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#930 - O Livro do Senhor Soares

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.07.09

Por Adelto Gonçalves (*)

 

BUONA NOTTE, SIGNOR SOARES (BOA NOITE, SENHOR SOARES), de Mário Cláudio, tradução para o italiano de Brunello de Cusatis. Perugia: Morlacchi Editore, 141 págs., 2009, 13 euros; Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008.
E-mail: editore@morlacchilibri.com
Site: morlacchilibri.com


I
Publicado em 2008 por Publicações Dom Quixote, de Lisboa, o romance "Boa noite, senhor Soares", o mais recente livro de Mário Cláudio (1941) – se bem que é temerário afirmar-se isto, pois o prolífico autor parece que está sempre a publicar uma nova obra –, acaba de ganhar tradução para o italiano pelo professor Brunello De Cusatis, responsável pela cátedra de Literaturas Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, na coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana da Morlacchi Editore, de Perugia, que já editou obras do angolano José Eduardo Agualusa (Frontiere perdute) e do brasileiro José Clemente Pozenato (Il caso del martello) e tem prevista a publicação de Il giorno in cui Paperino s´è fatto per la prima volta Paperina e altre storie, do português João Melo, e Racconti, do brasileiro Sérgio Faraco, todas em português e italiano.


Em Boa noite, senhor Soares, Mário Cláudio recria a sociedade lisboeta de 1931, por meio do heterônimo Bernardo Soares, de Fernando Pessoa (1888-1935), ajudante de guarda-livros e empregado de escritório na Rua dos Douradores, na Baixa de Lisboa. Como se sabe, o personagem seria o autor hipotético do Livro do Desassossego por Bernardo Soares, obra escrita de forma fragmentária por Pessoa entre 1913 e 1935, ou seja, durante quase toda a sua vida literária. Não há dúvida que este personagem, ou heterônimo, confunde-se com o seu criador, a ponto de não se saber onde começa a ficção e termina a vida pessoal.


A narrativa, porém, passa-se em torno de Antônio da Silva Felício, candidato a caixeiro-ajudante no armazém de tecidos da Rua dos Douradores, e do senhor Soares, figura apagada e fugidia que trabalha também como tradutor nesse mesmo armazém, a exemplo do que fazia profissionalmente Pessoa. A vida cinzenta, sem maiores lances de ousadia, de Felício permite ao leitor conhecer uma Lisboa bairrista e tradicional nos costumes, em que a mulher desempenhava um papel secundário na sociedade, representado no texto, de forma particularmente dura, pela irmã do narrador, que levava uma vida escrava de dona-de-casa, dividida entre tratar da filha, cuidar da sogra e ainda ter tempo para cozinhar e satisfazer o marido machista, que, provavelmente, preferia ficar a beber nas tascas com os amigos.
II
Ainda que o aproveitamento de heterônimos de Fernando Pessoa como personagens de romances não seja novidade, depois que José Saramago (1922) escreveu O ano da morte de Ricardo Reis (Lisboa, Editorial Caminho, 1984), ou mesmo do próprio poeta por autores menos talentosos, Mário Cláudio consegue manter o interesse do leitor com uma prosa fluida em que procura intuir, por meio da memória de Felício, o que teria sido o itinerário da vida de Soares.


“Ainda hoje o senhor Soares passa pela Rua Augusta, pela Rua da Prata, pela Rua dos Douradores, e pela Rua dos Fanqueiros, com as abas da gabardine desfraldadas ao vento que vem do Tejo. Ela roça o braço nos empregados do escritório, nas costureiras, nas secretárias, e nos moços de fretes, e um nó de angústia aperta-lhe a garganta, maravilhado e dorido por essa gente que transita (...). (p.74).


Com extrema habilidade para imitar o texto pessoano ou o estilo de Bernardo Soares, o autor dá vida ao armazém do patrão Vasques e do seu sócio capitalista, Alcino dos Santos Camacho, além resgatar outros personagens-funcionários como Borges, um faz-tudo na empresa, Moreira, o guarda-livros, José, Sérgio e Vieira, os caixeiros de praça, Antônio, o aprendiz de caixeiro, Tomé e Ernesto, os caixeiros-viajantes, Antônio, o moço de recados, e o gato Aladino, além, é claro, de Soares, o ajudante de guarda-livros e tradutor. Os demais personagens são integrantes da família de Felício, o aprendiz de caixeiro, que nunca fizeram parte do universo de Soares: Florinda, sua irmã, Gomes, o cunhado, Mimi, a sobrinha, a tia Celeste e Serafim, filho da tia Celeste que emigrara para o Brasil.


