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Entrevista da responsabilidade de João Céu e Silva - Jornal Diário de Notícias

 

O historiador britânico Timothy Garton Ash critica os algoritmos pouco éticos das super poderosas Google, Facebook, Amazon e Apple na manipulação da verdade dos acontecimentos mundiais.

O historiador britânico e analista Timothy Garton Ash acaba de publicar em Portugal a sua mais recente investigação: A liberdade de expressão - Dez princípios para um mundo interligado. Um livro em que continua o debate sobre a dificuldade de o cidadão se emancipar de algoritmos pouco éticos da Google, Facebook, Amazon ou Apple quando quer formar uma opinião isenta sobre os acontecimentos mundiais. Um debate que já mantém num site em que a língua portuguesa é uma das treze usadas

.

Resume a atualidade marcada pela Internet logo à primeira frase do livro: "Agora somos todos vizinhos." É uma bênção ou uma maldição?

As duas. A Internet foi um tremendo ganho para a liberdade de expressão e de comunicação em todo o mundo e um momento nunca antes verificado na História do Homem. Mas é preciso ponderar que poder comunicar-se através dos smarthphones que estão no bolso de cada um é também um perigo pois convive-se com ameaças de morte, assédio e discursos alucinados. Como escrevo no livro, a Internet é o maior esgoto da história mundial, daí que a questão fundamental que quis analisar seja a de como maximizar a oportunidade e de minimizar os riscos.

 

 

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publicado às 17:48


Fernando Savater - A escola não deve ser democrática

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.10.10

 

"A escola não é democrática. Nem deve sê-lo. A escola é a preparação para a democracia. Uma aula é hierárquica. O professor está sempre acima dos alunos. A escola deve estar a preparar os jovens para ser cidadãos. A escola não tem os mecanismos da democracia nem deve ter."

 

Fernando Savater, filósofo e professor de Ética, em entrevista a Cristina Margato in "Atual", n.º 1983, de 30 de Outubro de 2010

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publicado às 19:44

Afirmação feita por Xavier Harel em entrevista à Visão n.º 885 de 18 de Fevereiro de 2010 e conduzida por Emília Caetano.


Xavier Harel é jornalista no diário económico francês La Tribune que acaba de lançar uma nova obra La Grande Évasion. Le vrai scandale des paradis fiscaux. Publicou, em 2006,  Afrique, pillage à huis clos, um livro que aborda o negócio do petróleo no continente africano.

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publicado às 16:31


#1101 - "Vejo um País triste e de tédio”

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.09

Rentes de Carvalho, escritor português que é best-seller na Holanda, publicou este ano em português ‘Com os Holandeses’ e ‘Ernestina'.



Correio da Manhã - José Saramago escreveu, em Maio de 1968, uma crítica na ‘Seara Nova’ a propósito do romance ‘Montedor’ em que falava de “uma escrita que decide sugerir e propor em vez de explicar e impor...?. Concorda?

Rentes de Carvalho - Concordaria sempre. Era uma crítica séria porque o Saramago não era o de agora, era um crítico respeitado e uma crítica dele era excelente.

- Como descreve a sua escrita?

- É simples. A dificuldade é saber o que se quer dizer e acumular as palavras necessárias. Por trás da simplicidade está um trabalho forte.

- Trás-os-Montes está muito presente na sua escrita. Quais são as recordações que guarda desse Trás-os-Montes dos anos 30/40?

- Portugal era diferente. Lembro-me do medo. Foram tempos terríveis, de fome, pobreza e humilhação. Quando escrevi o meu segundo romance, muitos jovens lá da aldeia leram e foram interrogar os pais e os avós se tinha sido assim mas a resposta foi sempre: “Não se fala sobre isso”. O medo continua entranhado nas pessoas, é o medo dos pobres, dos que não têm defesa nem direitos.

- Porque é que apesar de ter passado tantos anos na Holanda, Trás-os-Montes continuou sempre tão presente na sua escrita?

- Escrevi também sobre temas holandeses mas achei que não era tão capaz de o fazer como o faço em relação à minha gente. Conheço melhor os holandeses do que a sociedade portuguesa mas a minha afinidade é maior com o nosso povo. Se olhar para a minha vida, fui para Paris, onde vivi quatro anos, e encontrei uma sociedade diferente - com mais conforto, dinheiro e liberdade. Depois fui para a Holanda, onde vivo, mas o que guardo como os anos mais importantes foram os meus 20 anos que passei em Portugal. Estive 14 anos sem poder regressar mas quando voltei, em 1964, encontrei tudo como tinha deixado. No regresso à Holanda, cheguei ao aeroporto e ouvi-me a dizer: cheguei a casa e, esse sentimento de chegar a casa, nunca tenho quando venho cá. Quando chego a Portugal sou a pessoa de antigamente, aquele que ficou cá. O meu primeiro romance fala do que me teria acontecido se tivesse ficado e é nesse livro que sinto que fugi ao destino. O holandês é a língua com que escrevo no diário, com que falo no quotidiano, é a língua do amor e da família, o inglês e o francês são as minhas línguas de leitura e o português é a língua em que eu escrevo – é como se tivesse um quarto em que ninguém entra, ali mando eu. É o meu tesouro.

- Escreve ficção ou memórias?

- Os dois. Tenho contos que as pessoas perguntam se aconteceu mesmo e não posso dizer que é ficção porque não acreditam.

- Como é que um escritor opta pela fusão das duas?

- Tem um filtro. Faz uma valiação entre o que é bom e o que não é. O segredo é não deixar que o leitor perceba o que é o quê.

- Vendo de fora, o que há a dizer sobre Portugal?

- Vejo um País triste, de tédio e do almoço. O acontecimento mais notável para o português é o almoço. A pessoa levanta-se, trabalha um bocadinho e depois vai almoçar e, estende o almoço como se fosse um fim em si.

- Foi obrigado a sair de Portugal por razões políticas. O que aconteceu?

- Eu estava na faculdade de Direito e fiz umas perguntas sobre os sindicatos e um dos professores não gostou. Um dia o meu pai foi abordado pela PIDE: “O rapaz que tenha cuidado porque arrica-se a ir para a cadeia”. Na altura, ou saía de Portugal ou era preso, o que não me deixou escolha.

- Já alguma vez pensou como seria se não tivesse ido embora?

- Era um escriturário de segunda na Câmara de Mogadouro ou tinha aprendido a arte de sapateiro. No livro ‘Montedor’, mostro isso mesmo: o que me teria acontecido e a tantos outros como eu.

- Que razões encontra para vender cerca de 120 mil exemplares de um livro na Holanda e não ter o mesmo sucesso em Portugal, sendo ele tantas vezes mencionado nas obras? 

- Os holandeses acham-me simpático e eu ganhei uma certa reputação quando comecei a escrever nos jornais em holandês. Escrevi ‘Com os Holandeses’, de 1972, que vai agora na 13ª edição e continua a vender. Eu sou bom na escrita, sou diferente. Um escritor holandês tem um número de temas sobre os quais escreve – sexo, amor, família e, depois aparece um sujeito a contar histórias de Trás-os-Montes, que acham exótico e bonito. Em Portugal, talvez não seja tão conhecido porque é preciso ter os amigos certos, dizer que determinados livros são bons, entre outras coisas e, eu nunca entrei nesse jogo. Neste sentido a pátria é madrasta.

- Olhando para Portugal e para a Holanda, que características se podem apontar como o que de melhor há nos dois países?

- Na Holanda, há sentido de organização, pontualidade, não há quase corrupção no aparelho do governo e há responsabilidade social, enquanto em Portugal apenas falamos de uma roubalheira nacional. Mas temos também um sentido de carinho que falta na Holanda porque as pessoas são mais frias dentro do núcleo familiar.

