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#2545 - ALGUNS POEMAS DE PAUL CELAN

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

arte poetica paull celan004.jpg

 Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

 

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Quatro estações do ano e nenhuma quinta para se decidir por uma delas.

 

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Era tão grande o seu amor por ela que teria conseguido levantar a tampa do caixão - se a flor que ela aí colocou não fosse tão pesada.

 

POEMAS DE PAUL CELAN DO LIVRO ARTE POÉTICA - O MERIDIANO E OUTROS TEXTOS, PAGS. 23 E 24, EDIÇÕES COTOVIA, 1996.

ESTES POEMAS FORAM PUBLICADOS NO JORNAL DIE TAT, DE ZURIQUE, EM 12 DE MARÇO DE 1949.

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publicado às 15:43


#2013 - Carta de Paul Celan a Hans Bender (1960)

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.05.16

Paul Celan

 Hans Bender

 

 

Meu caro Hans Bender,

 

Agradeço-lhe a sua carta de 15 de Maio e o amável convite para colaborar na sua antologia Mein Gedicht ist mein Messer (O meu poema é a minha faca). (1)

 

Lembro-me de há tempos lhe ter dito que assim que o poema verdadeiramente está, o poeta volta a libertar-se da sua cumplicidade original. Hoje formularia esta opinião de maneira completamente diferente, ou então tentaria diferenciá-la; mas no fundo continuo a ter esta - velha - opinião. É claro que existe também o que hoje, tão fácil e despreocupadamente, se designa de ofício. Mas - permita-me esta redução do pensamento e da experiência - o ofício é, como a correcção em geral, condição de toda a poesia. Este ofício não se faz, com certeza, sobre um chão dourado. (2) - quem sabe até se ele assenta sobre algum chão. Tem os seus abismos e profundezas, e alguns - ah, mas eu não faço parte deles - Têm até um nome para isso.

 

Ofício - é coisa das mãos. E estas mãos, por outro lado, só pertencem a um indivíduo, isto é, a um único ser mortal que com a sua voz e o seu silêncio busca um caminho.

 

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema. E não nos venham com o "poieín" e coisas assim. Isso significava, juntamente com as suas proximidades e distâncias, sem dúvida qualquer coisa totalmente diferente do que no seu contexto actual.

 

Existem, com certeza, exercícios - no sentido espiritual, caro Hans Bender! E para além disso há também, a cada esquina lírica, toda a espécie de experiências com o chamado material verbal. Poemas são também oferendas - oferendas àqueles que são atentos. (3) Oferendas que transportam um destino.

 

"Como se fazem poemas?"

 

Há anos atrás pude, por algum tempo, ver e, mais tarde, a partir de uma certa distância, observar atentamente como o "fazer" se vai transformando, através da factura, em contra-facção. (4) Sim, isto também existe, como deve saber... Não acontece por acaso.

 

Vivemos sob  céus sombrios e...  existem poucos seres humanos. Talvez por isso existam também tão poucos poemas. As esperanças que ainda me restam não são grandes; tento conservar aquilo que me restou.

 

Com os melhores votos, para si e para o seu trabalho,

 

                                                                                                                   Paul Celan

                                                                                                                   Paris, 18 de Maio de 1960

 

(1) A antologia em questão, que inclui a carta de Paul Celan, é uma edição aumentada, em relação à primeira, de 1955, e foi publicada pela Editora List, de Munique, em 1961. A páginas 166 pode ler-se a seguinte nota do organizador: "Paul Celan autorizou a publicação desta sua carta pelo organizador da Antologia, com o desejo expresso de que "ela fosse tomada por aquilo que é: como uma carta dirigida a si, com a data do dia de hoje (18 de Maio de 1960)".

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(2) A frase só se compreende à luz de um antigo provérbio segundo o qual um bom ofício, uma vez aprendido, é sempre rentável. Nos Provérbios de Sebastian Franck (Franckfurt, 1560) ele é citado na versão atribuída ao humanista Johannes Agricola: "Um ofício tem um chão de ouro".

 

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(3) Cf. nota 21 a "O Meridiano".

 

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(4) O original explora um jogo de palavras que se procurou manter: a machen (o acto) / die Mache (o processo e o resultado) / Machenschaft (o fazer intriga, trama, manobra) corresponde "fazer" / "factura" / "contra-facção".

 

"Carta a Hans Bender" foi retirada do livro de Paul Celan "Arte Poética - O Meridiano e outros textos", editado em 1996 por Edições Cotovia

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publicado às 17:39


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