PORQUE O POLITICAMENTE CORRECTO CORROMPE E DESTRÓI
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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
#1696 - Morreu o escritor mexicano Carlos Fuentes (1928-2012)
Carlos Fuentes, vencedor do Prémio Cervantes em 1987 e do Príncipe das Astúrias em 1994, era um dos escritores mexicanos mais reconhecidos.
O escritor mexicano Carlos Fuentes faleceu hoje, aos 83 anos, num hospital na Cidade do México. O autor de "A Morte de Artemio Cruz" e "Em 68" escreveu mais de 20 livros.
Era conhecido também por seu olhar crítico sobre a sociedade mexicana contemporânea e a política neoconservadora do ex-Presidente norte-americano George W.Bush.
Numa mensagem divulgada através do Twitter, o Presidente do México, Felipe Calderón, afirmou lamentar "profundamente a morte do nosso querido e admirado Carlos Fuentes, escritor mexicano e universal. Descanse em paz".
«Quanto menos uma pessoa sabe mandar, mais deseja alguém que mande, e que mande com severidade - um deus, príncipe, classe, médico, padre confessor, dogma ou consciência partidária.»
A notícia ontem conhecida segundo a qual as remunerações dos gestores das principais empresas cotadas subiram 5,3% em 2011 enquanto o salário médio dos trabalhadores (dos privilegiados que ainda têm trabalho e salário) baixou quase 11%, apenas confirma - se isso precisasse de confirmação - a quem está o Governo a cobrar os custos da "crise" e contra quem é dirigida a política de "empobrecimento" de que fala o primeiro-ministro.
Cresceu igualmente o fosso da desigualdade entre salários de topo e de base: em 2010, os executivos recebiam 37 vezes mais do que os trabalhadores; em 2011, com a propalada "austeridade para todos", essa diferença aumentou... para 44 vezes.
Tudo isto nos deveria levar a cotejar "as propostas (...) para levar a cabo e as medidas que (...) são para cumprir", do programa eleitoral do PSD com o que o PSD fez mal chegou ao poder.
Se tudo o que o PSD prometeu sob "compromisso de honra" a que "não faltaremos em circunstância alguma", foi, como assegura o programa, "estudado, testado e ponderado", é de temer que notícias como a referida (ou como os catastróficos números do desemprego e da pobreza) sejam resultado, não apenas de incompetência e pusilânime servilismo ante as forças financeiras de (não tenhamos medo da palava) ocupação, mas de fraude premeditada.
«Temos, há muito tempo, guardado dentro de nós um silêncio bastante parecido com estupidez.»
«A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.»
A fé cega de Vítor Gaspar em que a receita neoliberal que aprendeu nos livros (mais empobrecimento dos pobres e mais enriquecimento dos ricos) resolverá, se o Deus Mercado quiser, todos os problemas do país é de tipo mágico e não de tipo racional, a versão em economista do mito infantil segundo o qual, se acreditarmos muito numa coisa, ela acabará por realizar-se.
Da História, tal tipo de fé aproveita apenas aquilo que a reforça, ignorando tudo o que a contraria: se funcionou no Chile de Pinochet, porque não há-de funcionar em Portugal?; ou: "Portugal não é a Grécia". E o mesmo da realidade: ainda há dias, uma descida episódica dos juros da dívida pública era um "sinal" de que vamos no bom caminho, agora que os juros voltaram a subir, isso já não é sinal de coisa nenhuma.
O método até pode, sabe-se lá, vir a dar certo. Pelo menos deu certo com aquele personagem de Carl Sandburg que comprou o 42 na Lotaria, anunciando que era nesse número que iria sair a "taluda" e que, quando o 42 de facto saiu, perguntado se acertara por palpite ou se usara um método, respondeu algo do género: "Usei um método científico: atirei ao ar o álbum de família e ele caiu aberto na página 7, onde estavam as fotos do meu avô e da minha avó. O meu avô e a minha avó ambos na página 7, estão a ver? Ora 7 vezes 7 são 42..."
#1689 - Morreu o escritor de livros para a infância Maurice Sendak
O escritor norte-americano Maurice Sendak, considerado um dos mais irreverentes escritores de livros para a infância, morreu, esta terça-feira, aos 83 anos em Connecticut, nos Estados Unidos da América, avançou a AP.
Nascido em Nova Iorque de uma família judaica de origem polaca, Maurice Sendak escreveu mais de 80 livros para crianças e jovens, entre os quais "Onde vivem os monstros", editado em Portugal.
Maurice Sendak foi um dos autores que contribuiu para uma mudança na forma como se escreve para os mais novos, com histórias que mostram que as crianças podem ser cruéis, que se zangam e fazem birras, são mimadas e insuportáveis.
É o caso da personagem "Max", de "Onde vivem os monstros", história já transposta para cinema e que valeu a Sendak o prémmio Caldecott Medal para melhor livro para a infância em 1964.
Em 1970 recebeu o Prémio Hans Christian Andersen e em 2003 o prémio Astrid Lindgren Memorial Award.
No ano passado, Maurice Sendak lançou "Bumble-Ardy", ao fim de 30 anos sem editar um original, e considerava-se um "dinossauro" perante a modernização da ilustração e da edição do livro para a infância.
Sendak estudou pintura e desenho em Nova Iorque, foi ilustrador no All America Comics, trabalhou na criação de guarda-roupa para espetáculos de dança e ópera, produziu séries de animação para televisão a partir das suas ilustrações.
Entre todos os livros que escreveu, Maurice Sendak afirmou numa entrevista que a sua melhor obra era "Brundibar", a história de duas crianças que precisam de trabalhar para ganhar dinheiro e comprar leite para a mãe que está doente.
Em fevereiro deverá sair nos Estados Unidos a obra, póstuma, "My Brother's Book", um poema escrito e ilustrador por Sendak e inspirado na relação com o irmão Jack Sendak.
Caminhamos em cima de vários gumes e, ao menor descuido, ficamos sem a cabeça, decepada por apelos frenéticos embrulhados em slogans que dizem ser, hoje, o dia da redenção das nossas vidas. E corremos... corremos... desesperados, em manada, silenciosos, com os olhos postos no vazio cinzento das nossas almas empunhando profundas tristezas adormecidas pelas cores garridas dos neons, cartazes, placas, anúncios convidativos, sentidos obrigatórios pintados no chão e nos ares que conduzem os nossos passos. E os braços já cansados empurram o corpo faminto, mas empatorrado de inutilidades, que, ao chegarmos a casa, são arrumados num canto escuro que não lembre a nossa estupidez perante a exploração, por quem muito sabe, dos nossos instintos mais básicos.
"Um rato pequeno deu de caras com um gato enorme no meio de um sótão e foi por ele perseguido, sem conseguir encontrar escapatória, até ficar encurralado numa esquina. A tremer, o rato disse-lhe: "Por favor, senhor Gato, não me coma. Tenho de voltar para a minha família. Os meus filhos estão à minha espera, cheiinhos de fome. Peço-lhe por tudo que me deixe partir." Respondeu-lhe o gato: "Não te preocupes, pois não está nos meus planos comer-te. Para ser honesto, ainda que não ande para aí a gritá-lo aos quatro ventos, sou vegetariano. Não consumo qualquer espécie de carne. Foi uma sorte teres topado comigo por acaso." Ao que o rato lhe respondeu: "Ah que dia maravilhoso! Que rato mais sortudo que eu sou, por ter encontrado no meu caminho um gato vegetariano!" Palavras não eram ditas e, no segundo seguinte, o gato saltou para cima do rato, fincou-lhe as garras e imobilizou-o, cravando-lhe em seguida os dentes afiados no pescoço. O rato, agonizante, perguntou então ao gato, com as últimas forças que lhe restavam: "Mas o senhor Gato não me tinha dito que era vegetariano e que não costumava comer carne? Estava a mentir?" O gato, lambendo os beiços, disse: "É verdade que não como carne. Não estava a mentir. Por isso, vou levar-te na boca, para minha casa, e trocar-te por uma alface." (...)
