PORQUE O POLITICAMENTE CORRECTO CORROMPE E DESTRÓI - Desde Novembro de 2005
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017
#2135 - FESTA DAS FOGACEIRAS - 20 DE JANEIRO

AS FOGAÇAS E OS CALADINHOS - PERCURSOS

 

Com percursos históricos diferentes e motivações sociais, culturais, políticas, religiosas e psicológicas bem diversas, as fogaças e caladinhos que conhecemos e adoptamos como um dos ex-libris do concelho de Santa Mara da Feira, são, hoje, extremamente importantes para a economia de algumas unidades industriais e comerciais da cidade.

 

As fogaças e caladinhos encerram dentro de si uma parte importante da nossa história enquanto testemunhos da nossa memória colectiva. Mas, mais importante do que as formas, os sabores e os gestos que ensinam as receitas, é permitir que cada porção de farinha, de açucar, de ovos e manteiga seja a descoberta da alma, das emoções, dos conflitos, da dor, morte, esperança e vida do  povo anónimo das Terras de Santa Maria.

 

Houve, nos séculos XV e XVI, uma grande epidemia. E o povo foi dizimado. E aqueles que restaram levantaram os braços e os olhos em direcção ao Céu e dirigiram as suas súplicas carregadas de fé ao mártir S. Sebastião. E fizeram promessas e empenharam as suas vidas.

 

O mártir sorriu. E o sorriso limpou-lhes a alma e as lágrimas. E as lágrimas transfiguraram-se  e tomaram a forma de fogaças.

 

E, todos os anos, no dia 20 do mês de Janeiro, somos cúmplices e testemunhos vivos de uma promessa que nos pediram para cumprir. E cumprimos. Por isso descemos à cidade e enfeitamos as velhas ruas do burgo e damos-lhe vida, cor e emoções. E vivemos a História, e aprendemos que a Fogaça não é apenas um símbolo, mas toda a alma do povo das Terras de Santa Maria.

 

E, ao enterceder, quando a penumbra do dia confunde os rostos e transforma as sombras em silhuetas, o povo junta-se em pequenos grupos e regressa a casa transportando consigo as fogaças e caladinhos. Durante a viagem relembram momentos já passados e contam histórias que fazem parte da História da cidade. E recordam, a propósito de caladinhos, os anos 30, a polícia política, as tertúlias na Farmácia Araújo, e a perspicácia do Augusto Padeiro. E contam como simples biscoitos passaram do anonimato para a ribalta da glória.

 

"...Um dia, à noite, aqui em Santa Maria da Feira, o Augusto Padeiro e seus empregados estavam a fazer biscoito sortido com forma arredondada e achatada. De repente, entraram elementos da polícia política e o Augusto Padeiro, com medo, disse aos empregados: Shiu! Calados!.

Um dos elementos da Polícia perguntou: - Porque disse calados?

O Augusto Padeiro, respondeu: Porque estamos a fazer Calados. Estes biscoitos são os Caladinhos"...

 

E de memórias em memórias, sob a égide do castelo altaneiro, num ritual marcado pelo tempo, o povo cumpre o voto e, de uma forma cúmplice e intimista, ergue o olhar ao Céu e o Santo sorri.

 

 

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 12:05
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017
#2134 - No dia 20 de Janeiro, em Santa Maria da Feira, cumpre-se os votos prometidos ao mártir S. Sebastião

FESTA DAS FOGACEIRAS

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 23:04
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#2133 - A Europa na Geografia da História

VASCO GRAÇA MOURA

actas simposio027.jpg

 

"Antes de mais eu queria agradecer este convite para vir a Santa Maria da Feira e ainda agradecer, pela sua presença aqui, ao José Saramago com quem, desde há muitos anos, tenho uma excelente relação de amizade e de grande admiração pela sua obra. Acontece que no meu curriculum isso está exarado, uma vez que fui Presidente do Júri que,em '86, atribuiu o Prémio D. Dinis a O Ano da Morte de Ricardo Reis, antes, portanto, do Prémio Nobel. E, singularmente, tanto O Ano da Morte de Ricardo Reis como um outro livro que José Saramago publicou mais tarde, e de que eu, devo dizer incidentalmente, gosto menos,Jangada de Pedra, consistem de algum modo em meditações sobre a Europa. A Europa dos anos trinta, no caso de "Ricardo Reis", portanto a Europa das inquiteções que se desenhavam e acumulavam no horizonte europeu a partir de '36; a Europa da adesão de Portugal e Espanha à CEE, no caso da "Jangada". Esta Europa foi objecto de uma meditação sob forma, digamos, de parábola literária por parte de José Saramago. Por sinal na Jangada de Pedra, trata-se de uma parábola extremamente clara da concepção que o José Saramago fazia, e faz ainda hoje, de um papel histórico para Portugal e para Espanha como ponte priveligiada situada no Atlântico, algures entre o Brasil e África; concepção que eu respeito, não correspode à minha, mas que é, sem dúvida, importante e tanto mais 

importante o é quando se trata de obras excelentemente bem escritas e coroadas, no seu conjunto, por um prémio da envergadura do Prémio Nobel.

 

Devo também dizer que comungo de algumas perplexidades, provavelmente não com o mesmo fundamento ideológico, que foram expressas por José Saramago. Sou profundamente céptico, por exemplo, quanto à veleidade federadora da Europa, tal como parece estar a desenhar-se no quadro da Convenção. Sou profundamente céptico quanto à maneira como certas ópticas de Bruxelas encaram uma série de problemas sectoriais e gerais da Europa. E penso, sobretudo, que a Europa existe, que é um continente com um conteúdo e que tem uma série de traços específicos, muitos dos quais, de resto, exportou para fora das suas fronteiras, mas penso também que há uma coisa que falta para que possamos falar de uma verdadeira cidadania europeia. Não é apenas uma maior transparência, uma mais cuidada e completa informação dos cidadãos sobre o que se passa nos centros de decisão das instituições europeias; a questão é que não temos uma relação afectiva com a Europa. Podemos ter uma excelente relação intelectual, podemos problematizar, construir, desenvolver, tecer todas as considerações que quisermos sobre a Europa, a História da Europa, a Geografia da Europa, o papel da Europa no mundo, mas falta-nos aquilo que nos une à nossa terra, que une aos que são daqui a Santa Maria da Feira, aos que são do Porto à cidade do Porto, aos que são portugueses a Portugal, aos que são espanhóis a Espanha, aos que são italianos a Itália, falta essa componente afectiva que faz com que, por exemplo, um americano quando fala em the nation, a nação, ponha a mão no peito e se sinta norteamericano. Nós, nesse sentido, ainda não nos sentimos europeus, e vai certamente faltar bastante tempo para que consigamos (o que não quer dizer que vamos desistir). Posto isto, queria abordar o tema que me foi proposto: "Dante ou Shakespeare, qual o poeta desta hora absurda?". E, de algum modo, temos de considerar que há uma matriz europeia que permite pegar em dois autores tão diferentes como Dante ou Shakespeare e tentar, a partir deles, encontrar uma resposta a esta questão. Eu devo dizer que prefiro transformar este díptico, Dante ou Shakespeare, num tríptico, e acrescentar um terceiro nome que é o de Balzac, porque penso que ele abre algumas pistas importantes para a questão. E, por isso, vou utilizar partes de um ensaio que tenho andado a escrever, de que farei uma síntese, que é mais ambicioso, digamos assim, mas que nalguns aspectos é mais do que um título, prenuncia, de algum modo, quanto a esses autores aquilo que no século XX já veio a chamar-se o teatro do absurdo, ou seja, uma certa consciência do absurdo, na sua forma de espectáculo, ou, pelo menos, de encenação.

 

Penso que Dante, Shakespeare e Balzac são os três maiores autores da literatura ocidental, depois de Homero. O José Saramago ainda não chegou à canonização post mortem, portanto não tem que figurar nesse panteão, e digo isto com muito boas razões: um dos maiores críticos americanos - agora permitam-me um parêntesis - Harold Bloom que, de resto, fez há tempos uma conferência sobre José Saramago, em Lisboa, acaba de publicar um livro chamado Genius (génio), em que procura percorrer a obra de uma série de génios, para ele praticamente todos europeus, e ligados àquilo que ele considera ser o cânone ocidental; ora bem, na introdução ele diz: "Só falo dos mortos e não falo de Saramago porque ele ainda não morreu", o que é, portanto, um bom álibi para mim, por referir Dante, Shakespeare e Balzac como os três maiores autores da literatura ocidental, depois de Homero, e que são, também em minha opinião, os que mais profundamente compreenderam e organizaram na sua obra o espectáculo da condição humana no confronto violento dos seus comportamentos, dos sentimentos e dos conflitos com as normas supostamente aplicáveis e os chamados códigos de comportamento corrente.

