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publicado às 19:51


#1795 - July Skies - Southern Orchards

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.12

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publicado às 22:35


1794 -

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.12

"Estamos no dia seguinte de qualquer coisa. Estaremos na véspera de qualquer coisa?"

 

CHARLES MORICE, 1905

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publicado às 18:47


#1793 - Instrumentos

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.12

 

Um político estilizado

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publicado às 18:33


#1792 - Previsões

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.12

As ferramentas usadas em portugal  para previsão e compreensão do futuro

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publicado às 18:10


#1791 - Um campo batido pela brisa

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.11.12

UM CAMPO BATIDO PELA BRISA


A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”

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publicado às 17:59


#1790 - João Ricardo Pedro, numa perspectiva brasileira

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.11.12

Sentidos e azares da vida


 

Em sua estreia, o português João Ricardo Pedro faz um painel de memórias particulares e coletivas para (não) encontrar explicações

 

por Reginaldo Pujol Filho


 

“Uma coisa parecia certa”: assim começa Teu Rosto Será o Último, vencedor do Prêmio Leya 2011, que, além do valor monetário (100.000€, “quantia simpática”, segundo o autor) foi vitória pessoal do estreante português João Ricardo Pedro: há 2 anos, foi demitido e decidiu escrever a obra que em Portugal vendeu mais de 30 mil exemplares em 6 meses.

 

 

Pois o início, “Uma coisa parecia certa”, lembra que nada é mais incerto que uma coisa que parecia certa. E a pseudocerteza anuncia uma metáfora possível para as 207 páginas por ler: a busca do sentido de estar no mundo e para o que se passou. Achar algo que pareça certo, motivos sólidos para acordar de manhã ou para um pneu furado. Busca feita sobretudo na memória. Lembrar, filtrar, esquecer: dar ao passado o verniz da lógica. Pinçar da memória capítulos para narrar-se com algo que cheire a verossímil.

 

 

Todos fazem isso. João Ricardo o faz no livro que abre a coleção Novíssimos da Leya. Mas a memória onde pesca sentidos não é a sua. É da família do Dr. Augusto Machado e de Portugal dos anos 30 à beira do século 21.

 

 

Seguro e irônico (“pressentindo que isso de golpes era coisa para levar o seu tempo”, sobre a rural dona de casa pensando no almoço para os homens que debatem política no 25 de abril de 1974), em vez de narrar três gerações da família do Dr. Augusto, o autor pendura memórias quase aleatórias, retratos de personagens em diversas épocas que, ao se revelarem, revelam brechas entre si num texto sem medo de lacunas. Fendas para o leitor embutir sentidos ou intrigar-se com o pai obrigando os filhos a comer o próprio gato ou com uma misteriosa carta pela metade.

 

 

Entre incertezas e figuras errantes em busca do sentido que não há ‒ o jovem Dr. Augusto que parte, sem mais, para o interior; Celestino, forasteiro que ele acolhe; o filho do Doutor que vai e vem de guerras coloniais mesmo após o fim delas; e o neto Duarte perdido entre partituras ‒, duas coisas são certas: a meio do livro, metáfora sem-querer-querendo do sem sentido, ou como se o narrador fosse errante também, a narração do livro perde rumo. A prosa segura enche-se de maneirismos. Enciclopedismo e listagens se acumulam e tipos curiosos (oboísta sem uma orelha, argentino dado a calças justas e anéis, pintora misteriosa...) brotam e somem como se o autor quisesse exibir todas suas ideias.

 

Não que haja recurso certo e errado. É que as firulas não deram efeito estético, nem simbólico, nem estranhamento ao todo. Mas cabe lembrar: é o primeiro livro dele. Só que o belo início subiu o próprio sarrafo. Fez esquecer que é sim estreia e, como tal, sujeita à gana juvenil (mesmo aos 39 anos) de provar numa só vez tudo o que sabe fazer, garoto com 15 minutos para furar a peneira do time de futebol. Em paralelo, a trama de nós soltos se desfaz. O livro foca em cenas de Duarte, com Portugal de fundo. Mas mantém o tom memória-seletiva de quem elege fatos para se narrar e ver sentido nos próprios gestos.