"Um dia em que Valéry se sentia aborrecido, aproximou-se da janela e, com o olhar perdido na transparência de uma vidraça, perguntou: «Qual é a maneira de ocultar um homem?» Gide estava presente; desconcertado por este laconismo estudado, calou-se. Contudo, as respostas não faltavam: todos os meios são bons, desde a miséria e a fome até aos jantares solicitados, desde a Cadeia Central até à Academia. Mas estes dois burgueses muito famosos tinham boa opinião sobre si próprios; lavavam e enfeitavam todos os dias, publicamente, as suas almas gémeas e acreditavam revelarem-se, na sua nua verdade; quando morreram muito tempo depois, um melancólico, outro contente, ambos na ignorância, nem sequer tinham escutado a jovem voz que gritava para nós todos, seus sobrinhozinhos: «Onde se ocultou o homem? Nós sufocamos; desde a infância, mutilam-nos; não há senão monstros!» (...)
Excerto de um texto de Jean-Paul Sartre que serve de prefácio ao livro de Paul Nizan "Aden-Arábia", editado em 1967 pela Editorial Estampa
#1672 - LOCUS SOLUS. IMPRESSÕES DE RAYMOND ROUSSEL
24 MAR - 01 JUL 2012 - MUSEU
O Museu de Serralves, em parceria com o Museu Reina Sofia (Madrid), apresenta a primeira grande exposição sobre a figura do poeta, dramaturgo e romancista francês Raymond Roussel (Paris, 1877 – Palermo, 1933). A mostra, intitulada Locus Solus. Impressões de Raymond Roussel, sublinha a enorme influência que Roussel exerceu em criadores contemporâneos, oriundos tanto do campo da literatura quanto das artes visuais.
A exposição é composta de aproximadamente trezentas peças, entre pinturas, fotografias, esculturas, ready mades, instalações e vídeos, para além de livros, documentos, revistas e manuscritos originais – suportes através dos quais se reflectirá sobre a influência de Roussel em alguns movimentos de vanguarda, especialmente no surrealimo. Alguns dos reconhecidos artistas com obras na exposição são, entre outros, Marcel Duchamp, Francis Picabia, Max Ernst, Salvador Dalí, Jean Tinguely, Joseph Cornell, Rodney Graham, Marcel Broodthaers, Man Ray, Roberto Matta, Guy de Cointet, Ree Morton, Terry Fox, Cristina Iglesias e Francisco Tropa.
Comissariado: Manuel J. Borja-Villel, João Fernandes, François Piron Com a participação de: Guy Schranen Co-produção: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía e Museu de Arte Contemporânea de Serralves
Conheça AQUI o Programa paralelo a esta exposição, com teatro, performance e conversa.
Primeiro vêm as palavras fortes ditas com convicção e fortemente amarradas em verdades que parecem ser honestas, apesar das discórdias que provocam naqueles que pensam outras verdades. Depois, vêm outras palavras que contradizem as outras ditas, e provocam em nós arrepios de febres antigas. É o costume, dizemos nós, já habituados a tanto despudor e a que olhem para nós como se fossemos excrementos de merda humana.
#1664 - Clarice Lispector > Domingo no cais do porto
Oswaldo Goeldi, Mar Calmo, circa 1937, xilogravura a cores, sem numeração, 20,5 x 27,4cm, Coleção Frederico Mendes de Moraes.
Tanto sol, preso ao chão como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada, arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo, -domingo é qualquer coisa como árvores de Natal- brilhando silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não respondendo, sorrindo, puro domingo.
Satisfação, satisfação. Pura tristeza sem mágoa. Tristeza que parece vir de trás da mulher de cor-de-rosa. Tristeza de domingo no cais do porto, os marinheiros emprestados à terra. Essa tristeza leve é a constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar esse conhecimento súbito, vem a tristeza.
LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.169. IN
No cinema e na fotografia a pele é muito mais do que "o maior órgão do corpo humano". Para além de definições de anatomia e fisiologia engessadas pela ciência, a pele reivindica e assume o status de “meio e suporte” das artes visuais. Isso de certa forma confirma a tal frase: “tudo depende do ponto de vista do observador”. Feita a corruptela do postulado de Einstein em sua teoria da relatividade, vamos ao que interessa, ou seja, vamos ao ponto de vista da sétima arte.
No instigante filme O Livro de Cabeceira (The Pillow Book), a pele (e por extensão o corpo) literalmente serviu de papel para a palavra, subvertendo suas funções orgânicas e biológicas. O filme, inspirado na obra homônima da literatura clássica japonesa escrita no século X pela dama-da-corte imperial Sei Shonagon, e lançado em 1996 pelo diretor britânico Peter Greenaway, apresenta-nos Nagiko (interpretada pela bela Vivia Wu) que de forma sensual e erótica usa o corpo de seus amantes para escrever e fazer com suas peles seu livro de cabeceira.
Nas fotografias da peruana Cecília Paredes Polack, pele e corpo são suportes para a imagem pictórica. Em sessões que chegam a durar sete horas, o corpo da própria artista é minuciosamente pintado por assistentes e depois fotografado. Uma curiosidade aproxima Greenaway de Paredes: ambos têm formação em artes plásticas. No início de sua carreira profissional, o diretor britânico foi pintor e, quando dirigiu O Livro de Cabeceira, buscou inspiração em diversos pintores orientais e ocidentais como Utamaro, Hosukai e Hiroshige e Gauguin, Degas, Whistler, Schiele, Toulouse Lautrec, Vuillard e Klimt.
Tanto no filme de Peter Greenaway quanto nas photoperformances de Cecília Paredes, a arte está o tempo todo a nos provocar com reflexões estéticas, filosóficas, históricas e antropológicas. Enquanto em O Livro de Cabeceira as peles dos personagens recebem caligrafias ideográficas, resultando em 13 livros escritos sobre os corpos, nas fotografias de Cecília Paredes pele e corpo são metamorfoseados em imagens antropomórficas de animais, plantas e paisagens com a intenção deliberada de a artista de confundir o próprio corpo com a natureza e a natureza com o corpo. Nesse exercício de revela-esconde de Paredes, nada é o que parece ser, tudo é ilusão tridimensional.
Ao introduzir-se nas paisagens de natureza (a artista também é fotografada inserida em paisagens de desenhos geométricos), Cecília Paredes mostra-se presente e observadora para a questão da pele da natureza e a natureza da pele. Uma espécie de alerta para o atual processo de extinção da flora e fauna do planeta. A artista já declarou que ao inserir-se nas paisagens também trabalha a questão de construir a sua própria identificação com o ambiente, ou a parte do mundo onde ela vive e que sente que pode chamar de lar. Tudo a ver com a sua biografia, a qual define como nômade.
Talvez essa seja uma necessidade da artista em abordar o seu processo de deslocalização constante. Mudança, adaptação a ambientes, migração e equilíbrio entre o homem e a natureza são alguns dos temas de sua obra, na qual estética e antropologia estão reunidas em registros de fragmentos da memória pessoal e social da artista. Os deslocamentos de Cecilia Paredes começaram quando ela ainda era jovem e saiu de sua cidade natal, Lima, no Peru, para estudar artes na Inglaterra e Itália. Depois, voltou para as Américas. Hoje ela tem simultaneamente mais de um lar e vive e trabalha entre Filadélfia, nos Estados Unidos, e San José, na Costa Rica, país onde viveu por 23 anos e com o qual tem uma ligação forte, pois foi lá que desenvolveu sua carreira.
