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#2661 - CAIR DO PANO

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.11.17

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 RUI KNOPFLI (INHAMBANE, 1932 | LISBOA, 1998)

 

CAIR DO PANO

 

As acácias já se incendiaram de vermelho

e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante

a manhã de Dezembro. A terra exala,

em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.

Ao longe, no extremo distante da caixa

 

de areia, o monhé das cobras enrola

a esteira e leva o cesto à cabeça,

cumprido o papel exacto que lhe coube

e executou com paciente sageza hindu.

Dura um instante no trémulo contraluz

 

do lume a que se acolhe, antes da sombra

derradeira. Assim, os comparsas convocados

para esta comédia a abandonam, verso

a verso, consignando-a ao olvido

e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

 

irremediavelmente. O encenador faz

a vénia da praxe e, porque aplausos

lhe não são devidos, esgueira-se pelo

anonimato da esquerda alta. É Dezembro

a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

 

Poema de Rui Knopfli incluído no livro O Monhé das Cobras, publicado em 1997, pela 

Editorial Caminho.

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publicado às 20:58



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