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 Ana Margarida de Carvalho com o livro "Não se pode morar nos olhos de um gato" foi o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. A escritora é, também, finalista do Prémio Oceanos, do Brasil, com este livro.

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publicado às 17:48


#2636 - FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos

por Carlos Pereira \foleirices, em 19.10.17

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publicado às 17:39


#2635 - Tu, Lisboa. Você, Lisboa. Senhora Dona Lisboa.

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 Antonio Tabucchi (1943-2012)

 

"No que se refere a formas de tratamento, meu caro Cardoso Pires, a tua bela língua possui um número considerável delas, para desconcerto do turista optimista que aterra no aeroporto de Lisboa munido do tranquilizador | Speak Portuguese, e para pânico do aprendiz cheio de boa vontade que tenha feito o curso linguafone  O Português em 4 Semanas.

 

Um número tão considerável que - assegurava o linguista Luis Lindley Cintra, teu companheiro de oposição àquele Salazar que parecia imortal (e que, em tempo de bocas e canetas amordaçadas, tu imortalizaste deveras, tornando-o o fóssil protagonista da tua "fábula" Dinossauro Excelentíssimo) - não deixa a tua língua ficar atrás de nenhuma outra na Europa, parecendo que, no mundo, só o fica do japonês. Bem pode dizê-lo uma  pessoa como eu que um dia, com a arrogância aprendida no manual de gramática e convencido que o Você (que na minha língua é o Lei) servia para todas as ocasiões, afrontou candidamente a infinita babel hierárquica das formas de tratamento que o português prevê. E aconteceu-lhe ouvir um miúdo da rua que, a jogar à bola no adro de uma igreja de Alfama, reagiu deste modo para com o seu companheiro de jogo demasiado individualista: "Você devia ter-me passado a bola, seu palerma!" * Ou aconteceu-lhe escutar, numa educadíssima discussão conjugal de um casal pequeno-burguês, a seguinte pérola linguística pronunciada pelo marido empertigado: "A menina tenha paciência, mas não estou de acordo consigo". * Ou ainda uma senhora de certo tom que, chamada apenas "Dona Josefa"  e não "Senhora Dona Josefa" como a sua classe exigia, considerou o pobre visitante estrangeiro um verdadeiro troglodita.

 

Isto para não falar de quando nas formas de tratamento, para complicar as coisas, se insinua o sub-reptício diminutivo, de uso muito frequente e com as nuances mais insuspeitáveis que podem significar ternura, familiaridade, confidência, mas também, em certos casos, inferioridade hierárquica e atenções servis para com o superior. Eis uma frase pronunciada durante a não remota guerra de África entre Portugal e as suas "Províncias Ultramarinas" Angola e Moçambique. Contou-ma o antropólogo e escritor José Cutileiro, alto funcionário da União Europeia em Bruxelas, onde certamente é confortado pelo uso de "Vous" da Revolução Francesa e pelo "You" dos pragmáticos albiões. A personagem era neste caso um cabo,e  o destinatário era neste caso um cabo, e o destinatário o oficial da companhia: "Meu capitão, a metralhadorazinha

está prontinha". * E o capitão, graças àqueles diminutivos, percebeu imediatamente que podia contar em absoluto com aquele cabo:  ele estava completamente ao seu serviço.

 

Vá-se lá saber como se safou o snobíssimo Beckford, refugiado na Lusitânia a chular a aristocracia portuguesa da época (à qual, aliás, reservou um desprezo arrogante, como revela o seu diário), que de certeza com o seu insuficiente "You" deve ter cometido gaffes vergonhosas. Dá-me mais prazer em Fielding, a quem aconteceu passar por Lisboa e lá morrer (repousando agora no Cemitério Monumental), e cuja ironia atenta às matizes linguísticas das classes sociais o guiou provavelmente no labirinto das formas de tratamento.

 

Formas de tratamento, Lisboa. Como bem sabes, meu caro José (aliás recorda-lo afectuosamente neste Livro de Bordo), também eu deambulei pela ponte da nau "Lisboa": não só com os pés, mas sobretudo com os passos da fantasia, das impressões, das sensações e das recordações. Aquele meu percurso bastante ilógico, que preferi chamar "uma alucinação", tornou-se um livro intitulado Requiem, que escrevi na tua língua. Não tanto por capricho, mas porque, para falar de Lisboa (e para a viver), o português impôs-se. Talvez isso tenha sido a minha maneira de lhe prestar homenagem. E no entanto não tive a coragem de a interpelar, de encontrar uma das muitas formas de tratamento para dizer: Lisboa. Eu, toscano da minha Toscana marítima, que me apaixonei por ela quando era jovem e ela uma senhora de certa idade, aprendendo com  esforço os sons por vezes roucos e por vezes de sereia que tão bem descreves neste teu livro, não sabia de que maneira devia  dirigir-me a ela. Excelentíssima Senhora Dona Lisboa? Querida Dona Lisboa? Minha Amiga Lisboa? E que pronome  pessoal usar? No embaraço da escolha, desisti.

 

Mas tu tratas Lisboa por tu, e podes bem fazê-lo. É a tua companheira. E como uma abelha visitas o seu cálice. E é por isso que a sua flor continua a florir através dos séculos na literatura portuguesa: porque há escritores e artistas como tu, que não se lembram dela apenas quando está na mó de cima, mas também nos momentos mais obscuros da sua existência, que tu atravessaste com ela.

 

Seco, sonoro como o estalido de uma vela, assim é o estilo deste teu livro de bordo, bem longe daquela escrita colorida que, revestindo de roupa reciclada um certo "realismo mágico" de boa memória, procura o sucesso fácil descrevendo Portugal como um país sul-americano da operetta, graças ao "pitoresco" que tanto agrada no estrangeiro (Portugal is different).

 

E agora fazes levantar âncora à "tua" Lisboa como um veleiro do qual és ao mesmo tempo piloto e escrivão de bordo. Porque é verdade que a tua cidade, "pousada no Tejo como uma cidade que navega", em outros tempos fez-se ao mar e penetrou nos oceanos, à aventura. E contornou Áfricas, visitou Índias e Malacas, descobriu Brasis. Em suma, "por mares nunca dantes navegados", como diz Camões, levou a Europa ao mundo e o mundo à Europa.

 

Mas nesta Lisboa também eu quero embarcar, mesmo que seja com uma tarefa humilde que no entanto me agrada: a de grumete a polir os latões.

 

Se não te importas, vou pois subir contigo para este veleiro que aparentemente está ancorado, mas que todavia viaja, viaja.

 

Texto de Antonio Tabucchi traduzido por M.C.Loureiro. Este texto foi escrito como prefácio às edições italiana e alemã do livro de José Cardoso Pires intitulado Lisboa, Livro de Bordo.

Este texto foi publicado na Revista Tabacaria da Casa Fernando Pessoa, número cinco-Inverno 1997, páginas 3, 4 e 5.

 

 

 

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publicado às 21:54


#2634 - A última entrevista de Vinicius de Moraes

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 

 

O poeta e compositor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista Narceu de Almeida Filho, em 1979

Quando o jornalista Narceu de Almeida Filho bateu este longo papo com Vinicius de Moraes, em sua casa, bem situada numa tranquila rua da Gávea, no Rio de Janeiro, não poderia imaginar que, no momento da edição da entrevista, o Poetinha já não existisse mais. Vinicius estava todo animado, layout novo, de cabelos cortados, barba raspada, vestido elegantemente e sem o seu famoso boné que o acompanhou durante muitos anos. Havia emagrecido vários quilos e abandonado temporariamente as excursões musicais para dedicar-se, novamente, à poesia. Poeta do amor, Vinicius estava ainda em lua-de-mel com sua mulher, Gilda, a quem conheceu na Europa, onde ela estudava. Entre pilhas de livros, discos, um violão, dois conjuntos de som e objetos de arte, ele falava de seu objetivo maior no momento — “fazer feliz essa moça” — e olhava, apaixonadamente, para a mulher sentada ao seu lado. A entrevista foi publicada no livro “As Entrevistas de Ele Ela”, editora Bloch.

 

Vinicius, você andou meio desaparecido, ultimamente, viajando muito. Como você está agora?

 

E agora você entra em férias para trabalhar?

Quais os livros?

Esses dois livros que você vai publicar serão, em termos de poesia, a sua palavra final?

 

Você tem algum método de trabalho permanente, periódico, ou escreve somente quando baixa a inspiração?

 

Você ficou famoso como poeta muito cedo, antes dos 20 anos, não foi?

 

 

 

 

Post retirado da Revista Bula 

 

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publicado às 18:14


#2633 - Leyland Kirby - My Dream Contained A Star

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

 

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publicado às 18:01


#2632 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.10.17

Hoje, 18 de Outubro, é o dia de S. Lucas.