Por intermédio de Felício, o narrador, que funciona como ghost writer do antigo ajudante de caixeiro já no ocaso da vida, na década de 1980, trata de reatar os fios soltos de uma Lisboa que não existe mais, que vive apenas na memória do idoso, em suas lembranças mais caras, como aquela do dia em que completou dezoito anos em 1933 e, a convite de seus colegas de escritório, foi até ao Bairro Alto, onde todos jantaram numa taverna, perambularam por vielas e ruas estreitas até que desembocaram na Rua da Rosa, local em que o aniversariante teve a sua primeira experiência sexual, paga pelos amigos do escritório. Foi o seu inesquecível presente de aniversário, a uma época em que nem Sida (Aids) nem outras doenças venéreas assustavam tanto.


É uma cidade cinzenta, imersa no salazarismo em que o anacoreta de São Bento comandava da vida dos portugueses como se cuidasse de um teatrinho de títeres. Para os bem sucedidos na vida, porém, a vida não seria tão cinzenta: a filha de Camacho, o sócio capitalista, chega à maioridade e o ricaço que vivia num chalé de luxo na Brandoa convida todo o pessoal do armazém para uma festa em sua casa cujo ponto culminante é a entrega à rapariga de um “sobrescrito fechado” como cinqüenta contos de réis de prenda, uma dinheirama e tanto. Da festa, que marca o desnível social entre patrões e empregados, o pessoal do escritório fica apenas com uma fotografia em que ao fundo aparece a figura esquiva do senhor Soares com seus “olhitos piscos”.


Vivendo agora nas Galinheiras, um bairro degradado e meio esquecido na imensa Lisboa de hoje, o septuagenário Felício sabe que, apesar da vida fosca que levara, tivera a oportunidade de conviver diariamente com um homem que, meio século depois, transformar-se-ia em gênio da raça portuguesa, da estirpe de Luís de Camões (c.1524-1580), mas que em vida fora visto mais como um louco manso que andava nas nuvens e escrevia sem parar (e que, sem que quase ninguém soubesse, deitava as páginas um tanto a esmo numa arca).


Como não sabe escrever ou, no máximo, assinaria muito mal o nome, Felício começa a pensar num escritor que pudesse resgatar suas lembranças, antes que tivesse de entrar naquele túnel sem volta a que todo ser está condenado. Até que o encontra. E encontra um escriba disposto a escrever a sua história sem lhe cobrar um tostão pela tarefa, embora, por outro lado, não lhe garantisse maior veracidade ao que escrevesse na comparação com o que ouviria:


“(...) Eu utilizo palavras que o senhor é capaz de ignorar, recuso-me a aplicar umas quantas daquelas que o senhor usa, cometo umas elegâncias que alguns julgam excessivas, mas de que há quem goste, e acrescento por capricho vários posinhos ao que para certas pessoas mereceria um posinho só”. (...). (p.138).


Seja como for, ao septuagenário não há alternativa, a não ser confiar naquele que se propõe a ajudá-lo a resgatar do limbo de mais de cinqüenta anos aquelas lembranças fugazes, marcadas mais por gestos tímidos do que por palavras. Até porque o senhor Soares, figura fugaz, era homem de parcas palavras. A ponto de, no seu último dia no escritório do patrão Vasques, ao recolher seus pertences no cacifo e virar as costas em direção à porta da rua, foi com o senhor Soares, vindo na direção contrária, que se deparou. Abraçaram-se. E ouviu um murmúrio, quase um soluço, junto à orelha: “Até sempre, Antônio”. Em resposta, disse-lhe: “Boa noite, senhor Soares”.
III
Mário Cláudio (1941) faz parte de um seleto grupo de escritores portugueses – em número superior ao de brasileiros, apesar da diferença brutal entre o contingente populacional de cada país – que alcançaram projeção internacional, com livros traduzidos para o inglês, francês, alemão, húngaro, croata, checo e italiano.