 

Cada um à sua maneira, não apenas pela via do teatro, porque só Shakespeare é que no fundo cultivou o teatro, eles dramatizaram, no caso de Dante, o percurso do ser humano pela via da regeneração estra-terrena, o chamado status animarum post mortem, o estado das almas depois da  morte; no caso de Shakespeare, a paixão amorosa e a paixão política e o seu terrível efeito nos protagonistas, no caso de Balzac, o papel do dinheiro, do interesse económico e do individualismo egoísta como mola real das sociedades modernas. São três vias do espectáculo no sentido globalizador. Provavelmente são, para a nossa civilização europeia, no plano da criação literária, as três matrizes principais dela, para além das múltiplas metáforas que o termo espectáculo proporciona.

 

São três vias do espectáculo, mas que também podemos considerar aproximadas de uma noção de absurdo, embora sejam diferentes os termos em que essa noção se põe em cada um dos casos considerados, como também será diferente a nossa própria procura de sentido a empreender na leitura de cada um deles. No caso de Dante, por exemplo, o absurdo, para ele, só poderia estar correlacionado com a transgressão dos códigos de Deus. Não há absurdo gratuito nem as suas descrições do inferno se pretendem absurdas, o inferno dele é uma consequência absolutamente lógica daquela transgressão dos códigos de Deus e, por sua vez, é uma consequência simbolicamente ilustrada em cada um dos horrores e abjecções que nos descreve como correlativos dos vícios e das degradações da vida terrena.

 

Para a mentalidade religiosa medieval, o inferno, enquanto ausência de Deus, tinha de ser uma presença, era um vazio que tinha de ser um "cheio" (cheio de casos exemplares de expiação e lamento). Talvez por isso pudéssemos dizer que, nesse sentido, o absurdo não tem lugar na catedral minuciosamente agenciada que é a Divina Comédia, uma vez que nela o horror, sendo uma forma de castigo, é ainda uma forma de sentido. Mas é claro que hoje, numa sociedade laica que há muito perdeu a força no senti´do escatológico, tal como ele era vivido no tempo de Dante, a maior parte dos casos do labirinto dantesco surge-nos como outras tantas figurações do absurdo que tendemos a aproximar, por exemplo, do impacto visual da pintura de um Jeronimus Bosch, produzida dois séculos mais tarde, em relação à qual perdemos uma chave de leitura coerente, talvez por ser uma chave iniciática que nunca chegou a ser bem explicitada. Há quem sustente que aqueles horrores, aquelas figuras monstruosas do Bosch, eram pintados com vista à contemplação por parte dos iniciados de uma seiat existente nos Países Baixos a que ele pertenceria e, portanto, seria uma meditação que no fundo faria sentido a partir da contemplação do absurdo.

 

Mas para lermos Dante correctamente, não podemos esquecer que nele o verdadeiro espectáculo está ligado ao cenário cósmico supremo e a um Deus feito de luz, espectáculo total e totalizante, em que todo o universo se subsume e que não exclui a inúmera série de espectáculos menores que nos é dado presenciar, muito em especial no Inferno e no Purgatório, e que nesse pulular concreto, nesse fervilhar vivencial, tornam o texto repassado de humanidade e realismo, do vício à regeneração e do castigo à recompensa. À sua maneira, Dante cria a obra de arte total, a que os alemães do fim do século XIX chamavam Gesamtkunstwerk, e convoca todos os saberes, todas as instâncias da criação cultural, todas as tradições cultas, todos os mitos, todos os seres, todas as paisagens, todas as invenções linguísticas e todas as experiências. Parte do labirinto das abjecções para a rarefação etérea da pureza, parte do espectáculo aviltante do pecado para a cena sublime e inatingível de Deus. Mas ele assume tudo isso na sua própria personalidade. Escreve o guião, faz a encenação, faz o ensaio, faz as marcações, puxa a cortina, apupa, aplude, pune, salva, o que torna o espectáculo ainda mais intrinsecamente complicado e, talvez, mais absurdo. Um homem arroga-se o lugar de Deus, de uma espécie de lugar-tenente e de intérprete autorizado de Deus, e fala em nome dele. A sua comédia polariza-se entre o absurdo de Deus e a prerrogativa de quem, assim como quem dele usurpa o lugar, contra todas as ortoxodias, fabrica uma diva, a Beatriz, para, na luz de Deus, só contemplar uma bem-aventurança e, como nas grandes feéries dos espectáculos humanos, conclui sobre os focos das girândolas da luz da metafísica e das gambiarras divinas. E também duplica os jogos dos actores. De algum modo, Dante está para Deus como Beatriz está para a vergine madre, a virgem mãe, filha do seu filho, e como Adão e Eva evocam ser o primeiro homem e a primeira mulher, emblemáticos progenitores de todos os espectáculos e de todos os absurdos, que hão-de reconduzir sempre à vertigem do logos divino e do seu sentido, pelo menos no que deles nos é dado entrever como ultimo fim do ser humano.

 

Muito diferente é Sakespeare. Ele problematiza de outra maneira os conflitos, os vícios e as paixões do mundo. Conhece, imagina e encena a disputa do poder e a violência amorosa, o desastre e a guerra, a verdade e a mentira, a intriga e o crime. Mostra a História e as histórias como espectáculo permanentemente nosso contemporâneo, entrecruza o destino com as molas reais do comportamento dos homens e disso se faz o trágico inevitável e irreversível do seu e do nosso teatro. Diz Harold Bloom, de quem já falei, que Shakespeare é quem conhece melhor a nossa natureza porque foi ele quem os inventou. Será de acrescentar que nos inventou como bodes expiatórios e sem outra saída, ou seja, cada um só lhe interessa como bode expiatório verídico da tragédia. Nele o ser humano só existe à luz insidiosa da traição ou para ser traído. Pode haver fontes conhecidas de muitas das suas peças, nomeadamente das históricas,mas não há precedentes consistentes nem do Hamlet, nem do Rei Lear, nem de Macbeth, nem de Otelo, antes dessas peças serem escritas. E Shakespeare não conhece Deus. Ele cria as suas criaturas, cria a sua medida e desmedida do humano, do humano sacrificado ao altar da fatalidade irreversível, não por uma evolução de razões de predestinação, não por um destino fixado nos astros, uma rejeição do livre arbítrio que, para o mundo religioso da época, era conferido ao homem por Deus, mas porque o crer das suas personagens acaba por ser um crer confinado a si mesmo, à luz de um mal sem alternativa. Todos os homens são maus e reinam na sua maldade, diz-se num dos sonetos, de um mal que é tão natural, como é natural a humana desumanidade nos conflitos a que conduz. Mesmo através das hesitações de Hamlet, em que afinal é meramente ilusório o esboçar das possibilidades de escolha.

 

Só o maneirismo shakespeareano poderia tornar possíveis todas as violências, todas as dilacerações, todas as interrogações e todas as ferocidades à escala de um palco de instabilidade e de almas estruturadas. Em Shakespeare todo o mundo é um palco, all the world is a stage, não um curso alu.cinado de sombras e de sonhos como em Calderón,  mas sim um entrechocar pungente de seres vivos a culminar na tragédia e na solidão de que os restantes humanos, os que sobreviveram, apanham os restos e os cacos, para deles formarem uma imagem do mundo e de si mesmos. Por isso, o absurdo do Shakespeare nos toca pelo seu teor de crua deumanidade. Por isso, também, surge numa altura em que o individualismo renascentista da confiança do homem já está em decadência, já está em crise. É uma confiança que já está a ser triturada por um feroz mecanicismo do Estado absoluto que se vai impondo cada vez mais. Na obra de Shakespeare, Deus como sentir supremo do universo jã não se encontra aos comandos. O absurdo shakespeareano  tem a ver com a trágica falta de sentido da sociedade humana, prolongando mais violenta e radicalmente os tópicos renascentistas da "nave dos loucos", do "mundo às avessas", dos disparates e do "desconserto do mundo", que também foram tema para o nosso Camões. O homem deixa de compreeder o seu destino e tende a ser apresentado como joguete de forças e de catástrofes que não controla. O nosso poeta nacional também o intuiu e apresentou uma saída que para ele acabaria por corresponder à formulação de uma hipótese de sentido metafisicamente alicerçada. Há um soneto em que o Camões descreve uma série de problemas para os quais não encontra solução e termina dizendo: "Mas  o melhor de tudo é crer em Cristo".