 

________________________________

 

A 18 de Outubro de 1909 nasceu na cidade de Turim Norberto Bobbio (1909-2004).

 Formado em Filosofia e Direito, foi professor universitário e jornalista, filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício. Morreu na cidade de Turim no dia 9 de Janeiro de 2004.

 

 

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publicado às 17:42

 

 

Lincoln in the Bardo wins 2017 Man Booker Prize

Lincoln in the Bardo by George Saunders is named winner of the 2017 Man Booker Prize for Fiction. Lincoln in the Bardo is the first full-length novel from George Saunders, internationally renowned short story writer.

The 58-year-old New York resident, born in Texas, is the second American author to win the prize in its 49-year history. He was in contention for the prize with two British, one British-Pakistani and two American writers.

 Lincoln no Bardo é o primeiro romance de George Saunders. Nestas páginas, o autor revela-nos o seu trabalho mais original, transcendente e comovedor. A acção desenrola-se num cemitério e, durante apenas uma noite, a história é-nos narrada por um coro de vozes, que fazem deste livro uma experiência impar que apenas George Saunders nos conseguiria dar.


Ousado na estrutura, generoso e profundamente interessado nos sentimentos, Lincoln no Bardo é uma prova de que a ficção pode falar sobre as coisas que realmente nos interessam. Saunders inventou uma nova forma narrativa, caledoscópica e teatral, entoada ao som de diferentes vozes, de modo a fazer-nos uma pergunta profunda e intemporal: como podemos viver e amar sabendo que tudo o que amamos tem um fim?

 Informação  relacionada com o livro vencedor retirada da página do editor em Portugal (RELÓGIO D'ÁGUA)

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publicado às 22:42


#2630 - Tragicamente, Portugal

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.10.17

 

Adormeci.

Já não acordei:

Sou apenas um monte de cinzas

que o vento ardente espalha pela

terra onde nasci,

fui feliz,

chorei,

e... morri.

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publicado às 19:01


#2629 - HONRE-SE OS MORTOS, RESPEITE-SE OS SOBREVIVENTES

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.10.17

FOTOGRAFIA DE PAULO NOVAIS PARA A LUSA

 

Os partidos da oposição que se calem porque já foram poder e nada fizeram;

Digamos não às palavras e discursos de circunstância;

Tenhamos pudor e respeitemos e honremos os que morreram;

Castigue-se os culpados. Se houver responsabilidades políticas que estes sejam banidos para sempre do exercício de qualquer cargo político e administrativo;

Não às festinhas de "solidariedade" que servem apenas para aliviar as nossas más consciências;

Não às declarações piedosas onde se verte uma lágrima de crocodilo;

 

Curvemo-nos silenciosamente e respeitosamente e honremos os mortos e todos os sobreviventes e, por causa deles, mudar atitudes, comportamentos, políticas.

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publicado às 18:23


#2628 - Portugal, um país em chamas

por Carlos Pereira \foleirices, em 17.10.17

 A aparente resignação e derrota de um homem que perdeu tudo;  a brutalidade de um drama que se repete todos os anos, que destrói, rouba e mata.

A força  de uma fotografia que mostra, também, a enorme dignidade de um homem perante a desgraça.

 

Fotografia de Adriano Miranda, Jornal Público

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publicado às 14:53


#2627 - Giovanni Battista Pergolesi "Stabat Mater"(1736)

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.17

 

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publicado às 23:11


#2626 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.10.17

16 de Outubro - Dia Mundial da Alimentação.

 

16 de Outubro de 2002 - Inauguração da nova Biblioteca de Alexandria

 

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publicado às 22:28

 

 

Depois de Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio e Alice Vieira é agora a vez de destacar a vida e a obra de Miguel Sousa Tavares.

 
Miguel Sousa Tavares, jornalista português, escritor e autor do romance português mais vendido no século XXI, será o homenageado da próxima edição do Escritaria.
 
A 10.ª edição do Festival Literário vai decorrer de 20 a 22 de outubro, sendo que a partir de dia 16 de outubro decorre uma grande feira do livro com diversas apresentações de livros e uma forte aposta na memória de edições passadas, onde marcaram presença grandes nomes da Literatura Portuguesa contemporânea. Do programa constam, ainda, exposições, teatro de rua, música, momentos de leitura, lançamento de livros e objetos que contaminam uma cidade inteira e que prometem interagir com leitores e transeuntes que vão nesta edição ser confrontados com novas experiências.
 
Miguel Sousa Tavares, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares, exerceu advocacia antes de se dedicar exclusivamente ao jornalismo.
 
Estreou-se na ficção com “Não te deixarei morrer David Crockett" (2001), constituído por um conjunto de contos e textos dispersos. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, “Equador”, que vendeu mais de 400.000 exemplares em Portugal, traduzido em 12 línguas e editado em cerca de 30 países e adaptado para televisão, em Portugal e no Brasil.
 
Ao longo de 20 anos, Miguel Sousa Tavares tem 16 livros editados com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.
 
Dez anos. Dez edições do Escritaria. Dez grandes nomes da literatura, num festival que mantém a tónica em homenagear um escritor de língua portuguesa, vivo, e de transformar, durante vários dias, Penafiel na cidade do Escritor(a) a homenagear.


     Consulte o Programa Completo do Escritaria 2017

 

Post retirado do "site" da Câmara Municipal de Penafiel
 

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publicado às 17:05

António Lobo Antunes
 

Avô

 Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse

Ilustração: Susa Monteiro

O compartimento onde escrevo, um andar muito alto sobre as traseiras da Penitenciária, de onde vejo até falcões que passam de quando em quando com um rato nas unhas, falcões, andorinhas, gaivotas, outros pássaros, traz-me todos os dias à memória o pai do meu pai, que se chamava António Lobo Antunes e esteve uns bons tempos preso aqui. Morreu pouco depois de eu fazer dezoito anos e desde então não houve um só dia sem me lembrar dele, pelo muito amor que continuo a ter-lhe. Foi a pessoa central da minha infância, é uma das duas ou três pessoas essenciais da minha vida. Imagino-o ali de novo, nesta prisão enorme, recordo-me do meu pai contar as visitas que lhe fazia em pequeno, de mão dada com a minha avó grávida, que o trazia aqui a ele e à irmã que nasceu a seguir a ele, recordo-me do meu pai contar o medo que sentia nesta cadeia enorme, cheia de homens e ecos. Às vezes oiço as vozes dos condenados lá em baixo, durante o recreio e, sem dar por isso, não, e, dando por isso, imagino o meu avô entre eles, a sorrir-me aquele sorriso tão bonito que era o seu, um homem grande, muito forte, extraordinariamente belo e terno, que tinha por mim um amor ilimitado, que me fazia tantas festas, até na rua, e eu cheio de vergonha, a pensar

– Vão achar que somos maricas

já parvo, claro, incomodado, aflito. A minha mãe contava que uma vez, de manhã muito cedo, telefonaram ao meu pai para ele dizer que o tio João, o irmão mais velho do meu avô, tinha morrido de repente e pedindo-lhe que fosse comunicar a notícia ao meu avô. De modo que a minha mãe e o meu pai lá foram os dois, a seguir a vestirem-se à pressa, e os meus avós estavam ainda deitados. Olharam os meus pais, surpreendidos, o meu pai disse

– Pai, trago-lhe uma notícia muito triste

e segundo a minha mãe o meu avô tornou-se rígido na cama, de olhos fechados. Após um silêncio o meu pai disse

– Pai, o tio João morreu

ao cabo de outro silêncio comprido, contava a minha mãe, o meu avô abriu os olhos e respondeu

– Pensei que fosse o António

e, comentava ela, o meu avô, que gostava muito do irmão

– Até parecia aliviado.

