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#2679 - Os Loucos da Rua Mazur

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

 

O mais recente Prémio Leya chega hoje às livrarias. Leia aqui o primeiro capítulo do novo romance de João Pinto Coelho.

Chega hoje às livrarias o mais recente Prémio Leya de Literatura, o romance Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho. O autor, que já tinha sido finalista deste prémio em 2014 com o livro Perguntem a Sarah Gross, regressa ao mesmo tema, o do holocausto e de uma das épocas do século XX mais dramáticas da história da humanidade. O cenário do romance é duplo, passando-se uma parte na atualidade e outra na Polónia, durante a II Guerra Mundial. Recorde-se que o júri presidido por Manuel Alegre escolheu este original entre 400 por ser "bem estruturado, bem escrito, que capta a atenção do leitor, quer pelo tema quer pela construção em tempos paralelos".

Para João Pinto Coelho, a edição que hoje chega aos leitores, menos de um mês depois de ter sido anunciado vencedor, só tem a ganhar por ser fruto do "reconhecimento que resulta da atribuição de um prémio literário com este prestígio, que acaba sempre por contribuir para a visibilidade do romance distinguido". Quanto ao futuro profissional passar pela atividade literária, Pinto Coelho não é por enquanto assim tão entusiasta: "No futuro imediato, não creio. É uma hipótese que poderei colocar, mas apenas quando tiver três ou quatro livros publicados."

Segundo o autor, este livro começou a ser pensado enquanto escrevia o anterior. Daí que admita que o cenário semelhante de ambos se deva à sua perceção sobre a necessidade de voltar a esta época: "Tive sempre a convicção de que havia coisas cruciais sobre a perseguição aos judeus naquele período que não constavam no meu primeiro romance. Além dos alemães, houve outros perpetradores; tem que ver com a universalidade do mal, e tinha de escrever sobre isso ou sobraria a sensação de uma história incompleta."

No que respeita à investigação, João Pinto Coelho voltou aos muitos livros que leu sobre o tema nos últimos trinta anos, não esquecendo os muitos contactos que estabeleceu com historiadores polacos ao longo de diversas visitas à Polónia. Questionado sobre se leu os livros dos seus antecessores premiados, aponta o de João Ricardo Pedro e o de Afonso Reis Cabral: "Dois romances magníficos."

 

Pré-publicação do primeiro capítulo de Os Loucos da Rua Mazur

Por João Pinto Coelho

 

PARIS, 2001

A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha. O tampo estava vago, apenas papéis dispersos, uma telefonia a pilhas e um rosto num passe-partout, o rosto de Fidelia.

 

Estavam juntos havia quatro anos e ele lembrava-se da apoteose dos primeiros tempos: descontando as raras e breves ocasiões em que a rapariga visitava a mãe, nunca acordara sozinho. Como qualquer velho, invejava a imaturidade e embriagava-se com a juventude da amante. E depois Fidelia lia-lhe a todas as horas do dia. Imprevisíveis, as palavras da jovem surgiam-lhe de lugares distintos, adocicadas pelo sotaque platense, dando voz à multidão de livros que o rodeavam desde sempre como um coro de mudos. Na verdade, sempre escolhera as mulheres pelos olhos que não tinha. Só deixava que o aceitassem como amante se lhe prometessem maratonas de leitura. Nunca se despedira de nenhuma com um livro a meio e só por uma vez deixara que o convencessem na hora de escolher o que ler. Fora Azurine, uma argelina de meia-idade, cuja paixão obcecada por Zola lhe adiara Lolita pela semana que levara a terminar Germinal - um ultraje! Houvera ainda Apolline, Doriane e Madalena. Apolline, a primeira, que se punha a arder quando o romance aquecia e o fizera devolver os Henry Miller que tinha na livraria; Doriane, a atriz, que invadia a imaginação do livreiro, arquejando como Desdémona às mãos de Otelo ou rindo-se da morte como a Bovary - outro ultraje, «os grandes livros dispensam essas coisas», dissera-lhe ele tantas vezes; e Madalena, filha de um português e de... Apolline, que, trinta anos depois, aquecia o lugar que fora da mãe, embora com mais equilíbrio entre as páginas e os lençóis. É claro que a vida dele não fora só romances, também a abrira a contos lidos numa noite, literatura de cordel que esquecia sem desgosto. Nunca cuidara das razões daquelas mulheres, porque o procuravam, porque se deixavam ficar. Talvez preferissem não ser vistas ao acordar, talvez adorassem ouvir-se com a voz dos livros.