- Quantos livros vendeu na Holanda e em Portugal?

- Na Holanda deve rondar o meio milhão de exemplares enquanto em Portugal falamos de cerca de três mil exemplares.

- O facto de o mesmo livro ter um número de vendas tão diferente pode apontar para diferenças nos leitores dos dois países? Quais?

- Na Holanda existe uma tradição de leitura, uma pessoa para contar na sociedade tem de ler e ter em casa uma estante com vários livros.

- Voltaria a viver apenas em Portugal?

- Vivo cá. Passo metade do ano em Trás-os-Montes e metade em Amesterdão. A casa que o meu avô construiu sozinho estava em ruína e nós mandámos reconstruir. Sentimos obrigação de a habitar por respeito ao homem que foi. É a ternura que me traz aqui.  

- Nos anos em que não veio a Portugal sentiu saudades do que, além da família e dos amigos?

- De não participar. Os meus pais iam ver-me à fronteira espanhola mas eu não podia passá-la, via Portugal do outro lado, é inesquecível. Mesmo hoje, sem fronteiras, passo por ali e custa-me.

- ‘Europa Rica, Europa Pobre’, fala exactamente sobre a perspectiva de não existirem fronteiras físicas mas que para alguns permanecem lá. Qual é a ideia?

- O pobre português pode ver a Europa rica mas não pode ir para lá, enquanto povos, como o Holandês, podem andar por toda a parte. Não consigo esquecer a história dos humildes e humilhados que conheci na infância. Nós não eramos pobres mas todos à nossa volta eram, ao ponto de só terem um bocado de pão e de uma cebola para comer. A vida neste País era muito dura. Houve um ano em que fugiram quase um milhão de portugueses para irem a pé até França mas quando chegaram à fronteira da Espanha com a França, ao rio Bidasoa – que tem uma corrente terrível – atravessavam o rio a pensar que podiam nadar e morreram milhares de pessoas de quem ninguém fala. Pensavam que a fortuna estava do outro lado e deitavam-se ao rio na esperança de uma vida melhor. Quando passo por lá fico sempre emocionado.

- Voltando aos livros. Há algum que destaque em particular?  

- ‘Com os Holandeses’ porque teve uma origem curiosa. Estava com um amigo holandês, que é editor, e comecei a falar mal dos holandeses – chatos, forretas, insensíveis – e ele propôs-me que escrevesse isso. Uns dias depois chegou uma carta da editora com um chegue no valor dos primeiros direitos de autor, e escrevi. Sabia que os holandeses iam aceitar, eles encaram as críticas como construtivas. Este livro tem me trazido amizades porque eles reconhecem que são mesmo assim.

- Sente algum tipo de mágoa por ser tão reconhecido na Holanda e não em Portugal, onde pertence e que tantas vezes menciona nos livros?

- Não porque as pessoas não são obrigadas a ler mas dói-me o desleixo e egoísmo que há em Portugal. As pessoa vivem em torno do pai, da mãe e dos filhos e não se preocupam com o resto do país. Vivo num país onde há alguma frieza no núcleo familiar mas o País interessa porque é de todos. Portugal é um país de poucos ricos e muitos pobres, e esta parte do País magoa-me muito.

- Qual era o seu sonho de criança?

- Ser advogado porque queria defender os pobres mas descobri que o que podia fazer para ‘gritar’ era o jornalismo. Era a denúncia.

PERCURSO ERRANTE DO ESCRITOR

Apesar dos anos na Holanda, Portugal continuou sempre presente na sua escrita. Rentes de Carvalho escreveu sobre temas do país de adopção, na obra ‘Com os Holandeses’, mas não se sente tão capaz de o fazer como o faz em relação à sua "gente", caso de ‘Ernestina’.

Viveu quatro anos em Paris, onde encontrou uma sociedade diferente: "Havia mais liberdade, conforto e dinheiro." Depois descobriu a Holanda, onde vive até hoje, mas o que guarda como os anos mais importantes da sua vida são os 20 que passou em Portugal. "Quando chego sou a pessoa de antigamente, aquele que ficou cá", garantiu ao CM.

Homem de várias línguas, Rentes de Carvalho usa a língua holandesa no quotidiano como idioma do amor e da família, tal como o inglês e o francês para a leitura, mas é o português o idioma eleito para escrever: "É o meu tesouro. É como se tivesse um quarto onde ninguém entra. Ali mando eu."

PERFIL

De ascendência transmontana, nasceu em Vila Nova de Gaia em 1930, onde viveu até 1945. Em 1956 passou a viver em Amesterdão, na Holanda. Desde 1988, dedica-se principalmente à escrita.

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publicado às 13:08


#1075 - Umberto Eco. "O Google é uma tragédia para os jovens"

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.12.09

As listas estão na origem da cultura. Fazem parte da história de arte e da literatura. De que precisa a cultura? De tornar o infinito compreensível . Também precisa de criar ordem - nem sempre, mas frequentemente. E, enquanto seres humanos, como enfrentamos o infinito? Como se pode tentar captar o sentido do incompreensível? Por meio de listas, catálogos e colecções em museus, e recorrendo a enciclopédias e dicionários. Há um fascínio em enumerar as mulheres com quem Don Giovanni dormiu: 2063, a acreditar em Lorenzo da Ponte, libretista de Mozart. Também temos listas inteiramente práticas - listas de compras, testamentos, ementas - que são actos culturais por mérito próprio.


A pessoa culta deve ser vista como uma guardiã que tenta impor a ordem nos locais onde predomina o caos?

 

A lista não destrói a cultura; cria-a. Para onde quer que olhe, na história da cultura, há-de encontrar listas. Com efeito, há uma gama estonteante: listas de santos, de exércitos e plantas medicinais, de tesouros e de títulos de livros. Pense-se na natureza das colecções do século XVI. Aliás, os meus romances estão cheios de listas.

Os contabilistas fazem listas, mas elas também existem nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.

Pois. Mas estes, obviamente, não são contabilistas. No "Ulisses", James Joyce descreve o modo como o seu protagonista, Leopold Bloom, abre as gavetas e tudo o que nelas encontra. Eu considero isso uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou então tomemos Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta dar a noção do tamanho do exército grego. De início, recorre a comparações: "Tal como um grande incêndio de floresta, rugindo no topo de uma montanha, se avista ao longe, assim também, ao marcharem, o brilho das armaduras iluminava o firmamento". Mas não fica satisfeito. Não consegue encontrar uma boa metáfora e, por isso, pede às musas que o ajudem. Então tem a ideia de enumerar muitos, muitos generais e os seus navios.


Mas, ao fazê-lo, não estará a desviar- -se da poesia?

No princípio, pensamos que uma lista é uma coisa primitiva e típica das culturas mais antigas, que não tinham uma concepção exacta do universo e que, portanto, estavam limitadas a enumerar as características a que conseguiam dar nome. Contudo, na história da cultura, as listas continuaram a prevalecer. Não são de modo algum uma mera expressão das culturas primitivas. Na Idade Média já havia uma imagem muito clara do universo e também havia listas. Uma nova mundividência baseada na astronomia dominou a Renascença e a época do Barroco e as listas continuaram a ser usadas. Também na era pós- -moderna as listas têm um papel importantíssimo . Têm uma magia irresistível.


Mas por que razão Homero enumerou todos aqueles guerreiros e navios se sabia que nunca poderia dar nomes a todos?

A obra de Homero toca repetidamente no

topos

do inexprimível. As pessoas fazem sempre isso. Sempre sentimos fascínio pelo espaço infinito, pela interminável série de estrelas e de galáxias. Como se sente uma pessoa quando olha para o céu? Pensa que não tem línguas suficientes que descrevam o que vê. Mesmo assim, as pessoas nunca deixaram de descrever o céu, recorrendo ao simples expediente de enumerarem o que vêem. Com os amantes passa-se o mesmo. Sentem uma deficiência na linguagem, uma falta de palavras que exprimam os seus sentimentos. E será que alguma vez os amantes desistem de o tentar fazer? Fazem listas: os teus olhos são tão belos, a tua boca também, e o teu colo... É possível ser muito pormenorizado.