 

Quanto a Balzac, ele escreve numa sociedade aparentemente mais demesticada no tocante à violência física e sangrenta nua e crua, mas compreende todos os mecanismos da paixão, do poder e do funcionamento do dinheiro, da estruturação social em função dele, da sujeição dos comportementos e dos sentimentos à sua força, da violência social e moral que ele pode acrretar.

 

O seu espectáculo, a "comédie humaine", já não "a comédia divina", vive dessa encenação de aristocratas e plebeus, de banqueiros e de políticos, de magistrados e de comerciantes, de aventureiros e de arrivistas, de rurais e citadinos, de herdeiras e de cortesãs, cujos nós seriam urdidos pelo seu conterrâneo Joseph Fouché, o chefe da polícia, a orientar-se friamente por um Nasdaq avant la lettre, tudo reconduzido a uma ordem cujas leis implacáveis relevam o poder económico e os ditames da burguesia instalada. O espectáculo está mais próximo de nós e poe em cena toda a sociedade. Marx valorizava-o nas suas análises, porque Balzac tinha compreendido essa específica actuação entre a ficção e a realidade.

 

À sua maneira, Balzac é ainda shakespeareano, descontados o sangue derramado e a brutalidade dos meios de liquidação das personagens. E domestica o romantismo dos impulsos, a dominar o século XIX, que por alguma razão fez leituras próprias de Dante e Shakespeare, várias vezes no tablado da ópera e no teclado das escalas, no ritmo e na orquestração das emções. A tudo isso, Balzac substitui, no seu universo, as noções de processo judicial, de mecanismos de crédito, de especulação, de ganho e de falência, de crimes de colarinhos brancos e de crime tout court, as ambições e as frustrações, as regras sombrias de uma entidade difusa - o Estado -  e de um demónio omnipresente - o dinheiro - , as manhas e expedientes de  cada um, que funcionam em vez das vias do pecado, da perdição e da expiação de que fala Dante, e em vez dos punhais sub-reptícios e dos venenos isabelinos apresentados em Stratford-on-Avon.

 

Se quisermos referi-lo a Dante, em Balzac o inferno chama-se falência, o purgatório chama-se carreira, o paraíso chama-se sucesso. O espectáculo, com ele, transfere-se definitivamente para a ordem do imanente. Com Dante, somos uma nostalgia do divino; com Shkespeare, somos um arrepio catártico ante a ferocidade do mundo; com Balzac tornamo-nos todos participantes do grande espectáculo da sociedade moderna. Correspondentemente, a noção de sentido foi mudando e a de absurdo também. O século XIX português fez nele uma primeira incursão com o Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, embora orientada para o absurdo da decadência nacional. Mas também o nosso século XIX revisita rapidamente o mundo às avessas, dando-nos a faceta de um Faustino Xavier de Novais; os defuntos a tremer, / com desejo de aquecer, / buscam serviços activos: / vão à caça, pescam, dançam, / e quando lassos descansan, / rezam por alma dos vivos.

 

Para a hora de hoje, para esta hora absurda, e já que não falamos em Kafka, qual dos autores referidos poderá ilustrá-la melhor? Se formos por essa via, tenho para mim que qualquer um deles nos oferece textos que podemos ler como parábolas a tal respeito. Só que provavelmente elas ficam todas aquém da realidade. Assim como George Steiner observa que os horrores de Dante não são nada comparados com os dos  campos de concentração nazis, também podemos dizer que os de Shakespeare, no esbracejar impotente de cada personagem condenada na sua individualidade única, não são nada ao pé das purgas, torturas e genocídios provocados por totalitarismos e fundamentalismos de vária ordem ao longo do século XX, e ainda que os de Balzac não ultrapassam a infância da arte, no confronto com a selva que é hoje a vida financeira internacional e a desmultiplicada hipocrisia do poder.

 

Poderes absurdos, portanto, que não estão quantitativamente à medida dos que conhecemos em tempos muito mais próximos de nós, mas que dão bem a medida da aspiração da alma humana a um sentido da harmonia e da felicidade, nas expressões mais genialmente artísticas que lhe couberam e que, por isso mesmo, comportam, de algum modo, uma hipótese de redenção se neles procurarmos um sentido".

 

Intervenção de Vasco Graça Moura no Simpósio sete sóis sete luas realizado no ano de 2002 em Santa Maria da Feira no Auditório da Biblioteca Municipal e subordinado ao tema "A Europa na Geografia da História". Participaram, além de Vasco Graça Moura, José Saramago,  Antonio di pietro e Carlos Magno como moderador.

 

 

 

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 17:47
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Domingo, 15 de Janeiro de 2017
#2132 - Rodrigo Leão & Scott Matthew - Terrible Dawn

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 22:57
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#2131 - A Europa na Geografia da História

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 JOSÉ SARAMAGO

 

"A minha função aqui é muito simples. Sou o porteiro, sou o homem que abre a porta, e portanto, como um daqueles educados porteiros de outras épocas, abrirei a porta, afastar-me-ei para o lado e deixarei passar, com a vénia devida, os convidados que neste encontro têm efectivamente importância, isto é, o juiz Antonio di Pietro e Vasco Graça Moura, meu velho conhecido.

 

Não pareceria mal que porteiro tão atento como me prezo de ser perguntasse às pessoas a quem abriu a porta se fizeram boa viagem, se estão bem de saúde, se gostam de estar em Feira, etc.. Se não faço tais perguntas é apenas para encurtar razões, mas quero deixar claro que me sinto muito feliz por ter sido o porteiro deste  acontecimento e que pela porta que abri tenham entrado as duas pessoas a quem estou acompanhando nesta mesa. Propõem-se Antonio di Pietro e Vasco Graça Moura desenvolver um assunto à primeira vista algo intrigante, nada mais nada menos que Europa na Geografia da História. Que Europa, como qualquer outra região do mundo, seja Geografia e seja História, é uma obviedade demonstrável num sem-fim de mapas e livros, mas que possa ser observada e analisada de uma perspectiva que toma a História como coisa "geografável" (com perdão do neologismo), eis uma proposta capaz de excitar a mais renitente falta de curiosidade. Esperemos, portanto, que Antonio di Pietro e Vasco Graça Moura, eurodeputados ambos, bons conhecedores das malhas que Europa tece, nos iluminem os caminhos para um saber cuja falta se vai sentindo cada vez mais: um real conhecimento da Europa. Para esta Europa que nos puseram nas mãos ninguém nos pediu antes que contribuíssemos com a nossa razão e a nossa inteligência de cidadãos. Salvo alguma raríssima excepção, não se realizaram debates públicos nem referendos, não se ponderaram certezas, não se esclareceram dúvidas, Europa saiu da cabeça dos seus criadores com Atena da cabeça de Zeus: armada e equipada. Ou, talvez com maior rigor, como um fato pronto-a-vestir onde se esperava que se sentissem igualmente cómodos tanto os  altos como os baixos, tanto os gordos como os magros, tanto os pernaltas como os de perna curta. Pensava-se que era tudo uma questão de capacidade de aguante nosso e que, com o tempo e a rotina, nos acabaríamos por acostumar. Ora, sucede que são eles precisamente quem se está a aguentar mal. Algumas das ideias e dos projectos que fervem nos meios dirigentes da Europa dão francamente que pensar, como dariam que pensar acções de um aprendiz de feiticeiro incapaz de disciplinar e manter no bom caminho as forças que imprudentemente acaba de pôr em movimento. Não vou discutir o alargamento da Europa, não vou discutir a constituição em projecto, em parte porque me falta a necessária competência, em parte porque não devo esquecer que neste acto sou apenas o porteiro. O  que não me impede de pensar que Europa simplesmente não existe, ou não existe ainda. Há um lugar geográfico que recebeu o nome Europa, há  uma história a que chamamos europeia, e esse lugar e essa história foram, no passado, desgraçadamente, palco de ambições nacionais destrutivas e cenário de conflitos terríveis. O século XX propôs-se unir a Europa, mas o século XXI não veio encontrar unidos os europeus. Estou disposto a acreditar que a União Europeia não é uma mera associação de interesses preocupados em manter e prolongar um determinado sistema económico, mas preocupa-me a escassa atenção que se vem dando aos factores sociais, culturais e políticos, que, a persistir, poderá levar a que um dia vejamos países com regimes pré-fascistas, se não fascistas mesmo, numa União que faz gala em reger-se por princípios e valores democráticos. Visão pessimista, sem dúvida, mas não inteiramente destituída de razão de ser. Fico-me por aqui, eu sou apenas aquele que abriu a porta e agora vai apresentar os oradores do colóqui.