Gostava de França e morreria em Paris. Resumia a sua vida todos os dias, mas não incluía os anos de juventude nem a tragédia que o fizera fugir. Preferia lembrar o recomeço, a chegada a Génova, o sopro dos freios do comboio. Contara cada segundo de silêncio após a abertura das portas e fora o primeiro a apear-se. O impacto dos sapatos no empedrado soara-lhe como tiros no cais vazio. Era só mais um judeu a escapar das cinzas. Atrás de si, outros trezentos de olhos relutantes, uma tapeçaria de caras estendida à porta de cada vagão. Nesse momento ouvira a campainha e voltara a contar os segundos. Mas nem então os gritos irromperam, só o som dos que saltavam da carruagem, os passos renitentes, a roupa a raspar na roupa, as tosses dispersas a lembrar que a carga era humana. Sentira um encontrão e agarrara a mala azul com mais força. Lá dentro, papéis escritos que, dobrados, lhe caberiam na algibeira. Mas ele queria uma mala, com as mãos vazias pareceria um indigente, já bastava sê-lo. Não vira os companheiros curvados e cinzentos olhando em redor como se esperassem lobos. A chegada dos carabinieri tivera um efeito caótico, todos se espremeram uns contra os outros. Afinal era só para os levarem para a sala ao lado, uma espécie de refeitório inventado à pressa onde as cozinheiras pareciam enfermeiras. O ar devia vir todo das panelas, transpirado e temperado como sopa quente, e eles na fila a mastigar o cheiro com vergonha da bondade das mulheres.

Passara um mês e alguém o procurara no centro de acolhimento. Ao vê-lo, o homem apressara o passo idoso, chamara-o pelo nome, prometera tirá-lo dali, levá-lo para França e ensinar-lhe a língua pelas palavras dos mestres. Só então celebraram a dor do reencontro com um abraço que durou doze anos. Quando o homem morreu, ele partiu de Marselha, levando consigo a mala azul e dinheiro para comprar uma livraria em Paris.

Durante anos, ignorara a erosão do tempo, mas agora os dias repetiam-se cada vez mais iguais. Ultimamente os livros já não eram terminados e as visitas de Fidelia à mãe tornavam-se mais frequentes e prolongadas. O livreiro valia-se então das trivialidades que restavam, o que é natural quando a vida e o homem se vão despedindo por mútuo consentimento. Jerôme, o do café, continuava a aparecer às seis da tarde com a garrafa de pastis e dois copos na algibeira do avental. Bebiam durante os vinte minutos cumpridos à risca, quantas vezes sem palavras para trocar, até Jerôme sair para fumar no passeio e fechar o café.

Ele, que pensava muitas vezes nestas coisas, conformou-se por estar ali a um domingo, sentado à escrivaninha. Deu por si a tatear o rosto emoldurado da amante. Lembrou-se do dia em que a conhecera, mas já não do que sentira, e conformou-se outra vez.

Endireitou o retrato de Fidelia como se o pudesse ver.

Aquele era o único dia da semana em que a livraria encerrava ao público, mas nem isso o mantivera em casa. Na verdade, nos últimos meses, não se lembrava de ter passado um só domingo sem ser ali, exatamente ali, no recesso mais escuro da loja. Fidelia chegava cada vez mais tarde nas noites de sábado e passava o dia na cama, agoniada. Talvez fosse prudente resguardar a mãe de tais noitadas, sugerira ele um dia, mas arrependera-se de a ter provocado e prometera continuar cego.

Derrubou o retrato de Fidelia como se não o pudesse ver.