Porque perdemos tanto tempo a tentar completar coisas que, de um ponto de vista realista, não se podem completar?

Nós temos um limite, um limite muito desanimador e humilhante: a morte. Por isso gostamos de tudo o que para nós não tem limites e que, portanto, não tem fim. É uma fuga que nos distrai de pensar na morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.


Na sua exposição no Louvre também vai expor obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou seja, limites, e não podem representar nada mais do que aquilo que de facto representam.

Pelo contrário, o que nos leva a gostar tanto delas é acreditarmos que conseguimos ver nelas para além disso. Quem contempla uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver como são as coisas à esquerda e à direita do quadro. Esse tipo de pintura é verdadeiramente como uma lista, um pedaço recortado do infinito.


Porque são essas listas e acumulações tão importantes para si?

As pessoas do Louvre contactaram-me e perguntaram-me se eu gostaria de comissariar uma exposição nesse museu. Pediram-me que apresentasse um programa de actividades. Só a ideia de trabalhar num museu foi suficiente para me atrair. Estive lá sozinho recentemente e senti-me como uma personagem de um romance de Dan Brown. Foi simultaneamente estranho e maravilhoso. Percebi imediatamente que a exposição iria ter como tema central as listas. Porque me interessa tanto esse tema? Não sei bem. Gosto de listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou de pedofilia. Gostos não se discutem.


Mesmo assim, é famoso por saber explicar as suas paixões ...

...mas não por falar sobre mim. Ora veja, desde os dias de Aristóteles que temos tentado definir as coisas com base na respectiva essência. A definição de homem? Um animal que age de maneira deliberada. Ora, os naturalistas levaram 80 anos a arranjar uma definição para o ornitorrinco. Foi extremamente difícil descrever a essência desse animal. Vive debaixo de água e em terra, põe ovos e, no entanto, é mamífero. E como era essa definição? Era uma lista, uma lista de características.


Seria certamente possível defini-lo se fosse um animal mais convencional.

Talvez, mas será que isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência classifica como predador. Como iria uma mãe descrever um tigre ao seu filho pequeno? Provavelmente através de uma lista de características: o tigre é grande, é um felino, amarelo, às riscas, e forte. Só um químico se referiria à água como sendo H2O.

Mas eu digo que é líquida e transparente, que a bebemos e que nos podemos lavar com ela. Agora pode finalmente perceber aquilo de que estou a falar. A lista é a marca de uma sociedade altamente avançada e culta porque nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva em comparação com a lista.


Pode parecer que está a dizer que devemos parar de definir as coisas e que haveria vantagem se, em vez disso, as contássemos e enumerássemos.

Pode ser libertador. A idade do Barroco era uma época de listas. De repente, todas as definições eruditas feitas na era precedente deixaram de ser válidas. As pessoas tentaram ver o mundo a partir de uma perspectiva diferente. Galileu revelou novos pormenores sobre a Lua. E, na arte, as definições consagradas foram objectivamente destruídas e a diversidade de temas expandiu-se enormemente. Por exemplo, eu vejo as pinturas do Barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todos aqueles frutos e as imagens de gabinetes de curiosidades opulentos. As listas podem ser anárquicas.


Mas também disse que as listas podem trazer ordem. Quer então dizer que tanto a ordem como a anarquia se aplicam neste caso? Isso tornaria perfeitas para si a internet e as listas criadas pelo motor de pesquisa Google.

Sim, no caso do Google, ambos os conceitos convergem. O Google cria uma lista, mas no momento em que olho para a lista que o Google gerou, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para os adultos como eu, que adquiriram conhecimento de outro modo -, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas deveriam ensinar a arte da discriminação.


Está a dizer que os professores deviam ensinar aos estudantes a diferença entre bom e mau? E, nesse caso, como o fariam?

A educação deveria regressar às estratégias das oficinas da Renascença. Aí, os mestres podiam não ser capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas faziam-no de maneiras mais práticas. Olha, isto é o aspecto que o teu dedo pode ter e este é aquele que deve ter. Olha, esta é uma boa combinação de cores. A mesma abordagem deveria ser utilizada nas escolas quando se lida com a internet. O professor deveria dizer: "Escolham qualquer assunto: a história da Alemanha ou a vida das formigas. Pesquisem em 25 páginas web diferentes, comparando-as, e tentem descobrir qual tem informação importante e pertinente". Se dez páginas disserem a mesma coisa, pode ser sinal de que essa informação está correcta. Mas isso também pode acontecer porque alguns sites se limitaram a copiar os erros dos outros.


Quanto a si, é mais provável que trabalhe com livros; tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.

Receio bem que, nesta altura, já sejam 50 mil livros. Quando a minha secretária os quis catalogar, pedi-lhe que não o fizesse. Os meus interesses mudam constantemente, tal como a minha biblioteca. A propósito, se os nossos interesses mudarem constantemente, a nossa biblioteca dirá algo de diferente sobre nós. Além disso, mesmo sem um catálogo, vejo-me forçado a lembrar-me dos meus livros. Tenho uma sala para literatura com 70 metros de comprimento. Percorro-a várias vezes por dia e sinto--me bem quando o faço. Cultura não é saber quando morreu Napoleão. Cultura significa saber como vou descobrir isso em dois minutos. Claro que, hoje em dia, posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos de um ai. Mas, como disse, com a internet nunca se sabe.


Incluiu uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes no seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele enumera as coisas de que gosta e as de que não gosta. Gosta de salada, de canela, de queijo e de especiarias. Não gosta de ciclistas, de mulheres de calças compridas, de gerânios, de morangos e de harpa. E o senhor?

Eu seria louco se respondesse; significaria rotular-me. Fiquei fascinado com Stendhal aos 13 anos e com Thomas Mann aos 15 e, aos 16, adorava Chopin. A seguir, passei a vida a tentar conhecer o resto. Neste momento, Chopin voltou a estar no topo da lista. Quando interagimos com as coisas da nossa vida, tudo muda. Se nada mudar, somos idiotas.


In "Jornal i"

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publicado às 18:30


#984 - Luís Sepulveda - Entrevista ao "DN"

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.10.09

"A minha juventude terminou no dia 11 de Setembro de 1973"

 

Luis Sepúlveda está em Portugal para lançar o seu último livro, A Sombra do que Somos (Porto Editora). Hoje, às 18.00, no El Corte Inglés, em Lisboa.

Como é ter 60 anos?

É uma sensação muito agradável. Tenho experiência, tenho um caminho percorrido, sinto-me bem.

É inevitável, quando se chega a esta idade, olhar para trás e sentir-se "uma sombra do que foi"?

Sinto que projecto uma sombra que é bastante forte, é a sombra da minha geração que teve uma importância muito grande naquilo que estão agora fazendo os mais jovens, acho que estes nos vêem como referências.

A ideia da sombra é positiva? Não tem a ver com sentir-se uma sombra do que já foi?

Não, não, é uma ideia bastante optimista. Primeiro, porque para haver uma sombra tem de haver bastante luz, e nós temos uma luz muito forte que é a luz da nossa razão. Por isso temos uma sombra forte, definitivamente.

Os velhos persistem nos seus livros. Aqui aparecem logo na primeira frase.

Sempre me fascinaram os velhos, têm algo muito bonito que é o percurso que fizeram, a experiência, os erros, os fracassos, algo que está aí, que se pode ver. Neste caso, queria contar a história de quatro veteranos que se juntam para uma última aventura. Estas personagens estão muito próximas de mim, têm muito da minha experiência, têm a minha idade. Chegou a hora de escrever sob o ponto de vista dos velhos.

