ciego ya, dictó L'estació (1985).

 

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publicado às 18:21


#2402 - Um poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.05.17

ALMADA NEGREIROS (1893-1970)

 

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda

não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor

de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!

Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão

de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

 

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.

Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho

sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas  viagens,

aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas

ambas com as mesmas palavras.

 

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado!

Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.

Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para

a nossa casa, como a mesa.

 

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

 

Poema de Almada Negreiros

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Almada-Negreiros
Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abrilde 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.

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publicado às 16:42


#2401 - BALADA DOS SUPLÍCIOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.17

LOUIS ARAGON (1897-1982)

 

BALADA DOS SUPLÍCIOS

 

- «Pudesse eu recomeçar

e este caminho seguia...»

Uma voz fala das grades

sobre a futura alegria.

 

Na sua cela, dois homens

por essa noite comprida,

murmuravam-lhe: «Confessa.

Ou estás cansado da vida?

 

Podes viver como nós,

viver, viver anos vastos...

Uma só palavra, és livre...

e podes viver de rastos...»

 

- «Pudesse eu recomeçar

e este caminho seguia...»

A voz que sobe das grades

canta a futura alegria.

 

«Apenas uma palavra,

abre-se a porta e tu sais:

já o carrasco se some,

já acabaram teus ais!

 

Apenas uma mentira

para mudares o destino...

sonha, sonha, sonha

o claro sol matutino!»

 

«Disse o que tinha a dizer,

como o Rei Henrique falo:

uma missa por Paris...

p'lo meu reino, um cavalo...

 

Nada a fazer.» E partiram!

Cobre-o já seu sangue quente!

Era o seu único triunfo:

saber morrer inocente!

 

Pudesse ele recomeçar

ia esta sorte escolher?

Diz a voz que vem das grades:

- «Torná-lo-ia a fazer.

 

 Eu morro e tu, França, ficas,

meu refúgio e minha fé.

Ó meus amigos, se morro,

vós sabeis pelo que é!»

 

Vieram para o prender,

falavam em alemão.

Disse-lhe um: - «Queres-te render?»

Respondeu com decisão:

 

- «Pudesse eu recomeçar

queria esta sorte seguir...»

A voz que sobe das grades

fala aos homens do porvir.

 

- «Pudesse eu recomeçar

queria esta sorte seguir.

Mesmo carregado de ferros,

que cante em mim o porvir!»

 

E cantava sob as balas:

«... sangrento se levantou...»

Até que nova rajada

veio por fim e o tombou.

 

Mas outra canção francesa

já dos seus lábios se evade

acabando a Marselhesa

para toda a Humanidade!

 

Poema da poeta francês Louis Aragon

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La literatura francesa nos invita desde siempre a posar nuestra atención en diversas personalidades que, a lo largo de los años, han dejado huella en las letras galas. Una de las figuras que ha dejado un legado valioso allí es Louis Andrieux, más conocido como Louis Aragon.

aragon-louisEste novelista y poeta nacido el 3 de octubre de 1897 en París se dejó cautivar en un momento por el dadaísmo y, con el tiempo, llegó a impulsar junto a André Bretony Philippe Soupault el surrealismo. Quien fuera estudiante del Lycée Carnot experimentó desde temprana edad un gran interés por la lectura y la escritura pero, aún así, quiso formarse en Medicina, carrera que interrumpió en 1914 y retomó en 1917, llegando a realizar prácticas en un importante centro hospitalario ubicado en su ciudad natal.

El 28 de febrero de 1939, este militante del Partido Comunista Francés contrajo matrimonio con su colega Elsa Triolet, a quien había conocido durante 1928 en un café de la capital francesa. Juntos se involucraron con la Resistencia Francesa y visitaron de manera frecuente las naciones del bloque socialista.

Como exponente del universo literario, Aragon cultivó la novela, el ensayo y la poesía. Su producción literaria, traducida a múltiples lenguas, permite apreciar trabajos como “Fuego de alegría”, “Tratado de estilo”, “El movimiento perpetuo”, “El campesino de París”, “Una ola de sueños”, “Las campanas de Basilea”, “Los viajeros de La Imperial”, “Hurra por los Urales” y “Los ojos de Elsa”, entre muchos otros.