 

O juiz Antonio Di Pietro é conhecido por haver metido ombros ao décimo terceiro trabalho de Hércules, esse que teve o feliz nome de mani pulite, e digo feliz porque entre todas as coisas que necessitamos deveriam ocupar lugar principal as mãos limpas, um detergente ético que as lave, uma honradez que as mantenham imaculadas. Antonio Di Pietro, que é agora um político, não esqueceu, não pode ter esquecido o que foi essa admirável odisseia nem por que acabou por sair dela vencido. O sistema, aparentemente derrotado, contra-atacou e expulsou-o do campo de batalha. A Itália de hoje não é um espelho em que um italiano honesto tenha prazer em contemplar-se. Será preciso voltar outra vez à luta pela igualdade, pela justiça, pela limpeza moral, essa santíssima trindade que guiou Antonio di Pietro quando juiz.

 

Quanto a Vasco Graça Moura, embora seja legítimo considerar que esta minha observação vem fora de propósito, não resisito a dizer que existem entre nós conflitos resultantes de diferenças e oposições, e mesmo uma certa impaciência mútua, que é quando cada um pergunta como e porquê o outro continua a pensar o que pensa. Fechado este parêntesis, creio que a Vasco Graça e Moura assenta bem o qualificativo de homem dos sete ofícios, expressão que certamente não se usava em Itália na época do Renascimento, mas que, pensando bem, se podia aplicar a artistas que eram, muitas vezes, ao memo tempo, arquitectos, escultores, pintores e poetas. Digamos então que a Vasco Graça Moura, pela diversidade e qualidade de ofícios que pratica, o  anima o espírito renascentista. É poeta, ensaísta, romancista, tradutor, e se até este momento só estou contando quatro ofícios, não duvido que ele poderá, se quiser, acrescentar os três ofícios que faltam e talvez  alguns mais.

 

Foi para mim uma grande satisfação ter-me sido proporcionada a ocasião de apresentar os nossos convidados, mas não é menor a satisfação de me encontrar em Feira, no coração do que no passado se chamou Terra de Santa Maria, nesta cidade de dez mil habitantes onde há uma orquestra sinfónica juvenil com 120 músicos que actuam com regularidade, onde há uma biblioteca que tem treze mil inscritos, o que faria pensar que o autor do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes não foi quem julgávamos, ou então que nesta cidade de Feira as pessoas são inscritas como leitores mesmo antes de terem nascido... A verdadeira explicação é outra, claro está, são pessoas da região que, vivendo fora da cidade, utilizam os serviços da biblioteca. Tudo isto nos dá uma impressão de refrescante vitalidade cultural que, infelizmente, não é regra no nosso país.

 

E agora termino. Durante muitos anos andaram a querer convencer-nos de que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, o que, se repararmos bem, era uma maneira de nos dizer que estivéssemos calados. Pois eu dir-vos-eis que a palavra é que é de ouro,e que o silêncio, muitas vezes, nem a prata chega. Portanto, quando chegar a hora de falar, e estou a dirigir-me particularmente aos jovens, façam-nos o favor de perguntar, de duvidar, de interpelar. Perguntem o que é isso da História e para que serve, se é apenas um conto que nos contam para que o vamos repetindo, ou se é algo vivo

que devemos questionar? E a Geografia? Nos últimos anos as fronteiras da Europa levaram um sopro que varreu tudo. Talvez seja preciso repor algumas coisas nos seus lugares, enfrentando o problema de que perdemos o sentido do lugar das coisas. Essa é a grande questão europeia, não saber onde estão os lugares das coisas.

 

Muito obrigado. Passo a palavra a Antonio Di Pietro e a Vasco Graça Moura.

 

Eles que falem."

 

INTERVENÇÃO DE JOSÉ SARAMAGO NO SIMPÓSIO SETE SÓIS SETE LUAS SOB O TEMA "A EUROPA NA GEOGRAFIA DA HISTÓRIA" QUE TEVE LUGAR NO ANO DE 2002 NO AUDITÓRIO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE SANTA MARIA DA FEIRA E COMO CONFERENCISTAS JOSÉ SARAMAGO, ANTONIO DI PIETRO E VASCO GRAÇA MOURA E COMO MODERADOR CARLOS MAGNO.

 

 

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 18:58
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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017
#2130 - Strange Fruit - Annie Lennox

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 21:29
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#2129 - Strange Fruit - Jeff Buckley

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 21:26
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#2128 - Strange Fruit

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 21:22
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#2127 - Hoje apetece-me ouvir - Emerson, Lake & Palmer - C'est La Vie (1977)

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 19:04
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#2126 - Livros e Leituras

afonso cruz026.jpg

 

 "De todas as operações conhecidas da CIA, a agência de informação norte-americana, entre as ridículas e as tenebrosas, há uma que se destaca, pelo facto inusitado de a arma usada ter sido a música, mais concretamente o jazz. Trata-se de um programa criado em mil novecentos e sessenta e oito, depois do falhanço da Baía dos Porcos e da operação Northwoods. Esta última parece mais uma absurda teoria da conspiração do que um projecto factual: foi recusada por John F. Kennedy e tinha por objectivo organizar e levar a cabo, dentro das fronteiras americanas, diversos actos terroristas, entre sequestros, atentados bombistas, sabotagens, etc., atribuindo as culpas a Cuba e justificando assim uma possível invasão do país caribenho; estes documentos foram tornados públicos em mil novecentos e noventa e sete. A par disto, já no final dos anos sessenta, a CIA criou o programa Jazz Ambassadors, com o qual se prertendia, através da música, melhorar a percepção internacional dos Estados Unidos da América, à época especialmente negativa. Em plena Guerra Fria, organizaram-se diversos concertos do outro lado da Cortina de Ferro, com vários elementos do jazz, incluindo Satchmo (Louis Armstrong), Benny Goodman, Dizzy Gillespie e Duke Ellington, entre outros. Os músicos negros eram os eleitos para mostrar ao mundo que, afinal, os Americanos não eram racistas. Genuinamente, acreditavam poder, com este programa, vencer a Guerra Fria, ao evangelizarem uma juventude de Leste que ouvia música erudita mas tinha pouco contacto com outros géneros musicais, especialmente o jazz.

 

Este facto parece-me uma das ideias mais fantásticas da Humanidade: pretender conquistar o mundo através da música, em vez de, por exemplo, fazer explodir Hiroxima ou invadir o Iraque. A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase. E não tem sequer de ser música de qualidade para o conseguir. Uma pintura de Van Gogh não nos põe a dançar, mas uma canção, por pior que seja, é bem capaz de o fazer. O programa americano pode ter falhado - o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num  baile em vez da explosão  de uma bomba de hidrogénio. "

 

INÍCIO DO NOVO LIVRO DE AFONSO CRUZ  «NEM TODAS AS BALEIAS VOAM» EDIÇÃO COMPANHIA DAS LETRAS PORTUGAL, NOVEMBRO DE 2016

 

 

 

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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017
#2125 - Recordar a voz poderosa e inconfundível de Joan Baez

Joan Baez - Diamonds and Rust 



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#2124 - Apetece-me Ouvir

  Tom Waits - Jersey Girl



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#2123 - Que coisa são as nuvens

 JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

 

"Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado"

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

 

RETIRADO DA CRÓNICA SEMANAL <QUE COISA SÃO AS NUVENS> E COM O TÍTULO "LEVANTA-TE E DANÇA" - REVISTA E - EDIÇÃO 2305, DE 30 DE DEZEMBRO DE 2016

 

 



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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016
#2122 - O corpo iluminado

david mourao ferreira desenho025.jpg

 

david mourao ferreira024.jpg

Afogo no teu ombro

tudo o que não te digo

o pânico do sonho

o resplendor do risco

 

É de ti que me escondo

Em ti é que me firmo

Antes de já ser ontem

sentir que estamos vivos

 

POEMA DE DAVID MOURÃO-FERREIRA E DESENHO DE FRANCISCO SIMÕES RETIRADO DO LIVRO "O CORPO ILUMINADO", EDITADO EM 1987 PELA EDITORIAL PRESENÇA

 



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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2016
#2121- Em memória de George Michael

George Michael - Jesus To A Child

 



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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016
#2120 - José luís Peixoto recebe o Prémio Literário Oceanos

 

Os quatro vencedores do prêmio Oceanos 2016 traduziram a diversidade de gêneros literários da literatura contemporânea. Além do romance Galveias, do português José Luís Peixoto – primeiro colocado nesta edição –, foram premiados o romance A resistência, do escritor paulistano Julián Fuks, em segundo lugar, o volume de poesia O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques, em terceiro, e os contos de Maracanazo e outras histórias, do carioca Arthur Dapieve, quarto colocado.