Então decidiu ouvir música. Com gestos pouco firmes, alcançou o rádio que servia de pisa-papéis e ligou-o. O som era fraco, de um acordeão, mas distinguiu perfeitamente o dedilhar de um contrabaixo no meio da estática. A amargura da música era quase festiva, e ele deixou-se contagiar e cantou baixinho, parecia um rumorejo, como se respondesse aos instrumentos com coisas que não deveriam ser escutadas. A meio da terceira canção, soaram duas pancadas na vidraça. Não poderia ser Fidelia, já que, mesmo ressuscitada, nunca apareceria na loja a um domingo. Por isso ignorou a visita e retomou o diálogo. Mais pancadas, impacientes. Ergueu instintivamente o rosto e continuou impassível. A seguir, nada, apenas a música a extinguir-se para dar voz ao locutor. Porém, uma hora depois, ouviu o barulho apressado de duas voltas de chave e soube que o fim da manhã estava condenado. As desculpas castelhanas de Fidelia irromperam pela livraria, mais o som de uma carteira atirada com força para trás do balcão.

Obviamente não vinha só, ele distinguiu outros passos, passos de homem.

- Perdóneme - desculpou-se Fidelia, afogueada. - Vim a pé. Espere um pouco, ele deve estar no fundo da loja.

O visitante olhava para todo o lado, parecia nem dar por ela, enquanto o livreiro esperava que a amante se aproximasse.

- Despacha-te - sussurrou a rapariga. - Ele telefonou-te, tinhas acabado de sair. Quer falar contigo, mexe-te, diz que é importante.

O cego levantou-se devagar sem desligar o rádio.

Caminhando à sua frente, Fidelia começava finalmente a despertar:

- Tirou-me da cama, cabrón, já sabia que não lhe abrias a porta. - Quando chegaram ao vestíbulo, Fidelia forçou um sorriso. - O meu marido.

O livreiro, que não era marido dela, estendeu a mão, indiferente à localização do outro. O visitante deu três passos em frente e apertou-lha quase de raspão.

Nenhum disse nada.

- Sentem-se - disse Fidelia, apontando ao desconhecido umas cadeiras ao lado do balcão. E eles sentaram-se. Nesse momento o visitante fez sinal à rapariga para que se aproximasse e segredou-lhe qualquer coisa. - Ah, sim? Não calcula o favor que me faz. Passe bem! - declarou ela, antes de beijar o amante na cabeça, agarrar a carteira e esbofetear aquilo tudo com a porta da rua, deixando os dois sozinhos na livraria.

O homem observou minuciosamente o dono da loja, antes de falar:

- Continuas bonito. - Um silêncio prolongado. - Velho, mas bonito.

O livreiro apontou o olhar cego ao rosto do desconhecido, falhando por um palmo.

Como ninguém subira o estore da montra, estava escuro. Meia dúzia de nesgas paralelas da rua adormecida, seis lâminas de luz a trespassarem o pó da livraria como páginas de memórias em suspensão; não fosse o som metálico do rádio a pilhas, um mero retrato a sépia com dois velhos. Até que o visitante tornou a falar:

- Sim, sempre bonito.

A expressão vaga do dono da loja deixou de procurar o rosto do outro e isso fê-lo parecer ainda mais cego.

O desconhecido sorriu, continuando a percorrer sem pressa a figura gasta que tinha à frente.

- Não foi fácil encontrar-te. Sempre soubeste mover-te no escuro.

- Os mortos não voltam - disse o livreiro, como se não o tivesse ouvido. As cadeiras encontravam-se frente a frente, acareadoras, e rangiam como os anos que carregavam. - O que é que queres de mim, Eryk?

Eryk, que ainda não estava preparado para responder, foi à procura de tempo:

- A última vez que ouvi falar de ti vivias na Provença, estava tudo ainda fresco. Não contava dar contigo em Paris... - interrompeu-se, olhando em volta - enterrado numa livraria; casado com uma espanhola que tem idade para ser tua neta.

- Argentina. Fidelia é argentina. E não estamos casados, não acredites em tudo o que vês. Deitamo-nos juntos, é verdade, mas é só para que me leia na cama.

- Não me vais perguntar o que é feito de mim?