Em um primeiro olhar pode-se pensar que o que Cecília Paredes faz é camuflagem corporal. Mas um olhar mais apurado revela que a artista não tem a intenção de desaparecer por completo, tanto que deixa à mostra os próprios cabelos negros. Mimetismo talvez seja a definição mais apropriada. Ao mesmo tempo que partes do corpo dela são detectadas,este é confundido com o cenário.
Aqui uma curiosidade: se o cabelo negro à mostra é uma pista para denunciar o corpo da artista, no filme de Peter Greenaway ele está ali para sugerir o brilho da tinta preta. Na versão inicial do roteiro de O Livro de Cabeceira, construído em forma de verbetes em 1984 e intitulado "26 APONTAMENTOS SOBRE A PELE E A TINTA* - O Livro de Cabeceira, de A a Z", Peter Greenaway escreve o seguinte verbete: “A - A pele mais adequada para ser escrita deve ser muito clara, talvez a de um corpo cujo cabelo bem escuro sugira o brilho da tinta preta”.
Entramos então nos campos da inspiração e da sugestão. Vale lembrar que a arte de Cecília Paredes caracteriza-se pela cartografia que nos possibilita entrar no intrincado arquivo da imaginação, segundo o escritor e crítico de arte Luis Fernando Quiros. Podemos imaginar assim uma simbiose pictótorica onde o sagrado e o profano interagem, onde pele e corpo são ao mesmo tempo coadjuvantes e protagonistas.
Desde o início da carreira da artista, a questão corpo (e sua memória) estão presentes. O corpo é apresentado como o fundamento da cultura e já houve quem observasse que, ao metamorfosear-se em natureza, o corpo-objeto de Paredes rompe com a perniciosa tradição judaico-cristã da vitimização feminina. Na arte de Cecília Paredes o corpo não é uma dimensão inferior e limitada, contraposto à alma (perfeita, eterna e imutável), tal como afirmava Platão. Ao contrário, esse “veículo biológico frágil, instável e perecível” revela-se poderoso e infinito de possibilidades.
Enquanto no filme de Peter Greenaway o corpo serve para a metáfora do “livrocorpo”, na arte de Cecília Paredes ele é “telacorpo”, objeto de experiências estéticas e espaço de repercussões dialéticas e metafóricas. Foi o francês Maurice Merleau-Ponty em seu ensaio O Olho e o Espírito (L’oeil et l’esprit) quem disse: “É emprestando o seu corpo ao mundo que o pintor transforma o mundo em pintura”. Cecília Paredes não apenas empresta o seu corpo ao mundo, mas a sua própria alma. E nesse processo de transmutação no qual o corpo é mais do que pele, carne, sangue, músculos, células e nervos ela transforma o mundo em arte, vida e poesia. Não necessariamente nessa ordem. Conheça mais sobre a arte de Cecilia Paredes no site da artista.
É conhecida a anedota da singular noção de causalidade daquele investigador que cortou as patas a uma rã e lhe disse: "Salta!"; e que, como a rã não saltasse, concluiu que, quando se cortam as patas às rãs, elas deixam de ouvir.
Ocorreu-me essa história ao saber do estudo que sustenta mais uma nova redução das indemnizações por despedimento que o ministro Álvaro (quem haveria de ser?) anunciou que levará à Concertação Social, estudo que conclui que... nos países desenvolvidos indemnizar trabalhadores despedidos não é obrigatório. Assim, acabam-se com as indemnizações por despedimento e, zás!, passamos a "país desenvolvido". E poder-se-ia ainda aumentar também os salários para os níveis praticados nos países desenvolvidos e então é que ficaríamos tão desenvolvidos, ou mais, que os países desenvolvidos. A ideia, no entanto, não ocorreu ao ministro Álvaro, como não lhe ocorreu a ideia de se demitir, pois nos países desenvolvidos ninguém salta da blogosfera para ministro...
A mesma provinciana lógica causal foi recentemente invocada pelo secretário de Estado da Saúde para justificar uma nova cruzada antitabagista: nos países desenvolvidos - mais um esforço, portugueses, se quereis ser nova-iorquinos! - é proibido fumar na rua, no automóvel, na própria casa de cada um.
E, já agora, por que não restaurar também a pena de morte, seguindo esse exemplo extremo de país desenvolvido que são os Estados Unidos?
#1661 - As finalistas do Prémio Orange para Ficção
Três escritoras americanas, uma canadiana, uma britânica e uma irlandesa estão nomeadas para a 17ª edição do Prémio Orange para Ficção que vai ser atribuído a 30 de Maio, em Londres. Entre as seis finalistas está Ann Patchett, a vencedora deste prémio em 2002, e Anne Enright, vencedora do prémio Man Booker, em 2007.
A presidente do júri, Joanna Trollope, considerou terem chegado este ano a uma "shortlist" onde é "notável" a qualidade e variedade. "É um privilégio apresentar esta lista. Só tenho pena que as regras do prémio não permitam que a lista seja mais longa. De qualquer maneira estou convencida de que as 14 obras que tivemos de deixar para trás vão ter o sucesso que merecem", disse a escritora britânica.
,, que já recebeu o Prémio Orange para Ficção há dez anos, em 2002, com o romance "Bel Canto" (ed. Gradiva), está nomeada, este ano, outra vez. É a terceira vez que a escritora norte-americana é seleccionada e concorre com "State of Wonder", romance que se passa na floresta amazónica, no Rio Negro, e é descrito como "um épico". Reflecte sobre a ciência e a memória através da história de uma cientista que trabalha numa droga que poderá mudar a vida das mulheres para sempre.
Outra das seis finalistas da 17ª edição do único prémio literário britânico que distingue o trabalho de escritoras em língua inglesa, é a irlandesa Anne Enright, que já venceu o Man Booker em 2007 com "The Gathering" ("Corpo Presente", ed. Gradiva). Foi escolhida por "The Forgotten Waltz", uma obra que trata da "memória do desejo", conta uma história de amor e traição num subúrbio moderno de Dublin.
Uma primeira obra, "The Song of Achilles", está entre as finalistas. É da escritora norte-americana Madeline Miller, que ensina latim e se inspirou na "Ilíada", de Homero. O júri considerou o livro, que conta a história de Aquiles e das guerras de Tróia, "fabuloso".
A americana Cynthia Ozick, 84 anos, foi escolhida pelo seu sétimo romance, "Foreign Bodies", e tornou-se na escritora com mais idade a ter estado alguma vez na "shortlist" na história deste prémio. Inspirou-se na obra de Henry James para contar a história de Bea Nightingale, uma nova-iorquina que nos anos 1950 parte para França.
A única britânica finalista, Georgina Harding, concorre com "Painter of Silence", um romance no tempo do pós-guerra na Roménia sobre Iasi, um homem surdo-mudo artisticamente dotado.
Por fim, o júri escolheu "Half Blood Blues" da canadiana Esi Edugyan, que foi finalista, do prémio Man Booker 2011 com este romance sobre o remorso e músicos de jazz negros a viver em Paris na altura em que estava ocupada pelos nazis.
O nome da vencedora do prémio no valor de 30 mil libras (pouco mais de 36 mil euros) vai ser anunciado no dia 30 de Maio numa cerimónia no Royal Festival Hall de Londres. O ano passado o prémio foi atribuído a Téa Obreht pelo "A Mulher do Tigre" (ed. Presença).
