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#2500 - O DEUS NULO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.07.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)

 

Não o espero. Não chegarei jamais, nem estarei aqui, ele não falará. Desejaria dizer o seu infortúnio inominável, o seu silêncio impossível. Desejaria acolhê-lo na sua nudez, no seu silêncio. Espera-me decerto, na sua pobreza incomensurável, pobre deus mudo, sem abrigo, de uma infinita miséria. O que escrevo, o que escreverei será a oferenda para o encontro dele. Mas não haverá encontro se ele não respirar na inesperada transparência de uma linguagem branca. Nada poderei oferecer se as palavras não constituírem essa íntima aliança que é o mistério mesmo da linguagem.

 

Estou só e continuarei  a estar só, na árida  e ávida deambulação destas palavras sem caminho. Lancinante, a suspensão interminável. Aqui agora é nunca. Julguei que poderia estabelecer uma relação serena e confiante mas não ouviaind nenhum apelo. Estou dentro de um círculo calcinado.

 

Poema de António Ramos Rosa, do livro "Antologia Poética" com Prefácio, Bibliografia e Selecção de Ana Paula Coutinho Mendes - Edição Publicações Dom Quixote - Fevereiro de 2001

 

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Biografia                                                                                    

António Ramos Rosa (1924-2013)
 
António Victor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924. Frequentou em Faro os estudos secundários, que não concluiu por motivos de saúde. Trabalhou como empregado de escritório, desenvolvendo simultaneamente o gosto pela leitura dos principais escritores portugueses e estrangeiros, com especial preferência pelos poetas. Em 1945 vai para Lisboa e dois anos depois volta a Faro, tendo integrado as fileiras do M.U.D. Juvenil, onde militou activamente. Regressado a Lisboa, foi professor de Português, Francês e Inglês, ao mesmo tempo que estava empregado numa firma comercial, e começou a fazer traduções para a Europa-América, trabalho que nunca mais abandonaria e no qual veio a atingir notável qualidade.
 
O continuado interesse pela actividade literária levou-o a relacionar-se com um grupo de escritores que o incentivaram na publicação dos seus poemas e artigos de crítica, tendo colaborado em numerosos jornais e revistas. Com alguns desses escritores, fundou em 1951 a revista Árvore, que veio a ser uma das mais marcantes da década, procurando divulgar os textos dos poetas e prosadores portugueses mais significativos no tempo, bem como os grandes nomes da literatura estrangeira. Co-dirigiu também as revistas Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia.
 

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publicado às 10:54


#2322 - BLOCO INTACTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.04.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

BLOCO INTACTO

 

Abrindo a álea

vertical sobre o vértice do instante

sem frenesim mas denso de

todo o sangue que me enche no silêncio desta álea

caminho para ti

lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança

e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio

a permanente coroa branca efervescente branca

na tranquila anónima macia dourada suburbana álea

a seda deste instante não se rasga

é um grande bloco intacto que se desloca

para a minha eternidade

a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva

a parede de água que contenho a porta doce e clandestina

a porta que desliza

e é então que

no espaço da vertigem

em ti me uno à sede e das raízes subo

e pelas raízes sou

 

Poema de António Ramos Rosa do livro "Antologia Poética", com selecção, prefácio e bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes, edição Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2001

 

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publicado às 18:10


#2142 - FICÇÃO [1985]

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.01.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

O desejo do início e do silêncio

para que o instante seja a fábula do instante

O silêncio para dizer as palavras anteriores

É o centro talvez a suspensão a perda

o fundo: a ausência de cor

fundo incessante que procuro defender

do assédio do sentido contra

as presenças acidentais e a agitação da superfície

Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:

como transpor a parede circular

das coisas?

                          Lá fora a forma opaca

e provisória do ar as mesmas marcas

coloridas a distraída escrita

do acontecimento As pessoas passam

inscritas na janela com as casas e as árvores

e a árvore negra na curva, o céu oblíquo

Um olhar geral penetra-me e na ausência

de uma perspectiva já não sou

uma visão do mundo mas a subterrânea

corrente das intensidades do desejo

Aqui reina a imagem de um olho global

e é aqui que invento a metáfora da Figura.

