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#1636 - XVI Prémio Primavera da Novela

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.02.12

 

Fernando Savater, filósofo espanhol, venceu o XVI Prémio Primavera da Novela com a obra "Los Invitados de la Princesa".

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publicado às 12:21


#1635 - O regresso

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.02.12

Como quem, vindo de países distantes fora de

si, chega finalmente aonde sempre esteve

e encontra tudo no seu lugar,

o passado no passado, o presente no presente,

assim chega o viajante à tardia idade

em que se con fundem ele e o caminho.

 

Entra então pela primeira vez na sua casa

e deita-se pela primeira vez na sua cama.

Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,

cidades, estações do ano.

E come agora por fim um pão  primeiro

sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

 

poema de Manuel António Pina retirado do livro "Como se desenha uma casa", edição Assírio & Alvim

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publicado às 12:02


Poeta José Viale Moutinho distinguido pelo PEN CLUBE DA GALIZA

por Carlos Pereira \foleirices, em 27.02.12

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publicado às 16:45


#1633 - José Afonso

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.02.12

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publicado às 18:36


#1632 - À memória de António Nobre e de Cesário Verde

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.02.12

 

À MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE E DE CESÁRIO VERDE

 

Eu comi uma inglesa.

Foi em Sintra. Era feriado.

Com esparregado e essa tinta

mint-sauce. Em português,

molho de hortelã-pimenta

com vinagre. Uma beleza!

Alguma batata frita.

Mas eu quis fetos arbóreos,

musgo das fontes, avenca

e pétalas de camélia,

branca-rósea,

para enfeitar a travessa

e trincar, de quando em quando,

uma pétala na fímbria

das orelhas da inglesa,

dizendo: «O tempo está

tão lindo! Não achas, Daisy?»

 

«I like Shelley« - dizia ela,

cheirando a colégio d'Oxford.

                       «Swift Summer into the Autumn flowed...

 

tem tradição. Vem dde Chaucer.»

 

«Eu também gosto» - eu disse,

paraninfo de Euricides -

«porém prefiro John Keats.

I stood tip-toe

Upon a little hill

tem mais naturalidade.

É como se estivesse aqui.

Quanto ao Byron, tu bem sabes

como ele soube viver Sintra:

A glorious Eden inhabited

by savage Lusitanians.

À sova não me refiro.

Tudo isso é história antiga».

«It's true! É verdade!»

(disseste-o, desmemoriada,

mas reticente...

e dobraste-me a parada)

«Mas não esqueça o que ele sofreu

quando dizer lhe vieram:

Shelley morreu.

- Atravessou o Helesponto

a nado!...

I weep for Adonais...»

 

 

«Não, não é.» - contestei eu.

«Isso é do Shelley, dedicado

a Keats.

I weep for Adonais

because he is dead.

 

Eu choro Adonais

porque morreu.

 

Não está mal... a tradução,

mas tem razão!

Eu sou português e não

falo com a boca cheia.

Esta mania lusíada

de cuspir no chão é feia.

Nós não vivemos na selva.»

 

E ela, tola-lograda:

- «Dont be silly. Há o fado!

I like fado. Não gostas!

Tu tens a melena cheia

de brilhantina. You look

almost like a fadista!»

 

Passei  a mão pela testa

e desgrenhei a madeixa,

dizendo: - «Queres morangos,

figos, amoras ou beijos?...»

 

................................................

 

«Obrigado, obrigado, Daisy.

Não sei se estás a troçar

ou a brincar...

pulling my leg para ti.

Mas, enfim, vamos passear

até ali.»

 

(No fundo, o que eu desejava

era mordê-la na boca,

meter-lhe a mão entre os seios,

voar a cavalo nela.)

 

Foi uma tarde acabada

na relva, sob pinheiros,

chamaecyparis, ulmeiros,

sequóias, abetos, faias

e a cor azul das hortênsias.

 

Foi sobre a relva orvalhada

pelo frescor de um riacho,

quando o sol obliquava

e em volta era tudo selva,

que eu comi uma pantera

escura, feroz, inglesa,

com o cheiro de violetas

debaixo do meu nariz.

 

(Fulva, para quem quiser

modas pré-rafaelitas,

a pantera! Tanto faz!