- O que há a perguntar sobre Paul Lestrange? Escreves livros, normalmente livros soberbos, e és cidadão belga certamente porque te envergonhaste de ser polaco. Sei que te fartaste de Paris e foste viver para Bruxelas onde és tão conhecido como aquele menino que faz chichi. E, mesmo assim, andei a ler-te às cegas durante vinte anos. As mulheres da minha vida não ligam às badanas, é a melhor explicação. Só percebi quem estava por detrás do pseudónimo por causa dos comentários de um cliente. Mas a culpa é minha, como é que não te descobri naquela escrita? Estava lá tudo, merde! De resto, sem surpresas, já sabia que podias dar em escritor. Também não estranhava se te descobrisse no metro com as calças mijadas a vender rimas, até calhava melhor com o teu feitio. Tornaste-te perseverante com os anos, é natural. E agora? Que queres de mim?

Eryk desviou o olhar do amigo e fixou-o na primeira coisa que encontrou, uma banqueta, não era importante.

- Não nos resta muito tempo, tu sabes.

- Estou velho - rosnou o cego. - Só preciso do tempo que já vivi.

- Perfeito. É desse que ando à procura.

- Vieste ao lugar errado.

- Raios te partam, Yankel... - disse Eryk, como se o afagasse. - Tens coisas que me pertencem.

- Falas das sombras, Eryk? Os anos gastam-nas, não sobra nada.

- Mentes! - exasperou-se o visitante. - Mentes como um canalha! - Ergueu-se num impulso e amaldiçoou-se por perder a compostura, era cedo para isso; voltou a sentar-se.

O olhar vazio de Yankel expandiu-se num sorriso, o primeiro do dia. Levantou as mãos à altura da cabeça e mostrou a Eryk um esgar de epifania:

- Cáspite! Eryk, vindo dos mortos, rasga as vestes como o seu Yeshua1 para reclamar do amigo de infância o seu quinhão de verdade. - Com a mesma espontaneidade, perdeu o sorriso. - Vai-te embora, Eryk. Vamos acreditar que este dia foi um lapso na ordem natural das coisas. Acontece.

O visitante abanou a cabeça, não estava pronto para desistir. De qualquer maneira, sempre soubera que não iria ser fácil, caso contrário já o teria feito muito antes. Afinal, aquele era o encontro que protelava havia tantos anos. Mesmo sem nunca o ter confrontado, conhecia as mágoas de Yankel uma por uma.

- Nunca pensaste em procurar-me? - perguntou ao livreiro.

- Que interessa o que pensei? No fim, só conta aquilo que fazemos - concluiu Yankel. - Acaba com isto, Eryk, diz de uma vez por todas o que te trouxe aqui.

Eryk soube que era a altura certa:

- Um livro.

O cego hesitou um momento antes de ripostar:

- Normalmente é o que me pede quem entra por essa porta.

- Este está por escrever.

Como Yankel sentiu uma aragem de desconfiança, levantou-se tateando os obstáculos até chegar ao balcão. Apoiou os braços cruzados no tampo de madeira e esperou pelo outro. Não quis mostrar pressa.

Agora de costas para o livreiro, Eryk falou:

Vim a pé do Hotel Crillon, é um pulo. E mesmo assim demorei duas horas. Parei cinco vezes à procura de um quarto de banho. Cinco vezes, Yankel. E nem sequer consegui mijar. Cada dia é pior do que o anterior, isto está a acabar. - Ao dizê-lo, foi ter com Yankel. Deixou-se ficar imóvel e tão perto dele que não precisou de mais do que um sussurro para dizer porque estava ali. - Passei a vida a inventar livros, e em cada um ensaiei o único que queria escrever. É agora, já não posso esperar mais. Mas preciso de ti, não sou capaz de fazer isto sozinho.

Yankel rechaçava cada uma das conclusões que aquele discurso disparava sobre si. Sabia o que Eryk queria, mas havia muito que calara o passado. Ninguém o faria regressar, nem mesmo ele. Por isso, afastou-se do balcão e dirigiu-se para a saída.

- Não sabes o que me pedes - disse, abrindo a porta da rua.

Eryk aproximou-se e parou no vão escancarado sem olhar para o livreiro. Só então deu um passo em frente. Já lá fora, declarou:

- Eu volto. No próximo domingo.

 

 

Artigo escrito por João Céu e Silva para o  DN - Diário de Notícias

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publicado às 22:31



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