Max Weber considerava serem três as qualidades que permitem a um ator político tornar-se num estadista. São elas: a paixão; o sentido da responsabilidade; e a capacidade de avaliação. Quem tenha escutado Passos Coelho e Paulo Portas no "debate" parlamentar sobre a ratificação dos Tratados da chanceler Merkel facilmente perceberá que Portugal, nem remotamente, é governado por estadistas. Os Tratados de Merkel não valem nada por si próprios. Nunca serão cumpridos. A Espanha do socialista Zapatero apressou-se a inserir a regra de ouro (do défice orçamental) na Constituição, e o resultado foi um explosivo valor de 8,5% em 2011! A Grécia, que está em estado comatoso, foi o primeiro país a votar o Tratado Orçamental. A falta de capacidade de avaliação de Passos e Portas é tal que nem percebem o ridículo de nos juntarmos aos gregos na pressa de ratificar tratados que nunca iremos cumprir! O sentido da ratificação destes tratados por Portugal não pertence à política, mas à etologia, à ciência do comportamento animal. A UE, agora que o Tratado de Lisboa está enterrado, pode ser comparada a um bando de gorilas, trocando entre si gestos de domínio e submissão. A irresponsabilidade de Passos e Portas apenas diz: "A chanceler manda, e nós obedecemos!" Berlim está a conduzir a Europa de uma situação de crise para a catástrofe geral. Os danos materiais e morais causados pela rigidez germânica na periferia europeia são já de um valor incalculável. A Passos e Portas falta, ainda, uma qualidade mais básica para o bom governo: ser capaz de pressentir o perigo iminente. O País está exangue, face a um abismo onde a sombra da morte do projeto europeu se insinua, avassaladora. Passos e Portas apenas têm paixão para sussurrar ao ouvido de Merkel: "Vamos em frente!"
Imagine-se a dar a volta ao mundo. Uma viagem aos lugares por onde outros portugueses passaram ao longo do tempo e deixaram a sua marca, arquitetónica e urbanística, como resultado do intercâmbio cultural com povos de diversos continentes: América do Sul, Ásia e Oceânia, Norte de África, mas também Mar Vermelho, Golfo Pérsico e África Subsaariana. Agora imagine um dicionário online de matriz geográfica, que reúne toda a informação sobre esses lugares, numa base de dados georreferenciada. Imagine também que quer dar o seu contributo, com textos ou conteúdos gráficos (fotografias, desenhos, iconografia, etc.), acrescentando ou corrigindo a informação já existente.
Não precisa de imaginar. Bem-vindo ao sítio do Património de Influência Portuguesa. Junte-se a nós, navegando e colaborando.
A partir de 17 de abril, o trabalho de inventariação de todo o património arquitetónico e urbanístico de influência portuguesa, um projeto único no mundo que a Fundação Gulbenkian tem vindo desenvolver desde 2007, sob a direção de José Mattoso, está agora reunido num site interativo, em versão portuguesa e inglesa: www.hpip.org
O novo portal HPIP – Heritage of Portuguese Influence / Património de Influência Portuguesa – é uma evolução natural do projeto editorial Património de Origem Portuguesa no Mundo – Arquitetura e Urbanismo, reunindo o conteúdo dos volumes publicados e permitindo que este trabalho de inventariação se mantenha em permanente atualização. Este acervo de características únicas passa a estar acessível a todos, em qualquer parte do mundo.
São 1865 entradas, de obras espalhadas em 565 locais, organizadas numa base de dados georreferenciada, apresentando-se a informação de forma integrada e cruzada.
Concebido para ser aberto a contribuições externas, o novo portal convida os internautas a propor novas entradas, acrescentar conteúdos escritos ou gráficos, sugerir alterações ou denunciar erros. As propostas são submetidas online, ao que se segue um circuito interno de verificação e validação da informação. Os novos dados são incorporados no texto original, que assim passará a ter uma autoria partilhada e devidamente identificada.
#1657 - O primeiro livro infantil de José Luís Peixoto
O protagonista do primeiro livro infantil de José Luís Peixoto é filho da chuva. Com uma mãe tão original, tão necessária a todos, tem de aprender a partilhar com o mundo aquilo que lhe é mais importante: o amor materno. Através de uma ternura invulgar, de poesia e de uma simplicidade desarmante, este livro homenageia e exalta uma das forças mais poderosas da natureza: o amor incondicional das mães.
"A ingénua ideia de que através da educação se pode transmitir a cultura à totalidade da sociedade, está destruindo a alta cultura, pois a única maneira de conseguir uma democratização universal da cultura é empobrecendo-a."
"Com uma tão grande irresponsabilidade como a nossa irreprimível vocação pelo jogo e diversão, fizemos da cultura um dos mais vistosos, mas frágeis castelos de areia que se desfazem ao primeiro golpe de vento."
"A literatura light, como o cinema light e a arte light, dá a cómoda impressão ao leitor e ao espectador de ser culto e de estar na vanguarda com um mínimo esforço intelectual"
A obra é uma antologia de nove contos, em que "todas as personagens parecem estar empenhadas numa confrontação com o Tempo", escreve a editora sobre o derradeiro livro de Tabucchi, que é editado quase 30 anos após o primeiro publicado em Portugal, em 1983, "A mulher de Porto Pim", também uma coletânea de contos.
#1652 - Morreu o escritor italiano António Tabucchi [1943-2012]
Escritor italiano nascido em 1943, em Pisa. Tendo sido professor de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Génova, foi director do Istituto Italiano di Cultura em Lisboa. Dedicado ao estudo da figura de Fernando Pessoa, produziu ensaios sobre este autor e traduziu obras suas. Paralelamente à sua actividade de pesquisa e crítica literária, tem criado uma notável obra como ficcionista, de onde se destacam Donna di Porto Pim (A Mulher de Porto Pim, 1983), Notturno Indiano (Nocturno Indiano, 1984), Piccoli Equivoci Senza Importanza (Pequenos Equívocos sem Importância, 1985) e Sostiene Pereira (Afirma Pereira, 1994). Esta última deu origem ao filme com o mesmo nome, realizado por Roberto Faenza e filmado em Portugal. Em 2001, um artigo que escreveu para o jornal fancês Le Monde e que foi traduzido pelo jornal espanhol El País (acerca da liberdade de expressão), fez com que António Tabucchi fosse galardoado com o Prémio de Liberdade de Expressão Josep Maria Llado, na Catalunha, em Espanha.
Vivemos no interior do medo. O medo deixou de ser um sentimento comum à condição para se transformar numa ideologia e numa arma política. A Inquisição e Salazar deixaram discípulos. Não conseguimos libertar-nos desta fatalidade histórica porque há quem limite as nossas forças e liquide as nossas esperanças. Por outro lado, aceitamos este fardo como um anátema. Reagimos escassamente mas não continuamos as acções contra a afronta. Ver os noticiários das televisões, ler a Imprensa tornou-se um exercício penoso, que conduz à depressão. Parece que o mundo desabou sobre os pobres portugueses. Tudo se enleia para favorecer o nosso infortúnio. Em nada acreditamos: a falsidade, a omissão, a desvergonha atingiram níveis desusados, e ninguém descortina onde está a mentira, e onde se oculta a verdade do que nos dizem.