Ou morena. Convenção

como convém a uma inglesa

convencional, de ocasião.)

 

E quando nos despedimos

- era noite, havia estrelas -

disseste com essa fleuma

que tão mal me fica a mim:

- «I'll see you latter. Do come.

Vem amanhã tomar chá.

Eu gostar muito de ti.»

 

Loira, era loira a inglesa

que eu comi...

Verde, devia dizer.

Branca-rósea, uma camélia,

que eu comi, ou que colhi.

Já nem sei...

A savage Lusitanian,

dei-lhe só o que ela quis.

Ou queria...

Com peitinhos de perdiz

e alguma poesia:

 

The air was cooling

And so very still.

 

Poema de Ruy Cinatti (1915-1986) Memória Descritiva, 1971

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publicado às 18:39


# 1631 - XC

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.02.12

 

XC

 

Pouco é o homem e, no entanto, nele

cabe tudo o que existe e fica ainda

espaço bastante para poder negá-lo.

 

Poema de Armindo Rodrigues (1904-1993) in Beleza Prometida, 1950

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publicado às 18:29


#1630 - Nevoeiro

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.02.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NEVOEIRO

 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com pefil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer -

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

 

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia diatante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

 

É a Hora!

 

 

Poema de Fernando Pessoa [Ortónimo] in Mensagem, 1934

 

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publicado às 18:19


#1629 - O debate do coração e do corpo de Villon

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.02.12

François Villon 

 

O debate do coração e do corpo de Villon

 

 

Que ouço? - Eu! - Quem? - O teu coração

Preso já só por um pequeno fio:

Força não tenho, nem substância ou pavio,

Quando te vejo caído em solidão

Mui encolhido como um triste cão.

- E porque então? - É por teu louco agrado.

- E que te importa? - Produz-me desagrado.

- Deixa-me em paz. - Porquê? - Logo verei.

- Quando? - Quando de infância sairei.

- Não direi mais. -Pois não me causa enfado.

 

- Em que é que pensas? - Ser homem de valia.

- Tens trinta anos - É a idade de um burro.

- Será infância? - Por nada. - Então folia

Que te apanhou? - Por onde? Pela guia?

- Não faço ideia. - Então! O leite esturro:

Ora branco, ora preto, e não queria.

- Pois é só isso? - Terei eu mal contado?

Se for preciso, mais outra te direi.

- Estás perdido! - Mas lá resistirei.

- Não direi mais. - Pois não me causa enfado.

 

- Eu tenho pena; e tu, mal e tormento.

Se fosses tolo e também fosses lento,

Talvez tivesses desculpas encontrado:

Tudo te seria igual: o bom e o mau.

Ou tens a testa mais dura que um calhau,

Ou antes queres ser sofredor que honrado!

Que dizes tu de tal consequência?

- Que tudo acaba quando estarei finado.

- Deus, que conforto! Que sábia eloquência!

- Não direi mais. - Pois não me causa  enfado.

 

- E de onde vem o dano? - Da desventura.

Quando Saturno me fez cabeça dura,

Esses males lá pôs, creio. - É loucura:

Nela governas, está tudo em tua mão.

Vê bem o que escreve o rei Salomão:

«O homem sábio, diz ele, tem potência

Sobre os planetas e sua influência.»

- Não me acredito: Fui assim forjado.

- Que dizes? Tal e qual! É a minha crença.

- Não direi mais. - Pois não me causa enfado.

 

- Queres viver? - Deus me dê competência!

- Terás... - O quê? Pesar de consciência,

E ler sem fim. - Como? - Ler com ciência,

Deixar os tontos! - Porei isso de lado.

- Pois não te esqueças! - Prestei o maior tento.

- Se muito esperas será um descontento.

- Não direi mais. - Pois não me causa enfado.

 

Poema de François Villon, poeta francês, traduzido por Filipe Jarro

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publicado às 19:50


#1628 -

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.02.12

Olho o céu sem fim

à espera de ver a estrela que tu vês

 

Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado

à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume

 

Enfrento os ventos

à espera que tragam uma mensagem tua

 

Vagueio sem destino

à espera de ouvir uma canção que fale de ti

 

Olho as mulheres que encontro sem outra intenção

que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos

 

Poema de Al-Thurthusi traduzido por Jorge Sousa Braga

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publicado às 22:57


#1627 -

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.02.12

Fantoches feitos de pau e trapo,

pareceis mesmo gente viva.