Pouco antes de morrer, e não morreu velho, disse-me

– Tenho tanta pena de te deixar

e sorriu-me. Depois foi-se embora e perdi-o para sempre. 
A ideia da minha morte, e já estive perto dela em mais de uma ocasião, a ideia da minha morte, quer dizer o que eu penso da minha morte, o que me consola na minha morte é a certeza que vou estar com ele de novo, aquele homem moreno

(eu que sou loiro)

de uma coragem física que me mete a um canto, de uma generosidade sem fim, com uma capacidade de amar que não encontrei em mais ninguém, com um sentido de família único, de uma fidelidade absoluta a si mesmo e aos outros, com quem não me pareço em quase nada, muito melhor do que eu, sociável, alegre, que nunca vi ler um livro, que às vezes me olhava com pena

– Quando tiveres um filho já eu estou a fazer tijolo há que tempos
tão valente, tão generoso, tão bom, salazarista, monárquico, intensamente religioso, sociável, divertido, um patriarca no sentido mais nobre da palavra, com um extraordinário talento para alcunhas

(a um conhecido político, por exemplo, chamava-lhe Pneu Mabor, porque a única coisa que tinha de bom era o ar)

amando a vida, ele que não vivia, comia os dias, com uma enorme capacidade de perdoar, um rei, um príncipe, um líder natural, o meu herói. Aqui de cima, tão alto sobre a Penitenciária, converso com ele, a quem o facto de eu passar muito tempo a escrever e a ler intrigava e inquietava, oiço-o, respondo-lhe, comentamos os falcões. Esteve preso lá em baixo por ter feito parte da revolta monárquica de Monsanto, onde o seu comportamento foi heróico e pagou bem caro por isso. Mas jamais o ouvi queixar-se fosse do que fosse. Preso, condenado, obrigado a sair de Portugal, foi para Tanger, onde uma das minhas tias nasceu e só nos anos trinta lhe permitiram regressar a Portugal, e sei que a estadia no Norte de África não foi fácil, obrigado a trabalhar numa fábrica de conservas

(ele que nascera aristocrata e rico, essas célebres fortunas da borracha do Brasil)

e nunca lhe escutei uma queixa ou lamento. Em Portugal refez a sua vida toda, não voltou ao Brasil a não ser numa ocasião, numa breve visita, com toda a família de lá à sua espera no Rio, pegado como era a esta terra aqui, ele que passou a infância em Belém do Pará e cujas memórias, até nas canções que às vezes me cantava

Mamãe diz ao Papai
que eu quero ir para a guerra
do Paraguai.
Não vês meu filho
que podes morrer
tão pequenino
que irá acontecer?

eram tão brasileiros. É que a sua alma é suficientemente grande para ocupar dois países. Nada disto eu herdei, claro. Mas basta-me o orgulho de ter o seu nome, António Lobo Antunes, e a felicidade de haver sempre recebido o seu amor. E agora não estou a olhar a Penitenciária lá em baixo. Estou com ele em Pádua a fazer a primeira comunhão na igreja de Santo António, em resultado da promessa que fez nesse sentido se eu não morresse de meningite que tive aos oito meses, como o irmão mais novo do meu pai, morto dela com a idade em que eu ia morrendo, e António Lobo Antunes também. Sabe, avozinho, acho sempre que os falcões que passam na janela me trazem recados seus. Eu sei que olha por mim e não me deixa. E o que traz nas garras não é um bicho morto é o nosso amor que continua vivo. Olhe, fico contente que este texto esteja tão mal escrito. 

Acho que me comovi demais.

 

Crónica publicada na VISÃO 1283 de 5 de outubro

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publicado às 17:53


"2623 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.10.17

Lançamento da revista Seara Nova (1921)

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publicado às 15:01


#2622 - Efemérides

por Carlos Pereira \foleirices, em 15.10.17

Hoje, 15 de Outubro, é o Dia Internacional da Bengala Branca.

 

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publicado às 14:49


#2621 - Ane Brun - Into My Arms

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.10.17

 

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publicado às 20:02

 

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publicado às 21:24


#2619 - Armand Amar - Poem Of The Atoms

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.10.17

 

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publicado às 12:49


#2618 - Interrogações

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.17

Quando estivermos perto do fim,

ao avistar o sinal que anuncia o fim da estrada,

o que há para além do precipício?

 

Quando tudo parecer acabar,

o que haverá para além do tempo, da matéria e da luz...

um novo sopro?

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publicado às 20:25


#2617 - Clara Ferreira Alves

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.17

Os políticos deixaram de ler livros. Os súbditos da tecnologia e das correntes sociais também. E o rei louco nem os livros com a cara dele na capa consegue ler.

 

Clara Ferreira Alves, a propósito de um artigo sobre John Le Carré publicado na revista «E» - A revista do Expresso - Edição 2345, de 7 de Outubro de 2017

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publicado às 20:12


#2616 - Benjamin Clementine - Winston Churchill's Boy

por Carlos Pereira \foleirices, em 08.10.17

 

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publicado às 16:56


#2615 - SPC ECO - Under my skin

por Carlos Pereira \foleirices, em 07.10.17

 

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publicado às 09:27


#2614 - Autobiografia Jorge Listopad: Na escada rolante

por Carlos Pereira \foleirices, em 06.10.17

JORNAL DE LETRAS. Colaborador do JL desde os primeiros números, escritor, professor e encenador, Jorge Listopad, checo que vivia desde a década de 50 em Portugal, morreu no domingo aos 95 anos, em Lisboa. Listopad encenou cerca de 60 peças de teatro e escreveu diversas obras de prosa, poesia e ensaio, em checo, português e francês. Republicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL, em 2002

 

1. Se me encontrasse numa escada rolante.


2. Quando nasci (em Praga), não suspeitava que era uma das mais belas cidades do mundo mas sê-lo-ia para mim, bastantes anos mais tarde. Talvez só tivesse tido consciência do triunfo dessa beleza durante a guerra, na profunda ilegalidade em movimento pendular entre o campo e a metrópole, durante a resistência anti-nazi, quando cada poética esquina praguense podia ser trágica para sempre; ou já instalado em Paris, mais tarde, numa aprendizagem da distância. Ou a. nal, o facto de encontrar-me provisoriamente ("provisoire qui dure") em Portugal, provocou em mim o mudo desejo de rever a cidade natal.
Nasci no mês de Novembro; Novembro em língua checa: listopad. Os checos, como raros europeus, embora recebendo os instrumentos de civilização formal e institucional de Roma, romana e depois católica, ficaram residualmente quanto ao nome dos meses, num mundo anterior, de nomenclatura pagã, anímica, rente à sua origem dos elementos naturais. Culto celta? Cada mês em checo, formula a imagem do ano agrícola ou venatória, o seu sintoma, o seu aroma e cor.
Em listopad, encontras "as folhas caídas". Será que daí se anuncia o meu afecto especial para com Almeida Garrett, autor do livro de poesia do mesmo nome? Nasci, pois, em casa na época em que as parturientes davam à luz nas próprias casas, prédio que ainda existe tal e qual, cinzento, angular, onde morámos num rés-do-chão inteiro, um tanto alevantado e onde o meu pai tinha, em espaços separados, o seu consultório de dentista, um laboratório técnico adjacente e a sala de espera.
Trémula vizinhança dos meus primeiros anos. Os sons da broca à antiga. Depois da morte de minha mãe, e mediante o segundo casamento do pai com uma estomatologista-cirurgiã, toda a casa foi restaurada e adaptada para clínica dentária.
A nova família, nós mudámos, a alguns passos dali, em frente, para uma casa mais elegante, da burguesia instalada. Deus levou, Deus deu, Deus ama, dizia o pai. Não por muito tempo.
Durante e depois da guerra, na qual o meu pai morreu na prisão alemã, exemplo patriota checo, o lugar onde nasci tornou-se, por sua vez e sucessivamente, uma Associação de Amigos de Animais, uma organização local do PC, uma sucursal da Caixa Geral de Depósitos checa, uma agência da Caixa de Previdência. Numa das recentes viagens a Praga quis ir até ao fundo, é maneira de dizer, e descobri o caminho, através da janela entreaberta do velho pátio abandonado, para o quarto onde provavelmente estaria instalada a cama da mãe naquele dia 26 de Novembro, onde também nasceu, dois anos mais tarde, Pavel, que morreu bebé de poucos meses, e a irmã, irmãzinha Alena, cinco anos mais nova; talvez neste momento, enquanto escrevo, ela jogue ténis nos courts cobertos, onde se chega com os eléctricos 3 ou 17. Não paga bilhete: tem mais de 70 anos, radiosos; sempre assim, con. ante até no sofrimento. Pois, não a vi durante a guerra (cinco anos) para nos encontrarmos numa rua de Praga, não sabendo se ainda estávamos vivos. É verdade, depois também não trarmos a vi desde o ano 49 até 89 do século passado. O nosso mundo era pouco razoável.