Essa notoriedade, como assinala o professor Brunello de Cusatis na apresentação deste livro, teve início a partir das três biografias romanceadas que escreveu: uma do pintor futurista Amadeo de Souza-Cardoso (Amadeo, Lisboa:Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984), outra de uma violoncelista, Guilhermina Suggia (Guilhermina, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986), e a terceira de uma ceramista analfabeta, Rosa Ramalha (Rosa, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988), personalidades de destaque da cultura lusa nos meios cultos europeus. Outra figura ímpar da cultura portuguesa que teve sua biografia escrita por Mário Cláudio foi Camilo Castelo Branco (Camilo Broca, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2006).


Recuperado do espólio literário de Fernando Pessoa, que hoje faz parte do acervo da Biblioteca Nacional de Lisboa, pelas pesquisadoras Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha, o Livro do Desassossego por Bernardo Soares foi publicado pela editora Ática, em 1982, em dois volumes organizados por Jacinto do Prado Coelho. Em 1986, António Quadros deu outra organização ao livro, que saiu pela Europa-América.


Em 1991, Teresa Sobral Cunha preparou outra edição, que saiu pela editora Presença. No Brasil, em 1986, Leyla Perrone-Moisés organizou uma edição para a editora Brasiliense. E, em 1999, a Companhia das Letras publicou a edição preparada pelo tradutor de Pessoa para o inglês, Richard Zenith, que propôs outra organização para os fragmentos.
IV
Mário Cláudio, pseudônimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto, numa família da burguesia industrial de raízes irlandesas, castelhanas e francesas ligada à História da cidade nos últimos três séculos. No Porto, cursou o liceu e, em seguida, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, tendo depois se transferido para a Universidade de Coimbra, onde se graduou em 1966.


Assumiu a direção da Biblioteca Municipal de Vila Nova de Gaia, de onde saiu para freqüentar a Universidade de Londres, graduando-se como Master of Arts, em 1976, defendendo uma tese que seria parcialmente publicada com o título Para o Estudo do Analfabetismo e da Relutância à Leitura em Portugal (Porto: Brasília Editora, 1979), o único livro que assinou com o seu nome civil (Rui Barbot Costa). De regresso a Portugal, exerceu funções técnicas no Museu Nacional de Literatura. Em 1985, iniciou-se como professor na Escola Superior de Jornalismo do Porto e, atualmente, é professor convidado da Universidade Católica do Porto e da Fundação de Serralves.


Em 1969, publicou o seu primeiro livro de poesia, Ciclo de Cypris, em edição de autor financiada por seu pai, à época em que estava na Guiné participando da guerra colonial. Em 1972, publicou Sete Solstícios, também de poesia. Foi em 1974 que deu à estampa o seu primeiro romance, Um verão assim (Porto: Livraria Paisagem, 1974). Ao final da década de 70 e início dos anos 80, intensificou sua atividade literária, publicando dois romances – As máscaras de sábado (Lisboa: Assírio & Alvim, 1976) e Damascena (Lisboa: Contexto Editora, 1983) –, três livros de contos – Improviso para duas estrelas de papel (Porto, Edições Afrontamento, 1983), Das torres ao mar (Porto, Edições O Oiro do Dia, 1983) e Olga e Cláudio (Porto: Edições Afrontamento, 1984) – e três livros de poesia – A voz e as vozes (Porto, Editorial Inova, 1977), Estâncias (Porto: Brasília Editora, 1980) e Terra Sigillata (Lisboa, Edições & Etc., 1982), seguindo-se outro livro de poesia na década de 90, Dois equinócios (Porto: Campo das Letras, 1996).
De 1990 a 1997, Mário Cláudio publicou uma segunda trilogia de romances: A quinta das virtudes (Lisboa, Quetzal Editores, 1990; Tocata para dois clarins (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1992) e O pórtico da Glória (Lisboa: Publicações Dom Quixote,1997), onde a História volta a cruzar com a ficção, mas desta feita incorrendo na autobiografia familiar. Entre 2000 e 2004 publicou outra trilogia, composta por Ursamaior (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 200) Oríon (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2003) e Gêmeos (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004), e que é descrita pelo autor como relacionada com “situações de alguma marginalidade” e “discurso problemático com o poder”.