 

 

No caso de Duarte, de outros personagens ou de Portugal, ao fim, parece que o único sentido possível é dado pelo simplório Celestino. O sujeito estropiado que chega à vila e, indagado sobre seu estado, diz: “azares da vida”.


Revista Bravo

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publicado às 23:38


#1789 - Steve Kuhn Trio - Dear Old Stockholm

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:59


#1788 - Bill Frisell ~ Imagine

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:53


#1787 - Memoryhouse - Lately (Deuxiéme)

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:40


#1786 - Perfume Genius - Put Your Back N 2 It

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:37


#1785 - The Bony King of Nowhere - Travelling Man

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:19


#1784 - Oupa - Windows

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:13


#1783 - auburn lull - light through the canopy

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:07


#1782 - Keren Ann - Strange Weather

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 22:01


#1781 - Poema de Almada Negreiros

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

Eram sete e meia.

O mais tarde que podias entrar era até às oito

e depois das oito tornava-se reparado.

Havia ordem no mundo

e meia-hora para nós,

meia-hora que não foi como queríamos

meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava

habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.

Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós

meia-hora que afinal só começou depois de terminada

ao despedirmo-nos até à vista.

E até tornar a ver-te

eu não me senti, nem a fome, nem a sede

nem outra vontade que tu,

fiz como os poetas

que apagam a realidade

para lhe pôr outra melhor por cima.

 

(Inédito)

 

Poema de Almada Negreiros in Revista Ler n.º 50, 2001

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publicado às 19:37


#1780 - Capas de Revistas

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

 

REVISTA LER - Primavera 2001 - N.º 50

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publicado às 19:30


#1779

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.11.12

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publicado às 19:20


#1778 - Metamorfoses

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.12

Guimbras - Santa Maria da Feira

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publicado às 19:40


#1777 - Poetas

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.11.12

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publicado às 19:36


#1776

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.12

 

"Não sou um homem moral (embora tente manter a minha consciência em equilíbrio) nem um sábio; não sou nem um esteta nem um filósofo. Sou apenas um homem nervoso, por força das circunstâncias e dos meus próprios actos"

 

Joseph Brodsky,  A marca de água

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publicado às 18:37


#1775 - Armas Brancas

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.12

 

 

Até que  o pranto acabe e o cintilar

dos pássaroa sossegue

o ruído do chão será a tua música

as ventanias rústicas

o mar do teu naufrágio.

Austos, arbustos, a flora adocicada

dos Vergeis - ó temporal memória campesina -

seguem-te o andar , deambulando.

É no oco que incide o bolor lento

das mínimas corolas - os anos em permuta.

Se queres ouvir o sol terás de erguer os braços

e atacar o tempo nas ameias do canto.

Ambos seguindo, idade, identidade

- a terra grita, o chão frente

e entretanto:

 

Poema de Armando Silva Carvalho - OBRA POÉTICA (1965-1995) - Edições Afrontamento, julho de 1998

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publicado às 18:20


#1774 - IMRE KERTÉSZ ABANDONA A ESCRITA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.12

 

Imre Kertész, escritor húngaro e prémio nobel da literatura, anunciou o abandono da escrita depois de considerar que "... a obra que está tão relacionada com o holocausto está, para mim, concluída"

 

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publicado às 12:50


#1773 - PRÉMIO REVELAÇÃO AGUSTINA-BESSA LUÍS 2012

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.11.12


O júri do prémio literário revelação Agustina Bessa-Luís, presidido por Vasco Graça Moura, distinguiu a estreante Marlene Correia Ferraz e o seu romance A Vida Inútil de José Homem, que será agora editado pela Gradiva.

 

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publicado às 12:23


#1772 - Recordar as palavras de Manuel António Pina

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.11.12

Na morte de Manuel António Pina, um nome maior da literatura portuguesa, recordamos a entrevista que Maria Leonor Nunes lhe fez, em 18 de maio de 2011.