As informações são um caudal contraditório; e há declarações tão surpreendentes quanto imponderáveis. Mohamed El-Erian, um desses senhores do mundo, que poucos saberiam quem é, assevera que Portugal vai pedir mais dinheiro e segue, cabisbaixo, o caminho da Grécia. Erian, leio no Diário de Notícias, é o presidente do maior fundo de investimento mundial e não costuma utilizar a metáfora nem o epigrama para falar das coisas. Papandreu, grego, socialista, primeiro-ministro até há bem pouco tempo, também não faz reserva em dizer que está aberta a vereda para seguirmos a passada do seu país.
O papão, o medo viscoso, ondulante, assustador é a Grécia. A Grécia, tal Asmodeu, rei dos demónios, é o crepúsculo como alegoria de todas as tragédias. Afastamo-nos, repugnados e receosos do contágio. Temos tudo a ver com a Grécia, mas nada queremos ter a ver com a Grécia. Os gregos são a doença infecciosa, larvar, perigosíssima. Passos Coelho, quando regressa de viagens, proclama logo, pensativo, austero e formal: com a Grécia, nem tomar café. Julgando, talvez, que esta frase corresponde a um optimismo criador.
Vivemos num confuso e absurdo almofariz de dubiedades. Agora, para rematar estes clássicos do assombro, surge Vítor Gaspar, campeão do humorismo involuntário, e assegura, arfante: "No dia 23 de Setembro de 2013 regressaremos aos mercados." Vinha dos Estados Unidos. E tudo indicava que lhe tinham segredado a extraordinária novidade. Ninguém sabe, nem Gaspar esclarece o mistério de tão prodigioso milagre.
O português comum, que sobrevive asfixiado entre o desemprego, o fisco, a multa, a humilhação, o vexame, a fome, a doença, a miséria, os impostos, as taxas moderadoras, a demolição do amor, o divórcio, a emigração, e outra vez a fome, a doença, a miséria, os impostos, esse português desorientado, desgraçado e triste sem remissão - que pode fazer ele?, que pode? Em cada um de nós reside a resposta sobre o compromisso com a honra e a recusa da servidão e da indignidade.
Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido
Arnaldo Saraiva
Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?
Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.
Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Itabira de Drummond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de contar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses...
Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Hamburgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.
Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?
Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto muito do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Guimarães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.
Mas não chegou a conhecer Aquilino?
Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi alguns livros dele, o empregado perguntou-me se eu queria conhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.
Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os "notáveis escritores e poetas" que estavam a "encostar a pena contra a lava" que ia no Brasil "sepultando prosódia e morfologia da língua-mater"? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal...
Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.
Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.
Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, como infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.
Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?
Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Portugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Bernardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” estão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me separa dos portugueses.
Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Guimarães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado nenhum livro de cavalaria, nem nenhuma novela bucólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Grande Sertão: Veredas”...
Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Bernardim (Bernardim Ribeiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Camilo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal...
... que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” - e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso - pelo campo da “invenção linguística?
Quando escrevo, não penso na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Moçambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Portugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sempre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.
Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo: “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Corpo de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção...”.
Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.
A história da acumulação primitiva do capital é uma história do coração das trevas — o horror, o horror, o horror. Tanto do ponto de vista humano — vidas são sacrificadas — quanto da corrupção e da violência.
O banqueiro J. P. Morgan acertou quando disse que poderia justificar sua fortuna, mas não seu primeiro milhão. A acumulação primeva é quase sempre brutal.
A fortuna de um poderoso empresário brasileiro, praticamente visto como aristocrata, tem origem na venda de escravos. Naturalmente, sua biografia, hoje exemplar, omite a “mancha” dos negócios do avô.
No filme “O Poderoso Chefão 3”, de F. Ford Coppola, o mafioso Michael Corleone tenta “limpar” seus negócios buscando alianças com empresários e banqueiros legais — inclusive financistas do Banco do Vaticano.
Entretanto, ao se envolver com os homens dos negócios “limpos”, Corleone descobre que seus negócios são tão “limpos” quanto os das organizações criminosas ítalo-americanas. O mafioso tinha uma ideia equivocada do mundo real. O que “mata” Corleone não é apenas uma doença, mas sobretudo a percepção de que sua inteligência prática, o pragmatismo herdado do pai, rico em frases de efeito, o enganara no confronto com o mundo dos homens “normais”.
O filme sugere um elogio da máfia, por causa de certa glamourização. Na verdade, Coppola anuncia, no terceiro filme, a morte da máfia que tentou ser inteiramente “legal”. Devolve, por assim dizer, a máfia ao crime mais banal, à violência. A máfia de smoking não funciona — é o recado dos “mafiólogos” Mario Puzo e Coppola.
Numa frase até grosseira, um filósofo inglês sugeriu: “Quer pureza no mundo real? Então, não vá ao convento”. O fato é: a sociedade quer que todos os negócios sejam limpos? Talvez até queira, mas a vida real corre por linhas tortas, como notou Kant, citado pelo filósofo anglo-letão Isaiah Berlin. Uma sociedade mais “reta” precisa ser mais lenta, menos voltada para o presente consumista e mais para um futuro menos comercial. Entretanto, como notou com perspicácia o instigante Berlin, não há sociedade e homens perfeitos. A tentativa de construí-los acaba por levar não ao paraíso — os marxicidas queriam, sim, construir uma sociedade de iguais, pois eram idealistas —, ou à democracia social, e sim à ditadura.
Mas, sim, de vez em quando precisamos pegar um fruto podre, ou supostamente podre, e jogá-lo “fora”. Aí ficamos com a impressão de que a sociedade melhorou e, portanto, estamos “limpos”. Faz bem à eterna “impureza” do ser.
#1647 - Festival para gente sentada em Santa Maria da Feira
Festival Para Gente Sentada a 24 e 25 de março em Santa Maria da Feira
Ponto alto da cena independente de música confirma “Tindersticks” em cartaz
Como tem sido habitual, de há vários anos a esta parte, o Festival Para Gente Sentada, que em 2012 conta a sua 8ª edição, marca o roteiro nacional de festivais, sendo único no seu género.
Ocupando o intimismo do Cine Teatro António Lamoso em Santa Maria da Feira, o “Gente Sentada” confirma datas para 2012 a 24 e 25 de março, com os cabeças de cartaz a dar mote prometedor – Low, para a noite de 24 e Tindersticks a prometer casa cheia no dia 25.
Sendo uma das bandas de referência da música independente no seu característico estilo indie rock, os Low, originários do estado do Minnesota (EUA), apresentam, na sua formação original, Alan Sparhawk na voz e na guitarra e Mimi Parker na percussão e na voz, desde 2010 a banda contam com a incontornável presença de Steve Garrington na guitarra baixo. Como marcas de referência no seu caráter singular distinguem-se a combinação da delicadeza com a distorção, como nenhuma outra.
Com várias presenças e passagens marcantes por Portugal, de norte a sul do país, do Coliseu dos Recreios à Casa da Música, a banda inglesa de Nottingham promete o que de melhor este festival tem para oferecer aos seus seguidores mais fiéis – intimismo, harmonia e a autenticidade de song writers distintos. Os britânicos apresentarão no Festival Para Gente Sentada o seu mais recente álbum – “The Something Rain” – que só chegará às lojas em Portugal no final do mês de fevereiro, sendo este o 9º álbum de originais da banda, a reafirmar o caráter imperativo e incontornável da banda está o single de apresentação do álbum “Medicine”.