Mas com a idade não se perde também aquela vontade de mudar o mundo, o acreditar que é possível?

Eu não perdi. Os ideais permanecem porque há coisas no mundo que continuam mal. O sentimento de justiça social não tem idade, não tem época, é algo definitivo. Claro que o mundo também muda e as atitudes das pessoas têm que se adaptar. Mas o fundamental é que o velho desejo de mudar o que está mal é igual e tão forte quanto antes.

Esse optimismo está presente neste livro?

Acho que está. A partir de um aparente desencanto, estas personagens falam do seu passado e fazem algumas perguntas, por exemplo: porque fazíamos as coisas assim? E descobrem essa figura metafórica que é a sombra os desafia e encoraja a fazer alguma coisa. Avançam para uma última aventura, que possivelmente vai fracassar, mas que revela que têm os mesmo valores e a mesma vontade de fazer.

Mas a verdade é que eles não conseguem recuperar o passado.

O passado não se pode mudar, foi o que foi. Há algo nesses quatro que é profundamente subversivo que é o humor. E isso permite-lhes olhar para o passado com uma ironia sã.

É assim que olha para o seu passado?

Sim, com muito carinho e com muito humor. Este livro nasceu há três anos, quando me juntei com um grupo de amigos da juventude para um jantar em Santiago do Chile. Começámos a falar dos netos e depois falámos do tempo de Allende, do exílio, e todos contavam as coisas com um sentido de humor extraordinário. Podíamos ter mágoa por ter sido uma desilusão, mas não tínhamos. Havia uma alegria muito grande de saber que nós, por decisão pessoal, nunca tínhamos sido corruptos. Cometemos erros, claro, éramos muito jovens e éramos poucos para um processo tão grande. Desse jantar saiu a ideia de escrever este livro com um grupo assim de veteranos que se reúne para uma última aventura.

No livro fala muito da experiência do exílio, foi uma experiência determinante para si?

Todas as experiências são determinantes, sobretudo se pensarmos que para a minha geração o 11 de setembro de 73 foi muito mais do que um golpe de estado e o fim de uma democracia exemplar, foi o fim da nossa juventude. Terminou nesse dia. Eu tinha 23 anos e, como muitos outros companheiros, e tive de começar a agir com a maturidade uma pessoa de 40 ou 50 anos para sobreviver. O exílio foi, por um lado, um castigo, muitas pessoas não o suportaram, e, por outro, uma espécie de bolsa de estudos no estrangeiro, porque foi uma oportunidade para conhecer outras realidades. E para lutar, a ver se noutros locais era possível concretizar algo do que sonhávamos.

O regresso é difícil. Procuram um país que deixaram mas já não é o mesmo.

Do exílio não se regressa nunca. É definitivo. O país que deixamos existe só conservado na memória, é, como digo no livro, o país de Peter Pan, nada envelhece, nada muda. Mas depois confrontamo-nos com o país real e é difícil. Temos saudades das pessoas que conhecemos, dos locais onde estivemos, Vivemos com o coração partido.

Mas a casa é sempre no nosso país?

A casa é onde nós estamos sentimentalmente. As casas também vão mudando. Normalmente a casa é onde está a nossa família, mas os anos passam, os filhos crescem, voam com asas próprias, porque têm de o fazer, e chegamos a um estádio maravilhoso em que a nossa família são os nossos amigos. E aí a casa muda-se.

 

 

 

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publicado às 23:26


#919 - História de uma entrevista a Zeca Afonso

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.07.09

Nos 80 anos do seu nascimento

Ouça aqui a voz de José Afonso, gravada durante uma entrevista que concedeu, em 1970, aos jornalistas Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo. E leia a história da vida do cantor e a sua discografia

Oiça a entrevista e releia a versão integral, publicada, em 1970, no Cena 7:


Zeca Afonso: 'Sou um homem comum?

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publicado às 13:07


#918 - "Se dá trabalho também dá prazer"

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.07.09


Alice Vieira, escritora há 30 anos, está de parabéns “por tantos e tão bons livros”, slogan da megacampanha que a Leya lhe preparou em surpresa. Até o neto dar o alarme.


Correio da Manhã – Como é que "uma escritora de manias" mas sem "a mania das grandezas" lida com uma megacampanha que inclui posters e crachás...

Alice Vieira – Só comecei a perceber que havia qualquer coisa por aí quando todos os jornais, de repente, queriam falar comigo... E quando um dos meus netos, o Diogo, disse: "Na FNAC há um cartaz com uma cara igual à tua. Só não és tu porque a do cartaz tem o cabelo azul..." Uma das coisas de que mais gosto na campanha é desse meu súbito cabelo à Wanda Stuart!

– E que manias são aquelas de que é pecadora confessa?

– Antes de começar a escrever tenho de limpar a mesa, ponho um caderno moleskine novo ao lado do computador, encho a parede em frente com fotografias das pessoas que amo e escolho o CD que me vai acompanhar durante o tempo de escrita. Cada romance tem a sua música de fundo... O próximo, a começar no dia 1 de Agosto, vai ter a ‘Mãe’ do Rodrigo Leão.

– Além do merchandising, a editora vai enviar um livro seu para Timor por cada postal que uma criança lhe escreva... Ideia sua?

– Foi. Achei boa ideia ligar a minha paixão pela escrita à minha paixão por Timor... Timor só suscita reacções extremas: ou se odeia ou se ama. Senti que ia ficar ligada desde o momento em que pisei aquela terra. E as pessoas são tão cativantes, abraçam-nos, querem sempre aprender mais. A única coisa que vi as crianças pedir foi lápis.

– Este é o Ano Alice Vieira?

– Todos são. Estou contente por os meus patrões se lembrarem de festejar os meus 30 anos de trabalho, mas não vou trabalhar mais nem melhor... O que dá trabalho, dá prazer e já tenho encomendas para três romances, um livro de crónicas e um texto para o maestro Eurico Carrapatoso musicar para a Orquestra Metropolitana de Lisboa...

– E a sua relação com a poesia?

– É uma relação diferente da que tenho com o resto da minha produção. Acho que devia ter usado outro nome, não como pseudónimo, mas como heterónimo porque, em poesia, sou mesmo outra pessoa.

– Desde a estreia, com ‘Rosa, Minha Irmã Rosa’, o que mudou?

– Tudo. O Mundo. Um mundo sem telemóveis nem laptops, sem via verde nem multibanco, sem televisão por cabo nem microondas, sem CD nem Zara... E nós vivíamos!

PERFIL

Alice Vieira completou este ano 66 de idade, 40 de jornalismo e 30 de literatura. Com obra feita e premiada em todos os géneros, é nos jovens que tem os mais fiéis leitores e, já em Setembro, recebe em Gotemburgo, o Prémio Peter Pan. Há dois anos descobriu a poesia e, dois livros mais tarde (‘Dois Corpos Tombando na Água’ e ‘O Que Dói às Aves’), é oficial: temos poeta!


Entrevista publicada no "Correio da Manhã"

 

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publicado às 12:12


#887 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.07.09

Elisa Ferreira: "Vou ganhar a Câmara do Porto"


entrevista publicada no  Jornal "i", aqui

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publicado às 11:47


Maria Filomena Mónica diz que com a idade está a perder a raiva, porque a raiva cansa muito. Mas continua a fazer e a dizer tudo o que lhe apetece.


