
(Foto de Robert Doisneau)
Presidente Barack Obama: Agradezco esta oportunidad que me brindas para compartir impresiones contigo y con tus lectores en Cuba y en el mundo, y aprovecho para felicitarte por el premio María Moore Cabot de la Escuela Graduada de Periodismo de la Universidad de Columbia que recibiste por promover el entendimiento mutuo en las Américas mediante tus reportajes. Me decepcionó que se te impidiera viajar para recibir el premio en persona.
Tu blog ofrece al mundo una ventana particular a las realidades de la vida cotidiana en Cuba. Es revelador que el internet les haya ofrecido a ti y a otros valientes blogueros cubanos con un medio tan libre de expresión, y aplaudo estos esfuerzos colectivos para apoderar a sus compatriotas para expresarse a través de la tecnología. El gobierno y el pueblo estadounidense nos unimos a todos ustedes en anticipación del día que todos los cubanos puedan expresarse libre y públicamente sin miedo ni represalias.
Post retirado do blog "Generación Y"
Fez anteontem 60 anos que morreu António Aleixo, o mais conhecido poeta popular algarvio. Homem pobre, nobre e de uma grande sabedoria. Aqui ficam 5 quadras em sua memória.
Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…
Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.
P'ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão.
Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do Mundo,
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo.
Por Tomás Vasques às 18:34 do Blog "Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos"
O escritor irlandês Colum McCann venceu na quarta-feira, em Nova Iorque, o 60.º National Book Award, atribuído pela Fundação National Book ao seu romance "Let the Great World Spin".
Colum McCann, de 44 anos, nascido em Dublin, tem dois livros traduzidos em português: "Deste Lado da Luz" (Difel, 2001) e "O Bailarino" (Bizâncio, 2003). Na categoria de não-ficção, o vencedor foi T.J. Stiles, com "The First Tycoon", a biografia do patriarca da multimilionária família Vanderbilt, o comodoro Cornelius Vanderbilt, que construiu o seu gigantesco património no Século XIX na marinha mercante. Phillip Hoose, com "Claudette Colvin", ganhou o prémio de literatura para jovens. Na poesia, o prémio foi para "Transcendental Studies: A Trilogy", de Keith Waldrop. Cada vencedor recebeu 10 mil dólares (6700 euros) e, na cerimónia de quarta-feira, em Nova Iorque, foram entregues medalhas de honra aos escritores Gore Vidal e Dave Eggers. Os National Book Awards, iniciados em 1950, são, a par com os Pulitzer, os mais importantes prémios literários atribuídos nos Estados Unidos.
Lançamento marcado para amanhã, às 19h, no foyer do Teatro Aberto, em Lisboa, com apresentação de Nuno Artur Silva e leitura de excertos por Joana Seixas e Albano Jerónimo.
A obra, “Journal du deuil” no original, foi editada em final de Fevereiro com chancela das Éditions Seuil, envolta em alguma polémica. François Whal, editor e seu amigo, considerou que os textos até então inéditos não seriam do agrado do próprio Barthes, que era “muito cuidadoso”.
No dia seguinte ao da morte da mãe, a 26 de Outubro de 1977, Roland Barthes iniciou um “Diário de Luto” que escreveu até 15 de Setembro de 1979.
Nathalie Léger, responsável pela fixação de texto e notas, afirma na introdução que Barthes “escreve a tinta, e por vezes a lápis, em fichas que ele próprio prepara a partir de folhas A4 cortadas em quatro, e das quais mantém sempre uma reserva em cima da mesa de trabalho”.
Nas 330 fichas, dia a dia, o ensaísta registou as suas impressões, emoções e sentimentos, face ao luto da mãe, Henriette Binger que faleceu aos 84 anos. Henriette casou com Louis Barthes aos 20 anos, foi mãe aos 22 e aos 23 enviuvou.
Nathalie Léger alerta na introdução que este não é “um livro concluído pelo autor mas a hipótese de um livro por ele desejado”.
Fonte da editora portuguesa disse que o outro livro, “Carnets du Voyage en Chine”, que Barthes não tinha também publicado em vida, mas que foi já editado pela Bourgois, sairá em Portugal em Março do próximo ano, quando passam 30 anos sobre a morte do filósofo francês.
Roland Barthes faleceu em 1980, atropelado por um veículo de transporte de carga que, ironicamente, pertencia a uma firma cuja publicidade o escritor criticara nas suas “Mitologias”.
A obra de Barthes influenciou transversalmente ciências humanas, arte e literatura.
As Edições 70 com a publicação de “Carnets du Voyage en Chine” completam a colecção “Obras de Roland Barthes” que integra já 12 títulos.
![]() |
Os índices da Transparency International resultam da avaliação anual de analistas e homens de negócios, bem como de organizações como o Banco Mundial, o Fórum Económico Mundial, os Bancos de Desenvolvimento da África e da Ásia e centros de pesquisa como o Economist Inteligence Unit e o Global Insight. Curioso foi o modo detergente como alguns jornais deram ontem a notícia. O "Jornal Digital", por exemplo, deu-a sob o animador título de "Corrupção: Portugal é o país lusófono menos corrupto". Algo assim como, numa corrida com dois corredores, noticiar: "O nosso ficou em segundo lugar, ao passo que o adversário ficou em penúltimo".
A partir do próximo dia 25 de Novembro, Mário Cláudio orienta mais uma edição do Atelier de Escrita em Serralves. Desta vez, a temática são «Homens e Bichos». Sempre às quartas-feiras, até 10 de Fevereiro, das 19h às 21h.

Una mujer mira a través de su ventana durante los enfrentamientos entre la policía y unos manifestantes seguidores del líder cachemir arrestado en Srinagar, India.
AP
http://www.nfb.ca/film/spine_making_of_trailer
"The spine", do norte-americano Chris Landreth, é o vencedor do festival Cinanima que termina, hoje, em Espinho. Dos filmes portugueses em competição, "Mi vida en tus manos", de Nuno Beato, foi considerado o melhor.
Já bem conhecido do público amante do cinema de animação, muitas graças à obra "Ryan", de 2004, Chris Lambreth, norte-americano residente no Canadá, arrecadou, ontem, o Grande Prémio da 33.ª edição do Cinanima - Festival Internacional de Cinema de Animação que decorreu no Centro Multimeios de Espinho.
"The Spine", uma curta-metragem de pouco mais de 11 minutos, em 3D, conta-nos uma história de redenção através da relação entre um homem e uma mulher "presos numa espiral de destruição mútua", um argumento da autoria do próprio realizador.
Diga-se que o realizador tem já um vasto trabalho na animação com recurso ao computador, destacando-se filmes como "The End", "Bingo", "The Listener", entre outros. No que toca aos filmes portugueses, "Mi vida en tus manos", de Nuno Beato arrecadou o Prémio António Gaio. Trata-se de uma obra que conta a história de um conhecido matador português, "El Matador", que chega a Espanha para realizar uma "faena" há muito esperada, na companhia do filho, Pedrito que sonha, um dia, vir a ser como o pai. O Prémio Especial do Júri e também o Prémio do Público foram para "Logorama", de François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain, da França. "Panique au village", dos belgas Stéphane Aubier e Vincent Patar, foi considerada a melhor longa-metragem, enquanto que "Red-End and the seemingly symbiotic society", dos holandeses Robin Noorda e Bethany de Forest, ganhou o prémio de melhor curta-metragem. "Lost and found", do britânico Philip Hunt, foi considerada a melhor média-metragem. Os filmes vencedores poderão ser vistos, hoje, em várias sessões, na sala Tempus do Centro Multimeios.
Está patente, a partir de hoje, em Serralves, no Porto, a segunda parte da mostra "A colecção", que decorre até Março de 2010. O director do museu, João Fernandes, guiou o JN pela exposição e escolheu as obras favoritas.
Em ano de comemoração dos 20 anos da criação da Fundação de Serralves e de uma década sobre a inauguração do Museu de Arte Contemporânea, a aposta principal, a nível de exposições, é a mostra da colecção, que integra largas centenas de obras, adquiridas nos últimos 12 anos. Depois da pintura, do desenho e da escultura, que constituíram a primeira parte da colecção, é agora possível observar as obras centradas em múltiplos, através de fotografia, filmes, livros e discos de autores nacionais e estrangeiros.
Distribuída por dez salas do museu e, ainda, na Rua de Cândido dos Reis, também no Porto (nas antigas instalações da RDP), a exposição integra cerca de 500 obras, da autoria de artistas como Dan Graham, Gordon Matt-Clark, Gilbert & George, David Lamelas, Group Collective Actions, Adrian Piper, Ana Vieira, Leonel Moura, Artur Barrio, Sigmar Polke, Vítor Pomar, Alberto Carneiro, Jorge Molder e Júlia Ventura, Augusto Alves da Silva, Grupo KWY, Lourdes Castro e Dieter Roth, entre muitos outros.
Sem pretender, de forma alguma, imprimir-lhes o rótulo de "as obras mais importantes da colecção", João Fernandes acedeu, por outro lado, a comentar e a destacar quatro obras, por considerar "exemplares nos caminhos que colocam na colecção" (ver textos ao lado).
Para o director do Museu de Serralves, o objectivo desta colecção é "procurar que as obras de arte criem novas possibilidades de reafirmação da própria obra de arte". As obras que agora podem ser observadas documentam, segundo João Fernandes, "um capítulo importante da história desta colecção, uma vez que fazem convergir mais suportes que vão além da pintura e da escultura".

O escritor brasileiro Nuno Ramos, autor do livro "Ó", venceu a edição 2009 do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, anunciou terça-feira o presidente-executivo da empresa.
Os também autores brasileiros João Gilberto Noll, com "Acenos e Afagos", e Lourenço Mutarelli, com "A Arte de Produzir Efeito sem Causa", ficaram, respectivamente, em segundo e terceiro lugares.
Numa conferência de imprensa, em São Paulo, o escritor Nuno Ramos revelou-se "surpreso" com o prémio, que vai na sua sétima edição.

É o caso da apresentação do musical ‘Os Quais’, sexta--feira, dia 13, às 21h30, no CAPa- Centro de Artes Performativas, em Faro.
Lucas Pires será a voz e a guitarra eléctrica deste duo, que não quer ser apresentado como um dueto e muito menos como um projecto.
Lucas Pires será acompanhado por Tomás Cunha Ferreira em omnichord e violão. A voz e pianet T de Madalena Sassetti completa o elenco do programa do espectáculo.
Jacinto Lucas Pires tem vários livros publicados. ‘Azul turquesa’ (ficção 1998), ‘Livro usado’ (viagem ao Japão 2001), ‘Perfeitos milagres’ (romance 2007), ‘Assobiar em público’ (contos 2008). Realizou duas curtas-metragens e escreve teatro para diversos grupos e encenadores.
Tomás Cunha Ferreira é pintor e expõe regularmente desde 2000. Actualmente, é professor de Pintura, Desenho e Comunicação social na Universidade de Évora.
Os bilhetes para o espectáculo custam seis euros, havendo descontos para menores de 26 anos e maiores de 65 bem como para estudantes.
A 33.ª edição do Cinanima - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, que decorre entre segunda-feira e domingo, registou este ano o maior número de sempre de inscrições, tendo recebido 787 filmes provenientes de 47 países.

No início, era um blogue (Prazeres Minúsculos), depois foi trabalhado uma e outra vez até à versão quase final. Territórios de Caça (Quetzal, 175 páginas), novo romance de Luís Naves, foi lançado ontem em Lisboa, na Bertrand do Chiado.
Jornalista do DN, Luís Naves é um dos autores deste livro; o outro é Lajos Kormányos (tradução livre para magiar de Luís Naves). Uma intersecção pessoal, ou uma duplicação do autor, que se divide por dois territórios que lhe são próximos: a Hungria (é casado com uma húngara) e Portugal. Ou, simplificando, a Europa, sobretudo a que fica para Leste.
João Villalobos, que se gaba de ser "a única pessoa que já leu todos os livros" do autor, "mesmo os que não foram ainda publicados", diz que a obra trata de uma intersecção entre a Hungria e Portugal. Da forma como quem quer controlar, diz aquele que foi escolhido pelo escritor para apresentar a obra, se apropria dos que quer controlar através do somatório das pequenas fraquezas humanas. Villalobos falou, por exemplo, da polícia política comunista da Hungria e da República Democrática da Alemanha (fez ontem 20 anos que o muro tombou) e da PIDE.
Com a propriedade do privilégio de conhecer a obra de Luís Naves (que é jornalista no Diário de Notícias), Villalobos fez uma pequena leitura da duplicidade Lajos Kormányos/Luís Naves. "Lajos é um vencido pela vida, que não tem controlo sobre as suas personagens; o Luís tem total controlo sobre os seus personagens; Lajos vai-se apagando com a vida, o Luís vai-se iluminando", descobriu.
O editor da Quetzal, Francisco José Viegas, tocou nos "vários motivos" com que a obra se vai justificando durante a leitura e aludiu ao pouco que se sabe sobre a Europa de Leste para convidar os leitores a mergulharem no livro.
Antes, o Quarteto de Câmara de Vasco Barbosa interpretou uma peça de Alexander Borodin.
A seguir, retirado do blog de Francisco José Viegas, A Origem das Espécies:
Momento único e belíssimo: a actuação do Quarteto de Vasco Barbosa (um cavalheiro de 79 anos, vivísssimo, um violino melancólico e profundo, de acorde eslavo), que interpretou o Nocturno de Borodin antes da apresentação do livro, propriamente dito, por um João Villalobos inspirado — entre livros e música, portanto, foi assim o final de tarde de hoje na Bertrand do Chiado. Muitos amigos de Luís Naves e muitos bloggers (Tomás Vasques, João Gonçalves, Tiago Moreira Ramalho, José Mário Silva, Inês Almeida, Cristina Ferreira de Almeida, Pedro Correia, Francisco A. Leite, João Távora, Fernando Madaíl, António Manuel Venda, Fernando Sobral, muitos mais).
O livro vem a propósito — não só pelo seu cenário, a Hungria, mas pelos seus temas e pela sua melancolia. Não percebemos nada dessa Europa, da velha, civilizada e culta Mittleuropa — o livro de Luís Naves pode ajudar, como uma introdução ao estudo da relação entre diferentes que nunca se encontram verdadeiramente.
«A rua Gogol deve ser das mais agradáveis da nossa cidade: tem fileiras de faias pujantes, muitas delas plantadas no início do século. O bairro, fisicamente, não sofreu durante a guerra. Durante o regime comunista, as melhores casas foram nacionalizadas, para alojar trabalhadores. No fim do regime, foram vendidas, a bons preços. Os prédios estão preservados e só alguns se encontram em mau estado sem obras há décadas.
Enfim, nesta parte da cidade não houve bombardeamentos de guerra, mas aidna se podem ver as cicatrizes do século. Aqui fica o gueto judeu, com a sinagoga e ruas elegantes, com jardins tranquilos. E o que ainda hoje se observa é ausência de antigos habitantes.
Jamais pensamos nas pessoas que faltam, mas para se compreender a nossa cidade, é preciso pensar nas ausências, nos hiatos, no que devia estar ali, mas não está. Famílias inteiras, gente que vibrava e pensava, cheia de vida e de paixão, de sonhos como os nossos... »
Lobo Antunes, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto entre os finalistas.
Quatro autores portugueses estão entre os dez finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, cujo vencedor será anunciado amanhã à noite, em São Paulo. António Lobo Antunes (com o romance Ontem não Te Vi em Babilónia), Gonçalo M. Tavares (Aprender a Rezar na Era da Técnica), Inês Pedrosa (A Eternidade e o Desejo) e José Luís Peixoto (Cemitério de Pianos) são os romancistas que concorrem à sétima edição de um prémio que, em 2007, já contemplou o português Gonçalo M. Tavares (este ano reincidente), com a obra Jerusalém.
Entre os finalistas estão também os brasileiros Lourenço Mutarelli (pelo romance A Arte de Produzir Efeito sem Causa), João Gilberto Noll (Acenos e Afagos), Silviano Santiago (Heranças) e Maria Esther Maciel (O Livro dos Nomes). Estão ainda seleccionados um livro de contos (Ó), de Nuno Ramos, e outro de poesia, Cinemateca, de Eucanaã Ferraz.
O Prémio PT é considerado um dos mais importantes atribuídos a livros em português (ficção, poesia, crónica, biografia) editados no Brasil. O vencedor recebe cem mil reais (cerca de 39,2 mil euros).