Galveias, cujo título é extraído do nome da aldeia natal de Peixoto, na região do Alentejo, é um mergulho no “Portugal profundo” e rural, cuja narrativa alinha personagens emblemáticos desse universo arcaico a partir de um evento (a queda de um meteorito em Galveias), o qual, simbolicamente, confere um sentido cósmico a essa comunidade que se extingue entre rústica violência, desolação, melancolia e choque com a modernidade.

Em A resistência, o tema dos traumas familiares deixados pelas ditaduras latino-americanas reaparece sob ângulo renovado – na figura do irmão adotivo do narrador: a possibilidade de que ele seja filho de desaparecidos políticos durante o regime de exceção na Argentina lança sobre a família um véu de segredos, silêncios, não ditos e interditos que Julián Fuks (filho de psicanalistas argentinos radicados no Brasil) maneja com argúcia analítica, associando a tensão emocional à reflexão sobre os mecanismos de resistência à desocultação da verdade.

O livro das semelhanças, da mineira Ana Martins Marques, é dividido em quatro partes, que percorrem cartografias e analogias, sempre buscando delicadas iluminações sobre o cotidiano, com poemas delicada e generosamente abertos para as experiências, as quais se tornam novas experiências ­– experiências poéticas.

Maracanazo e outras histórias reúne cinco contos. Aquele que dá título ao livro, “Maracanazo”, não se refere à fatídica final da Copa de 1950, entre Brasil e Uruguai – evento que gerou essa expressão –, mas sim à série de históricos fracassos que a Espanha experimentou no Maracanã, culminando, na última Copa, com uma eliminação prematura selada num jogo contra o Chile. É a partir desse dado factual que Arthur Dapieve constrói sua narrativa, na qual se confrontam um torcedor espanhol e uma brasileira de origem chilena que vivem um breve affair, envolvendo visões políticas e valores opostos.

 

 



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#2119 - Samuel Barber - Adagio for Strings

 



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#2118 - Edward Elgar - Nimrod (from "Enigma Variations")

 



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#2117 - Apetece-me ouvir - Van Morrison - Someone Like You (Audio)

 



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#2116 - Prémio Pessoa 2016

 FERDERICO LOURENÇO

 

 

Professor universitário, Frederico Lourenço, conhecido como o tradutor da Bíblia e dos grandes clássicos gregos, foi escolha do júri

Reunido em Seteais, o Júri do Prémio Pessoa 2016, constituído por Francisco Pinto Balsemão (presidente), António Domingues (vice-presidente), António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Maria de Sousa, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião e Viriato Soromenho-Marques, decidiu atribuir o Prémio Pessoa 2016 a Frederico Lourenço.

Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963. Obteve a sua Licenciatura e o seu Doutoramento em Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Lisboa, tendo lecionado também nessa Universidade, entre 1988 e 2009, antes de assumir o lugar de professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

O seu percurso profissional e criativo, assinalado pela significativa e abundante bibliografia, é caracterizado pela variedade de interesses e realizações que incluem, para além da centralidade dos estudos clássicos, a música, o romance, a poesia, o teatro, o ensaio, os estudos bizantinos, a germanística e a história da dança. O traço mais singular da sua atividade reside no modo como, ao longo de quase duas décadas, Frederico Lourenço tem vindo a oferecer à língua portuguesa as grandes obras da literatura clássica. Através de um trabalho metódico, revelador de uma ambição servida por rara erudição, Frederico Lourenço traduziu, com rigor, as obras fundamentais de Homero, a Ilíada e a Odisseia, bem como duas tragédias de Eurípedes, Hipólito e Íon. O desejo de disseminar a grande cultura clássica junto do público manifestou-se também na adaptação para jovens das referidas obras de Homero.

Em 2016, Frederico Lourenço publicou o primeiro volume, de um total de seis, do seu mais recente e ambicioso projeto, que se estenderá até 2020: a tradução integral da Bíblia para português a partir das fontes gregas, e respeitando elevados critérios de integração contextual, histórica e linguística, deste livro maior de ressonância universal em toda a história humana.

 

In "Diário de Notícias"

 

 

 



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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016
#2115 - David Bazan - Dark Sacred Night - All I Want For Christmas

 



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#2114 - The Magnetic Fields - 5 Selections From 50 Song Memoir - Be True to Your Bar

 



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#2113 - Mark Kozelek / Jimmy Lavalle - Ceiling Gazing

 



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#2112 - Gareth Dickson - Orwell Court - Atmosphere

 



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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016
#2111 - “Gullar sempre se interessou em surpreender o múltiplo”, escreveu Alcides Villaça na CULT 210

Ferreira Gullar durante a FLIP, em 2010 (Foto: Divulgação) 

Ferreira Gullar morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro

 

Aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, ensaísta e tradutor brasileiro, Ferreira Gullar, morreu neste domingo (4), aos 86 anos, no Rio de Janeiro. O autor estava internado há cerca de vinte dias no Hospital Copa D’Or, no Rio, devido a problemas respiratórios, segundo a Folha de S.Paulo

Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, Gullar começa a se dedicar à poesia a partir de 1943 e lança, então, Um pouco acima do chão, em 1949 e A luta corporal, em 1953. “A poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação, indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas”, escreve o professor Alcides Villaça na CULT 210 sobre a poética do autor.

“O poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático”, afirmou. O poeta e jornalista Álvaro Alves de Faria escreveu em sua conta no Twitter que, com a morte de Gullar,  morre também “parte da poesia brasileira”.

Em 1959, Gullar publica no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil o Manifesto Neoconcretista, também assinado por Ligia Clark, Ligia Pape, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. O documento lançou as bases para o neoconcretismo, que defendeu a busca da experimentação de múltiplas linguagens. Com ele, Gullar deu o ponto de partida em sua trajetória teórica e crítica no campo das artes visuais.

Perseguido durante a ditadura militar, escreveu uma de suas principais obras, Poema sujo, durante o exílio em Buenos Aires, em 1976, “obra prima de Gullar”, segundo Villaça. “Lê­-lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional”, escreveu.

Leia o texto de Alcides Villaça, publicado na CULT 210, na íntegra:

A poesia de Ferreira Gullar, com suas várias vozes, tem muitos pontos altos e alguns controversos, em provocadora vitalidade. A essa obra não faltam lutas pela expressão, radicalismo estético, epifanias líricas e incisivas adoções políticas: é difícil que um mesmo leitor goste de tudo, embora sempre lhe seja possível compreender a grandeza do conjunto. Vista de forma panorâmica em seus mais de sessenta anos de atividade, a melhor poesia de Gullar pode ser reconhecida, desde A luta corporal (1954), na somatória de alguns procedimentos básicos, muito marcados e mesmo obsessivos: o poeta sempre se interessou em surpreender o múltiplo, o simultâneo, o diverso e o movimento sob as aparências impositivas do uniforme, do linear, do compacto e do estático. O que move o poeta é uma desconfiança básica diante do que não o surpreenda; em outras palavras, a qualidade do espanto parece ser o termômetro poético com que Gullar avalia as matérias que converte em poesia. Vale tentar reconhecer a variação dessas matérias, bem como a dos recursos aplicados em sua expressão.

