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#2677 - RUA DE ROMA

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.17

 

RUA DE ROMA

 

Quero uma rua de Roma

com seus rubros    com seus ocres

com essa igreja barroca

essa fonte    esse quiosque

aquele pátio na sombra

ao longe a luz de um zimbório

mais o cimo dessa torre

que não tem raiz no solo

Em troca darei Moscovo

Oslo    Tóquio    Banguecoque

Fugaz e secreta à força

de se mostrar rumorosa

só essa rua de Roma

em cada nervo me toca

Por isso a quero assim toda

opulenta de tão pobre

com o voo desta poma

o ribombar desta moto

com este bar de mau gosto

em cuja esplanada tomo

este espresso após o almoço

à tarde um campari soda

Em troca darei Lisboa

Londres    Rio    Nova Iorque

toda a prata    todo o ouro

que não tenho em nenhum cofre

só no cotão do meu bolso

e no que a pátria me explora

Quero essa rua de Roma

Aqui onde estou sufoco

Aqui as manhãs irrompem

de noites que nunca morrem

Quero esse musgo    essa fonte

essas folhas que se movem

sob o sopro do siroco

ora tépido ora tórrido

frente à igreja barroca

tão apagada por fora

mas que do altar ao coro

por dentro aparece enorme

Quero essa rua de Roma

casta    rugosa    remota

Em troca darei as lobas

que  não aleitaram Rómulo

mas me deixaram na boca

o travo do transitório

Quero essa rua de Roma

sem conhecer quem lá mora

além da madonna loura

misto de corça e de cobra

que ao longo de tantas noites

tanta insónia me provoca

Quanto às restantes pessoas

inventarei como sofrem

Quero essa rua de Roma

Terá de ser sem demora

Sabemos lá quando rondam

abutres à nossa roda

Mas não me lembro do nome

da rua que assim evoco

soberba se bem que tosca

direita se bem que torta

com um Sol que tanto a doura

como a seguir a devora

Em troca darei o troco

do que por nada se troca

o florescer de uma bomba

o deflagrar de uma rosa

Quero essa rua de Roma

Amanhã    Ontem    Agora

Que importa saber-lhe o nome

se a trago dentro dos olhos

Há uma igual em Verona

Outra ainda mais a norte

Outra talvez nem tão longe

num burgo que o mundo ignora

Outra que apenas se encontra

onde a paixão a descobre

Mas rua sempre de Roma

Romana em todo o seu porte

mistura de alma e de corpo

aquém    além    do ilusório

Romana mesmo que em Roma

não haja que a recorde

Onde quer que o sexo a sonhe

e o coração a coloque

é lá que todo sou todo

Aqui não    Aqui não posso

 

POEMA DE DAVID  MOURÃO-FERREIRA

 

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publicado às 18:51



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