Antes de morrer, em 1977, o autor de 'Lolita' mandou a mulher e o filho destruirem as 138 fichas escritas a lápis de 'The Original of Laura'. Eles não obedeceram e o "livro" vai agora ser editado.
Intitula-se The Original of Laura, é um romance que Vladimir Nabokov estava a escrever por altura da sua morte, em 1977, em Montreux, na Suíça, e que ordenou à mulher, Vera, que queimasse. Mas Vera Nabokov, e o filho Dimitri, não cumpriram a última vontade do marido e pai, e a obra, ainda em estado fragmentário (138 fichas cartonadas escritas a lápis, algumas quase ilegíveis), foi fechada a sete chaves no cofre de um banco daquela cidade.
Mais de 30 anos depois, esta obra incompletíssima de Vladimir Nabokov vai chegar às livrarias no próximo dia 17, numa edição de apenas 76 páginas, com o subtítulo "Um romance em fragmentos".
Um primeiro excerto de 5 mil palavras será publicado em exclusivo pela revista Playboy na sua edição deste mês, que sai amanhã, e o diário alemão Die Zeit já reproduziu algumas das fichas no passado dia 14 de Agosto.
Dimitri Nabokov disse que hesitou muito, e durante muito tempo, antes de ter decidido entregar The Original of Laura ao agente literário Andrew Wylie, para que este negociasse os direitos.
Numa entrevista dada à BBC em 2008, Dimitri justificou-se: "O meu pai disse-me certo dia quais eram os seus livros mais importantes. E fez alusão a Laura. Um autor não diz que um livro que quer destruir é importante".
Outros concordam com ele, caso de Gavriel Shapiro, professor de literatura russa na Universidade de Cornell, e especialista em Nabokov, que disse à AFP: "Dimitri tomou a decisão certa. Se o seu pai tivesse querido destruir o manuscrito, tê-lo-ia feito ele mesmo".
Já o escritor e crítico americano Edmund White discorda em absoluto da publicação de The Original of Laura, e declarou ao The Times: "Nabokov queria queimá-lo, por isso queimemo-lo».
Pouco antes de morrer, Vladimir Nabokov declarou à BBC que as fichas cartonadas do livro não eram "capítulos completos. Tenho que preencher as lacunas". Não chegou a fazê-lo, e agora The Original of Laura vai chegar às mãos dos leitores sob a forma de um puzzle inacabado.(In "DN")

Pelo menos dez empresas, algumas das quais com agências em Portugal, estão neste momento a recrutar para países europeus, Canadá e Arábia, neste caso a troco de salários milionários.
Oferecem-se três mil euros de salário livre de impostos, casa, serviços médicos e voos gratuitos, 64 dias de férias por ano. A oferta de trabalho da ProfCo, para a Arábia Saudita, destina-se a enfermeiros portugueses e é uma das muitas que se encontram nos portais de emprego, anúncios de jornal e fóruns dedicados à profissão. Só entre as empresas contactadas pelo DN foram ou vão ser colocados mais de 500 enfermeiros, entre 2008 e 2010. E a tendência é para o recrutamento aumentar.
A Professional Connections, com sede na Finlândia, é uma das maiores recrutadoras para o Reino Unido e está agora à procura de portugueses para colocar na Arábia Saudita (ver texto ao lado). Em 2010, e apesar de ainda não haver dados muito específicos, pensam contratar "pelo menos cem enfermeiros portugueses", refere ao DN Ann Griffin, gestora da empresa. Habitualmente, estes hospitais recorriam a países escandinavos, à Irlanda, Inglaterra "porque o inglês era melhor e estavam mais abertos ao recrutamento, o que agora já é mais difícil".
A Prof Co, que admite contratar para os hospitais de Londres, não é caso único. Há cada vez mais unidades hospitalares estrangeiras a contratar enfermeiros portugueses, especialmente para destinos como o Reino Unido, Bélgica, França, Canadá ou Arábia Saudita.
As condições são muito apelativas, especialmente quando há milhares de enfermeiros desempregados ou em condições precárias. Há sobretudo interesse em recrutar enfermeiros especializados, em áreas como a saúde materna, cuidados intensivos, cardiologia, entre outros, mas aos recém-licenciados as empresas também não recusam trabalho.
A CLR Healthjob, empresa que tem sócios espanhóis mas também um português, Ricardo Damas, está também interessada neste mercado. "Contratámos quinze profissionais em 2008, mas para ir para hospitais da zona de Barcelona. Mais tarde contratámos mais cinco para Madrid", refere. Entretanto, o mercado espanhol fechou e a empresa começou a investir noutros mercados, como o londrino. "Neste momento estamos a recrutar enfermeiros para Londres. Perspectivamos contratar 40 enfermeiros nesta primeira fase, para integrar em meados de Dezembro, e depois, mensalmente, recrutar quatro a seis", conta.
Liliana Rodrigues, consultora inglesa da HCL International, conta ao DN que "desde 2008, já foram trabalhar para o Reino Unido mais de 150 portugueses". Com inúmeros clientes, públicos e privados, a empresa está sempre a recrutar, especialmente se os recursos forem especializados.
A Best Personnel Limited, com agência em Portugal, está agora a recrutar 50 enfermeiros para o Reino Unido, mas admite querer empregar "mais de cem portugueses para o Canadá", onde pagam em média 55 mil dólares por ano, segundo Sylwia Markiewics. Outras empresas enchem os portais de emprego, como o da Contexte Médical ou o da Moving People. [In "DN"]
![]() |
Aumentar o salário mínimo para 500 euros não serve para nada. Não nos aproxima dos europeus, que ganham muito mais que isso, e afasta-nos dos chineses e indianos, que trabalham por uma malga de arroz. O que seria da nossa competitividade?
1 - Regressam os debates ao Parlamento, regressam as boas notícias. Mostrando um elevado sentido de responsabilidade social, o Governo anunciou que vai aumentar as pensões. Quanto mais baixa a pensão, maior será o aumento. No limite, pode chegar à loucura de subir 1,25%. Mais ainda, como oportunamente lembrou o primeiro-ministro: se a lei fosse cumprida, as pensões não só não aumentariam, como teriam de diminuir. Tudo por causa da inflação negativa. Ou seja, os pensionistas com pensões miseráveis terão um aumento real que chega aos 2%. E em tudo isto, o Estado vai gastar, de forma altruísta, 150 milhões de euros, que tanta falta fazem, por exemplo, para tapar o buraco do BPN, ou para a construção de uma terceira ponte sobre o Tejo. O senhor Silveira, reformado e residente em Torneiros, Vila Real, recebeu a notícia de forma efusiva. A sua pensão passará de uns míseros 374 euros, para uns abastados 378 euros. Poderá deixar a venda de couves e grelos que cultiva no quintal, para se dedicar a tempo inteiro a programas de turismo sénior.
2 - Nada como as sábias declarações de um antigo ministro das Finanças, ainda por cima também antigo administrador do Banco de Portugal, para acabar com a balbúrdia que se adivinhava no que diz respeito a aumentos salariais. Silva Lopes não esteve com meias tintas e qualificou os aumentos salariais, quaisquer que sejam, como "fábricas de desemprego". Um dia depois, José Sócrates mostrava ter tomado boa nota dos conselhos, deste ou de outros economistas. E no que lhe diz respeito, o aumento das pensões será mesmo a única loucura a cometer. Quanto ao salário mínimo, o melhor é renegociar os prazos, assume o primeiro-ministro. Porque o que estava aceite por sindicatos e patrões, agora já não convém aos patrões. Sendo que o que estava acordado era a ousadia de passar o salário mínimo de 450 para 475 euros em 2010, e para uns incríveis 500 euros já em 2011. Com nenhuma vantagem, como é evidente. Porque não só não nos aproxima dos europeus, que ganham muito mais que isso, como nos afasta dos chineses e dos indianos, que aceitam trabalhar por uma malga de arroz. Se começassem para aí a dar aumentos salariais, pequeninos que fossem, o que aconteceria à nossa competitividade?
3 - Os lucros da Corticeira Amorim aumentaram no terceiro trimestre do ano, pela terceira vez consecutiva. Foram 5,7 milhões de euros (3,6 milhões no mesmo período do ano passado). Lucros que só se conseguiram graças a vendas de 103 milhões de euros. E é aqui que bate o ponto. Porque, ao contrário dos lucros, as vendas apresentam valores mais baixos do que um ano antes. Assim, se há lucro, isso deve-se à diminuição dos custos da empresa. E como conseguiram os notáveis gestores da Corticeira Amorim diminuir os custos para aumentar os lucros? Com o despedimento de cerca de duas centenas de trabalhadores, pois claro. Mas atenção que a isto não se chama "fábrica de desemprego", chama-se visão estratégica.
![]() |
Casa Pia, "Furacão", sobreiros, submarinos, BPP, BPN, Freeport , "Face Oculta"…. Os portugueses vão-se apercebendo, aos poucos, da podridão escondida sob as vistosas roupagens modernaças do regime e entendendo o sentido dos entraves de toda a ordem que, da parte dos partidos do chamado "arco da governação", sempre se intrometem entre as promessas de combate à corrupção e a sua efectivação. Entretanto, uma nova classe de empresários, políticos e ex-políticos vindos do nada instalou-se no país, ascendendo social e economicamente a velocidades nunca vistas e dificilmente explicáveis à luz dos critérios usuais do enriquecimento dentro da lei. Há hoje dois países e duas economias, o país e a economia visíveis e aqueles de que só se ouve falar a espaços, quando alguma investigação criminal os traz episodicamente à luz do dia, e que rapidamente desaparecem de novo na obscuridade pelas portas travessas de uma Justiça que só funciona eficazmente para o cidadão comum. A tentação de se desembaraçar de escrúpulos morais e emigrar para esse país subterrâneo é grande. Aí a vida é fácil, é barata e dá milhões.

o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.
é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta á a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.
permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que se veja
alto e altivo o coração das coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?

POEMA
Paisagem destruída,com
latas de conserva, as entradas das casas
vazias, o que há lá dentro? Aqui cheguei
à tarde, de comboio,
duas panelas atadas
ao saco de viagem. Agora deixei
para trás os sonhos que sopram
numa encruzilhada. E pó,
pavana fragmentada, néon
morto, jornais e carris,
este dia, que me resta agora,
um dia mais velho, mais afundado e morto?
Quem é que disse que a isto
se chama vida? Eu retiro-me
para outros tons de azul.
Poema de Rolf Dieter Brinkmann

ARTE POÉTICA
Não quero morrer não quero
Apodrecer no poema
Que o cadáver de minhas tardes
Não venha feder em tua manhã feliz
E o lume
Que a tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte -
some-se
aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz
Nada que se pareça
a pássaro empalhado múmia
de flor
dentro do livro
e o que da noite volte
volte em chamas
ou em chaga
vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só
ilumina a cidade inteira

O CARTEIRO
que queres tu carteiro?
estou longe do mundo
sem dúvida estás equivocado...
já que nada de novo há
que o mundo possa trazer a este fugitivo.
o que era
é ainda costume:
sonhar
ou enterrar
ou evocar
enquanto a gente tem ainda seus festejos
e seus funerais juntando festa com festa
seus olhos desenterrados em suas mentes
outro osso para uma nova fome.
a china ainda tem a sua muralha
um mito apagado e um destino em repetição
a Terra tem ainda o seu Sísifo
e uma pedra que não sabe o que quer.
carteiro
sem dúvida estás equivocado...
já que nada é novidade
volta à estrada
já que a estrada tanta vez te trouxe.
e que queremos nós?
Poema do Iraquiano, Buland Al-Haydari

In “Age of the Rubber Seals,” al-Haidari longs for a better time beforehand, before all of the chaos and agony settled into his homeland. The imagery of “whips rasping on our skins” and “chains without crime” highlight the political crisis and anguish in his lifetime. “Return to us our old eyes so we can see the victory that looms in defeat,” he says, wistfully. “We’re bored with your face plunged in rubber implanted in the earth in crime.” This poem expresses an angst that nearly every teenager can relate to, yet it is beneficial to the older generation as well, because poems like these are a wake-up call that things are not all right. Even in translation, one can still feel the impact of this poem.
Age of the Rubber Seals
Oh Age of ours
(Age of rubber seals,
of whips rasping on our skins,
of chains without crime)
Return to us our old eyes
our grim, black doors open
to night and gale.
Return to us our shadows
shaken by trembling candlelight
in the dark night.
Return to us
our children bare in winter’s anger;
their little hands craving to tear down the sky.
O Age of ours
(Age of rubber seals,
of chains without crime,
of rasping whips)
Return to us our old eyes
so we can see the victory that looms
in defeat.
Erect for us
from the feet of locusts in our desert
from the dry cactus
from the limbs of our dead sons
scaffolds that charge us
with anger that can carry us
on a great song
We’re bored with your face plunged in rubber
implanted
in the earth
in crime.
From Salma Khadra Jayyusi, ed., Modern Arabic Poetry: An Anthology (New York: Columbia University Press, 1987): 243-44.
AMANHECER
Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?
Qual é o rito desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.
Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
de homem de outra margem.
Porque o que sucede não é verdade.
Poema de Rosario Castellanos

Dos ciudadanos saludan al otro lado en la navidad de 1961. | Lon Herschtritt

Veja o vídeo que conta a História em 3 minutos
No próximo mês de Dezembro decorrerá a 5ª edição do Prémio do Clube Literário do Porto atribuído, nos termos do respectivo regulamento, por concurso de ideias e sugestões, visando galardoar o autor que mais criatividade teve na narrativa e ficção.
Instituído em 2005, o galardão, com um valor pecuniário de 25.000 euros, foi criado pela Fundação Dr. Luís Araújo, chegou a ser considerado uma lufada de ar fresco para a cultura portuense.
Esta é a quinta edição do prémio, que nos anos anteriores distinguiu os escritores Mário Cláudio, Armando Baptista Bastos, Miguel Sousa Tavares e António Lobo Antunes.
De forma a contar com a colaboração dos utentes e amigos desta casa, vimos por este meio, junto de V/ Ex.ª, solicitar que nos indique um nome que seja meritório de receber tal galardão.
Uma vez que a cerimónia da entrega do referido Prémio decorre já no próximo mês de Dezembro, agradecemos que nos envie a Vossa estimada opinião o mais breve possível.
Com os nossos melhores cumprimentos,
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, n.º 22
4050-430 Porto
T. 222 089 228
Fax. 222 089 230
Email: clubeliterario@fla.pt
URL: www.clubeliterariodoporto.co.pt

SE OYE VENIR LA LLUVIA
L
a casa de mi infancia es de barro del suelo a la teja,
y de maderas apenas descuajadas, que en otro tiempo obedecieron
hachas y azuelas en los cercanos bosques.
El gran filtro de piedra vierte en ella, tan grande,
su agua de fresca sombra.
Yo amo su silencio, que el fiel reloj del comedor vigila.
Me escondo en los muebles inmensos.
Abro la despensa para asustarme un poco
del tragaluz, que hace oscuros los rincones.
Corro aventuras inauditas cuando entro
en el huerto cerrado que me está prohibido.
En la penumbra de la tarde, que va cayendo lenta
sobre el mundo, el grillo del hogar canta de pronto,
y su estribillo triste riega en el aire quieto,
paz y sueño sabrosos.
Cuando venían las lluvias miraba los largos aguaceros
desde el ancho cajón de las ventanas.
Nunca huele a tierra tanto como esa tarde.
Se oye la lluvia primero en el aire venir como un gigante
que se demora, lento, se detiene y no llega,
y luego, están ahí sus pies sobre las hojas, tamborileando,
rápidos, mojando,
y lavando sus manos deprisa, tan deprisa, los árboles,
el césped, los arroyos,
los alambres, los techos, las canoas.
Pero también su llanto desolado,
su sinrazón de ser triste, su acabarse de pronto,
sin objeto ni adiós,
para siempre en mi infancia, para siempre.
Llueve en mi alma ahora, como entonces.
----------------------------------------
Dispo-te lentamente, beijo a beijo.
Esse botão, esse colchete, aquela fita,
uma pequena fivela, uma ilhá diminuta,
a suavíssima seda que resvala, as rendas
em cuja nuvem crespa até dormito
moroso, prolongando o termo
do beijo, buscando as mais suaves
regiões, as profundas fontes. E de súbito
detenho-me
e olho-te nua, plena, bela, minha,
forma total que o amor criou no sonho,
estátua levantada por minhas mãos, meus beijos.
Poemas de Isaac Felipe Azofeifa, Costa Rica

