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#2568 - FEIRA DO LIVRO DO PORTO | 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 31.08.17

 

Feira do Livro do Porto

Feira do Livro do Porto, 1 a 17 Setembro 2017, Jardins do Palácio de Cristal,

programação de Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa

 

Dia 1

Uma máquina voadora movida por vontades (Saramago),  22h

spoken word por

André e. Teodósio, encenador, e Teatro Praga;

 

Dia 2

Clarice Lispector por Carlos Mendes de Sousa (lição, 12h);

Miguel Sousa Tavares, Frederico Lourenço e Ana Luísa Amaral conversam sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (19h);

 

Dia 3

José Luís Peixoto e Patrícia Reis conversam sobre o sagrado e o profano na literatura com moderação de João Paulo Sacadura (16h);

Han Kang, escritora coreana cujo romance, “A Vegetariana”, venceu o prestigiado Booker International de 2016, conversa sobre a sua obra com José Mário Silva (19h);

 

Dia 6

"Memorial do Convento" de Saramago por Carlos Reis (lição, 19h);

 

Dia 8

De Ana Hatherly a Tarkovsky (palavras, imagens e um fio de música) 21.30

por

Matilde Campilho (poeta)

Tomás Cunha Ferreira (artista plástico e músico)

Mariano Marovatto (poeta e músico)

Anastasia Lukovnikova (cineasta)

 

Dia 9

Sophia de Mello Breyner por Ana Luísa Amaral (lição, 12h); 

A escritora brasileira Tatiana Salem Levy conversa com a portuguesa Dulce Maria Cardoso (que estará lançando um novo livro) sobre a importância da literatura num mundo à beira do abismo — ou da salvação. Mediação de Raquel Marinho (15h);

Que mistérios tem Clarice? 

spoken word, 21.30, por

Carlos Mendes de Sousa (selecção de textos)

Ana Vidigal (imagem)

Marta Hugon (a dizer e a cantar)

Filipe Raposo (piano)

 

Dia 10

Teju Cole conversa com Isabel Lucas (16h);

Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida conversam sobre a  construção e a reinvenção da memória, com mediação de Carlos Vaz Marques (19h);

 

Dia 13

"A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, por Clara Rowland

(lição, 19h);

 

Dia 16

David Mourão Ferreira por Fernando Pinto do Amaral (lição, 12h);

Laurent Binet conversa com Ana Sousa Dias (19h);

 

Dia 17

"Húmus" de Raul Brandão por Maria João Reynaud (lição, 12h);

Alexandra Lucas Coelho e Gonçalo M. Tavares conversam sobre o  corpo e o mal, com moderação de Luís Caetano (19h);

 

 

"Num mundo em convulsão, atormentado por grandes e imprevistas mudanças, e em busca de novos caminhos e ideais, a literatura tem um papel cada vez mais importante: o de promover o debate e pensar o futuro. Para esta edição da Feira do Livro do Porto iremos trazer um conjunto de escritores de grande relevância a nível internacional e no espaço da lusofonia, os quais irão discutir entre si, e com os leitores presentes, temas como a construção e a reinvenção da memória, a instalação do mal, ou o lugar do sagrado e do profano na literatura e na sociedade.

Iremos ainda recordar e homenagear Sophia de Mello Breyner e Júlio Diniz.

A nossa intenção é criar um Porto de Ideias, um lugar de encontro de escritores e pensadores, dando assim continuidade a uma tradição de cosmopolitismo e de partilha, característica da natureza de todas as antigas urbes portuárias.

José Eduardo Agualusa"

 

"Para explicar o modo como pensei alguns eventos da Feira do Livro do Porto (1 a 17 Set), socorro-me do maravilhoso trabalho, feitas de palavras desenhadas, de Ana Hatherly. Há nele uma forma que não é definitiva, que está em mutação, como que levada pelo vento; e, nesse movimento, contagia, assume novas configurações, incorpora um saber e uma relação que vem com os outros. Aprender é isto. Aprender implica uma dinâmica, uma abertura, a contaminação. Uma nova realidade que é criada, distinta da precedente, algo que nos faz ser outros e em que intervimos. Há elementos especialmente activos nesta metamorfose. Poetas, palavras, imagens, uma evocação, a música. Princípios, partículas essenciais, que nos levam, implicam, transformam. E intérpretes (aventurosos) que prolongam o movimento, desafiam limites, convocam outros e ainda outros. Tudo parte de uma matéria orgânica.

Nas sessões de spoken word, a palavra é dita, literalmente, mas está longe de se esgotar no dizer; ao invés, ela é apropriada pela imagem, pelo som, pela diversidade linguística e de suportes. Trazemos Clarice, Saramago, vamos de Hatherly a Tarkovsky.