Ganhou o prêmio Associação Portuguesa de Escritores (APE) de Romance e Novela em 1984 com a obra Amadeo. É considerado um dos mais importantes autores portugueses das últimas duas décadas. Embora se tenha dedicado à poesia, ao teatro, à tradução e ao ensaio e estudos literários, tendo publicado no total pelo menos 58 livros, é no romance que Mário Cláudio mais se tem destacado. Em 2004, foi agraciado com o Prêmio Fernando Pessoa.

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br


Publicado na Revista "STORM MAGAZINE

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publicado às 18:38


Sobre Machado de Assis

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.10.08


No centenário da morte de Machado de Assis

Por Adelto Gonçalves(*)

 

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BONS DIAS!, de Machado de Assis. Introdução e notas de John Gledson. Campinas: Editora Unicamp, 320 págs., 2008, R$ 40,00.
COMENTÁRIOS DA SEMANA, de Machado de Assis. Organização, introdução e notas de Lúcia Granja e Jefferson Cano. Campinas: Editora Unicamp, 2008, R$ 28,00.
QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS, de Victor Hénaux. Tradução de Machado de Assis. Estabelecimento do texto de Ana Cláudia Suriani da Silva. Apresentação de Élide Valarini Oliver. Introdução crítico-filológica de Ana Cláudia Suriani da Silva e Eliane Fernanda Cunha Ferreira.Campinas: Editora Unicamp, 88 págs., 2008, R$ 26,00. Site: www.editora-unicamp.br

I
Um escritor que está para a literatura brasileira assim como Miguel de Cervantes (1547-1616) está para a literatura espanhola ou Léon Tolstói (1828-1910) para a russa – é assim que Machado de Assis (1839-1908) chega a 2008, ano do centenário de sua morte. Para associar-se a todas as homenagens que lhe têm sido feitas em todo o País, a Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está reeditando neste ano uma série de livros do maior romancista da literatura brasileira, em edições bem cuidadas e acompanhadas por estudos, introduções críticas e filológicas e notas explicativas que ajudam o leitor a compreender melhor a época em que viveu o escritor.
É o caso de Bons dias!, coletânea de 49 crônicas publicadas por Machado de Assis na Gazeta do Rio de Janeiro, de 5 de abril a 1888 a 19 de agosto de 1889, numa média de quase três por mês. Todas começavam com a saudação “Bons dias!” e acabavam na despedida que também funcionava como assinatura-pseudônimo (“Boas noites!”). Assinadas dessa maneira, essas divertidas crônicas não foram reconhecidas como de sua autoria até a década de 1950.
Na maioria, têm um fascínio especial no que diz respeito às opiniões políticas do autor. A série coincide com um momento importantíssimo na história do Brasil — a abolição da escravatura e as vésperas do fim do Império. Além da política da época, trazem para o leitor de hoje certos temas favoritos de Machado, como a medicina popular, os neologismos e o espiritismo (que sempre combateu).
A primeira e a segunda edição deste livro estão esgotadas há muito tempo; esta terceira, atualizada, traz melhoramentos nas notas e uma nova introdução especialmente preparada por John Gledson, professor aposentado de Estudos Brasileiros da Universidade de Liverpool (Inglaterra), um dos mais argutos e fecundos estudiosos da obra machadiana e autor de três livros sobre o escritor: Machado de Assis: ficção e história (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986; 2ªed.2003), Machado de Assis: impostura e realismo (São Paulo, Companhia das Letras, 1991) e Por um novo Machado de Assis (São Paulo, Companhia das Letras, 2006).
Como as crônicas são reações imediatas ao que ocorre na cena pública, à época da abolição da escravatura o cronista Machado de Assis não podia se furtar a comentar o que lia e via nas ruas: parecia entediado ao ver a grandiloqüência daqueles que se batiam pelo fim da escravatura. Não que fosse defensor daquele regime iníquo, mas, cético, sabia que não se podia esperar nada com entusiasmo excessivo porque a abolição seria apenas a simples passagem de um relacionamento econômico e social opressivo e aviltante para outro. De propriedade, o escravo passaria a alugado. Com a desvantagem de que, quando não mais precisassem de seus serviços porque idosos, os patrões poderiam descartá-los, mandando-os às ruas sem mais nem menos.
Pelas crônicas, percebe-se também que o neto de escravos alforriados não acreditava também naquela idéia de república que parecia empolgar os mais jovens e afoitos. Preferia, isso sim, a monarquia com todos os defeitos que tinha, mas que eram sabidos e conhecidos. “Seria fácil provar que o Brasil é mais uma oligarquia absoluta do que uma monarquia constitucional”, escrevia, como a avisar que a república nasceria da oligarquia e, portanto, a mudança de regime seria mais uma troca de tabuletas, como na famosa cena do romance Esaú e Jacó. Para piorar, a república nasceria de um golpe de estado, que haveria de inocular o vírus da anarquia nas forças armadas.
Mostrando que não era um profeta de fatos consumados – expressão que lhe era cara --, Machado de Assis sabia que os regimes republicanos ofereciam oportunidades sem conta a aventureiros de todas as espécies. Em menos de quatro anos, a ditadura do marechal Floriano Peixoto seria uma prova inequívoca de que seus piores sentimentos às vésperas da proclamação da república tinham mesmo razão de ser. Superada a balbúrdia nos quartéis, viria o federalismo, ou seja, o poder exacerbado das oligarquias provinciais, sobretudo, dos cafeicultores de São Paulo. Tudo o que Machado previra.
Como observa Gledson na introdução, a exumação destas crônicas é importante porque revela opiniões nunca expressadas por Machado com tanta clareza e coerência – pois nos contos e romances estão sempre disfarçadas por muita ironia e insinuações nem sempre fáceis de captar hoje, mais de um século depois.