Gullar sempre buscou traduzir a experiência vertiginosa e aprofundada que, como tempo íntimo, parece correr contra o outro, o da sequência mecanizada dos acontecimentos. Nas diferentes qualidades desses tempos – nas suas diferentes velocidades – ele vai encontrando uma poderosa fonte poética. Há a ação do passado sobre o presente e vice­‑versa, há o seu ser emergente e o desafiante ser do outro, há a presença do longínquo no que está perto e a deste naquele, há o variado pulsar da vida no confronto com as sombras da morte. O desafio aceito pela arte surge para o poeta como uma contínua tradução entre esses tempos. A qualificação diversificada desse fluir, de suas várias velocidades, prende­‑se à diversidade dos acontecimentos (que têm pesos diferentes), dos estratos sociais (com funções e direitos diferentes), das pessoas singulares (com desejos e interesses diferentes). Está nesse modo múltiplo de existência de tudo a razão de surpresa do poeta, de sua obsessão em escavar a qualidade de cada experiência.

Em A luta corporal (1954) a experiência fundamental está em submeter a linguagem a várias provas de expressão, para assim corresponder às várias expectativas do jovem dentro da vida e diante da arte. Num mesmo livro, o moço poeta se vale da velocidade interna das modulações de estilo, que são muito mais que exercícios de expressão: figuram perspectivas abertas (ou fechadas) para a vida, ângulos que vão da convenção literária já canonizada para a destruição da linguagem e o desventrar físico dos signos. É, de fato, uma luta, mais que uma promessa: é um grande livro de poesia. Já está clara, nele, a importância da corporeidade buscada pelo poeta. Ela vale tanto para as palavras, das quais se cobra um canto vivo e radical, como para a pessoa mesma do poeta, em cujo corpo confluem o tempo da vida e o da morte, emergência dos desejos instintivos combatendo a força implacável do apodrecimento. Estará sempre presente a sugestiva imagem do galo altivo que bate as asas e canta com esplendor, sem saber que está destinado, como tudo, à morte. A razão mesma de cantar, modulada em toda a sua trajetória poética, move muitos poemas de Gullar. Perguntado há algum tempo, num evento, sobre sua razão de poetar, respondeu algo próximo disto: “Eu preciso do poema porque tenho a necessidade de um segundo corpo”.

Necessária sempre, a poesia nasceu para Gullar como modo de interrogação indo buscar respostas em formas e concepções muito distintas. A vanguarda construtivista, que chegou por breve momento a compartilhar parcialmente com os poetas concretos, foi subitamente abandonada pelo empenho numa arte politicamente engajada, de esquerda, atraída pelas referências diretas da realidade nacional e pela análise marxista. A princípio dócil a esquemas didáticos, essa nova luta corporal soube por vezes vencer a facilidade de um diagnóstico já elaborado, surgindo como percepção vital. Num poema como “Uma fotografia aérea”, por exemplo, de Dentro da noite veloz (1975), a perspectiva da visão do alto, colhida por uma câmera num avião, não impede o indivíduo de reconhecer­‑se lá embaixo, em sua casa, em outro tempo: fotografia e poema espantam­‑se mutuamente, conjuminados agora numa mesma tecelagem dos fios que unem o observador da foto, adulto crítico imaginando­‑se menino sob aquele telhado, ao retrato social de sua antiga São Luís. Uma coisa está em outra: será este o princípio poético que irá reger a complexidade espaço­‑temporal da obra­‑prima de Gullar, que é o Poema sujo (1976).

Lembro, antes de mais nada, o impacto a um tempo estético e político que causou a edição desse poema­‑livro entre nós, em plena Ditadura Militar. Era uma explosão doída e libertária das memórias mais vivas de um sujeito exilado e ameaçado, explosão a um tempo viril e pungente, lírica e dramática, aberta aos mais variados ritmos e andamentos. Soava, para muitos, como a reconquista da linguagem que liberta o indivíduo, repondo­‑o no centro de sua própria história, como sujeito dela, compartilhada numa plataforma social. É quando a arte efetivamente traduz “uma parte na outra parte”, isto é, faz convergirem a verticalidade íntima e a horizontalidade coletiva, em que cada um reconhece no autorretrato do poeta traços de seu próprio rosto. E por que sujo? A matéria compósita da memória é trazida em bruto, vomitada, defecada, sem a feição das coisas límpidas: não pode ser asséptica uma linguagem animada pela vivacidade dos brutos espantos, da memória das palafitas, da carniça do Matadouro, das bananas podres na quitanda do pai, do apodrecimento das peras na fruteira, da sexualidade reprimida. No entanto, não se trata de vomitar palavras ao modo de certas passagens surrealistas dos anos 50: há também, no Poema sujo, princípios recorrentes de composição disciplinada, que acabam por nortear o torvelinho da memória. Lê­‑lo em voz alta e por inteiro, como fez o poeta na gravação recente de um DVD, é desfiar os acentos de uma história pessoal na qual repercute a história de tantos de nós. Não terá sido por outra razão que Otto Maria Carpeaux equiparou o poema a um Hino Nacional. Ocorre no Poema sujo um desdobramento básico do sujeito: há aquele que se cola à imanência dos fatos lembrados e há aquele que, instalado no presente da elaboração poética, interpreta e realinha esses fatos. O efeito na leitura é o de ir e vir do sensorial ao reflexivo, do afeto recolhido à avaliação das palavras. Vencendo a antiga dicotomia de luz ou sombra, fogo ou escuro, Gullar agora considera que “uma coisa está em outra”, forma dialética de encarar a composição das diferenças como uma legítima manifestação vital. Quando “uma coisa está em outra”, nenhuma se pertence completamente, nem é possível se ver a si mesma senão como parte – que presume uma outra parte, que participa, no mecanismo de um ‘traduzir­‑se” que leva uma ao encontro da outra. Veja­‑se como o poema “Traduzir­‑se”, do livro seguinte, Na vertigem do dia (1980), constitui uma feliz expressão desse anseio de fazer convergir lírica e sociedade. Visto de perto, esse anseio parece estar presente nos títulos mesmos de vários livros do poeta. Brincando, mas não muito, pode­‑se lembrar que essa poesia traça uma luta corporal dentro da noite veloz ou na vertigem do dia, compõe um poema sujo com barulhos e muitas vozes, em alguma parte alguma.

Nos dois últimos livros, Muitas vozes (1999) e Em alguma parte alguma (2010), Gullar tem feito predominar a instância lírica, ao que tudo indica libertando­‑se de vez do peso ostensivo da poesia política/partidária que marcou significativamente sua obra. Mas, de qualquer modo, a luta continua: trata­‑se agora de arrostar o tempo da velhice, tempo já profundamente gravado no corpo e no espírito com o peso que lhe dá a nova gravidade. Tudo se faz, aliás, em consonância com o movimento orgânico desde sempre encetado pela poesia de Gullar. Nunca teriam sido antes tão fortes como em Muitas vozes as homenagens de Gullar à vida, no que ela tem de multiplicativo, porque complexa, e de belo, porque intensa. Não me refiro apenas à qualidade estética, presente desde a juventude; refiro­‑me à força vivencial que escapa da melancolia e da nostalgia, frequentes nesse estágio da vida, para render comovido tributo tanto ao acúmulo das experiências já vividas como ao sempre intenso desejo de outras novas: “Tive um sonho conclusivo:/ sonhei que a vida era um sonho/ e quando a vida acabava/ o sonhador acordava/ vivo” (“A Augusto Willemsen”). Tanto mais brilha a vida quanto mais se espelha contra o morrer. Assim também pode ocorrer com as palavras: aprendem a depurar­‑se mais e mais quanto mais entendem do silêncio a que se estão furtando. A luz voraz que consome “nossos mortos/ acima da cidade” está também “zunindo feito dínamo/ naquelas manhãs velozes” (“Manhã”). Não à toa, diante da fotografia de Mallarmé, Gullar busca na pose cristalizada do poeta já meio que um busto o olhar vivo, o desejo oculto de imortalidade.