Todos sabem como o escorpião paga ao sapo que o ajuda a atravessar o rio. Pica-o, mesmo que isso implique a morte de ambos, porque essa é a sua natureza. A história repete-se agora como farsa no mundo financeiro. A crise acabou por contaminar a economia global com os vírus que hoje ninguém consegue combater com os melhores remédios. Para acudirem à fraqueza dos bancos e os salvarem da falência, os Estados injetaram dinheiro no sistema financeiro e ficaram, eles próprios, à mercê daqueles que salvaram. François Chesnais mostra-nos como os mecanismos financeiros e bancários estiveram na origem das atuais dívidas soberanas. E avança com uma proposta: os europeus devem ir para o campo de batalha, denunciando estas como dívidas ilegítimas. O alvo é claro: os bancos desviaram-se da sua missão original e a atividade atual é um pecado sem fim. «Assim, os bancos afastaram-se da sua função indispensável de crédito aos particulares e às empresas para se dedicarem a atividades de especulação financeira nocivas e desprovidas de utilidade social.» A solução passa por voltar a colocá-los nos eixos, afastando-os da sua atividade de grupos financeiros diversificados que vivem de operações sem ligação à criação de riqueza económica real. Para este economista francês, professor e membro do ATTAC, entre a vida dos bancos e a sobrevivência da sociedade é preciso optar por esta e não seguir aquilo que tem sido a palavra de ordem da classe política.
As Dívidas Ilegítimas (Temas e Debates, trad. Artur Lopes Cardoso) é um livro bem estruturado e defendido, onde o autor francês coloca interrogações legítimas sobre um mundo virtual que atirou a sociedade para as areias movediças.
Texto de Fernando Sobral, in Revista Ler, pag. 64 [Março 2012]
Vivemos mum país desconhecido. Por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida. Quantas doenças psíquicas foram desencadeadas pela crise? Quanta energia vital se desperdiça na fabricação da imagem de um rosto jovem necessário exigido por tal profissão? São "dados" incognoscíveis ou imateriais, não susceptíveis de se tornarem informação. São não-notícias.
O Público deu-nos a possibilidade, neste número, (Jornal Público, edição de 5 de Março de 2012), de fazer aparecer esse avesso do estado da nação, levantando uma ponta do véu que o recobre e o esconde. Não se tratou, pois, de informar ou de desinformar, mas de fazer pensar diferentemente no país que temos e na informação que dele dispomos.
Ordenámos a não-informação em três categorias: o que é impossível conhecer (por exemplo, aquele factor decisivo, singular, único do "talento", que não entra numa grelha de avaliação de competências de um aluno), mas é condição essencial para que se ordene de modo inteligente, ético e eficaz a infoemação que se conhece; o que não se conhece mas que se poderia e deveria conhecer (o número de mortes estimado por atraso na lista de espera de uma operação) para o fazer entrar numa decisão política ou outra; o que seria possível conhecer mas que se torna impossível saber porque o seu conhecimento poria radicalmente em questão o regime das nossas sociedades pós-democráticas (por exemplo, o número de políticos corruptos). As inúmeras perguntas que fizemos aos organismos competentes receberam não-respostas, confirmando a ideia de um vazio obrigatório de informação: na secção "Pobreza" os dados recolhidos não permitem um plano de combate exaustivo e eficaz à pobreza; na secção "Política" a ausência de números oficiais sobre os políticos que detêm depósitos em offshores indica que a transparência nesse domínio subverteria o nosso regime político; e assim por diante.
O nosso país está demasiado "cheio" (de informações, imagens, bugigangas de toda a espécie) e quanto mais se enche mais se enterra o vazio essencial a que não se dá a importância que tem. Acreditamos que a informação que, por definição, vive da positividade do dado, do pleno, que nos enche os olhos e o cérebro criando a ilusão de pensamento, pode ser tratada de outra forma. A massa de informação a que hoje temos acesso contribui para uma espécie de visão global que faz da realidade um conjunto de coisas e factos objectivos - de que decorre ao mesmo tempo a despoetização do mundo e um crescente caos afectivo. Contra isso, acreditemos nas virtudes do vazio.
O que fizemos - em trabalho extraordinário de equipa - sugere a possibilidade de traçar um mapa de Portugal que mostre os trajectos duplos, de um pleno que constantemente atropela e exclui o vazio; e dos movimentos do vazio que abrem linhas de fuga, incita a pensar diferentemente, desencadeia poderosas forças de criação. Não estamos condenados ao que julgamos que nos condenaram. Só assim poderemos conceber reformas radicais que libertem as energias e mudem o país.
Editorial de José Gil no Jornal Público de 5 de Março de 2012
«O coala é levado às cavalitas pela mãe» e isso parece excelente também aqui nas ruas do México, em que as mães levam os filhos às cavalitas e também ne europa os meninos vão às cavalitas e também nas inundações e por vezes nos incêndios e por vezes nos terramotos, é bom sempre este dorso de cavalo que a mãe tem e que permite que os meninos subam às suas cavalitas e pensem que é uma brincadeira o que afinal é desespero.
Texto de Gonçalo M. Tavares in «Canções Mexicanas»
Rostos na Multidão é o primeiro romance da mexicana Valeria Luiselli editado em Portugal em 2012 pela Bertrand.
«Rostos na Multidão é uma história onde se encontram duas vozes: a da jovem editora, uma espécie de Emily Dickinson do século XXI, e a de Owen, um obscuro poeta mexicano que viveu em Harlem nos anos vinte. À medida que ela conta o seu intenso passado como editora em Nova Iorque, altura em que tentou desesperadamente convencer o diretor a publicar a obra de Owen, entretanto feito fantasma que a assombrava no metro, vai deixando transparecer a lenta mas inevitável desintegração da sua família no presente. Até que a sua história se desdobra na do próprio Owen, o poeta em tempos amigo de García Lorca e que termina os seus dias febrilmente num apartamento em Filadélfia. Um romance intimista, vertiginoso e original, onde a vida e o destino dos dois protagonistas se cruzam de forma inesperada e vão convergindo até um final surpreendente e inesquecível.»
«O assassinato de duas prostitutas, no Rio de Janeiro, que, de início, parece obra de um maníaco sexual, abre uma caixa de Pandora de onde vão brotando, no decorrer de uma ação trepidante, as complexas ramificações de um tenebroso sindicato do crime. A história passa-se em boîtes e bares sórdidos, em sumptuosas mansões do Rio, em vilarejos da fronteira entre a Bolívia e o Brasil, onde reinam a cocaína e o crime, bem como na interminável viagem de um comboio que percorre metade do Brasil com couchettes que rangem sob o peso de casais fazendo sexo.» Do posfácio de Mario Vargas Llosa.»
Eva, mulher de Adão, concebeu trinta filhos. Um dia, Ygziabier, Deus-Pai, ordenou a Eva que lhe mostrasse os seus filhos. Eva suspeitou que Deus lhe quisesse comer a descendência e escondeu os seus quinze filhos mais belos e apenas lhe mostrou os outros quinze. Mas Deus, que tudo conhece, soube que Eva escondera parte dos seus filhos, e por isso, como castigo do acto de Eva, amaldiçoou e deserdou aqueles que ela subtraíra à sua presença.
Os quinze filhos escondidos de Eva tornaram-se os Zar, os seres satânicos que habitam invisíveis a terra. Ficaram para sempre invejosos dos seus irmãos protegidos por Deus-Pai, que deram origem a Jesus Cristo e aos antepassados do povo Amhara. Magoados e revoltosos, procuram desde a sua queda vingar-se dos homens mortais.
Texto traduzido por Manuel João Ramos e originário da Etiópia, Amhara, retirado do livro Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro - edição Assírio & Alvim
O Presidente alemão, Christian Wulff, acaba de apresentar a demissão do cargo, por causa do seu envolvimento num alegado caso de corrupção. Será substituído interinamente pelo presidente do Bundesrat, Horst Seehofer (CSU). A chanceler Angela Merkel cancelou em cima da hora uma viagem a Itália, e também convocou os media para uma conferência.