3. Estava onde não deveria estar? O bairro no qual vivi chama-se Letná. Nome airoso e é efectivamente uma colina com dois grandes parques, um no alto de Praga com vista ímpar dos terraços naturais e outros já saídos das mãos dos arquitectos e jardineiros; não longe, os estádios do Sparta e dos clubes concorrentes, nós, rapazes, imitávamos a peladinha. O meu pai foi dentista-mecenato dos profissionais do Sparta, eu admirava-os silenciosamente. O outro parque era um verdadeiro bosque, cheirava a rosas, a rápidos riachos, a cavalos e ao não distante Jardim Zoológico, quando o vento se levantava. Orgulhosamente aqui crescia a única magnólia de Praga, a noiva vestida de branco tépido. Em volta, os braços do Vltava como que feitos para os nossos saltos-mergulho na água.
A partir da nossa Igreja de Santo António, as ruas de Letná subiam. A Academia de Belas Artes, meia dúzia de cinemas, um piolho a projectar de modo inseguro os filmes de terror, westerns a sério e curiosamente, visto de hoje, as preciosas fitas soviéticas da primeira época; o cinema mais elegante do bairro cultivava a programação musical americana. Aí ouvi jazz.
Alexandre Ragtime Band contra a solidão da puberdade. Bairro de bonitas jovens. Uma era minha paixão e meu amor. Chamava-se Helena, morta com 17 anos, em trânsito para o campo de concentração, ano 1940. Reabro o silêncio que conservo tantos anos, séculos. Estremecimento longínquo, diria Clarice Lispector que era da sua família, da família de Helena.


4. Quando compreendi que todas as viagens eram possíveis, chorei, não dormi e cheguei a Paris, aliás via Londres, intermitente, oficiosamente. Não foi tão simples: mas um texto destes não tem, espero, a responsabilidade de causalidade, da disciplina dos factos ou o cuidado com o rumo dos caminhos. Em Paris fiz tudo. Porém, no princípio tive a oportunidade de conhecer a high-society da esquerda da Maison de la Pensée, visto que trabalhei como Chefe de Redacção do Semanário Parallèle 50 onde, entre outros, colaboravam Roger lèle Vailland, Claude Roy, Charles Morgan, Julien Benda, Edgar Morin companheiro de minha geração -, e cujo director era Gérard, isto é, Artur London, que me assustava ma non troppo.
Da guerra civil de Espanha, ao grande agente no Ocidente e numa depuração condenado à morte, em Praga, pelos seus antigos camaradas moscovitas, como é conhecido, salvo in extremis (lembre-se ou veja o filme de Costa-Gravas, ou leia o livro autobiográfico com o mesmo nome, "Confissão"). Era, pois, meu superior. Mais uma aprendizagem. Prefiro lembrar um almoço de domingo, preparado pela La Passionaria, ao gosto espanhol, novo para mim, na moradia suburbana de London e de sua mulher Lisa (que mais tarde o salvou, filha de um deputado do PCF), mais ainda preferi conhecer Camus, a paginar o seu jornal, e depois na rua Ciseau, ou pagar um café filtre, no Café Bonaparte a Tristan Tzara, pai do dadaísmo, ele sempre de casaco comprido de inverno mas sem camisa por dentro. Maçame falar assim de Paris onde vivi dez anos de estadia plena, não é justo, nem hoje adivinho as minhas sucessivas perturbações, assimilações, aculturações, no início do Paris oficial, mais tarde sem cidadania e sem dinheiro. Aqui escrevi o meu Tristão, em condições ásperas e extáticas em francês e em checo, sem saber exactamente como. E era bom. Foi bom? Aprendi televisão.
Tornei-me secretário do Rose Rouge, o cabaré da moda na Rue de Rennes, de Anouk Aimée.
Liguei-me a Marcel Marceau jovem, frequentei Roger Caillois na UNESCO, Renée dançava na Companhia de Jean Veidt, coreógrafo dito Vermelho, Mouloudjí corrigia o meu francês escrito, etcetera, etcetera e onde estais? Onde estais? tal como pergunta António Nobre exactamente em "Lusitânia no Bairro Latino" onde estava eu ainda sem saber da Lusitânia.


5. Só os pormenores podem estar certos e metafisicamente assumidos. Sou amigo de detalhes, de microcosmos, gosto dos pequenos países, há muito mais para ver. Portugal, por exemplo.
Porto, quero dizer. Não recusei a primeira chávena de lúcia-lima, na rua da Vilarinha.


6. Volto atrás. Um avô era da aldeia (Sudomìøice) que felizmente continua a ser aldeia. Com 14 anos . zeram-lhe a trouxa e despacharam-no para Viena, teve de marchar a pé até à capital do Império de então, a algumas centenas de quilómetros de distância, para casa de um tio que nunca vira antes. Tornou-se aprendiz de tipógrafo, enamorou-se de uma cozinheirinha húngara: suponho que jantaram em segredo na cozinha do patrão. Meu pai então nasceu em Viena. Com um ano, voltaram a Praga. Meu avô tornou-se conhecido editor que descobriu e criou "O Valente soldado Chveik" de Hasek, primeiro em forma de cadernos semanais.
O outro avô, de Kolin, retroseiro, com lojeca fixa que eu adorava, transportava-se, sempre cansado e sempre alegre, pelas feiras da região.
Não sei como morreu era o tempo confuso dos primeiros anos de ocupação alemã, mas encontrei-o, tantos anos depois da sua morte, na rua de São José. Parou. Parei. Revi-o depois numa rua do Fundão.
Tive ainda mais uma família de avós, evangélicos rigorosos. Todos os domingos, com um par de cavalos e . acre alugados, a hora certa, foram à missa, à cidade mais próxima. Antes de se reformar, esse avô tolstoiano, meu jardineiro-mor, era o prosaico Chefe-Caixa da Estação Central de Praga, porém, uma alta função financeira e moral.


7. Não foi boa ideia aceitar a proposta para redigir a biografia. As minhas coisas não estão nem nunca foram no seu sítio. Não tenho verdadeira autobiogra. a para além daquela parsemeada pelo que escrevo, enceno e até ensino. Seja como for, a autobiografia em forma desta prosa dedico-a com afecto aos leitores, alguns sei regulares, outros ocasionais. E aos filhos: Clara, Manuela, Joana, Bruno, Cláudia e Francisca, todos portugueses de olhos azuis, E aos afilhados não? Gil e Inês.
Subitamente cismo: não terei aceitado a encomenda para poder momentaneamente voltar à última página que durante tantos anos foi minha (se alguma coisa fosse minha) no J.L? Voltar a casa. Mas tudo o que está de um ou outro modo vivo, muda, murcha, ressuscita, transforma-se, desloca o objectivo, escreve na penúltima página e se fosse preciso para a paz da sua alma, tentaria compor a epopeia da sua vida na folha de um guardanapo. Agora passo a palavra.

 

Post retirado do JL-Jornal de Letras online

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publicado às 06:59

 ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

O SENHOR VICENTE

 

O senhor Vicente trabalhava na Administração do Posto de Marimba, uma terra pequena acima de Malanje, na Baixa do Cassanje. Julgo que era uma espécie de escriturário, porque não usava a farda dos funcionários coloniais nem o uniforme dos sipaios. Vestia-se à paisana, como um civil normal, era extremamente bem educado para toda a gente e eu considerava-o um génio. Tanto podia ter trinta como quarenta anos, pertencia de certeza à etnia ginga porque o seu kimbundo era perfeito, tal como o seu português, aliás, e eu gostava de conversar com ele porque aprendia sempre. Em regra ao fim da tarde passeávamos juntos sob a imensa fila das mangueiras gigantescas que iam de uma ponta à outra da vila, desde a Administração às sanzalas, ou descíamos ao rio Cambo a olhar os crocodilos. Foi numa dessas saídas que encontrámos, na picada para o rio, uma jiboia enorme que morrera engasgada com a metade traseira de uma cabra grande entalada na boca. Isto entre outras descobertas mirabolantes mas, para mim, o senhor Vicente era a personagem mais notável que conheci. Solitário e introvertido com toda a gente conversava imenso comigo. Vivia na dor permanente de se ter apaixonado por uma mulher ou rapariga branca cujos pais se opuseram com ferocidade ao casamento dela com um africano, e o senhor Vicente vivia aquele grande amor frustrado mantendo uma fidelidade absoluta a um fantasma que habitava em Luanda e nem a esmola de uma carta lhe fazia. Tomava todas as manhãs uma aspirina embora se sentisse fisicamente bem porque as doenças eram um terror para ele. Um dia disse-lhe

– Mas se está bem porquê tomar aspirina?

quando estávamos a chegar ao quimbo do Soba Macau, um senhor idoso da mais alta nobreza

(nome completo: Sebastião José de Mendonça Macau)

e de uma sabedoria infinita, que tinha muito respeito por mim devido ao facto extraordinário de eu ter olhos azuis, coisa que até então ele nunca tinha visto e portanto tratava-me por Kimbanda Kindele, o que significa feiticeiro branco, e escutava tudo o que eu dizia numa atenção respeitosa que, na prática, me dava um trabalhão. Por ordem dele lá tive que andar às voltas com um súbdito a quem um crocodilo comeu uma perna e um segundo todo furadinho pelos cornos de uma pacaça: nenhum deles morreu o que colocou o meu prestígio nos píncaros. Mas voltando ao senhor Vicente e à minha pergunta

– Se está bem porquê tomar aspirina?

o senhor Vicente estacou e respondeu-me, em voz pousada, esta evidência

– Pelo sim pelo não

contra a qual, é óbvio, eu não tinha argumentos, e voltou, de imediato, ao tema da sua vida, isto é à sua paixão contrariada, que eu escutava num silêncio côncavo, a fim de que o seu sofrimento me coubesse inteiro na alma. Não há nada mais horrível do que o mal de amor e após meses a escutá-lo acabei por soltar uma breve frase de compreensão

– Ó senhor Vicente isso é chato.