Este autor que en 1967 fue admitido en la Academia Goncourt como académico (cargo al que renunció un año después) encontró la muerte el 24 de diciembre de 1982. Sus restos fueron inhumados en el parque del Molino de Villeneuve, donde también fue enterrado el cuerpo de su esposa, fallecida el 16 de junio de 1970.

 

Publicado por Verónica Gudiña 11 de Septiembre de 2015

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publicado às 21:22

Os melhores livros de todos os tempos, segundo nove autores fundamentais

Os melhores livros de todos os tempos, segundo nove autores fundamentais

 

Um escritor é mais importante pelo que lê, do que pelo que escreve, seguindo a máxima, a Revista Bula reuniu os livros que influenciaram nove autores fundamentais de diferentes épocas e escolas literárias: Gabriel García Márquez (Cem Anos de Solidão), Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram), F. Scott Fitzgerald (O Grande Gatsby), Stephen King (A Dança da Morte), Philip Roth (O Complexo de Portnoy), Charles Bukowski (Factotum), David Foster Wallace (Graça Infinita) e Edmund White (O Flâneur). Díspares e antagônicos — da prosa elegante de F. Scott Fitzgerald a linguagem obscena e crua de Charles Bukowski —, os autores selecionados e os livros citados por eles, trazem em comum o fato de ter influenciado e encantando milhões de leitores em todo o mundo.

 

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publicado às 18:33


#2395 - A MÁQUINA DO MUNDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.05.17

 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)

 

A MÁQUINA DO MUNDO

 

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.

 

Poema de Carlos Drummond de Andrade

 

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Carlos Drummond de Andrade
nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.

Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.

 

 

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publicado às 19:44


#2391 - QUE COMOVENTE, UM MAU POETA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.05.17

QUE COMOVENTE, UM MAU POETA

 

Que comovente, um mau poeta. Não falam dele

há muitos anos; depois, lentamente, esquecem-no.

Inspirado e branco, agora cambaleia, vacilam

os botões no sobretudo roto e assobia poemas inéditos

ao vento de Inverno.

Que orgulho e força. No seu rosto,

ódio e inveja semelham, de longe, algo como

tristeza etérea. A seu lado, os famosos,

que incensaram artigos pagos e celebram

plateias selvagens, mercadores, ou aventureiros.

Na calva, na fronte altiva de apóstolo, pôs-lhe a vida

coroa de lágrimas, divinizando

sonhos da mocidade, em que prefere acreditar.

Até a má alimentação e magreza que dá

a tísica é uma questão de estilo. Como nos seus livros.

Crítica, literatura - em vão falais.

Ele é o idealismo. Ele é o poeta verdadeiro.

 

Poema do poeta hungaro Kosztolányi Dezsfi (1885-1936)

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publicado às 19:49


#2390 - UM HEMISFÉRIO NUMA CABELEIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.05.17

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)

 

UM HEMISFÉRIO NUMA CABELEIRA

 

Deixa-me respirar longamente, longamente, o aroma dos teus cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de uma nascente, e agitá-los na minha mão como um lenço aromático, para sacudir recordações no ar.

 

Se pudesses saber tudo aquilo que eu vejo! tudo aquilo que eu sinto! tudo aquilo que ouço nos teus cabelos! A minha alma viaja por sobre o perfume como a alma dos outros homens sobre a música.

 

Os teus cabelos levam um sonho inteiro, cheio de velames e de mastreações; levam grandes mares de monções que me transportam para encantadores climas, onde  o espaço é mais azul e mais profundo, de atmosfera perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.

 

No oceano da tua cabeleira, avisto um porto irrompendo em cantos melancólicos, homens vigorosos de todas as nações e navios de todos os formatos recortando arquitecturas finas e complicadas num céu imenso em que preguiça o eterno calor.

 

Nas carícias da tua cabeleira, reencontro as demoras das longas horas passadas num divã, no quarto de um belo navio, embaladas pelo rolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os cântaros refrescantes.

 

No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco mesclado em ópio e açucar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do horizonte tropical; nas margens sedosas da tua cabeleira embriago-me com os aromas misturados do almíscar, do alcatrão e do óleo de coco.