Pode uma poesia abarcar-se em 80 páginas, dizer-se quase quatro décadas de versos em pouco mais de 40 de poemas? Poesia, saudade da prosa, uma antologia pessoal de Manuel António Pina, uma edição Assírio &Alvim, em breve nas livrarias, traça uma espécie de 'biografia poética', ainda que Pina, considere que se trata apenas de uma "leitura" da sua obra.
São exatamente 44 poemas que Manuel António Pina escolheu de quase todos os seus livros, com incidência nos mais recentes, por exemplo, Cuidados intensivos e Os livros. Uma escolha feita, segundo adianta, sobretudo por "afinidades", mais por uma "subjetividade" do que por critérios objetivos.
E, no entanto, a sua leitura ilumina os lugares da sua poética, a relação com as palavras e com um modo de dizer da morte, da vida e do mundo.
Manuel António Pina, que desde 2003 não publica um volume inédito de poesia, tem entretanto quase pronto um novo livro a sair provavelmente no final do ano. Chamarse-á Como desenhar uma casa. É o que adianta ao JL, numa entrevista por mail, feita noite dentro, ainda na ressaca da surpresa do anúncio do Prémio Camões. Respostas quase à medida, talvez um pouco menos do que os carateres limite. "Cortar é fácil", diz ele, acrescentar é que lhe parece sempre "palha". Prática do essencial que não é apenas da sua poesia, mas também do jornalismo, mais de 30 anos de estagiário e crítico de cinema a chefe de redação e da sua arte de cronista. Custa-lhe, diz ele, até juntar 50 carateres para completar os 1400 da sua crónica diária no Jornal de Notícias. E conta: a "palha" só lhe serviu uma vez, nos exames do liceu, para encher o olho dos professores. Resultou, porque ele, que era aluno de 12, exceção feita à Literatura, acabou por ser até premiado por ter a melhor prova de Filosofia. O valor monetário era dececionante, uns quatro escudos e não mais, mas em compensação disseram-lhe que poderia usar durante um ano o título do prémio como um régio cognome. Agora por certo, muitas vezes se irá acrescentar Prémio Camões, ao seu nome.

JL: Retomemos o seu verso: "Porquê a poesia e não outra coisa qualquer?"
Manuel António Pina: Hoje estou convencido de que, retirando a carga dramática à palavra, se trata antes de uma "condenação" (poderia dizer "inclinação", mas a coisa é um pouco mais imperativa do que isso) do que de uma opção, algo que nos escolhe mais do que o escolhemos nós. Desde que me conheço que escrevo versos. Minha mãe (as mães fazem coisas destas) guardou durante muito tempo versos que escrevi aos sete ou oito anos (quando, aos sete, entrei para a escola primária já sabia ler e escrever).

Que versos escrevia?
Primeiro, dísticos muito simples, depois versos mais elaborados,quadras de rima cruzada ou interpolada, falando de histórias de que gostava (há, por exemplo, um que conta o milagre das rosas) ou em resposta a questões que era costume os adultos porem às crianças, como: "O que queres ser quando fores grande?" (naquele tempo, a crer nesses versos infantis, eu hesitava entre ser detetive, padre ou bombeiro).
Pergunto-me porque é que me deu para escrever em verso e não em prosa, e estou convencido de que foi porque, próxima da música, a poesia é a forma elementar e primária de expressão pela palavra. Apesar de, como Monsieur Jourdain a certa altura descobre, falarmos em prosa, a prosa escrita vem depois da poesia e exige um muito maior domínio da palavra (só escrevi os meus primeiros contos aos 14 ou 15 anos).

Poesia, saudade da prosa, a antologia que vai publicar, é uma 'memória descritiva 'da sua arte poética?
Acho que não. Tomei todos os poemas que publiquei em livro como se se tratasse do acervo de um novo livro, despi-os de quaisquer referências cronológicas ou outras (os próprios livros de origem dos poemas apenas são referidos no índice), escolhi os bastantes para ocuparem, páginas de anterrosto e de rosto, bem como de índice, incluídas, cinco cadernos (80 páginas) e organizei-os subjetivamente.

Como?
Mais por afinidades pressentidas do que por qualquer critério lógico, temático ou formal. O resultado é uma concreta leitura pessoal que, num dado momento e em dadas circunstâncias, fiz da minha própria poesia. Noutro momento e noutras circunstâncias (até de tempo) teria talvez feito outra, decerto não inteiramente coincidente com esta.