 

POEMA DE ANTÓNIO RAMOS ROSA RETIRADO DO LIVRO "ANTOLOGIA POÉTICA" EDITADO EM 2001 POR PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE E CUJO PREFÁCIO, BIBLIOGRAFIA E SELECÇÃO É DE ANA PAULA COUTINHO MENDES

 

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publicado às 16:40


#2032 - A (I)LEGIBILIDADE DO LIVRO

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.05.16

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

O livro está aberto e há demasiada luz.

 

Tudo o que escreves está contido nesse livro de letras

brancas como a tua morte.

 

Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco

eternamente branco e silencioso?

 

Como conter a àvida necessidade de devorá-lo como se o

livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma

linguagem legível e luminosa?

 

Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso

de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável

possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não

lemos.

 

Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura

transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos

imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada

pela luz.

 

Poema de António Ramos Rosa in "Antologia Poética", Publicações Dom Quixote, edição de Fevereiro de 2001

 

 

 

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publicado às 18:10


#1969 - A miséria das palavras

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.04.16

 Jorge de Sena

 

A MISÉRIA DAS PALAVRAS

 

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,

na liberdade.

 

Se a miséria e a pobreza

fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,

a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,

viria a liberdade por acréscimo,

sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

 

Assim, apenas se fala do que se não fala,

apenas se vive do que não se vive,

apenas liberdade é uma miséria

sem nome, sem futuro, sem memória.

 

E a miséria é isso: não imaginar

o nome que transforma a ideia em coisa,

a coisa que transforma o ser em vida,

a vida que transforma a língua em algo mais

que o falar por falar.

 

Falem. Mas não comigo. E sobretudo

sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,

no silêncio que à linguagem faz

imaginar-se mais que o próprio mundo.

 

Poema de Jorge de Sena in "Antologia Poética" escrito em 5 de Agosto de 1962, edição Guimarães, Novembro de 2010

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publicado às 19:12


#1905 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.01.14

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publicado às 19:24


#1059 - Antologia reúne dois mil poemas em português

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.12.09

A Porto Editora lança este mês aquela que será a maior antologia de poesia portuguesa reunida num só volume.

 

A obra Poemas Portugueses, que será lançada pela Porto Editora em meados de Dezembro, vai reunir dois mil poemas portugueses de 267 autores.

 

Organizada por Rui Lage e Jorge Reis-Sá, esta será a maior antologia de poesia portuguesa jamais reunida num só volume. Os antologiadores consideram que o elemento de distinção da obra, relativamente às organizadas no passado, é o facto de ela ser "a primeira antologia panorâmica que abarca a poesia portuguesa desde os seus alvores, na transição do século XII para o século XIII até ao ano de 2008".

Tentar que a antologia seja o mais representativa possível, das "tendências, sensibilidades e créditos poéticos" foi uma das preocupações de Lage e Reis-Sá. A antologia está organizada "por ordem cronológica do nascimento de cada poeta", abrindo com a "Cantiga de Garvaia", de Pai Soares de Taveirós, trovador do primeiro decénio do século XIII, e fechando com um poema de Outubro de 2008, "Rasto", de Luís Quintais. O prefácio de Poemas Portugueses é de Vasco Graça Moura.

In "DN"

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publicado às 00:27


A Flor e a náusea

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.12.08

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

 

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

 

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

 

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

 

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ónibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

 

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

 

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

 

Poema de Carlos Drummonde de Andrade, do Livro "Antologia Poética" de 1962 e editado em Portugal em Dezembro de 2007 pela editora Relógio D'Água Editores

 

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publicado às 17:59


O Incerto Exacto

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.11.08

Uma felicidade nos dedos

um fluir cálido o sol

captado no repouso sobre a mesa

e escrito aqui um sol tão rápido


Nada se separa sob os dedos

ignorantes da divisão do vidro

E se o pássaro fica

sem o canto

não o sabem os dedos


Eles deslizam sobre a superfície

na absoluta densidade indesvendável 

 

Poema extraído do livro Antologia poética, de António Ramos Rosa, Publicações D. Quixote, 2001

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publicado às 00:17


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