Manejando-vos com os dedos,

três voltinhas dais,

e assim se passa o tempo.

 

Mas quando as mãos do homem

vos recolhem atrás do pano,

desvanece-se a ilusão.

Nós somos todos fantoches:

sonhamos que existimos.

 

 

Poema traduzido por António Ramos Rosa escrito por Hu-Han-Tsing (685-762) - China

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publicado às 22:50


#1626 - Os filhos de Eva

por Carlos Pereira \foleirices, em 20.02.12

OS FILHOS DE EVA

 

 

Eva, mulher de Adão, concebeu trinta filhos. Um dia, Ygziabier, Deus-Pai, ordenou a Eva que lhe mostrasse os seus filhos. Eva suspeitou que Deus lhe quisesse comer a descendência e escondeu os seus quinze filhos mais belos e apenas lhe mostrou os outros quinze. Mas Deus, que tudo conhece, soube que Eva escondera parte dos seus filhos, e por isso, como castigo do acto de Eva, amaldiçoou e deserdou aqueles que ela subtraíra à sua presença.

 

Os quinze filhos escondidos de Eva tornaram-se os Zar, os seres satânicos que habitam invisíveis a terra. Ficaram para sempre invejosos dos seus irmãos protegidos por Deus-Pai, que deram origem a Jesus Cristo e aos antepassados do povo Amhara. Magoados e revoltosos, procuram desde a sua queda vingar-se dos homens mortais.

 

Texto traduzido por Manuel João Ramos e originário da Etiópia, Amhara, retirado do livro Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro - edição Assírio & Alvim

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publicado às 22:34


#1625 - Down In The Fire (Lost Sea) - Believers - A A Bondy

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.02.12

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publicado às 20:13


#1624 - Joe Bonamassa - Django - Live at Royal Albert Hall

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.02.12

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publicado às 19:05


#1623 - Como se desenha uma casa

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.02.12

 

Como se desenha uma casa

 

Primeiro abre-se a porta

por dentro sobre a tela imatura onde previamente

se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,

a mãe para sempre morta.

 

Anoiteceu,  apagamos a luz e, depois,

como uma foto que se guarda na carteira,

iluminam-se no quintal as flores da macieira

e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

 

Protege-te delas, das recordações,

dos seus ócios, das suas conspirações;

usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos;

o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

 

Uma casa é as ruínas de uma casa,

uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;

desenha-a como quem embala um remorso,

com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

 

Poema de Manuel António Pina in "Como se desenha uma casa"

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publicado às 00:45


#1622 - As diferenças que explicam muita coisa

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.02.12

Presidente alemão apresenta a demissão

O Presidente alemão, Christian Wulff, acaba de apresentar a demissão do cargo, por causa do seu envolvimento num alegado caso de corrupção. Será substituído interinamente pelo presidente do Bundesrat, Horst Seehofer (CSU). A chanceler Angela Merkel cancelou em cima da hora uma viagem a Itália, e também convocou os media para uma conferência.

 

E em Portugal???

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publicado às 12:20


#1621 - Novo romance de Roberto Bolaño

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.02.12
Novo romance de Roberto Bolaño

Chama-se Pista de Gelo. É a mais recente tradução portuguesa de um livro do escritor chileno Roberto Bolaño e chega às livrarias no dia 6 de Março, pela mão da editora Quetzal.

 

O romance, escrito em 1993, narra a história da morte da bela patinadora Nuria Marti. É contado pela voz de três narradores, três homens e constrói-se sobre as linhas características do projeto narrativo de Roberto Bolaño: um espaço de reflexão sobre a corruptibilidade dos políticos, sobre a ação perturbadora do amor, sobre o desenraizamento, amizade e a dissolução dos sonhos.

 

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publicado às 12:07


#1620 - Correspondências > Fernando Pessoa a Ofélia

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.02.12


 

Meu Be«be»zinho lindo:

Não imaginas a graça que te achei hoje à janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
Tenho estado muito triste, e além d’isso muito cansado – triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d’essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado…
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria à minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
Enfim…


 

Amanhã passo à mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
Sempre e muito teu

 

 

In: PESSOA, Fernando. Cartas de Amor. Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.3ª ed. Lisboa: Ática, 1994.