Nas lições, recordamos os 30 anos da partida de Carlos Drummond de Andrade (e analisamos o seu mais famoso poema, A Máquina do Mundo), os 40 anos da morte de Clarice Lispector, David Mourão Ferreira que faria 90 anos, se fosse vivo, os 35 anos da invenção de uma máquina que voa movida por vontades ("Memorial do Convento") e Sophia, a autora homenageada na Feira, fada-menina-musa-tudo.

Anabela Mota Ribeiro"

 

A Feira do Livro do Porto conta ainda com um ciclo de cinema, exposições, discussões, entre outras iniciativas. 

 

A INFORMAÇÃO SOBRE A FEIRA DO LIVRO DO PORTO FOI RETIRADA DO "SÍTIO" DA ANABELA MOTA RIBEIRO

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publicado às 09:10


#2567 - Rui Massena - aBem

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

 Café Magestic - Rua Santa Catarina - Porto

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publicado às 19:27


#2566 - Com olho de peixe

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

 

 

"Acredito no rio Amazonas desde que eu era menino. Meu pai foi quem primeiro me falou dele. Disse que sua largura era tamanha que o lado de lá não se via. Eu, acostumado a pescar lambaris em ribeirões e riachinhos, ouvia ele dizer que o rio maior que tinha visto, o Grande, perto do Amazonas não passava de um mijinho de menino. No Grupo decorei e recitei feito poesia os nomes dos afluentes dele: Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu. Aprendi também sobre a pororoca, briga que o rio perde sempre, porque o mar é maior do que ele. Assim é a vida: o mar tem sempre a última palavra... Mas o que me fascinava mais, mesmo, era a notícia de uma planta de folha tão grande que nela se podia deitar uma criança. Tudo era assombroso.

 

Acreditei sem nunca ter visto, só de ouvir dizer. Acreditei tanto que cheguei mesmo a viajar para lá para ver o rio. Quem vai é porque acreditou. E vi com estes olhos, e quando o quero rever releio o poema de Heládio Brito:

 

Eu vim de ver o rio

o frouxo ir das águas,

pesadas delas mesmas,

grossas das lonjuras vindas

no irem sendo rio.

Líquido boi cansado

carregado de peixes,

trabalha o rio

para os homens da margem,

que ao suado lombo lhe fustigam

com seus anzóis e redes...

 

Cheguei mesmo a navegar nas suas águas, se atravessar de balsa é navegar. Não, não é não. Quem navega com a cabeça fora d'água nada sabe. É preciso mergulhar, penetrar fundo nas águas. Mas, para isso, serai preciso que fôssemos como os peixes. O Guimarães Rosa amava tanto os rios que desejava, numa outra encarnação, nascer crocodilo. Nós, humanos, só conhecemos os rios na superfície. Os crocodilos os conhecem nas funduras. Nas funduras os rios são escuros e tranquilos como os sofrimentos dos homens. Essa eu não sabia, que os sofrimentos são escuros e tranquilos.

 

Aí ele diz uma coisa inusitada: que o rio é palavra mágica para conjugar eternidade. Eu havia aprendido o contrário, que o rio é palavra para conjugar tempo. Pelo menos foi assim  que ouvi de Heráclito, o filósofo: "tudo flui, nada permanece, tudo é rio..."

 

Mas lendo as Escrituras Sagradas percebi que certo estava o João: "a eternidade mora no fundo das águas, no fundo do tempo". Quando Deus quis fazer artes mágicas com Jonas, jogou-o no mar, onde um peixe o aguardava de boca aberta, e por três dias ficou na fundura das águas, como feto na barriga da mãe, até que se transformasse em profeta. O que não é muito diferente das metamorfoses que fazem um poeta - portanto confirmado pela Cecília Meireles e pelo T.S. Eliot que afirmam que, para fazer poesia, é preciso ter olhos de peixe. Não é por acaso, portanto, que o ritual mágico para transformação do velho em criança, a que se dá o nome de "batismo", siga a metáfora do afogamento e do nascimento: o adulto é mergulhado, de corpo inteiro, nas águas de um rio: o velho que mergulha morre; a criatura que sai das águas é menino.

 

Não é por acaso, portanto, que o peixe seja, a um tempo, símbolo poético e símbolo profético: é que ele nada nas funduras do tempo, onde a eternidade gera os seus milagres.

 

Na superfície do rio é o tempo que flui, sem parar. Assim estava escrito nos carrilhões antigos, aqueles relojões enormes de pêndulos sem pressa: tempus fugit - o tempo passa, a vida vai se perdendo nas águas do nunca mais. Resta então a saudade sem remédio, caso tenha havido amor e alegria. A festança ao fim do tempo só se justifica se amor não houve, nem alegria. A perda da coisa amada não pode ser festejada. Só pode ser lamentada.