Chama-se Pista de Gelo. É a mais recente tradução portuguesa de um livro do escritor chileno Roberto Bolaño e chega às livrarias no dia 6 de Março, pela mão da editora Quetzal.
O romance, escrito em 1993, narra a história da morte da bela patinadora Nuria Marti. É contado pela voz de três narradores, três homens e constrói-se sobre as linhas características do projeto narrativo de Roberto Bolaño: um espaço de reflexão sobre a corruptibilidade dos políticos, sobre a ação perturbadora do amor, sobre o desenraizamento, amizade e a dissolução dos sonhos.
#1620 - Correspondências > Fernando Pessoa a Ofélia
Meu Be«be»zinho lindo:
Não imaginas a graça que te achei hoje à janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos). Tenho estado muito triste, e além d’isso muito cansado – triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d’essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado… Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria à minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável. Enfim…
Amanhã passo à mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella? Sempre e muito teu
In: PESSOA, Fernando. Cartasde Amor. Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.3ª ed. Lisboa: Ática, 1994.
Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex.a. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex.a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex.a dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex.a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece.
Camilo Castelo Branco
(Última carta de Camilo Castelo Branco ao Dr. Edmundo de Magalhães Machado, seu médico oftalmologista)
#1614 - Troika proíbe ‘orgasmo simultâneo’ porque os casais têm de optar: Um goza, o outro trabalha
Durou pouco o sonho português de se vir a perceber como regular o trânsito sexual, por forma a tornar o orgasmo simultâneo. Uma sexóloga preparava-se para revelar o segredo no salão erótico do Porto, mas a Troika emitiu um comunicado onde diz que os casais têm de optar, uma vez que só um deles pode gozar. O outro deve estar a trabalhar.
«É verdade que Portugal está a fazer bem o trabalho de casa, mas os mercados não vão compreender se virem os casais à procura do orgasmo simultâneo com a bancarrota a espreitar», afirmou o senhor do FMI, que explica: «Enquanto a crise não passar, recomenda-se que o casal decida quem vai gozar dessa vez. Depois é fácil, um goza, o outro passa o coito a trabalhar.»
Contactados pelo Imprensa Falsa, os portugueses mostraram-se descontentes com mais esta medida de austeridade, mas também recordam que sempre foi assim. «A bem dizer, sempre houve um que gozava e o outro "trabalhava", se é que me entende. Mesmo no tempo do senhor doutor Cavaco e Silva, já era assim. Um gozava e o outro trabalhava, não havia cá orgasmos simultânicos. E naquela altura ainda havia os fundos da C.E.E. Agora veja lá...», recorda Simoneta, casada com Armando, que foi abanando afirmativamente a cabeça durante a resposta da mulher, tendo concluído, já no final, «é verdade, sim senhor».
A secretária de Estado da Saúde francesa escreveu, a propósito da vaga de frio: «as pessoas mais vulneráveis devem evitar sair de casa, sobretudo os sem-abrigo, as crianças e os idosos». Isto não é uma gaffe. É um modo de pensar da maior parte dos governantes na Europa. A sua «zona de conforto» está distante da realidade. Os «sem-abrigo» são uma categoria estatistica, como «os jovens desempregados» ou os «reformados» ou o «salário minimo». Eles não sabem que os sem-abrigo não têm casa, como não sabem como conseguem viver os desempregados ou, mesmo os que trabalham, mas que recebem o salário minimo. Eles não fazem a menor ideia. É por isso que dizem que todos eles «vivem acima das suas possibilidades» e, por isso, ainda os empobrecem mais.
Biblioteca da Universidade de Coimbra (1290), Portugal
Ao longo de toda a existência, o homem sempre buscou formas de perpetuar o seu conhecimento e transmiti-lo a gerações futuras. O que seria da história ou do conhecimento se os episódios e vicissitudes da humanidade não estivessem escritos e armazenados em algum lugar? Simplesmente seriam factos que muito rapidamente se tornariam lendas.
Todos nós temos um local que nos fascina. Um local que possui uma aura quase mágica que nos faz pensar e reflectir sobre os mais diversos aspectos. Um dos locais que mais me fascina e atrai é uma biblioteca antiga, cheia de livros e conhecimento. Percorrer o mesmo local que alguém percorreu há centenas de anos, prateleira após prateleira, armário após armário, com livros que outrora foram a única porta aberta para o conhecimento e evolução da própria humanidade é uma experiência arrebatadora.
Saber que alguns dos livros de uma biblioteca foram outrora folheados por alunos e mestres que muito possivelmente alteraram a realidade humana através dos seus contributos em áreas como a medicina, filosofia, engenharia ou poesia, torna toda a experiência de estar num local destes, no mínimo, fascinante.
Deixo-vos algumas imagens destas fantásticas salas de conhecimento.
Real Gabinete Português de leitura (1837), Rio de Janeiro, Brasil (talvez um dos espaços mais cativantes)
Biblioteca Abbey (613), Suíça
Biblioteca do Palácio e Convento de Mafra (1715), Portugal
Biblioteca Strahov (1143)- Sala Teológica - Praga, República Checa
Biblioteca George Peabody (1857), USA
Biblioteca do Mosteiro Beneditino (1074), Áustria
Biblioteca do Mosteiro de Melk (1089), Áustria
Biblioteca Sansovino (1560), Roma
Biblioteca do Colégio de Trinity (Séc. XVI), Dublin, Irlanda
Biblioteca do Vaticano (Séc. IV), Vaticano, Roma
Biblioteca Nacional de Áustria (1493), Vienna, Áustria
Aguiar-Branco chegou e disse. Na cara de generais, coronéis e afins, decretou que a tropa, tal como está, é financeiramente insustentável. A afirmação caiu mal, ainda por cima porque pressupunha a redução drástica de efectivos. É um sinal dos tempos. Desde que este Governo ascendeu ao poder, fomos sabendo, com sobressalto e resignação, que a pátria é insustentável. Na saúde, na educação, na assistência social, na justiça, na segurança, nos transportes públicos, na RTP, na RDP, nas pensões e nas reformas, sem a supressão dos subsídios de férias e do décimo segundo mês, com a manutenção da tolerância de ponto no Carnaval, a pátria não consegue sustentar-se a si mesma. Pergunta-se: então, como se aguentou, até agora? Com dívidas, golpadas, ardis e manigâncias?
Nesta teoria de "insustentabilidade", os próprios portugueses estão incluídos. O Governo não sabe o que fazer deles, e incita-os a emigrar, com o descaramento de quem é incapaz de solucionar o problema e assim dissimula a sua incompetência política e ética.
Mas as coisas complicam-se. E as decepções vão-se acumulando. A solidariedade parece estar desempregada na Europa. O imigrante é olhado de soslaio. Uma das facetas essenciais do neoliberalismo é reduzir a democracia às funções de "superfície" e estimular o individualismo. O "estrangeiro" é o inimigo. A possibilidade de escolha, apanágio das sociedades democráticas, dissolveu-se: não há oásis; o conceito de pluralidade transformou-se numa hostilidade que ronda a abjecção. O jornalista Noé Monteiro, correspondente na Suíça da RTP, foi o autor, no domingo, p.p., de uma pungente reportagem sobre portugueses que tentaram fugir à fome e à miséria e entraram num outro crisol do inferno. A Suíça, outrora acolhedora, embora áspera e burocrática, ela própria feita de politeísmo de culturas e de valores, é uma incerteza irredutível. O neoliberalismo impôs a normalização das estruturas e dos comportamentos. O mundo, hoje, é um lugar de vazio, de afronta e de desumanização.