II
Já Comentários da semana reúne crônicas escritas entre outubro de 1861 e maio de 1862 para o jornal de perfil liberal Diário do Rio de Janeiro, a uma época em que o autor andava ao redor dos 22 anos de idade e estava longe de indicar o futuro mestre que haveria de se tornar. A série reaparece depois de uma única publicação em livro já há muito esgotada (em Obras completas, da finada Editora Jackson, do Rio de Janeiro, em 1937) e, se já deixa transparecer um pouco da ironia mordaz e fina que o caracterizaria na maturidade, a verdade é que só foi recuperada por causa do interesse que desperta toda a obra de um escritor canonizado. Escritas com o fim imediato de publicação em jornal, com certeza, nunca teriam saído da poeira dos arquivos, se dependesse da vontade de seu autor. E, de fato, não trazem o encanto das crônicas reunidas em Bons dias!.
Usando o pseudônimo Gil, Machado de Assis escreveu nove destas crônicas em outubro, novembro e dezembro de 1861. Depois, passou a assinar os textos com suas iniciais (M.A.). Na maioria delas, a preocupação é com os fatos políticos do momento, que o cronista acompanha com malícia e isenção. “(...) a crítica é afiada e não poupa endereçamentos desagradáveis aos ministros e ao governo: fatalistas, indolentes, medíocres, vulgares. Um olho atento à realidade dos fatos, o outro a comentá-los com personalidade crítica, a conversa com o leitor faz-se aqui, além de afiada, perigosa”, observam na introdução Lúcia Granja, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, e Jefferson Cano, doutor em História também pela Unicamp.