 

Deixa-me morder demoradamente as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes, julgo estar a mastigar recordações.

 

Poema do poeta francês Charles Baudelaire

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Charles Pierre Baudelaire, poeta e escritor francês, nasceu em Paris a 9 de abril de 1821 e morreu a 31 de agosto 1867, nessa mesma cidade. Herdeiro do Romantismo , conseguiu exprimir a tragédia do destino humano e dar uma visão mística do universo.

Durante os seus estudos no liceu tornou-se viciado em ópio e haxixe,contraindo ainda doenças venéreas que viriam,mais tarde,a ser a causa da sua morte.


O pai era um homem de cultura e um amante de pintura, e levava-o, com apenas quatro ou cinco anos de idade, a apreciar a beleza das formas e das linhas. Pouco tempo passou até que, em 1827, perdeu o pai; mas o que mais lhe atormentou a infância foi o facto de a mãe ter casado com o general Aupick, que o enviaria para uma viagem por mar até à Índia, promovida para o fazer esquecer a carreira das Letras.

Pelo contrário, regressou cheio de imaginação e determinado a ser poeta.Desenvolveu também uma tendência para um estado de espírito de intensa melancolia e de natureza solitária. Com o capital herdado do pai, viveu como um típico dândi.

Em 1844 juntou-se a Jeanne Duval, relação que lhe trouxe muita infelicidade,ao ponto de se sentir tentado a suicidar-se. Mesmo assim, Jeanne foi motivo de inspiração dos poemas eróticos de Charles Baudelaire. Baudelaire torna-se conhecido como crítico de artes plásticas em revistas onde formula a sua conceção daquilo que deve ser a arte moderna.

Em 1847 escreve o seu único romance, autobiográfico, La Fanfarlo . Em 1852 descobre a escrita de Edgar Poe e decide traduzi-la. Ocupa-se deste escritor até 1865. Em Poe descobre pela primeira vez alguém com quem se identifica espiritualmente. As traduções e as críticas de arte aumentaram a sua reputação e levaram-no a publicar os primeiros poemas numa revista que era considerada o bastião conservador do Romantismo, o que motivou acusações de obscenidade.

Na primavera de 1857, saíram nove poemas em "La Revue Française" e três em"L'Artiste" , e em junho publica o seu primeiro livro, Les Fleurs du Mal , alvo de um escândalo na época, devido ao erotismo de algumas poesias. Esta obra valeu-lhe um processo judicial por ultraje à moral pública e às boas maneiras.Para pagar as despesas do tribunal colaborou em diversas revistas. Ainda em1857 escreve Petits Poèmes en Prose .

Em 1861 publicou a segunda edição alargada e engrandecida de Les Fleurs duMal mas omitindo os poemas banidos, publicados na Bélgica. Uma terceira edição viria a ser publicada em 1966. Em 1862 Baudelaire tinha declarado falência e as dificuldades económicas levaram-no ao desespero. Para escapar aos credores fez uma viagem à Bélgica em 1864. Em fevereiro de 1866, ainda na Bélgica, encontrava-se gravemente doente. Regressou a Paris e viria afalecer nos braços da mãe, em agosto do ano seguinte.

A existência literária de Baudelaire é marcada por dois sonetos:Correspondances e L'Albatros . No primeiro prenuncia o simbolismo e todas as sinestesias do imaginário moderno, descobrindo "misteriosas correspondências". L'Albatros representa a condição terrena do poeta, que não sabe viver nem acomodar-se na sua existência. Em 1868 é publicada a sua obra crítica, Art Romantique . Estes trabalhos de Baudelaire são a fonte da poesia moderna.

Os seus escritos representam uma combinação perfeita entre ritmo e música. Foi perseguido por obscenidade e blasfémia e mesmo depois da sua morte continuou a ser identificado pela opinião pública como símbolo de depravação e vício. Rejeitou a posição dos românticos e voltou-se para o seu interior numa poesia introspetiva em busca de Deus, sem uma crença religiosa, procurando em qualquer manifestação da vida, como a cor de uma flor ou o olhar cerrado de uma prostituta, a sua verdade significante. Com Deus e com as pessoas,tem um movimento de atração e rebeldia, uma espécie de ressentimento contra o criador.