O que agrega estes poemas é a reflexão sobre a sua poesia? Um olhar sobre os lugares, as palavras, e a relação com o real, com a memória?
Como disse antes, os poemas foram agregados apenas pela minha subjetividade de momento, e esta até a mim, às vezes, me parece agora um pouco confusa. Com uma única exceção por assim dizer "objetiva", resultado de uma preocupação gráfica: que os poemas mais longos, com duas páginas, começassem em página par e acabassem em página ímpar, de modo a aparecerem integralmente aos olhos do leitor, e evitando a perturbação que as mudanças de página sempre provocam na leitura, maior ainda quando a primeira página do poema eventualmente termine no fim de uma estrofe ou num ponto final e só quando vira a página se descobre que o poema, afinal, continua.

O MEDO E A MORTE

A morte percorre estes poemas. Pela inquietação, pela consciência, por ser o "lado" de onde se vê a vida?
A morte e o amor (e, vá lá, o tempo) são temas de toda a poesia e, se calhar, de toda a literatura e toda a arte. Bataille, falando da presença da morte e do sexo em muito do humor que os homens fazem, relaciona isso com o medo. "Ris-te porque tens medo", diz ele, já não sei se em "Madame Edwarda" se em "Le petit". O amor está ligado, através do sexo, à origem do ser; a morte ao seu desaparecimento. Perante os abismos do antes e do depois, é natural que o homem tenha medo. E que, por isso, ria. Ou se interrogue, procurando respostas. Julgo que é o medo que explica a presença obsessiva da morte e do amor na literatura e na arte. E não só, também na filosofia e na religião.

Em que sentido?
As questões filosóficas continuam a ser aquelas que os nossos filhos nos põem mal tomam consciência de si e do mundo: "Onde estava eu antes de nascer?", "Para onde se vai quando se morre?", isto é: "Donde vimos?, para onde vamos?, porquê?" E a generalidade das religiões contém uma cosmogonia e uma resposta particular à questão do destino do homem. Como poderia a minha poesia não falar da morte?

Como escolheu os poemas? Em função de uma 'narrativa'?
Não criei qualquer 'narrativa' (se assim fosse, teria separado os poemas por partes, eventualmente intitulando-as, propondo assim uma espécie de roteiro de leitura). Espero que, se as coisas tiverem corrido bem, os próprios poemas possam organizar-se como 'narrativa' e oferecer-se como tal a cada leitura.

Diz-se que ninguém é bom juiz em causa própria. E antologiador?
Com efeito, fiz uma escolha (o número de páginas começou logo por ser uma escolha prévia; eu pretendia um número menor delas, foi o Manuel Rosa quem insistiu em "80 pelo menos"). E uma escolha implica necessariamente um julgamento. Mas não (no meu caso não, ou apenas limitadamente) em causa própria, pois já sinto muita dificuldade em reconhecer-me nos poemas dos meus primeiros livros, antes de Farewell happy fields. Daí talvez a predominância nesta antologia de poemas dos meus livros mais recentes. Numa outra antologia (por isso esta se subintitula, não "antologia pessoal", mas "uma antologia pessoal"), presidida por outro tipo de subjetividade ou, até, quem sabe?, outros tipos de objetividade (por exemplo, cronológica ou "representativa") poderia ter acontecido o contrário. Quanto a ser, ou não, "bom" juiz em causa própria, ocorre-me um dito de Cyrano de Bergerac quando um dia, réu num processo qualquer, se propôs defender-se a si próprio e o juiz o alertou do velho brocardo jurídico que diz que "advogado que se defende a si próprio tem um burro como cliente". Terá respondido Cyrano: "Pois sim, mas prefiro ter um burro como cliente do que um burro como advogado". Talvez eu tenha preferido ter um mau juiz em causa própria do que um bom juiz mas em causa alheia

Como releu toda a sua obra para esta antologia? Como reconheceu os seus poemas? Estranhou alguns, rejeitou outros? Mudou alguns?
Acho que apenas eliminei (e/ou acrescentei, já não me recordo) uma ou outra vírgula. E tenho a vaga ideia de ter igualmente eliminado um ou dois pontos de exclamação.