 


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publicado às 11:53


#1619 - Correspondências > Camilo Castelo Branco

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.02.12

 

Ill.mo e Ex.mo Sr.

Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho.

Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.

Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.

Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex.a. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.

Poderá V. Ex.a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.

Mas poderá V. Ex.a dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?

Digne-se V. Ex.a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece.

Camilo Castelo Branco

(Última carta de Camilo Castelo Branco ao Dr. Edmundo de Magalhães Machado, seu médico oftalmologista)

 

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publicado às 23:04

 

 O filósofo, ensaísta e professor universitário José Gil foi galardoado com o Prémio Vergílio Ferreira 2012, instituído pela Universidade de Évora, revelou a academia alentejana.

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publicado às 22:04


#1617 - fantasporto 2012

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.02.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Ver programação aqui

 

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publicado às 18:25


#1616 - Marc Chagall: o poeta da pintura

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.02.12

'La habitación amarilla' (1911), Fondation Beyeler, Riehen/Basel.

 

'La novia de las dos caras' (1927). Colección privada

 

'El poeta tumbado' (1915). Tate: adquirido en 1942

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publicado às 21:27


#1615 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.02.12

Aquele que botar as mão sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo.

 

Pierre-Joseph Proudhon


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publicado às 18:44


Durou pouco o sonho português de se vir a perceber como regular o trânsito sexual, por forma a tornar o orgasmo simultâneo. Uma sexóloga preparava-se para revelar o segredo no salão erótico do Porto, mas a Troika emitiu um comunicado onde diz que os casais têm de optar, uma vez que só um deles pode gozar. O outro deve estar a trabalhar.

 

«É verdade que Portugal está a fazer bem o trabalho de casa, mas os mercados não vão compreender se virem os casais à procura do orgasmo simultâneo com a bancarrota a espreitar», afirmou o senhor do FMI, que explica: «Enquanto a crise não passar, recomenda-se que o casal decida quem vai gozar dessa vez. Depois é fácil, um goza, o outro passa o coito a trabalhar.»

 

Contactados pelo Imprensa Falsa, os portugueses mostraram-se descontentes com mais esta medida de austeridade, mas também recordam que sempre foi assim. «A bem dizer, sempre houve um que gozava e o outro "trabalhava", se é que me entende. Mesmo no tempo do senhor doutor Cavaco e Silva, já era assim. Um gozava e o outro trabalhava, não havia cá orgasmos simultânicos. E naquela altura ainda havia os fundos da C.E.E. Agora veja lá...», recorda Simoneta, casada com Armando, que foi abanando afirmativamente a cabeça durante a resposta da mulher, tendo concluído, já no final, «é verdade, sim senhor».

 

Post retirado do blog 

IMPRENSA FALSA

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publicado às 21:57


#1613 - Um hino à imbecilidade

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.12

 

os tiques parolos e grotescos da alemã Angela Merkel. Um monumento vivo da imbecilidade.

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publicado às 23:44


#1612 - os sem-abrigo não vão sair de casa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.12
A secretária de Estado da Saúde francesa escreveu, a propósito da vaga de frio: «as pessoas mais vulneráveis devem evitar sair de casa, sobretudo os sem-abrigo, as crianças e os idosos». Isto não é uma gaffe. É um modo de pensar da maior parte dos governantes na Europa. A sua «zona de conforto» está distante da realidade. Os «sem-abrigo» são uma categoria estatistica, como «os jovens desempregados» ou os «reformados» ou o «salário minimo». Eles não sabem que os sem-abrigo não têm casa, como não sabem como conseguem viver os desempregados ou, mesmo os que trabalham, mas que recebem o salário minimo. Eles não fazem a menor ideia. É por isso que dizem que  todos eles «vivem acima das suas possibilidades» e, por isso, ainda os empobrecem mais.