Baudelaire é um crítico da condição humana do mundo moderno. E moderna, foi a sua recusa em admitir restrições à escolha dos temas para poesia. Escreveu em prosa as obras: Les Paradis Artificiels , Opium e Haschisch ; Petits Poèmes en Prose ; Curiosités Esthétiques ; Art Romantique ; Le Spleen de Paris ,entre outras.

Dos seus desencontros nasce o tédio infinito, o tema dominante em Le Spleende Paris , que se torna desejo atormentador de viajar em busca de coisas novas.Chamada pelo amor iludido, surge insistente a imagem da morte, também ela odiada e galanteada como a personificação maior da pequena morte do amor.Teme a morte e deseja-a como a única libertação e o reencontro consigomesmo.

Depois do desaparecimento físico de Charles Baudelaire, as opiniões começaram a mudar e muitos poetas tornaram-se seguidores do movimento simbolista. No século XX tornou-se reconhecido como um grande poeta francês do século XIX, tendo contribuído para revolucionar a sensibilidade e a maneira de pensar da Europa Ocidental.

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publicado às 15:12


#2387 - Nem todas as baleias voam

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.05.17

 Afonso Cruz

 

(...) Erik Gould deu o seu primeiro concerto a solo no bar de Manhattan onde, em mil novecentos e trinta e nove, Eleanora Fagan, conhecida por Billie Holiday (com uma gardénia no cabelo, vinte e três anos), cantara sobre pretos linchados e pendurados em árvores. Na altura, o racismo americano fazia que os pomares frutificassem cadáveres. ("Strange Fruit" era uma canção tão boa que Nina Simone, completamente fascinada, afirmou: "Nunca ouvi nada tão desagradável." E a seguir teve de ir à casa de banho, tinha os intestinos às voltas, a alma a pingar. Há canções que fazem bater palmas, não são más; mas depois há outras, as que silenciam a plateia ou que fazem uma revolução no corpo ou que dão um coice na boca do estômago.) 

Billie Holiday fazia às músicas o mesmo que Gould. Acariciava-as com a voz, deitava-as e fazia amor com elas. E talvez tenha sido nessa altura que Gould aprendeu a beijar o que tocava no piano, a usar os dedos como objectos sensuais e, ao pousá-los nas teclas, acariciar a melodia juntamente com o ébano e marfim. Foi também com Billie Holiday que Gould aprendeu a tocar "I committed crime Lord I needed", não só como quem faz sexo mas também como quem espeta uma faca, "Crime of being hungry and poor". Ou as duas coisas ao mesmo tempo: "I left the grocery store man bleedin'." 

Estamos demasiado familiarizados com esta ideia de dor e felicidade que, perversamente, se misturam e se engendram, mas também é verdade que tendemos a separar as duas como se tivessem existências autónomas. Este matrimónio aflitivo entre duas experiências superficialmente antagónicas, mas que formam um tecido comum, é uma espécie de ironia subjacente ao Universo. Junqueiro chamou à dor o "substrato último da Natureza, o fundo irredutível do Universo", acrescentando-lhe, claro, a possibilidade de ser transformada em algo mais luminoso: "Não há beleza esplendente que não fosse dor caliginosa. A flor é a dor da raiz, a luz, a dor das estrelas." Acrescentou: "Homens de gosto coleccionam quadros ou estátuas. O meu amigo colecciona dor. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das várias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surpreende, não a envazilha num frasco, guarda-a no coração. Conta-lhe os ais, não os micróbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratório químico existe apenas um reagente que dissolve tudo: lágrimas." Cabe-nos, ao aceitar as regras deste jogo, uma espécie de exercício de mineração, trabalhar afanosamente e sem tréguas na extracção de virtudes de dentro de matéria vil. Orígenes vislumbrou, na sua apocatástase, um final feliz para o Universo, resultante deste trabalho redentor, um final glorioso em que o próprio Diabo seria perdoado, fazendo culminar o preceito bíblico "amar o inimigo". Com música, em vez de explosões e danações. Um eterno baile. (...)