A curta-metragem de ficção “Um Dia Frio", da realizadora portuguesa Cláudia Varejão, conquistou o Grande Prémio de Curta-Metragem no Festival Internacional de Cinema Mediterrâneo de Montpellier, em França.
A 31.ª edição do festival decorreu entre 23 de Outubro e 1 de Novembro em Montpellier, onde foram exibidos 239 filmes, passando pelas longas e curtas-metragens de ficção e documentários. Segundo a organização, este ano contabilizaram-se 87.200 espectadores.
Do palmarés, consta a realizadora Cláudia Varejão, premiada com o Grande Prémio de Curta-Metragem pelo filme “Um Dia Frio”, também galardoado em Outubro com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Tânger, em Marrocos.
A curta-metragem foi produzida pela Filmes do Tejo II em co-produção com a RTP2 e a Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Programa Criatividade e Criação Artística.
Com Adriano Luz, Ágata Pinho, Ana Rodrigues, Isabel Ruth, Maria D´Aires e Vicente Wallenstein, a película tem argumento de Cláudia Varejão e de Graça Castanheira, e música de Bernardo Sassetti.
No filme, sobre o quotidiano de uma família, a realizadora quis “retratar a intimidade, a partir de gestos e palavras que nos identificam”, informa uma nota sobre a curta-metragem de 27 minutos.
“Procuro um cinema onde, por momentos, se esqueça a ficção e a paisagem humana se insinue, frontal, em cada plano. Onde, quanto mais prováveis e até rotineiros os movimentos das personagens, maior a possibilidade e a probabilidade de se chegar ao âmago de nós”, explica a realizadora no texto.
Nascida no Porto, em 1980, Cláudia Varejão estudou imagem em movimento no curso de câmara, e mais tarde no curso de realização, no centro Restart, em Lisboa.
Frequentou o curso de direcção de cinema de ficção na Academia Internacional de Cinema em São Paulo e o curso de cinema do Programa de Criatividade da Fundação Calouste Gulbenkian, com a Deutsche Film und Fernsehakademie Berlim.
A filmografia de Cláudia Varejão inclui o documentário “Falta-me”, de 2005 e a curta-metragem “Fim-de-semana”, de 2007.
Cláudia Varejão tem trabalhado ainda em direcção de fotografia e em projectos de vídeo com artistas de diferentes áreas como Beatriz Batarda, Inês de Medeiros, Joana Vasconcelos, Madalena Victorino, Maria João Pires, Miguel Bonneville e Sandra Faleiro, entre outros.
Um sítio online dedicado à arte contemporânea, Blablart.com, acaba de ser criado para dar acesso a 10 mil museus e galerias de todo o mundo.
Os fundadores do projecto são três: a jornalista portuguesa Maria Manuel Stocker, a curadora madrilena Helena Tatay e o "web master" catalão Alberto Lucas, que apostaram em construir "um site útil e actual", com informação sobre o sector proveniente de uma centena de países.
Em declarações à Agência Lusa sobre o Blabart, Maria Manuel Stoker justificou que esta iniciativa resultou da constatação de que "não havia um único sítio na internet onde fosse possível visitar o mundo da arte contemporânea na sua globalidade".
"Há muitos sítios de arte contemporânea mas estão orientados por zonas geográficas, ou com um grande foco nos dois lados do Atlântico – Londres, Nova Iorque, Paris - ou então concentrados apenas no mercado americano", observou. Maria Manuel Stocker comentou que "todo o desenvolvimento do mercado da arte contemporânea na Índia, China, Coreia, Japão, Austrália, Brasil e Médio Oriente não tem grande repercussão nos sítios existentes, que se concentram em divulgar apenas as grandes galerias internacionais com representação em Deli ou em Pequim". Verificada esta "falha de informação organizada" no sector da arte contemporânea, o grupo procurou soluções que conjugassem simplicidade e, ao mesmo tempo, "um máximo de interactividade entre os utentes e o uso das tecnologias de imagem sofisticadas, dado que a imagem é fundamental na arte". O grupo decidiu criar o Blablart.com - de acesso gratuito para quem nele se inscreve – para permitir "a qualquer pessoa visitar as galerias e museus do mundo sem sair do sofá, e com poucos clickes". É dirigido sobretudo a profissionais da arte, galeristas, curadores, artistas, que poderão comunicar entre si dentro da plataforma e dar conhecimento à comunidade global das suas exposições, eventos e obras. O Blablart é composto por um directório (intitulado "The Art World") com museus e galerias de cerca de uma centena de países, que demorou dois anos a criar. Contém ainda uma rede de comunicação ("Who´s On") entre todas as galerias e museus que fazem parte do directório, mas também aberta a artistas, coleccionadores ou qualquer pessoa interessada em arte. O "Talk Art" está aberto a quem quiser debater a arte contemporânea online, em qualquer língua, tal com o sítio, que tem a possibilidade de ser lido em tradução Google em dezenas de idiomas. A primeira página do Blabart tem também uma secção de notícias actualizadas regularmente que cobre galerias, museus, colecções e também artes performativas. Maria Manuel Stocker considera que o sector da arte contemporânea pode beneficiar da forma como o sítio está organizado, "dado o crescimento global do mercado e o interesse também óbvio do público pela cultura". "O Blablart permite a alguém no sul da Índia visitar os museus do Canadá, as colecções brasileiras ou as galerias de Berlim, sem ter que as procurar uma a uma em sítios díspares", exemplificou. Segundo a jornalista portuguesa, o projecto começou sem financiamento, mas no ano passado a empresa Energies Nouvelles deu um apoio à execução e o sítio foi concretizado. Actualmente, o grupo procura patrocínios e publicidade de empresas e serviços desde as energias limpas às seguradoras ou telecomunicações e empresas ligadas ao turismo, "com mais vocação para se anunciarem nas páginas das cidades".

O Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação é o mais importante festival de cinema de animação português. Realiza-se em Espinho desde 1976, tendo este ano a sua 33ª edição, o que o torna um dos mais antigos festivais deste tipo de cinema em todo o mundo. É organizado pela Cooperativa NASCENTE e pela Câmara de Espinho.
Para além das secções não competitivas, tem duas secções competitivas principais. A Secção Internacional abrange as categorias de Curtas-metragens, Médias-metragens, Longas-metragens, Primeiro Filme ou Filme de Estudos, Séries, Publicidade e Informação. Na Competição Nacional há dois concursos: Prémio António Gaio / Prémio FNAC, para o melhor filme português em competição e Prémio Jovem Cineasta Português.
O Cinanima atribui prémios relativos a cada categoria, e vários outros como, por exemplo, o Grande Prémio Cinanima 2009 para o melhor filme do Festival, o Prémio Especial do Júri ou o Prémio José Abel.
À semelhança do que vem acontecendo desde há uns anos, a Culturgest tem o prazer de se associar ao Cinanima projectando uma selecção de filmes premiados feita pela organização do Festival.
Ver programação e outras informações aqui
O professor da Universidade de Cambridge é o convidado de honra da 5ª Conferência Internacional de Filosofia e Epistemologia, onde se debate «a temática da condição humana a partir das obras do neurocientista António Damásio, do filósofo Espinosa, do pensador multifacetado George Steiner e de um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, Miguel Torga.» De 23 a 25 de Novembro, no Instituto Piaget, em Viseu.

Músicos portugueses e espanhóis participam num concerto de homenagem aos 80 anos do nascimento de Zeca Afonso. O concerto "Traz um amigo também" é organizado pela associação "A Gentalha do Pichel", de Santiago de Compostela (Galiza, Espanha), e contará com a participação de vários músicos que partilharam palcos com a voz mais famosa da canção de intervenção portuguesa. Xico de Carinho, que tocará com o seu grupo Na Virada, Luis Almeida, Juan Guitián, Arturo Regueira e Antom Labranha, são alguns exemplos. Participam ainda os músicos Uxía Senlle, José Pumar e Benedito de Voces Ceibes. Eduardo Maragoto, da associação que promove o concerto, explica que se trata de mais uma iniciativa no âmbito de encontros "entre a Galiza e os demais países de língua lusófona". Acrescentou ainda que a associação galega tem vindo a colaborar cada vez mais com a Associação José Afonso, no intuito de "actualizar a vida e a obra do Zeca" que "sempre manteve uma relação especial com a Galiza e com a luta anti-fascista, dos dois lados do rio Minho". Foi aliás em Santiago de Compostela, na praça do Burgo das Nações, onde Zeca cantou em público pela primeira vez, a 10 de Maio de 1972, a sua canção mais mediatiza, "Grândola Vila Morena". "O Zeca estava muito vinculado à Galiza e muito comprometido com a causa galega", disse Eduardo Maragoto que explicou que o músico incorporou vários temas tradicionais desta região espanhola no seu reportório.
Alda Merini, de 78 anos, faleceu no domingo no hospital São Paulo de Milão após prolongada doença, informaram os "media" italianos. Merini era considerada a maior poetisa italiana viva e uma das grandes escritoras do século XX em Itália. A sua vida e a sua obra estão marcadas pela alternância entre a loucura e a lucidez, como ficou patente na que é considerada a sua obra mais importante, A Terra Santa (1984), já traduzida em Portugal (Livros Cotovia), com a qual ganhou vários prémios. Em 1996 Alda Merini tinha sido indigitada para o Prémio Nobel da Literatura, uma candidatura apoiada, sobretudo, pelo escritor italiano Dario Fo, Nobel em 1997. (fonte: DN
Depois do Jabuti de melhor romance, o escrito gaúcho recebeu ontem novo prémio por Manual da Paixão Solitária (Companhia das Letras). Melhor obra de não-ficção do ano: Monteiro Lobato: Livro a Livro, de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Unesp).

| AUGUSTO ALVES DA SILVA |
Augusto Alves da Silva (n. 1963, Lisboa) é um dos mais importantes artistas portugueses revelados na década de 1990. Embora não trabalhe exclusivamente com a fotografia, é neste meio que tem executado alguns dos trabalhos mais marcantes no contexto artístico português dos últimos vinte anos. Augusto Alves da Silva tira partido da ilusória neutralidade da fotografia e dos códigos convocados automaticamente por determinados regimes de imagens (paisagem, retrato), apresentando imagens claras, nítidas, em que o excepcional nunca salta à vista, antes tendo de ser procurado; em que, no fundo, nunca nada é dado a ver de forma imediata, promovendo um diferimento que desmente retrospectivamente, consoante olhamos mais atentamente para cada imagem, aquilo que, num primeiro olhar, ela parecia significar. Esta será a primeira exposição retrospectiva de um dos mais importantes fotógrafos portugueses da actualidade.
Comissariado: João Fernandes
Produção: Fundação de Serralves
Visita Guiada exclusiva para Amigos
24 OUT (Sáb.), 17h00 por Ricardo Nicolau
Visita guiadas
03 DEZ (Qui), 18h30, por Ricardo Nicolau
14 JAN (Qui), 18h30, por João Fernandes
19 JAN (Ter), 18h30, por Ulrich Loock (em inglês)
O que está escrito no mundo está escrito de lado
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem -
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem - uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando - a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à purpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada - e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos instetinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal -
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta - e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
- porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa - ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas - o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga - esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora -
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
- a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial - tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando op dia é muito perto, uma estrela comprida
- as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um comeya desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras -
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo -
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
Poema de Herberto Helder, do livro "A Faca não corta o fogo", edição Assírio & Alvim