 

Mas pensando no que dizem os poetas e profetas, eu me descubro transformando o choro em riso: os que semeiam com lágrimas com alegria ceifarão, pois Deus é o rio mostrando as suas entranhas. No fundo, na eternidade, as águas correm ao contrário, disso sabem os peixes, que nadam contra a correnteza - a alma também; na superfície a gente nasce nenezinho, tempus fugit e a gente fica adulto, tempus fugit e a gente fica velho, tempus fugit e a gente morre. Nas funduras, onde mora a eternidade, é ao contrário. Primeiro é a velhice. Aí tempus fugit , a gente vira menino.

 

Deus começa sempre pelo fim. Nas Escrituras Sagradas o dia começa com a tarde e termina com a manhã. Está escrito no poema da Criação: "E foi a tarde e a manhã do primeiro dia..." O sol se põe, mais um dia se inicia. O fim é o lugar do começo.

 

Ao recitar as estações do ano a gente, automaticamente, diz: primavera, verão, outono, inverno. Mas lendo D. Miguel Unamuno percebi que isso não está certo. O tempo é uma roda. Se nas Escrituras o dia começa com a tarde, no ano as estações podem muito bem se iniciar com o inverno. Inverno, primavera, verão, outono... O inverno é a infância do ano. No seu silêncio profundo a primavera está em gestação... No silêncio do fim moram os começos. No silêncio da velhice mora a infância...

 

Tem gente que acredita em Deus com firmeza, do jeito mesmo como eu acreditava no rio Amazonas, por ouvir dizer - chegando a discorrer com autoridade, invocando teologia e dogma, feito o meu pai, que ensinava sem nunca ter ido ou visto. Não mergulha, por medo de se afogar. Agora eu acredito em Deus como crocodilo ou peixe, para me des-afogar... Eu preciso dele para o tempo andar ao contrário. E é assim que eu o imagino, como um pescador que vai lançando nas águas do tempo as redes da eternidade, para pescar tudo aquilo que foi amado e que se perdeu. Para nos devolver. É o "eterno retorno". É a "ressurreição dos mortos". É a primavera nascendo do inverno. É a criança nascendo do velho.

 

Isso eu desejo do ano novo, criança nascida do velho; que eu seja mais criança do que fui."

 

 VER BIOGRAFIA DE RUBEM ALVES »»»»

 

CRÓNICA DE RUBEM ALVES PUBLICADA NO LIVRO "SOBRE O TEMPO E A ETERNIDADE", EDIÇÃO DA PAPIRUS, SPECULUM, 1995, BRASIL.

 

 

 

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publicado às 10:57


#2565 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 30.08.17

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Gosto que gostes de mim e os

teus dedos espreitem o meu coração.

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publicado às 06:49


#2564 - ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.08.17

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

 

JACKSON,

nem amigo nem inimigo,

nem mesmo (o que seria cómodo) espectador displicente na sua poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,

mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,

mais distante ainda dos mundos que exploraste, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los,

e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,

aqui estou, testemunha, depondo.

 

Jackson,

os que te conheceram e te amaram,

os que te conheceram e não te amaram,

os que não tiveram tempo de te amar,

os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististe,

estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.

Outros, o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.

 

Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.

Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus, Jackson,

e eu o sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.

 

Voltou o tempo dos prodígios.

Ainda há pescas maravilhosas, eu sei,

e os peixes que arrebataste a um mar mais crespo que o de Tiberíades

estão cantando  a glória do Senhor.

 

Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas

elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu

e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,

que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar,

enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.

 

Agora sentimos que estás mais perto de nós,

que por obscuros caminhos nos chegamos mais a ti,

(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir

e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano,

pesca terrível e prodigiosa de amor e de redenção.

 

Belo Horizonte, 1929.

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publicado às 15:15


#2563 - REVISTA COLÓQUIO | LETRAS

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.08.17

colóquio letras 95005.jpg

 COLÓQUIO | LETRAS - N.º 135/136 - JANEIRO/JUNHO 1995

 

"... Eu diria saudando o autor das tábuas: uma erva eterna. Possa o cavalinho branco do nosso futuro apaziguar nela uma fome do corpo e da alma, um sonho de liberdade e dignidade colectivas que nascem e se cumprem no tempo mas que tempo algum pode medir."

 

FINAL DO DISCURSO  DE EDUARDO LOURENÇO LIDO DURANTE A HOMENAGEM A MIGUEL TORGA QUE TEVE LUGAR EM LISBOA (FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN) EM DEZEMBRO DE 1978, NA COMEMORAÇÃO DO 50.º ANIVERSÁRIO DA VIDA LITERÁRIA DO POETA E PUBLICADO NA REVISTA COLÓQIO | LETRAS

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publicado às 14:09


#2562 - O ORIENTE É UMA BOCA

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.08.17

 

 

ISRAEL ELIRAZ

 

O ORIENTE É UMA BOCA

 

I .

