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#837 - A luta continua... a chuva para a rua!

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.06.09

 

Pedro Tochas  promove mega manifestação em Lisboa

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publicado às 12:23


#836 - Retratos sociais

por Carlos Pereira \foleirices, em 29.06.09

"Portugal tem 1,8 milhões de pobres. Por coincidência, é esse o número de reformados existentes no país e cuja pensão média é de 385 euros. Mas uns serão mais pobres do que outros. Só os de Lisboa e Setúbal ganham, em média, acima do salário mínimo." ....

Artigo de Alexandra Figueira no "JN" de hoje

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publicado às 12:07

 

 

 

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publicado às 11:43


#834 - Leitura de blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.06.09

Porcaria católica apostólica romana

 

Segundo os cálculos do Vaticano, 4% dos sacerdotes católicos (20.000) são criminosos pedófilos. Limpem as mãos à parede com essas da castidade e do celibato.


Publicado por João Tunes às 22:54


Post retirado do blog de João Tunes

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publicado às 15:27

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publicado às 15:15


#832 - O Irão - as imagens da rebelião

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.06.09

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publicado às 13:43


#831 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.06.09

"O BCP continua a roubar ainda hoje em dia, posso provar..." Joe Berardo, ontem, no

CM-online

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publicado às 12:46


#830 - Leitura de Blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.06.09

ERUDITO E PORNOGRÁFICO


José de Guimarães

Traz o sorriso dentro de um bolso. Usa-o em correcta medida. Cansa-se em corridas pela cidade, coisa de muita importância para quem acredita. Entra na sala cheia de poucas pessoas e encosta-se ao balcão. Ao canto olha melhor para todos. A tatuagem escondida na perna significa muito, tudo.
É cordial. Tira o sorriso do bolso quando a conversa inquieta. Escolhe o momento. Em silêncio diz que está, para continuar o caminho ou para travar a fundo.
Todos os dias de manhã, o copo de leite serve de desculpa. Bebe em goles pequenos, enquanto olha para o que à volta lhe interessa. Coisa pouca o interrompe. Dentro, para lá da cara bonita e do corpo vitaminado, existe outro, bem mais inteiro.
A gargalhada é ferramenta de trabalho e de alguma defesa. Encetou vida muito cedo, construiu valores sólidos. Olha para a frente com a convicção conduzida pelas pernas que correm todos os dias.
As mãos são sinal de um trabalho na alma e na terra, capaz de agarrar mundos distintos. Quando pega no copo cheio do que pediu e lhe foi concedido, percebem-se as intenções.
A atitude ocupa espaço. Perto de quem se encosta ao balcão, a energia é diferente. Agora é tempo de convívio, pensa. Ouvem-se dislates e todas os risos se soltam, todos os corpos balançam. A sala alheia-se do que, no canto, acontece. Melhor assim.
Olha nos olhos de quem lhe fala. Atento. Disse-me, um dia, que a erudição e a pornografia se podem ver no sorriso das pessoas. Assenti.

Publicado
 
 

 

Retirado do Blog "A DOBRA DO GRITO"

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publicado às 12:37


#829 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 25.06.09

"Não aumentarei os impostos"

Promessa de Manuela Ferreira Leite se ganhar as eleições


"Se Moniz sair da TVI será escandaloso"

Manuela Ferreira Leite em entrevista ao Diário de Notícias

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publicado às 12:04


#828 - Prémio máximo do PhotoEspaña para o malinês Malick Sidibé

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.09

O Prémio PhotoEspaña Baume&Mercier 2009 foi entregue ao fotógrafo do Mali,  Malick Sidibé pelos seus retratos do quotidiano feitos durante as décadas de 1960 e 70. Para o júri, o prémio foi entregue a um fotógrafo com "qualidades excepcionais de retratista" que é já um dos mais célebres profissionais do sector em África.

O fotógrafo captou, através dos trabalhos feitos no seu estúdio, o Studio Malick, e nas ruas de Bamako, a capital do Mali, "um período importante da história africana, que foi uma etapa de emancipação, de revoluções culturais, de orgulho e de esperança no futuro", descreve ainda o júri de um dos mais importantes eventos da fotografia mundial.

O prémio consiste em 12 mil euros, na compra da sua obra e num troféu criado pelo pintor e artista gráfico Eduardo Arroyo.

Malick Sidibé foi já distinguido, no passado, com o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, com o Prémio Hasselblad (Suécia) e do Centro Internacional de Fotografia de Nova Iorque. Com o prémio na PhotoEspaña deste ano, Malick Sidibé congratulou-se por poder ter "transmitido a mensagem de África a todo o mundo".

Também ontem foram divulgados os restantes prémios do PhotoEspaña 2009, entre os quais o galardão Bartolomé Ros para a melhor trajectória espanhola na fotografia, um prémio para a carreira de Isabel Muñoz, fotógrafa "valente e especial" nas palavras da responsável pelo prémio, Rosa Ros, em declarações ao diário espanhol ABC. O prémio Bartolomé Ros tem também um valor pecuniário de 12 mil euros.

Entre os restantes galardões do evento que este ano teve exposições em Madrid, Cuenca e duas mostras em Portugal, no Museu Colecção Berardo, contam-se o Prémio Festival Off Saab para a exposição Acidentes de Jin Shi (Galeria Magee), o Prémio do Público M2-El Mundo para a exposição Resiliência (Instituto Cervantes), o Prémio Descubrimientos PHE Epson para a fotógrafa mexicana Alejandra Laviada (que assim terá uma exposição na próxima edição do PhotoEspaña) e o Prémio Revelação para Carlos Sanva, o Prémio Valores Humanos para a fotógrafa Simona Ghizzoni pelo trabalho Odd Days. [publico.pt]

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publicado às 22:56


#827 - "O verdadeiro Madoff é o sistema financeiro"

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.09


Taleb diz que crises haverá sempre, mas que se pode trabalhar para evitar grandes impactos no futuro. Destruir o sistema bancário, por exemplo.


Corrosivo, stressado, agressivo no discurso, mas cordial. Nassim Teleb, filósofo natural do Líbano, cidadão dos Estados Unidos, já foi corretor de bolsa. Chegou ontem a Lisboa. Falou sobre os males da ordem política e económica mundial. Diz-se conservador, chama nomes aos professores de Harvard, tem pouca fé na humanidade. Diz que ninguém no poder o ouve. Está pessimista porque errar é humano. E cometer erros fatais, como os que levaram a esta crise, também.


Ler Entrevista no "i"

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publicado às 12:47


#826 - Lançamento de ‘Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis’

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.09

 

O volume Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis (Texto), que reúne ensaios de José Barreto, Steffen Dix, Patricio Ferrari, Sara Afonso Ferreira, Ana Maria Freitas, Carla Gago, Manuela Nogueira, Rita Patrício e Jerónimo Pizarro (com organização deste último, membro da Equipa Pessoa), é apresentado esta tarde, a partir das 18h30, na Casa Fernando Pessoa, pela sua directora, Inês Pedrosa.

 

Post retirado do blog "Bibliotecário de Babel"

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publicado às 12:38


#825 - O novo romance de Miguel Sousa Tavares

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.09
 
Extractos do próximo romance de Miguel Sousa Tavares, No Teu Deserto, a lançar pela Oficina do Livro no final da primeira semana de Julho:
 
 
«Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.»

«Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o que era extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, suspensa, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.»

«Parecia-me que já tínhamos vivido um bocado de vida imenso e tão forte que era só nosso e nós mesmos não falávamos disso, mas sentíamo-lo em silêncio: era como se o segredo que guardávamos fosse a própria partilha dessa sensação. E que qualquer frase, qualquer palavra, se arriscaria a quebrar esse sortilégio.»

«Eu sei que ela se lembra, sei que foi feliz então, como eu fui. Mas deve achar que eu me esqueci, que me fechei no meu silêncio, que me zanguei com o seu último desaparecimento, que vivo amuado com ela, desde então. Não é verdade, Cláudia. Vê como eu me lembro, vê se não foram assim, passo por passo, aqueles quatro dias que demorámos até chegar juntos ao deserto.»
 

Apresentado como «Quase Romance», No Teu Deserto terá apenas 128 págs.

 

Post retirado do blog "Ler"

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publicado às 12:32


#824 - Ismaíl Kadaré, Príncipe das Astúrias das Letras

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.06.09

 

Ismaíl Kadaré, 73 anos,  escritor Albanês, mostrou-se surpreendido por ter ganho o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras. O seu nome fazia parte de uma lista muito restrita de finalistas como Tabucchi, Kundera, Nooteboom e McEwan.

 

Os seus livros estão traduzidos em mais de 40 idiomas.

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publicado às 11:54


#823 -Ana Luísa Amaral

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09



EPOPEIAS DE LUZ

I


Queria um poema de epopeia

e luz,

escrito às duas da tarde

e num café

o espelho à minha esquerda,

o café amarelo  (que é  cor de que não gosto,

mas que brilha

na tarde adolescente)


Se eu não tivesse olhar

mas só ouvido atento a pequenos ruídos,

como uma voz e coisas indistintas:

o café a sair para lá do balcão,

uma cadeira de ferro

pintado

a arrastar-se de súbito...


Incongruências de quem tem olhar:

que no poema de epopeia

e luz

eu fale do que é táctil, mas se vê

(Ah! linha que seduz,

mas que contenho!)


Atirar a palavra pelo chão

com o abandono todo

da adolescência em tarde,

tantas horas de sol à minha frente

Deixá-la navegar como se fosse gente

quinhentista:

ao longo do desejo

e para lá


À minha esquerda,  o espelho

que a reflicta

a multiplique em sons e em sentidos,

lhe evite idade adulta

e a guarde finalmente:

adolescente e nua

como a tarde


Até que dela nasça,

navegando,

poema de epopeia sem o ser,

mas corpo todo em luz e boa-esperança:

como um Adamastor,

uma criança

uma sereia abandonada

e livre


II


Mas o Adamastor era uma rocha

e as sereias não há (que as provas: mais)

Minha pobre palavra que traí:


Antes tê-la deixado

contida nessa linha a seduzir,

antes tê-la guardada no centro

do olhar,

não lhe permitir ver espelhos de sol,

não lhe falar de adolescência

e luz, navegações e sonhos

quinhentistas


Que depois a conquista,

o coração pesado de ambições,

tortura de poderes


Minha pobre palavra

que se julgou, por minha culpa,

grande,

e que às duas da tarde e num café

se confundiu no espelho,

tomou por ouro o amarelo em cor,

e se perdeu de amores

por réplicas de olhar


III


E porque não agora,

às quatro da manhã?

Assim eu do naufrágio a salvaria:

não tarde adolescente

mas madrugada rebentando águas,

o fim do sortilégio


Queria então hoje

(as vinte e quatro horas

quase lé

e o remorso ausente do pensar):

um poema que fosse de epopeia

e luz

mas desta vez na cama

e devagar


Deixá-la resvalar

pelos lençóis e,

como o tempo é indeciso e nu,

ela sem perigo de se comover


Ela sem perigo

de se seduzir

no que seduz em réplica

de tudo


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publicado às 16:03


#822 - Eusa Freire

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09

CALUNDU


I


MÃE

faça-me chorar um choro de criança

esse que se desconcerta pelos cantos da casa

ou continua se descontinuando...

carros-de-bois - um som antigo

ou cantos de galos arqueados no tempo

em vizinhanças brumosas         sem contornos


                                                                        2-7-1987


II

MÃE

faça-me chorar um choro de criança

esse, um só e agudo cristal de lágrima

encravado aqui onde aponto.

Corpo que se liquefaz

se de lembranças se aquece

ou se estilhaça em soluços...

em espasmo, uma bolha de ar

entre o lamento e a raiva

encharcados de muitas chuvas.


Enxurrada espessa escura e larga

cavando sulcos nessa infância inacabada.


                                                  24/25-7-1988

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publicado às 15:52


#821 - Maria Aliete Galhoz

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09



PÁSSARO


Tenho um pássaro

Não canta

Contudo

irrisoriamenmte pássaro

No meu peito...


Pássaro, garganta, ou alvorada

Fios alvacentos

Da msnh~s

Entre montes...


Não eras tu, rouxinol

Não era a cotovia

Nem a invisível calhandrina...

Era na minha garganta

Fio da memória

Na manhã  já  alta...


Portanto

Não canta o pássaro

Que tenho em meu peito...

Leiras

Leivas

Veredas

O pulsar da brisa

Hoje...

Pássaro

Alma cantante

Em minha garganta

Finamente acutilada...


Poema dedicado a Irene Lisboa


"Para Irene Lisboa, que escreveu Um dia e outro dia...:

poético amargo/lírico do quotidiano, do frágil quotidiano no

seu frémito de vida, de dor, de olhar, de Beleza igualmente,

dedico como homenagem e afecto antigos."

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publicado às 15:38


#820 - Frederick Carlson

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09

A PERFEIÇÃO


1

Fábula


Quando os discípulos do velho mestre da cerimónia do chá lhe ofereceram a chávena mais perfeita que jamais tinha visto, levantou-a  em silêncio entre os dedos e levou-a com reverência à fronte. Depois partiu-a e mandou colar os fragmentos. Assustara-o, quer o atrevimento do oleiro, quer a presunção da chávena, por terem atingido a perfeição na matéria, quando não é na matéria que a perfeição existe. Nem no espírito..



*************


2


Homenagem a Mandelbrot


Não só a perfeição já não existe

(o círculo a distender-se em elipse

a esfera

achatada no eixo de rotação

grávida no equador

cheia de diminutas rugosidades pontuais

montanhas

irreconhecíveis a olho nu)


Órbita ou planeta

a simetria era uma convenção

ou uma fase


Também a pureza foi engano

Os elementos dissolveram-se em módulos

ondulatórios

de probabilidades

(probabilidades não de coisas

mas de eventos

e de conexões)

em teia

de linhas de força

rede de trocas

recíproco

fluir

do caos


Restam apenas

aproximações

oscilações


Apenas

entre o vale e a montanha

entre a crista e o cavado da onda

uma média estatística

uma frequência de vibrações

eventualmente imprevisível

porque observada


Aboliu-se a identidade

Ficou

a equivalência


(Galáxia


Floco

de neve)

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publicado às 12:15


#819 - Paul Valéry

por Carlos Pereira \foleirices, em 23.06.09

PALMA

Com sua graça inclemente,

a custo velando o brilho,

um anjo põe-me na mesa

o pão tenro, o leite liso;

baixando os olhos segreda

este sinal de uma prece

que fala à minha visão:

- Calma, calma, guarda a calma!

Conhece o peso da palma

sob a sua profusão!

Por mais que a palma se dobre

à abundância das graças,

seu rosto mantém-se nobre

nos frutos em que se enlaça.

Vê tu bem que bem que vibra,

e como esta lenta fibra

que cinde cada momento

desempata sem mistério

toda a atracção da terra

e o peso do firmamento.

Bela, arbitrando, subtil,

por entre o sol e a sombra,

simula de uma sibila

a sageza mais o sono;

em torno da mesma alma

não cansam a ampla palma

nem apelos nem adeuses.

Que doce e nobre o seu ar!

Como é digna de aspirar

somente aos dedos dos deuses!

Ouro leve o que murmura

sob a mão do ar desperto,

e com sedosa armadura

enche a alma do deserto.

Uma voz imperecível

de sementes aspergida

que ao vento vai entregar

é de si mesma o oráculo,

orgulhosa do milagre

de seus desgostos de cantar,

Enquanto de si não sabe

entre a areia e o céu

vem a luz da madrugada

compor-lhe um pouco de mel.

Sua doçura é medida

pela duração divina

em que não contam as dores:

antes ela as dissimula

num suco onde se acumula

o aroma dos amores.

Se por vezes desespera

e o adrável rigor,

mau grado o choro, se opera

sob a sombra do langor,

não acuses tu de avara

uma Sábia que prepara

tanto ouro e autoridade:

por entre a seiva solene

é já esp'rança eterna

que atinge a maturidade.

Tais dias não 'stão vazios

nem longe do universo:

têm ávidas raízes

a trabalhar os desertos.

De finos cabelos feitas

e pelas trevas eleitas

não podem parar sequer,

pelas entranhas do mundo,

de perseguir os profundos

veios que os cimos requerem.

Paciência, paciência,

paciência no azul!

Cada instante de silêncio

pode dar fruros maduros!

Virá a feliz surpresa:

uma pomba, a simples brisa,

o mais doce dos abalos,

a mulher que te procura,

farão cair essa chuva

que nos deixa ajoelhados!

Que um povo agora se roje,

palma!... irresistivelmente!

Que na poeira se role

sobre os sóis do firmamento!

Estas horas não perdeste

se leve permaneceste

depois de tais abandonos;

igual a quem pensa, insone

e cuja alma consome

para aumentar os seus dons!

Poema traduzido por David Mourão-Ferreira, pelo 50.º aniversário da morte de Paul Valéry

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publicado às 11:43


#818 - Livros

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.09


Livro de poemas de José-Alberto Marques "LOENDRO" editado pela Editora Átrio em 1991.


O Loureiro-rosa


Rosa-loura


E canta-se que um dia era a tua boca uma concha, um

vidro de metal cheio de melodia e esponjas encontrado

no loesse, ao lado dos detritos e do vento passado,

assim uma forma de raio ou cometa, latejante no

caudal do núcleo onde se abrigava o sono interminável,

eu disse dessa fonte o canto, o amarelo, a cor

própria de deixar as mãos ao poente enquanto partia

para  o teu silêncio e para a tua ausência, e eis a

despedir-me à beira do sol, junto das pedras, por dentro,

com uma cicatriz,

com sabor, saborosamente viajando a morte e o seu

espanto, abrindo portas e janelas, numa visita ao

espelho e à memória, descendo ruas, o peito ao longo

das avenidas, das cidades noturnas, das navalhas

cintilantes, do revérbero das lâminas, com o pullover

e a língua, Dusseldorf, Marselha, a fonte verde,

correndo,

senta-se na Índia uma e outra e outra alvéola sobre

a árvore de folha perene, aos bandos, como em baixo

lofíneos desenham circunferências molhadas e

é pela tarde que a neblina insinua e o corpo estremece,

ah os frutos maduros de

quem rasga a pele do animal ferido, recoberto de

feltro, cravado de ferros junto a

a loucura navegando

as águas de mágoas em

as súbitas

as margens de

o loendro

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publicado às 13:16


#817 - Livros

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.09



Livro de poemas de José Gomes Ferreira "Poeta Militante" (Viagem do Século Vinte em mim), 3.º Volume, editado em 1978 pela Moraes Editores.


LÁGRIMAS TROCADAS (1956)


Fugi.


E agora no cais deserto,

a água encostada ao tempo

- penso em ti,

coração incompleto,

que só sofres

pelos mortos que invento.


Por estes não.

São reais

(e falsos)

- esqueletos a servirem os amos

em rituais descalços

no peso das pirâmides.


E as lágrimas?

Onde estão as lágrimas

que durante dez mil anos

com dentes de suor nos olhos

chorei pelos outros,

fingido de chamas

nas barricadas com espelhos,

nos potros,

na fome das camas.


Agora

os mortos não param, continuam, bandeiras vazias,

mortalhas de cadáveres nas cores do vento

- mas quem os chora?


Foram buscá-los aos cemitérios,

mataram-nos de novo,

meteram-lhes a injustiça dentro,

colaram-lhes a palavra aurora

- chamam-lhes povo.


Mas quem os chora?


Oh! eu não

(o terrível não opaco dos poetas).


A crueldade de vencer

secou-me nos olhos

o murmúrio

das nuvens secretas

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publicado às 12:49


#816 - Livros

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.09

Livro de poemas de Jorge de Sousa Braga "Fogo sobre Fogo", editado em 1998 por Fenda Edições

Nem todos os frutos vermelhos

merecem o céu

da tua boca

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publicado às 12:37


#815 - Livros

por Carlos Pereira \foleirices, em 22.06.09


Livro de poemas de Martinho Marques (José António de Matos Martinho Marques), edição MIC, Novembro de 1980.

 

PENÉLOPE

 

Pensavas tu que os homens hão-de abrir-se

e navegar em abraço e permanência

pelas tuas coxas     como a nau de Ulisses

de volta a Ítaca pelo mar da Grécia

 

Mas basta um líquen        um hímen            uma Circe

um som com  dimensões de paramécia

Antes que amor acorra a despedir-se

logo se afastam pelo mar da Grécia

 

Amigos do petisco do teu corpo

não há uma carícia que enraíze

no sal do seu orgasmo sem encargos

 

O sol é alto        mas o mar é morto

No céu abrindo sobre um mar em crise

eles não são Ulisses       tu és Argos

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publicado às 11:47


#814 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.09
Veneza
Jan Morris
«Jan Morris é um génio da viagem. É também um dos maiores escritores descritivos da língua inglesa.»
Paul Theroux



«Jan Morris é hoje o nome mais importante de entre os autores vivos de literatura de viagens. Nas palavras de Paul Theroux, outro dos grandes escritores viajantes do nosso tempo, é "um dos maiores escritores descritivos da língua inglesa". De hoje e de sempre, depreende-se. Por isso ele lhe chama também "um génio da viagem".
O livro que tem nas mãos, caro leitor, é já um clássico. Publicado originalmente há meio século, é muitas vezes referido como o livro sobre Veneza. Nele, Jan Morris entrelaça o H grande da História com um apuradíssimo sentido de observação para o h pequeno das histórias do quotidiano. É assim – para dar apenas um exemplo comezinho – que ficamos a saber porque há tantos gatos e porque deixou de haver cavalos em Veneza.
A autora, que publicou pela primeira vez este livro, em 1960, ainda com o nome de James Morris e cuja mudança de sexo na década seguinte acrescentou notoriedade à sua já famosa carreira jornalística, é uma figura extraordinária também por razões biográficas. É numa permanente inquietação da viagem que Jan Morris, percorrendo o mundo para o interpretar, tenta revelar o enigma dos lugares que visita tal como se propõe desvendar o seu próprio enigma interior. "Por vezes, rio abaixo, quase penso que o consigo; mas então a luz muda, o vento vira, uma nuvem atravessa-se à frente do sol e o significado de tudo isto volta uma vez mais a escapar-me."»

Carlos Vaz Marques

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publicado às 19:19


#813 - Grizzly Bear

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.09

 

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publicado às 18:50


#812 - Frases

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.06.09

"Pacheco Pereira é a loira do PSD"

In Jornal "I", 20 de junho 2009, entrevista a Luís Filipe Menezes

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publicado às 18:42


Simone White

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.06.09

 

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publicado às 23:49


A Força e o poder dos blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.06.09

 

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publicado às 23:36


Francisco José Viegas finalista do Prémio Roma

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.06.09

A  edição italiana de Um Céu demasiado Azul, de Francisco José Viegas, está nomeada para o Prémio Roma de Literatura, na categoria de Narrativa Estrangeira.

 

O autor português concorre com o chileno Luís Sepúlveda (A Lâmpada de Aladino), a indiana Anne Cherian (A Good Indian Wife), o israelita Amir Eli (Jasmine) e do libanês Rabih Alameddine (Hakawati). Publicado originalmente em 1995, o livro Um Céu demasiado Azul foi editado em Itália pela editora La Nuova Frontiera, que também já editou Longe de Manaus, dois dos romances protagonizados pelo detective Jaime Ramos. O escritor e jornalista, que já dirigiu a Casa Fernando Pessoa, é actualmente director da revista Ler e está à frente da Quetzal. Os vencedores são conhecidos a 16 de Julho.

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publicado às 11:20


"Ligações Perigosas" e "A Ressaca"

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.09
Estreiam, hoje, os filmes: "Ligações Perigosas" de Kevin Macdonald com Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jeff Daniels, Harry J. Lennix e Viola Davis e "A Ressaca" de Todd Phillips com Bradley Cooper, Heather Graham e Ken Jeong.
 

"Ligações Perigosas"

 

Sinopse:

Stephen Collins (Ben Affleck), um carismático e promissor político, é visto como o futuro do partido. Todos o olham como o melhor candidato para a campanha presidencial, até que a sua assistente e amante é brutalmente assassinada e segredos enterrados começam a ser revelados. O repórter Cal McCaffrey (Russell Crowe), um velho amigo de Collins, foi destacado para investigar o caso pela sua implacável editora, Cameron (Helen Mirren). Mas assim que ele e a colega Della (Rachel McAdams) tentam descobrir a identidade do assassino, vão perceber que, quando há milhões em jogo, não há integridade, amor ou vida que esteja a salvo. [cinema.ptgate.pt]
 

 

"A Ressaca"

 

Sinopse:

Dois dias antes do seu casamento, Doug e três amigos rumam em direcção a Las Vegas para uma despedida de solteiro que nunca mais irão esquecer. Mas na verdade, quando os três padrinhos acordam na manhã seguinte, eles não conseguem lembrar-se de nada. Sem saberem como e porquê, eles encontram um tigre na casa de banho e um bébé de 6 meses no guarda-roupa da suite do Hotel Caesars Palace. A única coisa que não conseguem encontrar é Doug. Sem qualquer pista sobre o que se passou na noite anterior e com muito pouco tempo, o trio tem agora que tentar reconstituir a noite passada para encontrar Doug e regressar rapidamente a L.A. a tempo do seu casamento. [cinema.ptgate.pt]

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publicado às 23:03


Leitura de outros blogs

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.09

JOSÉ DE GUIMARÃES


Nasceu em 1939. José de Guimarães é considerado um dos principais artistas plásticos portugueses de Arte Contemporânea.
Com uma obra notável, particularmente na pintura, fez também incursões na escultura e noutras actividades criativas a nível estético, quer nacional, quer internacionalmente.
Na sua obra, a cor desempenha um papel fundamental e a sua temática principal é o corpo humano.Um dos mais galardoados estetas portugueses, José de Guimarães encontra-se representado em museus e colecções públicas espalhados por todo o Mundo.
 

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publicado às 16:08


Os olhos de Graciela Iturbide

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.09

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publicado às 15:58


Claudio Magris - Prémio da Paz dos Livreiros Alemães

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.09


Claudio Magris. | Foto: Doménec Umbert

 


Gottfried Honnefelder, presidente da Associação de Livreiros Alemães, anunciou que o escritor italiano Claudio Magris receberá,  este ano, o  Prémio da Paz dos Livreiros Alemães,  que sé entregue  como habitualmente, no  último dia da  Feira  do Livro de Fránkfurt, que este ano será em  18 de Outubro.


Na acta do júri é dito que a Magris é concedido o prémio , dotado com  25.000 euros,  pelo facto de a sua obra, quer narrativa, quer ensaística, tratar dos problemas resultantes da convivência de diversas culturas existentes na Europa Central.


Em muitas das suas obras,  Magris mostra a pluralidade de mundos e línguas existentes na Europa Central  onde  enfatiza as suas características e os seus contrastes, defendendo uma Europa que não se defina apenas a partir da economia, mas essencialmente a partir da sua tradição histórica, cultural e das suas diferenças.


Claudio Magris (1939) foi professor de Literatura Alemã na Universidade de Trieste e traduziu, para italiano,  inúmeros autores de lingua alemã, entre os quais se destacam Joseph Roth, Arthur Schnitzler e   Georg Büchner.


Fundou, juntamente com Humberto Eco e outros intelectuais, a Associação Liberdade e Justiça, que é bastante crítica do governo de Silvio Berlusconi.


"O Danúbio", uma das obras mais conhecidas de Magris,  vê o rio Danúbio como um exemplo excelente dessa multiculturalidade que é a Europa Central.  " Um Hipopótamo em Lund", sua última obra, é a reunião das experiências que o escritor  teve nas suas viagens pela Europa.


Em 2004 recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras.

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publicado às 13:41



Em Novembro de 2009 assinala-se o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim que dividia a cidade desde a sua construção em 1961.

Para comemorar o acontecimento, um grupo de eurodeputados vai propor a candidatura da cidade ao "Prémio Príncipe das Astúrias da Concórdia" cujo vencedor será conhecido a 10 de Setembro.

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publicado às 13:34


Lançamento hoje em Espanha do último volume de Stieg Larsson

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.06.09



É lançado  hoje em Espanha o terceiro e último volume da trilogia Millenniun de Stieg Larsson que tem como título "A Rainha no palácio das correntes de ar"

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publicado às 13:27


João Urbano entrevista Silva Carvalho

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09
Poreticismo e Deriva
   

 

Silva Carvalho (não confundir com Armando Silva Carvalho) sendo de longe o mais poderoso, conceptualmente inovador e desafiante escritor ou escrevinhador, como gosta de intitular-se, do Portugal contemporâneo, tem merecido uma atenção e recepção nulas e mesmo o desprezo por parte dos seus contemporâneos. Para o nosso meio literário, Silva Carvalho pura e simplesmente não existe. Pelo que a sua inexistência talvez seja consequência de os seus livros, tão exigentes, serem o reverso do que por cá se faz há muitas dezenas de anos. Talvez o vejam como uma espécie de ovni. Trata-se de uma escrita anti-poética ou de uma outra poética em que o documental se precipita no conceptual. Em suma, um híbrido. A porética contra a poética. A literatura contra a literatura. – Entrevista por João Urbano

 

Ler entrevista aqui

 

Entrevista retirada da Revista Nada

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publicado às 22:48


53ª Exposição Internacional de Arte La Biennale di Venezia

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


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[02] [mapa]                                Pavilhão de Portugal . vista exterior



Pavilhão de Portugal .
Fondaco dell'Arte . vista exterior
Fotografia: Mário Valente


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A Tábua Humana
, 2009

João Maria Gusmão + Pedro Paiva

Fotografia, 95 x 135 cm

Co-produção: Centro Cultural Inhotim, Minas Gerais


João Maria Gusmão (Lisboa, 1979) e Pedro Paiva (Lisboa, 1977) são artistas de uma nova geração, cujo percurso, embora recente, revela uma solidez incomum. A participação em exposições internacionais de relevo – Bienal de São Paulo, Bienal do Mercosur, Manifesta, Wattis Institut, Photoespaña, Kunstverein Hannover – tem vindo a contribuir para a afirmação da sua obra na última década.

 

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publicado às 22:29


SERRALVES 2009 - Exposições

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


30 Mai - 27 Set 2009 - MUSEU
 

Esta exposição da Colecção da Fundação de Serralves apresenta um balanço do trabalho desenvolvido com o acervo ao longo desta última década. Ocupando todo o Museu e o Parque, esta exposição apresenta obras maiores, representativas quer do núcleo histórico da Colecção (abrangente das décadas de 60 e de 70) quer das constelações de artistas identificáveis no acervo desde a década de 80 até à actualidade. Esta exposição será um importante momento onde se tornará visível o programa da colecção, assim como as incorporações recentemente efectuadas, que são mostradas ao público pela primeira vez.

Comissariado: João Fernandes e Ulrich Loock
Produção: Fundação de Serralves


VISITAS GUIADAS
18 JUN (Qui), 18h30, por João Fernandes
30 JUN (Ter), 18h30, por Ricardo Nicolau
22 SET (Ter), 18h30, por Ulrich Loock (em inglês)

         

 
JACQUES-ÉMILE RUHLMANN

18 Jul - 27 Set 2009 - CASA
 

Jacques-Émile Ruhlmann foi um dos mais importantes desenhadores de mobiliário e um dos protagonistas maiores das linguagens “déco” nas artes decorativas de inícios do século XX. Quando Carlos Cabral, Conde de Vizela, visita a Exposição Internacional de Artes Decorativas de 1925 em Paris, irá entrar em contacto com o Atelier de Ruhlmann, que será em grande parte, o coordenador dos projectos e autor de muitos deles, que resultarão na Casa de Serralves. Esta exposição trará de volta à Casa de Serralves o mobiliário de Ruhlmann, contribuindo para um maior conhecimento da sua história e relevância. Será também um momento para uma homenagem ao Conde de Vizela e ao seu espírito empreendedor e cosmopolita.

Comissariado: Florence Camard, João Fernandes
Produção: Fundação de Serralves

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publicado às 22:12


Movimento na web quer criar o Partido Pirata Português

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


São jovens, estão ligados a todas as redes sociais, reúnem-se, por enquanto, num fórum online e no Messenger. É lá que o i os encontra. "A longo prazo, o nosso objectivo é a criação de uma base sólida para a oficialização do Partido Pirata Português", diz Oleksandr Malichevskyy, 20 anos, estudante de informática.


O movimento em solo nacional tem pouco mais de um mês e foi inspirado pela oficialização do Partido Pirata Espanhol, subsidiário de uma já longa corrente internacional que defende o fim dos direitos de autor e patentes, para uma sociedade em que a conhecimento flua livremente. O sucesso rebentou nas últimas eleições europeias, quando o pai dos partidos piratas, o sueco Piratpartiet, conseguiu eleger um eurodeputado.


"Não queremos a abolição total dos direitos de autor, mas a sua reformulação", atalha Oleksandr na janela aberta no Messenger, onde estão outros cinco mandatários do movimento. "Promove-se um excessivo lucro da entidade promotora da criação, e não do criador em si", resume Miguel Gonçalves, 22 anos, jurista.


Querer alterar a legislação, de forma a anular a noção de pirataria, é o "caminho natural", diz. "A legislação tem de acompanhar o progresso. A pirataria não prejudica a economia. A questão é se devemos oferecer especial protecção a determinadas indústrias", conclui António Aveiro, 31 anos, informático.

Marta F. Reis "I"


 

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publicado às 21:58


Vasco Graça Moura e a política cultural do governo

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09

O escritor Vasco Graça Moura defendeu hoje que o primeiro-ministro não faz “a mínima ideia” do que seja política cultural, depois de Sócrates ter apontado como um erro do Governo a ausência de um maior investimento na Cultura.

“Não me parece que ele tenha descoberto a pólvora vindo agora dizer isso: um Governo como o dele, que decapitou o Teatro de São Carlos mandando embora o Pinamonti, o Teatro Nacional D. Maria II mandando embora o António Lagarto e o Museu Nacional de Arte Antiga mandando embora Dalila Rodrigues mostra bem que o primeiro-ministro não só nunca prestou atenção nenhuma à Cultura, como não faz a mínima ideia do que seja política cultural”, disse hoje à Lusa Vasco Graça Moura.

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publicado às 21:47


Ruy Cinatti

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09

BREVE ENCONTRO

 

Um amor de mulata atrai o corpo
habituado a lides extrínsecas.
Modela, circunspecto, as pernas, o rosto,
os seios-olhos, as partes oblíquas.
Quer falar
palavras sem medida, infecciosas.
Sorri.
Mede distâncias.
Retrai-se ao ínfimo
que separa ainda duas almas
coetâneas, mas só por momentos,
no bar frente à baía de Sto. António, ilha do Príncipe.

 

In Lembranças para S. Tomé e Príncipe

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publicado às 20:18


Vocábulos do Calão Minderico

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09

 

ACHEGA - Chefe dos correios, sendo mulher.

(Pelo facto de a Estação dos CTT de Minde ter sido primeiramente chefiada por uma senhora de nome Achega, nome aliás bastante conhecido na localidade)


ADUEIRA e ADUEIRO - Castanheira a que também chamam Maranhoeiro

(É possível que o termo "Adoeiro" tenha alguma relação com "Aduela" sabido que uma das principais madeiras utilizadas para vasilhas é a de castanheiro ou de castanho, como mais resumidamente se diz.)


AGADANHAR - Apanhar, colher, furtar.

(Num quintal, passando um pouco da meia noite, o vento sopra rijo dos lados da lareira e a chuva é impertinente:

- Então, achaste?

- Estão aqui... parecem cabritos!

- Agradanha e peniche? (1) Se algum gritar, ferra-lhe um soco atrás da chaveca (2) para o calar.)


Tratava-se de uma pequena "descoelhação" no quintal de um vizinho, incapaz de oferecer um coelho para a patuscada.


(1)peniche - cautela, caluda, cala-te, silêncio.

Exemplo: "E agora peniche, toca a dar às de João da Penha. Que significa: E agora caluda e toca a fugir


(2)chaveca - cabeça, torre, caturra, inteligência, inclinação, vocação, habilidade, tendência, jeito.

(A explicação que encontramos para a origem deste termo que se vê tem vários significados deve ser pelo facto de se chamar chavelha a uma peça de madeira que se coloca na ponta do chavelhaço dos carros, na ponta do temão do arado ou ainda na tiradoira da grade. E como essa peça constitui por assim dizer a cabeça de qualquer destes objectos de tiro, daí o nome de chaveca atribuído à cabeça humana ou de animal ou ainda a qualquer coisa que comande, isto é, tenha ligação com o cérebro,)

Exemplo: F... não tem chaveca para o negócio. Quer dizer: Fulano não tem cabeça (inclinação, jeito, etc.) para o negócio.

 

AGUENTOS OU AUGUENTOS - Ombros.

- Por serem os ombros que transportam objectos pesados.


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publicado às 16:24


Palavras

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09



Tocam-me

como lábios,

como beijos.

Pássaros, sedentos de ramos

e de sombra,

pousam-me nos ombros.

A movimentos de asa,

desenham-me ainda um corpo

-secerta arquitectura de água,

rasgada no vento.


Poema de Luísa Dacosta para a colecção de postais "À Sombra do Mar".

1999 A-Ver-O-Mar / Póvoa de Varzim.

Fotografias de Daniel Cúrval

 



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publicado às 16:10


A Maçonaria vista por Fernando Pessoa

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09

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publicado às 15:37


Porto perdeu identidade

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09

 

O romance inédito "A Cama do Gato" ganhou, por unanimidade do júri, o Prémio Edmundo Bettencourt 2009, um concurso literário promovido pela Câmara Municipal do Funchal.

A história de... António Rebordão Navarro, escritor e poeta


"Um Infinito Silêncio", título de um dos mais bonitos romances de António Rebordão Navarro, paira, por estes dias, sobre a atribuição do galardão ao livro inédito "A Cama do Gato", vencedor do Prémio Edmundo Bettencourt, poeta da Presença e cujo concurso literário foi atribuído pela Câmara Municipal do Funchal.

 

Agora, na sua bonita casa do Passeio Alegre, à Foz do Douro, forrada de recordações, livros e pinturas, a conversa desagua, naturalmente, na distinção obtida, mas o ficcionista e poeta do Porto, resume em duas frases o que lhe vai na alma: "Surpresa e satisfação". Só isso? A resposta surge tímida e pausada: "Sim, fiquei naturalmente contente, e mais ainda quando soube que o galardão tinha sido atribuído por unanimidade do júri. Um prémio é sempre o reconhecimento do trabalho feito", confessa, não sem antes deixar algumas pistas sobre a obra premiada. "É uma história de amor bruscamente interrompida. É um livro de ficção, com várias leituras", diz o escritor de "Mesopotâmia" (1985, Prémio Miguel Torga); "A Praça de Liège" (1988, Prémio Literário Círculo de Leitores) e "Parábola do Passeio Alegre", entre muitos outros.

 

 

Autor de uma escrita singular, o ficcionista e poeta, admirador de Pessoa, Cesário Verde e Camilo Pessanha, continua a surpreender-nos e, em vez das luzes da ribalta, deixa-se extasiar pela luz única do mar da Foz do Douro; a casa fica em frente e é uma das mais bonitas do Porto antigo, situada ao lado do edifício onde viveu e morreu (fez ontem quatro anos) o poeta Eugénio de Andrade.

 

"Mesmo quando não falo implicitamente do Porto nos meus livros, os lugares, as pessoas e as vivências estão sempre presentes. Por exemplo, no romance "Todos os Tons da Penumbra" (publicado em 2000) não referia a cidade, mas o Porto está presente. Não posso esquecer que o Porto é o lugar onde vivo e amo", responde com emoção e orgulho que só as gentes do burgo portuense são capazes de entender e reconhecer.

 

Mas será que o seu olhar do Porto não se desvaneceu, isto é, a cidade mantém o seu carácter e identidade? "Nem pensar", diz prontamente. "O Porto de hoje já não é a cidade que conheci. Hoje, o Porto está vazio de cidadãos. Perdeu muito da sua identidade e carácter. Dantes, existiam lugares de encontro. Hoje, há shoppings por todo o lado e mesmo os cafés cederam a outros negócios e interesses", reconheceu.

 

Na memória da cidade fraternal e solidária o escritor do Porto deriva a conversa para as tertúlias dos cafés, entre os quais, o Rialto, onde em tempo de ditadura diversos intelectuais, gente das letras e das artes, deram à estampa as "Notícias do Bloqueio", famosos cadernos de poemas com assinatura de Egipto Gonçalves, Luís Veiga Leitão, Daniel Filipe, Papiniano Carlos e, obviamente, Rebordão Navarro. Outros tempos. Agora, em tempo de outras peregrinações, o escritor relê a obra de Dirk Bogarde ["As Sombras no Jardim"] e espera, lá para o final do ano, que a Editora Afrontamento publique mais duas obras: "As Ruas Presas às Rodas", o tal romance inédito que narra a história de um motorista de táxi, bem como a reedição de "Mesopotâmia" (1985). O resto do tempo é vivido diante da varanda virada para o mar.

 

Retirado do "JN"

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publicado às 15:15


Cartas

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09


 

Correspondência trocada entre Jorge de Sena e José Blanc de Portugal


De José para Jorge


Benf. Maio 942


Caro e bom amigo


Eu é que fiquei feliz pela sua grande carta! Calcule que de há muito é o único contacto social que tenho com o mundo excepto os colegas de trabalho ou a gente das ruas e comboios de todos os dias!


Quanto às minhas coisas eu um dia farei tudo o que aconselha (embora muito sèriamente ache certíssimo o que V. diz "Uma coisa é preocupação pessoal, outra preocupação de lugar". Etc Etc... E quanto ao "escreva sempre" aqui estou de novo.


Não me espanta o que diz do Ruy. Depois da vez que nos viu juntos não o tornei a ver. Revi as provas (de artigos dos outros) da Revista e fui nessa mesma tarde levá-las a casa dele. Até hoje não mais novas nem mandados de qualquer ordem! É uma pessoa que parecendo cheia de delicadeza de sentimentos tem às vezes bem duras atitudes para os outros. Mas tudo se passará em bem...


Eu nada sei de Manuela Porto e do recital. Não tratarei disso é a única coisa que lhe posso dizer, mas também lhe digo que gostava imenso que se realizasse e gostaria imenso de lá ouvir qualquer coisa minha. Já vê que não sou falsamente modesto e que tenho ostensivamente anor-próprio mas não sou eu que tenho a intimidade ou à-vontade do Ruy ou do Kim para tratarem com ela.


Gostei tanto do seu trocadilho acerca do Atlântico e "costas de Portugal" (ou versalhada?!) que pensando em senas e azes do jogo da Vida (claro de V - "V for Victory"!) lhe improviso êste acróstico:

 

                         ACRÓSTICO


J   ogue a glória a quem quiser as sortes

O  limpo Apolo dê aos seus eleitos

R  enasçam fénix de infindas mortes

G  orjeiem cantos os coros celestes:

E  ste esmagará seus pares terrestres!


C  anções, poemas mil às musas dando

A  ele não podeis deusas ensinar!);

N  asce dele a poesia toda inteira

D  esse qual Júpiter nova Ateneia!

I   rrompe em fogos contra a asneira

D  omando-a fero em forte peia,

O  único que falar pode de cadeira!


D  esta terrena e breve vida passageira

E  téreo ele só, não seguindo de ninguém a esteira,


S  e não perde do mundo na voragem

E  neste globo, infrene tavolagem,

N  ativo herói das elíseas pazes

sena bate em cheio os azes!!!


(Do "Novo Parnaso Lusitano-Brasílico Dedicado aos Amadores das Musas dos Dois Países Irmãos por Uma Sociedade de Homens de Letras").


Não é talvez o meu melhor poema mas tenha paciência... Já que não lê o Sempre Fixe...


Lembra-me  o [José] Osório [de Oliveira], o Osório que eu persisto em crer meu amigo.


Com todos os seus defeitos à vista não é perigoso para ninguém e quanto aos "tantos que o detestam" alguns há que se serviram dele para o que ele (lhes) podia servir...


Mas afinal a má língua sou eu e os defeitos pegaram-se-me. Não é isso?


Eu anseio pelos seus trabalhos. Temas que me interessam, pessoa que me interessa, mas para mais elogios vá... ao Acróstico!


Um abraço do afastado amigo que não lhe dá novidades mas as pede


                                                                                                                                    José de Portugal



Última hora

De acordo com a participação recebida agora sei que em 6-4-1942 casaram e me oferecem a Sua Ilustre Casa a Senhora Dona Maria Adelina de Amaral Simões Neves Monteiro Grillo e o Senhor Joaqyuim Fernandes Thomaz Monteiro Grillo [Tomaz Kim].


Felicidades aos noivos! Viva a poesia realizada!


 

********************************************

 

De Jorge para José

 

Porto, 24/10/42

 

Meu caro amigo

 

          A sua carta veio ter comigo ao Porto e eu já sabia (e até contava escrever-lhe),  pelo João António Lamas, que V. tinha qualqer coisa para me dizer, independentemente do muito que temos para dizer e fazer neste momento ridìculamente crítico... - rìdiculamente porque só tem o direito de ser crítico aquilo que o é pela força directa das circunstâncias e não o tem o que é pela força das circunstâncias que as foram tirar dessas outras. Isto tudo é confuso mas, até por issso, digno do momento.

          Ora, primeiro, vamos ao nosso assunto. Vou escrever para a Portugália (não tenho comigo senão exemplares, poucos, já dedicados e não entregues ainda) para que ponham à sua disposição um exemplar. E, por favor, não o compre. Eu quando voltar a Lisboa, quero escrever nele uma dedicatória - sou eu que lho ofereço e com tanto mais alegria quanto V. ofereceo o seu para que alguém o lesse. Quando estiver disposto (eu soube muito tarde do seu desgosto, não falemos nissso como entende e bem) diga-me qualquer coisa acerca do livro ou, se  o preferir, guardemos isso para a minha volta a Lisboa. Até agora, pode dizer-se que ninguém me falou dele, uma vez que só cumpriram a promessa os que se apressaram em não compreender. Claro que não falo das pessoas que, por próximas, tinham a sua opinião já tàcitamente formada; como nem a minha vida nem a sua permitem que V. esteja, para mim, na mesma proximidade, é essa a razão por que lhe peço o que pedi.

          V. já deu ao Cinatti poemas para a Aventura 3? Sabe, por ele, do editorial que eu vou escrever para êsse número? Trata-se de desmascarar as confissões voluntárias em que se debate a nossa pretyensa intelectualidade que, por saber demasiado o que deseja, acaba por não fazer dignamente o trabalho que lhe é imposto pela dignidade que devia ter. Queria que V. visse o editorial. Creio que nós, eu e V., devemos defender a Aventura pelo que ela representa e pelo que, por nós e o Cinatti, pode vir a representar: posição definida contra o que não fôr uno, nítido e futuro.

          É nesse sentido que tenciono orientar a conferência que, de combinação com a Manuela Porto, tenciono fazer, em Dezembro, sobre as "Possibilidades da poesia portuguesa". Evidentemente que a poesia portuguesa pode bem vir a ser exactamente o contrário da pureza e da intensidade abstracta que eu pretendo, mas nem por isso tudo o que se fizer deixará de actuar na composição e decomposição das forças, uma vez que só o inantingìvelmente puro está livre das nossas contingências de acção. Não será isto? E agora voltei ao princípio da carta e fechei o verdadeiro círculo. Poesia científica e poesia social (com base nas revivescências ancestrais) tudo isso é terrível, se não souber onde as coisas principiam e acabam. A poesia é profundamente psicológica e epistemológica (no domínio em que coincidem estes dois aspectos), quer queiram quer não, e por isso humana, nacional e individual. Nem notas psicológicas, nem apetências sociais, nem esforços registados do conhecimento - mas consciencialização do homem total num sentido que não tem sido dado a esta expressão, um sentido mais lato, não só individual, não colectivo no instante: num sentido individual e colectivo aplicado à extensão do tempo, extensão mensurável (como me lembro agora que Proust aponta maravilhosamente para cada criatura) nas variações e na invariância do homem. Creio que um sinal da verdade disto é pensarmos agora (e creio que V. pensa isto pelo pouco que posso recordar e assimilar a isto) alguns o mesmo e inteiro, quando, de tal modo, toda a gente pensa partes. A nossa época é de integração no espaço e no tempo de todos os valores positivos e negativos: trata-se de definir um domínio e não definir nem o homem, nem a terra, nem a humanidade (como várias modas fazem), que são, digamos,  conjuntos falsos feitos à custa de elementos que pertencem ao domínio verdadeiro que às modas não convém ver, porque são modas e passam deixando apenas dedadas, contingências, difíceis de lavar e de cuja responsabilidade lavam as mãos. Terá V. paciência de pensar, por escrito, alguma coisa, numa carta, a este respeito?

          Receba um grande abraço do amigo e camarada

 

 

Jorge de Sena

Rua de Cedofeita, 478

Retirado da Revista Colóquio | Letras n.º 132/133 Abril-Setembro de 1994.

Edição e propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian.

Director David Mourão-Ferreira

 

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publicado às 14:48


Maiakowski

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.06.09



DIGAM!


Digam!

Lá porque estão acesas as estrelas,

será porque elas são necessárias a alguém?

Será porque alguém há a desejar que existam?

Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?

E, vencendo

a poeirenta borrasca do meio-dia,

alguém corre p'ra Deus,

temendo chegar tarde,

chora,

beija-lhe a mão nodosa,

implora -

que lhe falta uma estrela! -

jura

que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.

E depois,

lá vai com a sua angústia,

mostrando paz na cara.

Perguntando a qualquer:

"Agora, está melhor, não é assim?

Já não tens medo?

Não?"

Digam!

Lá porque estão acesas

as estrelas -

será  porque elas são necessárias a alguém?

será porque é - indispensável,

que cada noite

por cima dos telhados

uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?


Poema escrito em 1913


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publicado às 11:32


Dois filmes portugueses no Euroscópio 2009

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

Portugal vai participar no VI Festival de Cinema Europeu - Euroscópio 2009, que se vai realizar na Venezuela, de 18 de Junho a 2 de Julho, com dois filmes, “Sapatos Pretos” de João Canijo e “Dot.com”, uma comédia de Luís Galvão Teles. [publico.pt]
 

 

 

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publicado às 18:51


José Luís Peixoto

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

Já estou em Boston. Cheguei ontem.

Está frio, céu cinzento e, às vezes, chovem gotas geladas.

Já comi clam chowder e já gastei uma quantia exorbitante (que tenho pudor de referir) numa livraria.

Deixo-vos o texto que escrevi para a Visão após a minha passagem por aqui em Setembro passado. Para aqueles que gostam mais de ver o filme do que de ler o livro, sigam o link no final.



ABRE A PORTA, ZÉ LUÍS

Urina. O som familiar da urina a cair na água não perturba a embriagues gasosa do meu sono. Não interessa onde estou, mas sei que estou em Boston, mas não interessa onde estou porque estou num quarto de hotel e há pouca diferença entre quartos de hotel. Mudam os canais na televisão e o cheiro do detergente na alcatifa. De manhã, haverá sempre o som de aspiradores. É de tarde. Deixei a televisão ligada no canal Discovery Health, onde adormeci a ver um programa sobre obesidade mórbida. A voz do narrador entrou-me no sono, as vozes ocasionais dos obesos, deitados em sofás, deitados em camas, gruas, macas, entraram-me no sono. Agora, essas mesmas vozes falam sozinhas para a colcha desfeita sobre a cama vazia, são como electricidade. Não lhes presto atenção, têm a mesma existência vaga de, por exemplo, a cidade de Boston. São uma realidade teórica, abafada pela porta fechada da casa de banho e pelo som familiar, grosso, da urina a cair na água da sanita: o alívio de uma comichão entornada para fora do meu corpo.

Lavo as mãos.

Seguro a maçaneta da porta da casa de banho e, quando tento rodá-la, não roda. Mexo no botão que tranca a porta e não acontece nada. Normalmente, quando adormeço à tarde, privilégio de domingos, acordo de duas formas possíveis: devagar, com uma ligeira dor de cabeça; ou devagar, com um prazer morno espalhado pelos músculos. Agora, acordei de repente. Uma tomada de consciência que é como a efervescência súbita da coca-cola, a subir pela garrafa até transbordar. Uma espécie de anti-qualquer-coisa, uma implosão, sim, uma implosão. A casa de banho não tem janelas. A luz é amarela. Deixo de saber qual é a posição correcta do botão que tranca a porta. Tento abri-la das duas maneiras possíveis e não acontece nada. Bato com as duas mãos. Espero para distinguir alguma reacção e ouço apenas um silêncio feito das vozes dos obesos, sozinhos na televisão do quarto. Dou pontapés na porta. O mesmo silêncio. Bato na parede com as mãos abertas. Grito, tento chamar alguém. Estou no oitavo andar, como se estivesse enterrado vivo.

Lavo as mãos.

Lavo a cara. No espelho, sou amarelo. Tenho a cor da luz. O espelho é como uma janela para o interior fechado desta casa de banho. Sento-me no bidé. Encho os pulmões de ar. Quando era pequeno e fazia alguma coisa de mal, fechava-me na casa de banho antes que o meu pai chegasse a casa. Essa era a única divisão que tinha chave. Após dez minutos de espera, começava a imaginar que iria passar o resto da minha vida na casa de banho. Em instantes, acreditava nisso. Poderia dormir na banheira, tapar-me com toalhas, não faltaria a água potável e, numa primeira fase, poderia alimentar-me de pasta de dentes. Depois, a longo prazo, teria de atrair insectos comestíveis ou cultivar vegetais no intervalo dos azulejos. Quando o meu pai chegava, havia uma negociação que terminava com a porta a ser aberta devagar. Nem sempre foi assim. Houve uma vez em que, com o meu primo, roubei um cartucho da caçadeira do meu pai e fizemos uma bomba. Abrimos o cartucho com uma navalha, separámos a pólvora dos chumbos, fizemos um enxerto de arames e colocámos-lhe um rastilho. Guardámos a bomba numa gaveta e planeámos explodi-la no campo da bola. Essa hora deserta nunca chegou. A minha mãe descobriu a bomba e contou ao meu pai. Fechei-me na casa de banho. Ao fim da tarde, o meu pai chegou a casa. Abre a porta, Zé Luís. E eu dizia para ele se acalmar. Abre a porta. Zé Luís. Eu punha as culpas no meu primo, dizia que tinha sido ideia dele, e tinha mesmo. Abre a porta, Zé Luís. A voz do meu pai era sólida. Eu tinha oito ou nove anos e pedia perdão. Abre a porta, Zé Luís. Eu chorava e dizia que não queria. E, de repente, um estrondo ampliado pelo eco. Outro estrondo. A porta inteira a ceder na fechadura e nas dobradiças. O meu pai estava a arrombar a porta e a minha voz tremia. Espere. Não faça isso. Eu tremia.

Agora, 1938-2008, faltam poucas semanas para o dia em que o meu pai faria setenta anos. Há quase treze anos, 1938-1996, que sinto falta dele. Estou fechado na casa de banho de um hotel em Boston e penso no que farei para sobreviver se ficar aqui para sempre. Volto a gritar, tento chamar alguém, mas paro. Lembro-me que, antes de adormecer, pendurei na porta do quarto o pequeno letreiro que diz “não incomode”.


VÍDEO

http://www.vimeo.com/3079969

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publicado às 18:32


António Lobo Antunes

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente
António Lobo Antunes. O escritor português deixa o passado de lado em sua nova obra, feita para acertar contas com o presente

 

Revista BRAVO! | Junho/2009

Crítica - Lobo e seus Demônios

Em seu novo romance, “Meu Nome É Legião”, Lobo Antunes expressa em múltiplas vozes a violência de um Portugal periférico na União Europeia

Por Jefferson Del Rios

 

António Lobo Antunes não deixa por menos: o "legião" do título de seu novo romance é o nome dos espíritos malignos dentro de um homem citado no Evangelho de São Lucas. Na história atual, o mal se traduz em delinquência e ódio racial, em vidas medíocres sob a violência que se esparrama por Lisboa. O escritor português, uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, em julho, nunca deixou por menos. Começou quando, estarrecido com as guerras coloniais, estreou com Os Cus de Judas (1979), expressão chã que definia os soldados portugueses que se danavam, matando e morrendo em Angola, Moçambique e Guiné. Psiquiatra, Lobo Antunes serviu entre 1970 e 1973 como médico militar em Angola, onde teve de colocar de lado os problemas da mente para costurar jovens rasgados pela metralha. Na volta a Lisboa, acerta contas com o passado, cujos resquícios perduram, de maneira tacanha, em Portugal.

Além de Os Cus de Judas, reviu a história lusitana em obras provocadoras como Conhecimento do Inferno, Fado Alexandrino, Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal. Nesses livros, deixou de lado a linearidade da escrita em favor de enredos superpostos com cortes bruscos no tempo e espaço. A opção gerou encanto e polêmica. Há, mesmo entre seus admiradores, os que temem ter Lobo Antunes começado a abusar desse, digamos, experimentalismo. Mas ele se mantém irredutível a achar que escreve fácil. Agora avança sobre a atualidade portuguesa do euro, uma nova periferia com novas barbáries.

 

MEMÓRIAS FRAGMENTADAS
Em Meu Nome É Legião, uma gangue de brancos, mestiços e um negro pratica roubos violentos, numa vertigem de cenas cruéis — como arrancar a frio o aparelho dos dentes de um adolescente. A elas, misturam-se delírios — ossos de cemitério, cano de arma, carros em alta velocidade. Os acontecimentos são narrados por múltiplas vozes, sobretudo as dos extremos da ação: o policial deprimido numa rotina de misérias e os agressores, pequenos bandidos de 12 a 19 anos. O escritor joga com a fragmentação da memória: como a dos psicóticos, a dos soldados feridos e em pânico de Os Cus de Judas e, por que não?, a nossa, prosaicos leitores.

Sobre, ou sob, esse caos percebe-se, implícito e firme, o conhecimento que Lobo Antunes tem dessa gente. Se no geral seus romances são históricos e sociais, nem por isso deixam de ser algo como um gesto, íntimo e final, de compreensão cética de uma realidade em que as verdades absolutas são tão vãs como ter saudade do passado mítico de um país que não volta mais.

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publicado às 18:15


Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

‘Barroco Tropical’ (booktrailer)

O mais recente romance de José Eduardo Agualusa, explicado pelo autor.

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publicado às 18:02


Buenos Aires, Capital Mundial do Livro em 2011

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

Ainda falta muito tempo, mas não deixa de ser uma boa notícia.


Na foto: livraria El Ateneo, Buenos Aires. Vídeo aqui.


Post retirado da revista Ler

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publicado às 17:40


Albano Martins

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

ASFIXIA

Que árvore

tão alta

morre

asfixiada

no teu sangue?

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publicado às 17:32


Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.06.09

 

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publicado às 17:18


A escritora norte-americana Marilynne Robinson venceu o Prémio Orange de Ficção 2009, anualmente atribuído ao melhor romance em língua inglesa escrito por uma mulher, com o romance "Home", o terceiro que publicou em 28 anos.
Segundo o jornal britânico The Guardian, a notícia da decisão unânime do júri, anunciada quarta-feira à noite, não causou surpresa, já que Marilynne Robinson, de 65 anos, é por muitos considerada uma das maiores romancistas vivas.

A presidente do júri, a profissional da rádio Fi Glover, afirmou que "Home", "uma abordagem maravilhosamente arquitectada das relações familiares e da redenção", foi "o claro vencedor" de entre as seis obras que integravam a "shortlist". [rtp.pt]

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publicado às 19:28


Fernando Luís

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09

DIMITRIS P.

 

Espero conhecer-te. Não é muito

pedir a sombra de um nome.

Cegos são os passos que nos

levam para ninguém.

 

Sentados a jantar, a trocar

tristes sorrisos resume-se a nossa

vida.

 

De noite a noite pousam fantasmas

em nossas camas e

merecemos essa ilusão.

 

O tempo devasta o cristal da voz,

estamos longe das coisas acreditadas,

a vida tem os trunfos e nós

sem chão caímos no infindável

cerco do amor.

 

O teu rosto, o meu, regressam

desolados ao enigmático

silêncio dos transeuntes,

à fantasia de mais um afecto.

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publicado às 18:58


Rui Knopfli

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09



Bilhete para

DANILA MICHAELLES

(DANA)


Pelo trajecto sangrento das acácias,

da Mafalala às areias de Polana,

ou à maré morta de Catembe;

do Ho Ling à Casa Elefante,

da Casa Viegas ao Prédio Pott;

da opulenta sombra do cajueiro

à nobre majestade do eucalipto,


ainda resiste, na memória, uma cidade.

Por tardes de longa canícula,

sentada em seu regaço, a menina

dos cabelos cor de cobre, regista-lhe,

com paciente labor, na brancura

do A-3, a minúcia do perfil

que esbatido, aos poucos, lentamente,


no deserto da memória vai morrendo.

Dele, em tempo, só restará o sal

teimoso que, a algum verso,

há-de emprestar o travo amargo

e o que, no rigor afectuoso do teu traço,

da insanável ferida oculta,

é, obstinadamente, a visível cicatriz.

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publicado às 18:41


Seis Poemas de José Craveirinha

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09


 

BLASFÉMIA


No relicário que te acolhe

é-me angustioiso supor

o labor das areias

na madeira.


E meu pesadelo dos pesadelos

a iconoclasta muchém

no afã da sua lavra

orgiando-se voraz.


Blasfémia suprema

o festim.


O COVAL


Excêntrica

é a minha indignada

mesquinha forma de sofrer.


Lúcido

eu a desencher o mundo

tapando-me no mesmo coval.


MONOGRAMA


A sotavento da face

colar aquoso

se desfia


E

em sua fímbria macia

meu lenço azul-escuro

discreto humedece

o monograma

Jota

Cê.


Colar

que se desfia

no próprio lapso.


GUMES DE NÉVOA


Lágrimas?


Ou apenas dois intoleráveis

ardentes gumes de névoa

acutilando-me cara abaixo?


O SACRÁRIO


A ausência do corpo.

Amor absoluto.


Hossanas de sol.

De chuva.

De brisa.

E de andorinhas

resvalando as asas

no ombro de uma nuvem.


Com uma hérbia mantilha

por cima velando

o teu sacrário.


SILEPSES


Ajustadas ao comprido as ripas

esfarelando-se devagarinho

por entre minuciosos

dedilhos de terra.


E

em melancólicas silepses

conspícuas gralhas versejam

extemporâneas férias

da Maria.


Poemas publicados na "Colóquio Letras" n.º 110-111, Julho-Outubro de 1989


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publicado às 18:17


"Ler", edição do mês de Junho

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09

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publicado às 18:06


Atahualpa Yupanqui

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.06.09

 

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publicado às 17:41


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