Já o título de Em alguma parte alguma reelabora a referida tradução gullariana, em que uma parte supõe a outra. O jogo se radicaliza: a parte está e não está ao mesmo tempo em si e na outra, o tempo determinado é também tempo nenhum. E Gullar, octogenário, continua a investigar o mundo com reflexão e algum espanto. As imagens da vida se fazem cada vez mais luminosas, a cidade vibra em todos os seus apelos, e se a investigação sobre a morte ameaça alçar­‑se a um plano rarefeito, o poeta faz com que a poesia possa gravitar, por exemplo, numa “Reflexão sobre o osso da minha perna”, quando constata que a parte (sempre a parte) do osso é a que mais dura, ao passo que “a parte mais efêmera/ de mim/ é esta consciência de que existo”. Assim também, diante do mofo “do fundo das gavetas/ de dentro das pastas” Gullar faz ver que “É apenas/ uma mínima parte/ do incalculável arquivo morto/ esta que reacende agora/ à leitura do olhar/ e em mim/ ganha voz/ por um momento”. A luz e o fogo, mais do que antigos, querem eternizar­‑se na voz do poeta. Suas percepções seguem muito vivas, e parecem ter encontrado num definitivo e assumido estatuto lírico a vocação primitiva do jovem poeta que já brigava consigo, com o mundo e com as palavras desde os anos 50. Atar as pontas da vida é um compromisso que costumam estabelecer os que postulam a maturação conclusiva.



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 15:21
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2016
#2110 - XX Festival de cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira

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VER PROGRAMAÇÃO AQUI

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 15:55
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#2109 - Fernando Rocha mostra a sua pintura na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira

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 "Reencontro" é o título da exposiçao de pintura de Fernando Rocha que pode ser vista até 14 de Janeiro de 2017 na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 15:35
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016
#2108 - Balada dos amigos separados

BALADA DOS AMIGOS SEPARADOS

 

Onde estais vós Alberto Henrique

João Maria Pedro Ana?

Onde anda agora a vossa voz?

Que ruas escutam vossos passos?

Ao norte? ao sul? aonde? aonde?

José António Branca Rui

E tu Joana de olhos claros

E tu Francisco E tu Carlota

E tu Joaquim?

Que estradas colhem vosso olhar?

Onde anda agora a vossa vida repartida?

A oeste? A leste? Aonde? aonde?

Olho prà frente prà cidade

e pràs outras cidades por tràs dela

onde se agitam outras gentes

que nunca ouviram vosso nome

e vejo em tudo a vossa cara

e oiço em tudo o som amigo

a voz de um a voz de outro

e aquele fio de sol que se agitava

sempre

em todos nós

Dançam as casas nesta noite

ébrias de sombra nesta noite

que se prolonga em plena angústia

aos solavancos do destino

e não consegue estrangular-nos

Sigo e pergunto ao vento à rua

e a esta ânsia inviolável

que embebe o ar de calafrios

Onde estais vós? onde estais vós?

E por detrás de cada esquina

e por detrás de cada vulto

o vento traz-me a vossa voz

a rua traz-me a vossa voz

a voz de um a voz de outro

toada amiga que me banha

tão confiante tão serena

Aqui aqui em toda a parte

Aqui aqui E tu? aonde?

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO RETIRADO DO LIVRO "POESIA COMPLETA" EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA 2016



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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016
#2107 - Um poema de Mário Dionísio

MÁRIO DIONÍSIO

 

eis-te de novo minha pátria inquietante

de esquinas fugidias nua aos perigos

de novo o fosso aberto o passo instável

as porteiras olhando os vizinhos olhando

e o riso frio das ilusões denunciadas

nas clareiras do espanto abertas pelo escuro

 

de novo tu minha pátria invisível

dos pontos cardeais em chama lenta

de novo tu minha pátria forçosa

do silêncio gritante e desolado

 

de novo as portas se nos fecham e os olhos

passam de largo e fingem não nos ver

de novo sós nas ruas alvejadas e de novo

os tijolos primeiros nos degraus hesitantes

cada um em seu posto a estrada vive entre folhas que voam

cada um em seu posto ergue-se a vida ao alto

 

vem coração aqui está a tua pátria

vem coração operário de outras horas

vem ledo e forte pelos bairros tristes

nas macieiras rompem as maçãs

desponta loiro o trigo no chão negro

é entre mortos que o futuro floresce

 

POEMA DE MÁRIO DIONÍSIO IN "POESIA COMPLETA", EDIÇÃO IMPRENSA NACIONAL CASA DA MOEDA, 2016



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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016
#2106 - Quem domina?

 PAUL CELAN

QUEM

DOMINA?

 

Cercada de cores a vida, comprimida por cifras.

 

O relógio

rouba o tempo no cometa,

as espadas

pescam,

o nome

doura as fintas,

a balsamina, de elmo,

cifra os pontos na pedra.

 

Dor, enquanto sombra de lesma.

Ouço que não se faz mais tarde.

Insípido e errado, nas selas,

medem também isto aqui.

 

Lâmpadas esféricas em vea da tua.

Ciladas de luz, divino-liminar, em vez de

nossas casas.

 

O gurupés do mágico

diáfano-negro

em culminação

inferior.

 

A metafonia conquistada na impalavra:

teu reflexo: o epitáfio

de uma das sombras de pensamento

aqui.

 

POEMA DE PAUL CELAN RETIRADO DO LIVRO "NÃO SABEMOS MESMO O QUE IMPORTA", EDIÇÃO RELÓGIO D'ÁGUA, OUTUBRO DE 2014

 

 

 

 



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#2105 - Carlos Forster - You'll survive

 



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#2104 - Adam Torres - Voices - Daytrotter Session

 



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Sábado, 24 de Setembro de 2016
#2103 - Panoptique Electrical - In A Forest Forlorn

 



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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016
#2102 - David Sylvian + Robert Fripp - Damage

 



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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016
#2101 - Livros e Leituras

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 MÁRIO DIONÍSIO

 



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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016
#2100 - Livros e Leituras

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e a boca já do mar

emerge

para o beijo infinito

 



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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016
#2099 - Apetece-me ouvir e recordar

 



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Domingo, 31 de Julho de 2016
#2098 - Livros e Leituras

 JULIAN BARNES

 

The Noise of Time

The Noise of Time by Julian Barnes

 

In May 1937 a man in his early thirties waits by the lift of a Leningrad apartment block. He waits all through the night, expecting to be taken away to the Big House. Any celebrity he has known in the previous decade is no use to him now. And few who are taken to the Big House ever return.

So begins Julian Barnes's first novel since his Booker-winning The Sense of an Ending. A story about the collision of Art and Power, about human compromise, human cowardice and human courage, it is the work of a true master.

Scheduled for publication in January 2016 in the UK and later in the US and Canada.



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Quinta-feira, 28 de Julho de 2016
#2097 - Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho

José  Seabra Pereira venceu o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho com o livro "O Delta Literário de Macau".

Este prémio totalmente suportado pela Edilidade de Vila Nova de Famalicão é promovido pela Associação Portuguesa de Escritores.

 

José Carlos Seabra Pereira é Doutor pelas Universidades de Poitiers e de Coimbra, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e da Universidade Católica Portuguesa. Investiga e lecciona nas áreas de Teoria Literária e Literatura Portuguesa Moderna, de Estudos Camonianos e de Estudos Pessoanos (cadeira que criou na Universidade de Coimbra). É actualmente o Coordenador Científico do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos e vice-director da Revista Camoniana (luso-brasileira), membro eleito do novo Conselho Científico da FLUC e da Comissão Científica do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, membro do Conselho Editorial da Babel, vice-presidente do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís.

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 13:30
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2016
#2096 - Emily Haines & The Soft Skeleton - Crowd Surf Off A Cliff

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 23:04
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#2095 - Elena Ferrante

"Acredito que os livros, uma vez escritos, já não precisam dos seus autores. Se tiverem alguma coisa para dizer, mais cedo ou mais tarde encontram leitores; se não, não... Gosto muito desses livros misteriosos, tanto antigos como modernos, que não têm autor definido mas têm tido e continuam a ter uma intensa vida própria. Parecem-me uma  espécie de milagre de uma noite, como as prendas da Befana, pelas quais eu esperava em criança... Os verdadeiros milagres são aqueles cujos autores nunca serão conhecidos... Além disso, não é verdade que a promoção é dispendiosa? Eu serei o autor menos dispendioso da editora. Até a minha presença vos pouparei."

