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#2635 - Tu, Lisboa. Você, Lisboa. Senhora Dona Lisboa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 Antonio Tabucchi (1943-2012)

 

"No que se refere a formas de tratamento, meu caro Cardoso Pires, a tua bela língua possui um número considerável delas, para desconcerto do turista optimista que aterra no aeroporto de Lisboa munido do tranquilizador | Speak Portuguese, e para pânico do aprendiz cheio de boa vontade que tenha feito o curso linguafone  O Português em 4 Semanas.

 

Um número tão considerável que - assegurava o linguista Luis Lindley Cintra, teu companheiro de oposição àquele Salazar que parecia imortal (e que, em tempo de bocas e canetas amordaçadas, tu imortalizaste deveras, tornando-o o fóssil protagonista da tua "fábula" Dinossauro Excelentíssimo) - não deixa a tua língua ficar atrás de nenhuma outra na Europa, parecendo que, no mundo, só o fica do japonês. Bem pode dizê-lo uma  pessoa como eu que um dia, com a arrogância aprendida no manual de gramática e convencido que o Você (que na minha língua é o Lei) servia para todas as ocasiões, afrontou candidamente a infinita babel hierárquica das formas de tratamento que o português prevê. E aconteceu-lhe ouvir um miúdo da rua que, a jogar à bola no adro de uma igreja de Alfama, reagiu deste modo para com o seu companheiro de jogo demasiado individualista: "Você devia ter-me passado a bola, seu palerma!" * Ou aconteceu-lhe escutar, numa educadíssima discussão conjugal de um casal pequeno-burguês, a seguinte pérola linguística pronunciada pelo marido empertigado: "A menina tenha paciência, mas não estou de acordo consigo". * Ou ainda uma senhora de certo tom que, chamada apenas "Dona Josefa"  e não "Senhora Dona Josefa" como a sua classe exigia, considerou o pobre visitante estrangeiro um verdadeiro troglodita.

 

Isto para não falar de quando nas formas de tratamento, para complicar as coisas, se insinua o sub-reptício diminutivo, de uso muito frequente e com as nuances mais insuspeitáveis que podem significar ternura, familiaridade, confidência, mas também, em certos casos, inferioridade hierárquica e atenções servis para com o superior. Eis uma frase pronunciada durante a não remota guerra de África entre Portugal e as suas "Províncias Ultramarinas" Angola e Moçambique. Contou-ma o antropólogo e escritor José Cutileiro, alto funcionário da União Europeia em Bruxelas, onde certamente é confortado pelo uso de "Vous" da Revolução Francesa e pelo "You" dos pragmáticos albiões. A personagem era neste caso um cabo,e  o destinatário era neste caso um cabo, e o destinatário o oficial da companhia: "Meu capitão, a metralhadorazinha

está prontinha". * E o capitão, graças àqueles diminutivos, percebeu imediatamente que podia contar em absoluto com aquele cabo:  ele estava completamente ao seu serviço.

 

Vá-se lá saber como se safou o snobíssimo Beckford, refugiado na Lusitânia a chular a aristocracia portuguesa da época (à qual, aliás, reservou um desprezo arrogante, como revela o seu diário), que de certeza com o seu insuficiente "You" deve ter cometido gaffes vergonhosas. Dá-me mais prazer em Fielding, a quem aconteceu passar por Lisboa e lá morrer (repousando agora no Cemitério Monumental), e cuja ironia atenta às matizes linguísticas das classes sociais o guiou provavelmente no labirinto das formas de tratamento.

 

Formas de tratamento, Lisboa. Como bem sabes, meu caro José (aliás recorda-lo afectuosamente neste Livro de Bordo), também eu deambulei pela ponte da nau "Lisboa": não só com os pés, mas sobretudo com os passos da fantasia, das impressões, das sensações e das recordações. Aquele meu percurso bastante ilógico, que preferi chamar "uma alucinação", tornou-se um livro intitulado Requiem, que escrevi na tua língua. Não tanto por capricho, mas porque, para falar de Lisboa (e para a viver), o português impôs-se. Talvez isso tenha sido a minha maneira de lhe prestar homenagem. E no entanto não tive a coragem de a interpelar, de encontrar uma das muitas formas de tratamento para dizer: Lisboa. Eu, toscano da minha Toscana marítima, que me apaixonei por ela quando era jovem e ela uma senhora de certa idade, aprendendo com  esforço os sons por vezes roucos e por vezes de sereia que tão bem descreves neste teu livro, não sabia de que maneira devia  dirigir-me a ela. Excelentíssima Senhora Dona Lisboa? Querida Dona Lisboa? Minha Amiga Lisboa? E que pronome  pessoal usar? No embaraço da escolha, desisti.

 

Mas tu tratas Lisboa por tu, e podes bem fazê-lo. É a tua companheira. E como uma abelha visitas o seu cálice. E é por isso que a sua flor continua a florir através dos séculos na literatura portuguesa: porque há escritores e artistas como tu, que não se lembram dela apenas quando está na mó de cima, mas também nos momentos mais obscuros da sua existência, que tu atravessaste com ela.

 

Seco, sonoro como o estalido de uma vela, assim é o estilo deste teu livro de bordo, bem longe daquela escrita colorida que, revestindo de roupa reciclada um certo "realismo mágico" de boa memória, procura o sucesso fácil descrevendo Portugal como um país sul-americano da operetta, graças ao "pitoresco" que tanto agrada no estrangeiro (Portugal is different).

 

E agora fazes levantar âncora à "tua" Lisboa como um veleiro do qual és ao mesmo tempo piloto e escrivão de bordo. Porque é verdade que a tua cidade, "pousada no Tejo como uma cidade que navega", em outros tempos fez-se ao mar e penetrou nos oceanos, à aventura. E contornou Áfricas, visitou Índias e Malacas, descobriu Brasis. Em suma, "por mares nunca dantes navegados", como diz Camões, levou a Europa ao mundo e o mundo à Europa.

 

Mas nesta Lisboa também eu quero embarcar, mesmo que seja com uma tarefa humilde que no entanto me agrada: a de grumete a polir os latões.

 

Se não te importas, vou pois subir contigo para este veleiro que aparentemente está ancorado, mas que todavia viaja, viaja.

 

Texto de Antonio Tabucchi traduzido por M.C.Loureiro. Este texto foi escrito como prefácio às edições italiana e alemã do livro de José Cardoso Pires intitulado Lisboa, Livro de Bordo.

Este texto foi publicado na Revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, número cinco-Inverno 1997, páginas 3, 4 e 5.

 

 

 

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publicado às 21:54



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