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#2663 - Sucedem-se os Dias

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.17

SUCEDEM-SE OS DIAS

 

A poesia é de facto um animal

difícil de domesticar. Há as palavras,

as tardes de sol nas esplanadas dos cafés,

as manhãs brumosas junto ao mar. Os cavalos

galopam na planície, mudam de direcção

bruscamente. Aonde irão? Mudou

de cor o céu. Ainda azul, mas baço agora.

O maço de cigarros em cima da mesa,

os estudantes loiros que tomam café,

as raparigas que com os dentes e os lábios

tentam seduzir os nossos destinos incertos.

Para onde nos leva o tempo? E o desejo?

De madrugada acordei, assustou-me a solidão.

Tanto silêncio na noite que parece misteriosa.

Sucedem-se os dias da nossa  morte lenta.

Quem quer saber de nós? E nós,

de quem queremos saber, sinceramente?

A linguagem desenvolve em nós a ilusão

de entender o mundo e o que nos acontece.

É como ir pelos carris do comboio,

de qualquer comboio para não se sabe onde.

Vamos indo e acreditamos que uma noite

havemos de chegar ao destino. Para quê

querer ou pedir mais? Duas da tarde.

Vieram três pessoas sentar-se à minha mesa

do café. Hello, Bob, how are you doing?

O António Nobre não teria resistido

ao rosto angélico, ao olhar virginal

da rapariga que se sentou connosco a tomar

café. Que espera ela da vida, que

pensa do futuro? Que fantasias 

ou sonhos graves atormentam

o seu espírito aparentemente

tão sereno? Vive numa casa

perto do mar, é estudante. Se eu

fosse andando? Mas não me apetece.

Poesia, deixa-me ir assinalando o percurso

da intranquilidade. A minha biografia

é igual à de toda a gente, não tenho

vida privada nem sei o que isso é.

Isolando-me, preservo da corrupção o

interior.  Alimento a necessidade de

me sentir original e diferente adoptando

certa maneira de falar. Tudo o que

escrevo é autobiográfico, evidentemente.

É o que me têm sugerido, com o ar de

acusar-me. Confessional, pouco artístico.

Queriam-me solene, conformado,

obediente? Sabem mais da minha

vida do que eu, vêem-me por todo

o lado nos meus poemas. E sou apenas

o sonho de um outro, o meu e o

deles, ficção e histórias que se contam.

Escrevo porque não existo. Lugar-comum,

retórica conhecida. Questão de perspectiva.

A linguagem permite todos os abusos e a

verdade nunca existiu. Só a poesia.

De que derrotas se fez a nossa vitória

sobre o vazio que nos estava prometido?

Ir-se construíndo dia a dia, operariamente.

Abelhas modestas, vivendo na obsessão do

mel que depois nos roubam. Por que tosses,

rapariga que lês o jornal? A montanha

ao fundo, a brisa que vem do mar. Passa

o inefável sem cessar diante dos nossos

olhos, escondido na banalidade do destino.

Uma existência divina, quem pudera. De

calções, sentado na esplanada do café,

parece que nunca saí do mesmo sítio. Por

favor, rapariga, fecha um pouco o ângulo

das pernas, começam a perturbar-me as tuas

calcinhas azuis. Um pardal poisa na mesa,

depois voa de novo. Vou-me

embora também, pousar noutro lugar.

 

Poema de João Camilo

 

 

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publicado às 21:30



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