 

ELENA FERRANTE



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 13:14
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Domingo, 24 de Julho de 2016
#2094 - Questões de Semântica

Entre a espada e a parede escolhe uma sonora gargalhada ou o cinismo numa metáfora.



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 20:09
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#2093 - NOCTURNO DOS ANJOS

 XAVIER VILLAURRUTIA

 

NOCTURNO DOS ANJOS

 

Dir-se-ia que as ruas fluem serenas na noite.

As luzes não são nítidas que ajudem a revelar o segredo,

o segredo dos homens que passeiam, conhecem,

porque estão todos imersos no segredo

não ganhariam nada em fragmentá-lo

sim, é bom guardá-lo

e dividi-lo só com a pessoa eleita.

 

Se cada um falasse uma vez só,

e com uma só palavra, aquilo que pensa,

as letras do desejo moldariam uma grande cicatriz cintilante,

uma constelação antiga, mais viva ainda que as outras.

Seria uma constelação ardente como o sexo

no corpo profundo da noite,

ou como os gémeos que pela primeira vez na vida

se olham de frente, e se abraçam para sempre.

 

A rua enche-se como um  rio de seres ávidos,

caminham, aguardam, prosseguem.

Trocam  olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis...

 

Há esquinas e bancos sombrios,

auras indistintas, formas profundas,

e súbitos vãos com uma luz que cega

e portas que cedem à mais leve pressão.

 

A rua fica deserta num instante.

Parece afugentar de si mesmo

o desejo de começar de novo.

Está paralisado, mudo, ofegante

como o coração entre dois espasmos.

 

Mas uma nova pulsação

lança ao rio da rua outros seres sedentos.

Cruzam-se,  e sobem,

voam ao rés do chão,

nadam de forma milagrosa

e ninguém se atreveria a dizer que não caminham.

 

São anjos,

desceram à terra

através de degraus invisíveis.

Vieram do mar, o espelho do céu,

em barcos de fumo e sombra,

a fundir-se e confundir-se com os mortais,

a inclinar os seus rostos entre as coxas das mulheres,

a deixar que outras mãos apalpem febrilmente os seus corpos,

e que outros corpos procurem os seus até encontrá-los

como os lábios que se fecham,

a fatigar a boca tanto tempo estagnada,

a libertar as suas línguas de fogo,

a dizer juramentos, canções, e palavras porcas

com que os homens concentram o  antigo mistério

da carne, do sangue, e do desejo.

 

Têm nomes fictícios, sinceramente divinos.

Chamam-se Dick ou John, Marvin ou Louis.

Em nada, senão na beleza, se distinguem dos mortais.

Passeiam, aguardam, e seguem.

Trocam  olhares, ensaiam sorrisos,

formam pares imprevisíveis.

 

Sorriem astuciosos ao entrar nos elevadores dos hotéis

donde ainda prarticam um voo lento e vertical.

Em seus corpos nús há vestígios celestiais,

signos, estrelas, e letras azuis.

Deixam-se cair nas camas, e afundam-se nas almofadas

que os fazem pensar um momento nas nuvens.

Mas logo fecham os olhos para se entregar aos gozos da sua misteriosa encarnação,

e quando dormem não sonham com os anjos, mas com os mortais.

 

Poema de Xavier Villaurrutia (1903-1950)

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 17:55
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#2092 - Palestina

PALESTINA

 


À tua lembrança como se aperta o teu coração!
Como ao som dessa lembrança a tua poesia flui!
Madrassas, hoje submetidas ao silêncio,
Têm a secreta eloquência que cobre de sangue as tribunas.
Elas voltam-se para o seu tempo passado
Em que o poder do seu ensino se espalhava pelo Mundo.

Tão pesada é a nostalgia que corrói o coração das pedras,
Tão triste que consome o espírito no coração do homem.
Madrassas, antigos paraísos,
De ribeiras fecundas e sonoras:
A vida fluía doce por entre as suas sombras,
Mil cores enfeitiçavam o nosso olhar na luz das palavras.

Árabes! Já caminhámos tempo de mais na obscuridade.
Vieram os invasores e devastaram a nossa terra!
Pacíficos, sim, nós éramos pacíficos.
Mas, agora, meus irmãos, despertemos
E esforcemo-nos por manter, com firmeza,
As nossas promessas na fé islâmica!

Contra o agressor,
Vomita, vulcão, vomita a tua cólera,
Porque, ó Palestina, pérola das nossas glórias,
Múltipla coroa em símbolo de dignidade,
O teu Evangelho anuncia a paz
E o teu Alcorão a justiça eterna.

 

POEMA DE SALIM AL-ZURKALI, TRADUZIDO POR ANTÓNIO BARAHONA



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 17:39
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Sexta-feira, 22 de Julho de 2016
#2091 - John Maus - Hey Moon

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 23:05
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#2090 - FOLHA

 RADE DRAINAC

 

FOLHA

 

Mudei de estação: o Outono ficou para trás e as minhas malas.

Agora o céu é duvidoso, como uma mentira inábil.

Na primeira taberna terei de esquecer

A carta melancólica que me tirou o sono.

Ocioso, arrasto-me pela rua, entre escritórios.

As andorinhas partiram e as máquinas de escrever ficaram.

No horizonte há uma grande trombeta de fumo.

Foi há pouco inventado um avião tão pequeno como uma borboleta.

Bravo! É um bom sinal.

A primeira folha de Outono caiu no meu chapéu.

 

POEMA DE RADE DRAINAC



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 19:51
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#2089 - AOS QUE VIRÃO A NASCER

 

AOS QUE VIRÃO A NASCER

 

I

 

É verdade, vivo em tempo de trevas!

É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa

Revela insensibilidade. Os que riem

Riem porque ainda não receberam

A terrível notícia.

 

Que tempos são estes, em que

Uma conversa sobre árvores é quase um crime

Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?

Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,

Não estará já disponível para os amigos

Em apuros?

 

É verdade ainda ganho o meu sustento.

Mas acreditem: é puro acaso. Nada

Do que eu faço me dá o direito de comer bem.

Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)

 

Dizem-me: Come e bebe!  Agradece por teres o que tens!

Mas como posso eu comer e beber quando

Roubo ao faminto o que como e

O meu copo de água falta a quem morre de sede?

E apesar disso eu como e bebo.

 

Também eu gostava de ter sabedoria.

Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:

Retirar-se das querelas do mundo e passar

Este breve tempo sem medo.

E também viver sem violência

Pagar o mal com o bem

Não realizar os desejos, mas esquecê-los.

Ser sábio é isto.

E eu nada disso sei fazer!

É verdade, vivo em tempo de trevas!

 

II

 

Cheguei às cidades nos tempos da desordem

Quando aí grassava a fome

Vim viver com os homens nos tempos da revolta 

E com eles me revoltei.

E assim passou o  tempo

Que na terra me foi dado.

 

Comi o meu pão entre as batalhas

Deitei-me a dormir entre os assassinos

Dei-me ao amor sem cuidados

E olhei a natureza sem paciência.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.

A língua traiu-me ao carniceiro.

Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo

Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

As forças eram poucas. A meta

Estava muito longe

Claramente visível, mas nem por isso

Ao meu alcance.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

III

 

Vós, que surgireis do  dilúvio

Em que nós nos afundámos

Quando falardes das nossas fraquezas

Lembrai-vos

Também do tempo de trevas

A que escapastes.

 

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos

As guerras de classes, desesperados

Ao ver só injustiça e não revolta.

 

E afinal sabemos:

Também o ódio contra a baixeza

Desfigura as feições.

Também a cólera contra a injustiça

Torna a voz rouca. Ah, nós

Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade

Não soubemos afinal ser amáveis.

 

Mas vós, quando chegar a hora

De o homem ajudar o homem

Lembrai-vos de nós

Com indulgência.

 

Poema de Bertolt Brecht



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 18:12
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Segunda-feira, 18 de Julho de 2016
#2088 - Ryuichi Sakamoto - The Revenant - Sound of Hugh Glass

 

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 16:13
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Sábado, 16 de Julho de 2016
#2087 - Ben Lukas Boysen - Nocturne 4

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 15:24
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Sexta-feira, 15 de Julho de 2016
#2086 - GOLDMAN SACHS - O BANCO QUE DIRIGE O MUNDO / La Banque qui Dirige le Monde (2012)

 



publicado por Carlos Pereira \foleirices às 19:31
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