O escritor canadiano de origem haitiniana Dany Laferriète recebeu, ontem, o prémio Médicis 2009 do romance, uma das grandes distinções literárias francesas, pelo seu livro “L´énigme du retour”.
O prémio Médicis do romance estrangeiro foi atribuído ao americano Daves Eggers com “What is the what”, história verdadeira de um refugiado do Sudão, Valentino Achack Deng, e da sua viagem desde a sua vila no Sudão até Atlanta, nos Estados Unidos.
O Médicis Essais premiou Alain Ferry por “Mémoire d´un fou d´Emma”, digressão sobre o amor, a literatura e Madame Bovary de Gustave Flaubert.
Dany Laferrière nasceu, em 1953, em Port-au-Prince, Haiti, e vive em Montréal, Canadá e Miami, Estados Unidos. Romancista, ensaísta e cineasta, Laferrière foi primeiramente jornalista no Haiti, deixando a ilha em 1974 para se instalar no Québec.
O escritor publicou mais de vinte livros, entre os quais “Pays sans chapeau” e “Vers le sud”. Em “L´énigme du retour”, o autor regressa ao Haiti após a morte do seu pai.
As suas obras contêm muito da realidade que observa e que experiencia, são marcadas por influências biográficas muito fortes.
Durante dez dias, Guimarães voltará ser a capital do jazz em Portugal, com a realização de um festival que vai já para a 18.ª edição e que marca o panorama jazzístico nacional. Os primeiros acordes soam no próximo dia 12. Cabe ao espectáculo "Kind of blue @ 50" - celebração de um disco, de Miles Davis, considerado por muitos como o melhor de sempre - abrir o festival. "Temos um percurso notável num longo caminho a nível de programação e espaços de actuação", considerou José Bastos, director da Oficina, uma das entidades co-organizadoras do Guimarães Jazz, ontem, em conferência de Imprensa de apresentação do programa, no Centro Cultural Vila Flor (CCVF). O festival decorrerá, neste ano, nos moldes que já vêm sendo habituais e apresentará um programa diversificado que se estende pelo grande auditório do CCVF, pelo Centro de Espectáculos São Mamede e pela sede da Associação Convívio. "O festival é um processo em que o nível médio é muito elevado e torna-se difícil conseguir outra situação parecida com esta. Mas talvez daqui a dois anos estejamos a dizer o mesmo", alertou Ivo Martins, director do certame, referindo-se à qualidade do evento. Além dos concertos no CCVF, a grande particularidade é a realização das Oficinas de Jazz e das Jam Sessions. "As oficinas são dirigidas por músicos dos Estados Unidos que vão estar em Guimarães e serão responsáveis pelas actividades formativas, enquanto as Jam Sessions são concertos fora de horas, mais informais, que proporcionam um contacto mais directo com o público". Os mentores do Guimarães Jazz olham para um horizonte temporal que os levará a 2012, ano em que a cidade será Capital Europeia da Cultura (CEC). Nesse âmbito, José Bastos releva a importância de captação de novos públicos e de um nível que em 2012 pode atingir o auge. "Com a CEC, podemos criar condições para atingirmos o patamar mais alto e a partir daí o Guimarães Jazz manter-se nesse nível". O trio do pianista Hank Jones, o quarteto de Branford Marsalis, o quinteto de George Colligan, o Overtone Quartet (com Jason Moran, Dave Holland, Chris Potter e Eric Harland), Cassandra Wilson e Dave Douglas são os outros nomes que compõem o núcleo duro do cartaz.
O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, considerado um dos intelectuais mais relevantes do século XX, destacado antropólogo e "pai" da corrente estruturalista das ciências sociais, morreu sábado aos 100 anos, informou hoje, terla-feira, a editora Plon.
Lévi-Strauss influenciou de forma decisiva a filosofia, a sociologia, a história e a teoria da literatura.
Nascido em Bruxelas em 1908, Lévi-Strauss lançou as bases da antropologia moderna e influenciou gerações de investigadores, deixando também uma marca decisiva na filosofia, sociologia, história e teoria da literatura.
Filho de judeus franceses, mudou-se para França quando estudava no liceu e depois, na Sorbonne, em Paris, estudou Direito e Filosofia, disciplina que leccionou no ensino secundário.
Em 1935, rumou ao Brasil, aceitou um lugar de professor de Sociologia na Universidade de São Paulo e aí iniciou a sua carreira de etnólogo, dedicando os fins-de-semana ao estudo dos milhares de índios que habitavam nos subúrbios da cidade e partindo, depois, para o Mato Grosso e Amazónia, para contactar com tribos.
Na sua primeira obra de grande projecção, "As Estruturas Elementares do Parentesco", publicada em 1949, propôs um novo método de análise que foi adoptado por muitos antropólogos.
No livro, Lévi-Strauss sustenta que o "parentesco" está no centro da Antropologia, que estuda o homem na sua dimensão social, entendendo-se aqui parentesco como as regras de aliança, filiação, residência e perpetuação de populações.
A sua autobiografia intelectual, "Tristes Trópicos", publicada em 1955 (editada em Portugal pelas Edições 70), é considerada a sua obra mais marcante e um dos grandes livros do século XX.
Valeu-lhe o Prémio Goncourt e foi lida por um público bastante mais vasto do que a comunidade científica.
Professor no Collège de France - um prestigiado estabelecimento de ensino e de investigação em Paris - entre 1959 e 1982, foi o primeiro antropólogo eleito para a Academia Francesa, em Maio de 1973, e o primeiro membro centenário da instituição, a partir de 28 de Novembro de 2008, data em que completou 100 anos.
Considerado também um crítico do etnocentrismo e, de alguma forma, um precursor intelectual do movimento ecologista, embora cedo se tenha tornado célebre, Lévi-Strauss nunca se preocupou com a posteridade e não escreveu memórias.
![]() |
Compreende-se que gente dos partidos e deputados sejam, como diz a DGS, "essenciais ao normal funcionamento da sociedade". Pode perguntar-se é como, sem padeiros que lhes façam o pão, sem motoristas que os levem ao Parlamento e às sedes, sem pessoal das águas e da electricidade que lhes garanta o banho diário, a energia para os computadores e a luz para estudar os dossiês, sem educadoras e auxiliares de infantários que lhes tomem conta dos filhos enquanto trabalham e toda a mais gente não "imprescindível" nem "essencial ao normal funcionamento da sociedade", uns e outros poderão cumprir as suas funções.
Os programas que marcaram a carreira de António Sérgio e os nossos dias.
Rotação
(entre 1977-1980): Foi o seu primeiro programa de autor, ainda na Rádio Renascença. Foi através deste programa que ajudou a lançar nomes cimeiros da música portuguesa, incluindo os Xutos&Pontapés.
Rolls Rock
: o primeiro programa que fez na Rádio Comercial, que na altura ainda dava pelo nome de RDP – Canal 4. O conceito por detrás do programa - nas palavras de João David Nunes - era ser “uma coisa especial, edições muito específicas e muito boas”.
Som da Frente
(1982 -1993): Como o próprio nome indica, tinha como missão estar na linha da frente das novidades; trazer até aos ouvintes portugueses o que de novo se fazia em Portugal e no Mundo e estar na vanguarda das novas sonoridades.
Lança-Chamas
: programa dedicado à chamada
música pesada
e ao
heavy metal
.
Loiras, Ruivas ou Morenas
: programa realizado pela mulher de António Sérgio, Ana Cristina Ferrão, em que António Sérgio passava apenas música interpretada por mulheres. De Ellis Regina a Janis Joplin.
Grande Delta
: Entre 1993 e 1997, durante o interregno que o levou à XFM.
Hora do Lobo
(1997-2007): O programa esteve no ar dez anos, entre a Comercial e a Best Rock FM, e dedicava-se a dar a conhecer as franjas menos conhecidas do pop-rock. Foi cancelado porque tinha deixado (segundo a direcção assumida pelo grupo Prisa) de se enquadrar na grelha. O fim do programa originou reacções e protestos. “Serviu como uma espécie de resumo de carreira. Porque o António Sérgio sempre foi um lobo solitário, mas de olhar penetrante”, define João David Nunes.
Viriato 25
: O seu mais recente programa, na Radar FM, em cujos estúdios ainda ontem tinha estado a gravar.
Título: Sinais de Fogo
Autor: Jorge de Sena
N.º pág. 526
Editor: Edições 70, 1978
Hoje, durante o tradicional almoço no restaurante Drouant, em Paris, os membros da Academia Goncourt decidiram atribuir o mais importante prémio literário francês à escritora de origem senegalesa Marie NDiaye, pelo romance Trois femmes puissantes (Gallimard). A decisão foi tomada à primeira volta, quando NDiaye recebeu cinco votos, contra dois para Jean-Phillipe Toussaint (La vérité sur Marie, Éditions de Minuit) e um para Delphine de Vigan (Les heures souterraines, JC Lattès).
Entretanto, foram igualmente revelados os vencedores dos Prémios Renaudot. Ficção: Un roman français, de Frédéric Beigbeder (Grasset). Ensaio: Alias Caracalla: mémoires, 1940-1943, de Daniel Cordier (Gallimard). Renaudot Poche (para livros de bolso): Palestine, de Hubert Haddad (Zulma). Registe-se que o romance de Haddad já tem edição portuguesa, da Quetzal, com tradução de Ana Cristina Leonardo.
Dez escritores emergentes de vários países, do Vietname aos Estados Unidos, vão receber 50 mil dólares no âmbito dos Prémios Whiting para Escritores, atribuídos pela Fundação Giles Whiting.
Os galardões, atribuídos anualmente desde 1985 a autores que manifestem «um talento excepcional e uma carreira promissora», vão desta vez para o escritor de ficção vietnamita Vu Tran, que agora vive em Las Vegas, e para o poeta Jay Hopler, nativo de Porto Rico e a residir na Florida. A lista de vencedores inclui ainda os poetas Jericho Brown e Joan Kane, o dramaturgo Rajiv Joseph, os autores de obras não ficcionais Michael Meyer e Hugh Raffles, e os ficcionistas Adam Johnson, Nami Mun e Salvatore Scibona, cujo romance «The End» foi finalista dos National Book Awards em 2008.[diariodigital.pt]
Aquele que é considerado o "livro da feira" de Frankfurt já foi comprado por uma editora portuguesa, a Objectiva. São os diários de Nelson Mandela, que abriu os seus arquivo
Ler aqui o resto do artigo de Isabel Coutinho
A gente quer andar mais pela rua. Ouvi-lo com o merceeiro, a cabeleireira, o flautista da GNR, a dona do quiosque, mas ele dá-nos a volta. Conde de Redondo, Gomes Freire, Gonçalves Crespo, Conde de Redondo. Quando damos por isso estamos outra vez em casa. A casa é como a cabeça dele: livros, livros, livros

A editora Presença publicará esta semana a tradução portuguesa do último romance de
Toni Morrison, a escritora americana que venceu o Nobel da Literatura em 1993. A
Dádiva (A Mercy) foi considerado "o melhor romance" de 2008 pelo Sunday Times e "um
dos dez melhores livros do ano" pelo New York Times. A história passa-se na América do
Norte nos finais do século XVIII, quando o casal Vaark é repudiado pelos protestantes
por se recusar a ter escravos a trabalhar nas suas terras. O tema da escravatura está
assim presente no romance, bem como a intolerância religiosa e a falta de liberdade das
mulheres, tornando um texto, em certo sentido, uma parábola do nascimento
traumático dos Estados Unidos. Além do Nobel, Toni Morrison recebeu ainda o Pulitzer
(em 1988) e o National Book Critics Circle Award (em 1977).
Quando José Saramago decidiu espevitar o interesse pelo seu último livro afirmando que "a Bíblia é um manual de maus costumes", a minha primeira reacção - como escritor e como alguém de há muito tempo dedicado aos estudos de religião comparada - foi rir-me para comigo e murmurar "e depois?". São várias e de ordem vária as razões por que desvalorizei os comentários de Saramago. O Antigo Testamento, praticamente na sua totalidade, nunca teve como propósito constituir qualquer coisa de parecido com um manual de boas ou más maneiras. Ao ler a Bíblia, pouco que seja, ninguém pretende encontrar um modelo para o seu comportamento nos actos do Rei David, de Betsabé, de Noé, de Adão, de Eva ou de quaisquer outras pessoas referidas nas histórias bíblicas. Na tradição judaica, tal atitude pura e simplesmente nunca existiu. Nem o mais ortodoxo dos rabinos obedece hoje à maioria das regras de conduta doDeuteronómio, mais que não fosse por estarem de tal modo datadas que seriam irrelevantes para a vida dos nossos dias. Assim como ninguém no mundo judeu modela o seu comportamento pelo de Deus. Fazê-lo seria considerado ingénuo na melhor das hipóteses ou herético na pior. O Antigo Testamento é formado em grande parte por uma compilação de histórias, muito à semelhança de um romance. E o seu tema principal é a difícil e por vezes tumultuosa relação entre Deus e Israel, entre o criador transcendente de um universo e o seu povo escolhido. É uma história de sobrevivência, de como os israelitas usaram de todos os meios à sua disposição - incluindo a guerra - para defender aquilo que consideravam a sua particular aliança com o Senhor. Como qualquer romance ou outra forma de narrativa que intente descrever todos os cambiantes da conduta humana, dela fazem parte tanto a opressão intolerável, os crimes de guerra e os assassinatos, como também o amor, a dedicação e o heroísmo. Trata de seres humanos tal como eles são, e não como eles deveriam ser. Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado emCrime e Castigo ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a sua família. Inclinava-me a pensar que qualquer escritor haveria de olhar como vital, tanto para ficcionistas como para ensaístas, a exploração de toda a gama das emoções e acções humanas, mas ao que parece enganava-me, pelo menos no caso particular de Saramago. Confesso que as palavras de Saramago me deixaram perplexo de um modo muito pessoal ao implicarem que não deveríamos escrever sobre os horrendos crimes cometidos por seres humanos, pois uma boa parte do que faço nos meus romances é explorar as vidas de pessoas cujas vozes têm sido sistematicamente silenciadas por ditadores, generais e inquisidores religiosos. Penso que escrever sobre a repressão violenta e sobre os tratamentos cruéis é essencial, sobretudo quando se busca a criação de um mundo de mais justiça e humanidade. E uma das coisas que mais respeito e valorizo no Antigo Testamento - apesar de não crer num Deus pessoal e de não praticar nenhuma forma de fé, nem sequer a religião dos meus pais, o judaísmo - é o facto de aí nada ser escamoteado ou escondido. Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento. Para quem nunca o fez, sugeriria que lessem o tratamento dado pelo Rei David a Urias, narrado noSegundo Livro de Samuel. Será difícil encontrar descrição mais poderosa da traição e da brutalidade humanas. Por outro lado, considerei que no fundo não valia a pena dar importância aos comentários de Saramago, pela ingenuidade e infantilidade da interpretação literal que ele (juntamente com os fundamentalistas religiosos) faz das histórias do Antigo Testamento. Uma das mais importantes lições que retirei do estudo da história das religiões e da mitologia é que as narrativas mitológicas são - na sua maior parte - poesia e não prosa. A história de Adão e Eva é poesia. Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão? O autor desta narrativa do Antigo Testamento está a recorrer a uma linguagem simbólica - tal como poetas muito posteriores, como Shakespeare ou Camões, recorreram à linguagem simbólica para criarem as suas obras-primas. Ou será que algum leitor de Os Lusíadas pensa que os navegadores portugueses depararam com um temível gigante chamado Adamastor nas suas viagens da época das Descobertas? Ou, quando a narrativa bíblica conta que Moisés separou as águas do Mar Vermelho no Livro do Êxodo para que o seu povo pudesse fugir do Egipto, será que alguém com mais de dez anos acredita que ele possa ter murmurado algum abracadabra hebraico e produzido tal milagre? Espero bem que não. O Antigo Testamento pode ter como referência um acontecimento histórico - a libertação do povo hebraico -, mas a linguagem utilizada é poética e simbólica. Por assim ser, está aberto a diferentes interpretações. Pode acontecer que o que aqui se pretende é falar da viagem espiritual que cada um de nós pode fazer ao longo das nossas vidas, da escravidão para a liberdade. Nesse caso, a história de Moisés será sobre a nossa aspiração - como indivíduos e como povo - à segurança, a uma vida realizada e com sentido. Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos da tradição poética ocidental. As palavras de Saramago pareceram-me ainda como o "much ado about nothing", o muito barulho para nada, com que soa qualquer coisa que nem remotamente é novidade. Há cerca de dois mil anos que os filósofos judeus vêm debatendo a brutalidade de Deus e da humanidade no Antigo Testamento, em tons bastante mais emocionados do que os usados no debate em causa. Talvez a história mais criticada do Antigo Testamento seja narrada no livro deJob. Depois de um Satanás céptico dizer a Deus que a piedade de Job se deve apenas à prosperidade de que goza, Deus põe à prova a fé e a dedicação de Job arruinando-lhe a vida da forma mais horrível. Podemos encontrar comentários sobre a interpretação a dar a esta história - assim como de qualquer outra história bíblica - em centenas de livros escritos por filósofos judeus - e também alguns cristãos - ao longo dos últimos dois mil anos. Como é possível que alguém que se considera instruído não tenha consciência desta herança cultural? As primeiras obras escritas analisando a natureza de Deus, tal como é descrita no Antigo Testamento, são o Talmude, um compêndio dos textos rabínicos sobre ética e cultura compilados entre os anos 200 e 500 da era cristã. Mais tarde, na época medieval, o tema da natureza de Deus foi explorado por dezenas de talentosos filósofos medievais, incluindo pensadores magníficos como Maimónides e Moisés de Leão, autor do século XIII, que escreveu o livro mais influente do misticismo judaico, oZohar. Mais recentemente, estudiosos como Walter Benjamin e Martin Buber acrescentaram facetas modernas ao debate. A natureza da relação de Deus com o homem - a Sua crueldade e, em particular, a Sua "surdez" face ao sofrimento humano - tornou-se num dos mais importantes tópicos de discussão no mundo judaico desde o Holocausto, pelo mais óbvio e terrível dos motivos. Simultaneamente, este debate filosófico foi sendo reflectido na literatura judaica desde os meados do século XIX, na obra de muitos escritores, de Sholem Aleichem e Shmuel Yosef Agnon - que recebeu o Prémio Nobel em 1966 - a Philip Roth. Concluindo, custa-me compreender como é que alguém, ainda que vagamente familiarizado com a filosofia e a literatura ocidentais, pode acreditar que erguer-se em 2009 contra a crueldade contida no Antigo Testamento tem alguma coisa de novo ou de chocante. Ou sequer interessante. O que é interessante é perguntarmo-nos por que razão exige Deus uma tão absoluta fidelidade aos israelitas e os castiga tão brutalmente por Lhe desobedecerem. Por que são outros povos, como os cananitas, olhados com tanto desprezo. O que diz tudo isto sobre as condições políticas e sociais em Israel em 500 a.C. E o que diz a relação de Deus com Israel sobre a "natureza tribal" das religiões da antiguidade. Estes, sim, são temas importantes a merecer respostas sérias dos estudiosos. Mas, naturalmente, nada disto mereceu a atenção de Saramago nem dos que reagiram às suas críticas ao Antigo Testamento. O que me traz ao aspecto mais perturbador e alarmante de toda esta tola controvérsia. Os jornalistas e os responsáveis religiosos portugueses de um modo geral trataram os comentários de Saramago como importantes! Graças a eles, os meios de comunicação deram-lhe mais tempo na televisão e mais espaço nos jornais do que a outras questões muito mais importantes. E alguns representantes da Igreja Católica atacaram-no com uma ferocidade emocional que revela bem que consideram tais opiniões sobre o Antigo Testamento como um obstáculo à fé. Mais uma vez, tal como salientei mais atrás, os comentários de Saramago não são nem chocantes nem novos. E apenas representam um obstáculo à fé para quem não tenha a menor ideia do que é e do que pretendia ser o Antigo Testamento. As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos. Só quem ignora tal herança, jornalistas e responsáveis religiosos incluídos, poderia tornar o patético desabafo do romancista numa tal polémica. E, para mim, essa foi a parte mais desanimadora e mais perturbante de toda esta "inventada" notícia: descobrir que na sociedade onde vivemos, entre os seus membros mais ilustres e cultivados, possa prolongar-se tão lastimosa ignorância de uma parte importantíssima do legado civilizacional da filosofia e da cultura ocidentais. Tradução de José Lima Artigo escrito por Richard Zimler e publicado no Jornal "Público"
Saramago e a insustentável leveza da ignorância
Os comentários de Saramago não são nem chocantes nem novos, defende neste texto o escritor Richard Zimler. E apenas representam um obstáculo à fé para quem não tenha a menor ideia do que é e do que pretendia ser o Antigo Testamento. As críticas são unicamente banalidades superficiais
DOCE IGNORÂNCIA

(Foto de Robert Doisneau)

Luis Sepúlveda está em Portugal para lançar o seu último livro, A Sombra do que Somos (Porto Editora). Hoje, às 18.00, no El Corte Inglés, em Lisboa.
Como é ter 60 anos?
É uma sensação muito agradável. Tenho experiência, tenho um caminho percorrido, sinto-me bem.
É inevitável, quando se chega a esta idade, olhar para trás e sentir-se "uma sombra do que foi"?
Sinto que projecto uma sombra que é bastante forte, é a sombra da minha geração que teve uma importância muito grande naquilo que estão agora fazendo os mais jovens, acho que estes nos vêem como referências.
A ideia da sombra é positiva? Não tem a ver com sentir-se uma sombra do que já foi?
Não, não, é uma ideia bastante optimista. Primeiro, porque para haver uma sombra tem de haver bastante luz, e nós temos uma luz muito forte que é a luz da nossa razão. Por isso temos uma sombra forte, definitivamente.
Os velhos persistem nos seus livros. Aqui aparecem logo na primeira frase.
Sempre me fascinaram os velhos, têm algo muito bonito que é o percurso que fizeram, a experiência, os erros, os fracassos, algo que está aí, que se pode ver. Neste caso, queria contar a história de quatro veteranos que se juntam para uma última aventura. Estas personagens estão muito próximas de mim, têm muito da minha experiência, têm a minha idade. Chegou a hora de escrever sob o ponto de vista dos velhos.
Mas com a idade não se perde também aquela vontade de mudar o mundo, o acreditar que é possível?
Eu não perdi. Os ideais permanecem porque há coisas no mundo que continuam mal. O sentimento de justiça social não tem idade, não tem época, é algo definitivo. Claro que o mundo também muda e as atitudes das pessoas têm que se adaptar. Mas o fundamental é que o velho desejo de mudar o que está mal é igual e tão forte quanto antes.
Esse optimismo está presente neste livro?
Acho que está. A partir de um aparente desencanto, estas personagens falam do seu passado e fazem algumas perguntas, por exemplo: porque fazíamos as coisas assim? E descobrem essa figura metafórica que é a sombra os desafia e encoraja a fazer alguma coisa. Avançam para uma última aventura, que possivelmente vai fracassar, mas que revela que têm os mesmo valores e a mesma vontade de fazer.
Mas a verdade é que eles não conseguem recuperar o passado.
O passado não se pode mudar, foi o que foi. Há algo nesses quatro que é profundamente subversivo que é o humor. E isso permite-lhes olhar para o passado com uma ironia sã.
É assim que olha para o seu passado?
Sim, com muito carinho e com muito humor. Este livro nasceu há três anos, quando me juntei com um grupo de amigos da juventude para um jantar em Santiago do Chile. Começámos a falar dos netos e depois falámos do tempo de Allende, do exílio, e todos contavam as coisas com um sentido de humor extraordinário. Podíamos ter mágoa por ter sido uma desilusão, mas não tínhamos. Havia uma alegria muito grande de saber que nós, por decisão pessoal, nunca tínhamos sido corruptos. Cometemos erros, claro, éramos muito jovens e éramos poucos para um processo tão grande. Desse jantar saiu a ideia de escrever este livro com um grupo assim de veteranos que se reúne para uma última aventura.
No livro fala muito da experiência do exílio, foi uma experiência determinante para si?
Todas as experiências são determinantes, sobretudo se pensarmos que para a minha geração o 11 de setembro de 73 foi muito mais do que um golpe de estado e o fim de uma democracia exemplar, foi o fim da nossa juventude. Terminou nesse dia. Eu tinha 23 anos e, como muitos outros companheiros, e tive de começar a agir com a maturidade uma pessoa de 40 ou 50 anos para sobreviver. O exílio foi, por um lado, um castigo, muitas pessoas não o suportaram, e, por outro, uma espécie de bolsa de estudos no estrangeiro, porque foi uma oportunidade para conhecer outras realidades. E para lutar, a ver se noutros locais era possível concretizar algo do que sonhávamos.
O regresso é difícil. Procuram um país que deixaram mas já não é o mesmo.
Do exílio não se regressa nunca. É definitivo. O país que deixamos existe só conservado na memória, é, como digo no livro, o país de Peter Pan, nada envelhece, nada muda. Mas depois confrontamo-nos com o país real e é difícil. Temos saudades das pessoas que conhecemos, dos locais onde estivemos, Vivemos com o coração partido.
Mas a casa é sempre no nosso país?
A casa é onde nós estamos sentimentalmente. As casas também vão mudando. Normalmente a casa é onde está a nossa família, mas os anos passam, os filhos crescem, voam com asas próprias, porque têm de o fazer, e chegamos a um estádio maravilhoso em que a nossa família são os nossos amigos. E aí a casa muda-se.

O Clube de Leitura "Amor e transgressão" realizar-se-á quinzenalmente, sempre às segundas-feiras, das 19 às 21 horas, e a participação, limitada a 30 pessoas, está sujeita ao pagamento de 70 euros. "Ana Karenina", de Leão Tolstoi, "A mulher de trinta anos", de Honoré de Balzac, "Lolita", de Vladimir Nabokov, "Maurice", de E.M. Forster, "A queda de um anjo", de Camilo Castelo Branco, "Primeiro amor", de Ivan Turgeniev, e "Boa noite, Senhor Soares", o mais recente livro de Mário Cláudio, foram as obras escolhidas. O presente curso está inserido na programação cultural no Porto da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) para os próximos meses, da responsabilidade do escritor Álvaro Magalhães. Já no próximo mês, o compositor e escritor Carlos Tê vai orientar um curso de escrita criativa de canções e, logo no arranque de 2010, seguir-se-á um outro de escrita criativa de textos literários, orientado pelo também escritor Pedro Sena-Lino. Depois da homenagem a Germano Silva, no início do mês, sucedem-se em breve idênticas iniciativas dedicadas a Manuel António Pina e Jorge de Sousa Braga, entre outros autores. Estas iniciativas resultam de um protocolo de colaboração estabelecido entre a SPA e o Museu Nacional de Soares dos Reis, mediante o qual os eventos culturais organizados pela cooperativa de defesa dos direitos dos autores terão lugar preferencialmente naquele espaço museológico. As inscrições para o curso "Amor e transgressão" podem ser feitas através do telefone 226061920.
Lembro como vieste: um retinir crescente,
a emoção nova no mundo que desponta.
A lua, coada dos ramos, varre o alpendre.
Cai vagarosamente a lira de uma sombra.
Jovem, via o iambo como um vestido
demasiado áspero nos teus ombros ternos.
Mas era cantante o meu verso imperfeito,
sorrindo na rima de lábios vermelhos.
Era feliz. Na mesa extinguia-se o fogo
oscilante da vela, o sonho ia em frente:
sob o vidro da mesa uma folha imortal
e rutilante nos seus raios de emendas.
Agora é diferente. Não trocava o sono
matinal pela estrela da madrugada.
Já escasseia o ânimo para tanto esforço,
sobretudo para os trabalhos da vaidade.
Sou experiente agora, avaro, intolerante.
Tem um brilho de cobre o meu verso polido.
Agora eu e tu raramente falamos,
através da cerca, como velhos vizinhos.
Sim a maturidade é rigorosamente
pitoresca: uma parra, uma pêra, meia melancia
e - o cúmulo da mestria - ar transparente.
Estou gelado. É outono, ó Musa fria.
Poema de Vladímir Nabókov (1899-1977) traduzido por Nina Guerra e Filipe Guerra
RECINTO
Onde porei o ouvido que não escute
minha voz a chamar-te?
E onde não escutar este silêncio
que te afasta lentamente triste?
Eu caminho as horas presenciadas
em nós por nós os dois.
Sei desse fruto maduro das vozes
em campos de setembro.
Sei da noite esbelta e já tão nua
em que nossos corpos eram um.
Sei do silêncio perante a gente obscura,
de calar este amor que é de outro modo.
Enquanto chove a ausência liberto
a escravidão de carne e a alma só
no ar suspende sua águia amorosa
que as nuvens pacíficas igualam.
Poema de Carlos Pellicer traduzido por José Bento

6ª feira
30/10/2009
22:00
AUDITÓRIO JOSÉ DUARTE
Entrada: 8,00€
Cruzam-se em Barcelona, em 2003, na Escola Superior de Música da Catalunha, onde ambos frequentam um ano de estudos no âmbito do programa Erasmus.
Este encontro marca o início de uma estreita colaboração com a formação de diferentes projectos, a gravação de dois CDs ("Dança da Solidão", em duo, e o segundo, "Orik", em quinteto, ambos ao vivo no "L'Inoui", Luxemburgo) e numerosos concertos por toda a Europa, E.U.A. e África.
"Temas bem conhecidos, rejuvenescidos pelos arranjos feitos pelo duo, a que Sofia empresta uma voz belíssima e Marc serve com virtuosismo. Quem os ouve, quer ouvi-los novamente, o que explica o crescente sucesso da formação aqui e além fronteiras."
Paula Telo Alves, "Contacto", Luxemburgo.
É com enorme orgulho que mais uma vez iniciamos a programação 2009/10 com estes 2 fantásticos músicos, juntos inseparavelmente:
Jazz Ao Norte - Ensino, Apoio e Promoção do Jazz, LDA.
NIF - 507 727 266
Rua General Norton de Matos nº 448
4050-424 Porto
Portugal
+351 96 250 26 26
+351 22 831 62 06

ISMAIL KADARÉ, albanês, foi premiado com o prémio Príncipe das Astúrias das Letras

Fotografias de Ciuco Gutiérrez

Romance de José Rodrigues dos Santos vai ser apresentado por ex-operacional da Al Qaeda
«O novo romance de José Rodrigues dos Santos, Fúria Divina, vai ser apresentado em Lisboa por um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda. Abdullah Yusuf já se encontra em Portugal, tendo chegado há alguns dias de África especificamente para apresentar esta obra.
Abdullah Yusuf reuniu-se por diversas vezes com Osama Bin Laden no Afeganistão e foi autor de um atentado reivindicado pela Al-Qaeda. Contactado por José Rodrigues dos Santos durante o processo de pesquisa para a obra Fúria Divina, tornou-se consultor deste romance protagonizado por Tomás Noronha sobre o islão radical.
Abdullah Yusuf irá falar este sábado, 24 de Outubro, na apresentação de Fúria Divina, cerimónia que está marcada para a praça central do Centro Colombo, em Lisboa, às 17h00 – um evento aberto ao público. Outro apresentador do novo romance de José Rodrigues dos Santos será o General Leonel Carvalho, antigo chefe do gabinete de segurança interna do Governo português.
A cerimónia de apresentação do livro contará ainda com a representação teatral de uma cena de Fúria Divina, a cargo do grupo de teatro Fatias de Cá, de Tomar."

João Tordo: «Não tenho paciência para os puros contadores de histórias»
Novo romance, pelos vistos. É diferente dos anteriores? Explica lá porquê.
Porque é maior, mais estruturado, mais denso, com mais personagens e uma história que atravessa um quarto de século e que faz viagens constantes a outros momentos marcantes do século XX, a guerra civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial… E, também, porque conta a saga da família Millhouse Pascal, vista através dos olhos do protagonista, na qual temos um pouco de tudo: um velho misterioso com poderes mágicos, três netos rebeldes, um jardineiro assassino, funâmbulos na corda bamba… e um final secreto em que o destino de uma das personagens principais se intersecta com uma das grandes catástrofes do nosso século. E também porque deu imenso trabalho. Contente?
Nem por isso. Uma vez mais, a história é contada na primeira pessoa. Alguma coisa de «pessoal» nisso ou vais aldrabar e continuar a dizer que não?
Claro que é pessoal. Todos os escritores mentem quando dizem que não existe nada de seu nos seus romances: no meu caso, acho que as personagens reflectem, cada uma à sua maneira, os meus pontos de vista e sentimentos em relação ao mundo. Começo sempre na primeira pessoa porque gosto de um ponto de vista limitado, que não seja omnisciente, que me aproxime do leitor, isto é: só sabemos uma parte da história, não sabemos o todo. Somos limitados, finitos, queremos tudo mas, infelizmente, não dá. Depois o romance utiliza outros pontos de vista e narradores, mas o fundamental é que, uma vez que as histórias acontecem no mundo a partir do momento em que as imaginamos, gosto de olhar para elas a partir dos olhos dos meus narradores.
Já que falas nisso, continuas a achar que escrever e viver são coisas incompatíveis? Continuas a achar que é uma angustiante dicotomia?
Agora já acho que são as duas coisas idênticas. Julgo que a vida quotidiana é apócrifa deste ponto de vista: o mundo exterior é menos real, em muitos sentidos, do que o mundo da literatura. Menos real porque menos interessante, pelo menos para quem escreve ou, se estou a exagerar, pelo menos para mim. Mas escrever pode ser equivalente a viver no sentido em que é na escrita que me descubro enquanto pessoa: a vida quotidiana é o que é, raramente feliz, muitas vezes deprimente; a vida de um livro tem a obrigação de ser interessante, fascinante, aventurosa, desafiar todos os instintos de quem está lançado a uma história. Por vezes, viver todos os dias pode ser muito parecido com uma forma lenta de morte; na escrita tudo está mais vivo, mais iluminado.
Ora pensa lá bem: o que é que costumas fazer enquanto escreves, sem te dares conta disso?
Que pergunta tão estúpida. Então olha: às vezes ouço os Beatles, sobretudo o Abbey Road ou o White Album; coloco o CD no computador sem sequer pensar no assunto. Mas grande parte das vezes não ouço nada, gosto do silêncio e do barulho dos dedos nas teclas. Não sou capaz de escrever à mão – não só tenho uma caligrafia ilegível como me cansa imenso o pulso, ao final de um bocado. Teclo tipo «secretária», isto é, muito depressa e sem olhar para o ecrã. Quando estou a escrever um romance é também das poucas alturas do ano em que bebo café e fumo cigarros logo de manhã. Tenho a televisão ligada sem som. A sensação de um romance por acabar angustia-me e, ao mesmo tempo, motiva-me. É esquisito. Também tremo as pernas e bato com os pés no chão, repetidamente, que é uma espécie de banda sonora dos meus livros.
Já que falamos em desordens obsessivas, continuas a ter as mesmas obsessões, paranóias e minudências?
Tenho uma razoável obsessão com a medição das obras. Isto é, enquanto estou a escrever gosto de manter uma média diária de número de palavras (para As Três Vidas, por exemplo, escrevi duas mil por dia). Não sei de onde é que isto vem. Claro que não «contabilizo» a coisa, mas tento manter um registo idêntico todos os dias porque o tempo é escasso – tenho de «tirar férias» do mundo real para escrever – e é preciso chegar ao final. É uma corrida a contra-relógio, na verdade. Outras paranóias: deixar um parágrafo em aberto para o dia seguinte; procurar não ler autores de que gosto muito durante essas alturas, ou tendo a começar a imitá-los; deitar-me cedo; tentar não beber. Essas coisas. Ser como um desportista na aldeia olímpica, só que sem as medalhas, a consagração e o hino nacional.
Quais são as tuas mais recentes embirrações?
Cada vez menos aprecio os escritores em «série», do género Dan Brown e derivados. Dá-me a sensação de que estão sempre a escrever o mesmo livro, numa linha contínua que não tem altos nem baixos. Embora eu pertença a uma linha muito anglo-saxónica do romance, confesso que não tenho muita paciência para os puros contadores de histórias, funcionais e mecânicos. Tem de haver alguma coisa de muito íntima, um ponto de vista, uma dor ou uma perda, no momento de escrever um romance. É para isso que serve toda a construção narrativa, tem de existir uma metáfora, nunca forçada, ou então é mera ginástica textual. Para isso existem os dicionários e as enciclopédias. Gosto de autores que se entregaram, que renderam a sua vida à obra, cuja existência passa por ali, passa pelo texto, ao ponto de quase se confundirem com aquilo que escrevem, até para eles próprios. O grande exemplo contemporâneo disto é o Javier Cercas, cuja fronteira obra/vida é quase indiscernível.
Há precisamente um ano, quando lançava As Três Vidas, João Tordo passou pelo sofá da LER e aceitou o desafio de se entrevistar: JoãoTordo por João Tordo.
E.M. Forster, Graham Greene, Truman Capote, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow e Jack Kerouac são os outros autores presentes nestas entrevistas com selecção e tradução do jornalista Carlos Vaz Marques.
"The Paris Review" foi uma revista criada em 1953 por um grupo de jovens intelectuais norte-americanos em Paris, que inventaram a entrevista literária, tal como hoje a conhecemos.
“Os seus autores dificilmente terão tido a percepção de que estavam a fazer nascer uma abordagem nova à literatura e à arte da escrita e de que, por outro lado, se constituiria a partir dali o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar”, escreveu Carlos Vaz Marques no prefácio da obra.
Em “Entrevistas da Paris Review”, encontram-se frases como esta, de William Faulkner (1897-1962): “Se eu não tivesse existido, alguém me teria escrito, a mim, a Hemingway, a Dostoiévski, a todos nós”.
Ernest Hemingway, por sua vez, afirmou, quando entrevistado, que “quanto melhor o escritor, menos ele falará do que escreveu”.
Já Borges declarou: “Quando eu escrevo, escrevo porque algo tem de ser feito. Não me parece que um escritor se deva intrometer demasiado no seu próprio trabalho. Deve deixar o trabalho escrever-se a si próprio”.
Neste volume da Tinta-da-China, com ilustrações de Vera Tavares, foi mantida a ordem pela qual as entrevistas foram publicadas na revista literária trimestral, tendo decorrido 15 anos entre a de E.M. Forster e a de Jack Kerouac.
Segundo Carlos Vaz Marques, “o tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar e que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Forster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
O jornalista lamenta que a nenhum jornalista tenha ocorrido, por exemplo, entrevistar escritores como Mark Twain, Herman Melville ou Walt Whitman.
“Que extraordinários documentos literários possuiríamos hoje se isso tivesse sido possível”, observa.
E sublinha que, embora “sem a 'Paris Review' tivéssemos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges, não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século XX”.

A publicação dos títulos da Minotauro irá ocorrer em três períodos ao longo do ano e, embora circunscrita, de momento, a autores consagrados, é intenção dos responsáveis alargarem a publicação a escritores emergentes da literatura espanhola actual.
São três os títulos que já se encontram disponíveis no mercado nacional. Da autoria de Álvaro Pombo, "Contra-natura" narra a história de Javier Salazar, um editor reputado cuja aposentação tranquila chega ao termo no momento em que conhece, por mero acaso, o jovem Ramón Durán.
"Bingo", de Esther Tusquets, também se debruça sobre o ocaso da existência. O protagonista é um sexagenário que lida mal com o envelhecimento, recusando os habituais paliativos para iludir a passagem dos anos. Quando conhece Rosa, uma dotada jogadora de bingo, a sua vida adquire nova e inesperada vitalidade.
Em "Crematório", Rafael Chirbes descreve a existência do já falecido Matías Bartomeu, um ideólogo que trocou a revolução pela agricultura biológica. Através da perspectiva dos amigos que com ele conviveram ao longo dos anos, ficamos a conhecer as várias facetas da vida de Bartomeu.
Além destes três títulos, há outros tantos com publicação assegurada em breve: "Sem necessidade", de Julian Rodríguez; "O perdão dos pecados", de António Fontana, e "O pai da Branca de Neve", de Belén Gopegui
![[04.jpg]](http://3.bp.blogspot.com/_-DUogofOS5U/SsCLF_Lpc_I/AAAAAAAAEIM/06if70P2RkY/s1600/04.jpg)
No blogue das Quintas de Leitura estão disponíveis as fotos da sessão Livre com José Luís Peixoto, que encheu o Teatro do Campo Alegre no passado dia 24 de Setembro. O escritor leu excertos do seu próximo livro - que se chamará, precisamente, Livro e será publicado em Março. Entretanto, brevemente estarão de novo nas livrarias Uma Casa na Escuridão, Cal e Cemitério de Pianos, todos reeditados com a chancela da Quetzal.
|
João Paulo Borges Coelho
|
||||||||
| |
||||||||
|
Obras publicadas na Caminho
|
||||||||
"... Amalie pendura o mapa da Roménia na parede.
«Todos os meninos moram em blocos de apartamentos ou em casas», diz Amalie. «Cada casa tem quartos. Todas as casas juntas formam uma grande casa. Esta grande casa é a nossa terra. A nossa pátria.»
Amalie aponta para o mapa. «Esta é a nossa pátria», diz ela. Com a ponta do dedo procura os pontos negros no mapa. «Isto são as cidades da nossa pátria», diz Amalie. «As cidades são os quartos desta grande casa, da nossa terra. Nas nossas casas moram o nosso pai e a nossa mãe. São os nossos pais. Cada criança tem os seus pais. Tal como o nosso pai na casa em que nós vivemos é o pai, assim o camarada Nicolau Ceausescu é o pai da nossa terra. E tal como a nossa mãe na casa em que nós vivemos é a nossa mãe, assim a camarada Elena Ceausescu é a mãe da nossa terra. O camarada Nicolau Ceausescu é a mãe de todas as crianças. Todas as crianças amam o camarada porque eles são os seus pais.»
A mulher da limpeza põe um cesto de papéis vazio junto da porta. «A nossa pátria chama-se República Socialista da Roménia», diz Amalie. «O Camarada Ceausescu é o Secretário-Geral do nosso país, a República Socialista da Roménia.»..."
Excerto retirado do livro de Herta Muller «O homem é um grande faisão sobre a terra», Edições Cotovia, Lisboa. 1993.
A segunda edição do Festival Internacional de Cinema de Paraty, que começa nesta sexta-feira, 9 de outubro, exibirá cerca de 40 títulos, entre longas e curtas, filmes nacionais e internacionais. As sessões - todas gratuitas - serão realizadas no Cine Teatro Paraty (uma sala desativada há 40 anos e que receberá o Festival pela segunda vez), no centro histórico da cidade, e no Cine Tela Brasil (um cinema itinerante, com 225 lugares e projeção em 35mm).
BRAVO! acompanha a exibição de filmes ainda inéditos no circuito comercial, como os novos longas de Karim Ainouz e Marcelo Gomes, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, Insolação, de Marco Ricca, com Cabeça a Prêmio e de Paulo Machline, Natimorto, baseado no livro de Lourenço Mutarelli.
Além de filmes inéditos, serão exibidos com o propósito da formação de público filmes infantis como A Era do Gelo 2, Kiriku e a Feiticeira, Wall-e, filmes campeões de bilheteria, como E SE Eu Fosse Você 2, Mulher Invisível e Divã, uma mostra dedicada à França e uma sessão de filmes Maldita, com filmes de suspense e terror no sábado e domingo à meia-noite.
A propósito do crescente número de documentários produzidos no país, o festival traz o debate a respeito das novas propostas de linguagem para esse gênero e seus limites com a ficção, em uma mesa com a participação Fabio Barreto e Wagner Morales (diretor de Preto Contra Branco, realizado através do DOCTV e que acaba de ser finalizado, em 35mm). O encontro, "Navegar é Preciso, Filmar Também", será realizado no sábado, em um barco, às 12h30.
Também haverá a exibição de títulos como O Milagre de Santa Luzia (Sergio Roizenblit), Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei (Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal), Alô Alô Terezinha (Nelson Hoineff) e Herbert de Perto (Roberto Berliner e Pedro Bronz)
Por Heitor Ferraz
Prêmio Nobel de Literatura de 2008, o francês Jean-Marie Le Clézio possui um estilo límpido que lembra o do memorialista, aquele que recupera em detalhes passagens significativas do passado para recolocá-las no presente em sua plena pulsão. Em seu novo romance, Refrão da Fome, o escritor parece tocar, com a delicadeza dessa escrita, não apenas na ferida aberta pela Segunda Guerra Mundial, mas também nas feridas do presente.
Publicada no ano passado na França, a narrativa conta a história da jovem Ethel, entre os 12 e 20 anos de idade. A infância e a adolescência da protagonista coincidem com o período que vai dos anos 30 até o fim da guerra, em 1945. Filha de uma família abastada que vive na parte nobre de Paris, ela passa sua infância ao lado do tio-avô, Samuel Soliman. A ligação lírica entre os dois, com passeios e cumplicidades, ajuda a construir o caráter da menina. Na trama poética armada por Le Clézio, o leitor acompanha a formação de Ethel: sua amizade e paixão por Xénia, uma imigrante russa, de família nobre mas empobrecida; seu amor pelo jovem inglês Laurent; as andanças com o tio; e, momento crucial, a derrocada econômica da família, o início da guerra e a invasão da França pelos alemães. Tudo ocorre, aparentemente, no ritmo tranquilo do relato de uma vida, suas atribulações e desejos curiosos como o sonho do tio-avô que durante a Exposição Colonial de 1931 comprara todo um pavilhão indiano para reconstruí-lo um dia no seu quintal.
Mas Le Clézio parece montar mesmo um grande quebra-cabeça, pois todos os elementos de certa maneira rememorados formam um conjunto intrincado no qual a burguesia francesa alienada e infantilizada, a invasão alemã, a história das ex-colônias francesas e a atual imigração árabe, que aparece apenas no final, acabam levando a uma leitura política do presente. Como se por trás da história de uma menina que cresce e consegue salvar os pais falidos e inaptos existissem camadas que afloram hoje, com sua carga embutida de violência.
O título parece não deixar dúvidas ao referir-se a um "refrão" (ritournelle, em francês), que tem como referência o Bolero, do compositor Maurice Ravel, citado no final do livro. Como o narrador diz, referindo-se à orgia de timbres que, na partitura, desemboca num impressionante crescendo: "O Bolero não é uma peça musical como as outras. É uma profecia. Conta a história de uma cólera, uma fome. Quando acaba em violência, o silêncio que se segue é terrível para os sobreviventes aturdidos". Assim, Le Clézio faz o balanço de um mundo que afundou e aponta para um outro, o nosso, que nasceu de suas ruínas e que muitas vezes parece fadado ao naufrágio.
------
Heitor Ferraz é jornalista, editor e poeta, autor de Um a Menos, entre outros.
Por Cristiane Costa
Sete anos separam o soturno Diário do Farol do solar O Albatroz Azul. Entre o último romance, publicado em 2002, e o mais novo, que chega às livrarias neste mês, João Ubaldo Ribeiro viu a vida lhe sorrir. Nesse período, o escritor de 68 anos ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, teve seu passe disputado por várias editoras num vultoso leilão, saiu de uma profunda depressão e venceu o alcoolismo. Hoje, esbanja vitalidade e já fala até em parar de fumar. O humor que perpassa as páginas de O Albatroz Azul, uma volta ao universo e aos tipos inesquecíveis de sua lendária Itaparica, reflete esse momento. O escritor está de bem com a vida. O Albatroz Azul é João Ubaldo em estado puro. Tem aquele barroquismo sem gorduras que é característico de sua prosa. Tanto a escrita quanto a falada (porque, como bom baiano, o homem conta até piada desse jeito mesmo, com ponto e vírgula e letra maiúscula). Traz aqueles personagens tão de carne e osso que parecem velhos conhecidos do leitor, como Tertuliano Jaburu e Ia Cencinha. Inventa diálogos divertidíssimos, recriando a fala do povo e salpicando aqui e ali ditados como "De burra que faz him e mulher que sabe latim, livra-te tu e a mim" ou "Marido velho com mulher nova, corno ou cova". É um livro deliciosamente despretensioso em sua celebração da sabedoria popular. "A única pretensão deste livro é mostrar um universo, com seus valores, sua visão de mundo, que muita gente não conhece. Ou, se conhece, não participa dele", diz o autor. Como, por exemplo, a importância que as pessoas mais simples dão à escolha do nome, que vai acompanhar a criança a vida inteira. Numerosas questões filosóficas, filológicas e até hagiográficas vão levar Tertuliano a nomear seu neto, antes mesmo de nascer, de Raymundo Penaforte, com direito a ipsilone e tudo, como faz questão de frisar. É como se, invocando a proteção do santo certo, seu destino estivesse marcado em cada letra. A sonoridade dos nomes e apelidos é uma das características da ilha de Itaparica transpostas para a ficção de João Ubaldo. O escritor retorna todos os anos, em janeiro, à casa onde nasceu. Afinal, a data de seu aniversário, dia 23, já faz parte do calendário turístico local. "Se pudesse, ficava lá pra sempre", suspira. Mas tem os compromissos, os filhos, o trabalho. "O que eu faço lá? Nada!" É em Itaparica onde estão os amigos de infância que, mesmo depois de o escritor ter aparecido no programa de TV Fantástico como ganhador do prêmio Camões, em 2008, ainda têm dúvidas sobre sua verdadeira importância para a literatura nacional. "Eu acho que não deixam de ter sua razão, sob certa perspectiva. Um amigo meu lá até me disse: 'Hoje eu posso dizer para você sem medo de errar: entre os escritores vivos da ilha, você é dos maiores'. Avaliei os outros e pensei: por que não? Eles são muito importantes na perspectiva da ilha. Então, para que me meter a besta?" A verdade é que ter aparecido em cadeia nacional contribuiu grandemente para calar os céticos e solidificar a reputação de João Ubaldo em Itaparica. "O chato é que agora todo mundo acha que eu estou milionário. As pessoas confundem US$ 100 mil com US$ 100 milhões. Se eu aparecer a apenas alguns quarteirões daqui, na Delfim Moreira [rua mais valorizada do Leblon, no Rio de Janeiro], com US$ 100 mil, o porteiro vai dizer: 'Boa tarde, a entrada de serviço é por ali'. Isso não compra a dependência de empregada de um apartamento daqueles de frente para o mar", brinca. Se o prêmio de US$ 100 mil não chegou a fazer cócegas e foi devidamente guardado na poupança que um dia garantirá a aposentadoria do escritor, o mesmo não se pode dizer dos valores pagos pela editora Objetiva para ficar com o passe de João Ubaldo depois que ele deixou a Nova Fronteira, que publicou seus livros por quase três décadas O Albatroz Azul, aliás, é o último deles, uma vez que o romance já estava contratado quando a transferência aconteceu. Ninguém sabe ao certo o valor real acertado, mas o agente americano Thomas Colchie, que até então só representava João Ubaldo no exterior, começou o leilão pedindo US$ 1 milhão. Milionário ou não, o escritor continua com sua vida de sempre, na mesma pequenina cobertura no Leblon que foi de Caetano Veloso no início da carreira. Ele é dono de um Ford Fiesta 1.0 que não dirige, acorda às 5h da madrugada para escrever, trabalha até o meio-dia e lê e pesquisa na internet o resto do tempo. Apenas a tela do computador, do tamanho de uma enorme televisão de plasma, revela que o autor deve estar muito bem de vida. É seu mais novo brinquedo. ALCÓOLICOS ANÔNIMOS E DEUS João ainda pode ser visto nos botecos do Leblon, jogando conversa fora com os amigos no meio da tarde. Mas que seus fãs não se enganem com o conteúdo amarelo do copo cheio de gelo. É guaraná. Ele parou completamente de beber há sete anos. "Cheguei a ir aos Alcoólicos Anônimos, mas parei de beber por conta própria. Foi uma experiência muito pessoal, que eu atribuo a minha fé. Não parece, mas sou um homem de fé. Não sou católico, mas sou cristão e leitor dos evangelhos." Nos AA, João Ubaldo aprendeu que, quando alguém deixa a bebida, deve evitar a companhia do pessoal "da ativa". Fez exatamente o contrário. E deu certo. "Na semana em que parei de beber e eu bebia direitinho , fui para um boteco, pensando em exercer minha força de vontade. Mas absolutamente não fiz força nenhuma. Continuo comparecendo quase religiosamente ao Tio Sam, o boteco onde tenho mesa cativa e encontro minha turma. E não toco em álcool", garante. Só falta parar de fumar. "Estou pensando mesmo. Começo a me sentir sem fôlego." O inferno ficou para trás, com o ex-padre de Diário do Farol. É curioso reparar que aquele personagem destrutivo, verdadeira personificação do mal, vivia isolado numa ilha inóspita, que em nada se assemelha à alegre e populosa Itaparica, onde João Ubaldo ambientou outros livros e agora O Albatroz Azul. Embora o animal do título só apareça no final, passa uma ideia de transcendência. "Dizem que é lenda, mas tem gente do mar que garante que o albatroz dorme lá em cima, no céu. Vive no ar, se aproveitando das correntes. É uma ave majestosa que se confunde com o próprio céu", diz o autor. O que ela significa? A epígrafe do livro, a frase "Ninguém sabe", dá uma pista. João diz que é bem possível que seu romance tenha parentesco com o Livro de Jó, do Velho Testamento. "Isso deve soar como uma pretensão inaudita, o que de certa forma seria, se não fosse o fato de eu estar dizendo isso com humildade. Quando Deus fala a Jó, não pede desculpas por ter maltratado tanto aquele filho fiel. Ele apenas aparece e diz: 'O que é que você sabe?'. E devolve tudo que lhe foi tirado, sem mais conversa. Parece-me uma pretensão enorme querer entender algo que está fora do tempo. Como dizia Padre Vieira, para Deus todos os tempos são presente." A metafísica é uma questão que inflama o escritor, especialmente a pretensão da ciência em refutar o divino. "Do mesmo modo que ninguém pode provar a existência de Deus, ninguém pode desprovar. O método científico não é a única maneira de se abordar a realidade. Ele recusa a chancela de verdade a tudo o que não pode ser submetido à verificação científica. Ou seja, converte a própria incapacidade numa vantagem. Já que não nos é dado conhecer, essa coisa não existe." Nos sete anos em que ficou sem publicar um romance, João Ubaldo chegou a esboçar outros dois projetos. O primeiro seria um livro intitulado simplesmente Si, sobre a consciência de si. "Comecei a fazer, mas tive problemas de computador terríveis, parecia maldição. Aí perdi a embocadura. Então comecei a escrever outro livro, que parecia ser este. Mas estava me saindo descomunal, uma Montanha Mágica qualquer. Eu ia fazer um livrão, mas ele se recusava a sair. Aí pensei cá comigo: 'Ninguém lê livrão'. Deixa sair pequenininho mesmo." O jogo entre pretensão, representada pela arrogância intelectual do padre de Diário do Farol, e a despretensão da sabedoria popular dos personagens de O Albatroz Azul é a lente com que João Ubaldo vê a própria vida. "Toda vez em que eu estou me achando, aparece um jeito de eu parar de me achar. Se eu estou me achando extrafamoso, não preciso nem ir para Itaparica. Basta entrar numa livraria. Frequentemente eu peço um livro que não tem na hora e o camarada pergunta meu nome e pega meu telefone. 'Seu João Paulo, quando chegar aviso.' Aí vejo que não sou tão famoso assim."
------
Cristiane Costa é jornalista e doutora em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
Roberto Saviano
"A Máfia não tem medo de mim, tem medo dos meus leitores. Se eu tivesse vendido 5000 exemplares não havia problema nenhum."
"A geografia do Porto, as ruas e a arquitectura fazem-me sentir na minha casa"
"Estás vivo mas tens uma aura de morte à tua volta"
"O isolamento faz-me sofrer muito"
"A comunidade europeia está cheia de mafiosos"
"A palavra mete medo aos políticos, ao poder"
"O importante é espalhar um boato. É suficiente para destruir uma pessoa"
"Um país tão católico como Itália mata 2 padres..."
"Hoje existe dois mercados de referência no mundo: o petróleo e a cocaína"
"O dinheiro do tráfico vai influenciar a política financeira dos bancos"
"A África está a ser colonizada pelos traficantes; está na mão dos traficantes"
HERTA MULLER nasceu em 1953 em Nitzkydorf, Roménia.
Pertence a uma minoria de origem alemâ. Entre 1973 e 1976 faz estudos germanísticos e romanísticos na Universidade de Timisoara. Em 1987 deixa a Roménia, passando a residir em Berlim.
O homem é um grande faisão sobre a terra é o retrato de uma comunidade que vive entre o embrutecimento, a resignação e uma esperança débil
O homem é um grande faisão sobre a terra (Der Mensch ist ein grober Fasan auf der Welt) foi publicado pela Rotbuch Verlag, Berlim, 1986 e por Edições Cotovia, Lda, Lisboa, em 1993. Tradução de Maria Antonieta C. Mendonça.
O título da obra reporta-se ao provérbio romeno " O homen é um grande faisão sobre a terra", o qual pretende estabelecer a associação entre o voo desajeitado do faisão e os defeitos e a acção desatrosa do homem sobre o mundo que o rodeia.

No momento em que escrevo estas palavras, a minha irmã mais velha está internada num hospital na Eslováquia. A minha irmã chama-se Alzira Maria.
A primeira Alzira foi a minha madrinha: madrinha da minha mãe, das minhas irmãs, de mim, madrinha de toda a gente. Sempre velha, de muletas, afastava-se pouco da porta de casa. As muletas oblíquas ao chão de paralelos; ao andar, ela inclinava-se sobre as muletas e, depois do entardecer, a sua imagem era uma sombra confusa, pernas e braços. Hoje, quando encontro uma das suas poucas fotografias e lhe fixo o olhar, concluo que sei pouco sobre ela. Recordar faz com que desbotem as cores daquilo que se recorda, recordo a sua voz. A minha madrinha passou a lua de mel a banhos, Estoril, Cascais, tirou um retrato na Boca do Inferno. Ah, as ilusões de uma jovem noiva nos anos trinta. Há chávenas que a minha madrinha guardou desde esse tempo. Passaram décadas expostas na vitrina de um armário da sala de jantar, varrida, arrumada, onde ninguém podia ir porque era no primeiro andar e tinham medo que o chão/tecto caísse. A minha madrinha criou a minha mãe. Morreu no dia 16 de Outubro de 1993.
A segunda Alzira é a minha mãe. A minha mãe é uma espécie de sol, ou de morte, é o horizonte, esse é o tamanho da sua realidade. Eu não sou capaz de descrever a minha mãe em poucas linhas. Outro poderia fazê-lo, mas duvido que o fizesse bem. Quando eu era pequeno, houve uma vez em que me perdi dela. De repente, deixei de vê-la e estava numa cidade que não conhecia. Lembro-me de mulheres a baixarem-se para falar comigo, tinha quatro ou cinco anos, e lembro-me de acreditar que poderia não voltar a vê-la; lembro-me de ter essa idade, estar perdido e sentir essa angústia negra. A minha mãe é o contrário disso. A minha mãe existe em tudo, é infinita.
A terceira Alzira é a minha irmã mais velha que, no momento em que escrevo estas palavras, está internada num hospital na Eslováquia.
Alzira é um nome tão bonito. É de origem árabe. Pelo menos, parece. É um nome cheio de vogais, bom para ser cantado pelo Nat King Cole. Sou da opinião de que, em Portugal, há um deficit incompreensível de Alziras. Poucos pretextos são tão bons para usar um “z”.
Todos os anos, na segunda-feira de Páscoa, fazíamos um piquenique na courela dos meus padrinhos, as Alziras juntavam-se. É claro que, na altura, não as víamos assim, as Alziras; na altura, eram a minha madrinha, a minha mãe e a minha irmã. A minha mãe tinha mantas dobradas e coisas simples que precisavam de ser carregadas na carrinha do meu pai. O caminho até à courela não era longo mas era uma viagem. Chegávamos, ficávamos sempre debaixo da mesma árvore, e o meu pai voltava atrás para ir buscar os meus padrinhos. Talheres, caixas de plástico com comida. Não sei que tipo de conversas tinham a minha mãe e a minha madrinha. Talvez a minha irmã tentasse sintonizar alguma estação no rádio do carro. Talvez eu me aproximasse das colmeias, lá em cima, com um pau/espada nas mãos. Tanto faz. Nessas segundas-feiras, as Alziras brilhavam. Sem o saberem, cada uma delas tinha o nome de um anjo.
Pois é, a minha irmã está internada num hospital na Eslováquia. Foi acompanhar a filha, minha sobrinha, a um encontro internacional de dança, sentiu dores na barriga, ambulância, urgências, foi operada no dia seguinte a uma hérnia umbilical. Está a recuperar. Correu tudo bem. Recebeu sangue por causa de uma anemia. Agora, a preocupação é a viagem de volta. Tento imaginar aquela rapariga dos piqueniques da segunda-feira de Páscoa num hospital na Eslováquia, ecos de conversas em eslovaco, talvez a chegada de alguém com um comprimido ou um tabuleiro. E a dor, como um cenário atrás do cenário. Talvez nesse quarto exista um relógio, o ponteiro dos segundos. A minha irmã Alzira Maria. Há muitas coisas que vou perguntar-lhe quando regressar, quero que me conte pormenores: o silêncio, a maneira como as enfermeiras eslovacas pronunciam Alzira.
(PS: este texto foi escrito já há alguns meses. Agora, felizmente, a minha irmã está bem e em casa dela.)

Os escritores portugueses António Lobo Antunes (Ontem não te vi em Babilónia), Gonçalo M. Tavares (Aprender a Rezar na Era da Técnica), José Luís Peixoto (Cemitério de Pianos) e Inês Pedrosa (A Eternidade e o Desejo) encontram-se entre os 10 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, cuja lista foi ontem anunciada. Desta lista, serão eleitas as três obras vencedoras da 7ª edição deste prémio, a anunciar na noite de 10 de Novembro, em São Paulo.
O Prémio Portugal Telecom de Literatura distingue os três melhores livros originalmente escritos em língua portuguesa publicados no Brasil, e contempla romance, conto, poesia, crónica, dramaturgia, biografia ou autobiografia.
O primeiro classificado recebe 100 mil reais (37,8 mil euros), o segundo 35 mil reais (13,2 mil euros) e o terceiro 15 mil reais (5,6 mil euros).
Os seis autores brasileiros seleccionados são João Gilberto Noll, Nuno Ramos, Lourenço Mutarelli, Eucanãa Ferraz, Silviano Santiago e Maria Esther Maciel. Na edição de 2007, o premiado foi Gonçalo M. Tavares, pelo seu romance Jerusalém.

Bolaño, Bolaño, Bolaño: meu filho da puta, meu cabrão, meu génio

(Photo : A la table des Goncourt © Olivier Dion)
Gallimard et sa filiale Denoël placent six titres parmi les quatorze sélectionnés pour le prix qui sera décerné le 2 novembre.
La première sélection du prix, rendue publique mardi 15 septembre par l’académie Goncourt, compte quatorze titres, dont cinq portent la marque Gallimard et un celle de sa filiale Denoël.
Minuit est représenté par deux titres et Le Seuil, sa filiale L’Olivier, Grasset, Albin Michel, Stock et Lattès par un seul.
Déjà sélectionné par le Renaudot et le Médicis, David Foenkinos fait, avec sa sélection par le Goncourt, un sans-faute dans la première phase de la course aux prix devant Véronique Ovaldé, également sur la liste du Renaudot, Justine Lévy et Laurent Mauvignier, remarqués par le Médicis.
Deux autres sélections suivront les 6 et 27 octobre, en vue de la proclamation du prix le 2 novembre.
Les quatorze titres sélectionnés
• Edem Awumey, Les pieds sales (Seuil)
• Sorj Chalandon, La légende de nos pères (Grasset)
• Daniel Cordier, Alias Caracalla (Gallimard)
• David Foenkinos, La délicatesse (Gallimard)
• Eric Fottorino, L'homme qui m'aimait tout bas (Gallimard)
• Jean-Michel Guenassia, Le club des incorrigibles optimistes (Albin Michel)
• Yannick Haenel, Jan Karsky (Gallimard)
• Justine Lévy, Mauvaise fille (Stock)
• Laurent Mauvignier, Des hommes (Minuit)
• Serge Mestre, La lumière et l'oubli (Denoël)
• Marie NDiaye, Trois femmes puissantes (Gallimard)
• Véronique Ovaldé, Ce que je sais de Vera Candida (L'Olivier)
• Jean-Philippe Toussaint, La vérité sur Marie (Minuit)
• Delphine de Vigan, Les heures souterraines (JC Lattès)
"... Vivemos imersos no discurso como os peixes na água. Os sistemas jurídicos são feitos de discurso. A diplomacia é feita de discurso. E num mundo onde a literacia é cada vez maior e os media de comunicação verbal se multiplicam - rádio, televisão, internet, publicidade, marketing, a par com livros, revistas e jornais - o discurso tem vindo a dominar cada vez mais as nossas vidas."
In "A vida em surdina" de David Lodge
As rotas dos caçadores de votos.
Exposição de Escultura "No Jardim das Delícias" de Eduarda Coimbra e Telmo Mota na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, de 18 de Setembro até 1 de Novembro.



ROBERTO SAVIANO EM SANTA MARIA DA FEIRA
Simpósio em Santa Maria da Feira subordinado ao tema "Máfias e Mercado Global" no dia 19 de Setembro de 2009 na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, com início às 15 horas.
Este simpósio tem como conferencistas, além do Roberto Saviano, Mário Mendes, Secretário-Geral do Sistema de Segurança Interna, e como moderador Carlos Magno.
Dia 19 de Setembro, na Biblioteca Municipal
Autor do livro “Gomorra” no Simpósio Roberto Saviano vem falar de “Máfias e mercado global” Roberto Saviano, jornalista infiltrado no império económico da máfia napolitana, autor do livro “Gomorra”, vai estar no auditório da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira no próximo sábado, dia 19 de Setembro, às 15h00, para falar de “Máfias e mercado global”. A par do jornalista e escritor italiano, que vive desde há alguns anos sob protecção policial permanente, vai estar Mário Mendes, secretário-geral do Sistema de Segurança Interna, que desempenha um papel institucional de primeiro plano na luta contra o crime organizado. O encontro é moderado pelo jornalista e comentador Carlos Magno. Desde a primeira edição, realizada no ano 2000, que o Simpósio de Santa Maria da Feira debate temas ligados à actualidade internacional. Nesta oitava edição, será abordada a problemática da proliferação de fenómenos criminais de tipo mafioso e o papel dos processos de globalização no favorecimento e expansão de tais fenómenos. Do tráfico de drogas às “novas máfias” e ao “crime transnacional”, passando pela crise da legalidade internacional, com a comparação entre guerras e terrorismos, no mundo contemporâneo cruzam-se problemas que, frequentemente, são encarados como estereótipos enganosos ou com paradigmas parciais e inadequados. Para que possa participar neste simpósio, deverá proceder à sua inscrição de acordo com as indicações dadas na ficha que se anexa. Por questões de segurança, e dado que haverá controlo de acesso, os participantes do Simpósio terão de apresentar o Bilhete de Identidade/Cartão de Cidadão e deverão comparecer na Biblioteca até às 14h00, para que se proceda à respectiva identificação.

La Musicienne (A Musicista), tela de 1978. As figuras flutuantes são comuns na arte popular russa
Revista BRAVO! | Agosto/2009
Por Gisele Kato
Um episódio perdido na trajetória do russo Marc Chagall (1887-1985) é a chave para a entrada em seu universo de noivas flutuantes e bichos equilibrados em telhados. Aconteceu quando o pintor era comissário das artes em sua cidade natal, Vitebsk. Empolgado com a chance de levar à nova Rússia comunista os ideais das vanguardas europeias, o artista inaugurou uma escola em 1918 e chamou o também russo Kazimir Malevich para integrar o corpo docente. Em pouco tempo, o colega seduziu os alunos com suas figuras geométricas simplificadas ao máximo, pedras de toque da escola conhecida como suprematismo. O famoso quadrado negro sobre o fundo branco de Malevich foi interpretado pelos jovens revolucionários como um caminho rápido para a transformação visual que tanto perseguiam. Diante da força e simplicidade do suprematismo, a popularidade de Chagall, com sua linguagem de excessos, perdeu força dentro da luta bolchevique. Em 1920, bastante magoado, ele abandonou o cargo em Vitebsk, deixando espaço para Malevich, inventor de uma proposta estética praticamente oposta à sua. Chagall seguiu para Moscou, onde começou logo a produzir sete grandes painéis para o Teatro Yiddish. Em um dos trabalhos, pintou um quadrado negro, em uma referência clara ao movimento preconizado pelo recente rival. Ver a homenagem como um gesto incoerente do artista é, no entanto, um equívoco. A citação, na verdade, resume o espírito de toda a sua obra.
Com o painel A Música, Chagall dizia que estava atento às inovações artísticas da época, mas que não iria endossá-las por completo. Durante os mais de 60 anos de carreira, o pintor flertou com muitos grupos modernos, observou com atenção o que surgiu no período, mastigou as ideias lançadas e devolveu tudo na forma de telas, gravuras e esculturas absolutamente originais. Por isso, é tão fácil reconhecer uma criação sua. E, por isso, seu legado provou-se tão singular. Ao mesmo tempo em que o artista se manteve antenado com as correntes artísticas de sua época, desenvolveu um estilo pessoal, quase impossível de ser seguido. Como uma referência a Chagall sempre corre o risco de se tornar uma imitação barata, as gerações seguintes o admiram, mas não são diretamente influenciadas por ele — o que, de modo algum, tira seu lugar entre os protagonistas mais geniais da arte do século 20. Esse percurso de certa forma "alternativo" no rígido mundo das vanguardas modernas fica evidente na mostra O Mundo Mágico de Marc Chagall — O Sonho e a Vida, que a Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, recebe neste mês — e que, em outubro, segue para o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Com 275 gravuras, duas esculturas e 26 pinturas, todas inéditas no Brasil, esta é a maior exposição do artista já vista no país desde a sala especial na 4ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1957. O conjunto, vindo de instituições russas e suíças, além de coleções particulares, convida o público a se entregar a uma atmosfera única, bela no sentido mais genuíno da palavra. E encantadora como só a imagem de uma cabra tocando violino ou um peixe voador podem ser. "Chagall é um caso curioso porque é um artista de expressão extraordinária, mas que não deixa escola. Sua influência na arte é muito pequena. E, mesmo assim, ele tem uma presença definitiva na produção moderna", diz o curador Fábio Magalhães, que, para a individual, garimpou obras do pintor russo ao longo de dois anos. Embora concorde que não exista um herdeiro assumido de Chagall, o curador optou por sugerir ainda aproximações com alguns artistas brasileiros, como Ismael Nery e Cícero Dias. "Mas o próprio Cícero negou a vida inteira ter qualquer relação com Chagall", ressalta. Para Magalhães, o mestre russo construiu um repertório com tamanha personalidade por contar, a seu favor, com uma circunstância histórica: "Ele teve a sorte de viver em um momento incrível e soube ser sensível a esse tempo". Chagall, assim, teria sido uma espécie de mastigador de vanguardas.
EUROPA E RÚSSIA
Chagall pisou na França pela primeira vez em 1911 e, entre idas e vindas a Paris, conviveu com uma avalanche de pensamentos que interfeririam nos sonhos e ilusões de muitas décadas posteriores. Logo quando chegou à capital francesa, ele foi morar no lendário prédio La Ruche, no bairro de Montparnasse. Com aluguel barato, o endereço funcionava como albergue para jovens artistas ainda em busca de reconhecimento. Nomes como os dos poetas Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars e dos pintores Fernand Léger, Amedeo Modigliani e Constantin Brancusi estavam entre seus vizinhos. O La Ruche somava-se, na época, ao Bateau-Lavoir, edifício no bairro operário de Montmartre, onde ficava o ateliê de Pablo Picasso, para fazer de Paris o centro artístico do mundo. Lá, Chagall aprendeu a questionar as regras estéticas estabelecidas, experimentou as premissas do cubismo, do fauvismo e do expressionismo e intensificou sua relação com a poesia e com a literatura. Foi moldando, assim, uma plástica própria, misto de tudo o que borbulhava ao redor.
Além do privilégio de assistir e se envolver com o surgimento dos novos movimentos da arte, Chagall se beneficiou de um período de interesse voltado para as culturas russa e judaica. Como mais uma das coincidências felizes de sua vida, isso ocorreu logo após a Primeira Guerra Mundial, quando ele estava de volta à Rússia. Nascido em uma comunidade judia de Vitebsk, o artista soube tirar vantagem de sua origem e adaptar as lições da tradição às causas da modernidade. E isso se deu em várias camadas: "Ele é o artista oficial do judaísmo até hoje, mas suas criações englobam também noções cristãs", diz Magalhães. Chagall pairou acima das tendências sem, no entanto, ignorar nenhuma delas. As cores vibrantes de suas telas têm muito da arte popular russa. O clima leve e alegre das composições revela plena sintonia com a dissidência hassídica do judaísmo, que pregava o êxtase no encontro com Deus.
VACA NO TELHADO
Se até os anos 20 essa combinação original se concentrava nas telas, depois o artista direcionou seu talento também para as gravuras. O curador da exposição em Belo Horizonte iguala a importância dos dois suportes na carreira de Chagall: "Diria até que nessa época de maturidadea gravura ocupa um papel mais importante do que a pintura em seu trabalho. Ele renova e cresce muito no domínio da técnica", diz Magalhães. Amigo de vários escritores, Chagall sempre fez ilustrações. Após o período na Rússia, na Primeira Guerra, ele voltou a Paris já como talento reconhecido e se dedicou com mais afinco à tarefa, muitas vezes sob encomenda de marchands e galeristas bem-sucedidos, como Paul Cassirer e Ambroise Vollard. Ele apostou primeiro na gravura em metal e, nessa fase inicial, assinou pelo menos três séries importantes: Les Âmes Mortes (As Almas Mortas), baseada na obra de Nicolai Gógol e apresentada em 1923; Fables (Fábulas), feita entre 1926-1927 para as fábulas de La Fontaine; e La Bible (A Bíblia). No último conjunto, executado entre 1931 e 1939, o artista, que costumava criar em guache e transferir para a matriz de metal, começou a sentir dificuldade em obter os mesmos resultados de cor planejados na aquarela. "Por isso, encontramos gravuras em metal coloridas depois à mão por ele", diz Magalhães. Na mostra montada no Brasil, estão os conjuntos completos de La Bible e Les Âmes Mortes, além de exemplares das Fables. Junta-se à seleção a série inteira de litogravuras Daphnis et Chloé, baseada no idílio pastoral da Grécia antiga e finalizada nos anos 60. Com os exemplares tirados de matrizes de pedra, Chagall obteve as tonalidades desejadas.
A preocupação com as cores ganha mais sentido quando se vê sua obra como uma espécie de fábula, visão defendida pelo crítico italiano Giulio Carlo Argan. Para ele, Chagall subverteu planos, quebrou parâmetros espaciais e chegou a uma perspectiva inédita, em que situações a princípio absurdas acabam se passando como cenas naturais. Vacas vermelhas andam em telhados? Diante de um trabalho de Chagall, é possível acreditar que sim. Ante suas telas, fazem-se ainda as pazes com a arte bela, vítima do preconceito da vanguarda segundo o qual essa proposta estética seria menor, mais fácil de produzir. Uma obra de Chagall convida a um comentário na linha "gosto disso e não sei bem explicar por quê". Isso basta. Ele é a prova de que beleza, inovação e talento podem caminhar juntos.
Uma única vida é pouco. O rosto é demasiado rápido a mudar nas fotografias. As crianças imaginam tantas coisas acerca do mundo e, mais tarde, percebem que não conseguiram imaginar aquilo que era mais importante. Ainda crianças e já quase adultos, ainda levados por miragens e, no entanto, com a certeza absoluta de que não acreditam em nada, surpreendem-se com os braços que cresceram no espelho, com os truques que são capazes de fazer de olhos fechados, com os cigarros que começam a arder-lhes na ponta dos dedos e, arrogantes ingénuos, desejam que o tempo passe mais depressa, desejam que os anos passem mais depressa. Depois, a idade não conta. A idade não conta, mas um dia têm trinta anos, têm quarenta anos, um dia têm cinquenta anos. Os números deixam de ser números. Então, esqueceram tantas coisas e, no entanto, têm a certeza absoluta de que sabem tudo. Ridículos. Entretanto, apaixonaram-se e desapaixonaram-se; saltaram por cima de momentos que foram como abismos; existiu a casa; existiram todos os objectos da casa, divididos e arrumados em caixas de papelão; existiu a mágoa como se fosse o mundo inteiro, não era; existiram as pessoas que morreram mesmo ao lado, que pareciam eternas e que, devagar ou num instante, foram esquecidas, fácil; existiram as pessoas que estavam mesmo ao lado e que receberam telefonemas para comunicar-lhes que a mãe tinha morrido num hospital; e repetiram a vida continua, a vida continua; e o verão e o verão e o outono, a primavera, tão bom, e o verão, o outono, e o inverno e o inverno. Um dia, acordam e o passado não é suficiente sequer para lhes encher a palma de uma mão.
E convencem-se de uma mentira diferente todas as manhãs para obrigarem o corpo a fazer cada movimento e, apesar disso, acreditam nessa mentira exactamente como se fosse verdade, excepto às vezes. E estão cansados da mulher que, cansada, os olha ao serão e que, apesar disso, os enternece quando se debruça sobre o lavatório da casa de banho, com toalhas pelos ombros, para pintar o cabelo. Pode então haver um momento em que o mundo pára. A idade pára. É nesse instante que se pode pensar: nunca quis ser aquilo em que me tornei, quis sempre não ser aquilo em que me tornei. Com o mundo completamente parado, com a idade parada, não é difícil parar também e, rodeados de fragmentos: uma existência inteira feita de vidro estilhaçado e espalhado no chão: o mais natural é baixarmo-nos sobre os calcanhares, pousar os cotovelos sobre os joelhos dobrados e, com cuidado, esticar as mãos para, com a ponta dos dedos, se começar a escolher cada fragmento, distinguir o que se deve abandonar do que se deve manter. Desistir não é sempre mau. Há vezes em que não se pode evitar. Todos nos dizem continua, continua, mas é o mundo que desiste, inteiro, à nossa volta.
Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe e se pode e se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. Essa é a conclusão a que se chega logo no fim da adolescência. Quando os números deixam de ser números. Trinta, quarenta, cinquenta anos. As gerações sucedem-se. Os degraus de uma escada rolante que desaparecem lá em cima enquanto subimos, subimos, olhamos para trás e ainda vemos o primeiro degrau, quase como quando tínhamos acabado de chegar e, no entanto, continuamos a subir e vemos já o fim. Os nossos avós mortos, os nossos pais mortos, nós, os nossos filhos, os nossos netos. E, se existir um horizonte, podemos olhá-lo e perceber finalmente que estamos parados no tempo e que o tempo, nesse presente definitivo, está parado dentro de nós.
Eu olho para esse horizonte, arrependo-me e não me arrependo, tento compreender ou lembrar-me daquilo que quero mesmo. Depois, penso em tudo aquilo que posso fazer para que aconteça: os gestos e as palavras. Depois, hoje é um dia mais forte e, de repente, imenso. Depois, penso em tudo aquilo de que terei de desistir para alcançar o que quero: para ser o que desejo ser. Então, não fico triste. Aceito tudo aquilo que nunca fiz e que acredito que nunca terei vida suficiente para fazer. Num dia, avisado ou sem aviso, morrerei. Estas mãos serão nada. Este rosto será nada. Uma única vida é pouco. Aceito essa certeza sem que ninguém me pergunte se estou disposto a aceitá-la. É então que me convenço finalmente que nunca serei campeão de xadrez, nunca registarei uma patente, nunca conduzirei uma Harley Davidson, nunca invadirei um pequeno país, nunca venderei relógios roubados aos transeuntes da rua Augusta, nunca serei protagonista de um filme de Hollywood, nunca escalarei o monte Evarest, nunca farei uma colcha de renda, nunca apresentarei um concurso de televisão, nunca farei uma neurocirurgia, nunca ganharei a lotaria, nunca casarei com uma princesa, nunca ficarei viúvo de uma princesa, nunca me mudarei para Detroit, nunca farei voto de silêncio, nunca tocarei harpa, nunca serei o empregado do mês, nunca descobrirei a cura para o cancro, nunca beijarei os meus próprios lábios, nunca construirei uma catedral, nunca velejarei sozinho à volta do mundo, nunca decorarei uma enciclopédia, nunca despoletarei uma avalanche, nunca apresentarei cálculos que contradigam Einstein, nunca ganharei um óscar, nunca atravessarei o Canal da Mancha a nado, nunca participarei nos jogos olímpicos, nunca esfaquearei alguém, nunca irei à lua, nunca guardarei um rebanho de ovelhas nos Alpes, nunca conhecerei os meus tetranetos, nunca repararei a avaria de um avião, nunca trocarei de pele, nunca bombardearei uma cidade, nunca serei fluente em finlandês, nunca comporei uma sinfonia, nunca viverei numa ilha deserta, nunca compreenderei Hitler, nunca exibirei um quadro no Louvre, nunca assaltarei um banco, nunca darei um salto mortal no trapézio, nunca atravessarei a Europa de bicicleta, nunca lapidarei um diamante, nunca farei patinagem artística, nunca salvarei o mundo. Ainda assim, além de tudo isto, há o universo inteiro.
![]() |
Não é nada que surpreenda no processo orwelliano que vem, a vários títulos, sendo a reforma da Administração Pública: soube-se ontem que, para o Governo e para a Reforma, todos os funcionários públicos são iguais mas uns são mais iguais que outros.
Assim, os funcionários (4 500, contas por baixo) que enxameiam os ministérios por nomeação política estão, ao contrário dos que chegaram aos cargos por mérito demonstrado em concurso público, isentos de avaliação de desempenho e podem progredir na carreira e no salário pelo ominoso método tantas vezes desancado pelo actual Governo: a idade e o tempo de serviço, isto é, basta-lhes deixar passar o tempo e envelhecer atrás das secretárias para serem promovidos. Segundo a Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), o Governo visa, desse modo, "premiar" as responsabilidades de chefia. Daí se concluirá que, sendo a não avaliação um "prémio" aos chefes nomeados politicamente, a avaliação é o "castigo" para os índios sem cartão partidário. E que, excepção atrás de excepção, a famosa reforma da Administração Pública se tornou uma coboiada.
vídeos(189)
poemas(162)
escritores(157)
livros(151)
poetas(86)
crónicas(79)
blogs(56)
leitura de blogs(37)
pintores(37)
blog's(36)
jn(36)
leituras(29)
imaginarius(24)
revista bravo(24)
jazz(21)
cinema(19)
festival internacional de teatro de rua(19)
música clássica(18)
portugal(18)
exposições(17)
país(17)
revistas(17)
a dobra do grito(16)
biblioteca municipal de s.maria da feira(15)
revista ler(14)
fernando pessoa(13)
divagações(12)
entrevista(12)
músicas(12)
pintura(12)
dn(11)
filmes(10)
tabacaria(10)
el país(9)
fotógrafos(9)
mundos(9)
poesia(8)
proibições(8)
escultura(7)
ler(7)
canções(6)
citações(6)
concertos(6)
fotos(6)
governo(6)
realizadores(6)
arquitectos(5)
compositores(5)
hoje há conquilhas amanhã não sabemos(5)
jornal "i"(5)
lisboa(5)
mário crespo(5)
política(5)
romances(5)
12.º festival de cinema luso-brasileiro(4)
artistas(4)
barack obama(4)
biblioteca municipal de s.m. da feira(4)
blogers(4)
cultura(4)
educação(4)
fotografia(4)
fotografias(4)
frases(4)
instalações(4)
ípsilon(4)
Outras Foleirices
A infelicidade ao alcamce de todos
Blogtailors - o blogue da edição
Crónicas de Francisco José Viegas
E as Fadas... também se enganam no caminho?
Extratexto-blog de edição de livros
Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
JL Blogue de Letras Artes e Ideias
Livros à volta do Mundo - Mafalda Avelar
Minhas miniaturas, de Miguel Rego
Mundo Pessoa (Fernando Pessoa)
Reflexões de um Caracol à Beira da Estrada
Comunicação Social
Lugares de culto e cultura
Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
Dicionários
Mapas
Blogómetro
Editoras