Mal acabei a frase arrependi-me logo. O senhor Vicente estacou diante de mim a ruminar a minha opinião em silêncio, cara a cara comigo, meditando cada uma das minhas sílabas até me agarrar os dois braços com as mãos e me soprar na cara, baixinho, a mais lancinante frase que alguma vez escutei:

– É chato na medida em que se torna aborrecido.

No início desta prosinha falei em génio. E de facto quem é capaz de suportar o sofrimento com uma dignidade assim e resumi-lo com o poder de condensação de um espírito superior que merece entrar de imediato na galeria dos grandes conhecedores da alma humana:

– É chato na medida em que se torna aborrecido

resume, com extraordinária simplicidade e não menos extraordinário conhecimento uma boa parte das questões essenciais da vida. A frase é cegante de evidência: as coisas chatas são chatas na medida em que se tornam aborrecidas e basta aprofundar e conhecer a extensão do aborrecimento, entrar nele, vivê-lo, pesá-lo, tomá-lo por aquilo que é para se começar a dissolver a chatice. Há qualquer coisa em

– É chato na medida em que se torna aborrecido

(ele dizia borrêcido)

que tem a cristalina simplicidade da célebre fórmula de Einstein

E = mc2

ou, sei lá, do Teorema de Pitágoras

(o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos)

e o senhor Vicente merece estar ao lado dos raríssimos espíritos de síntese que nos dão a conhecer o mundo com a simplicidade óbvia dos eleitos. Quando o grande Laplace publicou o seu livro acerca das órbitas dos planetas, ofereceu um exemplar a Napoleão, Napoleão perguntou-lhe

– E Deus?

E Laplace respondeu

– Sire, não tive necessidade de introduzir essa hipótese

tornando-se ainda mais justamente célebre por isso mas não conseguiu alcançar, no meu modesto entendimento, a profunda análise que o senhor Vicente logrou:

– É chato na medida em que se torna aborrecido

constitui, a meu ver, uma descoberta inigualável que abre estradas novas para o desvendar do espírito humano. Tenho esperança que isto seja reconhecido para glória de Portugal, de Angola também, claro, e que esta fórmula entre, majestosa e única, na curta lista das sentenças essenciais que nos oferecem o mecanismo do Mundo e abrem amplas avenidas aos, até agora tortuosos, caminhos da Alma.

 

Crónica publicada na VISÃO 1282 de 28 de setembro

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publicado às 16:07


#2612 - Kazuo Ishiguro é o novo Prémio Nobel da Literatura 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 05.10.17

 2017 Nobel Prize in Literature

The Nobel Prize in Literature for 2017 is awarded to Kazuo Ishiguro"who, in novels of great emotional force, has uncovered the abyss beneath our illusory sense of connection with the world".

 

               Kazuo Ishiguro, escritor britânico de origem japonesa, 63 anos - nasceu na cidade de Nagasaki, Japão, fixando-se com a família no Reino Unido no início da década de 1960 - é novo Prémio Nobel da Literatura 2017.

               Destacou-se com os primeiros contos publicados na revista Granta, escreveu para cinema e televisão e é autor de canções. Com o livro "Despojos do Dia" venceu em 1989 o Booker Prize.

               A Gradiva tem seis livros do autor editados: Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize; adaptado ao cinema), Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize), Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize), Nunca me Deixes (2005, nomeado para o Booker Prize; adaptado ao cinema), Nocturnos (2009) e O Gigante Enterrado.

              As Colinas de Nagasaki foi editado pela editora de Francisco Vale - Relógio D'Água - em Abril de 1989.

 

 

 

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publicado às 15:26

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS (1845-1900)

 

"Nos finais do século XIX, Groussac pôde escrever com veracidade que ser famoso na América do Sul não era deixar de ser um desconhecido. Essa verdade, naqueles anos, era aplicável a Portugal. Famoso na sua pequena  e ilustre pátria, José Maria Eça de Queirós (1845-1900) morreu quase ignorado pelas outras terras da Europa. A tardia crítica internacional consagra-o agora como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época.

 

Eça de Queirós foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e, uma vez terminado o curso, desempenhou um cargo medíocre numa província medíocre. Em 1869, acompanhou o  seu amigo, o conde de Resende, à inauguração do canal de Suez. Passou do Egito para a Palestina, e a evocação dessas andanças perdura em páginas que muitas gerações leem e releem. Três anos depois ingressou  na carreira consular. Viveu em Havana, em Newcastle, em Bristol, na China e em Paris. O amor à literatura francesa nunca o abandonaria. Professou a estética do Parnaso e, nos seus muitos diversos romances, a de Flaubert. Em O Primo Basílio (1878) notou-se a sombra tutelar de Madame Bovary, mas Émile Zola julgou que era superior ao seu indiscutível arquétipo e juntou à sua sentença estas palavras: «Fala-lhes um discípulo de Flaubert.»

 

Cada oração que Eça de Queirós  publicou fora limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o  sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o  Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica. Uma das personagens é um demónio; a outra, a partir de uma sórdida pensão de Lisboa, mata magicamente um mandarim que lança o seu papagaio de papel num terraço que fica no centro do Império Amarelo. A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula.

 

No ano final do século XIX, morreram em Paris dois homens de génio, Eça de Queirós e Oscar Wilde. Que eu saiba, nunca se conheceram, mas ter-se-iam entendido admiravelmente."

 

TEXTO DE JORGE LUIS BORGES, DO LIVRO "BIBLIOTECA PESSOAL", PÁGINAS 23 E 24, EDIÇÃO QUETZAL, 2014

 

 

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publicado às 18:12


#2610 - Livros e Leituras

por Carlos Pereira \foleirices, em 02.10.17

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 " Ao longo do tempo, a nossa memória vai formando uma biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade para nós e que gostaríamos de partilhar. Os textos dessa biblioteca íntima não são forçosamente famosos. A razão é clara. Os professores, que são quem dispensa a fama, interessam-se menos pela beleza do que pelos vaivéns e pelas datas da literatura e pela prolixa análise de livros que se escreveram para essa análise, não para o prazer do leitor.

 

A série que prologo e que já entrevejo quer dar esse prazer. Não escolherei os títulos em função dos meus hábitos literários, de uma determinada tradição, de uma determinada escola, de tal país ou de tal época.

 

«Que outros se gabem dos livros  que lher foi dado escrever; eu gabo-me daqueles que me foi dado ler», disse eu uma vez. Não sei se sou um bom escritor; penso ser um excelente leitor ou, em todo o caso, um sensível e agradecido leitor.

Desejo que esta biblioteca seja tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas. Sei que o romance não é menos artificial do que a alegoria ou a ópera, mas incluirei romances porque também eles entraram na minha vida. Esta série de livros heterogéneos é, repito, uma biblioteca de preferências.

 

María Kodama e eu errámos pelo globo da terra e da água. Chegámos ao Texas e ao Japão, a Genebra, a Tebas e, agora para juntar os textos que foram essenciais para nós, percorreremos as galerias e os palácios da memória, como escreveu Santo Agostinho.

Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. «A rosa é sem porquê», disse Angelus Silésius; séculos depois Whistler declararia «A arte acontece».

 

Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava."

 

PRÓLOGO ESCRITO POR JORGE LUIS BORGES IN BIBLIOTECA PESSOAL, PÁGINAS 7 E 8 - EDIÇÃO QUETZAL, 2014

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publicado às 20:20


#2609 - Sten Erland Hermundstad - Dreams

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.10.17

 

 

 

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publicado às 23:39


#2608 - Silêncio

por Carlos Pereira \foleirices, em 01.10.17

 

Silêncio:

O pensamento sentado num sofá de veludo a observar o peixe no aquário.