Levanta o dedo e aponta

o centro no qual

 

o rapaz (de joelhos,

à tua frente) desenha

 

segundo as leis da luz

e as leis do ragga,

 

e como ele pergunta:

"estás dentro do teu corpo

 

ou és

o teu corpo?"

 

Põe no teu caminho

uma pausa de

flores

 

 

2 .

Um homem nu

levanta a alma

 

que levanta o corpo

à mão.

 

Subitamente ao corpo

falta corpo.

 

A boca, punho de ouro

empunha carvões de prazer.

 

Como uma pena,

uma mancha sobe

do calor do peito.

 

O que é que nasce

em ti, sem ti,

 

quando perguntas,

"estou mais ou menos

no centro disto?"

 

3 .

O oriente

é uma boca

 

para onde te voltas

de joelhos

 

à procura de matéria

mais rápida

 

que a luz, que o

ragga. Aprendes

 

com a energia do sol, com

o fruto acobreado no forno do olho:

 

o  que há - 

é isto! é o que há!

 

e há aquele

que antecede tudo

 

o que se disser 

dele

 

e sem ele -

não somos.

 

Poema de Israel Eliraz traduzido por Lúcia Liba Muckznik

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publicado às 09:58


#2561 - 16 BIBLIOTECAS DIGITAIS, UMA SUGESTÃO DA REVISTA "BULA"

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.08.17

POR JÉSSICA CHIARELI

 

A revista "BULA" elaborou uma lista de 16 Bibliotecas Digitais:

 

.

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publicado às 22:30


#2560 - As contradições de um corpo mergulhado numa piscina

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.08.17

 

IMG_1650.JPG

 

a oscilação da vontade e da recusa em fazer alguma coisa

a fala que não se entende com a língua

a luz brilhante e quente que não aquece

a chuva que bate na vidraça em silêncio

as portas que só rangem no escuro

percorrer o quarto obliquamente suspenso do tecto sobre o ar amarelo da poeira

uma cambalhota e o corpo desmaia

um cão atravessa a madrugada

gotas de suor escorrem das torneiras

quando o sol se põe a árvore amadurece e a fruta flutua no vazio

as pedras rosnam quando são calcadas e armadilham o caminhar desprevenido do caminhante

parece caótico o carreiro das formigas dizem as cigarras

um crocodilo pisca o olho a outro crocodilo e morde-lhe o rabo

uma garrafa de cristal que julga ser a aristocrata do vidro

um grito ou um gemido?

há diferenças no prazer e na dor

o espelho parte-se discreto sem alarido sem sangue era vidro muito antigo

a vontade é resoluta a recusa também

na arte de não ceder anunciam-se acordos de paz para melhor pensar a guerra

querubins sopram trompetes

as notas da partitura guardadas em meias com mau cheiro exalam fedor

as cadeiras estão vazias o maestro perdeu a batuta a sala está vazia

silêncio absoluto

uma mosca bate as asas

o ruído provoca mais ruído e o pente que já não penteia

a cabeça está careca e em vez de cabelo nasceu musgo e o pente isso não penteia

 

rapidamente anoitece e as portas só rangem no escuro  para amedrontar o medo

enquanto o corpo adormecido repousa sobre a membrana da água de uma piscina

 

É Verão simplesmente

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publicado às 15:14


#2559 - Andrei Tarkovsky, Cinema of the Soul

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.08.17

 

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publicado às 18:42


#2558 - Nostalghia(1983)/ Andrei Tarkovsky / BWV853

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.08.17

 Music:Johann Sebastian Bach
Piano:Sviatoslav Richter
The Well-Tempered Clavier, Book 1

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publicado às 18:32


#2557 - SOLIDÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.08.17

 ALEXANDRA DE PINHO (CONTRA-CORPO)

 

SOLIDÃO

 

No meio da multidão  somos apenas mais um.

Anónimos.

Quase todos se devem sentir assim.

Anónimos,

sem rosto,

iguais a tantos outros,

indistintos,

como se nós fossemos todos e não nós.

Mas subitamente

sentimos que estamos sós

às escuras,

encerrados dentro de um círculo de sombras

em confronto directo connosco

e com os nossos desejos

impulsos

fantasmas

fantasias

frustraçoes.

E vemos

gente que se atropela, que se toca, que se roça.

E vemos

gente perplexa suspensa nos gestos de outrem,

as bocas que se abrem e tomam  a forma do espanto.

E os olhos que não pestanejam

hipnotizados  pelas luzes vermelhas

das palavras  penduradas nas portas

que são um sinal,

um código

que anunciam para iminências urgentes

de corpos ardentes

que buscam o ventre da noite para se tocarem

nos sítios do desejo, e do desespero.