 

Excerto retirado do livro  de Afonso Cruz "Nem todas as baleias voam", pags. 16 e 17, edição Companhia das Letras, Novembro de 2016

_________________________________________________________________________

Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014.

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publicado às 19:38


#2382 - APELO

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.05.17

 

NAZIM HIKMET RAN (1902-1963)

 

 

APELO

 

Este país, cabeça duma égua

da Ásia ao Mediterrâneo trotando tanta légua

este país é o nosso.

Punhos em sangue banhados, dentes cerrados, planta nua

e chão feito alfombra, toda em seda crua,

este inferno, este céu é o nosso.

Fechem-se as portas de estranhos, não mais voltem a abrir!

O homem não imponha ao homem escravidão!

Este apelo é o nosso.

Viver! Qual árvore, sozinha e livre

e juntos irmanados, qual floresta.

Este anseio é o nosso.

 

Poema do poeta turco Nazim Hikmet Ran

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Nazım Hikmet Ran foi um poeta e dramaturgo turco, conhecido na Europa como o melhor poeta de vanguarda da Turquia, sendo os seus poemas traduzidos para diversas línguas.

 

 

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publicado às 10:36


#2381 - NA TORRENTE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.05.17

 FADWA THUKAN (1917-2003)

 

NA TORRENTE

 

apagaram-se os rostos à nossa volta

e desapareceram as coisas nessa noite

salvo o brilho azul radioso

dos teus olhos e o apelo.

pelo azul radioso navegava,

em busca dele, meu coração qual barca

que a torrente deseja.

e a ele me amarrou essa torrente

mar sem margens infinito

e irresitível

no qual contam as ondas a história da vida

e da eternidade.

congela aqui contida num só olhar,

já a terra se funde

ao impulso do barro, dos ventos e da chuva.

 

aquela noite

despertou o meu jardim,

arrancaram-lhe a sebe

os dedos da ventania

agitaram-se sob a dança dos ventos

e da chuva

a relva do jardim

as flores e os frutos

menos o brilho radioso que navegava em busca dele

meu coração como barca que a torrente deseja.

 

Poema da palestiniana Fadwa Thukan traduzido por Adalberto Alves

 

___________________________________________________________________

Poetisa palestiniana, Fadwa Tuqan nasceu a 1 de março de 1917, em Nablus(norte da Cisjordânia).
Apesar de ter sido criada num ambiente conservador, a sua poesia apresenta,por um lado, uma consciência nacionalista e política, por outro, um sentidocritico à sociedade árabe pela sua violência, pela maneira como explorava asmulheres, entre outros assuntos.
Fadwa Tuqan conheceu o mundo da poesia através das orientações do irmão,Ibrahim Tuqan, escritor e diretor da rádio palestiniana. Fadwa começou porescrever em formas poéticas tradicionais, passando, em seguida, para o versolivre da poesia árabe. A liberdade poética e o sentido crítico presentes napoesia de Fadwa Tuqan revelaram-se a partir de 1948, ano em que morreu oseu pai e em que foi criado o Estado de Israel. Nessa altura, surgiram asprimeiras obras de Fadwa Tuqan: My Brother Ibrahim (1946, tradução inglesa;Meu Irmão Ibrahim , tradução portuguesa), Alone With The Days (1952,tradução inglesa; Sozinha com os Dias , tradução portuguesa), Give Us Love(1960, tradução inglesa; Danos de Amor , tradução portuguesa) e Before TheClosed Door (1967, tradução inglesa; Antes da Porta Cerrada , traduçãoportuguesa).

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publicado às 19:38


#2380 - TAEDIUM VITAE

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.05.17

MARCELO GAMA

MARCELO GAMA

(1878- 1915)

 

TAEDIUM VITAE

 

Dias de tédio, amargurados dias,

Estes que arrasto à espera de melhores

Estes de sol, então, são os piores:

Mais me abatem as lassas energias.