Maria Filomena Mónica, em entrevista ao "i", conversa sobre Eça de Queirós

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publicado às 09:37


#829 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.06.09

"Não aumentarei os impostos"

Promessa de Manuela Ferreira Leite se ganhar as eleições


"Se Moniz sair da TVI será escandaloso"

Manuela Ferreira Leite em entrevista ao Diário de Notícias

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publicado às 12:04


#827 - "O verdadeiro Madoff é o sistema financeiro"

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.09


Taleb diz que crises haverá sempre, mas que se pode trabalhar para evitar grandes impactos no futuro. Destruir o sistema bancário, por exemplo.


Corrosivo, stressado, agressivo no discurso, mas cordial. Nassim Teleb, filósofo natural do Líbano, cidadão dos Estados Unidos, já foi corretor de bolsa. Chegou ontem a Lisboa. Falou sobre os males da ordem política e económica mundial. Diz-se conservador, chama nomes aos professores de Harvard, tem pouca fé na humanidade. Diz que ninguém no poder o ouve. Está pessimista porque errar é humano. E cometer erros fatais, como os que levaram a esta crise, também.


Ler Entrevista no "i"

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publicado às 12:47


João Urbano entrevista Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09
Poreticismo e Deriva
   

 

Silva Carvalho (não confundir com Armando Silva Carvalho) sendo de longe o mais poderoso, conceptualmente inovador e desafiante escritor ou escrevinhador, como gosta de intitular-se, do Portugal contemporâneo, tem merecido uma atenção e recepção nulas e mesmo o desprezo por parte dos seus contemporâneos. Para o nosso meio literário, Silva Carvalho pura e simplesmente não existe. Pelo que a sua inexistência talvez seja consequência de os seus livros, tão exigentes, serem o reverso do que por cá se faz há muitas dezenas de anos. Talvez o vejam como uma espécie de ovni. Trata-se de uma escrita anti-poética ou de uma outra poética em que o documental se precipita no conceptual. Em suma, um híbrido. A porética contra a poética. A literatura contra a literatura. – Entrevista por João Urbano

 

Ler entrevista aqui

 

Entrevista retirada da Revista Nada

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publicado às 22:48


António Lobo Antunes

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente
António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente

 

Revista BRAVO! | Junho/2009

Crítica - Lobo e seus Demônios

Em seu novo romance, “Meu Nome É Legião”, Lobo Antunes expressa em múltiplas vozes a violência de um Portugal periférico na União Europeia

Por Jefferson Del Rios

 

António Lobo Antunes não deixa por menos: o "legião" do título de seu novo romance é o nome dos espíritos malignos dentro de um homem citado no Evangelho de São Lucas. Na história atual, o mal se traduz em delinquência e ódio racial, em vidas medíocres sob a violência que se esparrama por Lisboa. O escritor português, uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, em julho, nunca deixou por menos. Começou quando, estarrecido com as guerras coloniais, estreou com Os Cus de Judas (1979), expressão chã que definia os soldados portugueses que se danavam, matando e morrendo em Angola, Moçambique e Guiné. Psiquiatra, Lobo Antunes serviu entre 1970 e 1973 como médico militar em Angola, onde teve de colocar de lado os problemas da mente para costurar jovens rasgados pela metralha. Na volta a Lisboa, acerta contas com o passado, cujos resquícios perduram, de maneira tacanha, em Portugal.

Além de Os Cus de Judas, reviu a história lusitana em obras provocadoras como Conhecimento do Inferno, Fado Alexandrino, Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal. Nesses livros, deixou de lado a linearidade da escrita em favor de enredos superpostos com cortes bruscos no tempo e espaço. A opção gerou encanto e polêmica. Há, mesmo entre seus admiradores, os que temem ter Lobo Antunes começado a abusar desse, digamos, experimentalismo. Mas ele se mantém irredutível a achar que escreve fácil. Agora avança sobre a atualidade portuguesa do euro, uma nova periferia com novas barbáries.

 

MEMÓRIAS FRAGMENTADAS
Em Meu Nome É Legião, uma gangue de brancos, mestiços e um negro pratica roubos violentos, numa vertigem de cenas cruéis — como arrancar a frio o aparelho dos dentes de um adolescente. A elas, misturam-se delírios — ossos de cemitério, cano de arma, carros em alta velocidade. Os acontecimentos são narrados por múltiplas vozes, sobretudo as dos extremos da ação: o policial deprimido numa rotina de misérias e os agressores, pequenos bandidos de 12 a 19 anos. O escritor joga com a fragmentação da memória: como a dos psicóticos, a dos soldados feridos e em pânico de Os Cus de Judas e, por que não?, a nossa, prosaicos leitores.

Sobre, ou sob, esse caos percebe-se, implícito e firme, o conhecimento que Lobo Antunes tem dessa gente. Se no geral seus romances são históricos e sociais, nem por isso deixam de ser algo como um gesto, íntimo e final, de compreensão cética de uma realidade em que as verdades absolutas são tão vãs como ter saudade do passado mítico de um país que não volta mais.

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publicado às 18:15


"El arte puede vencer a la muerte"

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.05.09

ENTREVISTA: ANTÓNIO LOBO ANTUNES Escritor

"El arte puede vencer a la muerte"

MIGUEL ÁNGEL VILLENA - Madrid - 28/05/2009

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) se recuperó hace un par de años de un cáncer y, para alegría de sus lectores, ha publicado después Mi nombre es Legión (Mondadori), una novela sobre personajes marginales en una Lisboa periférica con un policía como hilo conductor. "Sentía vergüenza", manifestó ayer en Madrid, "cuando me recuperaba de la enfermedad en el hospital porque yo iba a seguir viviendo y otra gente, más joven, iba a morir. Pensé durante mi tratamiento que en honor a esa gente hay que dejar testimonio del paso del tiempo y de la vida. Un anciano me dijo en el hospital que no estamos preparados para morir, sino para vivir. Es verdad, lo suscribo. Por ello creo que la literatura es la única manera de vencer al tiempo, sólo el arte puede vencer a la muerte".

"El mundo de la literatura está plagado de envidias y de competencia"

"Las fronteras entre el bien y el mal siempre aparecen muy difusas"

Con esa actitud de "las cartas boca arriba" que proporciona haber superado un trance grave, Lobo Antunes compareció ayer ante los periodistas y mantendrá hoy un coloquio con sus lectores en Casa de América tras haber obtenido el premio Fil de literatura en lenguas romances que concede la Feria del Libro de la mexicana Guadalajara. Escéptico sobre las distinciones -"que ni mejoran ni empeoran la obra literaria"- uno de los autores europeos vivos más importantes, traducido a muchos idiomas, desmitificó sin piedad a los escritores. "La literatura representa un mundo", comentó, "plagado de competencia y de envidias. Los escritores deberían ser como los tigres que no se devoran entre ellos. Pero no ocurre así. Antes de dedicarme a la literatura, los escritores me parecían gente muy fascinante y luego sufrí una cierta desilusión. Además, en algunas épocas todo este ambiente de premios, traducciones y contratos por libros que no has escrito hizo que me sintiera como un Julio Iglesias de las letras".

Hasta tal punto este irónico, descreído y brillante Lobo Antunes ha puesto las cartas boca arriba después de su enfermedad que se permitió comentar a los periodistas: "Ustedes pregunten lo que quieran que yo contestaré lo que me parezca". No para de filosofar sobre la vida y la literatura este hijo de familia de abogados y médicos, psiquiatra de formación, que fue oficial en la guerra colonial en Angola y que sostiene que nunca ha escrito sobre aquella terrible experiencia "por respeto a los muertos". Y en conversación con este diario Lobo Antunes explica, a propósito de su novela Mi nombre es Legión, que "las fronteras entre el bien y el mal siempre aparecen muy difusas". "En la guerra estás matando porque te entrenan para eso y, un rato después, estás salvando vidas. Es cierto además que en las situaciones límite encontramos la parte más sublime y la más despreciable de las personas".