A CASA E A MELANCOLIA

Desde Os Livros que não publica um volume inédito de poesia.
Tenho um livro praticamente pronto, que julgo que se intitulará Como se desenha uma casa e que inclui poemas inéditos e outros publicados avulsamente em jornais ou revistas.

Se tudo correr bem entregá-lo-ei à Assírio & Alvim lá para o fim do ano.(Mas já no ano passado tinha garantido ao Manuel Rosa que o entregaria no fim desse ano...)

Tem já muitos poemas escritos?
Acho que 90% estão escritos, e 90% desses 90% tenho-os por acabados, até onde uma coisa destas pode ser dita. Como o título do livro sugere, todos esses poemas se organizam, mais claramente ou mais obscuramente, em torno da melancólica temática da "casa", com todas as suas possibilidades simbólicas. Se as coisas permanecerem como estão, terá duas partes, uma intitulada "Ruínas" (título a partir de um verso do poema de abertura: "Uma casa é as ruínas de uma casa") e outra, com avulsos, "Amigos e outras moradas".

E outros livros? Irá voltar à ficção? E à literatura infantil?
De momento não tenho qualquer projeto de ficção. Já no domínio daquilo que costuma designar-se por literatura infantil tenho por aí um ou dois contos inéditos.

E como se sente um poeta distinguido com o Prémio Camões?
Só posso falar por mim, e eu sinto-me um pouco constrangido. Apesar de tudo, cada vez menos conforme o tempo vai passando. Se a coisa continuar assim, acho que acabarei por habituar-me à ideia, mesmo não sabendo bem o que faço eu no meio de nomes como os dos outros premiados.

Ler mais: http://visao.sapo.pt/manuel-antonio-pina-1943-2012-condenado-a-poesia=f692239#ixzz2C2yvALwh

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publicado às 21:39

 

O livro “Como se desenha uma casa”, do escritor Manuel António Pina, recentemente falecido, é o vencedor da 8ª edição do Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, organizado pelo Município de Amarante.

A obra, editada pela Assírio & Alvim, foi escolhida de entre os 166 livros, de cento e cinquenta e nove autores, apresentados a concurso, tendo o júri sido constituído pelos escritores Abel Barros Batista, António José Queiroz, João Paulo Sousa, Joana Matos Frias e Luís Adriano Carlos.

Com entrega marcada para 15 de dezembro, no auditório da Biblioteca Municipal Albano Sardoeira, o Prémio Teixeira de Pascoaes, de periodicidade bienal, foi instituído em 1997, aquando do 120º aniversário do nascimento do poeta.


Ler o resto aqui

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publicado às 19:27


#1770 - À atenção da senhora Isabel Jonet

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.11.12

OS POBREZINHOS



Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros. Na minha família os animais domésticos eram os pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre  pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana, buscar com um sorriso agradecido a ração de roupa e comida.


Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços para poderem ser calçados pelos donos, de preferência rotos para poderem vestir camisas velhas que se salvavam desse modo de um destino natural de esfregões, de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina) deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos e sobretudo manterem-se orgulhosamente fiéis à tia a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder ofendido e soberbo a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria


- Eu não sou o seu pobre eu sou o pobre da menina Teresinha.


O plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era esta gente. No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes e deslocavam-se piedosamente ao sítio em que os seus animais domésticos habitavam, isto é um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à estrada militar, a fim de distribuírem numa pompa de reis magos peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas alvoraçados e gratos e as minhas tias preveniam-me logo enxotando-os com as costas da mão


- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.


Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer moedas aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto


( - Esta gente coitada não tem a noção do dinheiro)


de forma deletéria e irresponsável. O pobre da minha tia Carlota, por exemplo,foi proibido de entrar em casa dos meus avós porque quando ela lhe meteu dez tostões na palma, recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico


- Agora veja lá não gaste tudo em vinho


o atrevido lhe respondeu malcriadissimo


- Não minha senhora vou comprar um Alfa-Romeo.


Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros


- O que é que o menino quer esta gente é assim


e eu entendi que ser pobre, mais que um destino, era uma espécie de vocação como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.


Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o Padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O Padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e a partir da altura em que me revelaram esse milagre tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse


- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar


e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.


Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado Almanaque da Sãozinha, se narravam em comunhão de bens os milagres de ambos, que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos de incenso.


Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me.


E creio que foi por essa época que principiei a olhar com afecto crescente uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.



Crónica de António Lobo Antunes in "Livro de Crónicas", editado por Dom Quixote, 1998

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publicado às 00:37


#1769 - Hino ao pássaro do trovão

por Carlos Pereira \foleirices, em 10.11.12

No lugar sagrado,

na casa feita de aurora,

na casa feita de crepúsculo,

na casa feita de nuvem sombria,

na casa feita de bruma e chuva, de gafanhotos, de pólen,

onde a negra bruma cerra a entrada

- senda aonde o arco-íris leva -

onde os raios rasgam o alto,

ó viril divindade!

Com teus mocassins de nuvens negras, vem até nós,

com calças e camisa e cabeleira de nuvens negras, vem até nós,

com o pensamento envolto em nuvens negras, vem até nós,

com o sombrio trovão por cima, vem voando até nós,

com a nuvem formada aos pés, vem voando até nós,

com a obscuridade formada pela nuvem negra que está sobre a tua

              cabeça, voando vem até nós,

com os raios cruzados ribombando ao alto sobre a cabeça,

com o arco-íris suspenso ao alto sobre a cabeça, voando vem até nós,

com a obscuridade formada nas asas por nuvens negras,

com a longíqua obscuridade formada na ponta das asas por chuva

              e bruma, voando vem até nós,

com os raios cruzados, com o arco-íris suspenso ao alto sobre a ponta

              das asas, voando vem até nós,

com a obscuridade próxima formada por nuvens negras, por chuva

              e bruma, vem até nós,

com a obscuridade da terra, vem até nós.

Que flutue a espuma à tona da água sobre as raízes do trigo alto.

Em tua honra preparei um fogo que fumega,

em tua honra consumei o sacrifício.

Oh, aquece-me os pés,

aquece-me o corpo, os membros, o espírito, a voz.

Afasta o encantamento, aquece-me, favorece-me, afasta o encantamento.

Arrancaste-o de mim, levaste-o para longe, para longe de mim.

E agora curo-me, recupero a força, recupero a frescura,

a frescura sobe-me à cabeça, a força.

Movo-me com movimentos novos, ouço com ouvidos novos, olho com olhos novos.

Caminho, livre do tormento caminho, com uma luz no coração caminho, felizmente caminho.

Quero abundância de nuvens sombrias,

quero abundância de erva,

abundância de polén,

abundância de orvalho.

Que venha contigo até aos confins da terra o belo fermento branco,

que venham até aos confins da terra o belo fermento amarelo, o belo fermento azul,

o belo fermento de todas as espécies,

as plantas de todas as espécies,

os bens de todas as espécies,

as jóias de todas as espécies,

que venham contigo até aos confins da terra.

Que venham contigo à frente, atrás, por baixo, por cima, à volta, que venham contigo até aos confins da terra.

Que se consume a obra.

Avanço dentro da beleza,

com a beleza à minha frente, sim, eu avanço,

com a beleza por trás das minhas costas, sim, eu avanço,

com a  beleza por cima de mim e à minha volta, sim, eu avanço.

Em plena beleza tudo se consuma, sim, tudo se consuma, sim, eu avanço.


América do Norte, Navajos - Versão de Herberto Helder

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publicado às 23:36


#1768 - Jérome Ferrari vence Prémio Goncourt

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.11.12

 

Jérome Ferrari vence o Prémio Literário GONCOURT 2012 com o romance "Le Sermon sur la chute de Rome" (Actes Sud), de acordo com a edição online do jornal "Le Monde"

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publicado às 19:41


#1767 - Nuno Malo - AMÁLIA (2010) - Soundtrack Score Suite

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.11.12

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publicado às 22:00

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publicado às 21:57


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