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publicado às 21:52


#1611 - AS FANTÁSTICAS SALAS DO CONHECIMENTO

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.12

Biblioteca da Universidade de Coimbra (1290), Portugal

 

Ao longo de toda a existência, o homem sempre buscou formas de perpetuar o seu conhecimento e transmiti-lo a gerações futuras. O que seria da história ou do conhecimento se os episódios e vicissitudes da humanidade não estivessem escritos e armazenados em algum lugar? Simplesmente seriam factos que muito rapidamente se tornariam lendas.

Todos nós temos um local que nos fascina. Um local que possui uma aura quase mágica que nos faz pensar e reflectir sobre os mais diversos aspectos. Um dos locais que mais me fascina e atrai é uma biblioteca antiga, cheia de livros e conhecimento. Percorrer o mesmo local que alguém percorreu há centenas de anos, prateleira após prateleira, armário após armário, com livros que outrora foram a única porta aberta para o conhecimento e evolução da própria humanidade é uma experiência arrebatadora.

Saber que alguns dos livros de uma biblioteca foram outrora folheados por alunos e mestres que muito possivelmente alteraram a realidade humana através dos seus contributos em áreas como a medicina, filosofia, engenharia ou poesia, torna toda a experiência de estar num local destes, no mínimo, fascinante.

Deixo-vos algumas imagens destas fantásticas salas de conhecimento.

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Real Gabinete Portugues De Leitura Rio De Janeiro 3
Real Gabinete Português de leitura (1837), Rio de Janeiro, Brasil (talvez um dos espaços mais cativantes)

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Stiftsbibliothek-St.-Gallen ()
Biblioteca Abbey (613), Suíça

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Biblioteca Do Palacio E Convento De Mafra I
Biblioteca do Palácio e Convento de Mafra (1715), Portugal

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt 1304080426 C394A4E76D O
Biblioteca Strahov (1143)- Sala Teológica - Praga, República Checa

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Peabody Library
Biblioteca George Peabody (1857), USA

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Bibliothek.Admont Gesamt
Biblioteca do Mosteiro Beneditino (1074), Áustria

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Melk-Library Small
Biblioteca do Mosteiro de Melk (1089), Áustria

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Sansovino's Library 2
Biblioteca Sansovino (1560), Roma

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Trinity-College-Library-Dub ()
Biblioteca do Colégio de Trinity (Séc. XVI), Dublin, Irlanda

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Vatican
Biblioteca do Vaticano (Séc. IV), Vaticano, Roma

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt Vienna Austrian National Library
Biblioteca Nacional de Áustria (1493), Vienna, Áustria

 Biblioteca Livros Conhecimento Cultura Europa Austria Suica Italia  Obvious.Pt 202146600 37B58Ca97A
Biblioteca Klementium, Praga, Republica Checa


publicado em artes e ideias por benjamin júnior

Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2007/11/as_fantasticas.html#ixzz1lpOV3Qq0

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publicado às 21:21


#1610 - Os insustentáveis

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.02.12

por BAPTISTA BASTOS

 

Aguiar-Branco chegou e disse. Na cara de generais, coronéis e afins, decretou que a tropa, tal como está, é financeiramente insustentável. A afirmação caiu mal, ainda por cima porque pressupunha a redução drástica de efectivos. É um sinal dos tempos. Desde que este Governo ascendeu ao poder, fomos sabendo, com sobressalto e resignação, que a pátria é insustentável. Na saúde, na educação, na assistência social, na justiça, na segurança, nos transportes públicos, na RTP, na RDP, nas pensões e nas reformas, sem a supressão dos subsídios de férias e do décimo segundo mês, com a manutenção da tolerância de ponto no Carnaval, a pátria não consegue sustentar-se a si mesma. Pergunta-se: então, como se aguentou, até agora? Com dívidas, golpadas, ardis e manigâncias?

 

Nesta teoria de "insustentabilidade", os próprios portugueses estão incluídos. O Governo não sabe o que fazer deles, e incita-os a emigrar, com o descaramento de quem é incapaz de solucionar o problema e assim dissimula a sua incompetência política e ética.