Tras anunciar que escribirá más libros, pese a haber anunciado en alguna ocasión que se cortaba la coleta, Lobo Antunes sentencia que cada novela es un organismo vivo que el autor debe manejar. "En Mi nombre es Legión", aclara, "el policía protagonista se convierte en una especie de escritor que lucha con el material que tiene y que, en este caso, son personajes solos y desarraigados en un ambiente de emigrantes africanos. Son gentes que sólo saben expresarse a través de la violencia porque no pertenecen ya a una África que han perdido ni a una Europa que no las acepta". En una Lisboa de desarraigados, Lobo Antunes ilustra la reflexión moral entre el bien y el mal con una anécdota escalofriante. "Vivo en un barrio donde acuden travestis y veo, en ocasiones, que llegan clientes en buenos coches con sillitas de bebés en los asientos traseros. Es decir, esos clientes de la prostitución son honrados padres de familia de día y sórdidos demandantes de que los penetren con los tacones por las noches".

Vitalista y amante de los placeres, fumador y buen comedor, admirador de las mujeres atractivas, Lobo Antunes se siente en España como en casa, aunque añora las gaviotas y el mar de Lisboa. "Toda la península Ibérica debería ser una federación", proclama uno de los escritores portugueses más seguidos en España. Declara que mantiene una vida aislada y frecuenta poco los actos sociales, aunque editoriales, universidades y centros culturales lo reclaman en medio mundo. Pero sus amigos representan un tesoro para Lobo Antunes. "Es más fácil confesarse y hablar con los amigos que con la familia. En definitiva, la familia son los amigos que tú eliges".

 

Entrevista retirada do jornal "El País", de hoje.

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publicado às 16:10

Murillo Meirelles

Chico Buarque e Caetano Veloso no Rio de Janeiro. Um encontrou a voz na literatura e o outro nos blogs, shows, CDs...
Chico Buarque e Caetano Veloso no Rio de Janeiro. Um encontrou a voz na literatura e o outro nos blogs, shows, CDs...

 

Revista BRAVO! | Abril/2009

A Palavra e o Som

Por Heitor Ferraz, José Flávio Júnior e João Gabriel de Lima

 Veja a galeria de imagens do making-of da seção de fotos exclusivas com os dois grandes artistas e as capas alternativas da edição

 

Numa cena do filme Invasões Bárbaras, um dos clássicos da primeira década do século 21, um grupo de professores de história elabora a teoria da "quantidade de inteligência". Segundo eles, por razões aleatórias, existem determinados momentos e lugares com alta concentração de gente talentosa, e essas pessoas fazem a diferença em suas épocas. São citadas no filme a Florença de Dante e Boccaccio e a Filadélfia dos "pais fundadores" da revolução americana. Aplicando a teoria à vida cultural brasileira, pode-se dizer que o país viveu uma espécie de auge nos anos 60 e 70, explosão criativa da música popular (e, por mais que se cunhem teorias pretensamente sociológicas — a mais famosa e absurda diz que a arte floresce em períodos de ditadura —, nada explica isso além da sorte). Primeiro veio a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto. Depois, a MPB surgida nos festivais, com Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Tom Zé e Gilberto Gil. Esses músicos têm em comum, além do talento, a carreira extremamente longa, que dura até os dias de hoje. Numa coincidência digna da teoria da inteligência aleatória de Invasões Bárbaras, dois desses artistas darão à luz novas criações neste mês de abril. Saem o novo CD de Caetano Veloso, Zii e Zie, e o novo romance de Chico Buarque, Leite Derramado. Disco e livro são pontos de chegada de trajetórias paralelas — e o lançamento simultâneo provoca reflexões sobre a cultura brasileira e sobre o caminho que ambos percorreram para chegar até aqui.

 

Não existem mais artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso — os ícones de geração, os compositores que são chamados a opinar sobre todos os assuntos. Nos anos 90, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) observou, numa entrevista famosa, que no Brasil eram os cantores populares, e não os escritores ou intelectuais da academia, que pautavam o debate cultural. Tolentino emitiu sua observação em tom de crítica — ele via isso como um sintoma de decadência. O que faltou em seu raciocínio foi observar que acontecia o mesmo no resto do mundo. Se os anos 40 e 50 foram dos escritores e filósofos, em que nomes como Norman Mailer e Jean-Paul Sartre pontificavam sobre todos os assuntos, os 60 e 70 foram dos astros da música pop. Artistas como John Lennon, Paul McCartney, Bob Dylan e David Bowie, entre outros, eram considerados as "antenas" de um período de intensa mudança cultural e de costumes. É um pouco espírito de época, mas também mérito de uma geração excepcionalmente talentosa — é só pensar que apenas no ano de 1966 foram lançados pelo menos três álbuns clássicos da música de todos os tempos, Blonde on Blonde (Bob Dylan), Pet Sounds (Beach Boys) e Revolver (Beatles). Cantores como Chico Buarque e Caetano Veloso eram as versões brasileiras desse fenômeno. É uma simplificação, no entanto, entender tudo isso apenas como marca de um tempo, ignorando as peculiaridades e contribuições particulares de cada artista.

 

Numa comparação redutora porém ilustrativa, Chico e Caetano estão para a MPB assim como Bob Dylan e David Bowie para o pop internacional. Dylan e Chico se destacam mais pela qualidade de suas letras do que por suas performances, em geral discretas, em shows. Mais do que bons compositores, letristas e intérpretes fulgurantes, Bowie e Caetano são famosos pelas diversas reviravoltas que deram em suas carreiras, captando diferentes espíritos de época. Bowie usou sintetizadores para falar de viagens espaciais nos anos 60, foi andrógino nos 70 (era o principal nome do glitter, o velho e colorido rock-lantejoula) e voltou a ser roqueiro nos 80. Caetano surgiu no tropicalismo dos anos 60, escreveu o "hino do desbunde" nos anos 70 (a música Odara), foi pioneiro na utilização de sonoridades do pop na MPB da década de 1980 (o marco é o memorável álbum Velô) e ainda promoveu o relançamento de clássicos da música latina nos 90. Tudo isso enquanto Chico Buarque lapidava seu estilo de composição calcado nas raízes da MPB — e Bob Dylan se aprimorava cada vez mais em sua peculiar fusão de blues e música country engajada.

 

Neste mês em que Caetano e Chico lançam seus novos CD e romance, é interessante comparar os pontos de chegada das duas trajetórias. Chico, o compositor que fazia incursões no teatro e criava personagens em suas letras (Pedro Pedreiro, Ana de Amsterdam, Bárbara), se tornou escritor. Continuou fazendo música embora tenha declarado, em entrevistas, que considerava a canção uma "arte de juventude", em contraposição à literatura, que seria uma forma de criação mais madura (leia texto ao lado). Enquanto isso, Caetano dava nova reviravolta em sua carreira ao se aproximar de músicos jovens e lançar um álbum antológico,. Não parou por aí: criou um blog, lançou músicas na internet, testou-as no show e as reuniu no novo álbum, Zii e Zie, tornando-se talvez o artista brasileiro da área musical que melhor entendeu a interatividade dos novos tempos (leia texto a partir da página 32). Tempos estes em que a multiplicidade de criadores de todas as áreas explode na internet. Em que não existe mais o que se chamava antigamente de mainstream. Em que, no Brasil ou lá fora, se observa o fim dos ícones de geração — e não se espera mais que cantores sejam "antenas da raça" ou falem sobre todos os assuntos. Nestes tempos de cauda longa, Caetano Veloso e Chico Buarque encontraram, cada um a seu modo, suas vozes. Chico na literatura. Caetano nos sites de música, no blog, no show, no CD...