Em Portugal, ameaçados pelas contingências de uma filosofia política que alastrou como endemia, os portugueses não sabem que fazer. Aliás, como as hesitações, as derivas e as perplexidades de quem nos governa. Esta gente quer-nos levar para aonde?
Parece que ninguém possui capacidade e talento para enfrentar a realidade circundante. "Todos somos culpados." A frase, utilizada por quem, realmente, é responsável, serve de encobrimento a uma experiência político-económica que deixou a Europa de rastos e promoveu a mediocridade como norma. O surgimento de Merkel e de Sarkozy pertence a essa lógica do absurdo, incapaz de resolver a complexidade criada pela sua própria irracionalidade.
Estamos num ponto da História em que todos somos "insustentáveis".
Devemos persistir e exigir. Depois da vossa mãe ter falido e de lhe terem retirado o subsídio de desemprego tiveram de sair da escola onde andavam e deixámos de poder pagar aquelas pequenas coisas que nos iam mantendo o sorriso. Nada de grave, não sejam piegas! Continuámos a ter sopa, casa e roupa lavada.
Hoje a minha empresa informou que não consegue pagar o salário pelo terceiro mês consecutivo. Não quero ser piegas mas acabou-se a sopa, entreguei a casa e não há mais detergente para a roupa. Custe o que vos custar, aguentem-se, não sejam piegas!
Dito isto meteu o revólver na boca e puxou o gatilho.
#1607 - "Procesar a Garzón es una ofensa a la justicia y a la historia"
La verdad a juicio en España.Así se titula el editorial que el prestigioso diario estadounidense The New York Times publica hoy en defensa del juez Baltasar Garzón. "España es ahora una democracia viva, pero el juicio contra Baltasar Garzón iniciado la pasada semana [el de la memoria histórica] es un preocupante eco del pensamiento totalitario de la era de Franco", asegura la cabecera para quien el juez estaba amparado por el derecho internacional cuando estableció que ante crímenes contra la humanidad no podían aplicarse leyes de amnistía. "Miles de fosas siguen cerradas", recuerda el diario.
#1603 - Antonio Negri. “Não há saída para a crise. A guerra tornou-se uma possibilidade”
Antonio Negri, conhecido por Toni Negri, é um pensador e activista italiano. É autor de uma vasta obra em que o pensamento político radical se mistura com a filosofia de Espinosa. Foi dirigente da organização de extrema-esquerda Poder Operário. Esteve preso. É nome cimeiro da corrente marxista autonomista.
Num dos seus muitos livros, Antonio Negri fala de Kairòs, o momento em que Deus toca na história; este filósofo italiano que nasceu em Pádua em 1933 já viu muitas vezes a história ser feita. E pagou o preço por isso. Acusado, por “arrependidos”, de ser o mentor ideológico das Brigadas Vermelhas, esteve preso. A Itália assustada com o terrorismo de extrema-direita e de extrema-esquerda precisava de exorcizar os seus fantasmas, mesmo que isso significasse acusar falsamente. Tem uma vasta obra escrita, em que se destaca, depois da sua libertação da prisão, “O Império”, escrito com o norte-americano Michael Hardt. Esteve em Lisboa para falar de manifestações e dos novos manifestos que aí vêm.
Wislawa Szymborska nasceu em 1923, no vilarejo polonês de Bninie. Mora em Cracóvia desde os 8 anos. Levou uma vida singela, sem grandes atropelos. Durante a Segunda Guerra, foi funcionária do departamento de estradas de ferro. Mais tarde, trabalhou como secretária, ilustradora e, durante décadas, como editora de uma revista cultural. Começou a escrever poesia aos vinte e poucos anos. Em 1949, seu primeiro livro foi censurado pelo regime comunista, que o considerou obscuro demais para as massas. Talvez Szymborska tenha levado a sério a advertência, pois a obra que viria a consagrá-la é de uma desafetação exemplar. A dicção é coloquial, despojada de retórica e efeito poético. São poemas claros como água pura.
Mas é possível espantar-se com a água, e assim é Wislawa Szymborska: ela se surpreende, seja com as miudezas da vida, seja com os horrores da História. É uma poesia do assombro. Há um espanto de natureza quase darwiniana, suscitado pelo fato de estarmos aqui - nós e não outros. Há o que nasce da consciência de que ninguém está no centro de nada, de que o mundo segue adiante sem o nosso testemunho. Quanto à História, Szymborska a enfrenta sem abrir a guarda para sentimentalismos. O pior acontece, e será esquecido.
Em 1996, a poeta ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida fora da Polônia. Foi talvez o único sobressalto de sua vida. No Brasil, Ana Cristina Cesar e Nelson Ascher traduziram alguns de seus poemas. Regina Przybycien, professora da Universidade Federal do Paraná, publicou na revista Oroboro uma pequena seleta de traduções. piauí publica nove poemas traduzidos em conjunto por Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczyn´ska da Nóbrega; ele, a partir da tradução inglesa, ela, do original polonês. O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.
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Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.
Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa mui¬to mais respeitável.
Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.
Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.
Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.
Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.
Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?
Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.
Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".
Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.
Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.
Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.
É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.
Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".
Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.
E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."
O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.
Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.
Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.
Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera.
Poderia ter acontecido. Teve que acontecer. Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe. Aconteceu, mas não com você. Você foi salvo pois foi o primeiro. Você foi salvo pois foi o último. Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda. Porque chovia. Por causa da sombra. Por causa do sol. Você teve sorte, havia uma floresta. Você teve sorte, não havia árvores. Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio, um batente, uma curva, um milímetro, um instante. Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha. Em conseqüência, porque, no entanto, porém. O que teria acontecido se uma mão, um pé, a um passo, por um fio de uma coincidência. Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso? Um só buraco na rede e você escapou? Fiquei mudo de surpresa. Escuta, como seu coração dispara em mim.
#1600 - Morreu a poetisa polaca Wislawa Szymborska (1923-2012)
A poetisa polaca Wislawa Szymborska, Prémio Nobel da Literatura em 1996, morreu hoje, aos 88 anos, informou o seu secretário pessoal, citado pela agência noticiosa polaca PAP.
Michal Rusinek disse que a escritora morreu "tranquilamente durante o sono", em casa, na cidade de Cracóvia.
O Comité do Nobel considerou-a o "Mozart da poesia", a mulher que misturou a elegância da linguagem com "a fúria de Beethoven".
Além do Nobel da Literatura, em 1996, a poetisa foi galardoada com o Prémio Goethe, em 1991, e com o Herder, em 1995.
O TERRORISTA, ELE OBSERVA A bomba explodirá no bar às treze e vinte. Agora são apenas treze e dezesseis. Alguns terão ainda tempo para entrar; alguns, para sair. O terrorista já está do outro lado da rua. A distância o protege de qualquer perigo. E, bom, é como assistir a um filme. Uma mulher de casaco amarelo, ela entra. Um homem de óculos escuros, ele sai. Jovens de jeans, eles conversam Treze e dezessete e quatro segundos. Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta. E aquele mais alto, ele entra. Treze e dezessete e quarenta segundos. A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo. Mas o ônibus a encobre de repente. Treze e dezoito. A moça sumiu. Era tola o bastante para entrar, ou não? Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove. Ninguém mais parece entrar. Um careca obeso, no entanto, está saindo. Procura algo nos bolsos e às treze e dezenove e cinqüenta segundos ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte. O tempo, como se arrasta É agora. Ainda não. Sim, agora. A bomba, ela explode.
Tradução: Nelson Ascher (Versão realizada a partir da versão inglesa de Adam Czerniawski e da norte-americana de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire)