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Almir de Freitas espreita a alma e o coração de Vinicius de Moraes

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.01.09
Vinicius de Moraes na década de 1950. Uma imagem diferente do homem com um copo de uísque na mão e um olho nas mulheres do calçadão
Vinicius de Moraes na década de 1950. Uma imagem diferente do homem com um copo de uísque na mão e um olho nas mulheres do calçadão

 

Revista BRAVO! | Janeiro/2009

 

A Sombra de Vinícus

Novas edições, estudos e poemas antes inéditos em livro deixam para trás a imagem do “poetinha”, mostrando um autor em que a paixão se misturava com tumultos interiores

Diminutivos servem para identificar, como se sabe, coisas de pequeno porte ou, por extensão, coisas pelas quais temos carinho. Em certo sentido, as duas formas se conjugam no equívoco que fez com que Vinicius de Moraes passasse à história da literatura brasileira como "poetinha". Quase como a dizer: gostamos muito dele, de seus versos sobre o amor e a paixão - mas poetas sérios, "poetões" mesmo, são os outros. Para certa crítica acadêmica, o existencialismo prosaico de Carlos Drummond de Andrade, o lirismo de Manuel Bandeira e os versos duros da poesia engajada de João Cabral de Melo Neto encerram tudo o que de melhor e mais diverso o modernismo poderia produzir. A verdade, contudo, é que o cânone modernista não tinha como enquadrar a poesia de Vinicius, construída numa trajetória absolutamente singular, que foi das formas mais tradicionais da poesia ao trabalho como letrista da bossa nova.

As reedições da obra de Vinicius, publicadas pela Companhia das Letras numa coleção coordenada pelo também poeta Eucanaã Ferraz, mostram que essas antigas amarras acadêmicas ficaram para trás. Acompanhadas de novos textos críticos, as edições revelam um poeta em que a intensidade da paixão se mesclava com tumultos interiores, características que refletiam uma personalidade desde sempre atormentada e sujeita a frequentes períodos de depressão (leia texto na pág. 28). No conjunto da vida e da obra, revelam-se os matizes de um poeta que estava longe da imagem limitada atribuída a ele no imaginário da literatura brasileira — a de um homem com um copo de uísque na mão e um olho nas mulheres bonitas que passam no calçadão de um Rio de Janeiro edênico. Este, o tal "poetinha".

Poemas Esparsos, o mais recente volume da coleção, apresenta, em textos inéditos em livro, outros elementos desse Vinicius distante dos temas solares. Escritos entre os anos 30 e 70, os poemas compreendem todas as "fases" do poeta — desde a da juventude, em que ele era influenciado por um simbolismo de extração européia, marcada por um catolicismo atormentado, até a posterior, em que a sua poesia ganhou mais leveza, tornou-se mais "modernista". Se as diferenças entre as duas fases são evidentes e inegáveis, a divisão rígida entre ambas acabou ocultando a persistência dos elementos sombrios da primeira na segunda, num poeta que, além de tudo, acabou sendo eclipsado pelo letrista. Trabalho, aliás, que não pode ser confundido com sua obra poética — outro equívoco comum.

Nas páginas que seguem, estão trechos de alguns desses poemas. Nem todos os textos do livro são inéditos, mas seguem sendo contundentes em revelar a obra de poeta mais inteiro, tão complexo quanto os elementos simbólicos e valores morais envolvidos — sexo e morte, culpa e prazer — na metamorfose de "poeta maldito" em "libertino". Sem esses elementos, não se pode compreender a profundidade da paixão pela qual o poeta foi reconhecido. Elementos que podem explicar muito, por exemplo, os versos de Soneto de Fidelidade (1946), talvez os mais famosos de Vinicius: "Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor (que tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure".

Uma Alma Duplicada
Por José Castello

Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, foi também o poeta do desespero. Sob a máscara do artista feliz, em eterno galanteio com a vida, escondeu-se, durante 67 anos, um homem atormentado, para quem o amor foi não só alegria, mas fardo, e a vida, uma sucessão de decepções.

Comecei a trabalhar em minha biografia de Vinicius de Moraes no início dos anos 90, uma década depois da morte do poeta. A única vez em que o vi, em fins dos anos 70, contudo, me bastou para perceber, não sem dificuldades, pequenos sinais desse Vinicius desconhecido. Eu era repórter de Veja e o poeta estreava um show no Rio. A entrevista foi agendada para a hora do almoço. Habituado a trocar a noite pelo dia, Vinicius me fez esperar por quase duas horas. Quando enfim apareceu, os olhos ainda esbugalhados pela noite, a voz lenta e rouca, custei a reconhecê-lo. Era difícil aceitar que aquele homem que me tratava com impaciência e desatenção fosse, de fato, Vinicius de Moraes. Mas era.

A entrevista foi um desastre. Sim, consegui meia dúzia de informações, e algumas declarações banais, que me renderam um texto discreto para a revista. Levei de volta comigo, porém, a imagem de um homem em contínuo desalinho com o mundo. Mais de uma década depois, foi dela que parti para escrever minha biografia. Ainda hoje, 16 anos depois de publicá-la, a figura desse Vinicius atormentado e em descompasso com o mundo me incomoda. Aos admiradores de canções suaves como Garota de Ipanema e Minha Namorada, ela parece não só falsa, mas absurda. Aos leitores que se habituaram à leveza de poemas como A Balada das Meninas de Bicicleta ou a Feijoada à Minha Moda, causa estranheza, ou mesmo repulsa.

Custo a admitir, mas a vida de Vinicius de Moraes foi uma linha irregular em que os grandes momentos de prazer e euforia se revezaram com descidas íngremes rumo à tristeza e ao desamparo. Os médicos de hoje, provavelmente, o rotulariam de "bipolar". Para além de qualquer diagnóstico, Vinicius foi, sim, um homem de alma duplicada. A paixão pela vida tinha, como avesso, íngremes descidas ao inferno. Quando rapaz, Vinicius desejou ser um poeta do talhe do francês Arthur Rimbaud. Foi um leitor apaixonado de Uma Estação no Inferno e, enquanto escrevia os primeiros poemas, olhava-se no espelho e via Rimbaud. Os versos torturados de seu primeiro livro, O Caminho para a Distância, escrito aos 19 anos, confirmam essa semelhança.

Bem antes ainda, em meados dos anos 20, quando ainda usava calças curtas, Vinicius rascunhou seus primeiros poemas. Nos corredores do Colégio Santo Inácio, escondia os versos nos bolsos do uniforme, comportava-se como um criminoso. Certo dia, aproveitou a companhia solitária de um colega e desabafou: "Tenho um segredo". Com a voz vacilante, como se revelasse um crime, continuou: "Eu escrevo poemas". Desconhece-se a resposta do amigo de sala. Mas, desde então, a poesia passou a ser, para Vinicius de Moraes, um objeto sombrio e íntimo.

Em 1933, quando publica O Caminho para a Distância, o precoce Vinicius, com 20 anos incompletos, se forma em direito. Na faculdade do Catete, passa a frequentar o grupo de alunos católicos liderado por Octavio de Faria, o futuro romancista, autor dos 13 volumes obscuros de A Tragédia Burguesa. A atmosfera de culpa e de trevas toma conta de sua alma. Um de seus poemas de juventude chegou a ser publicado em A Ordem, revista católica que, fundada por Jackson de Figueiredo, servia de porta-voz da ortodoxia cristã.

Nos primeiros versos de Vinicius de Moraes, sinal da tristeza que nunca mais o deixaria, a mulher surge como uma figura inocente e inatingível, enquanto o homem não passa de um ser inferior e sujo, indigno de sua companhia. Vista como um fardo, a masculinidade aprisiona os homens em impulsos carnais e arroubos de violência. Ser homem é "sofrer" desse destino. É disso que tratam seus primeiros poemas.

No segundo livro, Forma e Exegese (1935), a imagem do poeta atormentado se aprofunda. Em um poema como O Escravo, ele descreve: "Aqui vejo coisas que a mente humana jamais viu/ Aqui sofro frio que corpo humano jamais sentiu". Há um tanto de retórica nesse jovem que dramatiza o mundo e se vê como uma vítima. Em O Outro, ele diz: "Eu sinto sobre o meu ser uma presença estranha que me faz despertar angustiado".

A nuvem negra só se dissipa quando, em 1939, Vinicius conhece sua primeira mulher, Beatriz Azevedo de Mello, a Tati. Independente, liberal e pragmática, Tati era, naquele momento, uma leitora entusiasmada dos modernistas de 22. O primeiro sinal da guinada íntima de Vinicius está em seu interesse pelo jornalismo. Mas o conflito interior persiste. Quando começou a escrever crítica de cinema, para o jornal A Manhã, em 1941, por exemplo, Vinicius se tornou um ardoroso defensor do cinema mudo — que via, naquele momento, contaminado pelo "perigo da voz". A repugnância ao cinema falado será, mais tarde, superada. A marca dessa metamorfose toma forma em um poema como a Carta aos Puros, escrito em Montevidéu, no Uruguai, em fins dos anos 50, no qual Vinicius combate, com vigor, os "homens sem sol" e também "sem sal", que fogem da realidade. Combate a si mesmo.

Triste Bahia
Num espaço de 41 anos, entre 1939, ano em que se casou com Tati, e 1980, ano em que morreu, Vinicius viveu uma série de nove casamentos oficiais, afora as incontáveis paixões informais. Viveu, sempre, subjugado pela ideia da paixão. Escravo da paixão — que definiu como um amor que é "eterno enquanto dura" —, quando sentia que ela esfriava, Vinicius não pensava duas vezes: rompia com a amada. Tomou a iniciativa de se separar de sete de suas nove mulheres, confirmando a ideia de uma delas, segundo a qual o poeta, mais que amar as mulheres, amava a condição de apaixonado.

 

O fato de ser ele o autor das rupturas afetivas não o poupou, porém, da depressão que a elas se seguia. Entre os casamentos, Vinicius afundava na melancolia e se perdia na busca frenética de um novo grande amor. O amor secreto por Regina Pederneiras, arquivista do Itamaraty a quem dedicou a célebre Balada das Arquivistas, ainda quando era casado com Tati, se torna um modelo para as relações paralelas com que sempre temperou sua teoria da paixão. Entre as nove mulheres oficiais, apenas Lucinha Proença, a quinta, ao perceber que a paixão esfriava, foi mais rápida que ele e anunciou o rompimento. Talvez por isso tenha sido a única paixão (não falo de amor) que nunca se dissipou. Nona e última, a jovem Gilda Mattoso perdeu Vinicius para a morte.

Nos breves, mas infernais, intervalos de solidão, ele se apegava à bebida e à noite. Nessas horas, fazia uso de recursos enfáticos, chegando, até mesmo, a evocar (ou a blefar com) a ideia romântica do suicídio. Mas não só a ausência de paixão o levou a esses extremos. Também a ausência de liberdade. Em Portugal, a notícia da decretação do AI-5 o pegou nos bastidores de um teatro. Atordoado, gritava pelos camarins: "Eu me mato! Eu me mato!". Baden Powell, que o acompanhava no show, tentava acalmá-lo. "Pode me prender, eu quebro as lentes dos óculos e corto os pulsos!", o poeta insistia. Só um abraço longo do parceiro amansou sua fúria.

A dor vivida no ano de 1969, quando foi exonerado do Itamaraty, por "problemas de comportamento", e não por motivos políticos, deixou cicatrizes profundas. O célebre bilhete do general Costa e Silva ao chanceler Magalhães Pinto trazia palavras grosseiras: "Demita-se esse vagabundo". A vida dupla de diplomata e showman era inaceitável para os padrões da ditadura militar. Em março de 1969, a célebre Comissão Câmara Canto, grupo secreto criado pelo AI-5 para realizar um expurgo no Itamaraty, decidiu, em um relatório confidencial, pela expulsão sumária de Vinicius da vida diplomática. Diz-se, porém, que, nesse documento, nem mesmo os detratores se abstiveram de fazer elogios a sua poesia.

Deprimido pela perseguição política, Vinicius só se recuperou quando conheceu a baiana Gesse Gessy, sua sétima mulher. Mudou-se para a praia de Itapuã, em Salvador. Passou a ser visto com longas batas brancas, ornamentos do candomblé, sandálias de hippie, publicando seus versos em precárias edições artesanais, à moda dos poetas da "poesia marginal". A Bahia era uma festa — mas havia tristeza naquela festa.

Mesmo as paixões fugidias e secretas, como a que viveu nos anos 50 com a escritora Hilda Hilst, carregam essa marca. Quando estava apaixonado, Vinicius não suportava a idéia de tristeza. Hilda gostava de recordar o dia em que os dois pararam para um almoço em um restaurante de beira de estrada especializado em cordeiros. Sentaram-se ao lado de uma janela. Do lado de fora, bem ao lado, uma ovelha pastava. "Vamos embora", Hilda lhe disse. "Não vou conseguir comer vendo pela janela o bicho que vou comer." Vinicius só se levantou a contragosto. Apaixonado, nada devia contrariar seu entusiasmo. Desencantado, o mundo se revirava e o sofrimento se espalhava por todos os lados.

As circunstâncias o levaram, tantas vezes, a expor esse lado obscuro, o que aconteceu, por exemplo, quando perdeu o pai, Clodoaldo. Vinicius, que estava no México, recebeu a notícia por telefone. O horror se estampou em um poema dolorido como Elegia na Morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, escrito pouco depois. O primeiro verso fala não só de sua tristeza, mas do sentimento de que ela o perseguia: "A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas".

Se a celebração da vida aparece em poemas célebres como Receita de Mulher ou na Balada das Duas Mocinhas de Botafogo, a confissão da tristeza se estampa em um poema dolorido, mas genial como Poética (II), que escreveu no Rio de Janeiro, em 1960. A abertura resume sua estratégia literária: "Com as lágrimas do tempo/ E a cal do meu dia/ Eu fiz o cimento/ Da minha poesia".

Nos anos do último casamento, com Gilda Mattoso, os sinais dessa tristeza se tornaram atordoantes. Com o passar do tempo, contudo, esse Vinicius deprimido e desesperado ficou esquecido sob a imagem luminosa do "poetinha". Avesso e direito de um mesmo poeta. Uma prova disso aparece no Soneto de Luz e Treva, em particular na dedicatória a Gesse Gessy: "Para a minha Gesse, e para que ilumine sempre a minha noite". A luz é das mulheres. Aos homens, mesmo aos poetas, resta sempre o martírio da escuridão.


JOSÉ CASTELLO é jornalista e escritor, autor da biografia Vinicius de MoraesO Poeta da Paixão, entre outros livros.


O LIVRO
Poemas Esparsos, de Vinicius de Moraes. Seleção e organização de Eucanaã Ferraz. Companhia das Letras, 256 págs., R$ 42.

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publicado às 15:53


1 comentário

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De Dobra a 06.01.2009 às 18:33

Grande homem e grande obra. Conta-se que, numa das suas vindas a Lisboa, em 1969, houve um terramoto na cidade, enquanto Vinicius regressava ao Hotel de táxi e já com "grão na asa". Chegou ao Hotel e viu, na entrada, toda a gente de pijama e meio despida por causa do sismo que ele nem sentiu. Entrou, esfregou as mãos de contentamento e disse: "legal, gente, tem suruba hoje!!!".

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