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#909 - MIa Couto

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.07.09


“Tenho habilidade para ficar calado”

Mia Couto, pseudónimo de António Emílio – assim rebaptizado por um irmão menor incapaz de lhe reproduzir o nome próprio – terminou ontem em Lisboa uma digressão exaustiva para promover o novo romance, ‘Jesusalém’, onde tudo e todos também são rebaptizados.



"Este é um livro sobre a impossibilidade de viver um sonho por alternativa à realidade. Estas personagens fogem do seu passado para acabar perseguidas por ele, o que as impede de recomeçar. Mais do que fazer as pazes com a vida, trata-se de cortar com o passado e recomeçar em absoluto. Como se fosse possível apagar tudo e tudo recriar. Como um deus", explica.

Ao contrário da história e das personagens de ‘Jesusalém’, Mia, 54 anos, natural da Beira (Moçambique), tem uma relação privilegiada com os dias passados.

"Tive uma infância mágica, sem medos nem restrições, que me deixou, por um lado, a ilusão de que o espaço era infinito e era meu, por outro, o sentimento de emigração em relação a esse país onde fui feliz, de onde fui expulso e onde vivo até hoje a tentar voltar, nomeadamente, através deste livro. Mas, a mim, interessa reconstruir o passado e não apagá-lo-lo. De todo", recorda.

A oralidade é a marca do escritor e a reinvenção da palavra o seu cartão-de-visita: uma opção poética mais do que linguística. Tudo o mais é inventado.

"É tudo inventado, mas, depois de escrito, reconheço traços biográficos. Tal como o ‘Mwanito’ da história, tenho habilidade para ficar calado, para afinador de silêncios, e também tinha com o meu pai uma relação mais de silêncios do que de palavras", diz.

Mia Couto estreou-se em 1983 com poesia e, mais de 20 anos passados e outros tantos livros publicados, apresenta contas: "O que mudou foi uma certa ingenuidade. Não tinha apurada a habilidade da contenção que é a maior qualidade de um escritor... No momento, estou na fase do luto por estas personagens ou elas não me deixam partir para outras. E elas é que mandam!"

 

PESSOAL

O CAOS

"Escrevo de forma caótica. Muito e ao mesmo tempo. Há sempre uma obra central e outras, muitas outras que são só ideias, mas vão ser histórias, um dia, não sei quando."

A NOSTALGIA

"Só escrevo quando estou triste, mas é uma tristeza boa, uma fuga para a frente e uma ponte com o meu passado. Sempre presente."

A EXPOSIÇÃO

"O lado penoso da exposição é que nem eu sou, nem quero ser uma estrela nem tenho tempo para dar tempo. Gosto de relações próximas e pessoais."

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publicado às 12:25



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