 

Mas as coisas complicam-se. E as decepções vão-se acumulando. A solidariedade parece estar desempregada na Europa. O imigrante é olhado de soslaio. Uma das facetas essenciais do neoliberalismo é reduzir a democracia às funções de "superfície" e estimular o individualismo. O "estrangeiro" é o inimigo. A possibilidade de escolha, apanágio das sociedades democráticas, dissolveu-se: não há oásis; o conceito de pluralidade transformou-se numa hostilidade que ronda a abjecção. O jornalista Noé Monteiro, correspondente na Suíça da RTP, foi o autor, no domingo, p.p., de uma pungente reportagem sobre portugueses que tentaram fugir à fome e à miséria e entraram num outro crisol do inferno. A Suíça, outrora acolhedora, embora áspera e burocrática, ela própria feita de politeísmo de culturas e de valores, é uma incerteza irredutível. O neoliberalismo impôs a normalização das estruturas e dos comportamentos. O mundo, hoje, é um lugar de vazio, de afronta e de desumanização.

Em Portugal, ameaçados pelas contingências de uma filosofia política que alastrou como endemia, os portugueses não sabem que fazer. Aliás, como as hesitações, as derivas e as perplexidades de quem nos governa. Esta gente quer-nos levar para aonde?

 

Parece que ninguém possui capacidade e talento para enfrentar a realidade circundante. "Todos somos culpados." A frase, utilizada por quem, realmente, é responsável, serve de encobrimento a uma experiência político-económica que deixou a Europa de rastos e promoveu a mediocridade como norma. O surgimento de Merkel e de Sarkozy pertence a essa lógica do absurdo, incapaz de resolver a complexidade criada pela sua própria irracionalidade.

 

Estamos num ponto da História em que todos somos "insustentáveis".

 

In "Diário de Notícias"

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publicado às 20:29


#1609 - Leitura de Blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.02.12

Pieguices

 

Canos de armaUm pai chega a casa e diz à família:

Devemos persistir e exigir.
Depois da vossa mãe ter falido e de lhe terem retirado o subsídio de desemprego tiveram de sair da escola onde andavam e deixámos de poder pagar aquelas pequenas coisas que nos iam mantendo o sorriso.
Nada de grave, não sejam piegas! Continuámos a ter sopa, casa e roupa lavada.

Hoje a minha empresa informou que não consegue pagar o salário pelo terceiro mês consecutivo.
Não quero ser piegas mas acabou-se a sopa, entreguei a casa e não há mais detergente para a roupa.
Custe o que vos custar, aguentem-se, não sejam piegas!

Dito isto meteu o revólver na boca e puxou o gatilho.
Post retirado do blog "A Barbearia do Senhor Luís"

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publicado às 20:00


#1608 - Corrente d'Escritas 2012

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.02.12

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publicado às 18:46

 

La verdad a juicio en España. Así se titula el editorial que el prestigioso diario estadounidense The New York Times publica hoy en defensa del juez Baltasar Garzón. "España es ahora una democracia viva, pero el juicio contra Baltasar Garzón iniciado la pasada semana [el de la memoria histórica] es un preocupante eco del pensamiento totalitario de la era de Franco", asegura la cabecera para quien el juez estaba amparado por el derecho internacional cuando estableció que ante crímenes contra la humanidad no podían aplicarse leyes de amnistía. "Miles de fosas siguen cerradas", recuerda el diario.

 

el país

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publicado às 00:31

Museu Casa das Mudas, na Calheta, é um dos trabalhos deste madeirense

 

O arquitecto Paulo David recebeu a Medalha Alvar Aalto 2012, na Gala Capital World Design realizada no Hall Sibelius de Lahti, na Finlândia.

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publicado às 00:07

 

O pintor e arquitecto Fernando Lanhas, uma das maiores referências das Artes Plásticas portuguesas, morreu no sábado, aos 88 anos, em sua casa, no Porto.

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#1604 - O fim do mundo num gemido

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.02.12

 

A quantas cimeiras de homens ocos teremos de assistir antes de o nosso mundo acabar com um gemido?

 

Clara Ferreira Alves, in pluma caprichosa, Revista 2019, de 4 de Fevereiro de 2012

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publicado às 18:42

Antonio Negri, conhecido por Toni Negri, é um pensador e activista italiano. É autor de uma vasta obra em que o pensamento político radical se mistura com a filosofia de Espinosa. Foi dirigente da organização de extrema-esquerda Poder Operário. Esteve preso. É nome cimeiro da corrente marxista autonomista.