E das janelas dos quartos escorre uma luz coada

que ilumina as silhuetas difusas de corpos nus

que se abraçam

antes que a melancolia da noite chegue

e o prazer dê lugar ao cansaço

ou à desilusão.

E continamos sós.

Apenas nós e a solidão.

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publicado às 19:46


#2556 - Diálogos ao anoitecer

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.08.17

Conheço as pessoas pelo seu nome; digo bom dia, boa tarde, boa noite quando me cruzo com elas.

Algumas não me respondem como se as palavras não tivessem eco, ou então estão ensimesmadas com as suas vidas, ou porque o corpo caminha distraído, ou então não estão habituadas.

 

Os diálogos costumam ser breves:

Tudo bem?

A esposa... e as filhas como vão?

E a netinha quantos anos tem? Jã deve estar crescidinha.... os miúdos de hoje parece comerem fermento!...

É...

Cumprimentos a todos

Obrigado. Serão entregues.

Boa noite até um dia...

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publicado às 20:09


#2555 - NOCTURNO DOS ANJOS

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.08.17

 XAVIER VILLAURRUTIA (1903-1950)

 

NOCTURNO DOS ANJOS

 

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.

As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,

o segredo dos homens que passeiam, conhecem,

porque estão todos imersos no segredo

não ganhariam nada em fragmentá-lo

sim, é bom guardá-lo

e dividi-lo só com a pessoa eleita.

 

Se cada um falasse uma vez só,

e com uma só palavra, aquilo que pensa,

as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,

uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.

Seria uma constelação ardente como o sexo

no corpo profundo da noite,

ou como os gémeos que pela primeira vez na vida

se olham de frente, e se abraçam para sempre.

 

A rua enche-se como um rio de seres ávidos,

caminham, aguardam, prosseguem.

Trocam olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis...

 

Há esquinas e bancos sombrios,

auras indistintas, formas profundas,

e súbitos vãos com uma luz que cega

e portas que cedem à mais leve pressão.

 

A rua fica deserta num instante.

Parece afugentar de si mesmo

o desejo de começar de novo.

Está paralisado, mudo, ofegante

como o coração entre dois espamos.

 

Mas uma nova pulsação

lança ao  rio da rua outros seres sedentos.

Cruzam-se, e sobem,

voam ao rés do chão,

nada de forma milagrosa

e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

 

São anjos,

desceram à terra

através de degraus invisíveis.

Vieram do mar, espelho do céu,

em barcos de fumo e sombra,

a fundir-se e confundir-se com os mortais,

a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,

a deixar que outras mãos apalpem febrilmente os seus corpos,

e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los

como os lábios que se fecham,

a fatigar a boca  tanto tempo estagnada,

a libertar as suas línguas de fogo,

a dizer juramentos, canções, e palavras porcas

com que os homens concentram o antigo mistério

da carne, do sangue, e do desejo.

 

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.

Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.

Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.

Passeiam, aguardam, e seguem.

Trocam olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis.

 

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis

donde ainda praticam um voo lento e vertical.

Em seus corpos nus há vestígios celestiais,

signos, estrelas, e letras azuis.

Deixam-se cair nas camas,e afundam-se nas almofadas

que os fazem pensar um momento nas nuvens.

Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,

e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

 

Poema do poeta mexicano Xavier Villaurrutia

 

 

 

 

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publicado às 18:28


#2554 - MULHERES DE PASSAGEM

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.08.17

 KÓSTAS OURÁNIS (1890-1953)

 

MULHERES DE PASSAGEM

 

Mulheres a quem vi por um instante

dentro de trens à hora em que partiam

para outro lugar, mulheres que riam

nos braços de um outro homem, exultantes;

mulheres em balcões, a olhar diante

de si, tão distraídas, o vazio,,

ou a agitar do convés de um navio

que zarpava seus lenços vacilantes:

se soubésseis com quanta nostalgia

eu vos trago de novo ao pensamento

pelas tardes de chuva, tardes frias,

mulheres que passastes um momento

em minha vida - e agora conduzis

minha alma a um exótico país!

 

POEMA DE KÓSTAS OURÁNIS, POETA GREGO

_____________________________________________________________________

 Ouranis (1850 - 1953) was born in Constantinople, the son of Nikolaos Niarchos and Algeliky Giannusi.He received his Elementary and High School educations in Leonidio and Nafplion, Greece and Constantinople, Turkey, respectively; and his college education in Paris, France. In 1920, he was appointed Greek Consul General of Lisbon, Portugal; and in 1924 he settled in Athens, where he subsequently held a number of prominent journalistic and managerial positions in a number of newspapers and magazines there. He died in the Athens area on 12 June 1953

His poetic works published prior to his death include: "Like Dreams" (1909), "Spleen" (1912), and "Nostalgias" (1920). He is known as the last Greek romanticist of the modern times.