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publicado às 18:27

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 

A FELICIDADE

 

Há quanto tempo estamos juntos meu Deus, não era assim ao princípio, não foi assim durante algum tempo e depois, a pouco e pouco, isto, esta ideia de para quê que se irá eternizando a menos que ela lhe apeteça deixá-lo mas porquê deixá-lo tanto mais que ele não incomodava, ia durando por ali, não aborrecia, não fazia perguntas, quase não ocupava espaço

 

Olhou em volta, para a casa onde morava, e sentiu-se um estranho. Pensou

 

– Não vivo aqui

 

pensou

 

– Nunca vivi aqui

 

porque tudo lhe parecia insólito, móveis, bilelôs, jornais que não lia, até o quadro que lhe tinham oferecido era de outra pessoa, não sabia ao certo qual, aliás pouco lhe importava, considerava as coisas numa indiferença mansa conforme considerava o prédio do outro lado da rua, sem repugnância nem afecto, via janelas, cortinas, talvez as pessoas que ali morassem se sentissem bem, não as conhecia, passava os dias num quarto pequeno, a maior parte do tempo a observar a parede, sem sentir nada a não ser que era um inútil, perguntou-se para dentro

 

– O que faço eu aqui?

 

sem achar a resposta, também pouco lhe importava a resposta, deixara de se fazer perguntas, de imaginar outra vida, não lia os jornais no sofá porque não eram dele, não mexia em nada, não abria gavetas, dizia-se apenas

 

– O que faço eu aqui?

 

sem esperar resposta alguma, que respostas haveria, mesmo que houvesse respostas não acreditava nelas, aliás a mulher também não falava a não ser com os amigos, o telemóvel dela constantemente a tocar, entrava, saía, às vezes um sorriso rápido, às vezes sorriso nenhum, a maior parte das vezes sorriso nenhum, ia para a cama mais cedo do que ela que ficava diante da televisão interessada num programa qualquer, dantes conversavam, agora frases curtas a propósito de assuntos que esqueciam logo, levantava-se da cadeira, ia beber água à cozinha, tornava a sentar-se, não lhe apetecia sair, não lhe apetecia comer fora, o que podia contar sem interesse nenhum, durante o jantar a mulher falava com a filha, não falava com ele, assuntos que não lhe diziam respeito acerca de pessoas que não fazia ideia quem eram e ele calado a escutá-las, pensando

 

– E agora?

 

sem que agora nenhum lhe ocorresse, não se sentia amargo, não se sentia infeliz, sentia-se um cacto no vaso, sentia-se um estrangeiro, sentia-se sobretudo supérfluo, quem precisa de mim, quem se inquieta 
comigo, a quem faço eu falta e não fazia falta a ninguém, já não tinha pais, tinha um irmão ainda mas não se viam há meses embora morassem na mesma cidade, gostava do irmão, gostava da cunhada, ignorava se o irmão e a cunhada gostavam um do outro, pensava

 

– Se eu tivesse dinheiro

 

e se eu tivesse dinheiro o quê, alguns colegas ainda que lhe contavam a vida deles, perguntavam

 

– O que é que tu achas?

 

e ele, que não achava nada, inventando que achava, os colegas

 

– Pois é

 

dividiam a conta no fim, um aperto de mão e adeus, um ou outro

 

– Pareces esquisito

 

ele conseguia um sorriso

 

– Esquisito?

 

que não queria dizer nada, voltava para casa devagarinho cruzando-se com estranhos para quem não olhava e que não olhavam para ele, a pensar

 

– O que pode a minha mulher sentir por mim?

 

e de facto o que podia a mulher sentir por ele, não era um marido, era um hábito, uma cara a que se acostumara como às cadeiras ou à cama, mais nada, sou um objecto, uma jarra, uma dessas almofadas que dão cor aos sofás, uma certa cor aos sofás e acabou-se, há quanto tempo estamos juntos meu Deus, não era assim ao princípio, não foi assim durante algum tempo e depois, a pouco e pouco, isto, esta ideia de para quê que se irá eternizando a menos que ela lhe apeteça deixá-lo mas porquê deixá-lo tanto mais que ele não incomodava, ia durando por ali, não aborrecia, não fazia perguntas, quase não ocupava espaço, não queria mudar o canal da televisão, ficava no seu canto a trabalhar sozinho, traduzia livros técnicos com a ajuda de um dicionário, tomava um comprimido de oito em oito horas porque às vezes o coração se desviava, não gritava nunca, não discutia, aceitava os silêncios, talvez fumasse demais dado que às vezes a respiração se interrompia, mas não era gastador, não ligava ao dinheiro, não aborrecia ninguém, quando o chamavam para a mesa ia para a mesa, arrumava no lava-loiças os seus talheres, o seu prato, depois levantava-se, agradecia e sumia-se no cubículo com as suas traduções, o cabelo já branco, já ralo, as pernas menos rápidas, os movimentos mais lentos mas não se lamentava fosse do que fosse nem protestava nunca, faltava-lhe alegria mas a quem não falta alegria, um domingo tirou a mala do armário, abriu-a sobre a cama mas tornou a guardá-la sem meter fosse o que fosse lá dentro, sentou-se na sala, não no sofá, claro, numa cadeira pequena e ficou para ali de queixo na palma, sem exprimir nenhum desejo, à espera, sozinho, não se entendia de quê.

 

(Crónica publicada na VISÃO 1281, de 21 de setembro de 2017)

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publicado às 19:35

 

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publicado às 18:36


#2605 - O Quixote na voz dos escritores portugueses

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.09.17

 Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade  está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda so sonhos.

 

Eduardo Lourenço, «Portugal - identidade e imagem».

                                Nós e a Europa ou as duas razões (1988)

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publicado às 19:52


#2604 - Tom Waits - Take me home (Rare studio outtake!)

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.09.17

 

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publicado às 19:28


#2603 - Quantas vezes já publiquei este vídeo?

por Carlos Pereira \foleirices, em 28.09.17

A extraordinária beleza comove-me...

 

 

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publicado às 18:34


#2602 - Questões de Semântica

por Carlos Pereira \foleirices, em 26.09.17

 

O corpo que respeitosamente se dobra e toca a terra com a boca, com o propósito de exorcitar pecados velhos e enxotar antigos medos.

 

A terra agradece o respeito mas desconfia de tamanho empenho, porque são aflições do momento.

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publicado às 17:56

Olhas o branco do papel como se fosse um espelho. E desenhas a primeira letra, esperas pacientemente pela segunda, pela terceira até surgir a palavra.  E finalmente, algo pode acontecer... E novas palavras aparecerão e farão uma fila em cima duma linha imaginária. Pensas logo em comboios; onde tu és a locomotiva e as palavras vagões. Páras na primeira estação. A plataforma está cheia de palavras: umas subirão e outras ficarão. Novas palavras acrescentadas encherão um novo vagão.

O comboio pára num apeadeiro. No apeadeiro só há vírgulas, pontos e vírgulas, dois pontos, e outros sinais gráficos. É a hora das despedidas e das boas vindas. A viagem está quase a terminar. Só falta uma estação. A estação do espanto, da admiração, da magia onde não falta um baloiço onde  estás sentada empurrado pela vovó, num extraordinário jardim que desenhaste com as palavras que já conheces , e que para ti já têm cor, cheiro, forma, significado.

 

Para a minha neta Francisca e a avó

 

 

 

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publicado às 16:58


#2600 - OUTONO

por Carlos Pereira \foleirices, em 24.09.17

 

No Outono

as manhãs são tranquilas

e as tardes melancólicas

a folha que era verde

lentamente muda de cor e

tem ainda o odor tardio

dos dias de verão

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publicado às 14:50

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De 23 de Setembro a 11 de Novembro de 2017, na Sala de Exposições da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.

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publicado às 19:55


#2598 - Voltaire (François Marie Arouet)

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

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Voltaire (François Marie Arouet)

 

Estou caminhando para o fim,

como todos. Uns mais precisos

que outros. Menos desconfiados,

mais abúlicos. O rei Frederico,

o Grande, e eu nesta hora

somos iguais, salvo na estatura.

E os relógios despertam com certa

pressa de tomar a carruagem

e a estrada, tomar os indícios

da vida pela mão e embalar

o tempo  que nos falta.

 

Vivi na corte, como se tivesse

que ser espirituoso, bufão,

irônico, dócil, cortesão

sem deixar de ser lúcido,

um veterano ator de rugas

que não são cortesãs. Estúpidas.

 

Servi à corte - sapiente, filósofo,

enciclopédico de sonhos

escritor de alegórico engenho,

um humorista do abismo.

E como segurar esta laminar

inteligência, salvo cortando,

cortando, até que fique

a essência, o núcleo divisor

entre a cultura e o homem.

 

E a burrice infesta

esta nobreza,

que ao mérito inveja

e mais ao gênio.

 

Com fervor me toco.

Vou-me despedindo

dos despejos, criados,

femenis vaidades.

Decoroso:.

 

Ouso falar aos pósteros:

meu uso de linguagem -

sóbrio, justo é francês,

cartesiano e de menos,

até o osso. De onde

não ultrapassa a faca.

 

Escondo o desgosto

de ver-me enfraquecer,

por ter já sido lépido,

ágil, elétrico. Tudo 

é de menos

para os que em futuro

apostam.

 

Olho a manhã por último.

É doce, não sabe em que

caminho se adivinha o fim,

ou o atalho. E nem carece

de saber. Não traio

este destino em mim.

 

Verney  e o pomposo

Castelo não me eximem

de rir. Mostro-me mais

humano, não tão calculista

ou frio, como pensam

conterrâneos. E esses

nem conseguem expor

a ausência de olhos.

Sou um voluptuoso

do infortúnio e eles,

nada. E o talento

de existir não para.

Menino de tanto ver,

bebo o fiim

como um vinho

de fina, casta

e solteira garrafa.

Provo. É estrangeiro,

o corpo. Minha ferocidade 

não se apaga.

Mesmo morto.

 

POEMA DE CARLOS NEJAR, POETA BRASILEIRO, RETIRADO DO LIVRO "OS VIVENTES", PÁGINAS 312, 313, 314, 315, EDITADO POR LEYA BRASIL, DEZEMBRO DE 2010

 

____________________________________________________________________

 

BIOGRAFIA

 

Quinto ocupante da cadeira nº 4, eleito em 24 de novembro de 1988, na sucessão de Vianna Moog, foi recebido em 9 de maio de 1989 pelo Acadêmico Eduardo Portella.

Carlos Nejar, poeta, ficcionista, crítico, nasceu em Porto Alegre (RS), em 11 de janeiro de 1939.

Fez sua formação primária, secundária e o curso clássico no Colégio do Rosário em Porto Alegre.

Iniciou na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul o curso de Letras Clássicas, não o concluindo. Formou-se, pela mesma Universidade, em Ciências Jurídicas e Sociais (Direito) em 1962.

Fez exame de Suficiência na Universidade Federal de Santa Maria (RS), tendo sido aprovado para lecionar Português e Literatura no 2.o ciclo do magistério estadual.

Fez concurso para o Ministério Público do RS. Assumiu a função em 1963, atuando em diversas comarcas do Rio Grande do Sul: Pinheiro Machado, Bagé, Taquari, Uruguaiana, Itaqui, São Jerônimo, Erexim, Caxias do Sul e Porto Alegre, pelo critério do merecimento.

De 1965 a 1973, foi também professor de Português e Literatura nos seguintes estabelecimentos estaduais de ensino: Escola Normal Álvaro Haubert e Colégio Estadual São Patrício, em Taquari; Colégio Estadual Castro Alves, em São Jerônimo; Escola Normal José Bonifácio, em Erexim; Colégio Estadual Cristóvão de Mendonza, em Caxias do Sul.

 

 

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publicado às 21:52


#2596 - Peter Broderick - Eyes Closed and Traveling

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

 

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publicado às 18:36


#2595 - Brian Eno - An Ending

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

 

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publicado às 18:31


#2594 - Inês Pedrosa criou a sua própria Editora

por Carlos Pereira \foleirices, em 21.09.17

 

Inês Pedrosa, escritora, é também editora. Acaba de montar a "Sibila Publicações", uma editora que vai priveligiar a escrita feita por mulheres.

Joumana Haddad e Maria Antónia Palla são as primeiras escritoras publicadas pela novíssima Editora.

 

 

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publicado às 07:46

No âmbito da programação de artes plásticas, a biblioteca municipal apresenta a exposição de desenho e escultura "Figuras de estilo" de Eduarda Coimbra e Telmo Mota.


“Simbiose entre desenho e escultura, gravitando em redor de referências literárias, esta exposição propõe uma viagem às fronteiras da representação onde as técnicas académicas se fundem com uma estética maneirista, conceptual e contemporânea." Eduarda Coimbra e Telmo Mota.


patente de 23.set.2017 a 11.nov.2017

horário: 
seg. a sex. 10h00 » 19h00 
sáb. 10h00 » 17h00


Informação retirada da página do Facebook da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira

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publicado às 22:25


#2592 - Sem título

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 

ALEXANDRA DE PINHO (SECRETOS REGISTOS) - TECIDOS, DESENHOS E RESINA DE POLIÉSTER

QUADRO COM 20x20 cm - 2005

 

O mundo escurece

para quem nunca sonha, 

não vê,

não se interroga:

como se o pavio de velas terminasse,

um a seguir ao outro,

até ao último milímetro de luz.

 

Por isso, o  medo

ganhará vontade e

tomará conta de nós,

aprisionará o dia

e será sempre noite,

e reduzirá as estações a um inverno eterno.

 

E os nossos olhos cegarão

E as nossas bocas se fecharão

pois o tempo de ver, de falar, de protestar

já esgotou.

 

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publicado às 21:45


#2592 - Despejo

por Carlos Pereira \foleirices, em 18.09.17

 ALEXANDRU VLAHUTA (1859 - 1919)

 

DESPEJO

 

Gente coitada, não pagou a renda

E a tralha para a rua lhes deitaram:

Roupas de pobre - só trapos rasgados...

Esta mudança parece agonia.

 

E a chuva molha com seu ar de troça

Velhos farrapos, móveis roídos

Pelo caruncho, nus, desvergonhados.

Há dentro deles uma alma que chora.

 

E a cama ainda pensa nas carícias

Que amparou e que à dor deitaram

Dois magrizelas com as mãos de cera...

Oh, malditos amores da pobreza!

 

E grita ao vento: Mas por que direito

A mulher fraca, esfomeada, atira

Nova vida ao inferno - por um beijo?

Entre os pobres o amor é um crime.

 

Chia a carroça à chuva: sua ruína

Devagar vai seguindo um operário,

Cabeça baixa, seco, de dor mudo,

E os olhos tristes para trás nem vira.

 

Ao lado, a mulher cansada, leva

Dois miúdos pela mão. E em silêncio,

Vão sem parar - nem eles sabem onde,

E a chuva os açoita sem piedade.

 

Tormento horrível, quase ameaça

Oculta-se no monte de farrapos,

No carro velho que a gemer estala,

Nos quatro vagabundos macilentos.

 

Essa miséria que os caminhos trava,

Os móveis desengonçados, gastos,

Que a lama cortam rumo ao futuro,

Sáo como início de uma barricada.

 

Poema do poeta romeno Alexandru Vlahuta, tradução de Doina Zugravescu

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publicado às 19:57


#2591 - Crónica de uma rua com gente

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.09.17

A rua inclina-se até ao rio manso, frágil, e às vezes - muito poucas, é verdade - um nadinha violento. Uma questão de humores que têm a ver com as conversas fiadas que ele escuta dos salgueiros que têm a raiz nas suas margens, ou das tropelias de rapazotes inconscientes, que ele não suporta, que lhe provocam azia e problemas de barriga. O único ser vivo que ele tolera, porque não tem outro remédio,  é um pequeno peixe de escamas alaranjadas que também tem as suas azias quando a qualidade da água lhe merece desconfiança. Então pequenas escaramuças acontecem - entre o peixe e a água do rio - e pequenas ondas de  protesto atiram com a água para fora das bordas. É o único momento de bulício e de desassossego que acontece naquela rua.

 

A rua, com pouco comprimento, tem seis casas de cada lado, pintadas de branco com uma lista amarela ou azul na parte inferior da parede, com um pequeno jardim na frente e, nas traseiras uma pequena horta, começa numa pequena praça ajardinada que tem no  centro um belo coreto em ferro forjado e acaba na margem direita do rio. À mansidão dos dias, mansos dias se sucedem até que, um  dia, alguém teve a ousadia de plantar nos postes de iluminação pública cartazes a reclamar a atenção dos habitantes habilitados ao voto para promessas que eles não necessitavam e não compreendiam. Sentiam-se tratados como tolos. Alto aí! Disseram todos.

 

O dono da botica que era, ao mesmo tempo, farmacêutico, merceeiro, barbeiro, conselheiro, homem com poderes estabelecidos e de confiança - por ser o mais rico dos pobres - e que toda a gente ouvia sem reservas, por ser prudente e com bom senso, incomodado com o assunto e dando corpo às vozes de protesto, assumiu o seu papel de líder e representante da população e decidiu que haveriam descer a rua em forma de procissão. E assim aconteceu. À medida que desciam a rua,  os cartazes eram retirados e lançados no estrado do carro de bois. Tudo era feito em silêncio, de forma ordeira, sem sobressaltos. Quando chegaram à margem do rio, o líder cumprimentou o rio, teve uma breve conversa com o peixe, e foi acesa uma fogueira onde foi queimada a mentira e a promessa nunca cumprida, a falta de respeito, o insulto à inteligência. E os candidatos que prometiam promessas nunca mais foram vistos.

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publicado às 18:09


#2590 - Emily Haines & The Soft Skeleton - Planets (Official Video)

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.09.17

 

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publicado às 17:59


#2589 - PRÉMIO PARA A PAZ GUSTAV HEINEMANN 2017

por Carlos Pereira \foleirices, em 16.09.17

ISABEL MINHÓS MARTINS - ESCRITORA

 BERNARDO P. CARVALHO - ILUSTRADOR

 

O livro «Daqui ninguém passa» escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo P. Carvalho venceu o Prémio Para a Paz Gustav Heinemann 2017, um dos mais importantes prémios alemães para livros infantis.

 

Criado em 1983, em homenagem às políticas de paz do presidente alemão Gustav Heinemann, o prémio, que tem o seu nome, é dado a livros que estimulem  a coragem moral, a tolerância e os direitos humanos.

 

"Daqui ninguém passa" foi publicado em língua alemã sob o título "Hier Kommt Keiner Durch" pela editora Klett, de Leipzig.

 

 

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publicado às 17:19


#2588 - ETTA JONES - JAZZ DIVA

por Carlos Pereira \foleirices, em 14.09.17

 

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publicado às 20:45


#2587 - Prémio Literário Oceanos

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

A edição 2017 do prêmio Oceanos – realizado em parceria com o Itaú Cultural e com patrocínios do Itaú Unibanco, CPFL Energia e do governo de Portugal, por meio do Fundo de Fomento Cultural Português – é um marco na história das premiações literárias do mundo lusófono: a partir de 2017, o Oceanos ampliou sua abrangência para todos os livros publicados em língua portuguesa, em versão impressa e digital. 


O prêmio contempla cinco categorias – Poesia, Romance, Conto, Crônica e Dramaturgia. Podem ser inscritos quaisquer livros dessas categorias que tenham sido publicados em 2016. Isso significa que o Oceanos passa a ser o prêmio de maior alcance dentro da lusofonia, constituindo um instantâneo da produção editorial nos diferentes gêneros e traduzindo a cena literária de Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e Brasil, onde o prêmio foi criado. Além disso, obras eventualmente editadas em língua portuguesa em países não lusófonos no ano de 2016 podem ser inscritas e concorrer à edição do Oceanos 2017, conforme o novo regulamento disponível neste site. 

 

Veja aqui os livros concorrentes

Clique aqui para baixar  a lista de livros concorrentes 

 

 

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publicado às 14:32


#2586 - Lista dos seis finalistas do "The Man Booker Prizes"

por Carlos Pereira \foleirices, em 13.09.17

 

The 2017 shortlist: 

4 3 2 1 by Paul Auster (US) (Faber & Faber)
History of Wolves by Emily Fridlund (US) (Weidenfeld & Nicolson)
Exit West by Mohsin Hamid (Pakistan-UK) (Hamish Hamilton)
Elmet by Fiona Mozley (UK) (JM Originals)
Lincoln in the Bardo by George Saunders (US) (Bloomsbury Publishing)
Autumn by Ali Smith (UK) (Hamish Hamilton)

 

 

 

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publicado às 12:23


#2585 - Poema sobre Lourenço Marques revisitada

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 Eugénio Lisboa

 

Regresso, mas não regresso

ao paraíso perdido,

ao centro de mim, possesso

de quanto, aqui, retido,

de novo vejo, sem ver,

sendo eu quem já não sou:

mundo outro eu quero haver,

nesta fome em que me dou.

Este mar (a cor, a vida)

durou só o que durou:

a corrida é já perdida

e o barco naufragou.

 

No entanto, a casa é minha,

mesmo podre e desdourada:

o calor é o que antes tinha,

nela está minha morada!

 

(O frio é apenas meu

e não da velha cidade:

só em mim esmoreceu

o calor da mocidade.)

 

30 de Setembro de 1989

 

___________________________________________________________________________________________________________________________

Eugénio Lisboa  
[Lourenço Marques (hoje Maputo)/Moçambique, 1930]  

Eugénio Lisboa
Ensaísta e crítico literário. 

Nascido em Lourenço Marques, onde viveu até 1976, formou-se (1953) em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico, de Lisboa. É doutor honoris causa em Letras, pelas Universidade de Nottingham, Reino Unido (1988) e Aveiro. 

Já depois da independência de Moçambique, foi colocado em Paris, na Compagnie Française des Pétroles, como adjunto do director mundial de exploração (1976). O ramo petrolífero foi a sua especialidade profissional durante vinte anos (1958-78). Mas, entre 1974-78, acumulou essa actividade com a docência, que exerceu nas Universidades de Lourenço Marques, Pretória (1974-75) e Estocolmo (1977-78), onde regeu cursos de Literatura Portuguesa. Na Suécia foi também o coordenador do ensino da língua portuguesa. Exerceu, durante dezassete anos consecutivos (1978-95), o cargo de conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Londres. Durante esse lapso de tempo promoveu a divulgação da cultura portuguesa e a tradução e edição, no Reino Unido, de alguns clássicos da nossa literatura. 

Por força da sua formação académica e das obrigações do serviço militar, viveu em Lisboa entre 1947-55. Data desses anos a sua lendária amizade com José Régio, que o convidou a organizar um volume antológico da sua poesia, José Régio: Antologia, Nota Bibliográfica e Estudo (1957). Esse volume, e em particular o Estudo nele inserido, será o primeiro sinal público de uma exigente e continuada atenção à obra regiana. 

 
 

 

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publicado às 17:46


#2584 - Paolo Fresu - Mare Nostrum

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

 

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publicado às 14:07


#2583 - Questões de Semântica

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

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 O cavalo tem nobreza e elegância;

A raposa tem astúcia e inteligência;

O político é apenas um animal manhoso.

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publicado às 13:59


#2582 - Memórias

por Carlos Pereira \foleirices, em 12.09.17

cirac014.jpg

 

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publicado às 09:25


#2581 - Um poema de Eduardo Pitta

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 EDUARDO PITTA

 

Toda a noite a luz multiplicou

o instantâneo de um rosto intraduzível.
Esquiva, a tua morte não escapou
à ladainha de regra.

 

Correu uma versão torpe quando
te viram a sorrir
uma ironia de druida clandestino,
indiferente à voragem dos bárbaros.

 

________________________________________________________________________

Eduardo Pitta (poeta, escritor, ensaísta e crítico literário português). Nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, a 9 de Agosto de 1949. Viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Desde 2011 é crítico literário da revista SÁBADO. Escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, um romance, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, dois diários de viagem e um livro de memórias. Os títulos mais recentes são Desobediência (2011), Cadernos Italianos (2013), Um Rapaz a Arder (2013) e Pompas Fúnebres (2014). Um ensaio sobre a homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea, Fractura (2003), é considerado por Mark Sabine «the first history of Portuguese literary homosexuality». Participou em encontros de escritores, congressos, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Poemas seus encontram-se traduzidos em castelhano, italiano, francês e inglês. Traduzido por Alison Aiken, o conto Kalahari foi publicado em 2005 na revista inglesa Chroma. Eduardo Pitta colaborou e colabora em publicações literárias de vária índole, de Portugal, Brasil, Espanha, França e Estados Unidos. Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Dirige a edição das obras completas de António Botto. Entre Abril de 2008 e Janeiro de 2014 assinou a coluna Heterodoxias na revista LER. Fez crítica literária nas revistas Colóquio-Letras (1987-2005), da Fundação Calouste Gulbenkian, e LER (1990-2006), bem como nos jornais Diário de Notícias (1996-1998) e Público (2005-2011). Desde 2011 é crítico literário na revista Sábado. A seu respeito tem-se falado de visão pulsional e agreste da existência, ritmo acelerado, timbre neo-expressionista, pathos autobiográfico, triunfo do recalcado, narrador centrado na identidade sexual do sujeito e, last but not least, hermenêutica gay. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Casou em 2010 com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972.

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publicado às 18:28


#2580 - Terreiro do Paço

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

 Glória de Sant' Anna (1925-2009)

 

TERREIRO DO PAÇO

 

cavalga o rei de ferro em seu cavalo

verdoengos os dois no pedestal

recortados lá em cima

 

e alonga-se a crina

em falso movimento sugerido

pela água azul inquieta deste rio

 

cujas ninfas suportam a epopeia

de um povo que se esparsa pelo tempo

 

onde semeia trigo e saramago

no mesmo vento

 

Poema de Glória de Sant' Anna retirado da revista "Colóquio | Letras" n.º 110-111 - Julho / Outubro de 1989

 

coloquio letras 110-111013.jpg

 

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publicado às 15:49


#2579 - Humores

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

IMG_1653 (2).JPG

 

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publicado às 10:34


#2578 - Memórias

por Carlos Pereira \foleirices, em 11.09.17

II semana cultural012.jpg

 

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publicado às 10:24


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