 

João Gabriel de Lima


O parto de Eulálio d'Assumpção, protagonista de Leite Derramado, foi mais tranquilo do que o de José Costa, o personagem principal de Budapeste. Na feitura de seu romance anterior, Chico Buarque chegou a descartar uma versão inteira, na qual o protagonista era um arquiteto. Foram três anos de elaboração. Já o novo livro nasceu em menos de um ano. Houve apenas uma hesitação, como lembra o editor Luiz Schwarcz, com quem Chico sempre se comunica quando começa a escrever um novo trabalho. "Ele ficou na dúvida, achou que podia ter se enganado", conta Luiz. Mas com a dúvida veio também o aviso: "Se estiver enganado, pode me dizer. Eu jogo tudo fora e começo outro, pois estou com a mão boa", disse Chico a Schwarcz. Não houve engano. Leite Derramado chegou ao mercado com uma tiragem inicial de 70 mil exemplares — o padrão do mercado é de 3 mil —, duas versões de capas, um site especial (www.leitederramado.com.br) e campanha publicitária da AlmapBBDO.

Chico faz 65 anos em junho. Quando se iniciou na literatura, em 1993, com o romance Estorvo, estava realizando um sonho de juventude. "Meu pai, historiador e crítico literário, não me pressionou a escrever, mas apreciava quando eu escrevia. Aos 21 anos, comecei a compor canções, e isso foi o que me sequestrou", disse em 2005 numa mesa-redonda em Nova York, da qual participou também o autor americano Paul Auster.

Desde esse sequestro, Chico procura sempre manter separado o escritor do compositor, num esquema que ele mesmo chamou de "esquizofrênico". Quando se dedica à literatura, deixa o violão no estojo e evita ouvir música. Quando termina o livro e passa a temporada de lançamento e de traduções, volta a procurar os acordes e as linhas melódicas de suas canções, com um frescor de quem estivesse começando do zero. Quando lançou Carioca, há dois anos, ele deu uma série de entrevistas, comentando o disco — que é um dos mais brilhantes de sua carreira e tem como destaque a faixa Subúrbio, com uma linha melódica que sobe e desce como se galgasse os morros que dividem a zona sul e a zona norte do Rio de Janeiro. Mas, quando o assunto é livro novo, Chico se retrai. Pelo menos durante um tempo. Depois, acaba fatalmente comentando sua literatura e suas leituras.

Para o escritor e jornalista Humberto Werneck, autor de Tantas Palavras, o artista tem uma espécie de "monogamia criativa", alternando os momentos de autor com os de compositor. A única coisa que se mantém tanto no músico como no escritor é a caminhada — além do futebol, o principal esporte de Chico é andar pelo calçadão do Rio de Janeiro. Seguindo o ritmo de um passo paulista, mais apressado, Chico aproveita para ir resolvendo o enredo ou a letra da canção. Não são apenas passeios e exercício físico, mas horas de trabalho mental. Como diz Werneck, no livro, "compor e escrever são solicitações diversas de sua criatividade, cada uma a seu tempo". Numa conversa com o cineasta Roberto de Oliveira (que resultou posteriormente em uma caixa com 12 DVDs), Chico Buarque comentou: "Não há um parentesco próximo entre romance e música. Mas existe uma música na estrutura dos meus livros. E também há sempre uma música no fundo da minha cabeça quando escrevo, quase uma trilha sonora, um assovio, um cantarolar que dita o ritmo".

A carreira literária de Chico, assim como a de músico, atravessou o oceano. Seu primeiro romance, Estorvo, logo ganhou tradução no estrangeiro. Saiu na França, na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos e em outros países. O mesmo destino tiveram seus dois romances posteriores, Benjamim e Budapeste. Lá como cá, o nome do escritor sempre vem acompanhado do do compositor. "Um dos mais importantes músicos do Brasil", dizia o francês L'Express, na abertura de uma entrevista, em 1998. Vale lembrar que na França o músico é muito conhecido, principalmente por causa da música Essa Moça Tá Diferente, que virou jingle de um comercial (bem ridículo, diga-se de passagem) de uma marca de refrigerantes.

A crítica fora do Brasil sabe separar, no entanto, o músico do escritor. "Ninguém espere encontrar na literatura de Chico Buarque elementos parecidos com as suas canções, pois estamos diante de uma narração pouco colorida, de ritmo escasso e com nenhuma mudança de tempo", dizia o autor espanhol Mariano Antolín Rato, sobre o lançamento, na Espanha, de Estorvo. Apesar de dizer que o livro era um tanto decepcionante, o crítico também dava a mão à palmatória dizendo que pouco sabia sobre o Brasil e talvez isso lhe impedisse de entender melhor a obra. Já sua conterrânea, a crítica e poeta Beatriz Hernanz, lembrando a atividade de compositor e cantor de Chico, fazia uma leitura mais atenta do romance — principalmente para o impasse moderno do mundo sem saída apontado pela narrativa — e lembrava que a obra certamente surpreenderia o leitor espanhol.

Nos Estados Unidos, onde ele é conhecido, mas não é um nome popular, o New York Times publicou uma reportagem, em 1999, dando conta de toda a sua carreira, destacando as letras de suas canções e apresentando o autor de Turbulence, como foi batizado lá o livro Estorvo, lançado pela Pantheon, em 1993. O livro também saiu na Inglaterra, onde teve críticas positivas. Os artigos sempre lembram a faceta do músico, mas logo se voltam para o enredo criado pelo escritor e destacam sua condição de brasileiro e o seu tema, o Brasil. Por aqui, a obra de Chico Buarque em geral rende resenhas positivas — claro que alguns comentários dissonantes não faltaram, nem faltarão, por conta do livre exercício da crítica. Ele começa também a ser tema de teses acadêmicas. Numa primeira fase, relacionando sua obra com o momento político do país. Mais recentemente, e sobretudo a partir de Budapeste, elas começam a se voltar para o trabalho de linguagem do escritor.

O novo romance, Leite Derramado, dá margem aos dois tipos de análise. Há pouco tempo, Chico Buarque comentava o que ele chamou de nova mania: a publicação de livros com genealogias de famílias tradicionais brasileiras. Ele se divertia um pouco com esse tipo de empreitada, pois lá pelas tantas sumiam uns nomes da árvore. Como se um galho tivesse sido arrancado. "As pessoas no Brasil pensam que são brancas, que eu sou branco", dizia. "Impossível imaginar uma família que esteja aqui desde o século 16 e não tenha se misturado com índios e pretos. Não tem como." O comentário — feito num dos 12 programas que ele gravou com Roberto de Oliveira, em 2007 — parece ter frutificado na cabeça do escritor. Ele procurou, em seu romance, dar conta dessa mania nacional de nobiliarquia, de bater orgulhoso no peito dizendo "sou descendente de barão".

O narrador de seu novo livro é um velho gagá, para lá de 100 anos, com fumos de nobreza, relatando, de um leito de hospital — não se sabe bem para quem, ora para uma enfermeira, ora para a filha, ora para uns sequestradores —, a esgarçada história de sua vida. Eulálio d'Assumpção — a se fiar no que ele narra ("lembrança de velho não é confiável", diz) — é daqueles que carregam, por toda parte, sua árvore genealógica na cabeça, com galhos por todos os lados. O trisavô teria desembarcado no Brasil com a corte portuguesa, o bisavô seria um tal "barão de Arcos", o avô, "um figurão do Império", o pai foi senador da República (íntimo de vários presidentes) e armeiro. A brincadeira de Chico Buarque, inventando uma família de filhos únicos, lembra o ditado "pai rico, filho nobre, neto pobre". No entanto, a decadência familiar desemboca no "comércio de entorpecentes". O Brasil vai pautando essas gerações, indo da corrupção dos antepassados (o pai que se utilizava do título de "senador" para abrir aqui uma filial de uma empresa francesa de armas) até a mixórdia do presente.