 

Porque este sol que me ilumina e aquece,

Embora luz, calor e vida seja

- lascivo sol que a natureza beija

lubricamente, e os seios lhe intumesce - 

 

é o mesmo sol que me amesquinha e oprime,

o alvissareiro da maledicência,

que põe, perfeitamente, em evidência,

esta pobreza vil, que é quase um crime.

 

Por isso à lua, mal o sol se esconde,

Horas fico a cismar, contemplativo...

Abominável terra, esta onde vivo!...

Vêm-me vontades de partir... Mas onde?...

 

Mas onde achar a paz que est'alma aspira?

Se em toda a parte os homens são iguais!

Se aqui na terra são convencionais

Honra e virtude, e o mais - tudo mentira.

 

Lá onde eu fosse chegaria o tédio.

Que à vida é necessário o sofrimento,

E bem sei, para meu maior tormento,

Que esta dor só na morte tem remédio!

 

Todo este mal, toda esta desventura,

Vem do sentir e amar em demasia,

E ver que é sempre simulada ou fria

Toda afeição que eu supusera pura.

 

Conto os meus anos pelas minhas dores,

E são mais minhas dores que os meus anos;

E não bastando os próprios desenganos,

Comovem-me os alheios dissabores.

 

Que uma só vez não há, que eu não vacile,

Quando a desgraça os outros arremete!

Já chego a duvidar como Stecchetti:

- Sono un poeta o sono um imbecile?

 

Tu, que os meus versos lês e que os condenas,

Quando não és de todo indiferente,

Como és feliz! Como é feliz a gente

Que insensível assiste a alheias penas!

 

Bendita aspiração, ditosa sorte:

- extinguir-me, ou vencer estes espaços!

Por que nos teus escanifrados braços

Não me estrangulas, redentora morte?

 

Ontem levaste, aqui da vizinhança

A pobre mãe de três loiros filhinhos,

E entregaste-os à dor! Beijos, carinhos,

Mudaram-se em cruel desesperança.

 

E deixaste-me entanto, atormentado,

Escravo destes miseráveis nervos!

Meus dias, que penoso é maldizer-vos,

Sendo até pela morte desprezado!

 

Morrer!... Antes morrer! Que só existe

No renunciar à vida a paz perfeita.

Tornar-se a gente em pó, na cova estreita,

É deixar, finalmente de ser triste.

 

E se algum dia for desenterrada

Minha carcaça, hão-de me ver sorrindo...

Porque as caveiras riem, assistindo

Deste mundo à infinita mascarada.

 

Poema do poeta brasileiro Marcelo Gama

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Marcelo Gama, pseudônimo de Possidônio Cezimbra Machado foi um poeta e jornalista brasileiro. Foi um dos maiores representantes da poesia simbolista no Rio Grande do Sul, movimento forte naquele Estado.

 

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publicado às 18:47


#2378 - Espanto e fragmento

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.05.17

Gonçalo M. Tavares

a interrogação, o questionar

 

Começar aqui é interromper uma tarefa noutro lado, claro.

 

A propósito de Heidegger, Steiner escreve. "Precisamos de dar mais assistência ao pensamento." (1)  Esta assistência, esta atenção cuidadosa pode ser interpretada como a atenção que se tem em relação a um ferido e, sendo assim, é quase comovente: não tires os olhos do pensamento; ele precisa de ti. Eis o que cada um de nós poderia dizer. E neste pensamento há uma marca que permite o avanço; a "fonte do pensamento genuíno é o espanto, espanto por, e perante o ser. O seu desenvolvimento é essa cuidada tradução do espanto em acção que é o questionar"(2), escreve Steiner. Questionar "é a tradução do espanto em acção". Não basta, pois, o espanto imóvel,  o espanto contemplativo, precisamos de um espanto agressivo, que ameace, que questione. Um espanto que sabe para onde vai. Como diz uma das personagens de Musil: é "tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção!"(3)

Para Heidegger, segundo a interpretação de Steiner, as "técnicas metafísicas de argumentação e sistematização impedem-nos [...] de exprimir os nossos pensamentos no registo vital da interrogação"(4). Mas a interrogação é essencial. Impor afirmações que põem questões.

______________________________________________________

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(1) - Steiner, George - Heidegger, 1990, p. 53, Dom Quixote.