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publicado às 16:09

 

DISCURSO DO GRANDE PÁSSARO

 

Ai de mim! As flores, ainda que tenham resisitido no ano anterior, são levadas pelo gelo no ano seguinte;

Assim é levado este tempo impermanente e ilusório;

O arco-íris, por mais soberbas que sejam as suas cores, desaparece no espaço;

Assim desaparecem os trajos de gala, por mais faustosos que sejam.

A palavra, embora o seu eco seja claro, não tem poder para durar;

Assim como não duram os poderes mundanos, por mais amplos que sejam.

Os visitantes da feira, embora tenham estado reunidos, estão agora dispersos.

Assim se dispersa o círculo de família, por mais unido que tenha sido.

Embora acumulado pelas abelhas, o mel não serve a ninguém.

O mesmo se passa com os bens, as riquezas, e as fortunas.

As acções do mundo são como brincadeiras de crianças.

Ainda que o corpo e as palavras sejam reduzidos a nada, as causas não são eliminadas.

Renunciai pois a este mundo ilusório e falso.

Segui a boa e santa doutrina, ó passaros reunidos.

O corpo no fim recusa alimentar-se:

Bom é se o nosso ser se realizou.

Os bens acumulados gastam-se até ao derradeiro:

Bom é se antes se deram esmolas.

Um homem perdeu todos os que ama até ao derradeiro:

Bom é se a partir de agora, rompeu todos os seus laços.

Um palácio desmorona-se até ao derradeiro muro:

Bom é se se fica solitário sem certeza.

O recurso aos poderosos é o começo da prova:

Bom é se nos apoiamos num Reverendo Lama.

O mundo perecível destrói-se até à sua derradeira realização:

Bom é se nos afastamos do desejo.

Abraçar a Boa Lei é um mérito duradoiro para o presente e o futuro.

E bom é se a ensinamos desde agora.

As (Três) Jóias são um refúgio duradoiro para o presente e o futuro:

Bom é se lhes rezámos neste mundo.

Enquanto os seres, torturados pelo amor, matam com prazer a sede na água da miragem.

É bom abstrairmo-nos na meditação.

Por isso, renunciai ao mundo e cumpri a Boa Lei!

 

Poema tibetano do século XVIII traduzido por Maria Jorge Vilar de Figueiredo

 

 

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publicado às 23:36


#2552 - Kevin Morby - Come To Me Now (Official Lyric Video)

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.08.17

 

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publicado às 22:26


#2551 - Para onde caminhamos?

por Carlos Pereira \foleirices, em 09.08.17

A terra treme sob o peso de botas militares que avançam em passo firme, agressivo, intimidador.

O Poder do medo imposto por cínicos grotescos,  avança firme e resoluto na Europa, América, Ásia, África. Qualquer pretexto serve - ou fabrica-se um qualquer para o impôr. Usa-se, sem vergonha, a mentira tantas vezes repetida e amplificada por rádios, jornais, televisões e outros canais ao serviço do regime. Estamos a ficar encurralados - muitas vezes por culpa própria ao avalizarmos as políticas e comportamentos com o nosso voto, a nossa cumplicidade, o nosso silêncio.

Vivemos momentos nada recomendáveis.  E o mundo, que por causa das suas idiossincrasias é naturalmente perigoso, está a tornar-se paulatinamente num espaço onde os garnisés desta vida estão dispostos a tudo para obterem  o título máximo de galo. A disputa é violenta, vai ser ainda mais violenta.

Esta é a minha convicção. A convicção de um optimista pessimista.

 

Agora a ficção:

Na cumplicidade da noite vingamos as nossas fraquezas e cobardias e usamos as latrinas para pendurar os retratos dos tiranos, usamos os jornais com as sua fotografias para limpar a merda com a qual os afogamos. É a nossa secreta e pegajosa vingança, às escuras para não sermos apanhados, até ao dia em que temos de mostrar que ainda temos "tomates" para lhes enfiar pela goela abaixo as pragas que contra eles proferimos nas deseperadas noites de insónia e vigília, ou então seremos eliminados.

 

 

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publicado às 21:43


#2550 - VEM TROVÃO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

CHRISTOPHER OKIGBO (1932-1967)

 

VEM  TROVÃO

 

Agora que a marcha triunfante entrou nas últimas esquinas da rua,

Recordai, ó dançarinos, o trovão entre as nuvens...

 

Agora que a gargalhada, partida em duas, trémula, está suspensa nos dentes,

Recordai, ó dançarinos, o relâmpago além da terra...

 

O cheiro do sangue já flutua na neblina que, na tarde, cheira a lavanda.

A sentença de morte está emboscada nos corredores do poder;

E uma enorme coisa pavorosa é já arrastada pelos cabos do ar livre,

Uma névoa imensa e incomensurável, uma noite de águas profundas -

Um sonho de ferro que não pode ser nomeado nem impresso, uma vereda de pedra.