Há um humor desabusado que perpassa o livro inteiro. Um humor calcado numa espécie de supremacia de classe — ou melhor, de casta, pois Eulálio já está no fim da linha, já teve de morar no subúrbio, em casinhas pequenas, na velhice, levando apenas a cama e uma escrivaninha barroca como bens de família; a ascensão dos Assumpção agora vem por meio do novo descendente, que namora uma menina com piercing no umbigo e tem atividades ilegais — se for crível o que diz o vai-e-vem da memória do velho Eulálio. Chico Buarque procurou refazer assim uma história do Brasil vista por um sujeito da elite e já decadente, ainda obcecado pela mulher, retratada por ele apenas como objeto de um desejo físico. Aos poucos, vai emergindo como vítima do ciúme e dos próprios preconceitos. Ao ler o livro, é inevitável pensar no Machado de Assis de Dom Casmurro e de Memórias Póstumas de Brás Cubas — este último por conta do enredo em que aparentemente não acontece nada e nenhuma narrativa se estabelece como determinante. O diálogo eficiente com o maior escritor brasileiro dá a medida do triunfo literário que é este novo romance de Chico Buarque.


Heitor Ferraz

Há exatamente um ano, Caetano Veloso disse para Hermano Vianna que estava com vontade de fazer uma série de shows em que pudesse mostrar para a plateia composições novas, à medida que fossem sendo compostas. O antropólogo achou a ideia genial e sugeriu que Caetano tivesse um blog para mostrar a evolução dessas canções ao longo dos shows. O blog poderia hospedar os vídeos das músicas sendo executadas, para que não apenas os que estivessem presentes nos espetáculos pudessem ouvi-las. Caetano também poderia pedir sugestões sobre o material novo e postar textos que ajudassem o público a entrar na onda. Seria algo inédito, que nem artistas de gerações mais novas teriam tentado. Para sorte da música brasileira, a loucura saiu do papel. Virou a temporada Obra em Progresso, vencedora do último Prêmio Bravo! como grande espetáculo de música popular de 2008, gerou o blog obraemprogresso.com.br e desemboca este mês no álbum Zii e Zie, resumo do que foi essa aventura que mesclou palco com internet, mundo real com mundo digital.

"Fico impressionado com o tempo que ele dedica ao espaço, lendo e respondendo diretamente a qualquer pessoa que se manifeste. Poucos artistas têm essa disposição e esse interesse", afirma Hermano Vianna, que, além de filmar entrevistas com Caetano, sugerir tópicos e moderar os comentários dos frequentadores do blog, atuava publicando as mensagens que recebia do músico baiano. Mas o cantor, que tem 66 anos, logo aprendeu a mexer nas ferramentas do site e dispensou o auxílio do amigo para isso. Rapidamente também começou a diversificar os assuntos. Em vez de focar as músicas novas, passou a discutir política (respondeu a uma análise equivocada que Fidel Castro fez da música Base de Guantánamo, destaque de Zii e Zie), jornalismo cultural (rebateu as críticas dos jornais de São Paulo ao show em homenagem a Tom Jobim que dividiu com Roberto Carlos), reforma ortográfica (criticou linguistas e atraiu um enxame deles para a discussão) e até futebol (elogiou a humildade dos jogadores do time pelo qual torce, o Bahia, por eles terem "se recusado" a golear o time do Poções numa partida válida pelo Campeonato Baiano). "Eu, tendo um blog dedicado a esse disco, não ia deixar de fazer o que sempre fiz", disse Caetano em entrevista a BRAVO!. "Antigamente, comentava as críticas que recebia no palco do show. Era superengraçado. Mas o blog foi criado para acabar quando o disco saísse. E assim será. Pode virar outra coisa ou simplesmente sumir. Continuar sendo o boteco virtual onde a gente conversa e discute é que não vai."

Por enquanto são raros os dias em que o cantor não surge no espaço reservado aos comentários para falar com a turma assídua do obraemprogresso.com.br. Em princípio, os músicos que formam a banda Cê — que começaram a trabalhar com Caetano no álbum de mesmo nome e seguem com ele em Zii e Zie — também deveriam usar o blog para escrever sobre o processo de confecção do álbum. Mas isso nunca ocorreu. O baixista e tecladista Ricardo Dias Gomes, de 28 anos (o mais jovem da Cê), confessa que a timidez o impediu de postar no blog, mas diz acompanhar as discussões e admirar o diálogo que se estabeleceu ali. "O Caetano é um brasileiro que vive a história do país intensamente. Viu muitas coisas se transformarem, e sua memória apurada faz com que suas análises tenham relevância acima da média e despertem outras mentes pensantes, o que faz o blog seguir em frente", opina.

Completam o time musical de Caetano o baterista Marcelo Callado, de 29 anos, e o guitarrista Pedro Sá, de 34. Por ser íntimo de Moreno Veloso, filho mais velho de Caetano, Pedro frequentava a casa do baiano desde a adolescência. Não tardou muito até ser convidado para entrar na banda de Caetano. Hoje, o guitarrista é visto como um dos principais responsáveis pela guinada artística dada pelo cantor a partir do disco Eu não Peço Desculpa, de 2002, gravado em parceira com Jorge Mautner. Pedro Sá é fã de bandas americanas como Pavement e Pixies, expoentes do que se convencionou chamar de rock alternativo ou indie rock, estilo em que as guitarras ruidosas são muito valorizadas. Ele soube adicionar essas influências tanto em quanto no novo álbum, sem que isso soasse forçado ou desconectado das intenções de Caetano. "O Pedro faz o papel que o Lanny Gordin fazia nos anos 60", compara Kassin, músico da Orquestra Imperial e produtor de Eu não Peço Desculpa, citando o guitarrista símbolo da tropicália, responsável por injetar rock nas obras de Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e tantos outros.

"Caetano sempre teve como característica essa sede, essa antena em riste, uma relação libidinosa com as coisas que acontecem a todo instante no mundo", interpreta Jonas Sá, irmão de Pedro e dono da voz cavernosa que encerra o álbum. Apesar de reafirmar a boa fase, Zii e Zie talvez não receba a aprovação quase unânime de — que, mais do que um disco de rock, é um disco simples, sem grandes pretensões e povoado por letras concisas. O novo CD nasce de uma vontade que Caetano tinha de "tratar levadas de samba com timbre elétrico forte". Seriam os "transambas", sambas com DNA modificado, executados por músicos de rock, com guitarra no lugar do cavaquinho. Ou seja, é um disco, a priori, de caráter experimental, ainda que Tarado ni Você, Sem Cais, A Cor Amarela e outras faixas tenham estrutura de canção pop. "A nova abordagem de aspectos do samba é sempre em torno do óbvio, mas é radical", classifica Caetano. De qualquer forma, não resta dúvida de que ele fez mais um trabalho que vai brigar por vaga no top 10 de grandes álbuns de sua carreira.


José Flávio Júnior

O Livro
Leite Derramado, de Chico Buarque. Companhia das Letras, 200 págs., R$ 36.

O CD
Zii e Zie (Universal), de Caetano Veloso. Produtores: Moreno Veloso e Pedro Sá. Preço médio: R$ 30.

Leia também:
• "
Chega de Verdade" - A íntegra da entrevista que Caetano Veloso concedeu a BRAVO!

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publicado às 18:22


Miguel Esteves Cardoso

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.08

Gosta de peixe, de livros, de blogues e confessa que é um homem de excessos, embora esteja a fazer dieta. Miguel Esteves Cardoso acaba de publicar o livro “Em Portugal não se come mal” e é o convidado de Carlos Vaz Marques, ao fim da tarde, numa conversa em que não se fala só de comida.

Clik no link abaixo para ouvir a entrevista na TSF conduzida por Carlos Vaz Marques

http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=1022971

 

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publicado às 16:20


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