(2) - Idem, p. 54.

(3) - Muitas das vezes, escreve ainda Musil, no mesmo excerto, o Homem encontra um sentido único e fecha-se nele: "o Homem não faz mais do que repetir, durante toda a sua vida, um só acto: ingressa numa profissão e progride nela".(Musil, Robert, O Homem sem Qualidades, 3.º Tomo, p. 90, Livros do Brasil)

(4) - Steiner, George - Heidegger, 1990, p.54, Dom Quixote

 

Excerto retirado do livro Atlas do Corpo e da Imaginação de Gonçalo M. Tavares, Capítulo I - O Corpo no Método, pags., 25 e 26 - Editorial Caminho, Setembro de 2013

 

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publicado às 18:45


#2374 - GENÉRICO

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.05.17

 fernando assis pacheco (1937-1995)

 

GENÉRICO

 

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos

das lágrimas quebrando

um a um na boca triste mas

por dentro, para que digamos

mais tarde, sem invenção escusada:

o pai não chorou.

 

Eu soube das tuas fúrias

mordendo-se em silêncio,

ou de como te pões

às vezes tão de cinza.

O barco, o barco. Ficaremos

ainda estes minutos quantos.

Do que quiseres. E como quiseres.

Fala. Mas nada de telegramas

para depois da barra

- posso não os abrir,

juro que posso.

Se eu fosse um amigo, se estivesses

em frente dum copo.

Custava menos. Assim

deslizas a unha

pelo tecido da farda, inútil

dedo terno com os olhos longe.

O pai, que não chorou, tremia

de modo imperceptível.

 

Lembro-me da bebedeira

em Alpedrinha, na estalagem,

com o Luís Melo

subitamente velho.

«Tramados, pá, tramados.»

O carro falha, são as velas

os platinados sujos

«a puta que os pariu» (Luís).

 

Um último aceno só vinho

para estas adolescentes

ao balcão do bar e depois e depois?

 

Mas o pai não chora.

Segura-me pelo braço, não chora.

Eis o filho

dos anos meus incorruptíveis.

Nasceria de uma pedra.

Longe do mundo é que ele nasceu.

E não mo tireis nunca

ó cegos capitães!

 

Meia hora antes o pai

filmou o Tejo, as tropas.

Era um barco, um barco onde ele ia.

Era um barco cheio.

 

Poema de Fernando Assis Pacheco (CÃU KIÊN: UM RESUMO, 1972)

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publicado às 18:19


#2373 - ANTI-ÉCLOGA

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.05.17

 JOSÉ MIGUEL SILVA

 

ANTI-ÉCLOGA

 

A verdade é que também as urtigas

me aborrecem. Esta doçura dos pássaros,

a silvestre quietude da tarde atravessada

pelo balido das ovelhas, grandes imitadoras

de Edith Piaf, tudo isso não chega a ser

tão daninho com a luz de um semáforo

vermelho, mas um pouco de sangue

na biqueira do sapato faz-me falta.

Faz-me falta praguejar, ter um lago

de cimento onde cuspir, obstáculos

de fogo, fantasias, a metralha dos calinos.

Não me sinto nada bem com a doçura,

com a paz dos ermitérios, de onde Deus

se retirou há quinze anos. Esta resignação

das árvores, dos faunos, das silvanas,

da restante bicharada típica dos lugares

onde sofrer é natural como estar só,

a conclusão é que não sei caminhar sem sapatos

que me apertem. As sandálias do pescador,

as botas do alpinista, não me levam

a lado nenhum. Detesto confessá-lo,

mas eu sou da cidade até à raiz do terror.

 

Não consigo viver sem o sasco de areia

onde exercito o excessivo golpe da exasperação.

Sem esse esbracejar a minha seiva coagula,

torna-se pastosa, sonolenta, felizita

como um rio de meandros preguiçosos,

lamacentos, imprestáveis - de que me serve

fingir o sossego a que não chego, brincar

às Arcádias em que não acredito?

Está decidido, prefiro sofrer.

Amanhã de manhã regresso ao abismo.

 

Poema de José Miguel Silva (Ulisses jã não mora aqui, 2002)

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publicado às 21:42


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