 

As cabeças sonolentas das vagens em quintas maninhas testemunham-no,

As casa abandonadas no matagal durante o fogo deste século testemunham-no:

Os múltiplos olhos de maçarocas de milho abandonadas em celeiros ardidos testemunham-no:

Pássaros mágicos com o milagre do relâmpago nas suas penas...

 

As setas de Deus tremem nos portões da Luz,

Os tambores do recolher prestam-se a uma doença de morte;

E a coisa secreta no seu impulso

Ameaça com máscara de ferro

A última torcha alumiada do século...

 

POEMA DO POETA NIGERIANO CHRISTOPHER OKIGBO, TRADUZIDO POR JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

 

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Christopher Okigbo nasceu na pequena vila de Ojoto, nos arredores de Onitsha no sudeste da Nigéria, em 1932. Seu pai era professor de uma escola católica, no auge do domínio britânico da região. O jovem poeta cresceria sob a influência de seu pai, católico fervoroso, e a de seu avô, um sacerdote da deusa das águas Idoto, personificada no rio de mesmo nome que corre na região de sua infância. Idoto seria a deusa invocada naquele que é o mais famoso poema de Christopher Okigbo, "The passage", aqui traduzido como "A passagem", mas também conhecido como "Heavensgate". Este sincretismo religioso pode ser sentido com força em seu poema, que inicia com a invocação a Idoto, para logo em seguido invocar Ana, que em comentários críticos sobre o poema tem sido identificada como a santa do catolicismo. Christopher Okigbo viria a se formar na mesma universidade em que estudaram o conhecido romancista nigeriano Chinua Achebe (n. 1930) e o poeta Wole Soyinka (n. 1934), ganhador do Prêmio Nobel de 1986, de quem Okigbo foi amigo.

 

Começou a publicar poemas na revista Black Orpheus, dedicada ao trabalho de poetas africanos e afro-americanos. Seus poemas seriam reunidos postumamente no volume Labyrinths (1971). Christopher Okigbo morreu em 1967, com apenas 35 anos, lutando na guerra pela independência da República de Biafra (1967 - 1970), região separatista que permaneceria parte do território nigeriano.
 
A poesia de Okigbo é hoje considerada uma das mais importantes obras da poesia africana pós-colonial. Ainda que críticos nacionalistas o tenham criticado por adotar a língua inglesa, o poeta parece apropriar-se da língua do colonizador para implantar uma consciência mítica que só pode ser totalmente compreendida através da poética mística e vocal dos poetas africanos. Para nossa sensibilidade cristã, algo da poesia de Okigbo pode parecer alinhar-se a poetas como o W.B. Yeats do volume The Tower (1932) ou o T.S. Eliot de Choruses from "The Rock"(1934), mas a mim me parece que um dos poetas de língua inglesa com quem poderíamos traçar paralelos interessantes, passando pela poética de Christopher Okigbo, é o norte-americano Robert Duncan (1919 - 1988), de livros como The Opening of the Field (1960) e Bending the Bow (1964).
 
Christopher Okigbo nasceu em 1932, o que o faz contemporâneo de brasileiros como Ferreira Gullar (n. 1930) e Augusto de Campos (n. 1931). Sua poética, porém, visionária e mística, talvez o ligue mais a um brasileiro como Roberto Piva (n. 1937). A experiência da leitura de seus poemas, contudo, parece-me de uma beleza bastante singular.



--- Ricardo Domeneck

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publicado às 21:32


#2549 - PRÉMIO DE POESIA ANTÓNIO RAMOS ROSA

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.08.17

 ANTÓNIO RAMOS ROSA

 

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

João Luís Barreto Guimarães, poeta portuense, venceu a 6.ª Edição do Prémio de Poesia António Ramos Rosa com o seu livro "Mediterrâneo" publicado em Março de 2016 pela Editora Quetzal.

Este Prémio foi criado em 1999 pela Câmara Municipal de Faro e a cerimónia de entrega realizar-se-á no dia 9 de Setembro.

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Biografia:

Nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967.

Vive em Leça da Palmeira.

É licenciado em Medicina e Cirurgia pela Universidade do Porto, especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

Divide o seu tempo entre Leça da Palmeira e Venade.

Publicou o primeiro livro de poemas Há Violinos na Tribo, em 1989, a que se seguiram Rua Trinta e Um de Fevereiro(1991), Este Lado para Cima (1994), Lugares Comuns (2000), 3 (poesia 1987-1994), em 2001, Rés-do-Chão (2003), Luz Última (2006), A Parte pelo Todo (2009), Poesia Reunida (2011), Você Está Aqui (2013) e Mediterrâneo (2016).

Organizou a antologia de poesia mundial sobre gatos Assinar a Pele (2000).

A sua obra está editada em antologias e revistas literárias de uma dezena de países.

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publicado às 16:48


#2548 - "VIAGEM MEDIEVAL" - SANTA MARIA DA FEIRA

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.08.17

 «Gosto muito» da «Viagem Medieval» que se realiza todos os anos em Santa Maria da Feira.

Aprecio, de maneira particular, o «perfume» que envolve o corpo do seu velho burgo.

 

Mas há um dia muito especial do qual gosto ainda mais: o dia a seguir ao seu encerramento...

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publicado às 16:53


#2547 - MANIA DE VOCÊ

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

 

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publicado às 23:35


#2546 - DOS LABIRINTOS DA MEMÓRIA

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

 

Há palavras que se inclinam obedecendo à vontade do corpo

e letras que subitamente se empertigam reagindo contra a vontade do corpo.

E a escrita soluça

fica suspensa

em alerta

a língua se dobra num último esforço para

expulsar a palavra que por baixo dela se esconde.

 

É a memória que se apaga

fica vazia 

numa luz negra qual

nuvem de algodão que a afoga

e as gavetas estão fechadas

onde estão escondidas

as urgentes palavras.

 

 

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publicado às 22:30


#2545 - ALGUNS POEMAS DE PAUL CELAN

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

arte poetica paull celan004.jpg

 Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

 

__________________________

 

Quatro estações do ano e nenhuma quinta para se decidir por uma delas.

 

__________________________

 

Era tão grande o seu amor por ela que teria conseguido levantar a tampa do caixão - se a flor que ela aí colocou não fosse tão pesada.

 

POEMAS DE PAUL CELAN DO LIVRO ARTE POÉTICA - O MERIDIANO E OUTROS TEXTOS, PAGS. 23 E 24, EDIÇÕES COTOVIA, 1996.

ESTES POEMAS FORAM PUBLICADOS NO JORNAL DIE TAT, DE ZURIQUE, EM 12 DE MARÇO DE 1949.

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publicado às 15:43


#2544 - Ryuichi Sakamoto - "Life, Life"

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.08.17

 

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publicado às 15:39


#2543 - CASARIO E FIGURAS DE UM SONHO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.08.17

Casario e Figuras de um Sonho - Dominguez Alvarez

 

Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.

Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.

Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias

e dos movimentos.

 

Fernando Pessoa in «Poemas Ocultistas»

(Selecção e Glosa de Petrus - O. C., 2.º v., p.262),

C.E.P., s/d (p.43)

Retirado do Catálogo "Azares da Expressão ou a Teatralidade na Pintura Portuguesa - Algumas obras do CAM

 

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publicado às 21:38

A próxima estação é a estação das eleições autárquicas. O ambiente já começa a ficar poluído com o ruído   das mensagens dos candidatos anunciando vulgaridades e disparates.

 

vote em mim e as suas rugas desaparecerão...

tem problenas de celulite? então  eu sou o candidato perfeito

E prisão de ventre?

E problemas de impotência? Comigo vai ser feliz sexualmente

Caspa? 

Olheiras?

Pêlos nos ouvidos e no nariz?

Tem dificuldade de relacionamento?

Mau hálito?

A sua sanita está entupida?

Há quanto tempo não come um robalo?

 

Vou propor que os meus gatos sejam  candidatos, pelo menos são sedutores e não miam promessas, vulgaridades e disparates.

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publicado às 12:42


#2541 - QUESTÕES DE SEMÂNTICA

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.08.17

O silêncio é, muitas vezes, mais subversivo e revolucionário do que a tagarelice de um discurso.

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publicado às 11:07


#2540 - Georges Delerue - Chère Louise

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.08.17

 

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publicado às 22:49


#2539 - Daigo Hanada - solitude

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.08.17

 

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publicado às 22:10


#2538 - A história repete-se com uma surpreendente regularidade

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.08.17

Um velho jornal enxotado pelo vento cai-me no regaço.

As letras húmidas, quase transparentes dão corpo a efemérides, notícias e artigos de opinião.

A impressão tem uma data - Janeiro de 1900 - início do século XX.

O editorial escrito pelo seu director cujo nome é ilegível anuncia

em letra robusta

o  acontecimento

e prevê com enorme entusiasmo

tempos de prosperidade, paz, grandes avanços na ciência e na economia...

Só não foi capaz de perceber

as fragilidades dos sistemas político, económico e social

 e a decadência de vários estados,

alguns deles imperiais,

que iriam tornar o século xx

catastrófico, sangrento, violento, brutal, mortal.

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publicado às 15:46


#2537 - REVISTA LER (EDIÇÃO VERÃO 2017 | N.º 146)

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.08.17

revista ler verão 2017002.jpg

 Capa da revista LER, edição Verão 2017, n.º 146

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publicado às 09:56


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