 

Num dos seus muitos livros, Antonio Negri fala de Kairòs, o momento em que Deus toca na história; este filósofo italiano que nasceu em Pádua em 1933 já viu muitas vezes a história ser feita. E pagou o preço por isso. Acusado, por “arrependidos”, de ser o mentor ideológico das Brigadas Vermelhas, esteve preso. A Itália assustada com o terrorismo de extrema-direita e de extrema-esquerda precisava de exorcizar os seus fantasmas, mesmo que isso significasse acusar falsamente. Tem uma vasta obra escrita, em que se destaca, depois da sua libertação da prisão, “O Império”, escrito com o norte-americano Michael Hardt. Esteve em Lisboa para falar de manifestações e dos novos manifestos que aí vêm.

 

Ler a entrevista aqui por Nuno Ramos de Almeida

 

 

Vídeo relativo à presença de Antonio Negri em Outubro de 2011 na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira


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publicado às 19:10


#1602 - O poeta e o mundo

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.02.12

O poeta e o mundo

por Wislawa Szymborska

 

 

Wislawa Szymborska nasceu em 1923, no vilarejo polonês de Bninie. Mora em Cracóvia desde os 8 anos. Levou uma vida singela, sem grandes atropelos. Durante a Segunda Guerra, foi funcionária do departamento de estradas de ferro. Mais tarde, trabalhou como secretária, ilustradora e, durante décadas, como editora de uma revista cultural. Começou a escrever poesia aos vinte e poucos anos. Em 1949, seu primeiro livro foi censurado pelo regime comunista, que o considerou obscuro demais para as massas. Talvez Szymborska tenha levado a sério a advertência, pois a obra que viria a consagrá-la é de uma desafetação exemplar. A dicção é coloquial, despojada de retórica e efeito poético. São poemas claros como água pura.

Mas é possível espantar-se com a água, e assim é Wislawa Szymborska: ela se surpreende, seja com as miudezas da vida, seja com os horrores da História. É uma poesia do assombro. Há um espanto de natureza quase darwiniana, suscitado pelo fato de estarmos aqui - nós e não outros. Há o que nasce da consciência de que ninguém está no centro de nada, de que o mundo segue adiante sem o nosso testemunho. Quanto à História, Szymborska a enfrenta sem abrir a guarda para sentimentalismos. O pior acontece, e será esquecido.

Em 1996, a poeta ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida fora da Polônia. Foi talvez o único sobressalto de sua vida. No Brasil, Ana Cristina Cesar e Nelson Ascher traduziram alguns de seus poemas. Regina Przybycien, professora da Universidade Federal do Paraná, publicou na revista Oroboro uma pequena seleta de traduções. piauí publica nove poemas traduzidos em conjunto por Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczyn´ska da Nóbrega; ele, a partir da tradução inglesa, ela, do original polonês. O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.

***

Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.

Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa mui¬to mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.

Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.

Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.

Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?

Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.

Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".

Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.

Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.

Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.

É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.

Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".

Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.

E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."

O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.

Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.

Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera.

 

 

IN  REVISTA PIAUÍ

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publicado às 01:26


#1601 - POR UM ACASO

por Carlos Pereira \foleirices, em 04.02.12

POR UM ACASO

 

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

 

Poema de Wislawa Szymborska

 

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publicado às 01:22


#1600 - Morreu a poetisa polaca Wislawa Szymborska (1923-2012)

por Carlos Pereira \foleirices, em 03.02.12

 

A poetisa polaca Wislawa Szymborska, Prémio Nobel da Literatura em 1996, morreu hoje, aos 88 anos, informou o seu secretário pessoal, citado pela agência noticiosa polaca PAP.

Michal Rusinek disse que a escritora morreu "tranquilamente durante o sono", em casa, na cidade de Cracóvia.

O Comité do Nobel considerou-a o "Mozart da poesia", a mulher que misturou a elegância da linguagem com "a fúria de Beethoven".

Além do Nobel da Literatura, em 1996, a poetisa foi galardoada com o Prémio Goethe, em 1991, e com o Herder, em 1995.

 

 

O TERRORISTA, ELE OBSERVA

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.

Tradução: Nelson Ascher
(Versão realizada a partir da versão inglesa de Adam Czerniawski e da
norte-americana de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire)

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publicado às 23:12


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