III
Depois de ter dividido a crítica durante muito tempo quanto a sua classificação textual (ensaio satírico ou peça de teatro?), Queda que as mulheres têm para os tolos, do belga Victor Hénaux, em tradução de Machado de Assis, ganha uma edição extremamente bem cuidada e anotada, que serve para afastar de vez as dúvidas e informações equivocadas a seu respeito que, ainda, são encontradas em pesquisa na Internet. A última vez que saiu à luz foi no livro Crônicas, XXII (Rio de Janeiro, Editora Jackson, 1953, p.-163-181).
Como bem explicam na introdução crítico-filológica as professoras Ana Cláudia Suriani da Silva, doutora em Letras Modernas pela Universidade de Oxford, e Eliane Fernanda Cunha Ferreira (1958-2007), doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, este texto teve uma história bem controversa, desde que publicado pela primeira vez na revista carioca A Marmota, em edições de 19, 23, 26 e 30 de abril e 3 de maio de 1861, sem indicação de autor nem de que se tratava de uma tradução.
Foi o pesquisador francês Jean Michel Massa, autor de A juventude de Machado de Assis - 1839-1870 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971), tradução de Marco Aurélio de Moura Matos de sua tese de doutorado La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870): essai de bibliographie intellectuelle (Université de Poitiers, 1969, quem, ultimamente, sugeriu que Machado não era autor de Queda que as mulheres têm para os tolos, embora o livro publicado em 1861 pela Tipografia de F.Paula Brito, do Rio de Janeiro, deixasse claro na capa que se tratava de uma “traducção do snr. Machado de Assis”, sem se dignar a apontar o nome do autor. Era uma tradução de De l´amour des femmes pour les sots, de Victor Hénaux.
Em tese complementar, Machado de Assis traducteur, 2 vols., Université de Poitiers, 1970, o crítico francês foi além e comparou a tradução do escritor brasileiro com a quarta edição de Hénaux. Como o livro de Massa só agora foi publicado no Brasil – Machado de Assis, tradutor (Belo Horizonte, Editora Crisálida, 2008) em tradução de Oséias Silas Ferraz --, a crítica machadiana continuou ignorando olimpicamente a informação. Foi o que fizeram, por exemplo, estudiosos importantes da obra machadiana como Galante de Sousa, Lúcia Miguel Pereira e Afrânio Peixoto. E o erro se disseminou impunemente por artigos de jornais e revistas e em trabalhos acadêmicos e livros.

IV
Por desconhecimento, o texto foi considerado também peça de teatro, embora seja claramente um ensaio, como percebe quem lê apenas suas primeiras linhas. Não foi, porém, Massa quem primeiro insurgiu-se contra o equívoco. Já Amadeu Amaral em 1938, na revista Dom Casmurro, do Rio de Janeiro, já havia alertado para o fato de que o texto não era inédito nem de Machado de Assis, mas tradução. Mas, à época, poucos levaram consideração a advertência.
A ponto de Anita Novinsky em O olhar judaico em Machado de Assis (Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1990), José Raimundo Maia Neto em The Brazilian Phyrronian (West Lafayette/IN: Purdue University Press, 1994, e Ângela Canuto em Machado de Assis: memórias de um frasista (São Paulo: Lemos Editorial, 2002) considerarem Queda um texto original de Machado de Assis e o primeiro livro de sua carreira literária, como bem observaram as professoras Ana Cláudia e Eliane Fernanda na pesquisa que empreenderam.
Sem contar que Daniel Piza, no recente Machado de Assis: um gênio brasileiro (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2005), ainda assumiu uma postura hesitante, ao escrever que Queda é “provavelmente uma adaptação da obra do autor francês Victor Hénaux”. Na segunda edição do livro, de 2006, Piza corrigiu a informação, dando o texto como “uma adaptação (sem crédito) da obra do autor francês Victor Henaux”, mas continuou a chamar Henaux (sem acento) de francês, embora uma rápida pesquisa no Google tivesse sido suficiente para mostrar-lhe que o autor era belga.
Ana Cláudia e Eliane Fernanda trataram ainda de descobrir quem foi Hénaux, “um belga, jurista de profissão, que provavelmente atuava em Liège, dado serem todas as suas outras publicações relativas a essa cidade”. E levantaram que De l´amour teve repercussão na época de sua publicação na Bélgica, “uma vez que existem pelo menos quatro edições da obra, duas tendo sido publicadas num intervalo de apenas um ano”.
Para quem não conhece Queda, diga-se que se trata de um texto que defende a superioridade dos tolos sobre os intelectuais na conquista amorosa. Segundo Hénaux, os tolos saberiam aceitar tudo o que as mulheres desejam e elogiá-las, enquanto os homens de espírito acabariam por irritar as mulheres com suas elucubrações a respeito do amor. É um texto que não deixa de ser interessante, mas que teria permanecido para sempre esquecido, não tivesse tido a sorte de uma tradução de Machado de Assis.

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

 

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